Mostrando postagens com marcador The Coogler Collection. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador The Coogler Collection. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de julho de 2025

PL►Y: Pecadores

Jordan em dose dupla: mistura de gêneros. 

Alçado ao posto de melhor lançamento cinematográfico de 2025 até agora (e recentemente disponível no Max), Pecadores de Ryan Coogler já possui uma torcida forte para chegar nas premiações de fim de ano. Muito da empolgação em torno do filme se deve à trama inventiva que mistura diversos gêneros cinematográficos, algo cada vez mais raro em tempos em que sequências, reboots e remakes tomam conta dos lançamentos ao longo do ano. O filme conta a história dos irmãos gêmeos Fumaça e Fuligem (ambos vividos por Michael B. Jordan), que voltam para a terra natal afim de deixar o passado para trás. Lá eles reencontram alguns amigos que se juntam para transformar um celeiro abandonado em um bar de blues no Mississipi de 1932. O local ainda é marcado pela segregação racial e a ameaça da Ku Klux Klan ainda se faz presente. Junto aos dois irmãos está o jovem primo Sammie (Miles Caton) que se mostra um prodígio do blues. Se está parte sedimenta o filme como uma celebração da cultura negra local, o filme expande este contexto social para outras analogias sobre ancestralidade, memória, apropriação cultural e luta por identidade quando acrescenta elementos de terror com a chegada de um vampiro (Jack O'Connell) disposto a morder todo mundo que passar em sua frente. A dupla Coogler/Jordan realiza aqui mais um projeto bem sucedido e o faz com bastante estilo, deixando o filme com cara de filme de época com doses de musical e terror realmente arrepiante, sem parecer desengonçado ou forçado. A música tem papel importantíssimo no filme e lhe confere um atmosfera bastante particular, a fazendo despertar diferentes sensações, seja de sensualidade, horror ou religiosidade. A montagem bem executada, boa reconstituição de época e a fotografia soturna na medida certa, ajudam Pecadores a se destacar na safra cinematográfica do ano. Embora o nome de Jordan esteja no alto dos créditos o elenco de apoio mostra-se excepcional, com destaque para O'Conell, (a sempre excelente) Wunmi Mosaku e Hailee Steinfeld. Com seu passeio por diversos gêneros, Pecadores é um filme surpreendente, no melhor sentido que existe. 

Pecadores (Sinners / EUA -2025) de Ryan Coogler com Michael B. Jordan, Miles Caton, Saul Williams, Jack O'Connell,  Delroy Lindo, Wunmi Mosaku, Hailee Steinfeld e Buddy Guy. ☻☻☻☻

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

PL►Y: Pantera Negra - Wakanda Para Sempre

Bassett e Huerta: A revolta dos excluídos. 

Já está disponível no Disney+ o sucesso Pantera Negra - Wakanda Para Sempre, o filme se tornou o filme mais visto da Marvel no complicado ano de 2022, em que as produções do estúdio não apenas sofreram críticas severas dos fãs como precisou passar por uma reavaliação dos rumos que o estúdio tomará em diante. O curioso é que Wakanda Para Sempre não é apenas o filme que fecha a fase mais desengonçada do estúdio, como também foi o mais aguardado após o duro golpe que foi o falecimento de Chadwick Boseman, alçado ao posto de astro com o sucesso de T'challa/Pantera Negra e que morreu em decorrência de um câncer. A Marvel se viu num dilema. Diante da perda de um dos seus atores mais populares, o que fariam com a franquia? Usar efeitos especiais para substituí-lo? Colocar outro ator no lugar dele? Criar uma trama para um novo herdeiro do manto do herói? As cenas iniciais deixam claro a opção do filme de Ryan Coogler. Uma justa homenagem, que emociona se esquivando do melodrama e da promoção da tragédia que se abateu sobre a carreira promissora do artista, o problema é o que vem depois. Sem um protagonista pré-definido, o filme se beneficia bastante da presença de Angela Bassett (favorita ao Oscar de melhor atriz coadjuvante deste ano após receber os principais prêmios da temporada) na pele da Rainha Ramonda preocupada com os rumos de seu reino, agora que só lhe resta a filha, Shuri (Letitia Wright) - que não se conforma de não ter conseguido salvar o irmão. Para além do drama familiar, está o olho gordo de outras nações sobre o minério Vibranium que, até onde se sabe, só existe em Wakanda. Eis que subitamente descobre-se que nas profundezas do mar também existe o cobiçado minério, só não contavam que a ambição internacional se depararia com uma civilização que mora nas profundezas do Oceano e está disposta a se proteger sob a liderança do príncipe submarino Namor (Tenoch Huerta). Ele pede uma aliança com Wakanda... que não concorda muito com as medidas radicais do rapaz. Diante de todas as narrativas que se propõe desenvolver, Wakanda Para Sempre funciona melhor do que eu esperava, embora lá para o meio da sessão dependa cada vez mais de Letitia Wright para segurar a narrativa - e a moça está longe de ter a força de Angela Bassett. Visualmente e sonoramente o filme continua um deslumbre e soube muito bem lidar com o desafio de evitar comparações com Aquaman, embora toda aquela parte de exposição do reino de Talokan tenha se estendido um pouco mais do que devia. No entanto, não deixa de ser interessante a analogia que o filme faz na identificação que Namor percebe entre Talokan e Wakanda, duas nações que se esconderam por muito tempo devido à colonização sofrida em países da África e da América Latina. Neste ponto, Coogler demonstra mais uma vez que sua intenção não é apenas fazer um filme de super-heróis, mas contextualizar os conflitos que movem seus personagens, especialmente, aqueles que podem ser apressadamente chamados de "vilões da história" (não por acaso, ele encontra até espaço para uma participação especial de Killmonger). Outro fator interessante é como a maior parte da história se move em torno de personagens femininas, o que também denota uma diferenciação com os outros filmes de herói que vemos por aí. No entanto, nada impede a sensação de que o filme fez o que foi possível - o bom é que, ainda assim, se tornou melhor do que os dois últimos filmes da Marvel da fase 4. 

Pantera Negra - Wakanda Para Sempre (Black Panther: Wakanda Forever / EUA-2022) de Ryan Coogler com Angela Bassett, Letitia Wright, Tenoch Huerta, Danai Gurira, Lupita Nyong'o, Martin Freeman, Winston Duke, Michaela Coel, Julia Louis Dreyfus e Michael B. Jordan. ☻☻☻

domingo, 22 de novembro de 2020

#FDS Consciência Negra: Fruitvale Station

 
Jordan na pele de Oscar Grant: bela estreia de Ryan Coogler. 

Nascido na Califórnia em 1986 o diretor Ryan Coogler já tem seu lugar na história por colocar seu terceiro filme, Pantera Negra (2018) como o primeiro longa de super-herói indicado ao Oscar de Melhor Filme do ano. Se o grande prêmio não saiu para ele, pelo menos conseguiu converter em estatuetas três (figurino, design de produção e trilha sonora) das sete categorias a que concorria. Em tempos em que a representatividade é um aspecto cada vez mais observado, a produção da Marvel chamou atenção por trazer o discurso certo na hora certa. Em seus filmes anteriores o diretor também manteve o olhar atento para a questão racial, se anteriormente fez sucesso ao mudar o verniz do antológico Rocky Balboa de Sylvester Stallone alterando o foco para o filho perdido de seu amigo Apollo no bem-sucedido Creed (2015), que rendeu até uma sequência (assim como Pantera Negra terá assim que a Marvel decidir o que fará com seu herói após o precoce falecimento de Chadwick Boseman), em sua estreia o tom é bem mais pessimista. É interessante perceber que, embora seja curta e com gêneros diferentes, a cinematografia de Coogler possui uma certa costura sobre o que é ser negro e o seu lugar no mundo. Iniciar sua carreira com um filme baseado em fatos reais como Fruitvale Station lhe confere um peso danado, afinal, muito antes do casos recentes que vemos nos telejornais, Coogler já chamava atenção para os atos de violência que ganham outro viés quando o observamos sob a lente do racismo. Aqui ele conta com uma atuação marcante de Michael B. Jordan (o ator assinatura de Coogler) para contar a história de Oscar Grant III, se o nome parece ter algo de shakesperiano, a história dele é bem mais realista. No último dia de 2008 o rapaz de 22 anos foi celebrar o início do ano novo com a namorada e alguns amigos e acabou assassinado pela ação de policiais numa estação de trem. Coogler conta esta história com uma introdução que não se sabe se é real ou encenada com atores, mas que cria o nó na garganta que perpassa toda sessão enquanto acompanhamos o último dia de Oscar. Dos tropeços no relacionamento com a mãe de sua filha, dos afagos com a menina, passando pelos desentendimentos com a mãe (e os momentos de carinho também),  a câmera de Coogler segue uma linha documental para construir um mundo de verdade, com pessoas de carne e osso, com qualidades, defeitos e dificuldades, mas que ganha contornos de suspense perante a tragédia que já sabemos que acontecerá. Enquanto o trem segue seu caminho pela noite, Coogler nos instiga pelo que está prestes a acontecer e a tensão crescente se constrói sem exageros numa tragédia do cotidiano que se repete. Além do bom trabalho de seu ator, ele está muito bem acompanhado em cena, especialmente por Octavia Spencer que interpreta sua mãe e Melonie Diaz, que interpreta sua namorada. Fruitvale Station é um daqueles filmes que cria indignação quando termina e faz pensar se houve mudanças deste a morte de Oscar quando ligamos a televisão todos os dias. 

Fruitvale Station - A Última Parada (Fruitvale Station / EUA - 2013) de Ryan Coogler com Michael B. Jordan, Octavia Spencer, Melonie Diaz, Kevin Durand, Ahna O'Reilly e Ariana Neal. ☻☻☻☻

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Na Tela: Pantera Negra

Michael e Chadwick: conflitos ideológicos. 

O herói Pantera Negra da Marvel foi criado em por Stan Lee e Jack Kirby, estreando nas HQs do Quarteto Fantástico em 1952. O personagem ganhou destaque na época por se tornar o primeiro herói essencialmente africano, no caso T'Challa, rei e protetor do reino fictício de Wakanda. Seus poderes surgem por conta de um ritual que aprimora suas habilidades, tornando seus sentidos e agilidade mais aguçada (não são poucos que percebem uma relação entre o herói e o movimento dos Panteras Negras que surgiu em 1966, mas são apenas especulações). Não deixa de ser interessante como  a Marvel introduziu um personagem pouco lembrados dos Quadrinhos em seu universo cinematográfico, criando fôlego de tornar seu voo solo um verdadeiro acontecimento cultural - especialmente num momento em que todo mundo só fala dos filmes indicados ao Oscar. O  Pantera já apareceu em Capitão América - Guerra Civil (2016) e roubou a cena ao demonstrar uma personalidade que não escolhia um lado, mas resolver suas pendengas pessoais. Agora ele recebe um filme só dele e, como a Marvel se especializou nos últimos anos, abraçou um determinado gênero cinematográfico para contar esta nova aventura. Ao ser convidado para dirigir o longa, o cineasta Ryan Coogler se perguntava mais do que sobre o que era ser um herói, mas ser um herói africano de um país que preferia manter segredo sobre sua tecnologia e riqueza enquanto o mundo enfrena a miséria. Wakanda foi concebida para ser tudo o que o continente africano poderia ser, se não fosse historicamente marcada pela colonização predatória e tristes histórias de famílias destruídas e escravidão. São estes fatores que estão por trás da história. Embora Chadwick Boseman continue defendendo o herói com grande habilidade, quem rouba a cena é o vilão vivido por Michael B. Jordan (parceiro de Coogler em seus filmes anteriores) na pele do misterioso Erik Killmonger. Na pele de Erik, Michael apresenta seu melhor trabalho e coloca em cheque a legitimidade de T'Challa se tornar rei de Wakanda. Killmonger é todo fúria e ressentimento sobre um reino construído em cima de uma grande farsa. Pode se dizer que existe aqui uma oposição entre herói e vilão como a existente entre Magneto e Professor Xavier nas HQs do X-Men, que torna um tanto borrado o ponto em que o radicalismo se torna tão sedutor quanto questionável. Mas não é apenas dos dois atores que se faz o filme. Além do excelente visual embalado por uma trilha sonora esperta, o filme conta com boas cenas de ação e duas atrizes que tem atuações bem marcantes. Uma é a oscarizada Lupita N'Yongo, que tem aqui o seu papel de maior destaque desde que foi revelada em 12 Anos de Escravidão (2013). Ela imprime uma elegância ímpar ao interesse amoroso do herói, não perdendo a classe mesmo nas cenas de ação. Porém, todo mundo sabe do que Lupita é capaz, faz tempo... (pena que Hollywood ainda não sabe como lidar com ela), assim, o grande achado é Danai Gurira! Na pele de Okoye, a líder do exército feminino de Wakanda, ela cria a mistura perfeita de Grace Jones com Viola Davis. Uma mistura explosiva que lhe garantiu lugar no aguardado Guerra Infinita que estreia em abril por aqui. Com um elenco repleto de jovens astros negros, a produção ainda arranjou espaço para Angela Basset e Forrest Whitaker, para dar ainda mais peso a personagens secundários da história. No fim das contas os signos e a identidade que transbordam de Pantera Negra acabam falando mais alto do que a história de perseguição ao vilão Klaue (Andy Serkis se divertindo um bocado) que logo se torna uma mistura de pendenga familiar, vingança e busca da identidade. Embora a concepção do filme seja uma grande ousadia, o filme encontra problemas justamente quando repete aspectos que já fazem parte da cartilha da Marvel (do herói que vive o dilema de "não ser nada sem o seu traje ultratecnológico" ao destino do vilão ao final da história) e começam a criar um certo cansaço. De resto, Pantera Negra é um filme pipoca como os outros do estúdio, só que com um orgulho danado de sua negritude. 

Danai e Lupita: coadjuvantes de respeito. 

Pantera Negra (Black Panther/EUA-2018) de Ryan Coogler com Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Andy Serkis, Lupita N'Yongo, Danai Gurira, Angela Basset, Forrest Whitaker, Letitia Wright e Martin Freeman. ☻☻☻

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Na Tela: Creed - Nascido para Lutar

Sly e Michael: treinando um discípulo. 

Esse ano promete ser o mais atípico na história recente do Oscar, para além de todas as polêmicas de #OscarSoWhite existe algo instaurado durante a temporada (não existe o grande favorito da noite, fazendo O Regresso, Spotlight e A Grande Aposta dividir o posto num empate técnico impressionante calcado nas premiações que precedem o prêmio da Academia). Outro fato curioso do Oscar que se aproxima é a possibilidade de vermos Sylvester Stallone levar para a casa o Oscar de coadjuvante, sei que parece uma daquelas coisas que anunciam que o fim do mundo está próximo, mas depois de vê-lo ganhar o Globo de Ouro e o Critic's Choice Awards é melhor se acostumar com a ideia, o fortão tem chances (o que ainda seria ótimo para uma premiação que tem cada vez mais dificuldade em ser atrativa ao público). Em Creed, Stallone vive o lutador Rocky Balboa pela sétima vez na telona e a história começa onde o deixamos no filme homônimo do personagem em 2006: ele aposentado, cuidando de  um restaurante, recuperando-se da morte da esposa e bem longe do tempos áureos de lutador de boxe. Mas o foco do filme não está sobre ele, mas sobre o jovem Adonis Johnson (Michael B. Jordan), filho bastardo do amigo falecido Apollo Creed (Carl Weathers, que aparece no uso de algumas cenas dos filmes anteriores). Filho de uma aventura extraconjugal de Apollo, Adonis teve uma infância complicada após a morte da mãe, vivendo em várias instituições correcionais, no entanto, ele compartilha com o pai mais do que o nome inspirado na mitologia grega: ele adora uma briga - só precisa canalizar sua fúria e energia para o esporte. Adonis é descoberto pela viúva de Apollo, Mary Anne (Phylicia Rashad) que o adota e não aprova quando o menino cresce e se interessa em seguir os passos do pai nos ringues. Longe de Mary Anne, Adonis procura trilhar seu próprio caminho e pede ajuda para Rocky treiná-lo, sendo nesse relacionamento que o filme se sustenta. É verdade que o filme inventa a velha história de não viver à sombra do pai, arranja uma namorada com doença degenerativa para o rapaz - e não é a única a sofrer de uma enfermidade - além de investir em alguns momentos temperamentais do jovem lutador, mas é quando Rocky educa seu discípulo que o filme cresce. O jovem diretor e roteirista Ryan Coogler tem como maior trunfo reverenciar a mitologia de Rocky, clássico personagem de Stallone apresentado 1976 num filme que, vale a pena lembrar, foi indicado a 10 Oscars, incluindo melhor ator (para Stallone) e levando três para casa (melhor filme, diretor e edição). Ver Stallone vivendo o personagem após quase quarenta anos é por si só emocionante, mas Coogler faz algo mais pelo personagem, aprofundando ainda mais sua dimensão humana, o tornando vulnerável às ações do tempo em sua trajetória, ao ponto de contemplar a proximidade da morte com uma serenidade desconcertante. Embora Michael B. Jordan esteja confortável em cena (o ator já trabalhou com Coogler anteriormente no aclamado Fruitvalle Station/2013), as maiores atenções acabam recaindo sobre o personagem de Stallone - que mesmo com todas as suas limitações, seja por motivos de saúde ou de botox, faz o que pode e não se sai mal,  afinal, trata-se de sua melhor atuação em muito tempo (e consegue fazer o que ele tentava fazer há décadas: mostrar que debaixo de toda aquela musculatura existe realmente um ator). Creed não é um filme perfeito (tem uns momentos bem cafonas como aquela cena das motos circulando Adonis), Sly não é o meu favorito ao Oscar da categoria... mas se ganhar, renderá um dos momentos mais emocionantes da noite, principalmente por ser uma homenagem aos seus serviços prestados em blockbusters há mais de três décadas.  

Creed - Nascido para Lutar (Creed/EUA-2015) de Ryan Coogler com Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson e Phylicia Rashad. ☻☻☻