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| Laura e Serena: amizade irresistível. |
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
CICLO VERDE E AMARELO: A Natureza das Coisas Invisíveis
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
CICLO VERDE E AMARELO: Sonhar com Leões
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| Denise: estranha onda portuguesa. |
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
CICLO VERDE E AMARELO: Ruas da Glória
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| Caio: apaixonado pelo abismo. |
terça-feira, 15 de setembro de 2026
CICLO VERDE E AMARELO: Os Enforcados
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| Irandhir e Leandra: em crise. |
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
CICLO VERDE E AMARELO: (Des)Controle
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| Carol: indicada a prêmios. |
domingo, 13 de setembro de 2026
CICLO VERDE E AMARELO: Love Kills
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| Thais Lago: vampiros em São Paulo. |
sábado, 12 de setembro de 2026
CICLO VERDE E AMARELO: Transe
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| Luisa e Ravel: de boas intenções... |
terça-feira, 30 de junho de 2026
PL►Y: Ato Noturno
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| Gabriel e Cirillo: tesão em público. |
domingo, 5 de abril de 2026
PL►Y: Enterre seus Mortos
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| Selton: no fim dos tempos. |
segunda-feira, 16 de março de 2026
PL►Y: O Último Azul
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| Santoro e Denise: distopia |
domingo, 21 de dezembro de 2025
PL►Y: Manas
sábado, 29 de novembro de 2025
PL►Y: A Melhor Mãe do Mundo
Sou fã do cinema de Anna Muylaert desde que assisti ao curta A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti (1995). Lembro até hoje quando fui ao cinema para assistir seu longa de estreia, Durval Discos (2002) que até hoje está entre os meus filmes brasileiros favoritos em sua guinada que separa o Lado A do Lado B. Muylaert ficou mais conhecida do grande público quando Que Horas Ela Volta? (2015) e tornou um sucesso ao mostrar-se um verdadeiro retrato de um país em mudança. A identificação foi tanta que o longa até foi indicado pelo Brasil à concorrer por uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro. Alguns filmes depois, o cinema de Anna voltou a ser pauta com A Melhor Mãe do Mundo, que aborda temáticas delicadas com o jeito disfarçadamente inofensivo da cineasta. Quando somos apresentados à Gal (Shirley Cruz), ela está literalmente sem palavras diante da agressão que acaba de sofrer de seu companheiro. O rosto carrega as marcas da violência, mas também o cansaço de quem não aguenta mais e resolveu fazer uma denúncia. No entanto, é visível que Gal não tem um plano diante do que virá a seguir e o turbilhão de emoções que misturam em sua cabeça a fazem apenas repetir as palavras de uma atendente. O que vemos a seguir é apenas uma certeza: do jeito que está, não dá para continuar. Ela então busca seus filhos e parte rumo à sua única certeza: sair dali. Gal é uma catadora de recicláveis e enquanto carrega Benin (Benin Ayo) e Rihanna (Rihanna Barbosa) em seu "veículo" de trabalho, ela tenta garantir algum dinheiro para mantê-los por alguns dias até que consiga ajuda na casa de uma parente. Andando pelas ruas de São Paulo, as dificuldades são muitas e ela tenta fazer com que tudo seja disfarçado de uma aventura. Muylaert opta aqui por uma direção que parece "inexistente", as cenas soam improvisadas e dão impressão de que a câmera está escondida para registrar a vida daquela família que parece real. Se por um lado esta opção confere autenticidade ao filme, por outro, faz com que a maior parte do tempo tenhamos a impressão que a narrativa está um tanto dispersa, pelo menos até a chegada do trio ao local em que Gal terá que tomar uma das maiores decisões de sua vida. Difícil imaginar o filme sem Shirley Cruz no papel de Gal, ela vive uma mãe que guarda para si todas as incertezas daquele momento difícil, mas que ao mesmo tempo, encontra nos filhos uma espécie de espelho para enxergar e ponderar sobre sua realidade e seu amor próprio. As crianças também são um destaque a parte com uma espontaneidade que confere ao filme uma doçura irresistível. O posto de rosto mais famoso da produção vai para Seu Jorge como Leandro, o esposo agressor de Gal - e impressionante como ele confere uma presença ameaçadora desde a primeira cena em que ouvimos sua voz para somente depois vê-lo em cena. A Melhor Mãe do Mundo é mais um filme sensível de Anna Muylaert sobre mulheres fictícias que parecem de verdade, justamente por saber representar pessoas de carne e osso com bastante veracidade.
A Melhor Mãe do Mundo (Brasil/2025) de Anna Muylaert com Shirley Cruz, Rihanna Barbosa, Benin Ayo e Seu Jorge. ☻☻☻
sábado, 22 de novembro de 2025
PL►Y: O Filho de Mil Homens
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| Santoro e Martines: pedaços de uma família. |
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Na Tela: O Agente Secreto
Marcelo (Wagner Moura) viaja por horas nas estradas empoeiradas de Pernambuco em 1977. Ele para num posto de gasolina e se depara com um corpo que já faz dois dias que está ao relento. O atendente diz que no período de carnaval ninguém virá buscar o corpo. Eis que surge uma viatura e os dois policiais estão mais preocupados com Marcelo do que com o corpo que está no chão faz alguns dias. Some isso aos jornais que noticiam a contagem de mortos naquele carnaval e não fica difícil perceber que a vida vale pouco no período em que se passa O Agente Secreto. A partir de certo ponto, teremos clareza dos motivos que levam Marcelo a procurar a casa de Dona Sebastiana (a maravilhosa Tânia Mara) que abriga pessoas com diferentes histórias mas com algo em comum. Aos poucos conhecemos um pouco mais de Marcelo e de sua história e um tanto da realidade, com direito até a alguns elementos do que antes se chamaria de realismo fantástico - um gato de duas cabeças (uma analogia às identidades duplas dos moradores da casa?), as histórias folclóricas de uma certa perna cabeluda (evocação de um moralismo latente no calor dos trópicos?) que se choca com uma dura realidade, como a perna humana encontrada dentro da barriga de um tubarão. Falando em Tubarão, fala-se muito do filme de Spielberg durante a narrativa, especialmente por conta do filho de Marcelo, Fernando (Enzo Nunes), que sonha em ver o filme que lhe tiraria o sono. O filme de Spielberg é apenas uma das referências pop que Kleber Mendonça Filho utiliza para emoldurar o período da trama, das fotos de artistas contemporâneos na abertura, passando pela trilha sonora, pôsteres e reações de um cinema lotado ao ver A Profecia, o filme faz da cena cultural da época um elemento importante da reconstituição impecável que auxilia o espectador a mergulhar naquela atmosfera que oscila entre o acolhedor e o ameaçador. Kleber deixa claro como as pesquisas para seu longa anterior, Retratos Fantasmas (2023) ajudou a construir a ambientação e a história do filme que, assim como Ainda Estou Aqui (2024), olha para um outro lado da repressão vivenciada nos anos 1970, afinal, o motivo que coloca Marcelo entre pessoas procuradas não é ter cometido um crime, mas algo muito mais pessoal e mesquinho, o que esbarra com o submundo de uma realidade que já era em si assustadora. Assim como no filme de Walter Salles, protagonista aqui não tem grandes momentos de explosão emocional, Wagner Moura constrói um protagonista contido, desde o início preocupado com os acontecimentos que deverão leva-lo ao inevitável desfecho. Este caráter do personagem tão bem construído pelo ator lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e o coloca na lista de apostas para o Oscar do ano que vem (lembrando que o filme foi indicado pelo Brasil para disputar uma vaga na categoria de filme internacional). O filme tem fortes chances, impulsionado também pelos prêmios de direção e da imprensa recebidos em Cannes, de fato, este é o filme mais bem estruturado e com mais camadas a serem exploradas na obra de Kleber. A diversidade do elenco em sintonia perfeita e a trama, que ainda destaca o papel das universidades e suas pesquisas (isso mesmo), se torna bastante envolvente na construção deste thriller político. Não posso deixar de falar do final, um tanto controverso e anticlímax mas bastante condizente com um filme sobre as fricções entre histórias e memórias, particularmente fiquei emocionado em ver que o último ato é dedicado ao menino Fernando crescido (que insere outro tema importante ao filme: a identidade). O Agente Secreto pode até não trazer o segundo Oscar para o Brasil, mas tem grande habilidade em nos envolver em uma viagem no tempo e pelo Brasil em suas contradições.
O Agente Secreto ( Brasil - 2025) de Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura, Tânia Mara, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Gabriel Leone, Alice Carvalho, João Vitor Silva, Thomas Aquino, Marcelo Valle, Carlos Francisco, Luciano Chirolli, Roney Villela e Udo Kier. ☻☻☻☻
domingo, 15 de junho de 2025
10+ LGBTQIAPN+BR
Para finalizar o Ciclo DiversidadeSXL de 2025, resolvi fazer uma lista com meus dez filmes brasileiros favoritos com temáticas relacionadas à diversidade sexual. Confesso que foi difícil escolher somente dez e a lista ficou assim:
sábado, 14 de junho de 2025
CICLO DIVERSIDADESXL: O Melhor Amigo
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| Teixeira e Fuentes: resolvendo uma atração do passado. |
Em 2013 o cearense Allan Deberton lançou o curta O Melhor Amigo e ganhou alguma projeção em festivais e principalmente no Youtube com seu humor queer. Depois de realizar outro curta, um filme para televisão e Pacarrete (2019), um longa elogiado pelo público e pela crítica, Deberton resolveu ampliar as ideias de seu curta celebrado e investir em uma comédia romântica rasgada. Embora a história guarde semelhanças, especialmente o colorido e o elenco (antes formado por Jesuíta Barbosa e Victor Sousa) agora conta com protagonistas menos conhecidos e várias participações especiais. A trama conta a história de Lucas (Vinicius Teixeira), que nos tempos de faculdade deu um beijo no melhor amigo Felipe (Gabriel Fuentes) e fez com que ele sumisse do mapa. Lucas se formou, foi para a cidade grande, arranjou um namorado dedicado até demais, mas... agora seu relacionamento está em crise. Acontece que Lucas é mais discreto que o parceiro e também nunca superou a história mal resolvida de seu passado. Eis que ele resolve dar um tempo no relacionamento e ir passar férias em Canoa Quebrada e ele reencontra seu crush do passado por lá. Para adaptar um curta pra um longa metragem de hora e meia, Deberton precisa ter mais a oferecer e insere números musicais com músicas conhecidas (Herva Doce, Blitz, Zizi Possi...) e uma apimentada na história, afinal, Lucas terá seus momentos com Felipe, com um casal gay que mantém um relacionamento aberto e até uma recaída com seu namorado apaixonado. Além disso os personagens frequentam um inferninho esperto chamado Sal e Pimenta, que conta com shows de drag queens e até da Gretchen!! O filme também arranja espaço para algo místico para Claudia Ohana ler cartas de tarô e uns beijos e nudez masculina aqui e ali. O resultado é um pouco desgovernado (e desavergonhado), mas consegue divertir com seus personagens perdidos em meio ao desejo e a vontade de viver um romance para a vida toda. Se for visto como uma comédia leve e despretensiosa o filme funciona, principalmente para o público que não exigir muita complexidade dos personagens que estão na tela. Confesso que achei graça de várias cenas com o protagonista comportadinho ainda aprendendo a vivenciar seus desejos sem culpa, mas é uma pena que o filme vá perdendo o pique perto do final e termina de maneira sem graça. Após uma rápida passagem pelo cinema, o filme está em cartaz na GloboPlay.
O Melhor Amigo (Brasil/2024) de Allan Deberton com Vinicius Teixeira, Gabriel Fuentes, Leo Bahia, Claudia Ohana, Mateus Carrieri, Solange Teixeira, Marta Aurélia e Gretchen. ☻☻☻
quarta-feira, 11 de junho de 2025
CICLO DIVERSIDADESXL: A Herança
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| Diego e Yohan: herança macabra. |
Thomaz (Diego Montez) mora na Alemanha com o namorado Beni (Yohan Levy) e está preocupado como o visto que está prestes a expirar. Fazia tempo que ele não tinha contato com a mãe e retorna ao Brasil para o enterro dela acompanhado de Beni. No retorno, ele conhece duas tias que não tinha contato desde pequeno e os dois se hospedam na casa delas. Embora sejam muito atenciosas, as duas demonstram alguns hábitos estranhos que deixam Beni bastante preocupado, Thomaz nem imagina que sua família possui segredos e antigas tradições que deixam sua herança, digamos... complicada. Por algum motivo sua mãe sempre evitou contato com as familiares e aos poucos o protagonista e o espectador irão descobrir o motivo. A Herança é um filme de terror dirigido por João Cândido Zacharias que possui até boas ideias, mas algumas dificuldades para lidar com elas - muito por conta de ceder à tentação dos clichês de produções americanas que acabam comprometendo a identidade do filme (e nem me refiro ao excesso de diálogos em inglês). O filme capricha na ambientação da casa com maior vocação para ser mal assombrada, peca por não desenvolver adequadamente os personagens secundários e até mesmo os protagonistas, que leram direitinho a cartilha de personagens ingênuos de filmes de terror. No entanto, cabe aos dois o ponto mais interessante da trama, já que a trama permite uma leitura interessante sobre o fato de Thomaz fugir de seu destino de perpetuar os planos de sua família. O roteiro fica bem próximo de abordar uma questão controversa como "a cura gay", mas se esquiva dela, deixando o texto um tanto vazio neste aspecto. Sexualmente falando, o filme ousa alguns pontos por ter uma cena tórrida entre os dois protagonistas, mas depois revela o horror de uma cena de abuso sexual quando o filme descamba para o trash sem pudores. Filmes de terror são realmente complicados, precisam de muito equilíbrio para não cair no ridículo, ao mesmo tempo podem tropeçar quando consideram que tudo é permitido neste tipo de produção. Quando o filme termina eu fiquei imaginando o diretor assistindo Hereditário (2018) e imaginando como tornar aquele tema macabro girando em torno de um casal gay. A Herança erra seu rumo no meio do caminho, mas provoca alguma curiosidade no espectador para ver o que irá acontecer com aqueles dois moços que aceitam a acolhida de duas senhoras estranhas que lhe oferecem um bolo azul e guardam queijos apodrecido no porão. Ainda assim, fiquei instigado com o que o diretor pode realizar se seguir a mesma linha em seus futuros projetos.
quinta-feira, 8 de maio de 2025
Na Tela: Homem com H
Quando soube que estavam produzindo uma cinebiografia sobre Ney Matogrosso eu fiquei um tanto receoso, já que todo mundo já deve estar cansado daquelas biografias protocolares sem sal de colagem de fatos soltos sobre a vida de um artista conhecido, mas que não carrega nada da identidade do retratado. Poucos filmes se salvam da seara do gênero, se pegarmos os filmes brasileiros, basta ver o bom resultado de Dois Filhos de Francisco (2005) em contraposição com a decepcionante Meu Nome é Gal (2018). Vale ressaltar que não estou discutindo gosto musical por aqui, mas estou falando de cinema e sua capacidade de contar histórias bem construídas em uma narrativa envolvente. Eu comecei a ficar animado com Homem com H por conta do projeto ser idealizado por Esmir Filho, um cineasta para prestarmos atenção desde sua estreia com o atmosférico Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), depois eu soube que escalaram Jesuíta Barbosa para viver o artista na telona, mas fiquei preocupado, já que sempre percebi Jesuíta um ótimo ator para viver personagens contidos que vivem seus conflitos de forma mais internalizada, não consegui nem imaginar o ator pernambucano convencendo no palco com os Secos e Molhados, por exemplo. Sorte que o rapaz realizou uma preparação física poderosa e está perfeito como Ney Matogrosso, encarnando sua pessoa discreta fora dos palcos e aquela persona mítica dos palcos (tanto que em algumas cenas eu fiquei pensando se eram cenas de arquivo ou com o ator). Melhor ainda constatar que Esmir Filho emoldura a performance arrebatadora do seu protagonista com uma produção de respeito. Pra começar, ele não se esquiva de abordar a sexualidade de seu biografado, seja nos palcos ou fora dele, o filme transborda uma energia sexual para lá de envolvente, seja pelos movimentos no palco, a vida de Ney com seus parceiros ou com o uso das letras para emular sentidos que por vezes até esquecemos por julgar que as conhecemos tão bem. Particularmente adorei a parte dedicada à música que dá nome ao filme, confesso que fiquei hipnotizado com a montagem desta parte - vale ressaltar que a edição é perfeita em sua alternância de ritmo sem perder a fluência entre as cenas mais dramáticas e, digamos, as mais... eufóricas. O longa usa sucessão de episódios importantes sobre a vida do cantor par subverter a própria fórmula, ele nunca perde o seu fio condutor amparado pela relação de Ney com a arte, a construção de sua identidade artística intensa e sua personalidade serena, além do espectro do tempestuoso relacionamento com o pai (vivido por Rômulo Braga). O cuidado de Esmir Filho em suas escolhas para tecer a trajetória de Ney na telona é de um cuidado minucioso, construindo um arco emocional que não se rompe ao longo de duas horas e envolve o espectador com um personagem transgressor, instigante e necessário para os tempos caretas que atravessamos. Ao final do filme, Ney (que participou ativamente das filmagens) surge radiante com seus 83 anos e nos faz pensar no conceito de imortalidade não apenas de sua voz única. Para os fãs (como eu) é um verdadeiro deleite, para quem não é, torna-se apenas obrigatório.
Homem com H (Brasil / 2025) de Esmir Filho com Jesuíta Barbosa, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Bela Leindecker, Jeff Lyrio, Bruno Montaleone, Mauro Soares, Jullio Reis e Ney Matogrosso. ☻☻☻☻
quinta-feira, 10 de abril de 2025
PL►Y: O Livro dos Prazeres
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| Simone e Javier: aprendizagem cheia de química. |
Não lembro se já escrevi por aqui que Clarice Lispector está no top 3 de meus autores favoritos de todos os tempos (ao lado de Saramago e Gabriel García Márquez. Lembro quando comecei a ler sua obra na adolescência e fiquei instigado com a forma única como ela desenvolve a trama enquanto nos apresenta o que ela chama de "geografia interna da personagem". Esta maneira única de construir a escrita coloca seus livros entre os mais surpreendentes da Literatura. Recentemente até a Cate Blanchett citou o quanto ficou maravilhada de conhecer a obra da escritora. Por isso, admiro bastante a coragem de quem se aventura a realizar uma adaptação de sua escrita para as telonas. A cineasta Suzana Amaral (1932-2020) executou a tarefa com maestria na versão de A Hora da Estrela (1985), que rendeu o prêmio de melhor atriz para Marcélia Cartaxo no Festival de Berlim. Quem se aventurou recentemente foi Marcela Lordy (A Musa Impassível/2011) ao adaptar Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, vale dizer que a cineasta trouxe para si um desafio e tanto. A obra está entre as mais reflexivas da escritora ao contar a história de Lóri (Simone Spoladore), uma professora do ensino fundamental que resolveu viver longe do pai e dos irmãos e se mudar para o Rio de Janeiro. Sua rotina se divide entre o trabalho com as crianças e as noites com os parceiros sexuais que encontra pelo caminho. No entanto, Lóri não se envolve emocionalmente com nenhum deles. As coisas mudam quando conhece Ulisses (Javier Drolas) que se recusa a se envolver sexualmente com ela, até que os sentimentos entre os dois estejam em um outro estágio. A hesitação de Ulisses deixa Lóri inquieta, mas a faz pensar na forma como ela se relaciona com as próprias emoções. Este é o processo de aprendizagem que está no título do livro, mas que ficou de fora do título do filme. Lordy faz uma opção arriscada de privilegiar os longos silêncios durante a narrativa, o que me fez sentir falta de boa parte da escrita de Clarice ao longo do filme. No entanto, a diretora fez uma ótima escolha ao escalar Simone Spoladore para viver a protagonista que é menos segura de si do que imagina, outra escolha acertada foi escolher o argentino Javier Drolas para viver o objeto de desejo da personagem. Confesso que no livro eu considerava Ulisses um personagem bastante irritante, aparentemente traçando joguinhos de sedução com a personagem, mas Javier consegue dissipar esta impressão ao longo do filme e estabelece ao lado da atriz uma sintonia que cresce em desejo até o desfecho. Lordy ainda constrói belas saídas para situações descritas no livro e ainda constrói imagens belíssimas com uso de espelhos (que poderiam ser utilizadas até mais vezes durante a produção). O Livro dos Prazeres adapta uma obra complicada de maneira correta, mas o que torna ainda mais surpreendente a narrativa é perceber que é baseado em um livro editado pela primeira vez em 1969 e trata a sexualidade feminina com a naturalidade que merece. Te amo, Clarice.
domingo, 16 de março de 2025
PL►Y: A Vilã das Nove
Em um episódio da sexta temporada da série Black Mirror, uma mulher tem sua vida virada de cabeça para baixo quando percebe que um programa de televisão a tem como personagem principal. A ideia (genial) serve para desdobramentos que envolvem questões que vão para além das questões entre o público e a privacidade, enveredando por discussões sobre inteligência artificial que se assemelham bastante às preocupações que provocaram a greve dos atores em Hollywood em 2023 (o mesmo ano em que foi ao ar o tal episódio). Um ano depois chegou aos cinemas brasileiros a comédia dramática A Vilã das Nove de Teodoro Poppovic, que tem um ponto de partida muito parecido com o visto na cultuada série da Netflix. No entanto, ao que parece, a ideia do filme brasileiro surgiu primeiro, mas com a morosidade para conseguir financiar o longa ele chegou às luz do público somente agora. O filme conta a história de Roberta (Karine Teles), uma professora de canto que se separou recentemente e vive com a filha, Nara (Laura Almeida) em um pacato apartamento. Nas cenas iniciais já vemos sugestões de que a vida tranquila da personagem pode esconder um segredo, já que o ex-marido, Cassio (Negro Leo) indaga sobre o passado da personagem e no início ela é confundida com uma tal de Eugênia enquanto passeia com a filha (gerando uma reação mais aguerrida do que se espera). O motivo para tanto mistério pode estar em uma novela de sucesso ancorada em seus segredos do passado. Motivada a saber o que está por trás disso, ela acaba se envolvendo com a atriz principal (Camila Márdila) e reencontrando pessoas importantes que deixou para trás. O ponto de partida do roteiro é interessantíssimo e segue por caminhos totalmente diferentes do tal episódio da série... se por um lado a trama segue um caminho mais novelesco, por outro, o filme perde a chance de fazer suspense sobre o que está acontecendo em torno de Roberta, afinal já deixa explicado desde o início o que pode estar havendo quando a personagem de Alice Wegman surge em cena. O fato do filme também curtir uma repetição "diferente" de cenas (momentos do passado de Roberta e depois a cena da novela que os reproduz, a discussão do início do filme e o linchamento da atriz da novela) também deixa o filme um tantinho previsível pelos caminhos que percorre. Achei interessante o filme estabelecer uma atração entre Roberta e a atriz que a interpreta na novela, mas o desenvolvimento da relação entre as duas é abandonado no meio do caminho como muitas outras possibilidades do roteiro que aos poucos perde o frescor e a esperteza. A sorte é que Karine Teles é uma ótima atriz e segura a complexidade de sua personagem com grande desenvoltura do início ao fim. A Vilã das Nove pareça mais novela do que cinema. Vale pela curiosidade.
A Vilã das Nove (Brasil/2024) de Teodoro Poppovic com Karine Teles, Alice Wegman, Camila Márdila, Laura Pessoa, Antônio Pitanga, Negro Leo, Rodrigo García, Murilo Sampaio e Otto Junior. ☻☻
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