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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: A Natureza das Coisas Invisíveis

Laura e Serena: amizade irresistível. 

Querido diáriw, esta semana a Academia Brasileira de Cinema escolheu o filme Feito Pipa de Allan Deberton para concorrer à uma vaga nas indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Será uma ano complicado sem um concorrente impulsionado pela consagração em grandes festivais até o momento. Quem também estava no páreo para ser escolhido era A Natureza das Coisas Invisíveis que está em cartaz na Netflix e que mostra-se uma verdadeira joia a ser descoberta. É um dos filmes mais fofos que assisti nos últimos tempos e o mais interessante é que consegue o ser tocando em temas bastante sensíveis e até polêmicos. A leveza do filme deve-se muito à opção da diretora e roteirista Rafaela Camelo abraçar a lógica do olhar das meninas protagonistas. Glória (Laura Brandão) está de férias, mas precisa passar os dias no hospital acompanhando sua mãe no trabalho (Larissa Mauro). Lá ela conhece Sophia (Serena), que está no mesmo hospital com a mãe (a ótima Camila Mardila) por conta da bisavó (Aline Marta Maia), que está internada. Enquanto as meninas ficam amigas aproveitando aquele ambiente inusitado, as mães tem um primeiro encontro complicado que logo muda de rumo para que se aproximem também. Logo todas as personagens estarão dividindo um outro cenário em uma trama  bem escrita sobre amizade, amor, morte, aceitação e muitos outros temas que você consegue sentir nas interações daquelas personagens. Embora demore um pouco para engrenar, o filme se torna cada vez mais interessante e chega a um desfecho emocionante. Assista com um lenço que você vai precisar. Uma excelente estreia da diretora Rafaela Camelo em longa-metragem. 

A Natureza das Coisas Invisíveis (Brasil-2025) de Rafaela Camelo com Laura Brandão, Serena, Camila Mardila, Larissa Mauro e Aline Marta Maia. ☻☻☻☻  

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Sonhar com Leões

Denise: estranha onda portuguesa. 
Amargo diáriw, este filme dirigido por Paolo Marinou-Branco é um daqueles que testa as reações da plateia. Muito se deve ao tom tragicômico com que lida com a vida de Gilda (Denise Fraga), uma mulher com câncer em fase terminal que se muda para Portugal com o esposo (Roberto Bomtempo) para participar de um workshop que ensina a morrer com dignidade.  Gilda já tentou o suicídio três vezes e diante da doença que atravessa uma ideia se tornou fixa em sua cabeça: eutanásia. Disposta a aderir ao suicídio assistido, o workshop começa a deixá-la cada vez mais irritada e consciente de que a vida não lhe serve mais. É um tema incômodo e que o diretor e roteirista aborda com doses cavalares de humor negro que mais desafia a plateia do que faz rir. Denise Fraga faz tudo o que pode ao defender uma personagem amarga diante do que o destino lhe reserva. Ela quebra a quarta parede, narra suas tentativas frustradas e ilustra como o diretor/roteirista estava um tanto cansado de ver pessoas doentes terem que demonstrar bravura e heroísmo diante das dores e tratamentos - além de apresentar uma ojeriza à positividade tóxica. Gilda ilustra tudo isso, mas se perde quando o roteiro cai no clichê do romance com seu colega órfão Amadeu (João Nunes Monteiro). É um filme interessante, mas que encontra dificuldade para encontrar o tom certo do humor com críticas ácidas que realiza. Apesar de ser uma coprodução entre Brasil, Portugal e Espanha, o que fica mais evidente é a inspiração do diretor (que nasceu em Nova York, mas é descendente de portugueses e... gregos) no cinema da estranha onda grega que consagrou Yorgos Lanthimos. Existe muito do absurdismo daquele cinema por aqui e talvez por isso seja um desafio para maioria dos espectadores. 

Sonhar com Leões (Brasil - Portugal - Espanha/2024) de Paolo Marinou-Blanco com Denise Fraga, João Nunes Monteiro, Joana Ribeiro, Victoria Guerra, Sandra Faleiro, Roberto Bomtempo, António Durães e Felipe Rocha. ☻☻☻

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Ruas da Glória

Caio: apaixonado pelo abismo. 

Apaixonado diáriw, o cinema queer brasileiro continua rendendo filmes interessantes como este assinado por Felipe Sholl. O carioca já é reconhecido pelos seus roteiros de filmes consagrados como Hoje/2013 e Manas/2025, mas aqui segue por um caminho completamente diferente ao contar a história de Gabriel (Caio Macedo), um professor que se apaixona por Adriano (Alejandro Claveaux), um garoto de programa que lhe quebra completamente a rotina. No entanto, a coisa sai do controle quando Adriano some sem maiores satisfações. Gabriel passa a procurá-lo e deixa sua vida de lado em busca do parceiro perdido. Ruas da Glória pode render várias leituras, uma delas é sobre a dependência emocional de Gabriel que busca absorver a vida de Adriano para fazê-lo presente novamente em sua vida. Entre drogas, orgias e mudar-se para o apartamento do desaparecido, Gabriel se perde na busca do que ele acredita ser o amor que o abandonou. Há quem perceba uma certa ingenuidade no rapaz em cair sem para-quedas (ou salva-vidas) em um relacionamento com um sujeito tão escorregadio, outros apontam uma espécie de crítica ao próprio comportamento do moço ao encarar a relação daquela forma - o que acarreta o último ato em que ele mesmo começa a repensar sua situação (ainda que por linhas tortas). Cheio de nudez e cenas tórridas, o filme é bastante ousado e apresenta uma história cheia de perdição no desejo. Destaque para a beleza com que  o diretor constrói as locações na praia (que funcionam como um respiro em meio ao caos). Ruas da Glória é ousado e não faz questão de agradar todo mundo ao apresentar as camadas mais sombrias de um relacionamento que flerta com o abismo. 

Ruas da Glória (Brasil/2024) de Felipe Sholl com Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini, Ernesto Piccolo e Daniel Rangel. ☻☻☻

terça-feira, 15 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Os Enforcados

Irandhir e Leandra: em crise. 

Elogiado diáriw, difícil acreditar que um filme tão interessante como Os Enforcados tenha recebido tão pouca atenção. Mesmo o Grande Prêmio Cinema Brasil lembrou dele em somente duas categorias: ator (Irandhir Santos) e ator coadjuvante (Augusto Madeira), deixando de fora o trabalho de atuação mais interessante do filme, o de Leandra Leal. Esta é a segunda colaboração da atriz com o diretor Fernando Coimbra, diretor de O Lobo Atrás da Porta (2014). Leandra vive Regina, a esposa de Valério (Irandhir Santos), os dois são apaixonados e confiam um no outro ao ponto de serem cúmplices em fantasias sexuais, digamos, "agressivas". Os dois vivem num casarão que está numa interminável reforma, mas este se tornará o menor dos problemas quando os negócios ilegais da família começarem a entrar em crise e a solução encontrada pelo casal só trará mais problemas. Entre assassinatos e uma investigação policial, a crise se instaura na confiança do casal. Existe uma tensão absurda no encadeamento dos acontecimentos sórdidos da trama, mas ao mesmo tempo, o filme não deixa de temperar a trama com um senso de humor cortante. Me atrevo a dizer que diante do ótimo elenco, os melhores diálogos são travados entre Leandra e Irene Ravache que vive a sua mãe com uma visão pouco ortodoxa perante os temores da filha. Misturando um drama criminal com referências que vão de clássicos Macbeth e Crime e Castigo ao noticiário diário em sua guerra de criminosos, Os Enforcados é um filme que chama atenção pela sua eficiência narrativa auxiliada por uma montagem perfeita. Além disso, tem Leandra Leal em um daqueles papéis que só comprovam que ela é uma das melhores atrizes de nosso país. Seu trabalho na transformação pela qual Regina passa ao longo da trama é digna de Oscar. 

Os Enforcados (Brasil/2024) de Fernando Coimbra com Irandhir Santos, Leandra Leal, Thiago Thomé, Pêpê Rapazote, Augusto Madeira, Ernani Moraes, Irene Ravache e Stepan Nercessian. ☻☻☻☻

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: (Des)Controle

Carol: indicada a prêmios. 

Querido diáriw, Carolina Dieckmann foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz no Grande Prêmio Cinema Brasil deste ano por conta de seu trabalho neste filme dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm. O trabalho da atriz é o principal motivo para ver o filme, já que por mais que tente aprofundar sua discussão sobre uma personagem alcóolica, o filme por vezes se perde em uma montagem picotada demais que faz a carga dramática da trama perder sua força. Carolina vive Kátia Klein, uma escritora de sucesso que após quinze anos de sobriedade volta a beber por conta de sua realidade estressante. Entre a escrita de um novo livro, problemas com a família e a falta de tempo, a protagonista encontra na bebida um refúgio para sua rotina exaustiva. Se de início ela pensa que está tudo sob controle com um golinho aqui e outro ali, não demora para que a situação se complique colocando em risco sua vida e de pessoas queridas.  Como é comum na carreira de Rosane Svartman (que também se tornou autora de novela após seu sucesso no cinema), apesar do tema sério, a trama é desenvolvida com bastante leveza e toques de bom humor tendo até um toque de surrealismo quando a personagem se vê diante de uma outra versão de si mesma que assume o controle quando se entrega ao vício com cada vez mais frequência. Centrado em sua protagonista, sobra pouco tempo para desenvolver os personagens que estão ao seu redor. No entanto, o maior problema do filme é a edição acelerada, sei que pode ser uma forma de fazer o espectador sentir na pele a sensação da personagens sentir-se perdida diante dos fatos, mas esta opção narrativa prejudica o desenvolvimento de situações importantes ao longo da narrativa. Baseado em histórias reais de superação, o final é exatamente como você imagina. 

(Des)Controle (Brasil/2026) de Rosane Svartman e Carol Minêm com Carolina Dieckmann, Caco Ciocler, Irene Ravache, Daniel Filho, Júlia Rabello e Mouhamed Harfouch. ☻☻☻

domingo, 13 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Love Kills

Thais Lago: vampiros em São Paulo. 

Vampiresco diáriw, a O2 filmes acabou de lançar um canal no Youtube em que colocará filmes de seu acervo em cartaz de forma gratuita, Love Kills é um dos filmes que está em cartaz por lá. Adaptado da graphic novel de Danilo Beiruth, a diretora Luiza Shelling Tubaldini faz um verdadeiro deleite estético na construção de uma cidade de São Paulo habitada por vampiros. Fotografia, figurino, direção de arte, tudo é feito no capricho para contar uma fase complicada da vida imortal de Helena (Thais Lago), uma vampira com mais de cinco mil anos que procura suas refeições pela maior metrópole brasileira. Sua rotina de dormir de manhã e vagar durante a noite é transformada  quando um grupo de vampiros pretende acabar com sua existência. Após a vampira tanto tempo tendo ao seu lado somente o amigo Victor (curiosamente vivido por Flow Kountouriotis), surge um rapaz mortal aparece apaixonado por ela. Leander (Erom Cordeiro) trabalha no bar frequentado por ela e aos poucos descobre que sua amada está longe de ser uma mera mortal. De vez em quando o roteiro arranha a história de Leander, mas ela nunca recebe muita atenção, concentrando o texto em sua relação com Helena. Cheio de estilo, Love Kills inova ao ser um raro filme de vampiro brasileiro, mas por vezes tropeça na própria pose, o que que torna a experiência um tanto artificial. Os diálogos um tanto rebuscados também incomodam, mas se você embarcar na atmosfera proposta pelo filme você é capaz de relevar tudo isso. O capricho da produção não evita também que tenhamos a sensação de que estamos diante do primeiro episódio de uma série para televisão sobre uma vampira que encontra o amor enquanto todos os desafetos colecionados através  dos milênios resolvem se vingar dela. Se você busca um filme brasileiro diferente, este é uma boa pedida. 

Love Kills (Brasil-2025) de Luiza Shelling Tubaldini com Thais Lago, Erom Cordeiro, Flow Kountouriotis, Almir Guilhermino, Gabriela Flores, Rosana Maris e Marat Descartes. ☻☻☻

sábado, 12 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Transe

Luisa e Ravel: de boas intenções...

Fúlgido diáriw, o período das eleições de 2018 se caracteriza como um dos mais estranhos da história recente de nosso país. Nos anos seguintes, a coisa apenas se complicou ainda mais com uma pandemia no meio para embolar ainda mais as lembranças e as emoções da população. No meio da polarização acirrada daquela eleição as diretoras Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor resolveram realizar filmagens do que resultaria em Transe, filme lançado em 2022 com registros daquele período. O filme é um misto de ficção e documentário com base em seu trio de atores interagindo com pessoas nas ruas e improvisando cenas diante da câmera. Em alguns momentos a coisa parece se tornar interessante, mas em outras cai em armadilhas que só denunciam uma fragilidade no discurso que só evidencia certa superficialidade. Luisa Arraes vive Luisa, uma atriz que mora com o namorado músico Ravel (Ravel Andrade). Ela conhece Johnny (Johnny Massaro) em uma manifestação e subitamente se estabelece um trisal. A ideia é que o trio personifique tudo o que incomoda a família tradicional brasileira, mas faltou construir os personagens para que eles parecessem de verdade. A ideia de dar a eles o nome dos atores também não ajuda, assim como os diálogos saídos de uma enciclopédia de clichês, o que dificulta ainda mais a plateia comprar o discurso politizado que tenta imprimir. Algumas pessoas com que os atores interagem tiram o filme do marasmo, mas nada avança como debate interessante sobre um período crucial da realidade sócio-política brasileira recente. O distanciamento temporal só faz a produção soar ainda mais simplista em suas complexas intenções de desvendar o transe coletivo em torno do candidato que seria eleito.  

Transe (Brasil/2022) de Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor com Luisa Arraes, Ravel Andrade, Johnny Massaro, Bella Camero, Matheus Macena e Ana Flavia Cavalcanti. ☻☻

terça-feira, 30 de junho de 2026

PL►Y: Ato Noturno

Gabriel e Cirillo: tesão em público. 
Discreto diáriw, senti falta e escrever sobre um filme brasileiro durante o Ciclo DiversidadeSXL deste ano, mas foi complicado assistir filmes disponíveis naquele período. Assisti Ato Noturno dia desses no Canal Brasil e percebi que o filme faz jus às opiniões divisórias que gerou. O longa é dirigido por Filipe Matzembacher e Márcio Reolon,  a mesma dupla responsável por Tinta Bruta (2018) que ganhou o Teddy no Festival de Berlim. Este novo filme foi exibido na Mostra Panorama do mesmo Festival, o que lhe garantiu projeção e expectativas em torno de seu lançamento. Mais uma vez os diretores investem em uma trama queer, só que aparece aqui de forma mais lapidada visualmente. Estéticamente o filme é irrepreensível, o elenco também é interessante, mas o roteiro sofre com algumas situações e diálogos que não convencem muito. A trama gira em torno de um jovem ator de teatro Matias (Gabriel Faryas) que conhece um homem por aplicativo (Cirillo Luna), além de descobrir que os dois tem fetiche por fazer sexo em lugares públicos, o rapaz descobre que o misterioso parceiro é candidato a prefeito da cidade. Ambos terão que tomar cuidado com os encontros para que suas carreiras não sejam afetadas (já que  as eleições se aproximam  para um  e o outro disputa um papel numa série de TV).  Essa disputa pela fama rende a parte que achei mais interessante, já que existe uma rivalidade entre Matias e seu amigo colega de elenco, Fabio (Henrique Barrera) que gera alguns dos melhores momentos do filme. Investindo numa atmosfera de thriller homoerótico, o filme escorrega por levar-se a sério demais e chega a um final estapafúrdio que contradiz tudo o que seus protagonistas prezavam até ali. Ainda assim, o cuidado estético do filme e o conflito dos amigos nos bastidores prenderam a minha atenção.   

Ato Noturno (Brasil/2026)  de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon com Gabriel Faryas, Cirillo Luna, Henrique Barrera, Ivo Muller, Kaya Rodrigues e Larissa Sanguiné.  ☻☻☻

domingo, 5 de abril de 2026

PL►Y: Enterre seus Mortos

Selton: no fim dos tempos. 
Apocalíptico diáriw, o cineasta Marco Dutra assina um dos meus filmes de terror favoritos, Quando eu Era Vivo (2014) e tem em seu currículo outros filme muito interessantes. Não é novidade que ele é apaixonado por histórias de terror e posso dizer que sua assinatura sempre me deixa curioso. Confesso que fiquei um tanto decepcionado com sua nova obra: Enterre seus Mortos que é baseado o livro de Ana Paula Maia. A trama é ambientada em um período em que o fim do mundo se aproxima. Entre chuva de pedras, céu vermelho e uma nova religião que promete a salvação no fim dos tempos, existem crianças enviadas para ilhas de isolamento e uma síndrome que ninguém sabe explicar de onde veio. Nestes tempos sombrios, temos Edgar (Selton Mello), um homem calado e com traumas no passado que trabalha com resgate de animais mortos nas estradas. Ele tem como colega de trabalho o padre excomungado Tomás (Danilo Grangheia) e tem um caso com sua chefe Nete (Marjorie Estiano). Todos vivem na cidade de Abalurdes, que virou cenário de situações tão estranhas quanto os pesadelos de Edgar. São tantos elementos para lidar que o filme se tornou bastante confuso. Antes houvesse se concentrado nos fantasmas pessoais de Edgar, que só se revelam mesmo perto do final. Tomás também tem os seus demônios para exorcizar, mas nem teve tempo com o desfecho que seu personagem recebe. Com seus personagens destinados à danação, o filme é ambicioso com seus diálogos em atrito e abraça uma estética de filme B, mas faltou foco na trama ambientada em um universo bastante rico e particular.  Tive a impressão que ficaria melhor se fosse uma minissérie. 

Enterre Seus Mortos (Brasil - 2025) de Marco Dutra com Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria, Maria Manoella e Gilda Nomacce. ☻☻

segunda-feira, 16 de março de 2026

PL►Y: O Último Azul

Santoro e Denise: distopia
Reflexivo diáriw, entre os candidatos à vaga brasileira entre os concorrentes ao Oscar de filme internacional estava O Último Azul de Gabriel Masccaro. O filme ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim em 2025 e foi bastante elogiado pela forma como esgarça o etarismo em um mundo distópico que reflete os tempos atuais. O filme conta a história de Teresa (Denise Weinberg), uma mulher que ao passar do setenta anos deverá ser encaminhada para uma espécie de colônia afastada das cidades para que possa viver sob os cuidados necessários sem ocupar a filha que precisa trabalhar. Teresa questiona ter que ir para um lugar que não deseja, afinal, continua consciente e resolvendo a vida como pode. No entanto, quando o governo identifica que ela já deveria ter ido para a tal colônia, ela decide seguir por outros caminhos que sempre se deparam com limitações não desencadeadas por seu estado físico ou mental, mas por uma sociedade que não a percebe como uma pessoa capaz de gerenciar as próprias vontades. Embora tenha uma narrativa contemplativa e um apelo imagético sereno, o trabalho excepcional de Denise Weinberg retrata bem a angústia desta mulher experiente que do dia para a noite passa a ser vista como uma pessoa incapaz apontada como um peso na vida dos outros. Mascaro conduz seu filme com bastante sensibilidade, flerta com a ficção científica, com elementos fantásticos e constrói um filme que nos faz pensar sobre como lidamos com o envelhecimento (se você não produz você é descartável? A vida se resume a isso?). Embora tenha destaque no cartaz, Rodrigo Santoro tem uma participação pequena, mas importante quanto ao aspecto mais delirante do filme: o uso de um caracol que permite ver o futuro. Não deixa de ser interessante que o futuro ainda cause fascínio e curiosidade em uma sociedade que percebe de forma tão negativa o envelhecimento. Nosso futuro é envelhecer e, se isso não acontecer é porque a morte (sempre) chega antes do esperado. 

O Último Azul (Brasil/2025) de Gabriel Mascaro com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarras, Adanilo, Clarissa Pinheiro, Isabela Catão e Diego Bauer. ☻☻☻☻

domingo, 21 de dezembro de 2025

PL►Y: Manas

Jamilli: um chute no estômago.  

Manas é o tipo de filme que tenho medo de ver. Diante de todos os elogios que o filme recebeu, pairava na minha mente a dúvida: "é tudo isso mesmo?". O longa foi o segundo favorito a disputar a vaga do Brasil na disputa ao Oscar de Filme Internacional, rivalizando com o badalado O Agente Secreto. Até Julia Roberts entrou no lobby do filme, argumentando que o filme havia mudado sua vida. Para não dizer que o filme ficou de lado, a Academia Brasileira de Cinema o escolheu para disputar uma vaga de filme estrangeiro no Goya (o Oscar da Espanha). De tudo isso o que mais me chamou a atenção foram os adjetivos atrelados ao filme de estreia de Mariana Brennand, sobretudo a palavra "lindo". Manas pode ser tudo, menos um filme lindo. É cru. É triste. É necessário, mas lindo não é. Brennand filma como se tivesse uma câmera escondida no meio de uma família lá da Ilha do Marajó. A situação da família é apresentada de forma quase documental em sua humildade, eles colhem açaí, comem açaí, as meninas mais novas vão para a escola e todos dormem amontoados no mesmo cômodo. A trama segue como se ainda procurasse uma história para contar Descobrimos que algumas meninas usam como desculpa visitar barcos que passam por ali para vender coisas, mas na verdade estão vendendo a si mesmas. Existe a curiosidade pelo sexo, a ausência de uma educação sexual que lhes traga referências para lidar com os abusos que atravessam seus caminhos e quando percebemos o que acontece entre Marcielle (Jamilli Correa) de 13 anos e seu pai (Rômulo Braga) temos a exata medida do horror que está diante dos nossos olhos. O mais interessante é que Brennand conta esta história de perda da inocência (ou seria de inocência roubada?) com pulso firme, sem sobressaltos ou melodrama. A sensação é de um chute no estômago. É um filme corajoso e que prima pelas sutilezas nas situações mais assustadoras, deixando muito nas entrelinhas. A fotografia deixa claro que o filme não tenta embelezar nada e o elenco defende bem os seus personagens   e até compensam a narrativa que demora para engrenar. A primeira parte do filme é bastante arrastada e confesso que tive dificuldade de mante os olhos abertos, mas conforme nos damos conta da história que o filme quer nos contar, torna-se impossível ficar indiferente. Manas não teria chance na congestionada disputa do Oscar de Filme Internacional de 2026, mas merece destaque entre os lançamentos do cinema brasileiro em 2025. 

Manas (Brasil/Portugal - 2025) de Mariana Brennand com Jamilli Correa, Fátima Macedo, Rômulo Braga, Dira Paes, Samira Eloá, Enzo Maia, Emily Pantoja e Gabriel Rodrigues. ☻☻☻

sábado, 29 de novembro de 2025

PL►Y: A Melhor Mãe do Mundo

Gal (Shirley Cruz): mulher de carne e osso. 

Sou fã do cinema de Anna Muylaert desde que assisti ao curta A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti (1995). Lembro até hoje quando fui ao cinema para assistir seu longa de estreia, Durval Discos (2002) que até hoje está entre os meus filmes brasileiros favoritos em sua  guinada que separa o Lado A do Lado B. Muylaert ficou mais conhecida do grande público quando Que Horas Ela Volta? (2015) e tornou um sucesso ao mostrar-se um verdadeiro retrato de um país em mudança. A identificação foi tanta que o longa até foi indicado pelo Brasil à concorrer por uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro. Alguns filmes depois, o cinema de Anna voltou a ser pauta com A Melhor Mãe do Mundo, que aborda temáticas delicadas com o jeito disfarçadamente inofensivo da cineasta. Quando somos apresentados à Gal (Shirley Cruz), ela está literalmente sem palavras diante da agressão que acaba de sofrer de seu companheiro. O rosto carrega as marcas da violência, mas também o cansaço de quem não aguenta mais e resolveu fazer uma denúncia. No entanto, é visível que Gal não tem um plano diante do que virá a seguir e o turbilhão de emoções que misturam em sua cabeça a fazem apenas repetir as palavras de uma atendente. O que vemos a seguir é apenas uma certeza: do jeito que está, não dá para continuar. Ela então busca seus filhos e parte rumo à sua única certeza: sair dali. Gal é uma catadora de recicláveis e enquanto carrega Benin (Benin Ayo) e Rihanna (Rihanna Barbosa) em seu "veículo" de trabalho, ela tenta garantir algum dinheiro para mantê-los por alguns dias até que consiga ajuda na casa de uma parente. Andando pelas ruas de São Paulo, as dificuldades são muitas e ela tenta fazer com que tudo seja  disfarçado de uma aventura. Muylaert opta aqui por uma direção que parece "inexistente", as cenas soam improvisadas e dão impressão de que a câmera está escondida para registrar a vida daquela família que parece real. Se por um lado esta opção confere autenticidade ao filme, por outro, faz com que a maior parte do tempo tenhamos a impressão que a narrativa está um tanto dispersa, pelo menos até a chegada do trio ao local em que Gal terá que tomar uma das maiores decisões de sua vida. Difícil imaginar o filme sem Shirley Cruz no papel de Gal, ela vive uma mãe que guarda para si todas as incertezas daquele momento difícil, mas que ao mesmo tempo, encontra nos filhos uma espécie de espelho para enxergar e ponderar sobre sua realidade e seu amor próprio. As crianças também são um destaque a parte com uma espontaneidade que confere ao filme uma doçura irresistível. O posto de rosto mais famoso da produção vai para Seu Jorge como Leandro, o esposo agressor de Gal - e impressionante como ele confere uma presença ameaçadora desde a primeira cena em que ouvimos sua voz para somente depois vê-lo em cena. A Melhor Mãe do Mundo é mais um filme sensível de Anna Muylaert sobre mulheres fictícias que parecem de verdade, justamente por saber representar pessoas de carne e osso com bastante veracidade.  

A Melhor Mãe do Mundo (Brasil/2025) de Anna Muylaert com Shirley Cruz, Rihanna Barbosa, Benin Ayo e Seu Jorge. ☻☻☻

sábado, 22 de novembro de 2025

PL►Y: O Filho de Mil Homens

Santoro e Martines: pedaços de uma família. 

Lançado originalmente em 2011, o  livro O Filho de Mil Homens do português Valter Hugo Mãe colecionou elogios, fãs e a fama de ser aquele tipo de livro inadaptável para o cinema. A narrativa, cheia de simbologias e momentos classificados como "realismo fantástico" tornavam a tarefa complicada para qualquer um que se aventurasse a levar para a tela a vida dos personagens solitários em busca de conexões afetivas. Sorte que o brasileiro Daniel Rezende é talentoso o suficiente para dar conta da adaptação neste filme que produzido pela Netflix e que teve uma passagem rápida por algumas salas de cinema. Vale lembrar que Daniel foi indicado ao Oscar em sua estreia no cinema, como montador de Cidade de Deus (2002). Depois trabalhou em outros filmes de prestígio como Tropa de Elite (2007) e A Árvore da Vida (2011). Depois migrou para a direção com algumas séries e longas como Bingo - O Rei das Manhãs (2017) e dois filmes live action da Turma da Mônica (em 2019 e 2021). Diante de um currículo destes, pode-se dizer que Daniel Rezende tem um talento ímpar para construir narrativas das mais variadas, seja na ilha de edição ou atrás das câmeras. Seu trabalho em O Filho de Mil Homens deve ter sido o mais desafiador de sua carreira, mas resulta no mais belo enquanto cineasta. A forma como ele entrelaça os tempos e personagens é feita sem pressa, de forma contemplativa, mas sem perder de vista a conexão com o espectador que acompanha apreensivo tudo o que acontece na tela. Achei um deleite acompanhar Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um pescador que vive solitário em sua casa perto do mar. Sua vontade de ser pai é tão grande (ou seria sua solidão?) que possui até um boneco de pano que trata como se fosse uma criança. Eis que um dia uma mulher lhe pede para tomar conta de Camilo (Miguel Martines), um menino que até então era criado pelo avô (Fernão Zobaran). A relação entre os dois começa aos tropeços, principalmente pelo fato de ambos vivenciarem realidades completamente diferentes até então (e que, por ser de verdade, o menino não está sempre sorrindo feito o boneco). Aos poucos os dois se aproximam, mas Camilo pergunta se seria possível ter uma mãe, já que nunca conheceu uma. Diante da indagação, seremos apresentados a personagens que irão se encaixar nessa história, entram em cena Francisca (a excelente Juliana Caldas), Antonino (Johnny Massaro) e Isaura (Rebeca Jamir). Cada um deles terá seu momento na trama e renderão momentos emocionantes que parecem levar a trama para outros caminhos, mas que convergem para a construção de uma família no sentido mais acolhedor do termo. Aos poucos as peças se encaixam, os personagens se conectam e o filme se torna um trabalho bastante maduro repleto de boas atuações (destaque ainda para Grace Passô em mais um trabalho memorável). Com belas locações, fotografia bem cuidada e montagem impecável, O Filho de Mil Homens garantiu sua vaga entre meus filmes favoritos do ano. Vale lembrar que a produção ficou entre os finalistas para indicação à uma vaga ao Oscar de melhor filme internacional e, caso fosse o escolhido, eu não ficaria aborrecido. 

O Filho de Mil Homens (Brasil/2025) de Daniel Rezende com Rodrigo Santoro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Johnny Massaro, Rebeca Jamir, Grace Passô, Antonio Haddad, Lívia Silva, Inez Viana, Tuna Dwek, Caros Francisco e Fernão Zobaran.  ☻☻☻☻

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Na Tela: O Agente Secreto

Wagner: melhor ator em Cannes rumo ao Oscar.  

Marcelo (Wagner Moura) viaja por horas nas estradas empoeiradas de Pernambuco em 1977. Ele para num posto de gasolina e se depara com um corpo que já faz dois dias que está ao relento. O atendente diz que no período de carnaval ninguém virá buscar o corpo. Eis que surge uma viatura e os dois policiais estão mais preocupados com Marcelo do que com o corpo que está no chão faz alguns dias. Some isso aos jornais que noticiam a contagem de mortos naquele carnaval e não fica difícil perceber que a vida vale pouco no período em que se passa O Agente Secreto. A partir de certo ponto, teremos clareza dos motivos que levam Marcelo a procurar a casa de Dona Sebastiana (a maravilhosa Tânia Mara) que abriga pessoas com diferentes histórias mas com algo em comum. Aos poucos conhecemos um pouco mais de Marcelo e de sua história e um tanto da realidade, com direito até a alguns elementos do que antes se chamaria de realismo fantástico - um gato de duas cabeças (uma analogia às identidades duplas dos moradores da casa?), as histórias folclóricas de uma certa perna cabeluda (evocação de um moralismo latente no calor dos trópicos?) que se choca com uma dura realidade, como a perna humana encontrada dentro da barriga de um tubarão. Falando em Tubarão, fala-se muito do filme de Spielberg durante a narrativa, especialmente por conta do filho de Marcelo, Fernando (Enzo Nunes),  que sonha em ver o filme que lhe tiraria o sono. O filme de Spielberg é apenas uma das referências pop que Kleber Mendonça Filho utiliza para emoldurar o período da trama, das fotos de artistas contemporâneos na abertura, passando pela trilha sonora, pôsteres e reações de um cinema lotado ao ver A Profecia, o filme faz da cena cultural da época um elemento importante da reconstituição impecável que auxilia o espectador a mergulhar naquela atmosfera que oscila entre o acolhedor e o ameaçador. Kleber deixa claro como as pesquisas para seu longa anterior, Retratos Fantasmas (2023) ajudou a construir a ambientação e a história do filme que, assim como Ainda Estou Aqui (2024), olha para um outro lado da repressão vivenciada nos anos 1970, afinal, o motivo que coloca Marcelo entre pessoas procuradas não é ter cometido um crime, mas algo muito mais pessoal e mesquinho, o que esbarra com o submundo de uma realidade que já era em si assustadora. Assim como no filme de Walter Salles, protagonista aqui não tem grandes momentos de explosão emocional, Wagner Moura constrói um protagonista contido, desde o início preocupado com os acontecimentos que deverão leva-lo ao inevitável desfecho. Este caráter do personagem tão bem construído pelo ator lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e o coloca na lista de apostas para o Oscar do ano que vem (lembrando que o filme foi indicado pelo Brasil para disputar uma vaga na categoria de filme internacional). O filme tem fortes chances, impulsionado também pelos prêmios de direção e da imprensa recebidos em Cannes, de fato, este é o filme mais bem estruturado e com mais camadas a serem exploradas na obra de Kleber. A diversidade do elenco em sintonia perfeita e a trama, que ainda destaca o papel das universidades e suas pesquisas (isso mesmo), se torna bastante envolvente na construção deste thriller político. Não posso deixar de falar do final, um tanto controverso e anticlímax mas bastante condizente com um filme sobre as fricções entre histórias e memórias, particularmente fiquei emocionado em ver que o último ato é dedicado ao menino Fernando crescido (que insere outro tema importante ao filme: a identidade). O Agente Secreto  pode até não trazer o segundo Oscar para o Brasil, mas tem grande habilidade em nos envolver em uma viagem no tempo e pelo Brasil em suas contradições. 

O Agente Secreto ( Brasil - 2025) de Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura, Tânia Mara, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Gabriel Leone, Alice Carvalho, João Vitor Silva, Thomas Aquino, Marcelo Valle, Carlos Francisco, Luciano Chirolli, Roney Villela e Udo Kier. ☻☻☻☻ 

domingo, 15 de junho de 2025

10+ LGBTQIAPN+BR

Para finalizar o Ciclo DiversidadeSXL de 2025, resolvi fazer uma lista com meus dez filmes brasileiros favoritos com temáticas relacionadas à diversidade sexual. Confesso que foi difícil escolher somente dez e a lista ficou assim: 

 
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sábado, 14 de junho de 2025

CICLO DIVERSIDADESXL: O Melhor Amigo

Teixeira e Fuentes: resolvendo uma atração do passado. 

Em 2013 o cearense Allan Deberton lançou o curta O Melhor Amigo e ganhou alguma projeção em festivais e principalmente no Youtube com seu humor queer. Depois de realizar outro curta, um filme para televisão e Pacarrete (2019), um longa elogiado pelo público e pela crítica, Deberton resolveu ampliar as ideias de seu curta celebrado e investir em uma comédia romântica rasgada. Embora a história guarde semelhanças, especialmente o colorido e  o elenco (antes formado por Jesuíta Barbosa e Victor Sousa) agora conta com protagonistas menos conhecidos e várias participações especiais. A trama conta a história de Lucas (Vinicius Teixeira), que nos tempos de faculdade deu um beijo no melhor amigo Felipe (Gabriel Fuentes) e fez com que ele sumisse do mapa. Lucas se formou, foi para a cidade grande, arranjou um namorado dedicado até demais, mas... agora seu relacionamento está em crise. Acontece que Lucas é mais discreto que o parceiro e também nunca superou a história mal resolvida de seu passado. Eis que ele resolve dar um tempo no relacionamento e ir passar férias em Canoa Quebrada e ele reencontra seu crush do passado por lá. Para adaptar um curta pra um longa metragem de hora e meia, Deberton precisa ter mais a oferecer e insere números musicais com músicas conhecidas (Herva Doce, Blitz, Zizi Possi...) e uma apimentada na história, afinal, Lucas terá seus momentos com Felipe, com um casal gay que mantém um relacionamento aberto e até uma recaída com seu namorado apaixonado. Além disso os personagens frequentam um inferninho esperto chamado Sal e Pimenta, que conta com shows de drag queens e até da Gretchen!! O filme também arranja espaço para algo místico para Claudia Ohana ler cartas de tarô e uns beijos e nudez masculina aqui e ali. O resultado é um pouco desgovernado (e desavergonhado), mas consegue divertir com seus personagens perdidos em meio ao desejo e a vontade de viver um romance para a vida toda. Se for visto como uma comédia leve e despretensiosa o filme funciona, principalmente para o público que não exigir muita complexidade dos personagens que estão na tela. Confesso que achei graça de várias cenas com o protagonista comportadinho ainda aprendendo a vivenciar seus desejos sem culpa, mas é uma pena que o filme vá perdendo o pique perto do final e termina de maneira sem graça. Após uma rápida passagem pelo cinema, o filme está em cartaz na GloboPlay. 

O Melhor Amigo (Brasil/2024) de Allan Deberton com Vinicius Teixeira, Gabriel Fuentes, Leo Bahia, Claudia Ohana, Mateus Carrieri, Solange Teixeira, Marta Aurélia e Gretchen. ☻☻☻

quarta-feira, 11 de junho de 2025

CICLO DIVERSIDADESXL: A Herança

Diego e Yohan: herança macabra. 

Thomaz (Diego Montez) mora na Alemanha com o namorado Beni (Yohan Levy) e está preocupado como o visto que está prestes a expirar. Fazia tempo que ele não tinha contato com a mãe e retorna ao Brasil para o enterro dela acompanhado de Beni. No retorno, ele conhece duas tias que não tinha contato desde pequeno e os dois se hospedam na casa delas. Embora sejam muito atenciosas, as duas demonstram alguns hábitos estranhos que deixam Beni bastante preocupado, Thomaz nem imagina que sua família possui segredos e antigas tradições que deixam sua herança, digamos... complicada. Por algum motivo sua mãe sempre evitou contato com as familiares e aos poucos o protagonista e o espectador irão descobrir o motivo. A Herança é um filme de terror dirigido por João Cândido Zacharias que possui até boas ideias, mas algumas dificuldades para lidar com elas -  muito por conta de ceder à tentação dos clichês de produções americanas que acabam comprometendo a identidade do filme (e nem me refiro ao excesso de diálogos em inglês). O filme capricha na ambientação da casa com maior vocação para ser mal assombrada, peca por não desenvolver adequadamente os personagens secundários e até mesmo os protagonistas, que leram direitinho a cartilha de personagens ingênuos de filmes de terror. No entanto, cabe aos dois o ponto mais interessante da trama, já que a trama permite uma leitura interessante sobre o fato de Thomaz fugir de seu destino de perpetuar os planos de sua família. O roteiro fica bem próximo de abordar uma questão controversa como "a cura gay", mas se esquiva dela, deixando o texto um tanto vazio neste aspecto. Sexualmente falando, o filme ousa alguns pontos por ter uma cena tórrida entre os dois protagonistas, mas depois revela o horror de uma cena de abuso sexual quando o filme descamba para o trash sem pudores. Filmes de terror são realmente complicados, precisam de muito equilíbrio para não cair no ridículo, ao mesmo tempo podem tropeçar quando consideram que tudo é permitido neste tipo de produção. Quando o filme termina eu fiquei imaginando o diretor assistindo Hereditário (2018) e imaginando como tornar aquele tema macabro girando em torno de um casal gay. A Herança erra seu rumo no meio do caminho, mas provoca alguma curiosidade no espectador para ver o que irá acontecer com aqueles dois moços que aceitam a acolhida de duas senhoras estranhas que lhe oferecem um bolo azul e guardam queijos apodrecido no porão. Ainda assim, fiquei instigado com o que o diretor pode realizar se seguir a mesma linha em seus futuros projetos.

A Herança (Brasil/2024) de João Cândido Zacharias com Diego Montez, Yohan Levy, Analú Prestes, Cristina Pereira, Luiza Kozovski, Ana Carbatti, Jimmy London e Gilda Nomacce. ☻☻ 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Na Tela: Homem com H

Jesuíta Barbosa: performance de respeito. 

Quando soube que estavam produzindo uma cinebiografia sobre Ney Matogrosso eu fiquei um tanto receoso, já que todo mundo já deve estar cansado daquelas biografias protocolares sem sal de colagem de fatos soltos sobre a vida de um artista conhecido, mas que não carrega nada da identidade do retratado. Poucos filmes se salvam da seara do gênero, se pegarmos os filmes brasileiros, basta ver o bom resultado de Dois Filhos de Francisco (2005) em contraposição com a decepcionante Meu Nome é Gal (2018). Vale ressaltar que não estou discutindo gosto musical por aqui, mas estou falando de cinema e sua capacidade de contar histórias bem construídas em uma narrativa envolvente. Eu comecei a ficar animado com Homem com H por conta do projeto ser idealizado por Esmir Filho, um cineasta para prestarmos atenção desde sua estreia com o atmosférico Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), depois eu soube que escalaram Jesuíta Barbosa para viver o artista na telona, mas fiquei preocupado, já que sempre percebi Jesuíta um ótimo ator para viver personagens contidos que vivem seus conflitos de forma mais internalizada, não consegui nem imaginar o ator pernambucano convencendo no palco com os Secos e Molhados, por exemplo. Sorte que o rapaz realizou uma preparação física poderosa e está perfeito como Ney Matogrosso, encarnando sua pessoa discreta fora dos palcos e aquela persona mítica dos palcos (tanto que em algumas cenas eu fiquei pensando se eram cenas de arquivo ou com o ator). Melhor ainda constatar que Esmir Filho emoldura a performance arrebatadora do seu protagonista com uma produção de respeito. Pra começar, ele não se esquiva de abordar a sexualidade de seu biografado, seja nos palcos ou fora dele, o filme transborda uma energia sexual para lá de envolvente, seja pelos movimentos no palco, a vida de Ney com seus parceiros ou com o uso das letras para emular sentidos que por vezes até esquecemos por julgar que as conhecemos tão bem. Particularmente adorei a parte dedicada à música que dá nome ao filme, confesso que fiquei hipnotizado com a montagem desta parte - vale ressaltar que a edição é perfeita em sua alternância de ritmo sem perder a fluência entre as cenas mais dramáticas e, digamos, as mais... eufóricas. O longa usa  sucessão de episódios importantes sobre a vida do cantor par subverter a própria fórmula, ele nunca perde o seu fio condutor amparado pela relação de Ney com a arte, a construção de sua identidade artística intensa e sua personalidade serena, além do espectro do tempestuoso relacionamento com o pai (vivido por Rômulo Braga). O cuidado de Esmir Filho em suas escolhas para tecer a trajetória de Ney na telona é de um cuidado minucioso, construindo um arco emocional que não se rompe ao longo de duas horas e envolve o espectador com um personagem transgressor, instigante e necessário para os tempos caretas que atravessamos. Ao final do filme, Ney (que participou ativamente das filmagens) surge radiante com seus 83 anos e nos faz pensar no conceito de imortalidade não apenas de sua voz única. Para os fãs (como eu) é um verdadeiro deleite, para quem não é, torna-se apenas obrigatório. 

Homem com H (Brasil / 2025) de Esmir Filho com Jesuíta Barbosa, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Bela Leindecker, Jeff Lyrio, Bruno Montaleone, Mauro Soares, Jullio Reis e Ney Matogrosso. ☻☻☻☻

quinta-feira, 10 de abril de 2025

PL►Y: O Livro dos Prazeres

Simone e Javier: aprendizagem cheia de química.

Não lembro se já escrevi por aqui que Clarice Lispector está no top 3 de meus autores favoritos de todos os tempos (ao lado de Saramago e Gabriel García Márquez. Lembro quando comecei a ler sua obra na adolescência e fiquei instigado com a forma única como ela desenvolve a trama enquanto nos apresenta o que ela chama de "geografia interna da personagem". Esta maneira única de construir a escrita coloca seus livros entre os mais surpreendentes da Literatura. Recentemente até a Cate Blanchett citou o quanto ficou maravilhada de conhecer a obra da escritora. Por isso, admiro bastante a coragem de quem se aventura a realizar uma adaptação de sua escrita para as telonas. A cineasta Suzana Amaral (1932-2020) executou a tarefa com maestria na versão de A Hora da Estrela (1985), que rendeu o prêmio de melhor atriz para Marcélia Cartaxo no Festival de Berlim. Quem se aventurou recentemente foi Marcela Lordy (A Musa Impassível/2011) ao adaptar Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, vale dizer que a cineasta  trouxe para si um desafio e tanto. A obra está entre as mais reflexivas da escritora ao contar a história de Lóri (Simone Spoladore), uma professora do ensino fundamental que resolveu viver longe do pai e dos irmãos e se mudar para o Rio de Janeiro. Sua rotina se divide entre o trabalho com as crianças e as noites com os parceiros sexuais que encontra pelo caminho. No entanto, Lóri não se envolve emocionalmente com nenhum deles. As coisas mudam quando conhece Ulisses (Javier Drolas) que se recusa a se envolver sexualmente com ela, até que os sentimentos entre os dois estejam em um outro estágio. A hesitação de Ulisses deixa Lóri inquieta, mas a faz pensar na forma como ela se relaciona com as próprias emoções. Este é o processo de aprendizagem que está no título do livro, mas que ficou de fora do título do filme. Lordy faz uma opção arriscada de privilegiar os longos silêncios durante a narrativa, o que me fez sentir falta de boa parte da escrita de Clarice ao longo do filme. No entanto, a diretora fez uma ótima escolha ao escalar Simone Spoladore para viver a protagonista que é menos segura de si do que imagina, outra escolha acertada foi escolher o argentino Javier Drolas para viver o objeto de desejo da personagem. Confesso que no livro eu considerava Ulisses um personagem bastante irritante, aparentemente traçando joguinhos de sedução com a personagem, mas Javier consegue dissipar esta impressão ao longo do filme e estabelece ao lado da atriz uma sintonia que cresce em desejo até o desfecho. Lordy ainda constrói belas saídas para situações descritas no livro e ainda constrói imagens belíssimas com uso de espelhos (que poderiam ser utilizadas até mais vezes durante a produção).  O Livro dos Prazeres adapta uma obra complicada de maneira correta, mas o que torna ainda mais surpreendente a narrativa é perceber que é baseado em um livro editado pela primeira vez em 1969 e trata a sexualidade feminina com a naturalidade que merece. Te amo, Clarice.

O Livro dos Prazeres (Brasil-Argentina/2022) de Marcela Lordy com Simone Spoladore, Javier Drolas, Gabriel Stauffer, Rafael Delgado, Leandra Leal, Felipe Rocha e Bruce Gomlevsky. ☻☻☻

domingo, 16 de março de 2025

PL►Y: A Vilã das Nove

Karine e Laura:  minha vida daria uma novela.

Em um episódio da sexta temporada da série Black Mirror, uma mulher  tem sua vida virada de cabeça para baixo quando percebe que um programa de televisão a tem como personagem principal. A ideia (genial) serve para desdobramentos que envolvem questões que vão para além das questões entre o público e a privacidade, enveredando por discussões sobre inteligência artificial que se assemelham bastante às preocupações que provocaram a greve dos atores em Hollywood em 2023 (o mesmo ano em que foi ao ar o tal episódio). Um ano depois chegou aos cinemas brasileiros a comédia dramática A Vilã das Nove de Teodoro Poppovic, que tem um ponto de partida muito parecido com o visto na cultuada série da Netflix. No entanto, ao que parece, a ideia do filme brasileiro surgiu primeiro, mas com a morosidade para conseguir financiar o longa ele chegou às luz do público somente agora. O filme conta a história de Roberta (Karine Teles), uma professora de canto que se separou recentemente e vive com a filha, Nara (Laura Almeida) em um pacato apartamento. Nas cenas iniciais já vemos sugestões de que a vida tranquila da personagem pode esconder um segredo, já que o ex-marido, Cassio (Negro Leo) indaga sobre o passado da personagem e no início ela é confundida com uma tal de Eugênia enquanto passeia com a filha (gerando uma reação mais aguerrida do que se espera). O motivo para tanto mistério pode estar em uma novela de sucesso ancorada em seus segredos do passado. Motivada a saber o que está por trás disso, ela acaba se envolvendo com a atriz principal (Camila Márdila) e reencontrando pessoas importantes que deixou para trás. O ponto de partida do roteiro é interessantíssimo e segue por caminhos totalmente diferentes do tal episódio da série... se por um lado a trama segue um caminho mais novelesco, por outro, o filme perde a chance de fazer suspense sobre o que está acontecendo em torno de Roberta, afinal já deixa explicado desde o início o que pode estar havendo quando a personagem de Alice Wegman surge em cena. O fato do filme também curtir uma repetição "diferente" de cenas (momentos do passado de Roberta e depois a cena da novela que os reproduz, a discussão do início do filme e o linchamento da atriz da novela) também deixa o filme um tantinho previsível pelos caminhos que percorre. Achei interessante o filme estabelecer uma atração entre Roberta e a atriz que a interpreta na novela, mas o desenvolvimento da relação entre as duas é abandonado no meio do caminho como muitas outras possibilidades do roteiro que aos poucos perde o frescor e a esperteza. A sorte é que Karine Teles é uma ótima atriz e segura a complexidade de sua personagem com grande desenvoltura do início ao fim. A Vilã das Nove pareça mais novela do que cinema. Vale pela curiosidade. 

A Vilã das Nove (Brasil/2024) de Teodoro Poppovic com Karine Teles, Alice Wegman, Camila Márdila, Laura Pessoa, Antônio Pitanga, Negro Leo, Rodrigo García, Murilo Sampaio e Otto Junior. ☻☻