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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

KLÁSSIQO: Vidas Amargas

Dean: filme de despedida. 

Saudoso diáriw, aproveitei toda a animação em torno da minissérie East of Eden da Netflix e procurei sua versão para o cinema realizada por Elia Kazan em 1955. Lançado por aqui com o nome de Vidas Amargas, o filme se tornou um clássico, muito pela presença de James Dean que tornou este seu último filme após falecer precocemente aos 24 anos de idade. Dean foi o primeiro ator a receber uma indicação póstuma ao Oscar de ator. No filme ele interpreta Caleb Trask, um dos filhos de Adam Trask (Raymond Massey) que sempre deixou clara sua insatisfação com o jovem, preferindo as atitudes do outro filho, Aron (Richard Davalos). O religioso Adam desde pequeno contou aos filhos que a mãe deles havia morrido, mas não é bem assim. O roteirista Paul Osborn optou por adaptar somente última parte da obra de John Steinbeck que se passa às vésperas da Primeira Guerra Mundial e que gira em torno de um triângulo amoroso formado pelos dois irmãos e a doce Abra (Julie Harris), deixando um mistério no ar sobre a mulher que Cal está sempre à espreita. Ela é Kate (Jo Van Fleet premiada com o Oscar de atriz coadjuvante), que possui um prostíbulo nas redondezas e parece muito bem resolvida com as escolhas que fez ao longo da vida. Elia Kazan enfatiza o tom de conflito entre a família Trask, no que ficou conhecido como uma releitura dos manos bíblicos Caim e Abel. O mais interessante é como Cal é apresentado como um adolescente rebelde um tanto desequilibrado até percebermos os traumas e mentiras que envolveram sua infância e adolescência. O diretor sabe utilizar muito bem o ar de vulnerabilidade do astro James Dean, que tem um bom trabalho apesar de alguns exageros melodramáticos que eram comuns no período de produção. O longa também concorreu aos Oscars de direção e roteiro adaptado naquele ano. 

Vias Amargas (East of Eden / EUA - 1955) de Elia Kazan com James Dean, Julie Harris, Richard Davalos, Jo Van Fleet, Raymond Massey, Burl Ives e Lois Smith. ☻☻☻

sábado, 29 de agosto de 2026

PL►Y: 9 ¹/² Semanas de Amor

Kim e Mickey: relacionamento tóxico. 
Amoroso diáriw, este filme faz parte daquela lista de "filmes muito falados que eu nunca assisti". Nunca tive muita vontade de assistir, acho que por pré-conceito mesmo já que sempre imaginei que era sobre uma casal apaixonado até que o amor acabava antes da décima semana. Confesso que fiquei surpreso em perceber como o filme tem mais nuances do que a pecha de romance erótico que atribuíram a ele. As cenas de sexo são  discretas e não deve deixar espectadores impressionados, mesmo contando com os corpos jovens de Kim Basinger e Mickey Rourke. Ele vive um executivo charmoso e um tanto misterioso, ela vive uma mulher que ainda tenta lidar com as feridas de um divórcio. Os dois começam um tórrido relacionamento amoroso, mas logo nas primeiras cenas você percebe que o rapaz é meio cretino e curte promover umas situações humilhantes com sua amada. Chamar de amada é um tanto demais, já que eu não enxerguei muito amor no filme. Percebi desejo, tesão, fantasias e fetiches, mas amor... a coisa fica ainda mais complicada quando percebemos a vulnerabilidade de Elizabeth em um relacionamento que mexe em algumas feridas de  sua auto-estima. Dizem que o diretor Adryan Lyne (que se tornou expert em dramas sexuais já no ano seguinte com Atração Fatal/1987 e depois vieram Proposta Indecente/1993, Lolita/1997 e Infidelidade/2002) tinha várias horas de filme que foram cortadas e que davam um sentido muito mais complexo (e ordenado) para o relacionamento entre os personagens. No fim das contas achei um filme ousado para época (foi fiasco nos EUA e sucesso na Europa) e serviu para dar status de estrela para o casa principal. Décadas depois cada um receberia uma indicação ao Oscar, mas neste filme Kim tem cenas de partir o coração (e nunca tinha imaginado como ela parecia com a Liv Ullman!). 

9 ¹/² Semanas de Amor (9¹/² Weeks / EUA - 1986) de Adrian Lyne com Kim Basinger, Mickey Rourke, Margareth Whitton, Sarah Kernochan, Christine Baranski e David Marguiles. ☻☻

quarta-feira, 29 de julho de 2026

KLÁSSIQO: Glória Feita de Sangue

Kirk: contra à pena de morte. 

Obstinado diáriw, entre meus objetivos cinéfilos está assistir todos os filmes de Stanley Kubrick. O mais difícil é encontrar os mais antigos, portanto fiquei muito feliz quando encontrei o clássico Glória Feita de Sangue no catálogo do Looke. Estrelado por Kirk Douglas no ano de 1957, o filme foi esquecido nas premiações dos Estados Unidos, provavelmente por sua visão pouco heroica da Guerra, no caso aqui a Primeira Guerra Mundial. Kirk interpreta o comandante francês Dax, que tem plena consciência que sua tropa não tem chances nas trincheiras contra o exército alemão. No entanto, um general planeja fazer seu nome na Guerra e ordena um ataque fadado ao fracasso. Enquanto metade da tropa se recusa a avançar nos campos, três sobreviventes do campo de batalha irão sofrer as consequências das ordens do general não serem obedecidas. Os três serão condenados à pena de morte e caberá a Dax tentar resolver a situação na corte marcial, mas seus esforços nunca parecem suficientes. Kubrick mais uma vez constrói uma narrativa que prende a atenção e capricha nas ironias de uma guerra. Ideais e heroísmos se reduzem a interesses mesquinhos e as vidas são declaradamente descartáveis. Enxuto em sua duração, o filme tem uma ótima fluência de um ato para o outro e mantem a tensão sobre toda a situação até a última cena. Além do texto afiado (baseado no livro de Humphrey Cobb lançado em 1935), acho sempre curioso perceber os efeitos especiais práticos utilizados na época com bastante eficiência. Kubrick voltaria a abordar a loucura da guerra em Dr. Fantástico (1964) e Nascido para Matar (1987), outras duas pérolas de sua filmografia. Interessante que várias décadas depois, os três filmes continuam bastante atuais em suas abordagens, graças às características que definem um clássico e a genialidade de um verdadeiro deus do cinema. 

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory/EUA-1957) de Stanley Kubrick com Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolph Menjou, George MacReady, Joe Turkel, Timothy Carey e Kem Dibbs. ☻☻☻☻ 

Glória Feita de Sangue ()

domingo, 26 de julho de 2026

KLÁSSIQO: Lembranças de Hollywood

Meryl e Shirley: filha e mãe. 

Nostálgico diáriw, eu fiquei realmente feliz quando vi que Lembranças de Hollywood está no catálogo da Netflix. Trata-se de um daqueles filmes que sempre quis rever, assisti só uma vez quando passou no SBT há muito tempo (um tempo em que TV a cabo era um sonho distante e streaming nem habitava o mundo das ideias). Na época em que eu sabia os filmes que estavam passando nos cinemas e contava os anos para ser anunciado na programação de uma emissora no início do ano (e por vezes era exibido só no ano seguinte). O filme já valeria por suas duas atrizes principais, Meryl Streep (já com dois Oscars na estante) e Shirley MacLaine (com o seu Oscar bem guardado) que dispensam apresentações respectivamente como filha e mãe sob o sol de Hollywood. Só que enquanto a mãe mantem seu prestígio, a filha enfrenta problemas com os vícios e observa sua carreira afundar. Para continuar a fazer filmes, ela precisa voltar a viver com a mãe e todos os bons sentimentos começam a dar espaço para as feridas colecionadas ao longo da vida. Se a lavagem de roupa suja por vezes é inevitável, o trunfo da produção é o equilíbrio entre comédia e drama com as atuações precisas das divas. Existem muitas camadas e entrelinhas nesta relação, as inseguranças, o ego, um tanto de narcisismo materno, drogas e álcool... se tudo poderia dar errado, a direção do mestre Mike Nichols segura a química entre as duas até o final num roteiro baseado no livro da Princesa Lea Carrie Fisher sobre um período delicado de sua vida e a relação com a mãe, Debbie Reynolds (a relação entre as duas era tão poderosa que Debbie faleceu apenas um dia após a morte de Carrie). Vale a pena também ficar atento às várias participações especiais presentes no filme (Gene Hackman, Annette Benning, Richard Dreyfuss, Gene Hackman...) que aumenta ainda mais o charme da produção. Apesar de ser um dos grandes triunfos de 1990 o filme só concorreu ao Oscar de atriz (para Meryl) e trilha sonora. 

Lembranças de Hollywood (Postards from the Edge / EUA - 1990) de Mike Nichols com Meryl Streep, Shirley MacLaine, Dennis Quaid, Simon Calow, Rob Reiner, Mary Wickes e Oliver Platt. ☻☻☻☻

domingo, 26 de abril de 2026

.Doc: Celulóide Secreto

James e Sal: nas entrelinhas. 
Censurado diáriw, ainda lembro quando Celulóide Secreto chegou nos cinemas em 1995 e se tornou um dos documentários mais comentados daquela década. Com base no livro de Vitto Russo, o filme aborda como Hollywood lidou com a homossexualidade por muito tempo. Da forma como personagens homossexuais eram presentes de forma cômica no início do século XX (desde o cinema mudo), mas que com a censura décadas depois, mesmo este aspecto precisou ficar restrito às entrelinhas em clássicos como Rebecca (1944), Festim Diabólico (1948), Juventude Transviada (1955) e Ben-Hur (1959), ou aparecendo de forma um tanto mais sugestiva em clássicos esquecidos como Infâmia (1961). No geral, personagens queer eram (!?) punidos no desfecho após vivenciarem seus desejos com muita culpa. É engraçado ver Os Rapazes da Banda (1970) sendo revisto sentindo-se culpado em seu sarcasmo, como se não espelhasse o retrato de um tempo vindo de tanta censura, para depois Cabaret (1972) retratar homossexualidade com mais naturalidade (vale lembrar que levou o Oscar de melhor filme daquele ano) antes de toda uma onda de filmes violentos sobre o mundo queer (Parceiros da Noite/1980 que o diga). Interessante ver que nos anos 1990 houve uma mudança neste olhar que chegou ao mainstream, ainda que carregando marcas do passado como em  Tomates Verdes Fritos (1991), Filadelfia (1993) e até Priscila - A Rainha do Deserto (1994). Entre entrevistas, trechos de filmes e estrelas que se tornaram ícones gays no futuro, o legal  é ver como os roteiristas de diversos tempos lidam com o preconceito para retratar uma parcela do público (incluindo a si mesmos) e "agradar" a outra. Você jamais verá os clássicos do cinema do mesmo jeito. 

Celulóide Seccreto (The Celluloid Closet / EUA - Reino Unido - França - Alemanha / 1995) de Rob Epstein e Jeffrey Friedman com entrevistas com Lilly Tomlin, Shirley MacLaine, Tom Hanks, Whoopi Goldberg, Susan Sarandon, Tony Curtis, Harvey Fierstein e Gore Vidal. ☻☻☻☻

quinta-feira, 3 de julho de 2025

FILMED+: Cães de Aluguel

Os homens coloridos: cuidado, cães raivosos. 
 
Eu sei que muita gente considera Pulp Fiction (1994) o grande filme de Quentin Tarantino, outros cultuam o recente (superestimado) Era Uma Vez em Hollywood (2019), mas eu sou do contra. Eu prefiro quando QT é mais sóbrio, como em Jackie Brown (1997) e até quando se rende à teatralidade de Os Oito Odiados (2015), do que quando o liquidificador cultural de QT é ligado no máximo. No entanto, sempre achei que Cães de Aluguel merece mais reconhecimento do que recebe dos fãs. Eu sei que o orçamento modesto está impresso em cada segundo do filme, sei que as cenas de ação do filme carecem de mais emoção (algo que Tarantino desenvolveria melhor somente em Kill Bill/2003), mas nada supera a força dos diálogos carregados de tensão que vemos aqui. Curto em sua uma hora e quarenta minutos e custo enxuto de pouco mais de um milhão de dólares, o longa de estreia do cineasta já demonstrava que ele estava disposto a mudar os paradigmas do cinema. Enquanto Hollywood torrava milhões em filmes de ação infantilizados, QT queria fazer filmes para adultos descolados. Já apareciam aqui os diálogos com pitadas de cultura pop, os terninhos pretos (uma marca do diretor), a trilha sonora antenada e alguns dos atores que se tornariam parceiros de Quentin ao longo da carreira. A trama parte de um roubo de diamantes praticado por um grupo de homens que não se conhecem e se chamam por nomes de cores: Mr White (Harvey Keitel), Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Blonde (Michael Madsen), Mr. Pink (Steve Buscemi), Mr. Blue (Edward Bunker) e Mr. Brown (Tarantino). A montagem do filme embaralha a linha temporal da narrativa, abordando um pouco da história de cada personagem, o planejamento do roubo e os acontecimentos ocorridos após nem tudo ocorrer como esperavam. Tarantino estava prestes a fincar a pós-modernidade no cinema para as massas! Se os diálogos são espertos (ainda que cheio de palavrões), a violência surge crua - especialmente quando existem as suspeitas de quem um dos personagens é um informante da polícia. A tensão se torna crescente e ainda mais intensa no duelo entre Roth e Madsen - que surpreende na pele de um personagem assustador (que mais tarde seria também conhecido como Vic Vega, o irmão de Vincent Vega, personagem de John Travolta em Pulp Fiction). Tarantino começava aqui sua jornada na construção de seu estilo próprio, cheio de referências cinematográficas (ele disse várias vezes como o filme é calcado na ideia de The Killing de Stanley Kubrick) e muita violência estilizada. O cinema nunca mais seria o mesmo e o diretor se tornou um exemplo de como diálogos espertos aliados ao tom certo da narrativa pode ser até mais empolgante do que efeitos especiais numa telona. Com o tempo, Tarantino começou a sofrer críticas pela violência de seus filmes e começou a reforçar que suas ideias e cinema vão muito além da estilização sanguinolenta. Cães de Aluguel é a gênese do universo cinematográfico do cineasta. 
 
Cães de Aluguel (Reservoir Dogs / EUA - 1992) de Quentin Tarantino de Tim Roth, Michael Madsen, Harvey Keitel, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Edward Bunker e Chris Penn ☻☻☻☻☻

domingo, 18 de maio de 2025

KLÁSSIQO: Onde Fica a Casa do Meu Amigo?

Babak: um clássico do cinema iraniano.

Pode se dizer que Onde Fica a Casa do Meu Amigo de Abbas Kiarostami desencadeou uma onda de interesse pelos filmes iranianos. Nos anos seguintes vários filmes feitos no país receberam destaque mundial e seu tornaram cults com suas histórias singelas e realistas executadas para abordar temáticas amplas sobre aquele país. É a ideia do micro, falando do macro. Durante todo o longa o que vemos é a inocência e a amizade de duas crianças em confronto com o mundo dos adultos em suas asperezas. É assim que acompanhamos a jornada de Ahmed (Babak Ahmadpoor), um menino que desde a primeira cena sofre ao ver o amigo levar uma bronca do severo professor por não ter usado o caderno para fazer a lição. Kiarostami parece nos colocar no meio da agitação daquela sala de aula e nos deixa aflitos diante da situação, compartilhamos assim a mesma indignação do pequeno protagonista naquele contato com aquela personificação da autoridade e da disciplina. Acontece que na saída da escola naquele dia, Ahmed leva o caderno do amigo para casa por engano e ficara angustiado para entregá-lo. Se a mãe considera que aquela história é só uma desculpa pra os dois brincarem o dia todo, o garoto irá partir em uma verdadeira odisseia para encontrar a casa do amigo e entregar o caderno a tempo dele fazer a lição para o dia seguinte. A cada pessoa que o menino encontra, a cada situação que enfrenta, o que vemos é uma espécie de um denso encontro de gerações. O filme segue carregado da tensão de Ahmed (valorizada ainda mais pelos olhos reluzentes do menino que o interpreta) e a certa altura ficamos aflitos não apenas sobre a entrega do bendito caderno, mas também sobre seu paradeiro e seu retorno para a casa. A ideia de construir uma espécie de suspense a partir dos dramas de seus personagens se tornou uma marca do cinema iraniano e um dos motivos para se tornar tão envolvente, mesmo que os acontecimentos aqui soem dispersos, a tensão permanece até o fim. Teóricos e críticos de cinemas consideraram esta a primeira parte de uma trilogia na cinematografia de Kiarostami, que ficou conhecida como Trilogia Koker (o nome do vilarejo em que a trama acontece). No filme seguinte (E A Vida Continua/1992) vemos a busca dos meninos protagonistas de Onde Fica a Casa do Meu Amigo sob o receio de terem falecido no terremoto que aconteceu em 1990 que vitimou 50.000 pessoas ao norte do Irã e Através das Oliveiras retoma uma cena do segundo filme para construir uma narrativa em destaque. Kiarostami se tornou um os diretores mais importantes do cinema desde então. 

Onde Fica a Casa do Meu Amigo (Khane-ye doust kodjast? / Irã - 1987) de Abas Kiarostami com Babak Ahmadpour, Ahmed Amadpour, Iran Outari, Khodabaksh Defai, Ayat Ansari e Teba Soleimani. ☻☻☻☻

sexta-feira, 21 de março de 2025

KLÁSSIQO: Eraserhead

 Jack Nance: alter-ego de David Lynch em estreia perturbadora. 
 
Acho que é lugar comum falar da estranheza nos filmes de Davi Lynch. O diretor que nos deixou no início de 2025, sempre fez questão de construir em seus filmes um tom sinistro, quase sempre pesadelesco, que servia de verniz para personagens que viviam em suas vidas comuns, geralmente com uma estética que lembrava muito o cinema feito antes dos movimentos de contracultura (mais ou menos por ali entre os anos 1950 e início dos 1960). Lynch criava assim uma espécie de choque imagético, uma característica que fez do seu cinema algo único, diferente, inusitado, surreal e brilhante (tanto no sentido de genialidade quanto na capacidade de ter o brilho próprio de se renovar a cada nova visita e releitura de uma obra). Esta marca já está evidente em seu primeiro filme, Eraserhead, que foi um fiasco de público justamente por romper com o realismo tão presente no cinema dos EUA. Imagina que você está em 1977, a nova Hollywood estava latente com nomes feito Spielberg, de Palma, Coppola, Scorsese e no meio dos lançamentos do primeiro Star Wars, das danças de Os Embalos de Sábado a Noite, dos efeitos de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e da graça (posteriormente oscarizada) de Noivo Neurótico e Noiva Nervosa você de deparasse com um filme em preto e branco, com um homem de topete gigantesco às voltas com uma série de personagens estranhos, incluindo, um filho que nasceu parecendo tudo, menos um bebê? Revisitei recentemente Eraserhead porque sempre tive receios de escrever sobre ele, já que, posso dizer que é o filme mais estranho de Lynch (mais do que Império dos Sonhos/2006 que fica em um honroso segundo lugar e, ironicamente, é seu último longa) e sempre deixa a sensação de que nunca serei capaz de entendê-lo completamente (mas também acho que a graça está justamente aí, já que David odiava explicar seus filmes e deixava que os espectadores divagassem sobre o que se via na tela). O longa revela-se cada vez mais sensorial ao mesmo tempo que afasta-se de ser apenas um filme experimental de um estudante de cinema. O filme conta a história de Henry (Jack Nance), um homem que vive em um pequeno apartamento em uma área industrial abandonada. Ele engravidou a namorada e por conta disso teve que casar e, agora, os dois precisam cuidar de um bebê que chora o tempo inteiro e tem uma aparência, digamos, diferente do que se esperava. A narrativa é conduzida por todo o desconforto do protagonista em uma realidade completamente onírica e surrealista, com personagens estranhos que movimentam um filme anticonvencional, mas que traz simbologias que nos fazem perceber a relação daquilo tudo com a fertilidade, a paternidade, o destino de um filho e relações familiares. Lynch já era apaixonado por artes plásticas quando realizou o filme (com o apoio da American Film Institute, instituição em que estudava) e isso explica muito das texturas que o filme experimenta diante da câmera. Com o tempo, todas as ressalvas feitas ao filme em sua estreia garantiram uma curiosidade ao redor da produção e uma aura de filme cult, sobretudo quando ao longo do tempo vimos a forma como Lynch pensa seu cinema e as sensações que pretende despertar na plateia. Algumas marcas de seu cinema (os personagens misteriosos, o chão xadrez, as cortinas, o palco do inconsciente...) já aparecem por aqui e quem conhece a vida particular do diretor, relaciona Henry e seu filho com a própria situação do diretor perante um problema de saúde vivenciado por sua primogênita logo após o nascimento. O peso da responsabilidade e da insegurança devido àquela situação parece ter sido a maior inspiração para todos os temores que atravessam a narrativa (ternamente) perturbadora do filme. 
 
Eraserhead (EUA - 1977) de David Lynch com Jack Nance, Charlotte Stewart, Allen Joseph, Jeanne Bates, Leurel Near e Jack Fisk ☻☻☻   

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

KLÁSSIQO: Veludo Azul

Kyle e Isabella: quando sonho e pesadelo são universos em colisão.

 David Lynch tentava se recuperar do trauma que foi realizar a (primeira) versão cinematográfica de Duna (1984) para Dino de Laurentis após a aclamação por O Homem Elefante (1980). Se o seu segundo longa rendeu oito indicações ao Oscar, Duna só rendeu dores de cabeça e se tornou um filme (feito por encomenda) que o cineasta renega até hoje. Estava na hora de colocar novamente a carreira nos eixos e isso aconteceu com Veludo Azul, uma obra que se tornou um marco no estilo que o diretor adotaria dali em diante. Estão presentes as mudanças atmosféricas durante a narrativa, a mistura de sonho com pesadelos, além daquele jeitão que transpira um cinema clássico que está ali para ser virado do avesso. Desde o início, Lynch apresenta seus cenários como se fossem feitos de pura perfeição suburbana. Uma tranquilidade absoluta que é logo abalada com um personagem que é hospitalizado e, debaixo de toda aquela perfeição vemos um amontoado de besouros agitados digladiando. Este é o ponto de partida para a chegada de Jeffrey Beaumont (Kyle MacLahclan), um jovem  que volta para a terra natal para cuidar da loja do pai. Eis que de volta ao lugar tão familiar e confortável, Jeffrey encontra uma orelha humana no gramado! Intrigado com aquela situação, ele procura a polícia e acaba se envolvendo com Sandy (Laura Dern), filha do detetive de polícia. Embora seja doce e comportada, Sandy sabe mais do que o pai imagina sobre o caso e acaba favorecendo o encontro do curioso Jeffrey com a bela Dorothy Valens (Isabella Rossellini), cantora de uma casa noturna que sofre um drama familiar por conta dos bandidos que a perseguem. Isso é o suficiente para que Lynch faça dois universos completamente diferentes colidirem. Se Jeffrey e Laura parecem pertencer a um filme clássico tradicional de romance entre jovens estudantes (e a aparência do casal colabora muito para isso, basta ver como Kyle tem a estampa de um galã das antigas e como Laura transpira a ingenuidade de uma mocinha clássica do cinema, ideia ampliada ainda mais por sua primeira banhada de luz), por outro lado, Dorothy habita o submundo, repleto de crimes e violência, mas não importa o que ela faça, ela parece estar presa naquele universo como se estivesse enclausurada em um pesadelo. Vale a pena dizer que Isabella (namorada de Lynch na época) solta faíscas na tela desde a primeira cena em que canta a faixa título (Blue Velvet que foi regravada até pela Lana Del Rey e gerou um clipe cheio de referência ao universo Lynchiano) e recebeu o prêmio de melhor atriz no Independent Spirit Awards. Sua presença banha o filme com uma aura incomum de sensualidade e vulnerabilidade, o que se beneficia ainda mais com a química potente apresentada ao lado de Kyle MacLachlan (que depois do mico de protagonizar Duna se firmou ao longo do tempo como muso de Lynch, estrelando as temporadas de Twin Peaks e outros projetos do cineasta). Em contrapartida ao triângulo amoroso apresentado, o filme conta com Dennis Hopper encarnando o bizarro Frank Booth, responsável pelas maiores atrocidades d. Quase quarenta anos após seu lançamento, Veludo Azul ainda chama atenção pela forma fluente com que trafega entre os gêneros cinematográficos e como sua aura de mistério é milimetricamente construída entre a beleza e a estranheza. Não por acaso, Lynch foi indicado ao Oscar de Melhor direção pelo seu trabalho, única categoria em que o o filme foi celebrado pela academia. 

Veludo Azul (Blue Velvet /  EUA - 1986) de David Lynch com Kyle MacLachlan, Isabella Rossellini, Laura Dern, Dennis Hopper e Dean Stockwell. ☻☻☻☻

domingo, 15 de dezembro de 2024

FILMED+: Os Rapazes da Banda.

O elenco: do teatro para as telonas.
 
Em 2020 a Netflix bancou uma versão em filme da peça The Boys in The Band de Matt Crowley lançada originalmente em 1968 e, somente após escrever meus comentários sobre o filme dirigido por Joe Mantello, descobri que havia uma outra versão, lançada em 1970 por William Friedkin. A peça se tornou um marco temporal ao se tornar a primeira com personagens homossexuais em destaque a se tornar um grande sucesso nos palcos. O sucesso foi tanto que choveram propostas a Crowley para uma adaptação cinematográfica. Ele recusou muitas por conta de um ponto que ele não abria mão: manter o elenco do teatro na versão cinematográfica e o diretor também (ideia da qual acabou abrindo mão). Quando aceitou que um grande estúdio bancasse o filme, Crowley foi convencido de que Friedkin seria um bom nome para a versão. O cineasta estava prestes a se tornar um grande nome do cinema (seu filme seguinte, Operação França/1971 foi indicado a oito Oscars, levando cinco para casa, incluindo filme e direção) e causou estranhamento no elenco quando insistiu para que ensaiassem seus papeis após um ano de sucesso nos palcos. Esta preocupação com a transposição para o cinema reflete-se na tela, já que Friedkin cuida minuciosamente dos detalhes das interpretações mais sutis, usa vários movimentos de câmera, capricha na montagem, nos planos, nos enquadramentos e closes. O resultado tem nada de teatro filmado, pelo contrário, mostra-se profundamente cinematográfico e real no tom cru que imprime ao grupo de amigos homossexuais que  se reúne na casa de um deles para comemorar um aniversário. O anfitrião é Michael (Kenneth Nelson), que vive um relacionamento com Donald (Frederick Combs), os dois estão naquela fase em que o passo adiante teima em não acontecer. O ótimo Kenneth Nelson dá conta de um personagem bastante complexo, já que o tempera uma essência amarga que se evidencia cada vez mais em sua relação com os demais convidados. Fazem parte da comemoração o casal Hank (Laurence Luckinbill) e Larry (Keith Prentice), o exagerado Emory (Cliff Gorman) e o discreto Bernard (Reuben Green), o único negro do grupo. Quem também participa da festa é Cowboy (Robert La Torneaux), um garoto de programa contratado para ser presente do aniversariante. Em contraponto existe Alan (Peter White), o ex-colega de quarto hétero de Michael que está de passagem por Nova York e resolve fazer uma visita no dia da festa. O  misterioso aniversariante é Harold (Leonard Frey), que recebe uma entrada triunfal em cena, já que é peça fundamental para fazer Michael repensar sua postura diante da vida. Os personagens se mostram uma coleção de arquétipos gays do período e, não por acaso, o encontro começa alegre, mas aos poucos o clima pesa com as conversas e alguns ressentimentos que começam a vir à tona baseado na trajetória de cada um. Impressiona o fato de como o texto ainda permanecesse atual e como a estética adotada por Friedkin soa mais realista do que a versão de 2020, como se fosse realmente um recorte de um momento daquelas vidas. Obviamente que o filme se beneficia muito da familiaridade que cada ator tem com seu personagem, isso faz toda a diferença naquela brincadeira do telefone (que aqui funciona muito melhor do que na refilmagem), com destaque para Peter White que sempre deixa um mistério constante sobre a sexualidade do personagem. Obviamente que, perante o conservadorismo da época, o filme não chamou atenção nas bilheterias e passou em branco nas premiações, o que não impediu que o tempo o tornasse um marco do cinema queer. Falecido no ano passado, Friedkin foi um dos grandes nomes responsáveis pela reinvenção de Hollywood entre meados dos anos 1960 e ao longo dos anos 1970. Responsável ainda pelo clássico O Exorcista (1973), o diretor também merecia maior reconhecimento por trabalhos mais recentes como Possuídos (2006) e Killer Joe (2011), mas ouso dizer que Os Rapazes da Banda está entre seus trabalhos mais notáveis, especialmente pela ousadia de conduzir um filme com esta temática em um tempo que a palavra gay era quase proibida no mainstream (e ele repetiu a proeza despertando ainda mais polêmica dez anos depois com Parceiros da Noite/1980). Vale dizer que a própria história do elenco, após o sucesso da peça, merecia outro filme. Composto em sua maioria por homossexuais, suas vidas representam muito os percalços da comunidade gay do período. Seja por preconceitos, ofertas de trabalho, dos romances secretos com celebridades, estigmas ou o advento da AIDS que vitimou alguns dos atores que vemos magistrais nesta produção.   
 
Os Rapazes da Banda (The Boys in the Band/ EUA - 1970) de William Friedkin com Kenneth Nelson, Leonard Frey, Peter White, Cliff Gorman, Reuben Green, Robert La Torneaux, Laurence Luckinbill, Keith Prentice e Reuben Green. ☻☻☻☻☻

sábado, 14 de dezembro de 2024

KLÁSSIQO: O Colecionador

Terence e Samantha: atuações premiadas.

Após assistir recentemente à Teorema de Pasolini (1968), eu lembrei de outro filme com Terence Stamp que sempre tive curiosidade de assistir, mas que demorei muito para assistir. Trata-se de O Colecionador, filme adaptado do livro de John Fowles, produção que recebeu reconhecimento em sua época de lançamento - basta lembrar que seu casal protagonista foi premiado por suas interpretações no Festival de Cannes, que a atriz ganhou o Globo de Ouro de atriz dramática daquele ano e que o Oscar lembrou do filme nas categorias de melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor atriz. O livro de Fowles está entre os meus favoritos e minha relação com ele é bastante particular por conta da atmosfera tensa que constrói ao longo da narrativa, seja na primeira parte em que o personagem masculino conta a história ou na segunda em que a personagem feminina assume a voz da narrativa. Trabalhar com pontos de vistas diferentes em uma mesma obra não é tarefa fácil, mas Fowles cumpre a proposta com louvor e gera um resultado impactante. O roteiro de Stanley Mann e John Kohn não cai na armadilha de fazer o mesmo em sua transição para o cinema e opta por criar uma linha narrativa única, com ênfase nos momentos em que os dois personagens estão em cena, o que gera um resultado bastante eficiente para os admiradores da obra. A trama conta a história de Freddie Clegg (Terence Stamp), um homem comum que coleciona borboletas e que recebe uma fortuna que muda sua vida para sempre. Freddie compra um casarão afastado da cidade, uma residência adequada para que sua ideia mais sombria seja posta em prática. Faz algum tempo que ele admira Miranda (Samantha Eggar) à distância. O que poderia ser apenas uma história de amor platônico torna-se um pesadelo quando ele resolve rapta-la. Ele a leva para o casarão e a instala no  porão, sem contato com o mundo exterior, ele espera convencê-la a se apaixonar por ele. A ideia absurda obviamente não dará certo e, enquanto ele segue o plano, ela tenta convencê-lo a deixa-la ir embora e retomar sua vida. A dinâmica entre os dois segue em tentativas dele agradá-la sem que sua mente doentia se dê conta de que a ideia de um "romance" já começa errada em sua raiz, ao mesmo tempo que ela procura negociar sua liberdade, mesmo que aos poucos ela tenha cada vez mais certeza que as insegurança daquele homem é motivada pela loucura. Para um filme lançado em 1965 pode se dizer que envelheceu muito bem na forma como constrói a narrativa cheia de suspense amparada pela dinâmica entre os dois personagens, interpretados de forma marcante por Terence e Samantha. Ele se torou um ícone por sua aparência de galã somada àquelas expressões mínimas que revelam um turbilhão de emoções por dentro, já Samantha não se contenta em interpretar uma mocinha indefesa, nutrindo sua personagem com a força e a inteligência necessárias para desafiar os planos daquele homem. O porão da casa remete claramente aos clássicos do terror e a narrativa sabe como alimentar a tensão claustrofóbica que existe na estranha relação dos dois. A única coisa que me incomoda é a trilha sonora persistente que por vezes se torna irritante, um pequeno problema perante um filme que, de vez em quando, aparece nas listas de melhores suspenses da história do cinema. Em tempos em que relacionamentos tóxicos e abusivos estão em pauta, O Colecionador permanece atual.

O Colecionador (The Collector / Reino Unido - EUA / 1965) de William Wyler com Terence Stamp, Samantha Eggar, Mona Washbourne e Maurice Dallimore. ☻☻☻☻

sábado, 30 de novembro de 2024

KLÁSSIQO: A Ternura dos Lobos

Kurt e sua presa: arrepiante história real.
 
É estranho você descobrir que o clássico O Vampiro de Dusseldorf (1931) de Fritz Lang é baseado em uma história real. Se na obra de Lang o infanticida não consegue ser capturado pela polícia e é capturado e julgado por um tribunal de criminosos, o horror provocado pela história real não fica muito atrás. A história em questão é a de Fritz Haarman, um sujeito que se passava facilmente por um homem comum, mas que escondia uma mente profundamente doentia. Ele vivia sozinho em um apartamento em um prédio decadente na Alemanha que ainda amargava os efeitos da primeira guerra mundial. Sua conhecida atração por outros homens (especialmente os mais jovens) renderam um acordo com a polícia local para que ficasse atento aos imigrantes ilegais que apareciam nas redondezas. Enquanto vigiava a região, permanecia livre. Só que a polícia não desconfiava que este sujeito tinha outros interesses, algo que despertava suspeitas entre os vizinhos com os sons que ouviam de seu apartamento. Vale lembrar que em tempos de crise, Haarman sempre conseguia pedaços de carne para comercializar na região e acredita-se que eram de suas vítimas, geralmente crianças e adolescentes que fugiam de casa e eram acolhidos por ele, sem suspeitarem que suas intenções eram aterrorizantes. A lista de atrocidades cometidas por Fritz Haarman entre 1918 e 1924 é vasta, mas o número exato de suas dezenas de vítimas permanece desconhecido. Produzido por Rainer Werner Fassbinder (que faz uma participação como ator no filme), a direção ficou por conta de Ulli Lommel que investe em uma narrativa lenta, tão solene quanto mórbida,  que só aumenta a tensão em torno dos crimes de um serial killer. A narrativa é meticulosa e desenvolve de forma convincente a forma como um homem aparentemente inofensivo conseguia conquistar a simpatia das pessoas, especialmente das vítimas em situação de vulnerabilidade e que, uma vez desaparecidas, não chamariam a atenção de ninguém. O ator Kurt Raab, que colaborou em mais de trinta projetos com Fassbinder, acerta o tom de um personagem complicado. Ele consegue oscilar com maestria entre as particularidades do personagem que dão título ao filme, consegue simular uma ternura que servia de disfarce para suas intenções criminosamente predatórias. A cenografia e a fotografia ajudam na construção de uma atmosfera certeira para provocar alguns arrepios na plateia até os dias atuais. Selecionado para o Festival de Berlim no ano de seu lançamento, o filme foi rodeado de polêmicas e dividiu opiniões, no entanto, chamou atenção pela atmosfera carregada de sua narrativa.  Não por acaso, o diretor Ulli Lommel migrou para Hollywood e fez alguns clássicos do terror como The Boogeyman (1980) e Devonsville Terror (1983).
 
A Ternura dos Lobos (Die Zärtlichkeit der Wölfe / Alemanha Ocidental - 1973) de Ulli Lommel com Kurt Raab, Jeff Roden, Margit Karstensen, Ingrid Caven, Wolfgang Schenck, Brigitte Mira e Rainer Werner Fassbinder. ☻☻☻☻

sábado, 23 de novembro de 2024

KLÁSSIQO: Teorema

Stamp: o sedutor misterioso de Pasolini.

Um teorema é uma proposição que é demonstrada por raciocínios lógicos, partindo de dados ou de hipóteses. Quando Pasolini inicia seu Teorema ele apresenta uma entrevista em meio a um bando de pessoas sobre um operário que recebe a empresa de herança do patrão. A ideia gera discussões e teorias antes que sejamos apresentados à uma família burguesa e sua boa vida. O ano é 1968 e no meio do luxo em que o empresário (Massimo Girotti) vive com a bela esposa (Silvana Mangano) e o casal de filhos, (Andrés José Cruz Sooublette e Anne Wiazemsky) existe um bocado de tédio. Uma esterilidade que tentam disfarçar com roupas de luxo, festas e jantares com seus convidados igualmente ricos. Eis que em um deles conhecemos um visitante (Terence Stamp) sobre o qual ninguém sabe muita coisa. Ele se torna cada vez mais próximo da família e se torna amigo do filho para dias depois já estar dividindo o quarto com ele. Existe um interesse generalizado por aquele rapaz de origem diferente dos que vivem naquela casa, tanto que logo todos e todas, a começar pela criada (Laura Betti), serão seduzidos por ele. Colabora muito para o jogo de sedução o jeitão sempre misterioso do inglês Terence Stamp, então com trinta anos e com aqueles olhos que parecem desbravar os segredos da alma de qualquer um. Na primeira parte do filme, cada um dos personagens terá o prazer de momentos de intimidade com o moço, até que na segunda parte ele precisa ir embora sem maiores explicações e todos precisam lidar com sua ausência, buscando novos rumos e soluções para a rotina entediante de suas vidas que não conseguem mais voltar a ser o que era antes. Acho que falei demais sobre o filme, mas o que Pasolini constrói aqui é uma alegoria sobre a relação indissociável entre burguesia e proletariado, havendo um caráter deliciosamente subversivo na  criatividade inquieta do cineasta ao inserir o sexo como um ponto de inversão na relação de poder apresentada entre as classes do filme. Diante da ausência do visitante os caminhos seguem por rumos inesperados, seja pela arte ou pela morte, mas sem perder o caráter de surto após os personagens vivenciarem seus desejos mais recalcados. Existe um tanto de culpa, assim como um flerte com o divino e o profano no desfecho de tudo isso. É uma ideia tão interessante que influencia obras até hoje. Vendo o filme lembrei da música da Legião Urbana ("Não vá embora, fique um pouco mais, ninguém sabe fazer o que você me faz. É exagero e pode até não ser. O que você consegue, ninguém sabe fazer"...) e que enquanto muita gente apontava tudo o que Saltburn (2023) tinha de O Talentoso Ripley (1999), cinéfilos mais antenados ressaltavam o quanto o filme de Emerald Fennell tinha de Teorema. Embora ela inverta a ausência de sua trama, as referências ainda são muito evidentes, alcançando intenções e resultados diferentes.  Teorema é considerado por muitos a obra-prima do cineasta italiano que sempre adorou uma polêmica, aqui ele opta por uma linguagem mais concisa e econômica, com poucos diálogos e longos silêncios, as intenções ficam nas entrelinhas até o desfecho repleto de angústia. 

Teorema (Itália / 1968 ) de Pier Paolo Pasolini com Terence Stamp, Silvana Mangano, Massimo Girotti, Laura Betti, Andrés José Cruz Sooublette e Anne Wiazemsky. ☻☻☻☻

domingo, 20 de outubro de 2024

KLÁSSIQO: Possessão

Sam e Isabelle: a separação como um filme de terror.

Certa vez em uma conversa sobre toda a confusão que foi para Andrzej Zulawski finalizar seu ambicioso O Globo de Prata (1988), um amigo comentou como era ingrato que um diretor de  um filme premiado no Festival de Cannes ter que passar por tudo aquilo. O filme premiado em questão era Possessão, que concedeu à Isabelle Adjani o prêmio de melhor atriz em 1981. Aquela foi a primeira vez que ouvi falar do filme de terror dirigido pelo diretor que recebeu status de cult ao longo do tempo. Recentemente começaram a falar de um remake estrelado por Robert Pattinson e as reclamações de que a nova versão ficaria aquém do original começaram a borbulhar. Obviamente que minha curiosidade em torno do filme se tornou incontrolável nas últimas semanas, mas confesso que foi difícil encontrar o filme para assistir e, após encontrá-lo, foi preciso de um preparo especial para encarar uma produção de intensidade impressionante na abordagem de um casamento em crise. Mark (Sam Neill) volta de viagem e percebe que sua mulher não está mais disposta a manter o casamento. Cansada dos longos períodos em que cuida da casa e do filho pequeno sozinha, ela percebeu que deseja algo mais para sua vida. No entanto,  o esposo não se conforma e tenta discutir a relação com a mulher, que sequer consegue olhar para ele. A presença dele já parece ser um gatilho para Ana, que está à beira de um surto. Só piora quando Mark imagina que ela possui um amante e o ciúme começa a deixa-lo cada vez mais agressivo. As discussões são constantes e se intensificam com gritos, ofensas, violência física e automutilzação. Zulawski constrói uma atmosfera densa, claustrofóbica e sufocante com a interação entre seus dois atores e o horror daquele relacionamento entre pessoas que parecem realmente possuídas, esse drama de emoções descontroladas já daria conta de fazer do filme um clássico do terror, mas existe algo mais. Sempre com uma estranheza no ar e olhares sinistros de Ana, existem pistas de que não se trata apenas de um relacionamento que chegou no limite. Quando um detetive é contratado para seguir Ana, o roteiro entrega que existe algo realmente de outro mundo afetando a trama. A estupenda Isabelle Adjani está assustadora no filme (e após o prêmio em Cannes recebeu o César de Melhor Atriz) com um domínio físico invejável.  A atriz oscila as expressões entre o diabólico e o vulnerável e tem uma das cenas solo mais assustadoras da história do cinema na famosa cena do metrô. Até hoje, sua performance é bastante perturbadora e, se o Oscar não tivesse tanto preconceito com os filmes do gênero, ela teria sido indicada e premiada com sua primeira estatueta. Sam Neill também está ótimo em cena, com pinta de galã com tendência ao surto, ele está bastante convincente como o esposo que tenta entender o que acontece com a esposa enquanto se perde pelo caminho.O filme evita o colocar no papel de marido bonzinho, fazendo com que seus defeitos acentuem ainda mais as causas daquele casamento em frangalhos. Zulawski buscou inspiração nos efeitos de seu próprio divórcio para construir o filme, mas ao invés de lavar a roupa suja, criou uma obra que vai além, abordando a separação em outras esferas. Não por acaso o filme é ambientado na Alemanha ainda separada pelo muro de Berlim e suas neuras, além disso, os próprios personagens aos poucos se separam de si mesmos (ao ponto de gerar enigmáticos "duplos" ao longo da sessão). Com tanta estranheza, o filme não escorrega nem quando apresenta o verdadeiro amante da protagonista, mas erra a mão quando envereda por cenas de ação que não combinam em nada com resto da narrativa.  

Possessão (Possession / França - Alemanha Ocidental) de Andrzej Zulawski com Isabelle Adjani, Sam Neill, Heuinz Bennent, Margit Carstensen, Carl Duering e Johanna Hofer. ☻☻☻☻

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

KLÁSSIQO: Primavera de Uma Solteirona

Maggie e suas pupilas: a influencer de seu tempo.
 
A notícia de que Dame Maggie Smith havia falecido, entristeceu milhares de fãs de todas as idades. Os mais jovens conheciam a grande atriz por conta de seu trabalho como a professora Minerva dos filmes da série Harry Potter, outros lembram dela como a Lady Violet da cultuada série Downton Abbey. Com uma carreira que acumulou mais de cinquenta prêmios nos palcos e no cinema, Maggie foi indicada seis vezes ao Oscar (a primeira vez em 1966 por Othello e a ultima por Gosford Park/2021) sendo duas vezes premiada, colecionando uma estatueta como coadjuvante por Califórnia Suite (1978) e outra como melhor atriz principal por este clássico Primavera de Uma Solteirona (1979). Maggie já era um rosto conhecido no teatro e no cinema quando foi escalada para viver a protagonista desta adaptação do livro de Muriel Spark.  O título nacional é bastante pejorativo (o livro é chamado A Primavera da Senhorita Jean Brodie) que tem o maior orgulho de ser solteira e investir em suas aventuras amorosas. Jean Brodie (Maggie Smith) considera estar no seu auge enquanto leciona História em uma escola somente para garotas. Ela tem uma forma bastante peculiar de passar seus conhecimentos, muitas vezes expondo seu olhar pessoal sobre os conteúdos de sua disciplina. Entre as alunas de sua classe, Jean escolhe um grupo seleto de meninas para que sejam suas seguidoras. São elas que costumam andar com ela pela cidade, desfrutando de sua companhia e visão peculiar de mundo. Algo que chama bastante atenção das  alunas e a vida amorosa da professora que, até então muito discreta, teve um caso com o professor casado de artes (o charmoso Robert Stephens, então marido de Maggie) e um namorico com o professor de música (Gordon Jackson). O triângulo amoroso desconjuntado oferece ao filme as cores de uma comédia romântica, mas que fica em segundo plano quando os aspectos mais controversos da personagem vem à tona. Jean é declaradamente simpatizante de Mussolini e sua influência entre as alunas oferece uma mistura bastante perigosa, cujas consequências vemos na reta final do filme. Não apenas a simpatia da professora pela extrema direita torna o filme dotado de polêmicas, mas a relação de uma aluna com um professor e uma cena de nudez demonstra que o filme de 1969 estava  disposto a desafiar as convenções da época. No entanto, a direção de Ronald Neame (veterano que iniciou seus trabalhos como diretor de fotografia em 1933) trata tudo com muita leveza, belíssima fotografia e um senso de humor bastante refinado que torna alguns diálogos divertidos até hoje. Maggie Smith está perfeita no papel título, despertando a simpatia da plateia mesmo que algumas de suas posturas sejam bastante condenáveis. Com o charme inteligente que a atriz confere à personagem, nos sentimos na pele de suas seguidoras, ainda que, por vezes, alguns pontos provoquem um choque em nossa relação com a personagem. Maggie já demonstrava aqui um estilo bastante próprio de atuar, com uma maneira pomposa de dizer as coisas mais absurdas que se tornaram a sua marca registrada. Entre cenas cômicas e momentos dramáticos, a personagem é um daqueles presentes que uma atriz sonha interpretar um dia. Embora seja um filme lançado há 65 anos, Primavera de Uma Solteirona tem uma esperteza que o torna especial até hoje - e o fato da personagem ser seduzida pelo discurso da extrema direita, oferece ao filme uma atualidade ainda mais inesperada. 

Primavera de Uma Solteirona (The Prime of Miss Jean Brodie / Reino Unido - 1969) de Ronald Neame com Maggie Smith, Gordon Jackson, Robert Stephens, Pamela Franklin, Celia Johnson, Diane Grayson e Shirley Steedman. ☻☻☻☻ 

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

KLÁSSIQO: Uma Mulher Sob Influência

Gena: tentando não surtar.

Mês passado nos despedimos de Gena Rowlands, uma das grandes atrizes do cinema, ao longo da carreira, Gena se consolidou como a grande musa dos filmes indies na segunda metade do século XX, principalmente por conta de sua parceria de longa data com o esposo, John Cassavetes. Os dois tinham uma química incrível dentro e fora das telas e fizeram história com uma parceria que rendeu vários filmes e prêmios para ambos. Um dos frutos mais celebrados dessa parceria é o clássico Uma Mulher Sob Influência que rendeu à ela sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz (a segunda veio com Gloria/1984, também dirigido por Cassavetes). A trama gira em torno de Mabel Longhetti (Gena Rowlands) que vive com o marido, Nick (Peter Falk) e os três filhos pequenos em uma casa confortável numa vida aparentemente tranquila em uma casa no subúrbio. Se à primeira vista aquela vida parece perfeita, Cassavetes resolve virar tudo do avesso ao revelar os bastidores daquela família. Aos poucos percebemos que Mabel não é uma mulher convencional. Dona de uma energia irrepreensível, ela é muito amorosa com os filhos, recebe às visitas com plena simpatia, mas por vezes ela ultrapassa o limite do que se considera convencional com posturas e comentários que nem sempre são bem vistos. Tudo indica que Mabel esteja com a saúde mental comprometida, mas nada que pareça incontornável. No entanto, a coisa se agrava sempre que o esposo está por perto e a tensa dinâmica entre os dois deixa a crise no casamento cada vez mais evidente. Já li várias resenhas sobre o filme, mas o mais interessante é que nenhuma delas me advertiu que o maior problema de Mabel parece ser o esposo. É visível que Mabel precisa de acompanhamento e de cuidados, mas a postura de seu marido é totalmente inadequada. Agressivo, grosseiro e ameaçador, a interpretação de Peter Falk me deixava preocupado sempre que ele aparecia em cena, ao ponto de questionarmos quem está mais à beira da loucura nessa história. Existe um contraste impressionante nos trabalhos de Falk e Rowlands, longe dele, as atitudes de Mabel possuem até uma leveza e desperta até a compreensão pelo desafio daquela mulher se manter na rotina de dona de casa, mas sempre que Nick está em cena, a tensão se eleva até às raias da explosão completa. É visível que ele só queria sossego quando chega do trabalho, mas a pressão exercida para que Mabel sufoque tudo o que está sentindo é bastante violenta. O trabalho de Gena Rowlands se torna o grande destaque por conta do misto de força, estranheza e vulnerabilidade que imprime à personagem, o que torna fácil para o espectador compreender as dores daquela mulher, especialmente naquele último ato em que ela retorna para a casa e toda a expectativa e cobrança que existe sobre ela se torna palpável em uma cena de partir o coração. Então vem aquele confronto final com as crianças tentando evitar o pior perante as ameaças do pai. A impressão é que vemos uma família se desintegrar diante da câmera - e o desespero impresso por Cassavetes (indicado ao Oscar de melhor direção pelo trabalho) só intensifica isso. Realista em seu tom cada vez mais áspero, Uma Mulher Sob Influência se tornou um clássico do cinema independente e colocou a performance de Gena entre uma das maiores da história do cinema. É de sufocante aquela última cena em que a câmera se afasta entre as cortinas como se anunciasse a perpetuação de um ciclo disfarçado na  resolução de um final aparentemente feliz.

Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence/EUA -1974) de John Cassavetes com Gena Rowlands, Peter Falk, Fred Draper, Lady Rowlands, George Dunn e Matthew Labyorteaux. ☻☻☻☻

domingo, 28 de julho de 2024

#FDS Esportivo: Carruagens de fogo

Charleson e Cross: rivalidade com respeito. 

Fechando nosso #FimDeSemana Esportivo está um filme que surpreendeu o mundo inteiro quando foi anunciado como o ganhador do Oscar de Melhor Filme em 1982. Naquele ano as apostas estavam em torno de Reds (ainda mais depois que o longa deu o Oscar de direção para Warren Beatty minutos antes), mas fico imaginando se a Academia (ainda mais daquele tempo) bancaria premiar um filme ambientado na Revolução Bolchevique. O grande público estava na torcida mesmo era para Os Caçadores da Arca Perdida, o clássico de aventura de Steven Spielberg que cravou Indiana Jones na história do cinema. O grande prêmio do cinema americano não foi para um nem para o outro, mas para uma produção inglesa que era vista como o azarão perante seus concorrentes. O filme conta a história real de dois  jovens atletas que sonhavam em se tornar medalhistas nas Olimpíadas de Paris de 1924 (um século atrás!). Eric Lidell (Ian Charleson) era um devoto cristão escocês que sonhava em ser missionário na China, mas que se dedica cada vez mais às corridas para incompreensão de sua esposa religiosa. A história de Lidell é contada paralelamente à de Harold Abrahams (Ben Cross), que sofre preconceito por seu judeu mesmo sendo aluno da prestigiada Universidade de Cambridge. O primeiro acredita que é seu amor a Deus que o faz ser tão rápido, o segundo acredita que se consagrar nas corridas trará o reconhecimento que sempre deseja junto aos seus pares. O diretor Hugh Hudson (falecido em 2023) realiza aqui seu segundo longa-metragem e encara o desafio de equilibrar e costurar a vida dos dois atletas na tela sem pender mais para um lado do que para o outro. O roteiro (também oscarizado) de Collin Welland insere alguns dilemas da vida dos personagens na trama, inclui também algumas implicâncias políticas de suas ações de forma que até a escolha de Sam Mussabrini (Ian Holm) para ser técnico de Abrahams gera polêmica. Muita gente critica o filme como um dos filmes menos estimulantes a ganharem o maior prêmio do cinema americano, muito se deve pela direção quadradinha de Hudson que evoca um cinemão clássico, mas um tanto sem personalidade. Esta sensação é ainda mais intensa na primeira meia hora de filme, em que a trama se estende demais na apresentação dos atletas de forma pouco empolgante, inclusive em seus relacionamentos amorosos. A situação melhora quando o filme aborda a intensificação dos treinos e a tensão das Olimpíadas (lembrando que a reprodução dos jogos merece destaque), aspectos que prendem mais a atenção do espectador. Charleson e Cross estão eficientes em cena, mas quem rouba a cena é Ian Holm (indicado ao Oscar de ator coadjuvante) como o técnico exigente (e no elenco vale destacar a presença de Brad Davis que posteriormente causou polêmica com seu trabalho em Querelle no ano seguinte). O longa também ganhou o Oscar de figurino (aspecto que se torna fundamental para a reconstituição de época). Obviamente que não posso deixar de mencionar a emblemática trilha sonora de Vangelis, que garantiu ao filme mais uma estatueta e se tornou uma espécie de trilha sonora informal das Olimpíadas. Não seria exagero afirmar que a trilha sonora ficou mais conhecida que o filme ao longo do tempo.

Carruagens de Fogo (Reino Unido / 1981) de Hugh Hudson com Ben Cross, Ian Charleson, Nicholas Farrell, Nigel Havers, Brad Davis, Daniel Gerroll, Lindsay Anderson, Nigel Davenport, Cheryl Campbell e Alice Krige. ☻☻☻

quarta-feira, 10 de julho de 2024

KlÁSSIQO: À Procura de Mr. Goodbar

Diane: personagem inspirada em história real.

Famosa por seus trabalhos em comédias, lembro que certa vez ao ser indagada sobre os desempenhos favoritos de sua carreira, Diane Keaton disse preferir suas personagens mais dramáticas, fazendo com que muita gente lembrasse de À Procura de Mr. Goodbar de Richard Brooks. O filme foi lançado no mesmo ano de sua atuação oscarizada por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), o papel no filme de Woody Allen lhe rendeu o Globo de Ouro de atriz em comédia, enquanto a mesma premiação a indicou ao prêmio de melhor atriz de drama pelo filme de Brooks. O duplo reconhecimento é mais do que um marco da versatilidade desta grande atriz, mas a fonte dos comentários de que seu Oscar foi por ter apresentado duas das performances femininas mais importantes daquele ano. O filme é uma adaptação do livro de Judith Rossner em que narrava a rotina da professora Roseann Quinn, uma mulher de 28 anos que lecionava para uma escola de crianças surdas de dia e de noite frequentava bares das redondezas a procura de parceiros. Nascida em uma família religiosa, Quinn não desejava se casar ou ter filhos, queria ser independente e relacionar-se com quem lhe interessasse. O movimento feminista estava em alta, mas infelizmente o mundo que Roseann desejava viver livremente ainda estava longe de  existir. Baseada nesta personagem real, a protagonista de À Procura de Mr. Goodbar é Theresa Dunn (Diane Keaton) que após se apaixonar por um professor casado, começa a repensar a forma de se relacionar com os homens de sua vida, a começar pelo seu pai (Richard Kiley) que torna insustentável a relação debaixo do mesmo teto. Na família, Theresa é mais próxima da irmã Katherine (Tuesday Weld, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que se casou e tem uma vida sexual agitada ao lado do marido. Ao longo do filme, Thery conhece vários homens, mas alguns recebem mais destaque em sua rotina, um é o instável Tony (Richard Gere) e o outro é o assistente social James (William Atherton), que se diz apaixonado por ela, se aproxima da família Dunn e deseja se casar com ela. Se um personifica uma vida de aventuras e incertezas, o outro  representa a vida tradicional da qual Theresa  tenta fugir. No entanto, o roteiro faz questão de repetir que embora esses dois homens pareçam diferentes, suas atitudes podem soar igualmente estranhas e ameaçadoras. Acho estranho quando dizem que a protagonista tinha uma vida dupla, afinal o filme apresenta sua vida profissional e pessoal, não havendo nada demais na forma como a personagem vive de acordo com cada um dos ambientes a que frequenta, no entanto, a ideia de que estes dois mundos possam se chocar a assombra um par de vezes. Em alguns momentos o filme utiliza o recurso de explorar a imaginação da personagem perante o que pode lhe acontecer no futuro, geralmente utilizando um tom cômico nessas abordagens e funciona muito bem. Embora o filme tenha rostos famosos em início de carreira (Gere, Atherton e Tom Berenger), quem carrega o filme nas costas é Diane Keaton que abraça sua personagem sem julgamentos e a apresenta como uma mulher que desejava mais do que a sociedade podia lhe oferecer e, por vezes, o álcool e as drogas lhe oferecia uma fuga da realidade dissonante às suas aspirações. A atriz está perfeita em cena em toda complexidade da personagem. O diretor Richard Brooks sempre teve gosto por histórias fortes e aqui seu trabalho é bastante seguro, seja na escrita do roteiro ou na direção que sabe mudar o tom quando necessário. Se você não conhece a história do filme e pretende assisti-lo alerta de SPOILER nas próximas linhas. Obviamente que o desfecho da história não foge do que aconteceu com Roseann Dunn e o diretor trata a cena final de forma aterradora, fazendo com que Theresa nos assombre como um  fantasma (Tom Berenger que dá vida ao algoz da personagem disse diversas vezes que teve pesadelos depois da cena). Há quem considere todo o alarde em torno do caso de Roseann um tom moralista sobre uma mulher que desejava viver sua sexualidade livremente. O mesmo acontece com o filme, mas visto hoje, com o distanciamento temporal de seu lançamento, À Procura de Mr. Goodbar apresenta uma abordagem arrepiante do feminicídio. Afinal, porque tanta agressividade masculina em torno da protagonista que se recusava a se contentar com o que seus amantes desejavam para ela? Vale lembrar que Madonna já disse que seu clipe Bad Girl, dirigido por David Fincher é inspirado nesse clássico underground do cinema. 

À Procura de Mr. Goodbar (Looking for Mr. Goodbar / EUa -1977) de Richard Brooks com Diane Keaton, Richard Gere, Tuesday Weld, William Atherton, Tom Berenger e Richard Kiley. ☻☻☻☻

quinta-feira, 13 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: Paris is Burning

Strike a Pose: registro histórico de um mundo então clandestino.
 

Para finalizar o Ciclo DiversidadeSXL desse ano, escolhi um filme que é um verdadeiro marco temporal. Assistir ao documentário Paris is Burning tem o efeito de uma viagem no tempo diferente, uma que te leva para um lugar que existia mas que era desconhecido da maioria das pessoas. O filme de estreia de Jeanne Livingston retrata o universo vibrante dos Ballrooms da Nova York oitentista. Frequentados sobretudo por drag queens, mulheres trans, gays afro-americanos e latinos. Os eventos eram competições acirradas de estilo, desfiles, batalhas de vogue e disputas em categorias diversas como Town and Country ou Butch Queen. O registro ressalta a importância dos Ballrooms para a construção da identidade de uma comunidade cansada de lidar com a exclusão e o preconceito. Naquele universo eles poderiam ser o que quisessem sem as limitações dos anos 1980, beldades trans poderiam ser divas das revistas de moda ou do cinema, jovens latinos poderiam ser executivos de terno indo trabalhar em Wall Street (e os figurinos do clipe Vogue da Madonna fizeram um novo sentido após perceber isso com o filme), a dura realidade de privações eram esquecidas naqueles momentos. É verdade que existiam discussões terríveis durante as competições e o filme mergulha em interpretações sobre essa necessidade de autoafirmação junto com  expressões que são usadas até hoje dentro do universo LGBTQIAPN+. O documentário nos apresenta figuras icônicas destes locais e explica o que era ser membro de casas famosas como Labeija, Pendavis e Extravaganza que se tornavam sobrenomes para quem fosse vencedor nas competições (uma ostentação talvez ainda maior do que os troféus recebidos). No entanto, o trabalho de Jeanne Livingston não deixa de abordar o lado menos festivo da realidade de pessoas rejeitadas por suas famílias e a necessidade de estabelecer novos laços entre seus pares. Aparecem sonhos de luxo e estrelato em oposição à uma realidade marcada por discriminação, poucas oportunidades e violência. Embora a cultura dos Ballrooms hoje seja mais conhecida, afinal serviu de inspiração para série Pose, para RuPaul's  Drag Race e até Madonna resgatou essa origem na apresentação da música Vogue durante sua Celebration Tour (aquele momento que contou com participação da Anitta em Copacabana), o filme demonstra como a descoberta do que era uma cultura underground de Nova York rendeu curiosidade da mídia. Falando em Vogue, a percepção que tenho das coreografias mudou completamente depois de ver o filme explica-las como se estivéssemos diante de uma verdadeira luta de ninjas. Disponível na MUBI, Paris is Burning ainda pode ser visto como uma verdadeira celebração, mas também como um registro histórico de um grupo de pessoas dispostas a construir uma realidade paralela em que se tornavam verdadeiras estrelas orgulhosas de não ter vergonha do que se é.

Paris is Burning (EUA - Reino Unido / 1990) de Jennie Livingston com Brooke Xtravaganza, André Christian, Dorian Corey, Paris Duprée, Pepper LaBeija, Willi Ninja, Octavia St. Laurent, Sol Pendavis e Freddie Pendavis. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 10 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: Orlando, A Mulher Imortal

Tilda: o masculino/feminino através dos séculos.
 
A escritora britânica Virgina Woolf (1882-1941) é um dos nomes mais reverenciados da literatura mundial, foi considerada uma voz revolucionária por abordar as restrições às mulheres na Inglaterra na sociedade vitoriana. Suas obras e frases cortantes causavam impacto em muita gente (quem nunca ouviu a célebre frase "Quem tem Medo de Virginia Woolf"? que virou até título de filme com Elizabeth Taylor). Virginia se tornou referência do feminismo de sua era e, ainda que fosse casada com o historiador Stephen Woolf, seu relacionamento com a poetisa Vita Sackville-West se tornou bastante intenso (como pode ser notado pelas cartas presentes na compilação The 50 Greatest Love Letters of All Time), o romance entre as duas também rendeu a inspiração para um dos livros mais famosos de Woolf: Orlando. Publicado em 1928, o livro conta a história do personagem que nasce homem, conquista prestígio na nobreza britânica em 1600, mas após uma visita da rainha Rainha Elizabeth I à sua casa, é condenado a permanecer eternamente jovem, atravessando os séculos experimentando mudanças de gênero e parceiros. Durante uma viagem à Turquia, Orlando acorda sendo uma mulher e a mudança altera a forma como enxerga o mundo e como o mundo o enxerga, criando novas perspectivas de vida para alguém que se descobre também imortal. As vivências da protagonista atravessam séculos, deflagrando as diferenças de tratamento dado a homens e mulheres, além do interesse de ambos por ela atravessando as mudanças na sociedade, mas também algumas marcas que permanecem. Adaptar uma obra dessas para o cinema não é tarefa fácil, mas a diretora Sally Potter realizou em 1992 esta adaptação com o auxílio luxuoso de Tilda Swinton no papel principal. Tilda já atuava desde os anos 1980, mas ainda estava longe da consagração que só viria no século XX, no entanto, já demonstrava ser uma potência na interpretação, sobretudo pela forma como se apropria da imagem andrógina para dar vida à Orlando. Ela está brilhante ao manter a essência da personagem entre as mudanças de gênero apresentadas na trama. É incrível como o filme atravessa trezentos anos em hora e meia de duração onde tudo serve para apresentar a passagem do tempo, os cenários, a maquiagem os cabelos e, especialmente, os figurinos que são de encher os olhos num trabalho genial da mestra Sandy Powell (que concorreu ao Oscar assim como a direção de arte do filme). As peças funcionam  não apenas para demarcar o gênero da protagonista, mas também para borra-los em meio aos adornos masculinos e femininos que se misturam através dos séculos. A ideia foi tão à frente do seu tempo que até hoje as peças são reverenciadas em exposições como a ocorrida no Metropolitan Museum of Art (o MET) em 2020. Quando o filme foi lançado em 1992, se tornou um tanto incompreendido e era comum comentar como a bissexualidade do protagonista atravessa os séculos, mas visto hoje, novas camadas são inseridas à obra, não apenas discussões sobre o sexismo que permanece na sociedade, mas também a forma como o filme aborda pontos sobre transexualidade, não-binariedade  e a sexualidade fluida (terminologias recentes, mas que Virginia já imaginava em sua obra há quase cem anos, aspecto que só demonstra o olhar aguçado da escritora sobre a sexualidade humana) pelo viés de uma narrativa que flerta com aspectos fantásticos como a juventude eterna e a imortalidade. Talvez pela história atravessar séculos em uma duração inacreditavelmente enxuta, o fluxo e o ritmo da narrativa provoquem estranhamento até hoje em alguns espectadores, mas aqueles que perceberem como a diretora faz todo o filme se curvar à história secular de seu protagonista (incluindo os toques de humor peculiares como as quebras da quarta parede feitas por Orlando), se sentirão bastante recompensados. Com o tempo o filme adquiriu uma outra curiosidade, o grande amor de Orlando é vivido pelo ator Billy Zane, que quatro anos depois se tornou um dos raros casos de atores gays a se assumirem em Hollywood.

Orlando, A Mulher Imortal (Orlando - Reino Unido /1992) de Sally Potter com Tilda Swinton, Quentin Crisp, Jimmy Somerville, Billy Zane, Simon Russell Beale e Anna Healy. ☻☻☻☻