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| Dean: filme de despedida. |
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
KLÁSSIQO: Vidas Amargas
sábado, 29 de agosto de 2026
PL►Y: 9 ¹/² Semanas de Amor
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| Kim e Mickey: relacionamento tóxico. |
quarta-feira, 29 de julho de 2026
KLÁSSIQO: Glória Feita de Sangue
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| Kirk: contra à pena de morte. |
domingo, 26 de julho de 2026
KLÁSSIQO: Lembranças de Hollywood
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| Meryl e Shirley: filha e mãe. |
domingo, 26 de abril de 2026
.Doc: Celulóide Secreto
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| James e Sal: nas entrelinhas. |
quinta-feira, 3 de julho de 2025
FILMED+: Cães de Aluguel
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| Os homens coloridos: cuidado, cães raivosos. |
domingo, 18 de maio de 2025
KLÁSSIQO: Onde Fica a Casa do Meu Amigo?
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| Babak: um clássico do cinema iraniano. |
Pode se dizer que Onde Fica a Casa do Meu Amigo de Abbas Kiarostami desencadeou uma onda de interesse pelos filmes iranianos. Nos anos seguintes vários filmes feitos no país receberam destaque mundial e seu tornaram cults com suas histórias singelas e realistas executadas para abordar temáticas amplas sobre aquele país. É a ideia do micro, falando do macro. Durante todo o longa o que vemos é a inocência e a amizade de duas crianças em confronto com o mundo dos adultos em suas asperezas. É assim que acompanhamos a jornada de Ahmed (Babak Ahmadpoor), um menino que desde a primeira cena sofre ao ver o amigo levar uma bronca do severo professor por não ter usado o caderno para fazer a lição. Kiarostami parece nos colocar no meio da agitação daquela sala de aula e nos deixa aflitos diante da situação, compartilhamos assim a mesma indignação do pequeno protagonista naquele contato com aquela personificação da autoridade e da disciplina. Acontece que na saída da escola naquele dia, Ahmed leva o caderno do amigo para casa por engano e ficara angustiado para entregá-lo. Se a mãe considera que aquela história é só uma desculpa pra os dois brincarem o dia todo, o garoto irá partir em uma verdadeira odisseia para encontrar a casa do amigo e entregar o caderno a tempo dele fazer a lição para o dia seguinte. A cada pessoa que o menino encontra, a cada situação que enfrenta, o que vemos é uma espécie de um denso encontro de gerações. O filme segue carregado da tensão de Ahmed (valorizada ainda mais pelos olhos reluzentes do menino que o interpreta) e a certa altura ficamos aflitos não apenas sobre a entrega do bendito caderno, mas também sobre seu paradeiro e seu retorno para a casa. A ideia de construir uma espécie de suspense a partir dos dramas de seus personagens se tornou uma marca do cinema iraniano e um dos motivos para se tornar tão envolvente, mesmo que os acontecimentos aqui soem dispersos, a tensão permanece até o fim. Teóricos e críticos de cinemas consideraram esta a primeira parte de uma trilogia na cinematografia de Kiarostami, que ficou conhecida como Trilogia Koker (o nome do vilarejo em que a trama acontece). No filme seguinte (E A Vida Continua/1992) vemos a busca dos meninos protagonistas de Onde Fica a Casa do Meu Amigo sob o receio de terem falecido no terremoto que aconteceu em 1990 que vitimou 50.000 pessoas ao norte do Irã e Através das Oliveiras retoma uma cena do segundo filme para construir uma narrativa em destaque. Kiarostami se tornou um os diretores mais importantes do cinema desde então.
Onde Fica a Casa do Meu Amigo (Khane-ye doust kodjast? / Irã - 1987) de Abas Kiarostami com Babak Ahmadpour, Ahmed Amadpour, Iran Outari, Khodabaksh Defai, Ayat Ansari e Teba Soleimani. ☻☻☻☻
sexta-feira, 21 de março de 2025
KLÁSSIQO: Eraserhead
sexta-feira, 31 de janeiro de 2025
KLÁSSIQO: Veludo Azul
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| Kyle e Isabella: quando sonho e pesadelo são universos em colisão. |
David Lynch tentava se recuperar do trauma que foi realizar a (primeira) versão cinematográfica de Duna (1984) para Dino de Laurentis após a aclamação por O Homem Elefante (1980). Se o seu segundo longa rendeu oito indicações ao Oscar, Duna só rendeu dores de cabeça e se tornou um filme (feito por encomenda) que o cineasta renega até hoje. Estava na hora de colocar novamente a carreira nos eixos e isso aconteceu com Veludo Azul, uma obra que se tornou um marco no estilo que o diretor adotaria dali em diante. Estão presentes as mudanças atmosféricas durante a narrativa, a mistura de sonho com pesadelos, além daquele jeitão que transpira um cinema clássico que está ali para ser virado do avesso. Desde o início, Lynch apresenta seus cenários como se fossem feitos de pura perfeição suburbana. Uma tranquilidade absoluta que é logo abalada com um personagem que é hospitalizado e, debaixo de toda aquela perfeição vemos um amontoado de besouros agitados digladiando. Este é o ponto de partida para a chegada de Jeffrey Beaumont (Kyle MacLahclan), um jovem que volta para a terra natal para cuidar da loja do pai. Eis que de volta ao lugar tão familiar e confortável, Jeffrey encontra uma orelha humana no gramado! Intrigado com aquela situação, ele procura a polícia e acaba se envolvendo com Sandy (Laura Dern), filha do detetive de polícia. Embora seja doce e comportada, Sandy sabe mais do que o pai imagina sobre o caso e acaba favorecendo o encontro do curioso Jeffrey com a bela Dorothy Valens (Isabella Rossellini), cantora de uma casa noturna que sofre um drama familiar por conta dos bandidos que a perseguem. Isso é o suficiente para que Lynch faça dois universos completamente diferentes colidirem. Se Jeffrey e Laura parecem pertencer a um filme clássico tradicional de romance entre jovens estudantes (e a aparência do casal colabora muito para isso, basta ver como Kyle tem a estampa de um galã das antigas e como Laura transpira a ingenuidade de uma mocinha clássica do cinema, ideia ampliada ainda mais por sua primeira banhada de luz), por outro lado, Dorothy habita o submundo, repleto de crimes e violência, mas não importa o que ela faça, ela parece estar presa naquele universo como se estivesse enclausurada em um pesadelo. Vale a pena dizer que Isabella (namorada de Lynch na época) solta faíscas na tela desde a primeira cena em que canta a faixa título (Blue Velvet que foi regravada até pela Lana Del Rey e gerou um clipe cheio de referência ao universo Lynchiano) e recebeu o prêmio de melhor atriz no Independent Spirit Awards. Sua presença banha o filme com uma aura incomum de sensualidade e vulnerabilidade, o que se beneficia ainda mais com a química potente apresentada ao lado de Kyle MacLachlan (que depois do mico de protagonizar Duna se firmou ao longo do tempo como muso de Lynch, estrelando as temporadas de Twin Peaks e outros projetos do cineasta). Em contrapartida ao triângulo amoroso apresentado, o filme conta com Dennis Hopper encarnando o bizarro Frank Booth, responsável pelas maiores atrocidades d. Quase quarenta anos após seu lançamento, Veludo Azul ainda chama atenção pela forma fluente com que trafega entre os gêneros cinematográficos e como sua aura de mistério é milimetricamente construída entre a beleza e a estranheza. Não por acaso, Lynch foi indicado ao Oscar de Melhor direção pelo seu trabalho, única categoria em que o o filme foi celebrado pela academia.
domingo, 15 de dezembro de 2024
FILMED+: Os Rapazes da Banda.
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| O elenco: do teatro para as telonas. |
sábado, 14 de dezembro de 2024
KLÁSSIQO: O Colecionador
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| Terence e Samantha: atuações premiadas. |
Após assistir recentemente à Teorema de Pasolini (1968), eu lembrei de outro filme com Terence Stamp que sempre tive curiosidade de assistir, mas que demorei muito para assistir. Trata-se de O Colecionador, filme adaptado do livro de John Fowles, produção que recebeu reconhecimento em sua época de lançamento - basta lembrar que seu casal protagonista foi premiado por suas interpretações no Festival de Cannes, que a atriz ganhou o Globo de Ouro de atriz dramática daquele ano e que o Oscar lembrou do filme nas categorias de melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor atriz. O livro de Fowles está entre os meus favoritos e minha relação com ele é bastante particular por conta da atmosfera tensa que constrói ao longo da narrativa, seja na primeira parte em que o personagem masculino conta a história ou na segunda em que a personagem feminina assume a voz da narrativa. Trabalhar com pontos de vistas diferentes em uma mesma obra não é tarefa fácil, mas Fowles cumpre a proposta com louvor e gera um resultado impactante. O roteiro de Stanley Mann e John Kohn não cai na armadilha de fazer o mesmo em sua transição para o cinema e opta por criar uma linha narrativa única, com ênfase nos momentos em que os dois personagens estão em cena, o que gera um resultado bastante eficiente para os admiradores da obra. A trama conta a história de Freddie Clegg (Terence Stamp), um homem comum que coleciona borboletas e que recebe uma fortuna que muda sua vida para sempre. Freddie compra um casarão afastado da cidade, uma residência adequada para que sua ideia mais sombria seja posta em prática. Faz algum tempo que ele admira Miranda (Samantha Eggar) à distância. O que poderia ser apenas uma história de amor platônico torna-se um pesadelo quando ele resolve rapta-la. Ele a leva para o casarão e a instala no porão, sem contato com o mundo exterior, ele espera convencê-la a se apaixonar por ele. A ideia absurda obviamente não dará certo e, enquanto ele segue o plano, ela tenta convencê-lo a deixa-la ir embora e retomar sua vida. A dinâmica entre os dois segue em tentativas dele agradá-la sem que sua mente doentia se dê conta de que a ideia de um "romance" já começa errada em sua raiz, ao mesmo tempo que ela procura negociar sua liberdade, mesmo que aos poucos ela tenha cada vez mais certeza que as insegurança daquele homem é motivada pela loucura. Para um filme lançado em 1965 pode se dizer que envelheceu muito bem na forma como constrói a narrativa cheia de suspense amparada pela dinâmica entre os dois personagens, interpretados de forma marcante por Terence e Samantha. Ele se torou um ícone por sua aparência de galã somada àquelas expressões mínimas que revelam um turbilhão de emoções por dentro, já Samantha não se contenta em interpretar uma mocinha indefesa, nutrindo sua personagem com a força e a inteligência necessárias para desafiar os planos daquele homem. O porão da casa remete claramente aos clássicos do terror e a narrativa sabe como alimentar a tensão claustrofóbica que existe na estranha relação dos dois. A única coisa que me incomoda é a trilha sonora persistente que por vezes se torna irritante, um pequeno problema perante um filme que, de vez em quando, aparece nas listas de melhores suspenses da história do cinema. Em tempos em que relacionamentos tóxicos e abusivos estão em pauta, O Colecionador permanece atual.
O Colecionador (The Collector / Reino Unido - EUA / 1965) de William Wyler com Terence Stamp, Samantha Eggar, Mona Washbourne e Maurice Dallimore. ☻☻☻☻
sábado, 30 de novembro de 2024
KLÁSSIQO: A Ternura dos Lobos
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| Kurt e sua presa: arrepiante história real. |
sábado, 23 de novembro de 2024
KLÁSSIQO: Teorema
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| Stamp: o sedutor misterioso de Pasolini. |
Um teorema é uma proposição que é demonstrada por raciocínios lógicos, partindo de dados ou de hipóteses. Quando Pasolini inicia seu Teorema ele apresenta uma entrevista em meio a um bando de pessoas sobre um operário que recebe a empresa de herança do patrão. A ideia gera discussões e teorias antes que sejamos apresentados à uma família burguesa e sua boa vida. O ano é 1968 e no meio do luxo em que o empresário (Massimo Girotti) vive com a bela esposa (Silvana Mangano) e o casal de filhos, (Andrés José Cruz Sooublette e Anne Wiazemsky) existe um bocado de tédio. Uma esterilidade que tentam disfarçar com roupas de luxo, festas e jantares com seus convidados igualmente ricos. Eis que em um deles conhecemos um visitante (Terence Stamp) sobre o qual ninguém sabe muita coisa. Ele se torna cada vez mais próximo da família e se torna amigo do filho para dias depois já estar dividindo o quarto com ele. Existe um interesse generalizado por aquele rapaz de origem diferente dos que vivem naquela casa, tanto que logo todos e todas, a começar pela criada (Laura Betti), serão seduzidos por ele. Colabora muito para o jogo de sedução o jeitão sempre misterioso do inglês Terence Stamp, então com trinta anos e com aqueles olhos que parecem desbravar os segredos da alma de qualquer um. Na primeira parte do filme, cada um dos personagens terá o prazer de momentos de intimidade com o moço, até que na segunda parte ele precisa ir embora sem maiores explicações e todos precisam lidar com sua ausência, buscando novos rumos e soluções para a rotina entediante de suas vidas que não conseguem mais voltar a ser o que era antes. Acho que falei demais sobre o filme, mas o que Pasolini constrói aqui é uma alegoria sobre a relação indissociável entre burguesia e proletariado, havendo um caráter deliciosamente subversivo na criatividade inquieta do cineasta ao inserir o sexo como um ponto de inversão na relação de poder apresentada entre as classes do filme. Diante da ausência do visitante os caminhos seguem por rumos inesperados, seja pela arte ou pela morte, mas sem perder o caráter de surto após os personagens vivenciarem seus desejos mais recalcados. Existe um tanto de culpa, assim como um flerte com o divino e o profano no desfecho de tudo isso. É uma ideia tão interessante que influencia obras até hoje. Vendo o filme lembrei da música da Legião Urbana ("Não vá embora, fique um pouco mais, ninguém sabe fazer o que você me faz. É exagero e pode até não ser. O que você consegue, ninguém sabe fazer"...) e que enquanto muita gente apontava tudo o que Saltburn (2023) tinha de O Talentoso Ripley (1999), cinéfilos mais antenados ressaltavam o quanto o filme de Emerald Fennell tinha de Teorema. Embora ela inverta a ausência de sua trama, as referências ainda são muito evidentes, alcançando intenções e resultados diferentes. Teorema é considerado por muitos a obra-prima do cineasta italiano que sempre adorou uma polêmica, aqui ele opta por uma linguagem mais concisa e econômica, com poucos diálogos e longos silêncios, as intenções ficam nas entrelinhas até o desfecho repleto de angústia.
Teorema (Itália / 1968 ) de Pier Paolo Pasolini com Terence Stamp, Silvana Mangano, Massimo Girotti, Laura Betti, Andrés José Cruz Sooublette e Anne Wiazemsky. ☻☻☻☻
domingo, 20 de outubro de 2024
KLÁSSIQO: Possessão
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| Sam e Isabelle: a separação como um filme de terror. |
Certa vez em uma conversa sobre toda a confusão que foi para Andrzej Zulawski finalizar seu ambicioso O Globo de Prata (1988), um amigo comentou como era ingrato que um diretor de um filme premiado no Festival de Cannes ter que passar por tudo aquilo. O filme premiado em questão era Possessão, que concedeu à Isabelle Adjani o prêmio de melhor atriz em 1981. Aquela foi a primeira vez que ouvi falar do filme de terror dirigido pelo diretor que recebeu status de cult ao longo do tempo. Recentemente começaram a falar de um remake estrelado por Robert Pattinson e as reclamações de que a nova versão ficaria aquém do original começaram a borbulhar. Obviamente que minha curiosidade em torno do filme se tornou incontrolável nas últimas semanas, mas confesso que foi difícil encontrar o filme para assistir e, após encontrá-lo, foi preciso de um preparo especial para encarar uma produção de intensidade impressionante na abordagem de um casamento em crise. Mark (Sam Neill) volta de viagem e percebe que sua mulher não está mais disposta a manter o casamento. Cansada dos longos períodos em que cuida da casa e do filho pequeno sozinha, ela percebeu que deseja algo mais para sua vida. No entanto, o esposo não se conforma e tenta discutir a relação com a mulher, que sequer consegue olhar para ele. A presença dele já parece ser um gatilho para Ana, que está à beira de um surto. Só piora quando Mark imagina que ela possui um amante e o ciúme começa a deixa-lo cada vez mais agressivo. As discussões são constantes e se intensificam com gritos, ofensas, violência física e automutilzação. Zulawski constrói uma atmosfera densa, claustrofóbica e sufocante com a interação entre seus dois atores e o horror daquele relacionamento entre pessoas que parecem realmente possuídas, esse drama de emoções descontroladas já daria conta de fazer do filme um clássico do terror, mas existe algo mais. Sempre com uma estranheza no ar e olhares sinistros de Ana, existem pistas de que não se trata apenas de um relacionamento que chegou no limite. Quando um detetive é contratado para seguir Ana, o roteiro entrega que existe algo realmente de outro mundo afetando a trama. A estupenda Isabelle Adjani está assustadora no filme (e após o prêmio em Cannes recebeu o César de Melhor Atriz) com um domínio físico invejável. A atriz oscila as expressões entre o diabólico e o vulnerável e tem uma das cenas solo mais assustadoras da história do cinema na famosa cena do metrô. Até hoje, sua performance é bastante perturbadora e, se o Oscar não tivesse tanto preconceito com os filmes do gênero, ela teria sido indicada e premiada com sua primeira estatueta. Sam Neill também está ótimo em cena, com pinta de galã com tendência ao surto, ele está bastante convincente como o esposo que tenta entender o que acontece com a esposa enquanto se perde pelo caminho.O filme evita o colocar no papel de marido bonzinho, fazendo com que seus defeitos acentuem ainda mais as causas daquele casamento em frangalhos. Zulawski buscou inspiração nos efeitos de seu próprio divórcio para construir o filme, mas ao invés de lavar a roupa suja, criou uma obra que vai além, abordando a separação em outras esferas. Não por acaso o filme é ambientado na Alemanha ainda separada pelo muro de Berlim e suas neuras, além disso, os próprios personagens aos poucos se separam de si mesmos (ao ponto de gerar enigmáticos "duplos" ao longo da sessão). Com tanta estranheza, o filme não escorrega nem quando apresenta o verdadeiro amante da protagonista, mas erra a mão quando envereda por cenas de ação que não combinam em nada com resto da narrativa.
Possessão (Possession / França - Alemanha Ocidental) de Andrzej Zulawski com Isabelle Adjani, Sam Neill, Heuinz Bennent, Margit Carstensen, Carl Duering e Johanna Hofer. ☻☻☻☻
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
KLÁSSIQO: Primavera de Uma Solteirona
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| Maggie e suas pupilas: a influencer de seu tempo. |
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
KLÁSSIQO: Uma Mulher Sob Influência
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| Gena: tentando não surtar. |
Mês passado nos despedimos de Gena Rowlands, uma das grandes atrizes do cinema, ao longo da carreira, Gena se consolidou como a grande musa dos filmes indies na segunda metade do século XX, principalmente por conta de sua parceria de longa data com o esposo, John Cassavetes. Os dois tinham uma química incrível dentro e fora das telas e fizeram história com uma parceria que rendeu vários filmes e prêmios para ambos. Um dos frutos mais celebrados dessa parceria é o clássico Uma Mulher Sob Influência que rendeu à ela sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz (a segunda veio com Gloria/1984, também dirigido por Cassavetes). A trama gira em torno de Mabel Longhetti (Gena Rowlands) que vive com o marido, Nick (Peter Falk) e os três filhos pequenos em uma casa confortável numa vida aparentemente tranquila em uma casa no subúrbio. Se à primeira vista aquela vida parece perfeita, Cassavetes resolve virar tudo do avesso ao revelar os bastidores daquela família. Aos poucos percebemos que Mabel não é uma mulher convencional. Dona de uma energia irrepreensível, ela é muito amorosa com os filhos, recebe às visitas com plena simpatia, mas por vezes ela ultrapassa o limite do que se considera convencional com posturas e comentários que nem sempre são bem vistos. Tudo indica que Mabel esteja com a saúde mental comprometida, mas nada que pareça incontornável. No entanto, a coisa se agrava sempre que o esposo está por perto e a tensa dinâmica entre os dois deixa a crise no casamento cada vez mais evidente. Já li várias resenhas sobre o filme, mas o mais interessante é que nenhuma delas me advertiu que o maior problema de Mabel parece ser o esposo. É visível que Mabel precisa de acompanhamento e de cuidados, mas a postura de seu marido é totalmente inadequada. Agressivo, grosseiro e ameaçador, a interpretação de Peter Falk me deixava preocupado sempre que ele aparecia em cena, ao ponto de questionarmos quem está mais à beira da loucura nessa história. Existe um contraste impressionante nos trabalhos de Falk e Rowlands, longe dele, as atitudes de Mabel possuem até uma leveza e desperta até a compreensão pelo desafio daquela mulher se manter na rotina de dona de casa, mas sempre que Nick está em cena, a tensão se eleva até às raias da explosão completa. É visível que ele só queria sossego quando chega do trabalho, mas a pressão exercida para que Mabel sufoque tudo o que está sentindo é bastante violenta. O trabalho de Gena Rowlands se torna o grande destaque por conta do misto de força, estranheza e vulnerabilidade que imprime à personagem, o que torna fácil para o espectador compreender as dores daquela mulher, especialmente naquele último ato em que ela retorna para a casa e toda a expectativa e cobrança que existe sobre ela se torna palpável em uma cena de partir o coração. Então vem aquele confronto final com as crianças tentando evitar o pior perante as ameaças do pai. A impressão é que vemos uma família se desintegrar diante da câmera - e o desespero impresso por Cassavetes (indicado ao Oscar de melhor direção pelo trabalho) só intensifica isso. Realista em seu tom cada vez mais áspero, Uma Mulher Sob Influência se tornou um clássico do cinema independente e colocou a performance de Gena entre uma das maiores da história do cinema. É de sufocante aquela última cena em que a câmera se afasta entre as cortinas como se anunciasse a perpetuação de um ciclo disfarçado na resolução de um final aparentemente feliz.
Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence/EUA -1974) de John Cassavetes com Gena Rowlands, Peter Falk, Fred Draper, Lady Rowlands, George Dunn e Matthew Labyorteaux. ☻☻☻☻
domingo, 28 de julho de 2024
#FDS Esportivo: Carruagens de fogo
Fechando nosso #FimDeSemana Esportivo está um filme que surpreendeu o mundo inteiro quando foi anunciado como o ganhador do Oscar de Melhor Filme em 1982. Naquele ano as apostas estavam em torno de Reds (ainda mais depois que o longa deu o Oscar de direção para Warren Beatty minutos antes), mas fico imaginando se a Academia (ainda mais daquele tempo) bancaria premiar um filme ambientado na Revolução Bolchevique. O grande público estava na torcida mesmo era para Os Caçadores da Arca Perdida, o clássico de aventura de Steven Spielberg que cravou Indiana Jones na história do cinema. O grande prêmio do cinema americano não foi para um nem para o outro, mas para uma produção inglesa que era vista como o azarão perante seus concorrentes. O filme conta a história real de dois jovens atletas que sonhavam em se tornar medalhistas nas Olimpíadas de Paris de 1924 (um século atrás!). Eric Lidell (Ian Charleson) era um devoto cristão escocês que sonhava em ser missionário na China, mas que se dedica cada vez mais às corridas para incompreensão de sua esposa religiosa. A história de Lidell é contada paralelamente à de Harold Abrahams (Ben Cross), que sofre preconceito por seu judeu mesmo sendo aluno da prestigiada Universidade de Cambridge. O primeiro acredita que é seu amor a Deus que o faz ser tão rápido, o segundo acredita que se consagrar nas corridas trará o reconhecimento que sempre deseja junto aos seus pares. O diretor Hugh Hudson (falecido em 2023) realiza aqui seu segundo longa-metragem e encara o desafio de equilibrar e costurar a vida dos dois atletas na tela sem pender mais para um lado do que para o outro. O roteiro (também oscarizado) de Collin Welland insere alguns dilemas da vida dos personagens na trama, inclui também algumas implicâncias políticas de suas ações de forma que até a escolha de Sam Mussabrini (Ian Holm) para ser técnico de Abrahams gera polêmica. Muita gente critica o filme como um dos filmes menos estimulantes a ganharem o maior prêmio do cinema americano, muito se deve pela direção quadradinha de Hudson que evoca um cinemão clássico, mas um tanto sem personalidade. Esta sensação é ainda mais intensa na primeira meia hora de filme, em que a trama se estende demais na apresentação dos atletas de forma pouco empolgante, inclusive em seus relacionamentos amorosos. A situação melhora quando o filme aborda a intensificação dos treinos e a tensão das Olimpíadas (lembrando que a reprodução dos jogos merece destaque), aspectos que prendem mais a atenção do espectador. Charleson e Cross estão eficientes em cena, mas quem rouba a cena é Ian Holm (indicado ao Oscar de ator coadjuvante) como o técnico exigente (e no elenco vale destacar a presença de Brad Davis que posteriormente causou polêmica com seu trabalho em Querelle no ano seguinte). O longa também ganhou o Oscar de figurino (aspecto que se torna fundamental para a reconstituição de época). Obviamente que não posso deixar de mencionar a emblemática trilha sonora de Vangelis, que garantiu ao filme mais uma estatueta e se tornou uma espécie de trilha sonora informal das Olimpíadas. Não seria exagero afirmar que a trilha sonora ficou mais conhecida que o filme ao longo do tempo.
Carruagens de Fogo (Reino Unido / 1981) de Hugh Hudson com Ben Cross, Ian Charleson, Nicholas Farrell, Nigel Havers, Brad Davis, Daniel Gerroll, Lindsay Anderson, Nigel Davenport, Cheryl Campbell e Alice Krige. ☻☻☻
quarta-feira, 10 de julho de 2024
KlÁSSIQO: À Procura de Mr. Goodbar
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| Diane: personagem inspirada em história real. |
Famosa por seus trabalhos em comédias, lembro que certa vez ao ser indagada sobre os desempenhos favoritos de sua carreira, Diane Keaton disse preferir suas personagens mais dramáticas, fazendo com que muita gente lembrasse de À Procura de Mr. Goodbar de Richard Brooks. O filme foi lançado no mesmo ano de sua atuação oscarizada por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), o papel no filme de Woody Allen lhe rendeu o Globo de Ouro de atriz em comédia, enquanto a mesma premiação a indicou ao prêmio de melhor atriz de drama pelo filme de Brooks. O duplo reconhecimento é mais do que um marco da versatilidade desta grande atriz, mas a fonte dos comentários de que seu Oscar foi por ter apresentado duas das performances femininas mais importantes daquele ano. O filme é uma adaptação do livro de Judith Rossner em que narrava a rotina da professora Roseann Quinn, uma mulher de 28 anos que lecionava para uma escola de crianças surdas de dia e de noite frequentava bares das redondezas a procura de parceiros. Nascida em uma família religiosa, Quinn não desejava se casar ou ter filhos, queria ser independente e relacionar-se com quem lhe interessasse. O movimento feminista estava em alta, mas infelizmente o mundo que Roseann desejava viver livremente ainda estava longe de existir. Baseada nesta personagem real, a protagonista de À Procura de Mr. Goodbar é Theresa Dunn (Diane Keaton) que após se apaixonar por um professor casado, começa a repensar a forma de se relacionar com os homens de sua vida, a começar pelo seu pai (Richard Kiley) que torna insustentável a relação debaixo do mesmo teto. Na família, Theresa é mais próxima da irmã Katherine (Tuesday Weld, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que se casou e tem uma vida sexual agitada ao lado do marido. Ao longo do filme, Thery conhece vários homens, mas alguns recebem mais destaque em sua rotina, um é o instável Tony (Richard Gere) e o outro é o assistente social James (William Atherton), que se diz apaixonado por ela, se aproxima da família Dunn e deseja se casar com ela. Se um personifica uma vida de aventuras e incertezas, o outro representa a vida tradicional da qual Theresa tenta fugir. No entanto, o roteiro faz questão de repetir que embora esses dois homens pareçam diferentes, suas atitudes podem soar igualmente estranhas e ameaçadoras. Acho estranho quando dizem que a protagonista tinha uma vida dupla, afinal o filme apresenta sua vida profissional e pessoal, não havendo nada demais na forma como a personagem vive de acordo com cada um dos ambientes a que frequenta, no entanto, a ideia de que estes dois mundos possam se chocar a assombra um par de vezes. Em alguns momentos o filme utiliza o recurso de explorar a imaginação da personagem perante o que pode lhe acontecer no futuro, geralmente utilizando um tom cômico nessas abordagens e funciona muito bem. Embora o filme tenha rostos famosos em início de carreira (Gere, Atherton e Tom Berenger), quem carrega o filme nas costas é Diane Keaton que abraça sua personagem sem julgamentos e a apresenta como uma mulher que desejava mais do que a sociedade podia lhe oferecer e, por vezes, o álcool e as drogas lhe oferecia uma fuga da realidade dissonante às suas aspirações. A atriz está perfeita em cena em toda complexidade da personagem. O diretor Richard Brooks sempre teve gosto por histórias fortes e aqui seu trabalho é bastante seguro, seja na escrita do roteiro ou na direção que sabe mudar o tom quando necessário. Se você não conhece a história do filme e pretende assisti-lo alerta de SPOILER nas próximas linhas. Obviamente que o desfecho da história não foge do que aconteceu com Roseann Dunn e o diretor trata a cena final de forma aterradora, fazendo com que Theresa nos assombre como um fantasma (Tom Berenger que dá vida ao algoz da personagem disse diversas vezes que teve pesadelos depois da cena). Há quem considere todo o alarde em torno do caso de Roseann um tom moralista sobre uma mulher que desejava viver sua sexualidade livremente. O mesmo acontece com o filme, mas visto hoje, com o distanciamento temporal de seu lançamento, À Procura de Mr. Goodbar apresenta uma abordagem arrepiante do feminicídio. Afinal, porque tanta agressividade masculina em torno da protagonista que se recusava a se contentar com o que seus amantes desejavam para ela? Vale lembrar que Madonna já disse que seu clipe Bad Girl, dirigido por David Fincher é inspirado nesse clássico underground do cinema.
À Procura de Mr. Goodbar (Looking for Mr. Goodbar / EUa -1977) de Richard Brooks com Diane Keaton, Richard Gere, Tuesday Weld, William Atherton, Tom Berenger e Richard Kiley. ☻☻☻☻
quinta-feira, 13 de junho de 2024
CICLO DIVERSIDADESXL: Paris is Burning
Para finalizar o Ciclo DiversidadeSXL desse ano, escolhi um filme que é um verdadeiro marco temporal. Assistir ao documentário Paris is Burning tem o efeito de uma viagem no tempo diferente, uma que te leva para um lugar que existia mas que era desconhecido da maioria das pessoas. O filme de estreia de Jeanne Livingston retrata o universo vibrante dos Ballrooms da Nova York oitentista. Frequentados sobretudo por drag queens, mulheres trans, gays afro-americanos e latinos. Os eventos eram competições acirradas de estilo, desfiles, batalhas de vogue e disputas em categorias diversas como Town and Country ou Butch Queen. O registro ressalta a importância dos Ballrooms para a construção da identidade de uma comunidade cansada de lidar com a exclusão e o preconceito. Naquele universo eles poderiam ser o que quisessem sem as limitações dos anos 1980, beldades trans poderiam ser divas das revistas de moda ou do cinema, jovens latinos poderiam ser executivos de terno indo trabalhar em Wall Street (e os figurinos do clipe Vogue da Madonna fizeram um novo sentido após perceber isso com o filme), a dura realidade de privações eram esquecidas naqueles momentos. É verdade que existiam discussões terríveis durante as competições e o filme mergulha em interpretações sobre essa necessidade de autoafirmação junto com expressões que são usadas até hoje dentro do universo LGBTQIAPN+. O documentário nos apresenta figuras icônicas destes locais e explica o que era ser membro de casas famosas como Labeija, Pendavis e Extravaganza que se tornavam sobrenomes para quem fosse vencedor nas competições (uma ostentação talvez ainda maior do que os troféus recebidos). No entanto, o trabalho de Jeanne Livingston não deixa de abordar o lado menos festivo da realidade de pessoas rejeitadas por suas famílias e a necessidade de estabelecer novos laços entre seus pares. Aparecem sonhos de luxo e estrelato em oposição à uma realidade marcada por discriminação, poucas oportunidades e violência. Embora a cultura dos Ballrooms hoje seja mais conhecida, afinal serviu de inspiração para série Pose, para RuPaul's Drag Race e até Madonna resgatou essa origem na apresentação da música Vogue durante sua Celebration Tour (aquele momento que contou com participação da Anitta em Copacabana), o filme demonstra como a descoberta do que era uma cultura underground de Nova York rendeu curiosidade da mídia. Falando em Vogue, a percepção que tenho das coreografias mudou completamente depois de ver o filme explica-las como se estivéssemos diante de uma verdadeira luta de ninjas. Disponível na MUBI, Paris is Burning ainda pode ser visto como uma verdadeira celebração, mas também como um registro histórico de um grupo de pessoas dispostas a construir uma realidade paralela em que se tornavam verdadeiras estrelas orgulhosas de não ter vergonha do que se é.
Paris is Burning (EUA - Reino Unido / 1990) de Jennie Livingston com Brooke Xtravaganza, André Christian, Dorian Corey, Paris Duprée, Pepper LaBeija, Willi Ninja, Octavia St. Laurent, Sol Pendavis e Freddie Pendavis. ☻☻☻☻☻

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