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terça-feira, 29 de setembro de 2020

Ciclo Ghibli: Contos de Terramar / Memórias de Ontem / Sussurros do Coração

Contos de Terramar: como desperdiçar um dragão. 

Ao longo dos meses de fevereiro, março e abril, a Netflix disponibilizou vinte e um filmes do Estúdios Ghibli em seu acervo. O Gibli foi fundado em 1985 pelos animadores Hayao Miyazaki e Isao Takahata, além do produtor Toshio Suzuki. Algumas delas já tiveram postagens aqui no blog, mas desde então, todo mês, três animações recebiam destaque aqui no blog . Vale ressaltar que os filmes foram verdadeiros presentes para os tempos de pandemia e  a procura ainda maior dos serviços de streaming. Esta é a última postagem do Ciclo Ghibli e escolhi começar com o filme mais criticado do estúdio: Contos de Terramar. O longa é baseado nos livros da escritora americana Ursula K. Le Guin que havia chamado atenção de Hayao Miyazaki, mas a escritora não achou uma boa ideia levar sua história para a telona. Com a projeção mundial de A Viagem de Chihiro (2001), a escritora mudou de ideia. Porém, Hayao já estava envolvido com outros projetos e deixou a adaptação nas mãos do filho, Goro Myiazaki, que fez deste seu longa de estreia. Existe um certo consenso de que este é o pior filme com o selo Ghibli. Embora tenha o traço meticuloso e o uso de cores deslumbrantes o filme é confuso e mal resolvido. A história tem uma ambientação épica de inspiração medieval para contar a história do príncipe Arren, que antes mesmo de ser devidamente apresentado foge do seu reino após matar o próprio pai. Ele acaba acolhido por um feiticeiro que vive isolado com uma mulher e uma criança que tem um grande segredo escondido, logo o pequeno Arren terá que salva-los de um feiticeiro. Apressado, denso e desprovido de humor, Contos de Terramar tem grande dificuldade em encontrar seu público com uma história simples demais para agradar os adultos e assustadora demais para os pequenos. Embora deixe claro que a trama ocorre em um mundo cheio de características próprias, tudo é tão jogado no roteiro que fica difícil compreender este universo. Some isso à inexperiência do diretor novato que a coisa só complica na ausência de carisma dos personagens. O fracasso repercutiu na relação de Hayao com o filho e expôs feridas na relação entre os dois. Com sabor de decepção é o tipo de filme que todos preferem esquecer que foi feito. O filme é o total oposto de Memórias de Ontem, o sexto filme lançado pelo Estúdio Ghibli. Baseado no mangá de mesmo nome, a animação é dirigida por Isao Takahata e conta a história de Taeko, uma mulher de vinte e sete anos que trabalha em um emprego burocrático em Tokyo. Nascida e criada na capital japonesa, Taeko sempre teve inveja das amigas que podiam ir para o campo visitar seus parentes nas férias. Seu sonho era viajar para longe da cidade e conhecer outro estilo de vida. Este é o ponto de partida para que Taeko se transforme em nossa narradora e conte várias situações de sua infância. Das férias na cidade, passando por desventuras na escola, sua dificuldade com a matemática, seus problemas de relacionamento com o pai severo e com a irmã intolerante, o resultado é um retrato bastante real de uma menina no Japão. 

Memórias de Ontem: a hora de seguir em frente. 

É curioso que estes momentos na infância são mostrados com bastante melancolia, mas que funciona em contraponto com a Taeko adulta, que visita o campo nas férias (e a animação urbana quase sem cores se transforma lindamente naquele novo cenário). No entanto, Taeko ainda precisa fazer ajustes com sua forma de encarar a vida, deixar a criança para trás e fazer escolhas que podem transformar seu futuro pra sempre. Takahata faz um filme com tom e cadência de live action, tratando seus personagens  como se fossem pessoas de carne e osso (com destaque para as cenas finais enquanto rolam os créditos) e capricha na construção de sua protagonista. Embora o filme pese a mão nas tristezas da infância da menina, Memórias de Ontem é um filme muito agradável de se assistir, que consegue tornar envolventes até a primeira vez em que menina prova abacaxi (apresentada como uma fruta exótica dos países quentes)! Seguindo uma linha parecida está Sussurros do Coração que também ambienta sua história em uma escola, mas enfatiza ainda mais o tom de romance. O filme conta a história de Shizuku, uma menina que adora livros, muito interessada nos estudos e no acervo da escola. Um dia, através dos cartões da biblioteca, ela descobre que um menino também compartilha este mesmo gosto pela leitura e ela se torna disposta a conhecê-lo. O filme segue o ritmo de comédia romântica, com um casal juvenil que não se entende, mas que aos poucos começa a se dar conta dos sentimentos que possuem um pelo outro. O filme possui uma narrativa bastante leve e bem humorada, mas que consegue criar até um mistério em torno de um gato na vizinhança. Nas entrelinhas existe uma história sobre sonhos e amadurecimento, seja sobre a menina que deseja se tornar escritora ou o menino que pretende se especializar na produção de violinos. Temas como amor, saudade, distância e crescimento pontuam a história que se desenvolve de forma bastante fluida. O filme foi o primeiro do Estúdio que não foi dirigido por  Mizyazaki ou Takahata, que confiaram no talento do então assistente Yoshifumi Kondô, que faleceu em 1998 e deixou este como seu primeiro e único filme na direção. Vale destacar que o filme traz referências sobre vários filmes do estúdio, como  a imagem de Totoro (que se tornou a marca do estúdio) em um livro, o Barão felino que apareceria posteriormente em O Reino dos Gatos (2002) e o relógio de Porco Rosso (1992). Para completar existe até uma versão da música "Take me home, Country road" que destaca como Tokyo estava se tornando uma selva de concreto. Sussurros do Coração é o filme que encerra o Ciclo Ghibli aqui no blog. 

Sussurros do Coração: comédia romântica adolescente.  

Contos de Terramar (Gedo senki / Japão - 2006) de Goro Miyazaki com vozes de  Aoi Teshima, Buta Sugawara e Jun Fubuki. 

Memórias de Ontem (Omohide poro poro / Japão 1991) de Isao Takahata com vozes de  Miki Imai, Toshirô Yanagiba e Yoko Honna. ☻☻☻☻

Sussurros do Coração (Mimi wo sumaseba / Japão - 1995) de Yoshifumi Kondô com vozes de Yoko Honna, Issey Takahashi e Takashi Tachibana. ☻☻☻☻

domingo, 30 de agosto de 2020

CICLO GHIBLI: Nausicaä do Vale do Vento / O Castelo Animado / Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar

Nausicäa: futuro pós-apocalíptico. 

Nausicäa é o segundo filme de Hayao Miyazaki, não chegou a ser produzido pelo Estúdio Ghibli, mas com o tempo recebeu o selo pela notoriedade que seu criador recebeu após o seu sucesso. Após  O Castelo de Cagliostro (1979), Hayao demonstra aqui mais claramente o estilo que o consagraria em todo o mundo: o uso exuberante das cores, as ambientações impressionantes, o traço caprichado, os protagonistas heroicos e a relação do homem com a natureza. O filme agradou público e crítica e alavancou de vez a carreira do cineasta. No entanto, Nausicäa do Vale do Vento investe num gênero que Hayao não revisitou em sua carreira: a ficção científica. Curiosamente a trama é baseada no mangá criada pelo próprio Miyazaki dois anos antes e conta uma história ambientada mil anos no futuro em que vemos a Terra devastada por séculos de poluição e destruição da natureza, o que gerou o chamado "colapso da civilização industrial". O resultado é um mundo praticamente coberto pelo que chamam de "Mar Podre", espécie de floresta tóxica que produz gases venenosos habitada por insetos gigantes capazes de destruir tudo que está pela frente - o que coloca ainda mais em risco a vida dos humanos sobreviventes. No meio deste mundo destruído, existe o vale do título, um lugar que ainda abriga uma espécie de paraíso natural, no qual o humanos procuram viver de forma harmônica com a fauna e a flora que restam. Nausicäa é a heroína que lança um olhar diferente sobre o que a maioria dos personagens teme ao longo da história. Disposta a conhecer melhor este estranho mundo novo o filme cria um embate entre ela e outra personagem que tem outros planos para a humanidade se impor novamente naquele mundo. Existe aí um verdadeira disputa pelo poder através da força bruta. Este embate revela bastante semelhança com os temas abordados mais tarde em outro filme do cineasta, Princesa Mononoke (1997) em que a relação do homem com a natureza também está no centro da trama só que abordado de forma ainda mais agressiva. A animação capricha nos cenários, nos figurinos e nas cenas de ação com naves espaciais e aquele início no deserto que lembra a estética de Star Wars. Nausicäa é um filme cheio de energia e mantem o tom de aventura durante suas quase duas horas de duração. Constrói um mundo próprio tão envolvente quanto assustador e se mantem atual pelo valor de suas entrelinhas. É interessante lembrar dos filmes de Hayao citados aqui e depois assistir a O Castelo Animado (2004), o nono longa metragem do cineasta. Lançado após o sucesso arrebatador de A Viagem de Chihiro (2001), o filme investe mais uma vez em uma fantasia radical (só que desta vez baseada na obra da britânica Diana Wynne Jones). O filme conta a história de  Sophie, a filha de um chapeleiro que é amaldiçoada por uma bruxa e recebe a aparência de uma senhora de noventa anos.

O Castelo Animado: Benjamin Button feminino?

Tentando reverter a maldição ela acaba encontrando o castelo e seres mágicos em seu caminho (um mago, uma chama falante, um espantalho flutuante....), o filme então investe naquele grupo de personagens que tentam mudar seus destinos enquanto Sophie rejuvenesce aos poucos em cada cena. Com toques de romance, aventura e bruxaria o filme caprichando no tom fantástico que é atravessado por uma verdadeira guerra. Particularmente considero o ponto alto do filme o próprio castelo. Sua concepção como um amontoado de sucata em constante movimento resulta bastante exuberante. Enquanto caminha perdendo peças pelo caminho, ele guarda segredos e passagens secretas e já torna por si só interessante. Seu visual é tão milimetricamente calculado em sua tridimensionalidade que impressiona sempre que está em cena. Apesar de ser totalmente surreal, ele parece visualmente realista ao extremo. Embora o roteiro não seja tão bem amarrado, o filme se torna bastante envolvente e, por vezes, até assustador. Quem leu o livro da escritora britânica pontuou que o final ficou bastante diferente, o que transforma a história em uma trama sobre superação e perdão. Diante de suas qualidades, o filme concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza e foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, se tornando um clássico do diretor japonês. Logo em seguida o diretor lançou outro filme que concorreu ao prêmio máximo do Festival de Veneza, mas ficou de fora do Oscar. Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar deve ser o filme mais leve do diretor, apesar de possuir elementos mágicos, seu tom de fábula com toques de surrealismo o torna um programa bastante agradável de assistir. Ponyo parte de uma ideia simples e encantadora em sua ambição de ser apenas uma fantasia sobre amizade, mas que aos poucos ganha contornos de uma fábula sobre nossa relação com a natureza. Ela conta a história de um peixinho que é encontrada por um menino de bom coração, chamado Sosuke e por conta de um incidente no tempo que os dois conviveram, o peixinho se transforma em uma menina e parte para reencontrar seu amigo. No entanto, esta proximidade entre os dois viola algumas regras importantes no convívio entre o mundo marinho e o mundo dos humanos, o que gera consequências surreais na história. O filme tem a maior cara de conto de fadas (e em vários momentos me fez lembrar de A Pequena Sereia/1989 da Disney, embora siga por um caminho completamente diferente) e capricha no uso do mar para criar cenas impressionantes (prova disso é a cena do mar agitado perseguindo o carro de Sosuke e sua mãe), mas mesmo quando o filme apresenta situações que poderiam ser trágicas, o diretor opta por um caminho mais leve e mágico em sua proposta.  O resultado parece mais voltado para as crianças, mas os adultos devem apreciar o excelente uso de cores em contraste com o azul e o verde que alcança momentos deslumbrantes em sua execução.  

Ponyo: aventura em ritmo de conto de fadas. 

Nausicäa do Vale do Vento (Kaze no tani no Naushika / Japão - 1984) de Hayao Miyazaki com vozes de  Sumi Shimamoto, Mahito Tsujimura, Hisako Kyôda. ☻☻

O Castelo Animado (Hauru no ogoku shiro / Japão - 2004) de Hayao Miyazaki com vozes de  Chieko Baishô, Takuya Kimura e Tatsuya Gashûin. ☻☻

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo / Japão - 2008) de Hayao Miyazako com vozes de Tomoko Yamakagushi, Kazushige Nagashima, Yuria Nara e George Tokoro. ☻☻ 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Ciclo Ghibli: O Castelo no Céu / A Grande Batalha dos Guaxinins / O Túmulo dos Vaga-Lumes

O Castelo no Céu: Miyazaki e a paixão pelos ares.

O Castelo no Céu (1986) é o terceiro longa-metragem do diretor Hayao Miyazaki e retrata uma das paixões do cineasta: a aviação. Miyazaki tem verdadeiro fascínio por voar e este aspecto é presente em vários de seus filmes e aqui serve a uma mistura de fantasia com belíssimas imagens que serviu para pavimentar o início dos Estúdios Ghibli com o sucesso de uma história despretensiosa. A trama começa com a menina Sheeta sendo perseguida por piratas (e posteriormente por militares) que estão atrás de uma pedra misteriosa presente em seu colar. Ao fugir, a menina é salva por um menino órfão que trabalha com mineração, o adorável Pazu. O menino também é inventor nas horas vagas e seu sonho é inventar uma máquina que o possa levar para além das nuvens - onde acredita existir uma lendária ilha flutuante que, na verdade, parece mais um castelo. No meio das várias fugas realizadas, esta ilha servirá de esconderijo para os dois (mas não por muito tempo). O tal Castelo no Céu é o responsável pelos momentos mais deslumbrantes do filme, que demonstra desde o início que os animadores Ghibli sempre capricharam no visual marcante do estúdio. Além do tom de aventura em torno da amizade do casalzinho, o filme tem ainda um subtexto sobre tecnologias e os perigos que podem aparecer a partir de seu mau uso, mas nada que se aprofunde muito. Destaque para alguns momentos contemplativos e para a líder dos piratas Dola, que aos poucos demonstra mais camadas do que você imagina - ao contrário do vilão Muska, que deixa a desejar. Singelo e divertido, o filme  termina como uma aventura juvenil cativante. Outro filme que também segue a linha aventuresca é PomPoko - A Grande Batalha dos Guaxinins (1994), só que de forma bem mais, digamos, ousada. Apesar de ser protagonizada por bichos fofos, o diretor Isao Takahata demonstra mais uma vez sua busca por novos "parâmetros" nas produções do famoso estúdio. Seus filmes costumam ser os mais fora da caixinha entre seus colegas e aqui existe uma verdadeira coleção de cenas em que demonstra isso. Inspirado na lenda dos tanukis, os guaxinins travessos, o filme conta a história da luta destes animais contra o avanço das cidades sobre as paisagens naturais. Por conta da invasão humana ao habitat natural dos animais, algumas pessoas podem considerar determinadas cenas pesadas para a criançada e... são mesmo! 

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Pom-Poko: metamorfores, batalhas e testículos em ação. 

Além de ter cenas que remetem diretamente aos filmes de terror (eu mesmo fiquei arrepiado com as pessoas sem rosto), o filme ainda ressalta bastante os testículos dos guaxinins no decorrer da história. Estes momentos fazem parte dos trechos mais surreais (e um tanto bizarros) da história que conta com guaxinins capazes de se metamorfosear e adquirir características mais diversas (incluindo fingir que são seres humanos). Vale lembrar que o filme tem dois grupos de guaxinins distintos, os pacíficos e os violentos que partem para o ataque sem pensar direito no que estão fazendo... mas nem só de planos e ataques vivem os personagens, eles também namoram e o período de acasalamento também tem destaque na histórias (mas nada explícito). No entanto, a irreverência não é um problema no filme, seu ponto fraco é a narrativa irregular, que nunca prende realmente a atenção do público. O público mais maduro vai aproveitar mais a sessão e o senso de humor bastante peculiar desta trama com com contornos ecológicos. O cineasta Isao Takahata já tinha alcançado a fama com seu filme O Túmulo dos Vagalumes (1988) cultuado clássico do estúdio. Ambientado na Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha dois irmãos, Seita e a pequena Setsuko, os dois tem a vida totalmente mudada após um bombardeio sobre o território japonês. Eles moravam com a mãe e aguardavam o retorno do pai marinheiro, quando de repente tiveram que morar com uma tia e... depois a situação das crianças só piora. No entanto, desde o início já sabemos o desfecho que a história terá e resta ao espectador acompanhar a sucessão de tristezas na vida dos personagens. Ao retratar os horrores da guerra, mesmo em se tratando de uma animação, Isao Takahata não hesita em ser sombrio. Dos corpos que aparecem em cena, às imagens que retratam os feridos, a fome e a violência está toda ali com a densidade de um filme live action para gente grande (nem precisa dizer que o filme foi um fiasco ao entrar em cartaz nos EUA). Baseado no livro de  Akiyuki Nosaka, o filme é um verdadeiro marco se imaginarmos que ele foi lançado no final dos anos 1980 (época em que animações ainda eram sinônimos de filmes para criança). O resultado é um filme de guerra singelo, comovente e bastante doloroso - especialmente pela forma bastante verossímil como retrata o amor entre os irmãos no meio da tragédia. O resultado é um retrato intimista e contundente sobre o Japão devastado pela guerra. Ao contrário dos citados anteriormente, O Túmulo dos Vagalumes não está no pacote dos Estúdios Ghibli presente na Netflix, mas é um filme que vale a pena procurar quando você estiver disposto a chorar alguns litros diante da TV.

O Túmulo dos Vagalumes: filme de guerra de respeito. 

O Castelo no Céu (Tenkû no shiro Rapyuta / Japão - 1986) de Hayao Miyazaki com vozes de  Mayumi Tanaka, Keiko Yokozawa, Kotoe Hatsui. 

PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins (Heisei tanuki gassen ponpoko/Japão - 1994) de Isao Takahata com vozes de  Shinchô Kokontei, Makoto Nonomura e Yuriko Ishida. 

O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no haka / Japão - 1988) de Isao Takahata com vozes de  Tsutomu Tatsumi, Ayano Shiraishi e Akemi Yamaguch. 

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Ciclo GHIBLI: O Castelo de Cagliostro / Princesa Mononoke / O Conto da Princesa Kaguya

O Castelo de Cagliostro: entre nobres e bandidos. 

O Castelo de Cagliostro é o primeiro filme de Hayao Miyazaki e não foi lançado pelos Estúdios Ghibli, a propósito foi o único filme dele antes de fundar o estúdio. No entanto, para deleite dos fãs, o longa entrou em cartaz na Netflix junto com o pacote do estúdio. Fiquei bastante surpreso em descobrir que esta animação tem a minha idade (!!) e comprova como Miyazaki pensa as animações de forma bastante diferente há muito tempo, já que enquanto a maioria das animações eram voltadas para a criançada e linguagem de contos de fada, esta aqui é completamente diferente ao girar em torno de um bandido que cai de amores por uma mocinha comprometida (com um duque nada nobre). O protagonista é Lupin III, um ladrão que em uma fuga se depara com uma noiva fugindo de um castelo - e ao vê-la prisioneira do Duque de Cagliostro resolve livra-la do vilão. Este é o ponto de partida que revela aos poucos uma conspiração, misturada com trapalhadas, segredos e coadjuvantes interessantes (como o parceiro Jigen, o detetive Zenibata, uma espiã, um espadachim... que cria alguns momentos bastante absurdos). Baseado nos mangás de sucesso da série Lupin III (desenhada por Monkey Punch e inspirada nos livros de Maurice Blanc), o resultado é uma aventura bastante empolgante, colorida, divertida e com um ritmo frenético. Aqui vários aspectos que seriam ainda mais destacados nos filmes subsequentes de Miyazaki já apareciam: os detalhes dos cenários, a escolha das cores e a ambiguidade dos personagens (especialmente do protagonista). O trabalho se torna ainda mais notável quando percebemos que ele pode ser apreciado por pessoas de todas as idades -  já que ainda que tenha armas em cena, ele não é violento e apela para o pastelão em vários momentos. Sucesso nos estúdios Tokyo Movie Shinsha, o longa foi considerado cult perante o grande público, chegando a rivalizar com o Akira (1988) em sua popularidade. Dezoito anos depois, o cineasta lançou Princesa Mononoke (1997), seu sétimo longa metragem. Seu estilo já era reconhecido e consagrado à frente dos Estúdios Ghibli quando surpreendeu muita gente com um filme mais agressivo e visualmente arrebatador. O filme se passa o período Muromachi da história do Japão (século XIV até o século XV) e somos apresentados ao príncipe Ashitaka, que tem sua aldeia atacada por uma criatura possuída e, ao proteger seu povo, o príncipe acaba amaldiçoado. Ciente de que a morte se aproxima ele parte em busca de uma cura através da floresta. É comum a crensça de que a floresta é habitada por espíritos e deuses que a protegem, ainda mais aqui, num período em que homens e animais deixavam a harmonia de lado (especialmente perante  a destruição que se iniciava). 

Princesa Mononoke: roteiro bastante atual. 

Conforme busca a cura, Ashitaka encontra a misteriosa Princesa Mononoke, uma menina criada por lobos que se tornou uma verdadeira guerreira e não confia na raça humana - e para ela confiar cada vez menos temos por perto a Lady Eboshi, que vive em guerra com os deuses e criaturas da floresta que impedem o avanço da cidade criada por ela. Entre as duas, Ashitaka demonstra ser um sujeito virtuoso e conciliador naquele conflito fadado à catástrofe. Ainda que a história tenha vários aspectos vinculados à espiritualidade, à cultura japonesa e até mesmo à fantasia, o roteiro possui uma forte crítica à forma predatória como lidamos com a natureza, como se a única função dela fosse curvar-se à vontade da humanidade. Destaque também para a importância que as mulheres possuem na história com suas lideranças em lados opostos. Lançado há 23 anos, Princesa Mononoke,  além de ser uma obra deslumbrante, mantém seu discurso atual até os dias de hoje (motivo que somado à sua estética agressiva pode ter causado grande estranhamento no ano de seu lançamento). Já O Conto da Princesa Kaguya (2014) segue um estilo completamente diferente dentro dos Estúdios Ghibli, mas igualmente arrebatador. Baseado num popular conto japonês (O Conto do Cortador de Bambu), a história muda o foco da história e se concentra no olhar da menina que nasceu de um broto de bambu e cresceu rapidamente. Adotada por um casal de camponeses idosos, ela cresce na montanha em uma vida simples e feliz com seus pais e amigos. No entanto, após encontrar ouro, seu pai investe cada vez mais para que a menina se torne uma princesa. Desde o início é perceptível como a protagonista fica infeliz ao ter que se mudar tão abruptamente. Ela até gosta da casa mais espaçosa, dos pequenos luxos que tem ao seu redor, mas logo começa a sentir-se desconfortável com a educação que começa a receber para se tornar uma verdadeira princesa. De aprender a tocar um instrumento, novas posturas, entonação de voz, jeito de se vestir, maquiagem, sobrancelhas, o que vemos é como a educação da mulher pode ser opressora na sociedade japonesa. O filme critica esta situação de forma sutil, através de muita poesia visual e algumas cenas bem humoradas (especialmente quando envolvem os pretendentes da princesa). aos poucos o que era conforto se torna uma verdadeira prisão de aparências para Kaguya. Ainda que o filme enverede por uma conclusão mística, a ideia de que as vontades da protagonista não são levadas em consideração ao longo da trama é bastante forte e emociona em vários momentos. Vale destacar que o estilo de animação adotado aqui com traços mais simples e uso de tons pasteis, geralmente com uso de aquarela, aprimora o que o diretor Isao Takahata utilizara em Meus Vizinhos, os Yamadas (1999). Tanto estilo e sensibilidade rendeu ao filme uma indicação ao Oscar de Melhor Animação em 2015.

O Conto da Princesa Kaguya: delicadeza e assunto sério. 

O Castelo de Cagliostro (Rupan sansei: Kariosutoro no shiro / Japão - 1979) de Hayao Miyazaki com vozes de Yasuo Yamada, Eiko Masuyama, Kiyoshi Kobayashi, Makio Inoue e Gorô Naya. ☻☻

Princesa Mononoke (Mononoke-hime / Japão - 1997) de Hayao Miyazaki com vozes de Yôji Matsuda, Akihiro Miwa, Masahiko Nishimura e Akira Nagoya. ☻☻

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari / Japão - 2014) de Isao Takahata com vozes de Aki Asakura, Kengo Kôra, Takeo Chii, Nobuko Miyamoto e Tomoko Tabata. ☻☻

sábado, 23 de maio de 2020

Ciclo Ghibli: Porco Rosso / Eu Posso Ouvir o Oceano / As Memórias de Marnie

Porco Rosso: um feitiço que pouco importa. 

Imagine a história de um aviador caçador de recompensas na Itália nos anos 1930 que já teve seus amores e muita história para contar. Inclua alguns serviços heroicos em sua rotina e um rival sempre disposto a competir. Acrescente também uma menina que se torna fã deste aviador, ao ponto de quase terem um romance proibido. Agora imagina que este aviador com ares de conquistador sofre de uma maldição que o fez ganhar a aparência de um porco. Porco Rosso (1992) é o oitavo filme de Hayao Miyazaki, que aqui envereda pelo tom de aventura entre guerras apresentando um herói bastante incomum. O que mais impressiona no filme é que apesar de seus elementos fantásticos não se trata de um comédia, mas de um legítimo filme de aventura com cenas aéreas de tirar o fôlego de tão bem elaboradas. O filme ainda tem a curiosidade de ser falado em japonês, com um protagonista americano vivendo na Itália! O que dá à história um tom de não se passar num local real definido, mas num mundo paralelo mesmo. Hayao desenvolve seu protagonista cheio de climas e toques de filme noir (as roupas, as trilhas, alguns diálogos) e o mais engraçado é que o filme não se preocupa em explicar como o aviador Marco virou Porco por conta de um feitiço, fazendo parecer que foi só um toque para deixar a história mais original e com um curioso clima de romance fabuloso no ar - especialmente quando aparece a amiga Gina na história. Com cenas de batalhas aéreas e o colorido sempre caprichado dos Estudios Ghibli, o filme se tornou um dos mais cultuados de seu diretor (mesmo que alguns aspectos sobre o personagem merecessem maior desenvolvimento). Eu Posso Ouvir o Oceano (1993) já segue outra linha, calcado em dramas adolescentes, o filme deixa os elementos fantásticos de lado para falar sobre relacionamentos com a família, amizades e interesses amorosos. Ambientado em uma escola da pequena cidade litorânea de Koichi, a trama conta a história de dois amigos que se apaixonam pela estudante recém chegada, Rikako. Aos poucos Taku e Yutaka se aproximam da garota e não deixam de perceber que ela carrega um pouco de tristeza em seu comportamento. Conforme a trama avança, a menina se aproxima mais de Taku, mas as inseguranças e segredos acabam tornando o relacionamento entre os dois um tanto complicado.

Eu Posso Ouvir o Oceano: romance adolescente. 

O roteiro aqui capricha na ambiguidade dos personagens que são bastante complexos e difíceis de classificar, mesmo porque parecem sempre estar escondendo o que sentem. A trama segue de forma simples e um tanto melancólica, com cenários urbanos caprichados e alguns ângulos que nos fazem até esquecer que estamos diante de uma animação. Baseado no mangá de mesmo nome de Saeko Himuro, o diretor Tomomi Mochizuki (que trabalha com animes para a televisão desde o início dos anos 1980) cria um longa realista, enxuto e com certo sabor de nostalgia. Produzido para a TV japonesa, o filme mantem o padrão de qualidade do estúdio, com uma paleta de cores que oscila entre cores frias e quentes, compondo um cenário urbano nas cores das emoções de seus personagens. Outro filme com selo Ghibli que vale a pena conferir na Netflix é As Memórias de Marnie (2014), filme premiadíssimo e que foi indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2015. O longa conta uma história com toques espirituais baseada no livro de Joan G. Robinson. Aqui conhecemos Anna, uma garota de doze anos que ainda tenta se adaptar ao fato de ser adotada. Com problemas para fazer amigos e demonstrar suas emoções, ela acaba sendo enviada para visitar parentes de sua nova mãe no interior. Ela acaba conhecendo Marnie, uma menina que mora num casarão afastado e misterioso. O laço de amizade entre as duas se torna cada vez mais forte, no entanto, desde o início notamos que existe algo muito particular em sua nova amiga. Se já existe um segredo (que a plateia desconfia o que seja desde o início e que se descobre aos poucos), quando o filme chega ao seu desfecho existe outro muito maior que faz toda a diferença e torna o filme ainda mais comovente. Belo e sensível em sua execução, chega a ser redundante falar que a beleza da animação é complementada com suas paisagens caprichadas em cores litorâneas. Dirigido pela dupla James Simone e Hiromasa Yonebyashi (diretor de O Mundo dos Pequeninos/2010) o filme se tornou um sucesso mundial e levou muita gente às lágrimas. Imperdível.  

As Memórias de Marnie: beleza indicada ao Oscar. 


Porco Rosso (Korenai no Buta / Japão - 1992) de Hayao Miyazaki com vozes de  Shûichirô Moriyama, Tokiko Katô e Bunshi Katsura Vi ☻☻

Eu Posso Ouvir o Oceano (Umi Ga Kokiery / Japão - 1993) de Tomomi Mochizuki com vozes de  Nobuo Tobita, Toshihiko Seki e Yoko Sakamoto. ☻☻

As Memórias de Marnie (Omoide No Mânî / Japão - 2014) de James Simone e Hiromasa Yonebyashi com vozes de  Sara Takatsuki, Kasumi Arimura e Nanako Matsushima. ☻☻

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CICLO GHIBLI: O Mundo dos Pequeninos / Da Colina Kokuriko / Meus Vizinhos, os Yamadas

O Mundo dos Pequeninos: detalhes ampliados. 

Continuando minha apreciação agradecida à Netflix por disponibilizar os filmes do estúdio Ghibli, comentarei mais três filmes deste irresistível pacote de animações japonesas. Começarei esta postagem por O Mundo dos Pequeninos que é a versão de Hirosama Yonebayashi para o livro de Mary Norton (que já foi adaptado em Os Pequeninos/1997, filme britânico com John Goodman e Jim Broadbent do qual ninguém lembra). Quando vi a pequenina Arietty a minha referência era o clássico A Polegarzinha, mas esta história segue um caminho completamente diferente. Arietty e sua família vivem escondidos num casarão há anos. A sobrevivência deles depende se catar coisas durante a noite e a rotina é abalada com a chegada de novos moradores naquela casa. Entre os novos moradores está um menino com problemas de saúde que acredita que não viverá muito. Ele que descobre a existência da pequenina Arietty na casa e a amizade entre os dois acabará colocando em risco a vida da família da pequenina. A partir de uma história de amizade, o filme compõe uma bela história de fantasia que é puro pretexto para o detalhamento. que é a marca registrada do estúdio, aparecer de forma ampliada. As plantas, os objetos em miniatura, os insetos, as gotas... tudo aparece em um capricho que transforma o filme num espetáculo visual irresistível. A protagonista também é puro carisma em suas aventuras e coragem! Aqui Yonebaiashi já demonstra grande sensibilidade ao lidar com seus personagens (e ele aprofundou isso ainda mais no premiado As Memórias de Marnie/2014 que foi indicado ao Oscar, além de seu trabalho mais recente Heróis Modestos/2018, ambos na Netflix). O Mundo dos Pequeninos é um filme irresistível e ainda lança um olhar bastante crítico na forma como algumas pessoas tendem a achar que outros seres podem ser tratados como brinquedos. Muito mais dramático é Da Colina Kokuriko, segundo filme dirigido pelo filho de Hayao Miyasaki. O longa tem o maior jeito de drama adolescente com sua trama ambientada em uma escola e um segredo envolvendo o casal principal. A animação conta a história de um movimento estudantil para salvar um prédio antigo da demolição sob o pretexto da construção de instalações para as Olimpíadas de 1964. Porém, o que é apresentado como trama principal serve como pano de fundo para um roteiro que aborda valorização busca pelas origens e valorização da história.

Da Colina Kokuriko: drama romântico adolescente. 

A mocinha do filme é a doce Umi, que é responsável pelos afazeres domésticos da casa em que reside e que acaba se aproximando de um líder estudantil chamado Shun. Os dois ficam cada vez mais próximos, até que paira uma suspeita de parentesco entre os dois. Este é o ponto de partida para que o passado das famílias de ambos seja esmiuçado e o romance entre os dois é abordado de forma muito sutil, mas ousa em sugerir uma situação de incesto. Mais uma vez o visual do filme é um grande destaque, com detalhes urbanos e na paisagem natural, com destaque para a vista que Umi possui da colina do título, que lhe proporciona uma verdadeira pintura em movimento da baía com os navios que chegam e vão embora. Não por acaso, o mar tem importância fundamental no roteiro que ainda encontra espaço para críticas sociais da busca pela modernidade sem reconhecer o valor do passado. Não por acaso, a trama contra com muitos personagens adolescentes em defesa de um espaço que não pode ser destruído. Depois que o primeiro filme de Goro Miyasaki (Contos de Terramar/2011) não vingou e foi considerado pretensioso demais,  este aqui contou com maior participação de seu pai na confecção do roteiro (baseado num mangá da década de 1980) e no conceito, sendo melhor recebido pela crítica mundial. Bem mais simples é a história de Meus Vizinhos, os Yamadas (1999) que acompanha a família do título em uma série de situações cotidianas de forma que mistura doses de poesia, comédia e fantasia. O resultado é bem gostoso de assistir, embora a ausência de um fio condutor deixe a impressão de assistirmos vários episódios de um desenho animado. Ambientado num Japão contemporâneo, o traço do filme é mais simples, quase um rascunho, o que se torna uma brincadeira em vários momentos em sua estética quase infantil, mas bastante estilizada. O uso de aquarela também confere ao filme um visual bastante particular e o mais curioso é que este foi o primeiro filme totalmente digital do Estúdio Ghibli. O filme traz um grupo de personagens bastante simpático e faz humor com temas como casamento, relação pai e filho, o cotidiano de marido e esposa, comidas, domínio do controle remoto, esquecimento e até vizinhos barulhentos. O filme de Isao Takahata é uma adaptação de uma popular tirinha de jornal japonesa criada por Hisaichi Ishii. 

Os Yamadas: humor, poesia e fantasia (reparem o caracol gigante). 

O Mundo dos Pequeninos (Kari-gurashi no Arietti - Japão / 2010) de Hirosama Yonebayashi com vozes de Moises Arias, Bridgit Mendler, David Henrie, Carol Burnett, Will Arnett, Amy Poehler e Saoirse Ronan e Tom Holland. ☻☻☻☻

Da Colina Kokuriko (Kokuriko-zaka kara - Japão /  2011 ) de Goro Miyazaki com vozes de Masami Nagasawa, Jun'ichi Okada, Keiko Takeshida e Jun Fubuki. ☻☻☻☻

Meus Vizinhos, os Yamadas (Hôhokekyo tonari no Yamada-kun - Japão / 1999) de Isao Takahata com vozes de  Yukiji Asaoka, Tôru Masuoka e Masako Araki. ☻☻

segunda-feira, 30 de março de 2020

Ciclo Ghibli: Meu Amigo Totoro / O Serviço de Entregas da Kiki / O Reino dos Gatos

Totoro: amizade mais que especial. 

Ótima pedida para este período de confinamento é assistir aos filmes do Estúdio Ghibli que estão disponíveis na Netflix! São mais de uma dezena de filmes do consagrado Estúdio japonês de Hayao Miyazaki (e com previsão de outros aparecerem em breve). Eu estou assistindo e para não me estender muito irei comentar três por vez. Vou escrever sobre os três primeiros que assisti (sim, já tem outros prestes a serem comentados), o primeiro é o classicão Meu Amigo Totoro (que eu pronunciei a vida inteira como sendo Totoró...) lançado em 1988 (e lançado por aqui somente em 1995!!!), o longa foi um verdadeiro marco para o estúdio. O filme conta a história de duas meninas que sofrem muito com a ausência da mãe e, ao se mudarem, descobrem que moram perto de uma floresta mágica, cheia de criaturas peculiares. A mais impressionante delas é Totoro, que parece um enorme coelho de pelúcia e que tem a bondade proporcional à sua altura. A serenidade do personagem faz com que as meninas atravessem a fase difícil com mais leveza e torna o filme um programa delicioso para todas as idades! O filme é um belo exemplo do estilo Ghibli, o traço é fofo, os desenhos cheios de detalhes e somado às cores, existe a composição de um verdadeiro espetáculo visual. Existe uma nitidez impressionante em cada quadro e uma verdadeira perfeição em juntar o ambiente rural em que as meninas vivem com o toque de fantasia que as criaturas trazem para narrativa. O filme fez tanto sucesso que até hoje os brinquedos inspirados nos personagens são vendidos no Japão. Belo e sensível, Totoro é uma influência para o cinema até hoje, basta ver Okja (2017) de Bong Joon-ho que você irá perceber algumas referências. Hayao Miyazaki arrasa! No ano seguinte, o diretor lançou O Serviço de Entregas de Kiki (1989) outro filme saboroso de assistir! Desta vez saem as criaturas fofas e entra em cena uma bruxinha adolescente que precisa escolher uma cidade para viver. Kiki tem apenas 13 anos e conforme manda a tradição bruxa, ela precisa encontrar um lugar para viver longe da família. Assim, ela parte com uma vassoura e seu fiel gato preto falante, Jiji, para uma cidade no litoral. No início a situação é meio difícil por ela perceber que a cidade não simpatiza muito com bruxas, mas após ela criar um eficiente serviço de entregas ela começa a conquistar seu espaço. Miyazaki acrescenta à esta história sentimentos típicos da adolescência: a busca pela identidade, as inseguranças, o primeiro amor, a sensação de perda... vários outros elementos estão presentes e abordados com muito humor.

Kiki e Jiji: a bruxice como heroísmo. 

 A protagonista é uma graça em suas virtudes e defeitos, além de ser rodeada por coadjuvantes muito carismáticos, seja o casal dono da padaria, uma amiga pintora ou o pequeno inventor chamado Tombo  (de visual que parece inspirado nos quadrinhos de Onde Está Wally?). Tombo revela outro aspecto interessante do filme, se Kiki tem lá os seus feitiços (os quais ainda precisa aprender a lidar) ela está rodeada de pessoas que também tem lá suas formas de fazerem mágica no dia a dia, seja o padeiro com as massas, a mãe de Kiki com experiências químicas ou as invenções do amigo um tanto desastrado. Miyazaki conta esta história com cores serenas e alguns momentos de aventura que funcionam muito bem. Particularmente gosto muito das cenas em que a menina ainda está aprendendo a dominar a vassoura em seus voos, tenho a impressão que aprender a voar em uma vassoura é exatamente daquele jeito. Para terminar esta modesta resenha, Reino dos Gatos é um filme irresistível para quem curte felinos. A história gira em torno de uma menina que não consegue se encaixar bem na escola, mas tem bom coração suficiente para ajudar os gatinhos que cruzam seu caminho. Ela não faz ideia que a gratidão dos bichanos irá coloca-la em maus lençóis, a começar pelos presentes indesejados que todo dono de gato conhecem bem (como um bando de camundongos mortos, por exemplo...). Tanta devoção à menina irá leva-la para um mundo diferente, onde os gatos são os únicos habitantes e criam até uma conspiração perante o rei. A trama é bastante viajante e pode causar mais estranhamento do que gargalhadas, mas é uma boa pedida, principalmente pelas surpresas que reserva aos gatos antropomórficos que apresenta. O Reino dos Gatos foi uma produção para a televisão japonesa que chegou aos cinemas em outros lugares do mundo e, talvez por isso, seu traço seja mais simples do que o presente nos filmes cinematográficos do estúdio, mas o uso das cores e a atmosfera de fantasia funcionam muito bem sob a direção de Hiroyuki  Morita, que trabalhou como desenhista em várias animações, entre elas Serviço de Entregas da Kiki e o clássico Akira (1988) de Katsuhiro Otomo. Reino dos Gatos foi seu primeiro e único filme na direção. 

Reino dos Gatos: estranha fábula felina. 

Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro / Japão - 1988) de Hayao Miyazaki com vozes de Hitoshi Tagashi, Noriko Hidaka, Reiko Suzuki e Chika Sakamoto. ☻☻☻☻

O Serviço de Entregas da Kiki ( Majo no takkyûbin / Japão - 1989) de Hayao Miyazaki com vozes de Minami Takayama, Keiko Toda, Rei Sakuma e Kappei Yamagushi. ☻☻☻☻

Reino dos Gatos (Neko no engaeshi / Japão - 2002) de Hiroyuki Morita com vozes de Chizuru Ikewaki, Aki Maeda, Kenta Satoi e Mari Hamada. ☻☻