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segunda-feira, 6 de julho de 2020

PL►Y: Yesterday

Lilly e Himesh: quando o romance estraga tudo.

Imaginar um mundo sem Beatles me soa como uma ideia de filme de terror! Mas para os roteiristas Richard Curtis e (o estreante em cinema) Jack Barth é o ponto de partida para uma comédia romântica. Yesterday conta a história de Jack Malik (Himesh Patel) um funcionário de supermercados que sonha em ser um músico reconhecido. De shows para amigos e lugares vazios, a desmotivação começa a aparecer, mas sua amiga e empresária, Ellie Appletown (Lily James) sempre insiste para que ele continue em busca do reconhecimento. Eles nem imaginam que após um acidente tudo na vida de Jack irá mudar, já que após ser jogado pelos ares e perder um dente, ele acorda em um mundo em que os Beatles nunca existiram (assim como a Coca-Cola), mas.... ele é o único a lembrar das canções do quarteto de Liverpool. Não demora para ele perceber nisso a chance de fazer sucesso com as composições da banda. É uma brincadeira que funciona quando o filme investe no humor (como a não existência do Oasis por conta da ausência de John Lennon e seus parceiros), mas que repete todo tipo de clichê sobre o mundo da fama (problemas com a aparência, os empresários malvados, o artista tolhido...) e erra terrivelmente quando destaca o romance entre Jack e Ellie - aspecto que sempre puxa o filme para trás. Este lado romântico da história é típico de Richard Curtis (que foi indicado ao Oscar pelo texto de Quatro Casamentos e Um Funeral/1994) mas que não funciona pelas mãos do diretor Danny Boyle. Este é o filme mais brando do cineasta escocês, que se sente mais a vontade quando explora o lado surreal da ascensão de Malik e patina em gelo fino quando a música é deixada de lado e o foco recai sobre o romance sem sal. Nem vou dizer a antipatia que a garota me desperta ao depois de insistir para o moço continuar a carreira engrenar em uma chantagem emocional quando ele tem a chance de se destacar (e haja atitudes lamentáveis da garota). Lilly James sorri o tempo todo para fazer de conta que sua personagem é legal, mas o roteiro a transforma rapidamente numa chata egoísta disfarçada de boa moça (bem que ela poderia começar a receber uns papéis mais interessantes). A historinha de amor está sobrando aqui. Em sua estreia no cinema, Himesh Patel convence como o sujeito comum que alcança a fama e fica confuso perante um dilema moral complicado e isso já bastaria para sustentar o filme. Yesterday funciona bem até sua metade, dali em diante tem dois bons momentos (o casal misterioso que segue Malik e o encontro fantástico do protagonista com alguém muito especial - e não estou falando do Ed Sheeran que tem destaque como ele mesmo na história), mas que infelizmente não evitam o a história a murchar rumo ao desfecho de comédia romântica previsível.  

Yesterday (Reino Unido - Rússia - Japão - EUA / 2019) de Danny Boyle com Himesh Patel, Lilly James, Joel Fry, Ed Sheeran, Sanjeev Bhaskar e Kate McKinnon. ☻☻

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Na Tela: Trainspotting2

Spud, Renton, SickBoy e Begbie: acertando das contas 20 anos depois. 

Fazia tempo que o diretor Danny Boyle havia comentado sobre o interesse que filmar uma continuação de seu segundo filme, Trainspotting (1996). A saga junkie filmada a partir da obra de Irwine Welsh se tornou um divisor de águas para carreira de Boyle e de seu astro, Ewan McGregor. Ambos foram para Hollywood e Boyle já ganhou até um Oscar de direção (por Quem Quer Ser Um Milionário/2008 que também recebeu a estatueta de melhor filme). No entanto, a filmagem de Trainspotting2 parecia ter virado um desses projetos que nunca saem do papel. Em algumas entrevistas os envolvidos diziam que ainda não era o momento certo de realizar o filme. Boyle pareceu ter retomado a ideia em 2002 quando foi lançada a continuação literária da trama (Pornô também de Irwine Welsh) que revisitava os personagens dez anos depois - desde então o roteiro parece ter sido lapidado. O tempo foi passando e o roteiro ganhando forma... e acrescentou mais uma década até que os personagens se encontrassem. O ruim é que, por melhor que seja, Trainspotting2 já nasce à sombra de um dos filmes que redefiniram a linguagem cinematográfica dos anos 1990. A edição nervosa, a trilha sonora saborosa e os delírios visuais influenciaram centenas de filmes e retomar a história duas décadas depois corria o risco de estragar aquele momento preciso em que deixamos os amigos de Mark Renton (McGregor) depois que ele os trai em nome do vil metal. Agora, Mark volta para visitar os amigos e precisa lidar com a fúria de Simon/Sick Boy (Johnny Lee Miller), o desejo assassino de Francis/Begbie (Robert Carlyle) e o fundo do poço de David/Spud (Ewen Bremner) - o único que recebeu algum dinheiro de Renton (e torrou tudo em drogas). O tempo passou e há um inevitável tom amargo nos personagens, eles estão mais velhos e parecem ainda mais cansados da sarjeta. Begbie sofre com a distância da família que não aguentava mais seu vício. Begbie está com sede de sangue após passar uma temporada na cadeia - e um dos seus desejos é acertar as contas com Renton definitivamente. Enquanto isso, Simon vive de aplicar golpes, filmando figurões em cenas comprometedoras com a namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova) para chantagea-los depois. Sorte que não apenas Renton queria rever os únicos amigos que teve na vida (mesmo com todos os ressentimentos que poderiam ter), mas Danny Boyle também queria reencontrar este universo - e o faz com doses de maturidade e saudosismo. Embora ainda traga o humor negro do primeiro filme, T2 é mais melancólico e Boyle sublima essa sensação ao evocar cenas antológicas do seu clássico dos anos 1990 (da corrida na abertura, passando pela trilha sonora, a cena do banheiro, o discurso de outrora reformulado...) e, não satisfeito, reconta a amizade dos rapazes até o início, quando eram apenas um grupo de crianças escocesas. O roteiro de John Hodge (que concorreu ao Oscar pelo primeiro filme e fez outros quatro textos para longas de Boyle) faz o possível para dar conta de personagens que fazem parte da mitologia do filme (retoma Diane de Kelly MacDonald e até o finado Tommy de Kevin McKidd) e cria uma estrutura que solidifica ainda mais os laços entre os personagens, ainda que isso comprometa um pouco o ritmo da narrativa nervosa desejada por Boyle. Trainspotting2  não fez o sucesso esperado de bilheteria, embora funcione como um reencontro de amigos amargurados que não se veem há muito tempo (e daqui uns 20 anos poderia ter outro).

Trainspotting 2 (T2 Trainspotting / Reino Unido - 2017) de Danny Boyle com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Johnny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova, Scot Grenan e Kelly MacDonald. ☻☻☻☻

domingo, 30 de abril de 2017

CATÁLOGO: Caiu do Céu

Alex e Lewis: milionários por alguns dias. 

Pode se dizer que Caiu do Céu é o filme infantil da carreira de Danny Boyle, obviamente que não se trata de um filme convencional para a criançada, mas tem lá seu apelo entre o público infanto-juvenil (tanto que foi classificado com censura livre aqui no Brasil, algo raro para a carreira do cineasta). Lançado em 2004 o roteiro de Frank Cottrell Boyce - roteirista pouco conhecido, mas com textos interessantes no currículo, como Código 46 (2003), A Festa nunca Termina (2002) e Uma Longa Viagem (2013) -  utilizou um tema bastante atual na história de duas crianças que se viam milionárias do dia para a noite,  no entanto, tamanha riqueza vinha com prazo de validade. Afinal, os garotos acham uma bolsa repleta de dinheiro às vésperas da mudança de moeda na Inglaterra - que estava prestes a adotar o Euro. Por boa parte da sessão o que vemos são Damian (o fofo Alex Etel) e o irmão Anthony (Lewis McGibbon) banhados na fantasia de comprarem tudo o que querem... até que um grupo de ladrões resolvem querer a fortuna de volta. Embora o filme tenha a difícil tarefa de inserir bandidos violentos na história, Boyle consegue equilibrar-se graças à habilidade com que insere doses consideráveis de fantasia na história, especialmente por conta de Damian conversar com diversos santos  que aparecem para ele (São Nicolau, Santa Clara, São Francisco, São Pedro...) sempre com um humor inocente e inofensivo que torna ainda mais fácil simpatizar com o filme.  Além disso, traz um pai que se torna herói (James Nesbitt) e aqueles encontros do protagonista com uma pessoa amada que faleceu cedo demais. O mais interessante é ver crianças dentro da estética do diretor com seus cortes modernos e trilha sonora espetacular (a cena do assalto ao som de Blackout do Muse é sensacional e o final ao som do hit Nirvana de El Bosco não poderia ser mais otimista e iluminado e só ressalta a habilidade de Boyle em construir suas trilhas emblemáticas). Misturando realismo e fantasia, Caiu do Céu é o filme menos conhecido de Boyle, mas pode ser uma grata surpresa para os fãs que podem perceber nele semelhanças com o antológico Cova Rasa (1994) e o posterior, Quem Quer Ser um Milionário (2008), sendo o filme mais família de um diretor que ficou famoso pela violência estilizada e humor negro - o que lhe rendeu comparações com Tarantino (mas fazer um filme como este só comprova que Boyle sempre buscou um caminho próprio em sua cinematografia). 

Caiu do Céu (Millions/Reino Unido-2004) de Danny Boyle com Alex Etel, Lewis McGibbon, James Nesbitt, Daisy Donovan e Chrisotpher Fulford. ☻☻☻ 

domingo, 23 de abril de 2017

FILMED+: Sunshine - Alerta Solar

Murphy: tentando acender o Sol. 

Pode ser por conta de minha carência de um ficção científica interessante na época, mas sempre achei o terceiro filme do casamento criativo entre Danny Boyle e o diretor Alex Garland o melhor da parceria.  A ficção científica Sunshine pode ser vista como apenas mais um filme de astronauta com uma missão absurda (no caso, reacender o Sol com bomba atômica), mas fica muito mais interessante quando percebemos a concepção de futuro que aparece no filme. Dentro da nave Icarus II (só o nome já revela bastante do que se verá), um grupo de tripulantes criam um microcosmo social bastante interessante, não apenas por cada um ter a sua tarefa e ter seu poder de acordo com a tarefa que executam (basta perceber o que acontece com o especialista em comunicações numa nave que enfrenta problemas nessa área). Conforme os personagens avançam na jornada inevitáveis problemas aparecem, ainda mais diante do fracasso misterioso da missão anterior (com a malfadada Icarus I). Questões como o isolamento, a depressão e a pressão psicológica começam a interferir diretamente na relação dos personagens e, obviamente, na missão a ser cumprida. A tripulação é formada pelo físico Robert Capa (Cillian Murphy) - o responsável pela bomba e desde o início parece ter consciência de que sacrifícios serão necessários para a conclusão da missão -, o  temperamental engenheiro Mace (Chris Evans, bem antes de ser o Capitão América), a piloto Cassie (Rose Byrne antes de se aventurar por comédias), a bióloga Corazon (Michelle Yeoh) responsável pelo "jardim de oxigênio da nave", Harvey (Troy Garritt) que é o responsável pela comunicação e segundo no comando, o psicólogo Searle (Cliff Curtis), o prodígio em informática Trey (Benedict Wong) e o capitão Kaneda (Hiroyushi Sanada). O elo entre os personagens se fragiliza cada vez mais após receberem o pedido de socorro da Icarus I, o que renderá uma série de problemas com a nave e a suspeita de que alguém está sabotando a missão. Além do viés científico e psicológico, Garland insere algumas questões religiosas no texto e ainda apela para o terror nos minutos finais (o que gerou algumas críticas ao filme), mas não perde de vista sua intenção de explorar as reações da humanidade diante do fim. Sunshine não perde tempo com piadinhas, possui uma estética que impressiona (especialmente pelo uso nos tons dourados), efeitos especiais competentes (que custaram uma ninharia) e ótimo elenco com a tarefa de contemplar o fim - seja diante do apocalipse, do suicídio, da loucura, do sacrifício ou da "necessidade". Com seu elenco globalizado (que às vezes parece ter nomes propositalmente trocados) e subtextos infinitos, Sunshine mostra-se uma ficção científica mais interessante a cada vez que se assiste. 
  
Sunshine - Alerta Solar (Sunshine / Reino Unido - Estados Unidos / 2007) de Danny Boyle com Cillian Murphy, Cliff Curtis, Chris Evans, Michelle Yeoh, Rose Byrne, Hiroyushi Sanada, Mark Strong e  Mark Strong. ☻☻☻☻☻

domingo, 16 de abril de 2017

CATÁLOGO: A Praia

DiCaprio: desastre no paraíso. 

O livro A Praia fez de Alex Garland um dos escritores mais celebrados do finalzinho do século XX. Lançado em 1999, público e crítica ficaram impressionados na forma como o escritor escrevia em ritmo de música eletrônica e citava a narrativa de games em seu estilo. Era algo considerado tão envolvente e inovador que os direitos para o cinema logo foram disputados. Ao ser anunciado que Danny Boyle seria o responsável por levar a história para o cinema houve uma festinha entre os fãs do escritor! Embora o diretor de Trainspotting (1996) houvesse tropeçado em seu filme anterior (Por Uma Vida Menos Ordinária/1997, que marcou sua estreia em Hollywood), A Praia era tudo o que ele precisava para se redimir perante os fãs. Ajudava muito o fato de Leonardo DiCaprio, o astro do primeiro sucesso bilionário do cinema, no caso Titanic/1997, ter topado entrar no projeto e ter rendido toneladas de publicidade para o filme - já que era o seu primeiro projeto após ter se tornado febre mundial. No entanto, as confusões começaram já nas filmagens, quando o filme foi criticado pelo impacto ambiental causado pela produção, especialmente com relação às mudanças na natureza local para ficar mais adequada ao que era citado no livro. Isso era só o começo. Bastaram sair as primeiras resenhas para se colocar em dúvida se os melhores dias de Boyle haviam ficado para trás. O filme começa bem, mas justamente quando o filme cresce em sua tensão, ele opta por caminhos que o tornam bastante irregular, some isso ao impacto de DiCaprio fazendo um papel bem diferente do galã cultuado pelas jovens fãs (que ficaram surpresas como o uso de drogas no filme... parece que elas não faziam a mínima ideia dos filmes que ele fez antes de se tornar astro mundial). O resultado foi uma bilheteria pouco empolgante e críticas mornas. No filme, DiCaprio vive Richard, um mochileiro que procurar novas experiências na Tailândia e, graças a um doido (Robert Carlyle) e um casal de franceses (Guillaume Canet e Virginie Ledoyen), descobre uma praia paradisíaca. A tal praia fica numa ilha, escondida da civilização que serve para um grupo de traficantes plantarem maconha. É fugindo dos traficantes que o protagonista e o casal de amigos descobrem a comunidade meio hippie que vive na tal praia. Dentro daqueles limites, tudo parece um paraíso, que depende muito da liderança de Sal (Tilda Swinton) - que com suas regras rígidas começará a enfrentar alguns problemas no grupo após a chegada dos novos membros. Aos poucos o que era um lugar idílico torna-se cada vez mais infernal para os personagens, gerando desentendimentos, violência e mortes. Se antes o diretor sabia exatamente o que fazer com esses ingredientes (basta ver sua estreia em Cova Rasa/1994), aqui ele erra a mão e cai no ridículo algumas vezes (a pior é a parte em que Richard parece um personagem de Video Game chapado), além disso, um Leonardo DiCaprio descontrolado não ajuda muito na tarefa de nos vender as ideias mais birutas do roteiro. Embora o livro seja interessantíssimo e renda um filme com cenários naturais deslumbrantes (valorizados pela belíssima fotografia), o resultado é apenas assistível, tanto que considero este o pior filme de Danny Boyle,. Porém, devo admitir, que mesmo quando Boyle erra o resultado consegue ser mais interessante que muita porcaria que chega aos nossos cinemas toda semana. O melhor é que o filme inaugurou uma parceria que renderia frutos mais suculentos entre Boyle e Alex Garland (Extermínio/2002 e Sunshine/2007), além disso, Garland se aproximou cada vez mais do cinema - já prepara seu segundo filme na direção (o aguardado Anihilation com Natalie Portman e Oscar Isaac)

A Praia (The Beach/EUA-Reino Unido) de Danny Boyle com Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet e Robert Carlyle. ☻☻

domingo, 9 de abril de 2017

CATÁLOGO: Extermínio

Murphy: lsobrevivendo à raiva mundial. 

Lá se vão quinze anos desde que Danny Boyle reformulou, sozinho os filmes de zumbis. O fato é que Boyle andava meio por baixo depois que suas experiências em filmes americanos, afinal, eles não alcançavam o resultado (artístico ou de bilheteria) que ele esperava. Estava na hora de colocar a cabeça no lugar e voltar a ser o cineasta descolado que fez de Trainspotting (1996) uma pérola dos anos 1990. Em Extermínio ele não apenas voltou os holofotes para sua carreira mais uma vez, como também colocou sua relação com o escritor Alex Garland nos eixos, já que o escritor de A Praia teve que ver seu aclamado livro virar um filme massacrado por público e crítica nas mãos de Boyle. Acho que no fundo os dois sentiram muita raiva e viram nos zumbis furiosos de Extermínio a chance de uma catarse furiosa!  O filme não gasta muito tempo explicando o que aconteceu, apenas sabemos que um vírus parecido com o da Raiva foi anabolizado em laboratório e, devido a um acidente, os dias na Terra estão contados. Só precisou de 28 dias para que o mundo fosse devastado por um bando de seres humanos sedentos de sangue. Alheio a tudo isso está Jim (Cillian Murphy que se tornou astro com o filme), um paciente que acorda solitário num hospital e vagueia pelas ruas desertas de Londres. As cenas da cidade vazia impressionam até hoje e sublimam a ideia de que o fim do mundo finalmente chegou. No entanto, basta cair a noite para que Jim perceba que não está sozinho e seja perseguido por um bando de zumbis ensandecidos. Em sua jornada por sobrevivência, o protagonista irá encontrar a durona Selena (Naomie Harris em seu terceiro filme e com o primeiro papel de destaque), uma menina (Megan Burns) e o pai zeloso (Brendan Gleeson), juntos eles irão cruzar o país em busca de um lugar seguro, sempre evitando a contaminação no grupo e quando julgam estar salvos, o perigo apenas fica mais intenso. O preço de Boyle atualizar os filmes de zumbi foi ser copiado várias vezes... antes não havia zumbis cheios de energia, correndo atrás de suas vítimas, eles apenas vagavam estranhamente em busca de alimento humano. Ao colocar a raiva no coração dos personagens, o filme parece até um presságio para todo o discurso de ódio que se tornaria cada vez mais intenso décadas depois. Também não acho que é por acaso que os personagens se abrigam junto a um grupo de militares que tem lá suas próprias intenções (liderados por Christopher Eccleston, ótimo ator revelado no filme de estreia de Boyle, o excepcional Cova Rasa/1994 - o que deixa ainda mais forte a sensação e volta às origens na carreira de Danny). Mesmo sendo uma fantasia de terror, Extermínio parece cada vez mais atual. O melhor de tudo é que o diretor provou que ainda tinha gás para soar moderno e criar narrativas elaboradas. O filme gerou uma sequência (menos interessante) e ainda é considerado inovador na construção do horror do século XXI. 

Extermínio (28 Days Later.../Reino Unido-2002) de Danny Boyle com Cillian Murphy, Naomie Harris, Brendan Gleeson, Christopher Eccleston e Megan Burns. ☻☻☻

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Na Tela: Steve Jobs

Stuhlbarg, Fassbender e Kate: três dias na vida de Steve Jobs. 

Ouvi tantas opiniões divergentes quanto ao novo filme de Danny Boyle que fiquei ainda mais curioso de ver sua visão sobre o celebrado Steve Jobs. Não se trata de uma cinebiografia comum (portanto, esqueça qualquer comparação com o insosso filme estrelado por Ashton Kutcher em 2013), afinal, não se preocupa em contar a história do dono da Apple, mas estabelecer, a partir de três momentos distintos de sua trajetória, diálogos e acontecimentos que sirvam para que conheçamos um pouco mais sobre um dos personagens mais importantes do final do século XX. Por isso, vale a pena lembrar, que o texto do roteirista Aaron Sorkin (premiado no Globo de Ouro e ignorado no Oscar) não é para qualquer um, já que estimula a velocidade dos diálogos, estruturados meticulosamente para que a personalidade dos personagens seja desenhada aos poucos para o espectador. A narrativa costura três episódios da carreira de Jobs, o lançamento do Macintosh (1983), da empresa NeXT (1988) e o celebrado iMac (1998). Assim, enquanto se prepara as apresentações dos lançamentos, nos bastidores acompanhamos não apenas as considerações sobre eles, mas a vida pessoal de Jobs sobre grande tensão. Para ajudar na condução da trama, Sorkin utiliza o relacionamento complicado de Jobs (vivido com a eficiência de sempre por Michael Fassbender, indicado ao Oscar) com a mãe de sua filha (Katherine Waterston), que ele teima em não reconhecer, e a própria menina, Lisa. Em cada episódio, essa parte familiar da história sobe um degrau específico e ajuda muito a apresentar a personalidade do personagem, assim como seu relacionamento com a fiel escudeira (e secretária) Joanna Hoffman (Kate Winslet, ganhadora do Globo de ouro e indicada ao Oscar de coadjuvante), os "amigos" John Sculley (Jeff Daniels) e Steve Wozniak (Seth Rogen), além do sempre presente (Michael Stuhlbarg). O filme está (sabiamente) pouco interessado em dizer como  a Apple se tornou uma gigante da informática, mas concentra-se na personalidade de Steve Jobs, seus momentos de brilhantismo, suas ousadias (que não foram poucas), seus tropeços e persistência em enxergar além do senso comum de seu tempo. Por outro lado, também demonstra muito da sua inabilidade social, seu egocentrismo, sua megalomania e arrogância um tanto mesquinha. É justamente no casamento desses dois lados da moeda que o filme se sustenta, apresentando o choque de sua visão de mundo com a de quem o cerca (seja nos negócios ou em sua vida pessoal). É verdade quem em alguns momentos as idas e vindas da edição cansam, que a agilidade dos diálogos às vezes não permitem que o espectador consiga digerir tudo o que está sendo dito e visto, mas diante do resultado final tudo isso parece apenas um detalhe. Danny Boyle, ainda que tenha ficado de fora das premiações (talvez pelos motivos que acabo de citar), realiza outro belo trabalho na condução de seus atores, afinal, todos estão ótimos em cena segurando diálogos, muitas vezes, rebuscados. Para além do trabalho com os atores, a estética do filme também é espetacular, mantendo a assinatura do cineasta quando o filme parece uma espécie de continuação dos mesmos pontos utilizados por Sorkin em A Rede Social (2010) para falar de outro gênio da era pós-moderna (Mark Zuckerberg do Facebook). Steve Jobs, o filme, assim como a pessoa, não irá agradar a todo mundo, mas merece respeito. 

Steve Jobs (EUA-Reino Unido) de Danny Boyle com Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels, Katherine Waterston, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg e John Ortiz. ☻☻☻☻

sábado, 2 de janeiro de 2016

CICLO FILMES D+: Trainspotting

McGregor: Renton em crise.

Difícil imaginar que o segundo filme de Danny Boyle completa vinte anos em 2016. Trainspotting gerou polêmica quando foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, mas bastou entrar em cartaz ao redor do mundo para que todos reparassem as qualidades do longa assinado pelo cineasta, que dois anos antes foi chamado de Tarantino europeu por seu trabalho em Cova Rasa. Trainspotting ressaltava o gosto do cineasta pelo humor negro, além da capacidade de injetar simpatia em personagens que se tornariam facilmente repulsivos. Baseado no livro de Irvine Welsh, o maior desafio de Boyle era manter o ritmo vertiginoso da narrativa em sua transposição para imagens e, a julgar pela cena inicial onde Mark Renton questiona as escolhas do homem comum, a tarefa já foi cumprida a contento. A saga junkie de Renton (Ewan McGregor, espetacular) e seus amigos, recebeu críticas por glamourizar o uso da heroína, o que só pode ser coisa de quem não viu o filme, já que está presente a degradação física e mental dos personagens em toda a história, especialmente na vida de Tommy (Kevin McKidd) que tem a vida cada vez mais deprimente. Outros amigos de Renton são Sick Boy (Jonny Lee Miller), o psicótico Begbie (Robert Carlyle) e o estranho Spud (Ewen Bremner), que passam o tempo desempregados em pubs e bebedeiras, além de realizando conquistas amorosas nem sempre bem  sucedidas. O filme acompanha a vida dos personagens com a ajuda de uma fotografia que não embeleza nada (sobretudo aquele banheiro que entrou para a história como o mais nojento de todos), edição nervosa e uso inusitado de câmera (como Renton afundando no tapete ou mergulhando num vaso sanitário). Entre festas regadas à música eletrônica (Irvine Welsh foi um dos primeiros autores a retratar a cultura rave na literatura), pesadelos e crises de abstinência, existe a história dos dilemas de Renton diante dos seus amigos e de sua própria alienação. Sorte que Danny Boyle era descolado o suficiente para não cair nas armadilhas do melodrama e entrega um filme moderno, pulsante e extremamente bem lapidado em seu visual de sarjeta. McGregor virou astro a partir daqui, embora nunca mais tenha recebido um papel tão desafiador, resta  esperar o dia em que a sequência (Porno, também baseada num livro de Welsh) sairá finalmente do papel e ver se o moço ainda dá conta de um personagem tão complicado depois de anos fazendo bons moços em Hollywood (e acho que a resposta é "sim"). Enquanto a continuação não sai, vale rever Trainspotting (que foi o filme mais lucrativo de 1996 e foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado), seu clima indie noventista e sua trilha sonora que marcou época (ressuscitou Lust for Life do Iggy Pop e globalilizou o techno do Underworld), além de perceber que entre o cômico e o trágico, o filme encontra um raro equilíbrio na abordagem de um tema tão perigoso. 


Trainspotting (Reino Unido/1996) de Danny Boyle com Ewan McGregor, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Ewen Bremner, Kevin McKidd, Kelly MacDonald e Peter Mullan. ☻☻☻☻☻

domingo, 15 de novembro de 2015

CATÁLOGO: Por uma Vida Menos Ordinária

Ewan e Cameron: romance esquisito. 

A transição de cineastas europeus para o cinema hollywoodiano não costuma ser fácil, mesmo porque o estilo muitas vezes precisa ser traduzido para uma indústria de traços tem específicos, havendo dificuldades para ficar do jeito que o diretor quer ou do jeito que o produtor deseja. Se o diretor tiver sorte (e contar com um estúdio que banque sua visão das coisas) a transição pode ser menos traumatizante, caso contrário, sua carreira pode ficar por um fio. Essa foi a sensação que os fãs tiveram quando se depararam com Por Uma Vida Menos Ordinária, primeiro longa metragem com dinheiro americano do escocês Danny Boyle -  responsável por duas pérolas do cinema independente europeu dos anos 1990 (e se você ainda não viu Cova Rasa/1994 ou Trainspotting/1996, você está esperando o quê?) - que, aparentemente, desejava uma guinada na carreira quando resolveu fazer uma comédia romântica temperada com humor negro (recurso muito bem utilizado em seus filmes anteriores). O filme conta a história de Robert (Ewan McGregor), um faxineiro que perde o emprego quando seu patrão troca seus serviços pelos de uma máquina. Revoltado, e desempregado, ele resolve sequestrar a filha patricinha do magnata, a problemática Celine (Cameron Diaz). O relacionamento dos dois segue a velha cartilha das comédias românticas, os dois irão se desentender até o fim do filme, até que percebam que existe um certo interesse mútuo entre eles (mas o melhor momento do casal é a cena que se inspira nem antigos musicais). O filme demora para engrenar e está bem longe do ritmo estiloso que tornou Boyle conhecido mundialmente, deixando como toque mais original a dupla de anjos da pesada O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) que tenta manter o casal junto (a qualquer preço) seguindo métodos pouco ortodoxos (reza a lenda que o casal celestial foi concebido originalmente como uma dupla de matadores profissionais, mas na última hora, o diretor resolveu colocá-los como anjos adeptos do uso de violência). É verdade que o diretor capricha numa plasticidade moderninha vintage para ambientar os personagens, mantem a trilha sonora bacana como característica, mas perde pontos por nunca fazer um desenho competente dos personagens que sempre parecem um confusos no desenrolar da história. Robert e Celine contam com doses cavalares da dupla de atores para funcionar perante o público e pode até agradar se tivermos boa vontade com o típico jogo cênico de opostos que se atraem (ele é sonhador e escreveu um romance sobre a filha bastarda de Marilyn Monroe com John Kennedy e ela... bem... Celine parece um projeto de sociopata). Se o filme fez pouco sucesso na época, e tornou-se digno de pouca lembrança, vale conferir por ele marcar a despedida da parceria de Boyle com seu ator assinatura até então. Depois de três filmes juntos, o diretor e Ewan McGregor nunca mais trabalharam juntos. 

Por Uma Vida Menos Ordinária (Reino Unido -EUA/199) de Danny Boyle com Ewan McGregor, Cameron Diaz, Holly Hunter, Delroy Lindo e Stanley Tucci. ☻☻☻

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

DVD: Em Transe


Dawson e McAvoy: hipsnotismo e confusão. 

Nos últimos anos Danny Boyle dedicou-se a filmes que caíram no gosto do público, da crítica e da Academia que lhe renderam vários Oscars por Quem Quer Ser um Milionário (2008) e indicações por 127 Horas (2010). Não há dúvidas de que desde a sua estreia como cineasta em Cova Rasa (1994), Boyle demonstra uma assinatura bastante peculiar, conseguindo envolver o espectador em narrativas que sempre fogem da obviedade. Em Transe não deve concorrer a prêmios (e nem foi feito para isso), mas serve para mostrar como o diretor consegue brincar com as expectativas da plateia como poucos. Reza a lenda que ele passou anos criando bifurcações na narrativa do roteiro para confundir o expectador ao máximo. Se a intenção era essa, o diretor pode considerar que obteve sucesso. Sempre que Em Transe alcança um ponto da narrativa em que você pensa que entendeu o que está acontecendo, existe uma reviravolta onde o foco do expectador é forçado a ter outra visão sobre o protagonista. Quando conhecemos Simon (James McAvoy) ele parece um cara certinho que trabalha em leilões de obra de arte e torna-se responsável por esconder as obras mais valiosas quando um assalto acontece nesses espaços. Os meandros de seu trabalho e esmiuçado logo no início do filme e quando Simon precisa entrar em ação, sofre uma forte pancada na cabeça. Recuperado (e tido como herói), descobrimos que o cara não é tão bonzinho assim. Quando começa a ser perseguido pelo grupo de assaltantes liderados por Franck (Vincent Cassel), Simon é torturado para que descubram onde esconderam o valioso quadro que procuram e deixa claro que padece de amnésia, assim, o cético Franck terá que perceber a hipnose como única forma de conseguir o que quer. É quando entra em cena a bela terapeuta Elizabeth (Rosario Dawson), que irá ajudar Simon a se livrar dos bandidos através de um tratamento intensivo com a participação dos bandidos. Colabora para isso o fato de Simon ter uma sensibilidade rara para se entregar ao processo de hipnotismo.  Boyle consegue manter o suspense durante todo o filme, usa a hipnose para construir cenas curiosas e começa a borrar os limites entre o que é real e o que acontece na mente de Simon (numa espécie de genérico de A Origem/2010). A brincadeira funciona bem, mas quando começa a explicar demais a relação que existe entre os personagens a coisa perde parte da graça - principalmente no final enigmático. Ao espectador cabe seguir as surpresas da trama como se estivesse na situação que o título sugere, apreciar a trilha sonora, as curiosidades sobre a hipnose e tentar desenrolar a trama (nem que seja assistindo o longa mais de uma vez). Nas cenas fantasiosas, Boyle capricha (especialmente naquela cena em que Cassel com a cabeça destruída conversa com Simon como se nada houvesse acontecido, momento que lembra os filmes mais intrigantes de David Cronenberg), mas erra ao se perder em seu próprio labirinto sensorial. No entanto, o filme tem seus méritos.

Em Transe (Trance/Reino Unido-2013) de Danny Boyle com James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassel e Danny Sapani. ☻☻☻

domingo, 28 de outubro de 2012

CATÁLOGO: Cova Rasa


Ewan, Kerry e Eccleston: nas entranhas dos personagens. 

Acho interessante que o britânico Danny Boyle tenha um Oscar de direção (por Quem Quer Ser um Milionário/2008) e Quentin Tarantino não. O engraçado é que quando Boyle surgiu no cenário cinematográfico os rotuladores de plantão críticos logo o apontaram como o a versão européia de QT (assim como houve com Guy Rithchie e seu Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes/1998), tudo isso por conta da forma como o diretor tratava a violência com um humor negro que transbordava frescor em Cova Rasa. O filme conta a história de três amigos, a médica Juliet (Kerry Fox), o jornalista Alex (Ewan McGregor) e o contador David (Christopher Eccleston). Mais do que compartilharem o senso de humor maldoso, o trio divide um apartamento e acha uma boa ideia encontrar mais alguém para dividir o aluguel. Depois de espinafrar uma dezena de candidatos com as perguntas bizarras, Juliet conhece Hugo (Keith Allen) e ele é aceito pelos outros amigos como novo parceiro de aluguel. O problema é que não demora para Hugo ser encontrado morto na cama com uma mala cheia de dinheiro. Depois de alguma hesitação, o trio resolve sumir com o corpo e ficar com a grana. Parece que você já viu uma centena de filmes com esse tema, mas nenhum deles tem o desenvolvimento oferecido por Boyle. Mais do que investir numa violência crua que se aproxima cada vez mais dos protagonistas, o roteiro mergulha nas entranhas de seus personagens e revela o que se escondia debaixo de todas aquelas piadinhas maldosas. É interessante perceber, como a profissão de cada um é fundamental para a continuidade da história por vias sempre originais e imprevisíveis. Seja com a sabedoria médica de Juliet (uma ironia com a romântica Julieta de Shakespeare?) ou jornalística de Alex para resolver o problema de fazer o corpo não ser reconhecido, ou o processo de perturbação de David ao se deparar com o lado mais sombrio de si e de seus amigos. É o tipo de filme que não pode contar muito para não estragar as surpresas que aparecem pelo caminho, mas posso destacar a eficiência do elenco em trabalhar as mudanças em seus personagens. Embora Ewan McGregor tenha se tornado o mais famoso do trio, numa atuação que evocava diretamente um jovem Malcolm McDowell (seu personagem tem até o mesmo nome do Malcolm de Laranja Mecânica/1971) - e engatado carreira em Hollywood, seu personagem é o menos elaborado do roteiro (sua serventia é maior quando o texto insinua a formação de um triângulo amoroso que nunca se concretiza). Kerry Fox (que está longe de ser uma beldade) alcança melhor resultado trabalhando uma sensualidade sutil na personagem, ao ponto que é totalmente plausível que seus dois amigos sintam-se atraídos por ela. Já Christopher Eccleston tem a tarefa mais complicada, e a cumpre magnificamente bem. Na pele do cara certinho e subestimado, ele antecipa os atos de seus amigos como se fossem fatores de alguma conta elaborada - o problema é quando suas emoções acabam interferindo em seus julgamentos. Visto hoje eu não consigo identificar no filme toda essa relação com o universo tarantinesco, pelo contrário, acho que os outros filmes lançados por Boyle o valorizam ainda mais como um cartão de apresentação  pulsante e original. Aparecem aqui temas que retornariam em seus filmes seguintes, a mais evidente é o que as pessoas fariam por dinheiro (que aparece no desfecho de sua obra-prima Trainspotting/1996, no oscarizado Quem Quer Ser um Milionário/2008 e até no infantil Caiu do Céu/2004), a ideia da construção dos papéis num universo à parte  (A Praia/2000 , Sunshine/2007 e até 127 Horas/2010) e o trabalho com a atmosfera de horror (Extermínio/2002). Além disso, vale notar seu trabalho irônico com as imagens (a escada que parece uma espiral Hitchcockiana com um grande olho acima que observa tudo, os programas de televisão assistidos pelo grupo, a trilha sonora edificante, o brinquedo que ri, as mensagens no caixa eletrônico...). Se existe algum problema no filme são as cenas de violência crua que são inseridas de forma a quase quebrar o ritmo dos acontecimentos, mas isso não impediu o sucesso mundial da estreia de Boyle e a coroação com o prêmio BAFTA de Melhor Filme Britânico de 1994. Nascia um pequeno clássico dos anos 1990. 

Cova Rasa (Shallow Grave/Reino Unido - 1994) de Danny Boyle com Christopher Eccleston, Ewan McGregor, Kerry Fox, Keith Allen e Gary Lewis. ☻☻☻☻

sexta-feira, 4 de março de 2011

Na tela: 127 Horas


Franco: Sozinho em sua caverna interior.

Queria saber quem teve a ideia de colocar James Franco para apresentar o Oscar. A coisa me pareceu um grande tiro no pé. Franco é um ator que vem crescendo a cada filme, mas a partir daí considerar que ele daria uma animada na cerimonia deste ano é um exagero. Sem falar que o convite foi quase uma prévia de que o rapaz não levaria o Oscar para casa por sua atuação impressionante no novo filme de Danny Boyle. Em 127 Horas, Franco é Aaron Ralston, um cara que gosta de curtir aventuras e a carga de adrealina nas veias quando se mete a enfrentar perigos naturais. Aaron é tão seguro de si que nem carrega celular ou comenta com a família e colegas para onde vai. Este talvez seja o seu maior erro. Em 2003, Aaron foi desvendar as belezas de um Blue John Canyon, um cânion isolado no estado de Utah. Entre lagos subterrâneos, fissuras inexploradas e outras belezas naturais acabou tendo o braço preso debaixo de uma rocha. Aaron viverá um pesadelo onde terá que se contentar em  poupar a água de sua garrafa (até ter que beber a própria urina) e remoer suas lembranças. Bastou o filme começar a ser produzido para que todo mundo lembrasse a história do verdadeiro Ralston e seu desfecho brutal, portanto, desde a primeira cena sabemos exatamente como o cara vai sair dali. James Franco tem a tarefa hercúlea de nos conduzir nessa jornada claustrofóbica e angustiante de um  homem que se tornou vítima por suas próprias opções (incluindo a muralha construída ao seu redor. Aspecto que acabou rendendo o fim do seu namoro promissor). Aaron teve pouco mais de cinco dias para repensar os rumos de sua vida e se ela merecia continuar. Ralston tenta de tudo para sair daquele lugar, mas suas táticas foram frustradas - especialmente com o uso de um canivete vagabundo que demoraria milênios para ferir a superfície da rocha para libertá-lo - e se mostraria ainda menos eficiente para cortar-lhe o braço (o que ele acaba fazendo). Danny Boyle após os prêmios de Quem quer ser um Milionário (2008) mostra mais uma vez que sabe contar uma história cheia de malabarismos narrativos - o que serve para manter a atenção do público diante de um filme que possui a maior parte do tempo um único cenário e um único ator. Além de mostrar suas habilidades, especialmente nos delírios de Aaron (como a tempestade ou a hora em que simula  um programa de entrevistas), Boyle sabe trabalhar com contrastes. O início barulhento do filme caminha cada vez mais para o silêncio solitário daquela fissura em que o personagem fica aprisionado até alcançar a histeria da mutilação pela sobrevivência. Porém, apesar de todos os malabarismos visuais e sonoros do diretor, a alma do filme é atuação de James Franco (vencedor do Independent Spirit pelo papel). Sua interpretação traz tantas camadas para o personagem que é quase impossível lembrar que estamos diante de uma atuação. Se Boyle houvesse finalmente optado por contar uma história de forma convencional não teria feito a mínima diferença no resultado.

127 Horas (127 Hours/EUA-2009) de Danny Boyle com James Franco, Kate Mara e Amber Tamblyn ☻☻☻☻

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

CATÁLOGO: Quem quer ser um milionário?


Patel: catalizando a esperança da era Obama.

Aproveitei a exibição do filme ontem na TV aberta para rever essa obra que oscarizou Danny Boyle. Ao mesmo tempo serve de uma espécie de aquecimento para o Oscar do ano que vem, já que Boyle teve um crescente favoritismo que culminou em sua vitória sobre David Fincher e seu elaborado Benjamin Button. Boyle e Fincher devem se enfrentar novamente nesse ano e o segundo deve levar a melhor por A Rede Social. Os maiores méritos de Boyle em Slumdog Millionaire é o tom explosivo que o diretor imprime em seu filme, algo que se tornou sua marca registrada desde a estréia em Cova Rasa (1994) e consolidada em Trainspotting (1996). O filme conta a história de Jamal (Dev Patel), um rapaz vindo da parte mais pobre da Índia e que está prestes a ganhar um prêmio milionário na TV. Claro que Boyle não se contenta em contar apenas esse momento da vida do rapaz, fazendo com que a narrativa conte em flashbacks os fatos que o motivaram a estar ali e como alguém de origem tão humilde consegiu responder perguntas de naipe tão variado. O fascínio que o filme causou na época se deve há vários motivos. Na parte social, era o período em que os EUA vivenciavam as expectativas da futura eleição de Barack Obama. No campo econômico, Hollywood estava diante da crise e cada vez mais em busca de recursos em outros países - e o visual Made in Bollywood do longa caia como uma luva naquele momento. No campo técnico, Boyle utilizava uma câmera inovadora e desenvolvida especialmente para o filme. Com relação à trama é uma história que transborda otimismo e esperança tendo um herói pobre que está mais interessado em encontrar a sua amada Latika (a linda Freida Pinto) do que em ficar milionário. Na época foram inevitáveis as comparações do filme com o brasileiro Cidade de Deus (fotografia, enquadramentos, edição, a visão do mundo marginal...), surgiram polêmicas sobre o título do filme (algo como ‘cachorro favelado milionário’), mas nada destruiu a campanha do filme nas premiações. Diante de tudo que o filme apresenta considero mais interessante o ritmo que Boyle imprime a um filme que poderia facilmente cair no melodrama ou na amolação com suas idas e vindas temporais. Quem quer ser um Milionário foi premiado por retratar um momento do delicado do cinema americano - especialmente se levarmos em consideração que a produtora do filme faliu (a finada Warner Independent) e ele quase ficou sem distribuição. Para um longa com um empecilho desse no currículo chegar às telas conquistando público e crítica, os prêmios não poderiam ignorá-lo. Mas, na alma, o filme é uma história de um amor que nasce na infância (as cenas com as crianças na dura realidade da pobreza na Índia, conferem ao filme uma tristeza que contrasta com a energia impressa pelo diretor – e esse equilíbrio que deve ter agradado) e que vence as adversidades do destino de forma surpreendente como um conto de fadas contemporâneo com direito a vilões, violência... só faltou uma fada madrinha - mas um pouco de realidade não faz mal a ninguém. Para completar o conto de fadas o filme levou os Oscars de filme, direção, roteiro adaptado, canção original, trilha sonora, edição, mixagem de som e fotografia. Nada mal, Jamal.

Quem quer ser um milionário (Slumdog Millionaire/Reino Unido - 2008) de Danny Boyle. Com Dev Patel, Freida Pinto e Anil Kapoor ☻☻☻☻