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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

FAV✪RITOS 2021 - CINEMA

Foi difícil finalizar esta postagem, tanto que ela é feita com atraso (com visitas no final de ano e com os trabalhos de início de ano em home office ficou ainda mais complicado). Somente agora consegui finalizar o material deste post (dia 14 de janeiro... vixe!), mas para ficar bonitinho e fechar o meu diáriw cinéfilo de 2021, será arquivado como a última postagem do ano (simbolicamente às 23:59). Sei que muita gente irá estranhar a ausência de alguns nomes nas categorias, mas ressalto que é apenas o meu gosto (e gosto não se discute, embora possa se lamentar depois quando passamos a ver obras por novas perspectivas). Vale destacar que considerei bem difícil escolher a maioria dos favoritos, mas usei sempre como critério quem fez o trabalho mais marcante e sempre que tentava escolher outra opção, ficava pensativo. Seguem aqueles que fizeram um ano difícil um tanto mais suportável:

ARTISTA REVELAÇÃ✪


AT✪R COADJUVANTE 

ATRIZ C✪ADJUVANTE 

CINEASTA REVELAÇÃ✪ 

RTEIRO

ELENC✪ 

MELH✪R ATRIZ 

MELHOR AT✪R

DIREÇÃ✪

FILME DO AN✪ 

Desde que fiz a minha lista de filmes favoritos do ano, comecei a pensar em qual foi mais marcante. Embora o grego Apples (que por aqui ganhou este título pouco atrativo) tenha sido lançado em 2020 e disputado uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro (e ficou de fora), ele chegou por aqui somente este ano. O escolho como favorito do ano por ser o que mais me fez pensar durante o ano. Embora seja uma fábula surreal sobre uma epidemia de amnésia, o longa de estreia de Christos Nikou impressiona ao levar nossa realidade para o seu contexto peculiar, menos por abordar uma pandemia e mais por conta da necessidade dos registros fotográficos ou os padrões que os personagens precisam obedecer para se reintegrarem à sociedade. Muitos consideram o filme frio, sem cores, mas fico imaginando que é tudo proposital no retrato de um mundo mais presente do que parece. Óbvio que o filme tem muito do minimalismo absurdista banhado no equilíbrio entre o cômico e o trágico tão comum do novo cinema grego, o que lhe dá o tom necessário para ser um dos filmes mais interessantes dos últimos anos. E qual foi o seu favorito de 2021? 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

10+2 Filmes Favoritos de 2021

Em 2021 tive menos tempo de lazer do que deveria e acabei vendo menos filmes do que gostaria. Só recentemente a pandemia parece ter dado uma trégua ao cinema e a sétima arte começou a dar sinais de recuperação desde o fechamento das salas e o receio do público voltar a frequentar a sala escura. Se a nova versão de Duna fez sucesso suficiente para mostrar que as plateias davam sinais de que a telona fazia falta em suas vidas, Homem Aranha: Sem Volta Para Casa quebrou recordes ao redor do mundo. Além disso, foi interessante ver o público voltar a discutir sobre lançamentos cinematográficos que dividiram opiniões como Casa Gucci e 007 - Sem Tempo para Morrer. Parece até maldade, mas minha lista dos 12 favoritos que chegaram no Brasil em 2021 não inclui nenhum dos citados... existem resquícios do Oscar2021, lançamentos aguardados, filme grego, filme islandês, filme bósnio, dinamarquês, polonês e uma animação que merecia mais atenção do público. A seguir os meus queridinhos do ano em ordem alfabética: 












FAV✪RITOS 2021 - TELEVISÃO

O ano de 2021 foi tão atarefado que até a última semana do ano foi bastante ocupada, ao ponto de não ter tempo de postar muito aqui no blog. Com isso, até as minhas listas de favoritos ficaram um pouco esquecidas... antes que o ano vá desta para melhor, ainda tenho tempo de postar algumas coisas. Esta é minha lista de favoritos televisivos do ano que chega ao fim (sei que estou devendo postagens de alguns mencionados aqui, mas prometo fazer assim que puder): 

MELHR SÉRIE 

AT✪R COADJUVANTE 

ATRIZ C✪ADJUVANTE

MELHOR AT✪R

MELH✪R ATRIZ

MELH
R MINISSÉRIE

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

10+ Melhores Pôsteres de 2021

Inaugurando minhas listas de fim de ano está a tradicional postagem dos meus pôsteres favoritos do ano. Vale destacar que depois de um ano de cinemas fechados, os candidatos a prêmios de fim de ano capricharam nos cartazes para chamar atenção do público - e por isso, aparecem em várias posições por aqui. A seguir os meus dez favoritos, do décimo até o que mais gosto (e foi difícil decidir a ordem do pódio):

#10 "Duna" de Denis Villenneuve

09 "O Último Duelo" de Ridley Scott

#08 "C'mon C'mon" de Mike Mills

#07 "In the Earth" de Ben Wheatley

#06 "Licorice Pizza" de Paul Thomas Anderson

#05 "O Cavaleiro Verde" de David Lowery


#03 "Flee" de Jonas Poher Rasmussen

#02 "Spencer" de Pablo Larraín

#01 "Belfast" de Kenneth Brannagh


sábado, 11 de dezembro de 2021

FILMED+: Lamb

 
Hilmir e Rapace: quem vai ficar com Ada?

Ao assistir Lamb eu lembrei de crescer ouvindo os comentários de minha mãe que adoro filmes estranhos. Se ela houvesse assistido ao candidato da Islândia por uma vaga ao Oscar de produção estrangeira em 2022, ela diria que eu o amaria. Ela estaria certa. Muita gente vai achar um exagero o fato de atribuir minha cotação máxima para o filme, mas eu explico, a começar pela própria história do filme. O filme é ambientado na zona rural montanhosa da Islândia, uma câmera parece espiar a nevasca severa e segue como um animal à espreita até encontrar as ovelhas criadas pelo casal Maria (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snaer Gudnason). Algo estranho acontece e a prova disso é quando uma das ovelhas da à luz a um filhote que é prontamente adotado por seus criadores. Batizada de Ada e levada a um quarto, com berço e amamentada com uso de mamadeira, o roteiro não gasta diálogos explicando o que está acontecendo, apenas apresenta o fato daquele casal melancólico e sem filhos ter adotado o filhote. Uma fala quase solta revela que um fato está ligado a lendas folclóricas, mas o casal segue  em sua jornada particular de cuidar de Ada como a criança que faltava naquela casa. Se os dois estão muito tranquilos com a ideia, a verdadeira mãe de Ada está desesperada (uma ovelha digna de Oscar se a Academia premiasse animais sabiamente utilizados por um diretor), o que irrita cada vez mais Maria (que é sempre arrastada para a realidade quando o chamado daquela mãe pelo seu filhote atravessa o silêncio da casa). Eis que aos poucos o diretor  Valdimar Johannsson revela que Ada é um bebê híbrido, meio humano, meio animal e o estranhamento da plateia oscila entre o ridículo e a ternura. O grande desafio do filme é fazer a plateia comprar a ideia semelhante a do casal: que aquele filhote é uma criança e merece ser tratado como tal. Este dilema é radicalizado com a chegada do irmão de Ingvar e a tentativa vã de chamar aquele casal para a estranheza do que acontece ali, mas convenhamos que a pequena Ada já ganhou nossa simpatia - e tememos que algo de muito ruim possa acontecer à ela.  Lamb é de fato um filme diferente, quase bizarro, que ousa mais ainda ao se amparar na expectativa de que algo terrível pode acontecer àquela família que encontra a felicidade em uma fantasia. Narrado como um conto folclórico e filmado como uma história de terror, o filme torna-se uma experiência cinematográfica ímpar e parte nosso coração com aquela última cena de Ada, entre seu destino natural e a família que a acolheu. A magia do filme nos faz até esquecer que Ada é um misto brilhante de animais, atores mirins, CGI e fantoches. Para além da "atuação" de Ada e sua mãe biológica, vale ressaltar o excepcional trabalho de Noomi Rapace, que apresenta a melhor performance de sua carreira. Introspectiva, silenciosa e visivelmente consumida de angústias - o que a faz cometer um dos atos mais cruéis do filme - ela é responsável por ampliar todas as sensações que o filme sugere. O controle absurdo do estreante Valdimar Johannsson do roteiro que tem em mãos (feito por ele e pelo escritor Sigurjón Birgir Sigurðsson, mais conhecido como Sjón, autor de vários livros e das músicas de Dançando no Escuro/2000 de Lars Von Trier) faz do filme uma verdadeira obra-prima em sua narrativa, digamos... circular. O filme foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, recebendo um prêmio especial na Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes por sua originalidade (óbvio). 

Lamb (Islândia/Suécia/Polônia - 2021) de Valdimar Johannsson com Noomi Rapace, Hilmir Snær Guðnason, Björn Hlynur Haraldsson e Ingvar Sigurdsson. ☻☻☻ 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

FILMED+: Viagem ao Topo da Terra

 
Fukamachi e Jôji: jornada impressionante. 

Eu ficaria bastante feliz se Viagem ao Topo da Terra entrasse na lista dos cinco indicados ao Oscar de animação do próximo Oscar. Lançado recentemente pela Netflix, o filme foi bastante elogiado no Festival de Cannes e para além de sua história envolvente, traz um visual magnífico, que por vezes nem parece ser uma animação dada ao realismo que emana das cenas. Baseado no mangá japonês de Jiro Taniguchi (que por sua vez é baseado no livro Around the Summit of Gods de Baku Yumemakura) a história gira em torno de um fotojornalista japonês Fukamachi, que busca uma câmera fotográfica que pode mudar a história do alpinismo mundial, já que ela foi utilizada para registro de uma escalada ao Everest, que ninguém sabe qual foi o desfecho. O mito em torno da tal câmera acaba trazendo de volta um alpinista que todos julgavam ter desaparecido: Habu Jôji. Famoso por seu temperamento incansável e habilidades no alpinismo, ele ficou famoso e desapareceu sem deixar vestígios sem que os motivos fossem conhecidos. O foco de Fukamachi migra então da câmera para Jôji, fazendo com que busque pistas sobre o paradeiro do alpinista, montando um verdadeiro quebra-cabeças sobre o que aconteceu. Existem muitas camadas e tramas que se misturam no roteiro, o que pode deixar os menos atentos um pouco confusos no andamento  da história, mas nada que prejudique a apreciação de uma animação feita com a densidade dramática de um verdadeiro filme de arte. Misturando drama e aventura, Viagem ao Topo da Terra fica ainda mais impressionante em sua segunda metade quando Fukamachi convence Jôji a leva-lo em sua escalada pessoal pelo Everest, neste ponto, os diálogos se tornam raros e a neve parece sair da tela rumo ao espectador. Para além da aventura e do traço impressionante, chama atenção como a animação desenvolve seus personagens, seus desejos, medos e ambições até o desfecho. Tanta profundidade não aparece por acaso, já que o romancista Baku Yumemakura escreveu seus personagens inspirados em verdadeiros ícones do alpinismo somados aos desafios gigantescos em torno de todas as histórias envolvendo o Everest e seus perigos. Assista. É um dos filmes mais impressionantes que assisti em 2021. 

Viagem ao Topo da Terra (Le sommet des dieux) de Patrick Imbert com vozes de Lazare Herson-Macarel, Eric Herson-Macarel e Damien Boisseau ☻☻☻

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

PL►Y: O Ataque dos Cães

 
Benedict e Kodi: as aparências enganam. 

Por várias décadas diretores e produtores tentaram fazer uma adaptação cinematográfica do livro The Power of the Dog de Thomas Savage. O livro, que não foi lançado no Brasil, é considerado por muitos uma verdadeira obra-prima ao realizar sua releitura dos personagens típicos de um faroeste (estilo que é muitas vezes chamado de western revisionista, anti-faroeste ou até pós-faroeste). Eis que a neozelandeza Jane Campion (do magnífico O Piano/1993) conseguiu levar o projeto adiante e fez um dos filmes mais hipnóticos de 2021, especialmente pela forma como ela molda a história tal e qual o livro, mostrando os fatos enquanto a verdadeira história está abaixo de tudo que se ouve e se vê. Não é um trabalho fácil de ser realizado e, portanto, Jane já desponta como a favorita ao Oscar de direção que se aproxima. O filme gira em torno de Phil Burbank (Benedict Cumberbatch), um cowboy que vive na fazenda ao lado de seu irmão George (Jesse Plemons), com quem divide até o quarto. Os dois são completamente diferentes, o que Phil possui de rude e grosseiro, George possui de gentil e educado. Não por acaso, a personalidade de George é sufocada pelo irmão. Um dia os dois vão almoçar no restaurante da viúva Rose (Kirsten Dunst), que cuida do local com a ajuda do filho adolescente, Peter (Kodi Smit-McPhee). Se por um lado Phil irá destratar o rapaz, George irá se interessar por Rose e não demora muito para que os dois comecem a ter um relacionamento sério. Quando Peter vai para a faculdade, Rose e George se casam e vão morar na fazenda ao lado de Phil, que fará a vida de sua cunhada um inferno... até Peter visitar a mãe na fazenda. No entanto, em meio às grosserias de Phil, começa a acontecer uma suspeita aproximação do valentão com Peter, que começa a descobrir o que está por trás daquele comportamento desagradável. O Ataque dos Cães é um filme que funciona como o mecanismo de um relógio e requer atenção do espectador em meio à sua narrativa em que nada de muito importante parece estar acontecendo. Não por acaso, depois do último ato, muita gente resolve rever o filme e entender os detalhes que perdeu pelo caminho de suas suas duas horas de duração. Jane Campion faz um trabalho notável e tem um elenco em sintonia perfeita. Cumberbatch está ótimo como o homem que esconde seus verdadeiros sentimentos debaixo de sua sujeira (sim, dizem que Ben não tomava banho para incorporar melhor o personagem) e deve ser indicado ao Oscar de melhor ator. Kirsten Dunst também deverá aparecer no páreo de atriz coadjuvante pela árdua transição de sua personagem, assim como Kodi Smit-McPhee que está perfeito como um personagem que, assim como Phil, não se encaixa muito bem no que pensam sobre ele. Quem sai perdendo na história é Jesse Plemons que tem sua participação reduzida na segunda metade da sessão, mas nada que prejudique os caminhos de uma história de final surpreendente. Quanto ao título nacional estranho, o original O Poder do Cão (em tradução literal) é uma citação da Bíblia inglesa em que o Cão é aquele mesmo que simboliza a maldade (e pode soar até um SPOILER do desfecho). 

O Ataque dos Cães (The Power of the Dog / EUA - Reino Unido - Canadá - Nova Zelândia - Austrália / 2021) de Jane Campion com Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemons, Kodi Smit-McPhee, Sean Keenan e George Mason. ☻☻☻

segunda-feira, 14 de junho de 2021

PL►Y: Quo Vadis, Aida?

 
Aida (Jasmila Zbanic): dores de uma tragédia anunciada. 

Desde que foi exibido na disputa ao Leão de Ouro no último Festival de Veneza, o longa Quo Vadis, Aida? se tornou um daqueles filmes tão comentados que se torna praticamente impossível não ter vontade de vê-lo. Some isso às indicações aos prêmios de filme estrangeiro que concorreu no Oscar e no BAFTA e a curiosidade só cresce ainda mais. No entanto, o bom mesmo, é que o filme da diretora Jasmila Zbanic (indicada ao BAFTA de melhor direção) é realmente impressionante. O filme conta as horas que precederam o aterrorizante massacre de Srebrenica, um dos momentos mais sangrentos da guerra civil iugoslava, marcada pelos conflitos entre países do Leste Europeu que perdurou de 1991 até 2001. Vale ressaltar que a narrativa do filme acontece durante os ataques da Sérvia à Bósnia e Herzegovia, cujas tropas promoviam um verdadeiro genocídio étnico após a Bósnia proclamar independência em 1992. A trama do filme é ambientada três anos depois, na cidade de Srebrenica que está prestes a ser invadida pelos Sérvios. É bom destacar este contexto histórico, já que o filme não se preocupa em contextualizar historicamente o que se vê na tela, para a emoção que a diretora pretende despertar em seus espectadores, basta saber que existe um grupo enorme de pessoas que deixam seus lares temendo por suas vidas e buscam abrigo na base da ONU. O que move todo o filme é a angústia do drama humano que transborda de uma tragédia anunciada. Conduzindo a narrativa está Aida (Jasmila Zbanic), a protagonista do filme, que teme por tudo o que pode acontecer perante o caos que se instaura no país, mas teme, principalmente, pela vida de sua família. Trabalhando como intérprete da ONU, ela transita entre os refugiados e as autoridades, sofrendo por ver os rumos dos acontecimentos sem poder fazer muita coisa perante o que acontece diante dos seus olhos. Aos poucos o local que deveria transmitir segurança se torna uma verdadeira bomba relógio, com acordos políticos surgindo aqui e ali, fermentando a permissividade de quem deveria protegê-los e que se tornam cúmplices de uma tragédia. A atriz Jasna Djuricic está perfeita como Aida, ela se comporta feito uma verdadeira leoa enjaulada, aos poucos sua angústia cresce perante a impotência que se revela implacável. O trabalho de Jasna é fundamental para que o filme alcance o nível que o trabalho da direção almeja: ser urgente, cru e numa linguagem quase documental (que é o formato dos primeiros trabalhos da diretora). Jasmila Zbanic filma como se estivesse dentro de uma panela de pressão e faz doer ao encaixar aqui e ali cenas de um passado próximo em que os inimigos eram vizinhos e amigos de longa data. Se terminasse naquela cena desoladora do pátio o filme seria perfeito, mas ele se estende um pouco mais e não era necessário. Ainda que seja um retrato de um período histórico recente de um país distante, o ódio disseminado pela política de "nós versus eles" mostra-se bastante próximo quando vemos até onde a sandice humana pode ir. 

Quo Vadis, Aida? (Bósnia e Herzegovina | Áustria | Romênia | Noruega | Alemanha | Polônia | França | Noruega | Turquia - 2020) com Jasna Djuricic, Izudin Bajrovic, Boris Ler, Johan Heldenbergh e Raymond Thiry. ☻☻

quinta-feira, 6 de maio de 2021

FILMED+: Fruto da Memória

 
Aris: sobrevivendo à epidemia do esquecimento. 

Sabe aquele tipo de filme que você assiste e fica pensando sobre ele um bom tempo? São estes que costumo considerar os verdadeiros "filmes-cabeça" (um termo que costuma ser usado pejorativamente por quem não o entende), já que é lá dentro que o filme continua acontecendo depois que termina. Este foi o caso do sensacional Fruto da Memória, mais conhecido como Apples, filme grego lançado no Festival de Veneza do ano passado e que tentou uma vaga no páreo de filme estrangeiro deste ano (e acabou ficando de fora). O filme conta a história de uma epidemia de esquecimento que se espalha pelo mundo por volta dos anos 1980 (e a escolha por um período em que a tecnologia ainda não havia invadido nossas vidas é proposital). As pessoas saem de casa e subitamente esquecem não apenas quem são, mas como fazer coisas triviais em suas vidas (dirigir um carro, dançar, andar de bicicleta, flertar...) e após um breve estudo sobre o que está acontecendo (e não existe muita explicação), as pessoas começam a fazer um tratamento para voltar à ter uma vida social. No entanto, esta vida social é traçada de acordo com as instruções dos médicos responsáveis pelo acompanhamento - e que precisam de registros fotográficos constantes para comprovar que o desmemoriado está fazendo tudo exatamente como deve ser feito. Apesar da doença afetar vários personagens, a trama é voltada especificamente para Aris (Aris Servetalis) que perde a memória e começa o processo de acompanhamento que o faz reaprender tudo novamente. Em seu caminho ele conhece uma mulher na mesma situação, ms que por conta das instruções sobre o que é ter uma "vida", o que poderia ser um relacionamento acaba criando um abismo entre os dois. Se você achar que Apples te lembra o absurdismo de outro diretor grego não é por acaso, o cineasta estreante Christos Nikou teve como primeiro trabalho no cinema o posto de assistente de direção do aclamado Yorgos Lanthimos (do arrasador A Favorita/2018) naquele que seria o divisor de águas de sua carreira, o estranho Dente Canino (2009). Nikou aprendeu direitinho a forma como manter as atuações contidas ao extremo e o tom que se equilibra entre a tragédia e a comédia. O roteiro esperto, embora ambientado em uma época diferente da atual, fala muito sobre a vida no século XXI, da necessidade das fotos para comprovar que algo foi feito, um código de conduta do que é curtir a vida e, principalmente, as inseguranças perante o que se deseja e o que esperam que você faça. Esta alegoria gera cenas memoráveis como a que o personagem volta a andar de bicicleta em meio a crianças, ou quando aprende a curtir rock'n roll e, principalmente, quando se dá conta que dançar com quem se deseja pode fazer a experiência de dançar muito melhor (na que se torna a cena mais avassaladora do filme).  Claro que Nikou reserva momentos de pura provocação como a cena em que a única coisa lembrada pelo protagonista é o nome do cachorro do vizinho ou quando ele se dá conta de que pessoas morrem. Apples - em português maçãs que pode ser uma alusão à fruta que o protagonista não lembra se gostava e agora não para de comer (o que demonstra ser uma comodidade segura, já que não precisa experimentar novos sabores) , mas também uma analogia ao fruto proibido - é uma produção que mostra-se uma potente reflexão sobre os tempos atuais. Não por acaso, Christos Nikou já tem seu novo projeto (Fingernails) bancado por Hollywood, com a duplamente indicada ao Oscar Carey Mulligan no alto dos créditos. Lanthimos deve estar orgulhoso. 

Fruto da Memória (Apples|Mila / Grécia - 2020) de Christos Nikou com  Aris Servetalis, Sofia Georgovassili, Anna Kalaitzidou e Kimon Fioretos. 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

FILMED+: Meu Pai

 
Olivia e Anthony: mente compartilhada com a plateia. 

Anthony (Anthony Hopkins) é um senhor de idade que está sob os cuidados da filha Anne (Olivia Colman), mas ele anda tendo problemas com a atual cuidadora e de vez em quando esquece onde colocou seu estimado relógio. Também fica intrigado com as pessoas estranhas que andam aparecendo em sua casa e o alguns comportamentos estranhos ao seu redor (assim como a casa que parece estar sempre diferente). Na verdade a cabeça de Anthony está uma grande confusão e o grande mérito do filme dirigido pelo estreante Florian Zeller é fazer o público sentir na pele todas as sensações de seu protagonista. Contado a partir do ponto de vista de alguém cuja mente começa a ser traiçoeira, Meu Pai se torna um filme surpreendente ao se tornar uma experiência sensorial para a plateia. Neste aspecto o dramaturgo Zeller merece todos os elogios, não apenas por adaptar sua peça para o cinema com uma destreza impressionante, mas também por saber utilizar todos os elementos cinematográficos que dispõe para criar uma espécie de jogo com o público. Neste ponto vale tudo, da edição, ao uso inusitado do cenário, passando por atores que mudam de identidade durante a sessão e cenas que soam bastante dissonantes do que se espera. Não é por acaso que Anthony Hopkins está elogiadíssimo pelo seu trabalho, não apenas pelo olhar perdido de seu personagem diante de um cenário que deveria lhe parecer tão familiar mas também por aquelas cenas (especialmente a última) que são de partir o coração - e prova que um ótimo ator pode sempre surpreender (e conquista sua sexta indicação ao Oscar). Vale também destacar que a indicada ao prêmio de atriz coadjuvante, Olivia Colman prova que a maldição do Oscar passou bem longe dela. Além de encarnar a Rainha Elizabeth nas duas temporadas mais populares da série The Crown, ela retorna agora bem mais contida do que a estapafúrdia rainha de A Favorita (2018) e consegue transmitir com seus olhares e posturas toda insegurança e responsabilidade que a personagem vivencia perante o estado de saúde do pai. O filme também faz o favor de deixar várias pontas soltas, sem explicar o que está havendo, deixando o espectador desbravar o enredo por si só, assim, alcança um resultado tão comovente quanto assustador. Com sua narrativa envolvente, Meu Pai superou a péssima campanha da Sony Classics (que praticamente escondeu o filme e deixou que ele chamasse atenção por conta própria) e conquistou outras quatro indicações ao Oscar deste ano: filme, roteiro adaptado, edição e (surpreendeu ao aparecer na categoria) design de produção - me atrevo a dizer, que para o filme não sair de mãos abanando da cerimonia do dia 25 de abril, bem que poderia receber este último como compensação, o trabalho é realmente  brilhante e merece toda nossa atenção durante toda a sessão. 

Meu Pai (The Father / Reino Unido - França / 2020) de Florian Zeller com Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Rufus Sewell, Imogen Poots e Mark Gatiss. 

domingo, 28 de março de 2021

FILMED+: Jamais Nevará Novamente

 
Alec: poderes especiais.

Nas primeiras cenas do filme, Zhenia (Alec Utgoff) caminha próximo de luzes que piscam enquanto ele caminha. O que poderia ser apenas um detalhe revela bem mais sobre o personagem do que imaginamos, mas só percebemos isso depois, em uma entrevista em que ele revela ter nascido na Ucrânia, em uma cidade perto de Chernobyl. Ele tinha apenas sete anos quando o trágico acidente nuclear ocorreu. Logo aparece o comentário de que ele pode ser radioativo. E pode mesmo. Trabalhando como massagista, todos os seus clientes relatam a experiência maravilhosa que é deixar-se levar pelas sensações que Zhenia é capaz de proporcionar, não apenas pelas massagens, mas também pelas conversas, sessões de hipnose e outras habilidades que o misterioso rapaz revela ao chegar em um condomínio de luxo em Varsóvia. Se por um lado o filme se desenvolve através das interações do protagonista com aqueles moradores e seus problemas, por outro lado a diretora Malgorzata Szumowska alimenta gradativamente a curiosidade do espectador em torno de seu personagem. Flertando com os filmes de super-heróis, ela constrói um filme de origem com cadência tão vagarosa quanto envolvente, que tem a sorte de contar com Alec Utgoff no alto dos créditos. Nascido na Ucrânia e naturalizado britânico, Alec faz um trabalho bastante excepcional num papel complicado que oscila entre a comédia refinada e o drama introspectivo, mas sem perder as camadas sedutoras que seu personagem é capaz de emanar. Assim, o ator e a diretora constroem uma verdadeira aura magnética em torno do massagista - e a torna tão palpável para os personagens do filme quanto para a plateia. Pode se dizer que Utgoff já ensaiou isso antes quando interpretou o adorável russo Alexei na terceira temporada de Stranger Things) e bem que o ator merecia aparecer mais vezes no cinema. O roteiro investe muito na fantasia para instigar o espectador a respeito da origem de Zhenia e seus poderes, seja com diálogos melancólicos ou cenas de flashback, mas sem perder de vista um tom de mistério. Existem também aquelas cenas estilizadas muito bem trabalhadas na espécie de transe em que os personagens mergulham perante os poderes do rapaz. Sem perder de vista o ponto de partida de um forasteiro que muda a vida de todos somada à metáforas políticas e sociais (inclusive sobre imigração na Europa), Jamais Nevará Novamente termina mantendo o mistério acerca de Zhenia e rende um dos desfechos mais poéticos do cinema recente. Quem curte filmes do Leste Europeu perceberá que a diretora segue um caminho completamente oposto da abordagem do húngaro Kornél Mundruczó em Lua de Júpiter/2017 (que também apresentava um imigrante com poderes especiais e suas consequências) além de fazer uma citação ao cultuado Stalker/1979 de Tarkovski. No entanto, mesmo com tantos predicados, o filme perdeu o Leão de Ouro do Festival de Veneza (para Nomadland) e também ficou de fora ao Oscar de Filme Estrangeiro em que representava a Polônia, mas ainda assim é um dos filmes mais inventivos que assisti recentemente.  

Jamais Nevará Novamente (Sniegu juz nigde bie bedgie / Polônia - Alemanha / 2020) de Malgorzata Szumowska com Alec Utgoff, Maja Ostaszewska, Agata Kulesza, Katarzyna Figura, Lukasz Simlat e Andrzej Chyra e Weronika Rosati. ☻☻☻☻

sábado, 27 de março de 2021

PL►Y: DRUK - Mais uma Rodada

Madds e seus alunos: pesquisa do bafômetro. 

Quatro professores seguem suas vidas normalmente na maturidade. Já alcançaram estabilidade profissional, a situação familiar que desejavam vai bem e suas rotinas funcionam dentro de um confortável relógio de segurança, comodidade e previsibilidade. Se para três deles tudo parece absolutamente satisfatório, com Martin (Mads Mikkelsen) a situação é um pouco mais complicada. O casamento dele chegou naquele ponto morno em que todos os dias são iguais, a esposa e os filhos convivem com ele na mesma casa, mas ele não é muito diferente daquela poltrona confortável que gostamos de ver na sala. No trabalho também os alunos reclamam de suas aulas serem desinteressantes e, por conta disso, o melancólico Martin corre até o risco de perder o emprego. Nem mesmo Martin sabe em que ponto a vida se tornou daquele jeito, menos pela rotina que segue e mais pela sensação de que perdeu a graça faz um tempo. Eis que um belo dia, seus três amigos comentam sobre a teoria de um psiquiatra norueguês de que o homem precisa de 0,05% de álcool no sangue ao dia para viver melhor, ou seja, com mais humor, leveza e menos tensão. Assim, junto aos amigos Tommy (Thomas Bo Larsen), Nikolaj (Magnus Millang) e Peter (Lars Ranthe), Martin irá fazer uma "pesquisa" se a teoria realmente funciona. Para dar conta disso, tomarão sua dose de álcool de manhã antes de ir para o trabalho e ver o que acontece. Não vale dizer os detalhes desta vida de cobaia vivida pelo quarteto, mas cabe dizer que conforme percebem que o álcool os ajuda a enfrenta melhor seu cotidiano, eles imaginam que aumentando a dose a coisa pode melhorar mais ainda. Ledo engano.O filme de Thomas Vinterberg concorre ao Oscar de Filme Estrangeiro e fez com que o cineasta, co-fundador do movimento Dogma95 (cujo seu bombástico Festa de Família/1998 é o primogênito) se torne o primeiro diretor dinamarquês indicado ao Oscar de Melhor Direção. Talvez o fato de Thomas não fazer julgamentos morais sobre seus personagens crie um desconforto na plateia, afinal existem apenas um comentário de um personagem aqui e outro ali sobre a situação em que os personagens se meteram, existem também algumas situações pesadas e outras que poucos diretores ousariam escrever e mostrar. Embora os desavisados possam enxergar aqui uma apologia ao alcoolismo, o que interessa ao filme são outras questões: por que aqueles personagens precisam do álcool para se sentir bem e, mais ainda, por que a vida pode perder a graça quando se atinge a maturidade? Por que as obrigações acabam se tornando mais importantes do que aquilo que nos dá prazer? Druk não traz respostas, mas subverte as emoções da plateia, fazendo muitas vezes alegria e tristeza emanar de uma mesma cena, especialmente quando Martin está em cena. Por conta disso, vale dizer que Mads Mikkelsen é um verdadeiro colosso! Lembrado no BAFTA de melhor ator, houve uma grande campanha para que o dinamarquês fosse indicado ao Oscar pela primeira vez. Mads já trabalhou com o diretor em outro filme, o ótimo A Caça (2012)  que também concorreu ao Oscar de filme estrangeiro (e rendeu a Mikkelsen o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes). Mads faz seu personagem ser a alma do filme, da melancolia absoluta, passando por uma renovação surpreendente pouco antes dele cair num abismo que lhe parece tão irresistível. Sem dúvida ele é um dos melhores atores da atualidade (basta lembrar que ele teve coragem de reimaginar um ícone feito Hannibal Lecter em uma série de televisão e não fazer feio. Falando nisso, a retomada de Hannibal sai ou não sai?). Druk fala mais do que sobre bebida, é principalmente sobre as relações, seja no casamento, no trabalho, com os amigos, com a vida em si  e principalmente com você mesmo. 

Druk - Mais uma Rodada (Druk / Dinamarca - 2020) de Thomas Vinterberg com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang, Lars Ranthe, Maria Bonnevie,  Helene Reingaard Neumann e Susse Wold. ☻☻☻

domingo, 7 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: Bela Vingança

 
Carey: enfiando o bisturi na ferida. 

Cassandra (Carey Mulligan) é uma jovem que tem uma rotina bem diferente das outras garotas de sua idade. Ela gosta de ir para estabelecimentos noturnos e fingir que ingeriu mais álcool do que devia para atrair homens aparentemente inofensivos que tentem se aproveitar dela. Quando eles estão prestes a se aproveitarem de sua inconsciência, ela demonstra que está bastante sóbria, mais do que eles, inclusive. Assim, ela segue uma rotina de fazer os homens tremerem perante as atrocidades que são capazes de cometer como se fosse a coisa mais natural do mundo. Existe um motivo bastante sensível para que ela faça isso, tem relação com o tempo em que estava na faculdade e uma situação degradante de abuso não foi encarada com a seriedade que merecia. Passado muitos anos, sua insatisfação com o caso e a forma como as instituições lidaram com a situação, só fazem a sua sede de vingança ainda maior, ainda mais quando um  ex-colega da faculdade reaparece e traz personagens do passado de volta... mas esta não é a única função do simpático Ryan (Bo Burnham), já que ele se interessa amorosamente por Cassandra  que, por conta de sua rotina arriscada, por vezes mete os pés pelas mãos e pode colocar tudo a perder. Vale ressaltar que a premissa em torno da protagonista é o fio condutor de um filme que toca em várias feridas que estão constantemente em debate nos dias atuais - e aqui recebem situações bastante ilustrativas e incômodas sobre a forma como os abusos contra as mulheres foram naturalizados. O melhor de tudo é que o filme não é realizado da forma quadradinha, mas com um senso de humor maldoso e muitas provocações que dividem a opinião do público e até da crítica, mas que torna Bela Vingança um filme que é impossível ser assistido com indiferença. Escrito e dirigido por Emerald Fennell o filme foge das obviedades e, para entender um pouco mais a estética do filme, vale conhecer um pouco mais sobre sua diretora. Emerald é inglesa e uma das roteiristas de Killing Eve (o que explica sua habilidade em misturar drama, suspense e o humor maldoso), ela também se tornou conhecida por interpretar a jovem Camilla Parker Bowles na série The Crown e surpreender ao ser indicada ao Globo de Ouro e Independent Spirit de melhor direção enquanto disputava a vaga com cineastas mais experientes. Em sua estreia em longas metragens, Emerald mira em uma espécie de confraria que perdoa qualquer atitude condenável feita pelos seus pares, embora seja composta em grande parte por homens, muitas mulheres no filme reproduzem o mesmo discurso permissivo e capaz de perdoar um homem por ter estuprado uma mulher enquanto aponta o dedo para ela por estar alcoolizada (como se isso a tornasse menos digna de respeito).  No entanto, Bela Vingança tem o mérito de colocar o dedo na ferida de forma envolvente, embalado pelo elenco interessante capitaneado por Carey Mulligan que desponta como uma das favoritas ao Oscar deste ano. A atriz que sempre foi competente vive aqui uma personagem diferente das outras que já viveu no cinema, mas insere camadas deliciosamente humanas (para o bem e para  mal) para não ser confundida com uma personagem vingativa comum. Outro destaque é Bo Burnham  (diretor de Oitava Série/2018) que tem algumas guinadas surpreendentes em seu personagem (e ele dá conta direitinho). Se existe algo que causa horror no filme é o seu penúltimo ato, mas que condiz com a postura da diretora tocar na ferida e não se importar com o incômodo que pode provocar com seus vilões disfarçados de cordeiros imaturos e fanfarrões. Vou evitar spoilers e nem vou dizer de qual filme o final me lembra... mas dou a dica que era de 1991 e tem relação com duas amigas. 

Emerald Fennell: Killing Eve e The Crown no currículo. 

Bela Vingança (Promising Young Woman / EUA - Reino Unido / 2020) de Emerald Fennell com Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Laverne Cox, Jennifer Coolidge, Clancy Brown, Adam Brody, Christopher Mintz-Plasse, Sam Richardson, Christopher Lowell e Connie Britton. ☻☻☻☻

sexta-feira, 5 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: First Cow

 
Lee e Magaro: negócio arriscado. 

Faz algum tempo que o cinema de Kelly Reichardt chama a atenção da crítica. Embora esteja longe de ser unanimidades filmes como O Atalho/2010, Movimentos Noturnos/2013 e Certas Mulheres/2016  deixavam claro que o cinema de Kelly tem força e algo a dizer em seus longos silêncios. É verdade que ela possui um estilo um tanto seco, sem firulas e pouca (ou nenhuma) concessão à plateia.  Não fosse o estranho ano de 2020, talvez seu sétimo longa, First Cow houvesse caído nas graças do público, tanto quanto a crítica caiu de amores por ele. O filme começa com a descoberta de duas ossadas encontradas nos dias atuais para logo depois voltar no tempo, mais precisamente para Oregon o ano de 1820 quando o padeiro Otis Figowitz (John Magaro) viaja com um  grupo de caçadores e encontra Ling-Lu (Orion Lee) no caminho. Sem roupas e desprotegido, Lu recebe a ajuda de Otis e nasce dali uma amizade genuína e verdadeira pautada pela confiança. Lu convida o amigo para morar em sua casa e juntos constroem uma rotina dentro da narrativa lenta sobre o cotidiano dos dois. O ritmo desta parte faz o filme demorar para engrenar (e a cineastas curte mesmo uma narrativa mais vagarosa), mas logo depois a situação muda quando um rico inglês (Toby Jones) chega para morar naquela localidade e traz com ele uma vaca, a primeira daquele lugar esquecido. O animal chama a atenção do padeiro, que passa a imaginar os biscoitos que poderia fazer com o leite produzido e não demora para que ele e seu amigo passem a ordenhar a vaca clandestinamente todas as noites e vender o tal biscoito para os moradores locais. O produto faz sucesso e chama atenção até do tal fazendeiro, deixando os dois cada vez mais preocupados com o risco que continuam assumindo todas as noites em nome do dinheiro que conseguem ganhar com as vendas. Da situação nasce então um contraste interessante, seja da tranquilidade local com a ameaça de que algo terrível poderá acontecer aos dois ou as diferenças entre quem tem dinheiro e quem não tem. First Cow é baseado no livro A Half Life de Jonathan Raymond que assina o roteiro ao lado da diretora, que alcança aqui o seu trabalho mais envolvente, principalmente por nos fazer importar com a dupla de amigos magistralmente interpretada por John Magaro (de quem sou fã desde que o vi na série Orange is the New Black) e Orion Lee (que eu não conhecia, mas agora ficarei atento aos seus trabalhos futuros). First Cow é uma história simples e linear, com enquadramentos elegantes e que se enriquece pelos detalhes gradativamente. Existe uma forte campanha para que o filme apareça no Oscar que vem por aí, mas talvez seja alternativo demais para os votantes da academia (mas dizem que tem chances de ser indicado pelo roteiro adaptado e seria merecido). First Cow concorreu ao prêmio de melhor filme no Festival de Berlim no ano passado, foi indicado à três categorias do Independent Spirit (direção, melhor filme e ator coadjuvante para Orion Lee), cinco prêmios Gotham (Melhor filme, direção, ator/John Magaro, roteiro e ator revelação/Lee) e aparece em várias listas de críticos de melhores lançamentos do ano passado. Se antes eu sentia certa frieza nos filmes da diretora, aqui sinto um tom caloroso na condução da trama, que fez muito bem à sua cinematografia. First Cow é um daqueles tesouros escondidos que merece ser encontrado. 

Kelly Reichardt: o gosto pelos detalhes. 

First Cow (EUA-2020) de Kelly Reichardt com John Magaro, Orion Lee, Toby Jones, Ewen Bremner, Manuel Rodriguez, Ryan Findley, Jared Kasowski e Evie. ☻☻☻