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sábado, 12 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Transe

Luisa e Ravel: de boas intenções...

Fúlgido diáriw, o período das eleições de 2018 se caracteriza como um dos mais estranhos da história recente de nosso país. Nos anos seguintes, a coisa apenas se complicou ainda mais com uma pandemia no meio para embolar ainda mais as lembranças e as emoções da população. No meio da polarização acirrada daquela eleição as diretoras Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor resolveram realizar filmagens do que resultaria em Transe, filme lançado em 2022 com registros daquele período. O filme é um misto de ficção e documentário com base em seu trio de atores interagindo com pessoas nas ruas e improvisando cenas diante da câmera. Em alguns momentos a coisa parece se tornar interessante, mas em outras cai em armadilhas que só denunciam uma fragilidade no discurso que só evidencia certa superficialidade. Luisa Arraes vive Luisa, uma atriz que mora com o namorado músico Ravel (Ravel Andrade). Ela conhece Johnny (Johnny Massaro) em uma manifestação e subitamente se estabelece um trisal. A ideia é que o trio personifique tudo o que incomoda a família tradicional brasileira, mas faltou construir os personagens para que eles parecessem de verdade. A ideia de dar a eles o nome dos atores também não ajuda, assim como os diálogos saídos de uma enciclopédia de clichês, o que dificulta ainda mais a plateia comprar o discurso politizado que tenta imprimir. Algumas pessoas com que os atores interagem tiram o filme do marasmo, mas nada avança como debate interessante sobre um período crucial da realidade sócio-política brasileira recente. O distanciamento temporal só faz a produção soar ainda mais simplista em suas complexas intenções de desvendar o transe coletivo em torno do candidato que seria eleito.  

Transe (Brasil/2022) de Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor com Luisa Arraes, Ravel Andrade, Johnny Massaro, Bella Camero, Matheus Macena e Ana Flavia Cavalcanti. ☻☻

domingo, 2 de agosto de 2026

PL►Y: Mesa Maldita

Pareja: o horror do luto. 

Enlutado diáriw, dia desses vi este filme espanhol em uma lista de filmes angustiantes ao lado de Speak No Evil (2022), Faça Ela Voltar (2025) e outros filmes que já assisti. Fiquei curioso e fui procurar mais sobre este filme e fiquei surpreso ao descobrir que recebeu mais de vinte prêmios internacionais e, devido ao sucesso, rendeu até uma versão turca que foi lançada no ano passado. A trama conta a história de um casal que acaba de ter o primeiro filho. Depois de muitos anos de tratamento para conseguir um herdeiro, o clima entre Maria (Estefanía de los Santos) e Jesús (David Pareja) anda tenso. A cena de abertura em que os dois discutem sobre a compra de uma mesa de centro retrata bem como as alfinetadas entre um e outro se tornaram constantes. Ele quer comprar uma mesinha com tampa de vidro que dizem ter design sueco, ela acha a mesa horrorosa (e é mesmo). Contrariando a vontade de esposa, ele compra o móvel, mas ocorre um imprevisto na montagem e um acidente ocorre logo depois envolvendo o marido. Sem coragem de contar o que aconteceu, ele tenta esconder os fatos da esposa enquanto tenta lidar com seu próprio trauma. A parte em que o filme lida com a tensão entre marido e esposa funciona com perfeição, mesmo as atitudes um tanto desencontradas do marido fazem sentido diante o choque que vivenciou. A coisa perde um pouco o tom no jantar com as visitas que resolvem aparecer, junto com a vizinha de 13 anos que insiste em dizer que está apaixonada pelo marido de Maria. Nessa parte todo drama e tensão se dissolve no exagero, o que compromete um pouco o ótimo trabalho do diretor Caye Casas até então. Contado com atmosfera de filme de terror, o filme funciona mesmo como um drama pesado sobre um casal em crise.  

Mesa Maldita (La mesita del comedor / Espanha - 2022) de Caye Casas com David Pareja, Estefanía de los Santos, Josep Maria Riera, Claudia Riera, Eduardo Antuña, Gala Flores e Cristina Dilla. ☻☻☻

domingo, 23 de junho de 2024

PL►Y: Está tudo bem comigo?

Dakota: uma amiga em crise.

Lucy (Dakota Johnson) e Jane (Sonoya Mizuno) são melhores amigas faz tempo. As duas estudaram juntas e desde então não se desgrudam. Mas enquanto Jane tem um relacionamento sério com Danny (Jermaine Flower), as emoções de Lucy com Ben (Whitmer Thomas) estão confusas entre o namoro e a amizade. A vida amorosa de ambas funciona como uma espécie de analogia sobre as duas, enquanto uma é segura de si (e por vezes transborda suas intenções a quem está por perto), a outra está sempre hesitante em dar uma oportunidade a si mesma. No entanto, existe algo de confortável nesses polos opostos em que as amigas estão, já que uma acaba dando conforto à outra. O problema é quando Jane recebe a proposta de ir morar em Londres à trabalho por conta de uma promoção e ficar por lá por tempo indeterminado. Se de início Lucy fica feliz pelo reconhecimento conquistado pela amiga, a coisa complica quando ela se dá conta de que sem a companhia da melhor amiga, ela não terá mais ninguém por perto. Acho que se perguntarem para Lucy o que está acontecendo, ela não saberá explicar, mas quem já teve uma pessoa tão próxima capaz de oferecer suporte emocional quando se precisa, esta pessoa irá entender completamente o que se passa. O problema é que Jane não é apenas um suporte, mas uma verdadeira muleta para as emoções mais escondidas de sua amiga. O anúncio do distanciamento faz com que Lucy comece a questionar uma série de coisas em sua vida, isso inclui a sua profissão e também a forma como vivencia seus relacionamentos amorosos. Quando Está Tudo Bem Comigo? (que está disponível no Max) se concentra nestes pontos complicados, o filme funciona muito bem, especialmente no seu início. No entanto, quando resolve abordar a forma como a personagem começa a enfrentar sua homossexualidade o filme decepciona (o affair com a colega de trabalho é uma das coisas mais insossas que já vi em um filme) e fica pelo meio do caminho. O roteiro de Lauren Pomerantz acerta ao apresentar como uma amizade é importante em nossas vidas e o quanto imaginar sua ausência pode ser algo desesperador, acerta quando as duas amigas (com a distância iminente) começam a lavar roupa suja e trazem à tona segredos que não imaginavam, no entanto, quando inventa aprofundar a sexualidade de Lucy o filme demora para se ajeitar. Oque falta de energia na crise romântica de Lucy, sobra em sinceridade nas  atuações de Dakota Johnson e Sonoya Mizuno na pele de duas amigas que deixam o desfecho ainda mais autêntico.  

Está Tudo Bem Comigo (Am I Ok? / EUA - 2022) de Tig Notaro e Stephanye Allyne com Dakota Johnson, Sonoya Mizuno, Kiersey Klemons, Molly Gordon, Jermaine Flower e Whitmer Thomas. ☻☻

quarta-feira, 17 de abril de 2024

PL►Y: Suzume

Suzume: por trás dos terremotos japoneses.
 
O anime japonês Suzume de Makoto Shinkai teve uma torcida absurda para cravar uma indicação ao Oscar de melhor animação em 2023. Embora fosse um dos mais premiados do gênero daquele ano e conquistado uma indicação ao Globo de Ouro de animação, o filme acabou ficando de fora das cinco vagas na disputa. Os fãs ficaram indignados, mas a ausência entre os indicados não diminui em nada os méritos do filme que agora pode ser visto na Netflix. Shinkai é um dos nomes mais interessantes das animações japonesas, ele estreou em 2004 com O Lugar Prometido de Nossa Juventude, mas começou a chamar atenção com Viagem para Agartha (2011) e ganhou fama com Seu Nome (2016). Se todo cuidado com estética visual de suas histórias já chamava atenção, aqui ela atinge seu auge. Em Suzume o detalhamento dos traços e o uso das cores é realizado de forma a cair o queixo do espectador, mas o diretor não deixa de lado os momentos de ação e o bom humor que se faz muito presente durante todo o filme. Suzume é uma menina de 17 anos que conhece um  rapaz misterioso. Ela não faz ideia que ele é guardião de portais que quando abertos podem provocar grande destruição em nosso mundo. Acontece que ela acaba atrapalhando a missão do mocinho e passa o resto do filme tentando consertar a confusão que desencadeou. Acho que é o tipo de filme que se contar mais do que isso perde a graça por estragar as surpresas que o filme reserva. Basta dizer que no meio da relação entre os portais e os terremotos (estes fenômenos naturais que sempre assombram o Japão) existe ainda um gato falante e uma cadeira "viva" de três pernas que servirá de companhia para a protagonista. Existem muitos elementos de fantasia e aventura em Suzume, mas o que prende mesmo a atenção é como o roteiro consegue entrelaçar a realidade dos espaços abandonados por conta dos terremotos com elementos de fantasia ao longo de toda a história. Além disso, a forma como a história da própria Suzume se mistura com estas ocasiões cria um suporte emocional bastante eficiente ao longo da trama. O filme tem um visual deslumbrante, cenas de tirar o fôlego e demonstra como Shinkai está disposto a se tornar uma referência do gênero. Recentemente em entrevistas, o cineasta disse o quanto se incomoda ao sempre ser comparado com o mestre Hayao Miazaki, assistindo Suzume as referências são visíveis, mas Shinkai demonstra talento para ter voz própria faz tempo.
 
Suzume (Japão/2022) de Makoto Shinkai com vozes de Nanoka Hara, Houto Matsumara, Eri Fukatsu, Sairi Itô e Kotone Hanase. ☻☻☻☻

domingo, 14 de abril de 2024

PL►Y: Viver

Bill: pensando sobre a vida que resta.

Bill Nighy é um rosto bastante conhecido dos cinéfilos. Com 74 anos de vida e mais de quatro décadas de carreira, o ator inglês já participou de inúmeras produções para teatro, cinema e televisão. Apesar de ser mais conhecido por seus trabalhos em comédias, Bill tem uma cota de personagens sérios respeitáveis, mas que o Oscar parecia não dava muita bola até que em 2022 ele atuou neste filme de Oliver Hermanus. Viver conta a história de Sr. Rodney Williams (Nighy), burocrata de Londres que chefia um grupo de funcionários que são responsáveis por obras na cidade. Sisudo e fleumático, Williams não é muito aberto a intimidades com seus colegas e parece aquele tipo de pessoa que passou todo o tempo agarrado em seus compromissos - enquanto a vida passava junto aos ponteiros do relógio sem que ele se desse conta. Sua rotina rígida é quebrada quando ele descobre que possui câncer e alguns meses de vida. Naquele momento ele percebe que a vida não poderia ser só aquilo que fez até ali e deseja fazer algo diferente no tempo que lhe resta. O roteiro segue então pelo caminho mais óbvio, que é inserir o personagem por noitadas, com mulheres, bebidas e gastos que não caberiam na vida de um sujeito tão regrado. A diferença é que mesmo nesses momentos, Sr. Williams não parece encontrar satisfação, deixando que algo mais se revele em momentos mais intimistas, como aquele em que toma coragem para bancar um projeto que há muito tempo é barrado no trabalho ou nos momentos em que passa a se encontrar com uma jovem colega de trabalho, a senhorita Margaret Harris (Aimee Lou Wood), momentos em que a suspeita de um romance tardio ganha menos espaço do que a sensação de tempo perdido ao longo da vida. São nos detalhes que a atuação de Bill Nighy se revela merecedora de espaço entre os indicados ao Oscar de melhor ator de 2023, seu trabalho é sutil, preciso e consegue transparecer a sensação de quem está no fim da vida e não há muito mais o que se fazer além de aproveitar o tempo que resta. O filme só me parece curto demais para dar conta das nuances do personagem junto aos outros que o cerca, isso acontece tanto com Margaret quanto com o novato Peter (Alex Sharp), que parece ser o dono do olhar sobre o protagonista oferecido pela produção. Viver é na verdade uma adaptação da adaptação, já que é baseado em Ikiru (1952) de Akira Korosawa que é pautado pela obra A Morte de Ivan Ilich de Tolstói. O texto aqui ficou por conta do romancista Kazuo Ishiguro, que é craque em sutilezas e transporta o dilema do protagonista num encaixe perfeito para a realidade britânica. Mesmo que você não a considere uma produção empolgante, Viver deixará a sensação de uma reflexão sobre a forma que encaramos a vida ao indagar se entre nosso compromissos cotidianos estamos realmente a viver.

Viver (Living / Reino Unido - Japão - Suécia / 2022) de Oliver Hermanus com Bill Nighy, Alex Sharp, Aimee Lou Wood, Michael Cochrane, Zoe Boyle, Hubert Burton e Oliver Chris. ☻☻☻

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

PL►Y: Pare com Suas Mentiras

Victor e Guillaume: peças de um no quebra-cabeça do outro.
 

Stéphane Belcourt (Guillaume de Tonquédec) é um escritor famoso que após trinta e cinco anos afastado de sua cidade natal recebe o convite para ser embaixador de uma famosa destilaria da região. Após alguns anos sem lançar um romance, ele está promovendo o lançamento de um conto que se tornou um sucesso de crítica e, também por este motivo seu retorno à cidade é bastante aguardado. No entanto, Stéphane sabe que o distanciamento de suas origens tem um motivo que custa caro à toda a sua obra: seu primeiro e grande amor. Quando adolescente, Stéphane se encontrava secretamente com um colega de escola, Thomas Andrieu (Julien de Saint Jean), de forma que os encontros tórridos se transformaram ao longo dos meses em um romance tão secreto quanto proibido. Esta história perpassa as entrelinhas de várias obras do escritor, mas ele nunca falou abertamente sobre isso, uma vez que Thomas sempre pediu segredo sobre aquela relação. Acontece que ao chegar na cidade, Stéphane conhece um dos funcionários da destilaria, Lucas (Victor Belmondo), que não por acaso, carrega o sobrenome de sua antiga paixão. Lucas é filho de Thomas e ao descobrir que Stéphane conhecia seu pai, fica mais próximo dele para saber um pouco mais da história de seu pai quando jovem. Ou pelo menos é isso que o filme apresenta de início, já que Lucas não revela tudo o que sabe sobre a amizade entre os dois personagens. Baseado no livro de Phillipe Besson o diretor Oliver Peyon faz um filme agradável de se assistir sem se distanciar da verve literária da obra, especialmente na organização da estrutura narrativa e no uso de flashbacks (em que o Jéremy Gillet vive o jovem Stéphane). Para envolver o espectador, o diretor cria um verdadeiro jogo entre Lucas e Stéphane que nunca sabem muito bem como dizer ao outro o que precisa ser contado, assim, o filme cria uma espécie de quebra-cabeça sobre os personagens e os sentimentos ambíguos de um pelo outro. Guillaume Tonquédec está muito bem em cena e consegue construir um protagonista muito discreto, já que conforme o roteiro apresenta no passado e no presente, seu personagem sabe que o mundo ainda tem ressalvas a pessoas que sentem atração por pessoas do mesmo sexo. Esta discrição funciona muito bem  a bem ao lado da energia jovial que emana de Lucas, numa ótima interpretação de Victor Belmondo (filho do cultuado Jean Paul) que defende bem as  oscilações do personagem perante as lacunas sobre o pai que precisam ser preenchidas.  Embora Pare com Suas Mentiras tenha um ponto de partida já utilizado diversas vezes, ele consegue se desenvolver de forma bastante satisfatória ao construir personagens que parecem pessoas de verdade com seus fantasmas a serem exorcizados.

Pare com Suas Mentiras (Arrête avec tes mensonges/França-2022) de Oliver Peyon com Guillaume Tonquédec, Victor Belmondo, Jermy Gillet, Julien de Saint Jean, Pierre- Jean Chapuis e Laurence Pierre. ☻☻☻☻

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

PL►Y: Fresh

Daisy e Stan: em busca da metade da laranja.

Acho que a irlandesa Daisy Edgar Jones ganhou uma legião de fãs instantaneamente com a minissérie Normal People (2020), assim como Paul Mescal, seu par na produção. O programa rendeu para ambos indicações aos prêmios mais importantes da televisão, o que carimbou a passagem deles para Hollywood. Se Mescal já foi até indicado ao Oscar, Daisy tem procurado produções instigantes que demonstram que ela é uma atriz marcante. Um desses filmes é Fresh. Confesso que meu interesse pelo filme surgiu principalmente por conta dela e, dia desses, vendo minha lista (gigante) de filmes para assistir estava lá este suspense (disponível faz tempo no Star+) que brinca com a busca pelo par perfeito. Daisy vive Noa, uma jovem que está cansada de procurar sua cara metade em aplicativos de relacionamento. Em determinado momento ela revela que odeia toda aquela tensão do primeiro encontro que é bastante evidente quando um tenta demonstrar para o outro que é a perfeição em forma de gente. Por vezes não parece que se está lá pelo seu interesse no par no encontro, mas para que se prove a melhor opção perante todas as outras. Eis que um dia ela conhece no supermercado o simpático Steve (Sebastian Stan). A conversa flui naturalmente, a faísca da atração mútua aparece, um encontro é marcado e tudo flui como deveria ser... O que poderia ser apenas mais uma comédia romântica logo muda de configuração quando os dois viajam para passar alguns dias juntos e Steve não é nada do que parece. Bem, na verdade pouca gente consegue ser, mas a situação é bem mais complicada. Não vale dizer muita coisa para não quebrar as surpresas que o filme reserva, mas, digamos, que Steve quer devorar Noa. Literalmente. Escrito por Lauryn Kahn e dirigido por Mimi Cave, o filme se torna angustiante a partir do momento em que Noa precisa tentar alternativas para se livrar daquela situação macabra antes que o pior aconteça, restando-lhe pouco mais do que a empatia que seu algoz parecia sentir por ela nos primeiros encontros que tiveram. Embora o filme fique um tanto cansativo (e indigesto) pela repetição sistemática de algumas situações, a melhor sacada é a de resgatar a ideia de existir uma alma gêmea por um outro prisma, naquela sensação de que encontrou alguém semelhante à você, não importa o quão bizarra ela seja ao ser parecida contigo. Neste ponto, os trabalhos de Daisy e Stan ganham destaque ao tornar seus personagens críveis mesmo quando estão evidentemente enganando um ao outro e, talvez, até o público.

 Fresh (EUA-2022) de Mimi Cave com Daisy Edgar Jones, Sebastian Stan, Jojo T. Biggs, Andrea Bang, Dayo Okeniyi, Charlotte Le Bon, Brett Dier e Alina Maris. ☻☻☻

domingo, 10 de setembro de 2023

PL►Y: Gato de Botas 2 - O Último Pedido

 
Kitty, Perrito e Gato de Botas: medo da morte. 

O Gato de Botas é um clássico da literatura infanto-juvenil, mas foi no universo de Shrek 2 (2004) que o personagem ganhou o devido destaque nos cinemas. Se tornou um personagem tão adorado que recebeu um filme próprio em 2011. A crítica olhou com desconfiança, mas os fãs não reclamaram e fizeram do filme um sucesso, tanto que recebeu fôlego para ser indicado ao Oscar de melhor animação. Muito foi falado sobre uma sequência, mas ela demorou mais de dez anos para ficar pronta. O melhor é que valeu a pena esperar, Gato de Botas 2 - O Último Pedido é feito no capricho. Tem um visual arrebatador e um estilo de animação que foge da cartilha estética da Pixar (que se tornou um tanto gasta nos últimos anos). Além disso tem um roteiro esperto, cheio de ideias bem sacadas que brinca com várias figuras dos contos de fada, assim como Shrek fez com destreza em seus primeiros filmes. Aqui o irresistível felino descobre que depois de tantas aventuras, só lhe resta uma vida - ou seja, a finitude de aproxima. Vale lembrar que para um gato não é vantagem nascer no Brasil (já que por aqui ele tem apenas sete vidas) e nos EUA, ele possui nove. Desesperado com a morte atrás dele (muito bem representado com a voz de Wagner Moura encarnando um lobo malvado), ele procura uma estrela mágica que caiu na Terra e que pode realizar seu desejo de renovar as nove vidas. Obviamente que a tarefa não será fácil, mas ele conta com a ressentida Kitty Pata Mansa (voz de Salma Hayek repetindo mais uma vez a irresistível química com Antonio Banderas que novamente empresta a voz para o felino), que tem lá sua cota de relação a ser discutida com o protagonista. Junta-se à dupla um cachorro sem nome abandonado (Harvey Guillén) que parte com a dupla para um lugar cheio de desafios. No entanto, Wagner Moura não é o único a querer dar cabo do gatinho, estão atrás dele uma versão hardcore de Cachinhos Dourados (voz de Florence Pugh) e os três ursos que se tornaram comparsas na caça ao lendário Gato de Botas. Frenético em sua narrativa, mas sem perder a chance de falar de temas como amizade e mortalidade, essa sequência é um belo exemplo de que vale inovar na construção de narrativas feitas em animação. Embora não seja revolucionário, encontra a exata medida de construir uma trama para empolgar pessoas de todas as idades. Não é por acaso que o filme se tornou sucesso de público, crítica e foi lembrado na categoria de Melhor Animação no Oscar mais uma vez. Precisa dizer que o filme termina deixando aquele gostinho de quero mais? Só espero que não demorem uma década para trazer o felino em mais uma aventura. Ele merece quantas vidas quiser (e os fãs agradecem).

Gato de Botas 2 - O Último Pedido (Puss in Boots: The Last Wish / EUA - 2022) de Joel Crawford e Januel Mercado com vozes de Antonio Banderas, Salma Hayek, Harvey Guillén, Wagner Moura, Florence Pugh, Olivia Colman, Ray Winstone, John Mullaney, Da'Vine Joy Randolph e Conrad Vernon. ☻☻☻☻

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Carvão

Jean e Maeve: segredos de família. 

Irene (Maeve Jinkins) vive cuidando da casa, do filho (Jean de Almeida Costa), do pai vítima de AVC e ainda encontra tempo para ajudar o esposo (Rômulo Braga) na carvoaria de pequeno porte que resolveram montar em casa, afinal, sem sempre o marido consegue algum bico para ganhar dinheiro. O dinheiro é sempre pouco e não tem muita perspectiva de melhoras e, conforme uma nova agente de saúde (Aline Marta) faz questão de ressaltar, a situação do pai de Irene também só tende a piorar. Uma olhada atenta aqui, uma sugestão ali e surge uma ideia que pode ajudar a família a resolver seus problemas financeiros, mas para isso, precisam  tomar uma decisão, digamos... macabra.  Logo surge Miguel (Cesar Bordón), um homem que seria misterioso se a plateia não descobrisse logo no que está metido ao simular a própria morte. Acostumado a uma vida de luxo, ele estará confinado àquela casa desprovida de recursos enquanto a família tenta fingir que tudo segue como antes, ou pelo menos tentam enquanto o dinheiro que começa a entrar começa a gerar alguma estripulias. Um sorvete aqui, um perfume ali, uma moto de presente para um amigo... escrito e dirigido por Carolina Markowicz (criadora da ótima série Ninguém Tá Olhando/2019 da Netflix, que infelizmente durou somente uma temporada) o filme joga o tempo todo com o absurdo, mas sem perder a esperteza para misturar drama e comédia ao ponto de você não saber muito bem como deveria reagir ao que se vê na tela. Os diálogos são um verdadeiro primor e as interpretações agarram as entrelinhas do roteiro para depois mergulhar nelas sem receios. Falando em interpretações, Maeve Jinkins está excepcional como Irene, uma mulher sofrida e que aos poucos não faz muita questão de manter os escrúpulos diante da realidade que se torna cada vez mais imprevisível. A atriz é seguida de perto pelo menino Jean que tem um talento incrível para fazer graça com as frases mais simples. Seus diálogos com Miguel são uma preciosidade e não deixa de lançar um olhar interessante sobre a infância perante uma realidade de absurdos. O filme também funciona como uma metáfora perfeita para os tempos de pandemia no Brasil em que vidas foram consideras descartáveis em nome do dinheiro que falava mais alto (enquanto se tornava cada vez mais escasso). Desenvolvido com precisão até seu desfecho, Carvão se mostra um dos filme mais empolgantes dos últimos anos, o que rendeu para Camila o prêmio de melhor filme de estreia no Grande Prêmio Cinema Brasil (agora o motivo de Maeve Jinkins não ser indicada ao prêmio de melhor atriz e o roteiro original perder para Marte Um me parece um mistério maior do que o paradeiro de Miguel no filme, enfim, o GP está realmente ficando com cara de Oscar). Carvão também perdeu a chance de disputar um lugar na disputa de melhor filme estrangeiro nesse ano, embora fosse o grande favorito de alguns votantes. lançado nos cinema discretamente no final do ano passado, o longa está disponível para aluguel digital em plataformas digitais e vale um lugar entre seus filmes favoritos sobre a face mais horripilante do ser humano. O novo filme de Markovicz está na disputa por uma chance de ser o representante brasileiro no Oscar2024 com seu novo filme, Pedágio (o resultado sairá dia 12 de setembro), filme que renderá uma homenagem no Festival de Toronto como cineasta emergente. Essa brasileira vai longe!

Carvão (Brasil/2022) de Carolina Markowicz com Maeve Jinkins, Cesar Bordón, Jean de Almeida Costa, Pedro Wagner, Rômulo Costa e Camila Márdila. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Marte Um

 
Os Martins: hora de olhar para cima. 

A família Martins é uma família comum da periferia de Contagem em Minas Gerais. O pai, Wellington (Carlos Francisco) trabalha em um prédio de classe alta, a mãe, Tércia (Rejane Faria) trabalha como diarista, a filha, Eunice (Camilla Damião) está começando a namorar Joana (Ana Hilário) e planejam morar juntas, a família se completa com o caçula Deivinho (Cícero Lucas), que precisa lidar com as expectativas do pai com sua carreira no futebol enquanto deseja ser astrofísico. O sonho do menino é participar da missão que dá nome ao filme e que planeja colonizar Marte. Estes são os protagonistas do novo filme de Gabriel Martins (de No Coração do Mundo/2019), que se tornou um dos mais elogiados dos últimos anos, premiado com oito estatuetas no último Grande Prêmio Cinema Brasil (filme, direção, ator, ator coadjuvante, fotografia, montagem, roteiro original e melhor som) e que ganhou fama ao ser o longa candidato do Brasil a disputar uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro de 2023 (e acabou ficando de fora). Eu gostaria muito de dizer que a esnobada foi injusta, mas assistindo ao filme, dificilmente ele teria conquistado meu voto para ficar entre os cinco finalistas. Produzido pela produtora mineira Filmes de Plástico, o filme tem a proposta de ser um retrato do cotidiano de personagens comuns, mas ao contrário dos outros filmes da produtora, este me deu a impressão de ser uma grande colagem de lugares comuns quando se retrata personagens periféricos no cinema. Obviamente que existe o mérito de ser um filme protagonizado por uma família preta, algo ainda raro no cinema brasileiro, mas alguns personagens não possuem muito para fazer em cena. O patriarca parece ter o que fazer somente na parte final quando o inferno astral se abate sobre ele, a filha vivida por Camilla Damião é ausente de qualquer energia (basta ver sua apatia na cena pós-acidente que não vou contar para evitar SPOILERS), a própria trama de Deivinho também não me parece aproveitada em todas as suas possibilidades. Única personagem com um arco bem desenvolvido é a mãe (vivida pela ótima Rejane Faria) que fica traumatizada ao participar de uma "pegadinha" televisiva e a partir dali acredita atrair coisas ruins para quem estiver por perto. Além de ter a trama mais interessante, a personagem é a única feita de carne e osso numa produção ensaiada demais para soar realista. Filmes sobre o cotidiano são complicados e necessitam de habilidade para driblar a sensação de que nada acontece em cena. Em Marte Um muitos fatos acontecem com seus personagens, mas nada soa interessante, apenas esquemático para chegar ao desfecho em que uma explosão é resolvida ao contemplar o céu no fundo do quintal. Aqui parece ser onde o filme começa e não onde termina. Acho que toda a expectativa gerada em torno do filme prejudicou meu olhar sobre ele, mas dificilmente eu acharia que os dilemas apresentados são desenvolvidos a contento. Além do trabalho de Rejane salva-se a fotografia que consegue bons momentos dentro da proposta não concretizada do filme, ops, talvez a proposta seja a aclamação de uma elite que sente-se bem em aplaudir um filme que é uma colagem do que ela imagina sobre uma família periférica cheia de sonhos.

Marte Um (Brasil/2022) de Gabriel Martins com Cícero Lucas, Carlos Francisco, Rejane Faria, Camilla Damião, Russo APR e Thiago Cesário. ☻☻☻ 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: A Felicidade das Coisas

 
Lavinia: temporada no litoral paulistano. 

Para iniciar o Ciclo Verde e Amarelo de 2023 escolhi um filme que brasileiro que eu não tinha escutado falar até que me deparei com ele na MUBI. A Felicidade das Coisas é um dos filmes da produtora mineira Filmes de Plástico, que se tornou bastante conhecida nos últimos anos ao criar para si um grande desafio: fazer filmes interessantes baseados em personagens comuns e suas aventuras cotidianas. Confesso que fiquei tentado em escrever "pequenas aventuras cotidianas" no trecho acima, mas quando a coisa funciona, o uso da palavra "pequenas" não da conta das camadas que uma trama do gênero pode apresentar.Aqui a história se passa no litoral norte de São Paulo, local em que Paula (Patricia Saravy) resolve passar alguns dias com a mãe (Magali Biff) e os filhos (Messias Góis e Lavinia Castelari). Já que a matriarca está animada com a casa de praia que comprou, ela resolve construir uma piscina. O ponto de partida é bastante simples, mas revela bastante sobre a realidade da personagem. Não deixa de ser curioso que mesmo com a praia próxima e um rio que atravessa o terreno da propriedade, Paula torna a piscina um verdadeiro objetivo de vida à revelia de todos os problemas que começam a acontecer. Grávida e com o marido distante (está sempre trabalhando, nunca consegue aparecer e sequer a voz dele é apresentada ao telefone), ela encontra dificuldades para bancar financeiramente a obra e os conflitos começam a aparecer, seja com o esposo, com os pedreiros, com o filho mais velho... tentando apaziguar a situação está a mãe da protagonista com o maior jeito de que viveu o suficiente para perceber quando algo não vale o esforço, ou, pelo menos, não precisa que se esquente muito a cabeça. Enquanto Paula é pura preocupação e estresse (especialmente com os vizinhos que insistem em entrar em seu quintal para pescar ou meninos da vizinhança que entram ali para tomar banho de rio), seus filhos tentam se divertir e a mãe tenta aproveitar a temporada para conhecer a comunidade local (o que também deixa Paula ainda mais tensa, já que ela não vê com bons olhos a mãe dando "trela" para desconhecidos). Existe no trabalho de Thais Fujinaga um olhar bastante pessoal e carinho no olhar sobre os personagens, o que colabora na construção de um retrato interessante da classe média brasileira - aquele grupo de pessoas que conseguiram acumular algumas propriedades e de vez em quando se dá conta que o dinheiro ainda é pouco para alcançar um estilo de vida da classe superio, não por acaso, existe um clube nas redondezas cujos hóspedes não se misturam com os demais personagens e isso fica bem claro com os seguranças que impedem "penetras" e o muro que divide os grupos por lá. O título faz uma clara referência na busca pela felicidade em nossa relação com bens materiais e Fujinaga é esperta o suficiente para demonstrar que ela pode estar numa improvisação (com água "emprestada" do vizinho), num banho de chuva ou em uma aventura que pode ter consequências sérias. A cineasta extrai atuações bastante espontâneas de todo o elenco, com atenção especial para as crianças. Se a relação entre mãe e filho não chega a se desenvolver como esperamos, pelo menos consegue estabelecer uma tensão que se torna fundamental para o desfecho. Filmes realistas sobre temas cotidianos podem desagradar muita gente que consideram que não acontece muita coisa durante a projeção, mas A Felicidade das Coisas consegue demonstrar que, embora aparentemente não esteja acontecendo nada muito impactante diante da câmera, o interior de sua protagonista vive um terremoto constante. 

A Felicidade das Coisas (Brasil/2022) de Thais Fujinaga com  Patrícia Saravy, Magali Biff, Messias Góis e Lavinia Castelari. ☻☻☻☻

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

#FDS Patricia Highsmith: Amando Patricia Highsmith

 
Patricia: digna de culto. 

Pode se dizer que Patrícia Highsmith é uma das escritoras mais queridas do cinema. Ao longo da carreira ela lançou 22 livros e quase todos receberam versões para a telona, sobretudo os protagonizados pelo seu personagem mais famoso: Tom Ripley. Patricia também escreveu oito livros de contos (alguns também receberam adaptações para o cinema ou TV), um livro infantil e um de não ficção. O motivo para tamanho interesse do audiovisual pelas obras da autora é a sua capacidade de construir personagens cheios de camadas em tramas repletas de suspense, algo que funcionou bem desde a sua primeira adaptação para Hollywood com Pacto Sinistro (1951) de Alfred Hitchcock (mas que nem sempre garante um bom filme, vide a lambança que Adrian Lyne fez com a nova versão de Águas Profundas/2022). Basta ver o universo que construiu em torno de Tom Ripley, o jovem oportunista capaz de qualquer coisa para alcançar o que deseja e no documentário Amando Patrícia Highsmith (em cartaz na Filmicca) conhecemos um pouco mais sobre a celebrada escritora através de entrevistas dela ou de pessoas conhecidas, além de cenas de arquivo que ajudam a decifrar uma mulher tão complexa quanto seus melhores personagens. Mary Patricia Plangman nasceu no Texas em 1921 em uma família de origem alemã. Seus pais se separaram quando ela tinha apenas onze dias de nascida e aos seis foi morar em Nova York com a mãe e o padrasto. A vida na big apple durou pouco tempo, já que aos onze anos foi morar com a avó. O afastamento da mãe lhe gerou uma sensação de abandono que afetou muito a sua personalidade. Foi do padrasto, Stanley Highsmith, que a Mary Patricia herdou o nome artístico. A autora era bastante discreta com sua vida pessoal, o que ressalta ainda mais seu gosto por personagens enigmáticos. Talvez a maior revelação de sua intimidade tenha sido exposta sob o pseudônimo Claire Morgan, nome com o qual assinou o lançamento de The Price of Salt (1952) que três décadas depois seria rebatizado de Carol e receberia uma versão para o cinema pelas mãos de Todd Haynes em 2015 e indicado a seis Oscars. Ao misturar a vida pessoal de Patricia com sua obra, Amando Patricia Highsmtith explora um pouco do que havia de pessoal na história das duas mulheres que se apaixonam e enfrentam um mundo repleto de preconceitos. Price  of Salt se tornou um marco ao romper com o paradigma de amores lésbicos na literatura, que até então eram narrativas sobre à ruína de suas personagens. Highsmith mandou às favas o cunho moralista desta regra e ofereceu às suas personagens um final feliz, tal e qual Patrícia desejava para si. Patrícia pensou em retomar tramas parecidas em sua carreira, mas acabou investindo em outras histórias. No entanto, as questões relacionadas à homossexualidade surgem nas entrelinhas de seu personagem mais famoso e ganham destaque em O Garoto que Seguiu Ripley (1980) em que explora nuances surpreendentes para os fãs do personagem. Com a bela voz de Gwendoline Christie narrando em nome de Patricia, o documentário traz relatos interessantes da relação da autora com seus personagens e se desvia de algumas polêmicas sobre sua personalidade, mas constrói um painel bastante interessante sobre a cultuada escritora além de instigar ainda mais seus fãs a conhecerem a mente por trás da tensão presente em sua obra. 

Amando Patricia Highsmith (Loving Highsmith/ Suíça - Alemanha /2022) de Eva Vitija com Patricia Highsmith, Judy Coates, Dan Coates, Monique Buffett e Gwendoline Christie. ☻☻☻☻

domingo, 13 de agosto de 2023

PL►Y: Ela Disse

 
Carey e Zoe: boas atrizes sem atmosfera. 

As denúncias de abuso sexual envolvendo o empresário Harvey Weinstein, que ficou famoso por seu trabalho à frente da Miramax nos anos 1990 e posteriormente na Weinstein Company, foi um dos maiores escândalos da história de Hollywood. Famoso por suas campanhas agressivas na temporada de prêmios, Harvey viu seu império ruir quando um grupo de mulheres resolveu enfrentar todo o esquema de proteção criado ao seu redor. Atrizes como Mira Sorvino, Gwyneth Paltrow, Ashley Judd e principalmente Rose McGowan foram fundamentais para que a verdade sobre o abusador viesse à público através da imprensa na segunda metade da década passada numa ação articulada por diversas jornalistas. Obviamente que em tempos de #MeToo e engajamento, Hollywood não pensaria duas vezes ao olhar para si mesma e levar a história para a telona. Eu só não imaginava que seria tão rápido. Ela Disse foi badalado em sua produção que acreditava que o longa seria lembrado na temporada de prêmios ao abordar um tema tão explosivo, mas teve que se contentar com menções ao roteiro e ao trabalho de Carey Mulligan em poucas premiações (como BAFTA e Globo de Ouro). o problema é que toda a tensão é exposta com a emoção de quem está prestes a dormir. O filme gira em torno de duas jornalistas do The New York Times que por conta de uma matéria sobre assédio sexual em locais de trabalho se deparam com as denúncias feitas a Harvey Weinstein. Jodi Kantor (Zoe Kazan) e Megan Twohey (Carey Mulligan) puxam então um fio que revela um verdadeiro emaranhado de acordos que protegiam Harvey, assim como instituições que deveriam zelar pelas vítimas e terminam fazendo o trabalho oposto. Kantor e Twohey (que escreveram os artigos e o livro que deu origem ao filme) passam a maior parte do tempo conversando por telefone e tentando convencer as vítimas a se pronunciarem sobre as situações sofridas. O filme menciona estrelas a todo instante, mas poucas aparecem em cena, deixando o destaque mesmo para Zelda Perkins (Samantha Morton) e Laura Madden (Jenifer Ehle) que se tornam fontes importantes para as jornalistas. Zoe e Carey são ótimas atrizes, mas tenho a impressão que suas personagens poderiam ser vividas por quaisquer outras, já que o texto dedicado à elas não lhes exige muito mais do que o esperado. As vidas particulares das jornalistas aparecem aqui e ali sem muito destaque. A diretora alemã Maria Schrader (do filme pré-indicado ao Oscar O Homem Ideal/2022) faz o que pode para não soar sensacionalista, mas esquece de repor o caráter explosivo da história por qualquer outra coisa. Por diversas vezes o filme soa longo em sua repetição, caindo na armadilha de soar artificial em seu retrato da investigação jornalística que apresenta. Talvez o que falte mesmo é o distanciamento histórico para que introduza na trama alguma surpresa. Ao abordar um crime tão recente, o filme não traz nada de muito revelador perante o que os cinéfilos já acompanharam sobre todo o ocorrido execrável dos bastidores da elite de Hollywood. Algo me diz que o livro é muito melhor. 

Ela Disse (She Said/Japão - EUA/ 2022) de Maria Schrader com Zoe Kazan, Carey Mulligan, Patricia Clarkson, Samantha Morton, Adam Shapiro, Andre Braugher, Tom Pelphrey e Ashley Judd. ☻☻☻

PL►Y: Peter von Kant

Khalil e Ménochet: clássico repaginado. 

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant é um texto clássico de Rainer Werner Fassbinder que o próprio adaptou para o cinema em 1972, contando a história da personagem do título (vivida nas telas por Margit Carstensen), uma estilista de prestígio que vive acompanhada pela assistente, a amplamente explorada Marlene (Irm Hermann). Petra tem como amiga mais próxima a prima Sidonie (Katrin Schaake), que a apresenta à jovem Karim (Hanna Schygulla), jovem com a qual a experiente Petra irá viver uma intensa paixão. O filme é um dos mais celebrados do diretor ao contar uma narrativa habitada somente por mulheres que utilizam a casa de Petra como único cenário nos cinco atos que compõem a história. Se o filme se tornou um clássico, a peça recebeu várias montagens ao redor do mundo, inclusive no Brasil (tendo o papel principal representado por nomes como Fernanda Montenegro e Renata Sorrah). Reza a lenda que a peça é baseada no relacionamento do próprio Fassbinder com seu amante (Günther Kaufmann) e o dedicado assistente pessoal (Peer Raben), sendo assim, nada mais justo que com o passar do tempo, um diretor resolvesse devolver os personagens ao sexo original. Aqui Peter von Kant (Denis Ménochet) é um cineasta famoso que acaba de ficar sem o amor de sua vida, mas conhece o jovem Amir Ben Salem (Khalil Ben Gharbia) graças à amiga Sidonie (Isabele Adjani). A atração pelo jovem é imediata e não demora muito para que Peter lhe ofereça abrigo, dinheiro e a oportunidade que o rapaz tanto deseja de ser famoso. Se a ralação entre os dois é tórrida no início, logo ela demonstra as outras faces dos envolvidos. O mocinho demonstra ser cada vez mais oportunista e Peter deixa seu ego transbordar em diálogos cada vez mais árduos perante quem está por perto, o que revela estar à beira do surto. As alterações de Ozon oferecem um fôlego mais moderno à história e também tornam o texto menos pesaroso em sua transposição para a tela. A dramaticidade por aqui é puro exagero melodramático, o que por vezes remete até ao tom cômico dos filmes iniciais de Almodóvar. Tudo poderia sair dos trilhos não fosse o talentoso Denis Ménochet incorporando um sugar daddy cheio de desejo e inseguranças. Ménochet comprova aqui que é um ator interessantíssimo, como pudemos ver em sua pequena participação como o pai de Shoshana em Bastardos Inglórios (2009) ou como o ex-marido de Custódia (2017). As nuances que o ator emprega ao seu von Kant são tão humanas quanto mundanas e convence o espectador no malabarismo de suas emoções até o final. Ozon também acerta ao trazer uma cintilante Isabelle Adjani um papel que brinca com a carreira da própria atriz enquanto evoca Elizabeth Taylor, assim como homenageia o elenco original do filme clássico de Fassbinder ao colocar Hanna Schygulla numa participação especial. Pena que o novato Khalil Ben Gharbia não tenha a desenvoltura suficiente para não ser soterrado por Menóchet em cada cena em que aparece. O moço se esforça, mas não consegue ser mais do que um corpo em cena, basta ver o que o silencioso Stefan Crepon faz no papel do assistente sem dizer uma palavra em cena (não por acaso, foi indicado ao César de ator coadjuvante pelo trabalho assim como Ménochet concorreu a melhor ator). François Ozon permanece sendo um dos nomes mais badalados do cinema francês mantendo o ritmo de lançar um filme por ano, basta  lembrar que ele corta quase meia hora do material original nesta sua versão, o que talvez deixe as lágrimas um tanto menos amargas para o espectador. Embora meu filme favorito do diretor permaneça sendo Sob a Areia (2000), mas Peter von Kant chega muito perto do meu segundo favorito, Gotas D'água em Pedras Escaldantes (2000), que traz alguns elementos novamente trabalhados aqui. 

Peter von Kant (França - Bélgica / 2022) de François Ozon com Denis Ménochet, Khalil Ben Gharbia, Izabelle Adjani, Stefan Crepon, Hanna Schygulla e Auminthe Audiard. ☻☻☻☻

domingo, 30 de julho de 2023

PL►Y: Veja como Eles Correm

Rockwell e Ronan: brincando com trama de mistério. 

Tramas de mistério costumam seguir as mesmas regras que muitas vezes se tornam apenas clichês quando a criatividade do autor não é capaz de surpreender a plateia. Saber manter o mistério até o final é um dos motivos pelos quais Agatha Christie é uma verdadeira rainha do gênero, o que não impossibilita que um engraçadinho faça troça de seus artifícios narrativos. Veja Como Eles Correm é uma brincadeira com as tramas de mistério e consegue ser bastante divertida enquanto faz chacota com uma trama de investigação e assassinatos nos bastidores de uma peça de teatro. O filme gira em torno do sucesso da peça A Ratoeira, baseado na obra de Christie, que se torna um enorme sucesso nos palcos, ao ponto de chamar atenção de um produtor que planeja fazer um filme e faturar muito dinheiro nos cinemas. O diretor escolhido, Leo Kopernick (Adrien Brody) não parece muito fã do gênero e nos conta a história sem muita convicção. Descreve que este tipo de história tem um morto pouco querido, uma série de suspeitos com motivos suficientes para matá-lo, mas que o assassino é um personagem que ninguém imagina, mas com um passado cheio de traumas que motivam seu crime. O que Kopernick não imagina é que o morto da história será ele. Desagradável com quem está ao seu redor, ele termina morto durante uma festa e começa uma investigação. É neste momento que entram em cena o Investigador Stoppard (Sam Rockwell) e a jovem policial Stalker (Saoirse Ronan) que adora tramas de mistério e está disposta a desvendar o crime (e tietar um pouco aquele universo de estrelas que está ao redor de toda a situação). Veja como Eles Correm é o filme de estreia de Tom George, que realizou vários trabalhos na televisão britânica. Ele consegue construir uma narrativa ágil cheia de idas e vindas que revela um verdadeiro quebra-cabeças em torno da morte do narrador. Todos realmente se tornam suspeitos, do roteirista (David Oyelowo) em desavença com o diretor, a produtora teatral (Ruth Wilson), o galã bonitão (Harris Dickinson) e o filme se beneficia pela boa escolha de elenco para manter o mistério até o final e render algumas risadas. Embora o protagonista seja Sam Rockwell, fica difícil disfarçar que é Saoirse Ronan é o grande destaque do filme com a interpretação esperta de um policial com futuro promissor. Quando o ritmo começa a tropeçar é ela que consegue fazer graça e manter o ritmo da narrativa. O filme tem ótima reprodução de época para os anos 1950, com bons cenários e figurinos caprichados. Atenção para o desfecho com participação especial de Agatha Christie vivida por Shirley Henderson. Em outros tempos o filme renderia uma ótima Sessão da Tarde! O filme está em cartaz no Star+. 

Veja Como Eles Correm (See How They Run / EUA - Reino Unido - 2022) de Tom George com Sam Rockwell, Saoirse Ronan, Adrien Brody, David Oyelowo, Ruth Wilson, Harris Dickinson, Charlie Cooper, Oliver Jackson e Jacob Fortune-Lloyd. ☻☻☻

domingo, 9 de julho de 2023

.Doc: Wham! / Tina / Love to Love you, Donna Summer / Moonage Daydream

 
George e Andrew: desconstruindo o Wham! 

Confesso que estava um tanto ansioso para ver o documentário Wham! sobre a dupla pop formada por George Michael e Andrew Ridgeley. Muito por conta da minha surpresa quando adolescente de descobrir que muitas músicas que eu considerava ser de George era na verdade de grupo. Além disso, teve todas as piadinhas ao longo do tempo sobre Andrew não fazer nada por ali. O documentário de Crhis Smith, disponível na Netflix, não apenas passa a limpo a carreira da banda, como também supre nossa curiosidade pela dupla de amigos que chegou ao topo das paradas musicais dos anos 1980, aos poucos eles deixaram as críticas sociais de lado e investiram cada vez mais numa sonoridade pop. O filme é praticamente todo costurado por cenas de arquivos e entrevistas da dupla e ajuda a reconhecer o talento inestimável de George Michael, na verdade Georgios Kyriacos Panayiotou, um jovem inglês, filho de imigrantes gregos que com vinte e poucos anos era cantor, compositor e produtor. Um verdadeiro prodígio que tinha que lidar com a fama e o assédio de fãs enquanto internamente lidava com a descoberta de sua homossexualidade. Se Wham! serve para viajar no tempo e lembrar do sucesso da dupla, o destaque para os conflitos de George enquanto se tornava um grande astro pop ajuda a entender melhor os rumos de sua carreira solo e os dilemas que atravessou entre brigas com gravadoras, problemas com policiais em banheiros públicos e outras desventuras que deixou os fãs desavisados um tanto surpresos. Por outro lado, o filme torna a figura de Andrew Ridgeley como alguém crucial para George desenvolver seus talentos e persona pública, afinal, sem o apoio do amigo, provavelmente o astro teria se tornado um garoto tímido comum desde aquele primeiro dia na escola em que os dois se aventuraram a fazer tarefas juntos. O documentário se torna mais do que um registro sobre artistas que fizeram sucesso nos anos 1980, mas também um belo registro sobre a amizade da dupla, que ao que tudo indica chegou ao fim sem conflitos de ego ou desavenças.

Tina: furacão na vida e nos palcos. 

O documentário da Netflix prova mais uma vez que o cinema volta-se cada vez mais para o fascínio que histórias de artistas renomados provoca no público, não apenas em produções como Bohemian Rhapsody (2019), Rocketman (2019) ou Elvis (2023), mas também em outros documentários recentes que estão disponíveis no streaming. Outro deles é Tina que está no HBOMax, que conta a história de Tina Turner, passando por sua infância pobre, o casamento turbulento com Ike Turner e seu renascimento para a música pop nos anos 1980 numa idade em que a maioria das artistas começam a penar para se manter em evidência. A história de Anna Mae Bullock já foi muito bem contada em Tina - A Verdadeira História de Tina Turner (1993) e quem viu o filme estrelado por Angela Bassett não encontrará muita novidade por aqui, talvez apenas a irritante menção constante da imprensa ao ex-marido Ike em entrevistas da artista. Talvez a lembrança da dupla Ike e Tina Turner fosse muito vívida entre o público dos Estados Unidos, mas no resto do mundo, Tina ressurgiu com luz própria como um furacão da música pop. O documentário celebra o talento da artista e apresenta aspectos delicados de sua vida pessoal, sem esquecer sua obstinação em resistir quando a indústria da música lhe deu as costas. Diante do recente falecimento da artista, o documentário se torna uma homenagem à considerada Rainha do Rock. Quem também possui documentário na HBOMax é a diva da disco music Donna Summer com Love to Love You, que apresenta aos fãs a história da maior cantora dos anos 1970. Lembrando o início da carreira dela como atriz de teatro e posteriormente chamando atenção com a provocante canção que dá título ao documentário, o filme deixa aquele gosto de ver uma cinebiografia de Donna nos cinemas. Feito com cenas de arquivo e entrevistas de pessoas que estavam por perto da diva, o filme revive o marco que foi ver uma cantora negra romper barreiras no cenário da música pop  nos Estados Unidos. Algumas canções de Donna ainda soam inovadoras (como a sonoridade e I Feel Love ou as letras de She works hard for the Money ou Bad Girl) e são capazes de animar qualquer balada até hoje. 

Love to Love You: a história da rainha da disco music. 

Sempre me perguntei o que teria acontecido que fez a carreira de Donna perder força ao final do século XX e o filme esclarece sua declaração infeliz sobre "Deus não ter criado Adão e Ivo" no meio de um show. A diva que era cultuada pelo público gay sofreu críticas severas em um tempo em que a AIDS começava a aparecer. A declaração fementada na mídia fez com que a artista começasse a sofrer boicotes e represálias por grande parte do seu público. A coisa só piorou com os problemas de saúde que atravessou mais tarde. Embora seja mais convencional e feito direto para a TV, Love To Love You, Donna Summer é um belo resgate da história da diva. No TelecinePlay temos Moonage Daydream o celebrado documentário sobre David Bowie. O longa de Brett Morgen segue um caminho diferente de todos os outros citados aqui. Mais experimental, o filme constrói um verdadeiro universo para Bowie, com cenas de shows, entrevistas, clipes, fotos e entrevistas, deixando que a sonoridade e a estética criada pelo artista faça todo o resto aos olhos e ouvidos do público. A sensação é que somos tragados para um mundo diferente, liderado por um alienígena de sexualidade fluída que deixa as plateias enlouquecidas. Esta mistura entre o artista e seu personagem Ziggy Stardust é proposital e não abandona o filme mesmo quando o camaleão do rock muda de pele. Cada fase do cantor é contextualizada dentro de uma ideia particular que perpassa até seus trabalhos no cinema e atitudes mais polêmicas. Em um tempo em que termos como não-binário não existia e a androginia era o rótulo reservado a ele, Bowie quebrou paradigmas no mundo da arte e criou alvoroço quando assumiu sua bissexualidade. O filme reserva poucos momentos para a vida pessoal do artista e celebra mesmo é a sua carreira. É verdade que depois do sucesso sem fronteiras com Let's Dance (1983), seus discos pairaram em lugares sem o mesmo estrondo, de forma que o filme dedica menos espaço para esse período posterior da vida do artista. Nessa fase, Bowie parece mais disposto a digerir o que era inovador e não criar tendências, no entanto o último ato com Black Star poderia ter sido mais aproveitado na montagem final. Presente em várias listas de melhores filmes do ano, Moonage Daydream é uma belíssima viagem psicodélica pela mente de Bowie. Para os fãs é um verdadeiro delírio. 

Moonage Daydream: jornada intergalática em David Bowie.

Wham! (EUA-2023) de Chris Smith com George Michael, Andrew Ridgeley e Elton John.  ☻☻☻☻

Tina (EUA-2021) de Dan Lindsay and T.J. Martin com Tina Turner, Carl Arrington e Ike Turner.  ☻☻☻☻

Love to Love You, Donna Summer (EUA - 2023) de Brooklyn Sudano e Roger Ross Williams com Donna Sumer, Michael McKean e Arsenio Hall.  ☻☻☻

Moonage Daydream (EUA - 2022) de Brett Morgen com David Bowie, Iman e Mick Ronson.  ☻☻☻☻

sábado, 8 de julho de 2023

PL►Y: Armageddon Time

 
Banks e Jaylin: memórias sem sal. 
 

Filme após filme, o novaiorquino James Gray conquistou fãs e admiradores entre os críticos. Sua carreira começou em filmes independentes como Fuga para Odessa (1994) e Caminho sem Volta (2000), ganhou cores de mainstream com Os Donos da Noite (2007) e Amantes (2008), ganhou ambição com Era Uma Vez em Nova York (2013), tons épicos com Z: A Cidade Perdida (2016) e de sci-fi com Ad Astra (2019), revelando um diretor cada vez mais ambicioso e diverso, no entanto, sua carreira sempre teve algo em comum: nenhuma indicação ao Oscar. Mesmo os atores que foram cotados ao prêmio, sempre ficaram de fora na reta final. Essa história parecia que mudaria com Armageddon Time, seu oitavo longa-metragem, e também o mais pessoal de todos: um registro de suas lembranças de infância. No entanto, quando o filme foi lançado nem os fãs e nem a crítica se empolgou, imagina o Oscar. Sem indicações mais uma vez, o filme está disponível no TelecinePlay para que você tire suas próprias conclusões. As minhas não são muito empolgantes. Parece que o diretor ao se ver diante de sua própria história (e considero que o que vemos aqui seja os momentos mais relevantes de suas memórias de menino), o cineasta não consegue empolgar a plateia com uma série de situações que não chegam a ser desastrosas, mas que soam um tanto desinteressantes. Seria maldade atribuir ao pequeno Banks Repeta a falta de empolgação gerada pelo filme, na pele do protagonista Paul Graff ele faz o que pode com as travessuras que tem em mãos. No geral ele fantasia e apronta o tempo inteiro durante o filme e quem paga o pato é seu amigo Johnny (Jaylin Webb), um menino negro e repetente que não é visto com bons olhos por nenhum outro personagem do filme. Johnny mora com a avó e já está bastante saturado de todo o preconceito ao seu redor, que cresce ainda mais com o discurso conservador pré-era Reagan nos Estados Unidos. Na casa de Graff, de origem judia, todos temem a eleição de Reagan para a presidência e se consideram perseguidos e excluídos, mas são incapazes de ver a perseguição e exclusão dos negros que estavam na mesma escola que seu filho caçula. Essa cegueira poderia ser o ponto mais interessante do filme, mas ela fica de lado, assim como qualquer outro resquício de boa história para contar. No fim das contas, o filme vira do avesso a ideia de "branco salvador" tão criticada no cinema e investe no oposto com a situação de Johnny piorando com as ideias mirabolantes de Paul. Em torno dos meninos estão Anne Hathaway como a mãe e Jeremy Strong como o pai da família Graff, mas a ternura ficaria por conta de Anthony Hopkins na pele do vovô confidente do protagonista. O trio se esforça, mas tem pouco a fazer em personagens sem muitas camadas a serem apresentadas. A fotografia sem vida também não ajuda, deixando a produção toda ainda mais cansativa. Talvez eu já esteja um tanto cansado de histórias de diretores lembrando de suas infâncias, mas a de Gray parece dizer que suas memórias são apenas sem sal. 

Armageddon Time (EUA-2022) de James Gray com Banks Repeta, Anne Hathaway, Jerey Strong, Anthony Hopkins, Jaylin Webb, Andrew Polk, Ryan Sell e Jessica Chastain. ☻☻ 

domingo, 25 de junho de 2023

PL►Y: A Mulher Rei

Viola e sua turma: guerreiras de respeito. 

Em cartaz no HBOMax após fazer sucesso nos cinemas, era esperado que A Mulher Rei caísse nas graças do Oscar e recebesse algumas indicações pelo seu misto de filme de drama e épico de ação, afinal de contas, não é todo ano que temos a oportunidade de ver uma produção estrelada por um elenco majoritariamente de mulheres negras com uma produção deste quilate. Viola Davis produziu o filme e fez questão de deixar espaço para que outras estrelas do elenco também brilhassem na telona, mas, embora aparecesse em outras premiações da temporada de ouro, o longa foi completamente esquecido pela Academia. Baseado em uma história real ambientada em 1920 no reino africano Daomé, atual Denim, o filme conta a história de Nanisca (Viola), membro da etnia Fons e responsável por treinar as guerreiras Agojie, um exército composto apenas por mulheres que defendem os interesses do Rei Ghezo (John Boyega). Apesar de serem fieis ao rei, existe um certo conflito entre Nanisca e seu líder, uma vez que ela ainda tenta convencê-lo a não vender seu povo como escravo para os europeus. O comércio escravagista também é o motivo de uma verdadeira guerra com o império Oyo, que vende seus prisioneiros de outros povos para o mercado europeu e cobiça cada vez mais a população de Daomé, as guerreiras, inclusive. Entre cenas de batalhas também conhecemos a história da jovem Nawi (a excelente Thuso Mdebo da minissérie Underground Railroad), que se recusou a casar a mando do pai e foi mandada para o treinamento das Agojie. A força da menina chama atenção de Nanisca, mas é a vibrante Izogie (uma luminosa Lashana Lynch) que se torna sua mentora. A trajetória de Nawi serve para conhecermos o treino intenso das guerreiras, mas também serve para dar ao filme toques de romance (quando seu caminho cruza com o brasileiro mestiço vivido por Jordan Bolger) e drama quando segredos de seu passado vem à tona. A diretora Gina-Prince Bythewood  se esforça para manter o ritmo entre as cenas de ação empolgantes e os momentos mais intimistas da história, alcançando um resultado equilibrado que lhe valeu indicações ao BAFTA e ao Critics Choice Awards. O elenco vigoroso, ao lado da produção caprichada, prende a atenção do público e nos faz entender como a história fascinante dessas mulheres inspirou a criação das Dora Milaje do Reino de Wakanda nos quadrinhos do Pantera Negra. Atrevo dizer que o filme se tornará um clássico. 

A Mulher Rei (The Woman King/EUA-2022) de Gina-Prince Bythewood com Viola Davis, Thuso Mdebo, Lashana Lynch, Sheila Atim, John Boyega, Jordan Bolger, Hero Fiennes Tiffin e Jayme Lawson. ☻☻☻☻ 

segunda-feira, 12 de junho de 2023

CICLO DIVERSIDADESXL: Os Cinco Diabos

Adèle: entendendo o passado. 

O casamento de Joanne (Adèle Exarchopoulos) e Jimmy (Moustapha Mbengue) parece ter vivido dias melhores quando os dois surgem na tela. Talvez aquela paixão dos primeiros anos tenha ficado para trás, ao menos a pequena Vicky (Sally Dramé) traz algum movimento para a casa de seus pais. A menina gosta de acompanhar a mãe nas aulas de natação ou quando Joanne vai treinar nado em um lago das redondezas. Nas horas vagas, Vicky gosta de guardar coisas em potes com líquidos variados, em experiências que são motivadas mais pela curiosidade do que qualquer outra coisa. Quando Julia (Swala Emati), a irmã de Jimmy, anuncia uma visita, o marasmo daquela casa começa a dar origem a conflitos, uma vez que Joanne deixa claro que não gosta da presença da cunhada. O motivo da pendenga das duas faz parte do segredo que move Os Cinco Diabos, longa de estreia de Léa Mysius que brinca com suspense, fantasia e viagens no tempo em torno da história de amor de duas mulheres, que quando jovens começaram a trabalhar juntas num grupo de ginástica olímpica, mas a coisa desandou por conta de uma tragédia no ginásio da cidade. Aquele acontecimento também marcou para sempre Nadine (Daphne Patakia), amiga de Joanne e ex-namorada de Jimmy, que traz mais do que marcas em sua aparência, mas de ressentimentos também. Se por um lado Léa Mysius faz bem em não complicar os elementos fantásticos de seu roteiro, por outro, ela acaba deixando tudo um pouco óbvio para os espectadores mais escolados - que desde a primeira cena de volta ao passado, já começam a entender o que pode ter acontecido no passado de Julia.  O que o filme faz melhor é sobrepor o peso dos estigmas e preconceitos sobre os seus personagens, este aspecto até parecer de forma mais explícita no racismo sofrido por Vicky em sua escola repleta de crianças brancas, mas ganha outros contornos quando Julia está no centro da história. No presente, só a sua presença, já incomoda os demais personagens, existe o peso de um ato impensado do passado, mas também a mistura de olhares receosos de sua loucura, desejo e, porque não, de sua própria cor entre os outros habitantes. Ela é tida como a estranha que tira a vida de todos do eixo, que altera toda a normalidade da cidadezinha e, não por acaso, se confronta sempre com o efeito colateral de sua atitude derradeira em silêncio. Embora a personagem misture sentimentos distintos, ao retornar, ela aparentemente aceita o que pensam sobre ela, numa espécie de expiação por sua culpa. Não por acaso, é possível presenciar a forma luminosa como Joanne contempla uma explicação para tudo o que antes parecia absurdo e sentimentos que parecia tão sem sentido, voltam a dar sinais de vida. Os Cinco Diabos escorrega aqui e ali e por vezes se arrasta na narrativa, mas acerta quando busca caminhos diferentes para a história de amor entre duas mulheres e o efeito do perdão em suas vidas. 

Os Cinco Diabos (Les Cinq Diables / França - 2022) de Léa Mysius com Adèle Exarchopoulos, Swala Emati, Sally Dramé, Moustapha Mbengue, Daphne Patakia e Hugo Dillon. ☻☻☻

domingo, 11 de junho de 2023

CICLO DIVERSIDADESXL: Mais que Amigos

MacFarlane e Eichner: opostos que se atraem. 

De vez em quando o cinemão do Tio Sam tenta emplacar uma comédia romântica com protagonistas homossexuais. Na grande maioria das vezes a coisa desanda porque fica tudo meio sem sal como uma produção comum do gênero. O conservadorismo de Hollywood deve achar que basta colocar duas pessoas do mesmo sexo trocando alguns beijinhos para que sinta-se realmente inclusiva. Ano passado a expectativa de criar uma comédia-romântica gay de sucesso caiu nas costas de Bros, chamado por aqui de Mais que Amigos, a ideia era bastante ambiciosa: cativar não apenas o público LGBTQIA+ mas também o público hétero em busca de novidades. O sucesso infelizmente não veio (custou 22 milhões de dólares e arrecadou apenas 14 milhões ao redor do mundo), mas a aceitação da crítica (com direito à uma preciosa indicação a Melhor Comédia no Critic's Choice Awards) demonstra que a fórmula gerou boa química, especialmente pelo trabalho de Billy Eichner  e Luke MacFarlane. Eichner vive Bob, que enfrenta dificuldades de manter um relacionamento duradouro. O problema é que os encontros por aplicativo não são mais satisfatórios para ele e os encontros com os amigos parecem ressaltar o quanto todos conseguiram se ajeitar na vida, menos ele. A vida profissional até que vai bem com o convite para administrar o Museu de História Queer de Nova York, embora ele não faça a menos ideia de como direcionar as coisas. Como bom intelectual, Bobby tem mania de problematizar tudo, seus pretendentes, os clichês e ele mesmo. É quando tenta relaxar em uma boate gay que ele conhece o fortão Aaron (Luke MacFarlane), obviamente que ele começa a imaginar que Aaron é um cabeça de vento que só pensa em esculpir o corpão no crossfit, mas os dois se tornam cada vez mais próximos e um interesse inevitável começa a surgir entre os dois. Porém, se os opostos realmente se atraem, existe também a necessidade de um compreender melhor a personalidade do outro, já que Bobby adora falar e Aaron é bem mais calado e travado discreto, além disso, Bobby começa a perceber-se mais inseguro do que imaginava. O texto de Eichner e o diretor Nicholas Stoller começa a engrenar aos poucos, mas quando flui é um verdadeiro emaranhado de piadas bem sacadas sobre aplicativos, estereótipos, rótulos, discussões de gênero, tapas, beijos e tudo mais que aparecer pela frente. Stoller é um craque em comédias que se equilibram no fio da navalha, foi assim com Ressaca de Amor (2008) e Vizinhos (2014), aqui não é diferente ao lidar com um tipo de humor que adora rir de si mesmo. Eichner e Macfarlane estão mais do que convincentes como um casal que tenta se acertar tropeçando em suas diferenças e realiza até um final deliciosamente brega com musiquinha e tudo. Em cartaz no TelecinePlay o filme é uma boa comédia que merece ser descoberta em nome de risadas despretensiosas, além disso, serve para divertir quem está cansado de ver casais gays sofrenteo ao comer o pão que a sociedade heteronormativa amassou. 

Mais que Amigos (Bross / EUA -2022) de Nicholas Stoller com Billy Eichner, Luke MacFarlane, Jim Rash, Miss Lawrence, TS Madison, Dot Marie-Jones, Guillermo Diaz e Debra Messing. ☻☻☻☻