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quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Na Tela: Duna

 
Thimothée e Rebecca: mãe e filho num deserto grandiloquente. 

Duna, o livro de Frank Herbert, é uma obra-prima da ficção científica e, por conta disso, coleciona milhares de fãs desde o seu lançamento em 1965. Alguns deles resolveram fazer uma versão para o cinema em 1984 com direção de David Lynch, mas o filme foi um fracasso de bilheteria, se tornou motivo de piada por suas bizarrices e até recebeu o desprezo do seu próprio diretor. Afinal, reza a lenda que Lynch filmou uma versão de quatro horas para contar a história do herói Paul Atreides, mas que os produtores exigiram um corte de duas horas e ainda começaram a vetar as solicitações feitas por Lynch.  Dito isso, não é surpresa que o filme foi um fiasco (como fã de Lynch eu tentei assistir, mas desisti antes da primeira meia-hora. Agora que o longa está em cartaz na Netflix, tentarei assistir novamente). Eis que passado o trauma, resolveram criar outra versão. Quase quatro décadas depois, convidaram o canadense Denis Villeneuve para a empreitada. Denis também tinha lá seus traumas quando a produção começou, já que depois do fracasso comercial do ambicioso Blade Runner 2049 (2017) chegou a considerar que não seria convidado para trabalhar novamente. Sorte que quem entende de cinema sabe que a sequência do filme de Ridley Scott é tão obra-prima quanto o primeiro filme e que o diretor merecia novas chances de construir mundos para a telona. Interessante que antes do sucesso de A Chegada (2016), era difícil imaginar que o diretor se tornaria o grande nome da ficção científica cinematográfica do século XXI (embora já demonstre sinais de saturação). Chegado a dramas intimistas na fase inicial de sua carreira, este deve ser o diferencial para dar alma ao corpo de efeitos especiais de suas obras no gênero. No fim das contas, parece que Duna curou os traumas de todo mundo. Tornou-se a maior bilheteria mundial desde a reabertura dos cinemas em tempos de pandemia e recentemente teve a sua sequência garantida - o que é muito importante para a apreciação do filme. Lembra do que houve com a versão de David Lynch? Pois é. Villeneuve também criou uma adaptação pensada para mais de um filme (na verdade pensou numa trilogia) e esta acaba se tornando a grande restrição do filme que, visivelmente, serve como espécie de introdução à trama. Falando em introdução, demora um bocado para o filme engrenar com toda a preocupação de tornar compreensível aquele universo construído por Frank Herbert. Haja nomes e palavras estranhas em torno da história do planeta Arrakis, que é constantemente explorado por conta da substância conhecida como "especiaria", uma espécie de droga alucinógena benéfica para  quem a consome. Por ela as guerras são travadas, assim como jogos de poder e traições que movimentam a trama. O engraçado é que Villeneuve opta por ser bastante conciso em alguns momentos (como a introdução na voz de Zendaya que resume a história do planeta em poucas frases) e bastante moroso em outros. Em vários momentos Duna se arrasta em pura contemplação à grandiloquência do mundo construído para o filme. Dos imensos desertos habitados por vermes gigantescos, passando pelas naves impressionantes e os veículos que parecem libélulas mecânicas, a atenção a estes elementos parecem ter tanto peso quanto os personagens da trama. A história é centrada na família do Duque Atreides (Oscar Isaac), que casou com uma mulher ligada à bruxaria (Rebeca Ferguson) e tiveram um filho, Paul (Thimothé Chalamet), que parece predestinado a algo grandioso. No entanto, tão logo a família chega à Arrakis, existe um clima de conspiração no ar, já que o planeta e seus habitantes calejados rejeitam a ideia de um novo explorador. No entanto, existe outras figuras imponentes de olho na extração das especiarias... é estranho que dada a alardeada complexidade da obra literária, o filme pareça carregar uma história tão simples. Levando em consideração o didatismo do roteiro na apresentação daquele universo, personagens e ações (que às vezes transborda em exageros como os momentos como um personagem dizendo "vamos decolar" para no minuto seguinte a nave decolar ou de Jason Momoa trancando uma porta para no minuto seguinte uma personagem dizer que "ele trancou a porta") e ter tudo no lugar certo (atuações convincentes, efeitos especiais competentes, trilha sonora excelente e cenas de ação grandiosas para espantar o sono quando ele aparece), Duna termina com a sensação de ser uma longa introdução e, não é por acaso, que a personagem de Zendaya diga que "isso é apenas o começo" quando esta primeira parte está em seus minutos finais - pouco depois do franzino Paul de Chalamet demonstrar que está disposto a crescer e assumir seu papel neste conflito instaurado por outras instâncias. Não vou tecer muitos comentários sobre o trabalho do mocinho até que a sequência saia em 2023. Se o objetivo é apresentar a ideia ao espectador para que ele compre esta nova versão, o filme funciona, mas depende muito da segunda parte para justificar sua existência. 

Duna - Primeira Parte (Dune/Estados Unidos - Canadá - Hungria - Noruega - Ìndia /2021)  de Denis Villeneuve com Thimothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Jason Momoa, Zendaya, Javier Bardem, Dave Bautista, Josh Brolin, Charlotte Rampling, Stellan Skarsgård eDavid Dastmalchian. ☻☻☻

domingo, 18 de outubro de 2020

CATÁLOGO: 32 de Agosto na Terra

Pascale e Martin: platonismo bilateral. 

O primeiro filme do canadense Denis Villeneuve já chama atenção pelo seu título inusitado. 32 de agosto na Terra é uma romance que segue por caminhos tão estranhos quanto o título promete, aliás, sua trama segue pelos dias 33 de agosto, 34, 35... até que uma acontecimento drástico faz finalmente o mês de setembro chegar. Parece até a brincadeira que nós brasileiros costumamos dizer sobre o mês de agosto durar mais do que seus trinta e um dias prometem (a ausência de feriados é algo que colabora muito para isso), mas em se tratando de um filme canadense esta leitura parece mera coincidência. A ideia é mostrar como a vida da protagonista está meio fora do eixo, especialmente se levarmos em consideração que logo no início ela sofre um acidente e após caminhar pelas redondezas acaba se deparando com o próprio carro como se estivesse andando em círculos. Esta ideia de que o tempo estacionou já foi usado em outros filmes, mas nunca de forma tão sutil quanto aqui. Enquanto tenta retomar seu rumo, Simone (Pascale Bussières) acaba recorrendo a uma amigo, Phillipe (Alexia Martin) para lhe ajudar a encontrar um sentido para a vida: ter um filho. No entanto, Simone não quer um romance ou casamento, ela quer apenas um bebê que possa preencher o vazio com que se deparou após sofrer o tal acidente. Surpreso com a proposta, Phillipe não digere muito bem a ideia, nem tanto pelo fato de ter que fazer o herdeiro, mas pela forma pouco afetuosa como a proposta lhe é feita. Phillipe é apaixonado por Simone e por mais que ele tente esconder, a plateia percebe logo. A partir deste ponto, o roteiro insere o casal em situações um tanto surreais em que discutem o relacionamento existente entre aquele homem e aquela mulher. Portanto, se torna um tanto simbólico que os dois sejam os únicos presentes na imensidão do deserto e hesitem fazer sexo, ou quando após uma longa jornada se deparam com um quarto futurista e o sexo continua pertencendo somente ao mundo das ideias. Entre o ideal e o real, o projeto e o realizado, 32 de agosto na Terra se desenvolve de maneira cômica e até simpática, mas sem perder suas conotações cerebrais sobre as relações humanas. O resultado é bem diferente do que poderia ser apenas mais uma comédia romântica, ainda que o desfecho revele que a platonice não era unilateral naquela história. Visto hoje após tantos trabalhos mais exuberantes do cineasta canadense (que acaba de ter seu ambicioso Duna adiado para 2021), 32 de Agosto se torna uma obra curiosa em que procuramos perceber signos de seu cinema em fase quase embrionária (a estética, o gosto por protagonistas femininas, o desfecho revelador...) e não mais do que isso. 

32 de Agosto na Terra (Un 32 août sur terre / Canadá - 1998) de Denis Villeneuve com  Pascale Bussières, Alexis Martin,  Paule Baillargeon, Emmanuel Bilodeau, R. Craig Costin e Richard S. Hamilton. ☻☻

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

PL►Y: Redemoinho

Jean e Marie: o mundo é um redemoinho. 

Pode se dizer que Denis Villeneuve ganhou o mundo em seu terceiro filme, Incêndios (2010) que foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro, se tornou um dos filmes mais contundentes deste século e nga carimbou a passagem do cineasta canadense para Hollywood. Antes, Villeneuve havia realizado três obras que chamaram atenção em seu país. Redemoinho foi um delas. Esta sua segunda obra foi premiada no Genie (o equivalente ao Oscar) nas categorias de melhor filme, direção, atriz, roteiro e fotografia, tendo outras cinco indicações. O filme chegou a ser lançado no Brasil e lembro que causou grande estranhamento quando a plateia se deparou com um filme cujo o narrador é um peixe prestes a morrer. Este é o aspecto mais estranho de um filme que gira em temas como culpa, morte, coincidências e filiação tendo a água como uma espécie de cola para a trama. Apesar do peixe moribundo, a protagonista é Bibi Champagne (Marie-Jozée Croze), modelo que vive à sombra da beleza da mãe e que está tendo problemas profissionais e pessoais. Apesar do glamour diante das câmeras, Bibi não leva uma vida regrada e a realização de um aborto a afeta de uma forma que ela não imaginava. Diante dos problemas pessoais que enfrenta, os enjoos permanecem e uma dose de culpa também perpassa sua mente e se intensifica ainda mais quando ela atropela um pescador à caminho de casa. A ideia de morte é bastante forte em Redemoinho e a edição quebrada causa estranheza neste percurso, mas funciona quando insere o mergulhador Evian (Jean-Nicolas Varreault) na história e coloca a protagonista diante de um verdadeiro impasse. A trama poderia ser apenas uma história de amor comum, se Villeneuve não o decorasse com cenas que vão e voltam sobre outra perspectiva mostrando como a culpa pode dar lugar à redenção ao sinal de perdão se os personagens permitirem. O título se refere à sucessão de acontecimentos que podem tragar a protagonista para o bem ou para o mal, assim como estabelece a forte referência aquática da história (que ainda conta com as música The Ocean Doesn't Want Me Today de Tom Waits). Vale destacar o trabalho de Marie-Jozée Croze que tem momentos bastante intimistas de desamparo na pele de Bibi e nos motiva a acompanhar os caminhos estranhos que o diretor escolhe para contar sua história cheia de coincidências. Sobre o filme, o cineasta declarou: “Do meu humilde ponto de vista, foi inspirado da seguinte maneira: todos nós temos um incrível sistema embutido de defesa pessoal e social: interpretamos o mundo e construímos para nós uma imagem dele, que nos conforta e acalma nossa consciência e fazemos isso instintivamente. Para mim, Maelstrom é uma chamada lúdica para ser responsável e ser cuidadoso. Alguns de meus amigos acharam essa definição infantil e tentaram me convencer de que Maelstrom era, em vez disso, um drama sombrio e sério sobre uma mulher emergindo do caos e da mitomania. Outros consideram-no uma fábula noir luminosa de uma viagem aos limites da realidade e do mito. Isso é ridículo. Não acredite em uma palavra do que eles dizem”.  Por tudo isso é curioso rever o filme depois que Villeneuve se tornou o favorito para filmar tramas ambiciosas de ficção científica depois que o elogiado A Chegada (2016) foi lançado, rendendo convites para filmar Blade Ranner 2049 (2017) e a aguardada nova versão de Duna. Villeneuve já demonstrava aqui sua inquietação para contar histórias (e se vissem este filme, provavelmente estranhariam menos o final de O Homem Duplicado/2013), o gosto por protagonistas femininas e o cuidado com a estética, que aqui se faz presente em um trabalho de fotografia deslumbrante em tons de azul na narrativa de um peixe com pendores filosóficos em seu leito de morte.  

Redemoinho (Maelström / Canadá - 2000) de Denis Villeneuve com Marie-Jozée Croze, Jean-Nicolas Varreault, Stephanie Morgenstern, Pierre Lebeau e Virginie Dubois. ☻☻☻ 

domingo, 16 de setembro de 2018

CATÁLOGO: Politécnica

O pensamento nas trevas: uma triste história canadense. 

Dez anos antes da tragédia naquela escola americana de Columbine, houve uma situação semelhante na cidade canadense de Montreal. Era dezembro de 1989 e um aluno armado chocou o mundo - com o acréscimo de uma carta em que ele tentava explicar suas motivações. A situação demonstrou como uma pessoa comum pode esconder uma mente perturbada - que se torna ainda mais perigosa com uma arma nas mãos. O então desconhecido Dennis Villeneuve sabia que enfrentaria polêmicas ao recontar esta história em seu terceiro longa. Em Politécnica as informações sobre as vítimas foram alteradas e filmado em preto e branco, Villeneuve apresenta uma precisão cirúrgica ao reconstituir o massacre, ousa ao tentar desvendar um pouco mais da psique do atirador (um rapaz que parece colecionar frustrações e que explode ao perder sua vaga de emprego para uma garota da escola). Não darei detalhes sobre a carta que o moço escreve, mas vale destacar como atribuir a causa de seus problemas a um grupo específico de pessoas é combustível para uma situação catastrófica. Villeneuve faz um belo trabalho com o elenco e provoca arrepios pelo tom realista que consegue imprimir, seja nas cenas mais triviais como nas mais agressivas. O cuidado com que ele acompanha os atores com a câmera é notável, assim como os enquadramentos que mostra um mundo que virou de cabeça para baixo (literalmente). O bom trabalho de edição sabe exatamente o momento em que deve mais sugerir do que mostrar (e assim ampliar o horror na plateia), sabe também como terminar de contar uma parte da história e retomá-la pela ótica de outro personagem. Estes cuidados tornam o filme menos hermético do que Elefante (2003) de Gus van Sant, que conta uma história parecida (e ganhou a Palma de Ouro em Cannes no ano de seu lançamento) e que sempre rendeu comparações. Ambos tem uma narrativa multifacetada, momentos de pura contemplação e aquela maneira peculiar de filmar os alunos caminhando por longos corredores. São filmes bastante incômodos, mas Politécnica ainda consegue ser mais claro em seus objetivos e fez Denis Villeneuve chamar atenção para além de sua terra canadense. Hoje consagrado (e com uma indicação ao Oscar por A Chegada/2016), fica evidente que aqui o diretor buscava construir seu estilo próprio. Insatisfeito com o resultado de seus dois filmes anteriores (32 de Agosto na Terra/1998 e Redemoinho/2000), Denis demonstra saber exatamente o que desejava fazer aqui. O filme é tenso, enxuto e preciso, um passo decisivo na carreira de um cineasta que lançou em seguida o ainda mais premiado Incêndios (2010) - filme que merecia ter ganho o Oscar de filme estrangeiro em 2011. Em comum com este, Politécnica já demonstrava a preocupação do diretor com um mundo repleto de personagens que não conseguem conversar sobre as suas angústias. O filme recebeu 11 indicações ao Genie Awards (O Oscar canadense) e foi premiado com nove estatuetas, incluindo filme, diretor e roteiro. 

Politécnica (Polyrechnique / Canadá - 2009) de Denis Villeneuve com Maxim Gaudette, Sébastien Huberdeau, Karine Vanasse, Martin Watier, Evelyne Brochu e Pierre Yves-Cardinau. ☻☻☻☻

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

FILMESD+: Blade Runner + Blade Runner 2049

Hauer e Ford: os replicantes como espelho da humanidade

Quando Ridley Scott lançou Blade Runner em 1982 ele não fez o sucesso esperado, sendo considerado até um fracasso de bilheteria. Adaptado da obra de Phillip K. Dick (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? lançado em 1968), Scott construiu um verdadeiro mundo banhado em atmosfera noir onde o caçador de replicantes Rick Deckard (Harrison Ford em atuação antológica) perseguia um grupo de andróides super desenvolvidos que fugiram do trabalho intergaláctico e voltaram para a Terra. Considerados rebeldes, o grupo liderado por Roy (Rutger Hauer) se recusava a passar toda a vida produtiva fazendo os serviços que a humanidade não queria fazer. Assim, nos deparamos com o drama existencial dos replicantes,  que com todo o potencial da inteligência artificial pereceriam em apenas quatro anos de existência. A partir dali, Blade Runner demonstrar que a criatura feita pelo homem enfrentava o mesmo dilema de caminhar sempre ao encontro da morte. Por isso mesmo, Roy e seus seguidores queriam estar face a face com o criador (do modelo Nexus 6 ) na esperança de que ele pudesse impedir o fim tão próximo, ou talvez, até lhes oferecer a imortalidade. Este aspecto tão humano da história é o que torna o filme interessante até hoje e alimenta diversas discussões filosóficas acaloradas. Para além da perseguição aos replicantes, Deckard se deparava com a atração que sentia por Rachel (Sean Young no papel de sua vida), que acredita ser humana, na verdade a sobrinha do criador dos replicantes, Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel). Rachel faz com que Deckard comece a questionar seu trabalho e perceba que os replicantes podem ter evoluído para além do que foram projetados. Scott faz algumas das cenas mais belas da ficção científica e cria personagens memoráveis, incluindo os replicantes mais inesquecíveis do cinema. Como esquecer a Pris de Daryl Hannah ou Zhora de Joanna Cassidy? Sem falar em Rachel, Roy e até mesmo Deckard que rendeu inúmeros boatos de que ele mesmo poderia ser um replicante. Scott sempre manteve vivo o desejo de fazer uma continuação, sobretudo depois que o filme se tornou cult com a ajuda das locadoras (nessas horas que cai a ficha que sou do século passado... e até a expressão cair a ficha não faz mais sentido algum), no entanto, não havia gostado de nenhum roteiro que tenha caído em suas mãos. Portanto, devemos agradecer à parceria do roteirista do filme original Hampton Fancher e Michael Green (que foi parceiro de Scott na repaginada de Alien) que escreveram a sequência mais aguardada das últimas três décadas - que ganha vida pelas lentes do canadense Dennis Villeneuve.

Joi e K: amor tecnológico de verdade?

O melhor de tudo desta sequência é a sensação de que sua história sempre esteve presente nas entrelinhas do primeiro filme, parecendo ter sido uma sequência planejada desde sempre. Aqui acompanhamos a história de K (Ryan Gosling), um Blade Runner que atua trinta anos após o desaparecimento de Deckard no primeiro filme. Ele é o responsável por investigar o paradeiro do veterano caçador e de Rachel, mas acaba descobrindo um segredo que pode mudar totalmente os rumos na produção de replicantes - que já estão ainda mais aprimorados e ainda existem outras tecnologias que garantem até um romance na vida de K, desta vez ainda mais fadado ao fracasso que o de Deckard e Rachel. Agora quem comanda a indústria de replicantes é o estanho  Niander Wallace (Jared Leto), que comprou a Tyrell Corporation e inovou ainda mais a tecnologia que encontrou. No entanto, ele quer algo ainda mais ambicioso, algo que acredita já ter sido desenvolvido por Tyrrell anteriormente, mas que se perdeu num desastre digital que apagou todos os dados eletrônicos em escala mundial. Dennis Villeneuve amplia todo o universo do filme de 1982 numa verdadeira homenagem à obra de Phillip K. Dick (reparou que o nome do protagonista vem do nome do meio do autor?) e de Scott. A amplia com tecnologias que tem nomes de sentimentos, hologramas ultra realistas e a sensação de que a humanidade parece mais perdida do que antes. Cria duas novas musas para este universo, Joi (Ana de Armas) e  Luv (Sylvia Hoecks), mostra que Dave Bautista pode ser mais do que mais um fortão engraçado em uma participação pungente e complexifica o trabalho de K ao máximo. Neste ponto, Ryan Gosling merece todos os elogios, já que torna seu personagem realmente comovente. Há de ressaltar ainda toda a estética do filme e parabenizar a coragem de Villeneuve em fazer um filme que contrasta ousadamente longos silêncios com sons ameaçadores, chegando a investir numa trilha que remete à clássica sonoridade composta por Vangelis, mas que se funde com os barulhos de naves, motores e explosões. A cena dos hologramas silenciosos no Cassino, com sonoridades fragmentadas alcança um efeito magnífico no encontro de Deckard com K. É brilhante ao evocar um mundo que não existe mais. É Nostálgico! Arrebatador! Mas ainda assim  nos damos conta de que o filme ainda tem mais a oferecer e Villeneuve provoca arrepios ao criar um (quase) reencontro dos mais lindos da história do cinema - para destruí-lo logo em seguida. Talvez neste universo não exista mais espaço para o amor, independente de quem esteja envolvido... ma, pensando bem, a última cena é exatamente o oposto disso! Blade Runner 2049 é a sequência que esperamos por mais de trinta anos e amplia ainda mais a crise de identidade de pessoas que não estão certas se são humanas e replicantes que não sabem se são humanos. Criadores e criaturas se misturam mais uma vez na telona e o resultado é a melhor ficção científica do ano - e com louvor!

Sean Young: guardando o maior segredo da Tyrell Corporation. 

Blade Runner (EUA - Hong Kong - Reino Unido /1982) de Ridley Scott com Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Daryl Hannah, Joanna Cassidy, Joe Turkell e Edward James Olmos. ☻☻☻☻☻

Blade Runner - 2049 (EUA - Reino Unido - Canadá / 2017) de Dennis Villeneuve com Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoecks, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Edward James Olmos e Jared Leto. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Na Tela: A Chegada

Amy: rumo à sexta indicação ao Oscar. 

Quando você pensa em ficção científica, dificilmente você irá imaginar em uma linguista como protagonista... é a partir deste ponto de partida que o novo filme do canadense Dennis Villeneuve já começa diferente. Embora exista todo um aparato militar, alienígenas estranhos e efeitos especiais, A Chegada é um filme que caminha para o lado oposto do que se espera neste tipo de filme, por isso mesmo, tem sido comparado a 2001 - Uma Odisseia Espacial (1968) de Stanley Kubrick em seus silêncios e abstrações. O filme é sobre a chegada de doze espaçonaves que aparecem no planeta Terra e pairam a alguns metros do chão. Para estabelecer contato com os visitantes, os militares americanos convocam a professora de linguística Louise Banks (Amy Adams) para estudar um método de comunicação com os alienígenas, no entanto, todo o processo de compreensão da nova língua demanda mais tempo do que os militares queriam, afinal, o que eles querem saber é o motivo das naves aparecerem pairando sobre nosso planeta, nada além disso. Assim, enquanto Louise ganha a confiança dos visitantes e traduz todo um vocabulário extra-terreno, os militares ao redor do mundo suspeitam que estamos prestes a ser dizimados (assim como em todos os casos de encontros de civilizações que aparecem no filme). Impressiona como a partir de uma situação fantástica, o filme aborde questões sobre as relações humanas, nossos problemas de comunicação, as más interpretações geradas pelo medo (e o dedo sempre no gatilho) num mundo dividido que tenta lidar com uma mesma situação de maneiras diferentes. A narrativa de Villeneuve é mais uma vez elegante e tem na atuação de Amy Adams um trunfo ainda mais forte do que a estética, passando pela trilha sonora espetacular e a própria escrita a ser desvendada. É Amy que segura o filme quando pensamos que o filme passará todo o tempo desvendando uma linguagem em nome da paz intergaláctica, aos poucos o filme se constrói em torno de uma nova perspectiva sobre o que vimos desde o início (a relação de Louise com sua filha). Assim como na linguagem a ser desvendada, A Chegada se constrói como um círculo perfeito, com significados muito próprios e que chega ao final sendo sobre Louise e não sobre todo o resto. É neste momento que todos os efeitos, toda a militarização dos conflitos se tornam meros assessórios: a alma do filme está mesmo no olhar de Amy Adams diante do que está por vir e se ela será capaz de enfrentar toda a alegria e dor que se anuncia. Por isso mesmo, A Chegada é uma ficção científica intimista, afinal, trata das emoções e aa dificuldades que temos de comunicá-las, mas também é sobre os presentes que o tempo pode trazer enquanto nem percebemos que ele é tão breve.

A Chegada (Arrival / EUA - 2016) de Dennis Villeneuve com Amy Adams, Jeremy Renner, Forrest Whitaker, Michael Stuhlbarg e Mark O'Bryen. ☻☻☻☻

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

NaTela: Sicario - Terra de Ninguém

Emily Blunt (à frente): no subterrâneo das drogas. 

O canadense Denis Villeneuve é um dos cineastas em ascensão no momento e, uma de suas maiores características, é não tornar-se repetitivo. Depois da visão um tanto épica de Incêndios (2010), passando pela barbárie de Os Suspeitos (2013) e os enigmas de O Homem Duplicado (2013), ele decepcionou alguns de seus admiradores com o resultado de Sicario, um filme de combate ao tráfico de drogas só que com alguns pontos bastante diferentes. Para começar ele tem a coragem de colocar Emily Blunt no alto dos créditos para deixá-la quase de lado o filme inteiro. Ela interpreta a agente do FBI Kate Macer, esperta e durona, depois de uma ação bem sucedida onde encontra corpos não identificados numa casa ela é convidada a participar de uma ação ofensiva da CIA para destruir um cartel de drogas na fornteira com o México. No entanto, as coisas não são como ela imagina, afinal, ela não faz a mínima ideia do que está acontecendo enquanto acompanha o agente Matt Graver (Josh Brolin) e seu parceiro Alejandro (Benicio Del Toro). A maior parte do tempo ela acompanha a dupla colocando sua vida em risco, sem saber o que estão de fato procurando. Villeneuve faz da ausência de conhecimento uma ferramenta narrativa perigosa para sua plateia, que deve deixar se envolver pelo fluxo enigmático da ação para saber o que irá acontecer ao final (tal e qual sua heroína). Particularmente, não gostei muito do resultado. Existem umas quatro cenas que impressionam (a descoberta dos corpos, a cena na fronteira do México, a dos famigerados túneis clandestinos e o encontro esperado desde o início), mas o roteiro é bastante inconsistente, transbordando canastrice aos homens que cruzam o caminho de Kate. Chega a dar pena de Emily Blunt, uma boa atriz, mas que aqui parece desperdiçada, faltando uma cena de destaque para sua personagem (a sua última cena é legalzinha, mas não tem a grandiloquência necessária para fechar o filme como deveria). Embora Villeneuve demonstre maestria na construção das imagens, construindo ângulos e planos envolventes, o roteiro do estreante Taylor Sheridan parece querer dar um passo maior do que a perna, deixando vários pontos pelo caminho e deixando o resultado um tanto simplista. Não fosse as belas (e perturbadoras) imagens compostas por Villeneuve e seu trio de atores principais, Sicario teria recebido menos destaque durante o ano e deixaria mais claro que é um dos maiores desperdícios de 2015. 

Sicario - Terra de Ninguém (Sicario/EUA-2015) de Denis Villeneuve com Emily Blunt, Josh Brolin, Benicio Del Toro e Victor Garber. ☻☻

domingo, 19 de outubro de 2014

DVD: Os Suspeitos

Jake e Jackman: a verdade liberta no fim do labirinto? 

Recentemente em cartaz com o controverso O Homem Duplicado (2014), o canadense Denis Villeneuve comprovou que anda obcecado com a ideia da "verdade". Afinal, todo mundo queria saber o que havia por trás dos sósias vividos por Jake Gyllenhaal na trama inspirada no livro de José Saramago (e quando chegamos no final nos deparamos com apenas um nó gigantesco). Essa obsessão começou em seu quarto longa-metragem, o excepcional Incêndios (2010), que merecia o Oscar de filme estrangeiro a que foi indicado (e recentemente recebeu uma montagem teatral no Brasil estrelada por Marieta Severo) ao contar a história do casal de irmãos que buscam a identidade do filho perdido de sua mãe e acabam encontrando muito mais do que isso. Em Os Suspeitos (2014) o diretor até engana os fãs, fazendo-os pensar que contará uma história de suspense tradicional nos moldes de Hollywood, mas aos poucos mostra que seu interesse é criar um universo muito maior que as limitações do cinemão comercial. Um universo que se assume como um labirinto, onde as paredes que complicam o caminho são feitas de carne e osso, pessoas com suas suas subjetividades forjadas em dramas pessoais que lhes constituíram em qualidades e defeitos. Talvez por esse motivo eu prefira o título em inglês, que traduzido fielmente seria Prisioneiros, independente de ser cativeiros, celas ou percepções da realidade, todos os personagens estão presos às suas histórias. Por isso, a verdade do filme parece cada vez mais turva, os papéis de mocinhos e bandidos mudam de uma hora para outra numa busca pela saída do labirinto instituído pelo roteiro engenhoso de Aaron Guzilowski. A trama gira em torno do sumiço de duas meninas, filhas dos casais de amigos formado por Keller (Hugh Jackman) & Grace (Maria Bello) e  Nancy (Viola Davis) & Frank (Terrence Howard). As suspeitas recaem sobre o motorista de um trailer que rondava a vizinhança no dia do desaparecimento, que ao ser encontrado, parece inofensivo com seu histórico de problemas mentais. O suspeito Alex Jones (Paul Dano, em mais um dos papeis estranhos que adora fazer) ficou órfão ainda criança e foi criado pela tia (Melissa Leo). Embora seja um rapaz estranho, a polícia o considera inocente e o liberta para o desespero de Keller e do detetive encarregado do caso, Loki (Jake Gyllenhaal) - que percebe problemas à vista... Num encontro desastroso na saída da delegacia, Keller tem a certeza que que Alex é o culpado pelo desaparecimento da filha e, enquanto a esposa mergulha em tranquilizantes, Keller resolve fazer justiça com as próprias mãos. Neste ponto, Villeneuve coloca seu espectador num dilema moral diante das torturas a que Alex será submetido. Sem glamourizar a violência, Villeneuve mostra o processo de desumanização de um homem que começa o filme rezando o Pai Nosso (enquanto ensina o filho adolescente a atirar num animal) e transformado numa fera, Keller está tão cego na verdade que acredita para aliviar sua dor, que não percebe o quanto está fora de controle. Afinal, provas concretas de que a culpa é de Alex não existem. Paralelo a isso, as investigações se deparam com outros desaparecimentos de crianças que se acumularam ao longo dos anos, além de um padre que guarda um cadáver no porão e um homem estranho que rabisca labirintos compulsivamente. Conforme o filme avança as soluções parecem cada vez mais distantes e o que era para guiar à solução, mostra-se um conjunto de estranhezas, crimes e fusões de histórias aparentemente sem ligação. Villeneuve cria um filme complexo, cheio de elementos e analogias (perceba quantas vezes os personagens se deparam com buracos negros literais, separando o conhecido e o desconhecido) valoriza ainda mais pelo excelente elenco. Os Suspeitos só não é perfeito porque exagera um pouco no desfecho que é quase feliz. Trata-se de um trabalho complicado, mas que ilustra com perfeição as obsessões de seu diretor, afinal, a verdade pode não ser tão lógica e agradável como nós pensamos. 

Os Suspeitos (Prisioners/EUA-2013) de Denis Vileneuve com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Maria Belo, Paul Dano, Melissa Leo, Terrence Howard e Dylan Minnette. ☻☻☻☻

terça-feira, 29 de julho de 2014

Na Tela: O Homem Duplicado

Gyllenhaal e Gyllenhaal: "O Caos é ordem a ser decifrada"

Nunca imaginei que José Saramago (1922-2010) fizesse tanto sucesso pelas bandas do Canadá. O escritor português, ganhador do Nobel de Literatura em 1998, já rendeu dois longas de língua inglesa idealizados por produtores canadenses. O primeiro foi Ensaio Sobre a Cegueira (2008) dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e o segundo foi o recente O Homem Duplicado, dirigido pelo canadense (cada vez mais interessante) Denis Villeneuve. Quem conheceu Villeneuve com o ótimo drama circular Incêndios (2010) ou com o suspense Suspeitos (2013) irá se surpreender com o que ele faz com um dos livros menos queridos de Saramago. Lembro que quando o romance foi lançado, muita gente torceu o nariz por não enxergar em O Homem Duplicado as intenções do escritor sendo atingidas. Reclamavam da falta de humor ou suspense, não se empolgaram com o protagonista e usavam comparações com o clássico O Duplo de Dostoiévsky (que acaba de receber uma versão moderna com Jesse Eisenberg). Mesmo para quem desanimou com o livro, vale a pena conferir o que o roteiro assinado por Javier Gullón virou nas mãos do cineasta. O Homem Duplicado é um filme estranho que evoca diretamente outro diretor canadense que gosta de brincar com as percepções da plateia,  David Cronenberg (talvez por ele ter feito Gêmeos, Mórbida Semelhança/1988). Alguns poderão reclamar da frieza dos personagens e dos planos lentos embalados pelo tom amarelo da fotografia, mas outros irão perceber que Villeneuve é hipnótico na condução do encontro do professor de História, Adam (Jake Gyllenhall) com o ator Anthony St. Claire (Jake Gyllenhaal). Até que o encontro aconteça, o roteiro solta pistas do que está por vir. Afinal, são nas aulas simetricamente repetitivas de Adam (um nome que por si só evoca a criação do homem) que somos instigados na conjunção de "pão e circo", no uso da censura por governos totalitários para conter a imaginação das pessoas, além de frases como "tudo é cópia de uma outra coisa, mas a primeira versão é a tragédia, já a segunda, uma farsa". Existe uma certa monotonia no cotidiano de Adam, algo que contamina até seu relacionamento com a namorada, Mary (Mélanie Laurent). São nesses momentos que o roteiro nos prepara para o destino de Adam, que nem curte cinema, aceitar a sugestão de um amigo (que surge do nada e vai para o lugar algum na trama) para assistir um filme comum, mas no qual Adam encontra seu sósia entre os atores. Embora semelhante fisicamente, o ator Anthony é o oposto de Adam. Como um reflexo de caráter distorcido, o personagem parece não levar nada muito a sério, inclusive o casamento com a esposa grávida, Helen (Sarah Gadon). O impacto da descoberta de um sobre a vida do outro gera em Adam o efeito de novas possibilidades, tanto que experimenta ser o outro de forma até inofensiva. Mas quando Anthony pretende fazer o mesmo, o conflito moral entre os personagens funciona como o espelho de como uma mesma ação pode envolver sentimentos diferentes. Embora exista doses de suspense, Villeneuve parece interessado em questionar a construção da identidade desses dois personagens, onde começa Adam e termina o Anthony, onde se misturam e se perdem na vida um do outro. O resultado é instigante, mas nada se compara à sensação provocada pelo final do filme, onde o espectador percebe que estava diante da construção de um enigma muito maior. Há quem interprete como uma versão disfarçada de "Os Invasores de Corpos", para isso, o roteirista utiliza referências de outra obra de Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, onde os fascistas e seus aliados eram apresentados como aranhas tecendo suas ações. Nesse ponto, a aranha que aparece no início pode se relacionar com o emaranhado de caminhos dos fios dos bondes, com o efeito de uma aranha gigante sobre a cidade, de um vidro quebrado em forma de teia, de frases,aqui e ali até a enigmática última cena. Neste ponto, O Homem Duplicado distancia-se do drama de suspense e se transforma num filme de terror, onde o risco é matar a si mesmo. 

O Homem Duplicado (Enemy/Canadá-2013) de Dennis Villeneuve com Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini e Josh Peace. ☻☻☻

terça-feira, 27 de março de 2012

DVD: Incêndios

Lubna Azabal: em nome do pai e do filho. 

O filme canadense Incêndios concorreu ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira em 2011 e perdeu para o superestimado dinamarquês Num Mundo Melhor. Curioso notar que ambos os filmes tem o gosto por ressaltar que a violência não vai a lugar algum, só que por caminhos totalmente diferentes. Se o filme de Suzanne Bier preferia ficar no conforto superficial das relações de uma família - atirando para todos os lados (internet, bullying, violência infantil, miséria na África) sem acertar nenhum de seus alvos - , o filme do canadense Denis Villeneuve radicaliza a relação de uma mulher com o mundo ao seu redor e a forma como isso influenciou na concepção de seus filhos. Villeneuve filmou um roteiro de tirar o fôlego e que ao chegar ao fim deve causar desconforto pelos acontecimentos mirabolantes que reserva para a família, mas esta história mirabolante se torna crível pela forma implacável como o diretor apresenta os fatos desde o início. Fiquei desconfiado de que algo inesperado fosse acontecer, já que o texto aproveita o fato de Jeanne ser uma matemática para criar (pequenas) metáforas sobre sua situação e a ciência que ela estuda, mas isso é só um detalhe diante das sensações que o filme almeja despertar no seu espectador. Logo no início somos apresentados a um casal, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim), irmãos gêmeos, filhos de Nawal Marwan (Lubna Azabal) que deixou um testamento inusitado nas mãos do advogado amigo da família Jean Lebel (Rémy Girard). Nos primeiros minutos somos apresentados a este documento, onde ela pede para ser enterrada nua e de costas sem que haja qualquer identificação em seu túmulo - o pedido é apresentado como uma forma de penitência por Marwan não ter cumprido algumas de suas promessas em vida. Não bastasse o estranhamento diante dessas exigências, Joanne e Simon recebem dois envelopes, um deve ser entregue ao pai de ambos e o outro ao irmão de ambos. Dá para imaginar a surpresa dos irmãos que passaram a vida inteira imaginando que o pai morrera nos conflitos da Palestina e que nunca souberam ter um irmão perdido pelo mundo. Apesar das dificuldades imagináveis, somente depois de entregar esses envelopes que ambos receberão um outro que permitirá a colocação de uma lápide sobre o túmulo da mãe. Enquanto Simon se revolta, Jeanne se comove com o pedido da mãe e parte em uma jornada em busca das pessoas que lhe eram até então desconhecidas. A maior parte do filme é centrada no passado de Nawal bem longe da confortável vida no Canadá. Nascida na Palestina, Nawal, que era de uma família cristã, viu seu namorado ser morto diante de seus olhos por puro preconceito e desde então presenciou atos de violência em nome da intolerância religiosa. Tais fatos a transformarão numa espécie de guerrilheira local, um personagem mítico e mal visto naquela sociedade, o que dificultará ainda mais à Jeanne a entrega das cartas na jornada em busca do pai e do irmão. Villeneuve constrói cenas inesquecíveis que retratam magistralmente a tragédia humana que é sobreviver a uma guerra. Cenas como a de Marwan chegando ao orfanato destruído ou do ataque ao ônibus fazem a diferença na construção de uma personagem fascinante e totalmente desconhecida de seus filhos (Simon menciona várias vezes como ela era uma pessoa distante, diante de tudo que vemos é totalmente compreensível). Quanto mais os gêmeos mergulham no passado de sua mãe, mais descobrem suas próprias identidades num emaranhado de relações que fariam ressentimentos brotarem sem qualquer esforço. Existe um bocado de tristeza na trajetória de Marwan, mas também esperança na radicalização do diretor em mostrar que apesar de tanta destruição humana, regada a laços desfeitos e intolerância ainda há espaço para o perdão. É neste momento que notamos que a maior mensagem do filme é que, no fundo, todos somos irmãos.

Incêndios (Incendies/Canadá-2010) de  Denis Villeneuve com Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Marwan Maxim e Rémy Girard.
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