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quarta-feira, 20 de maio de 2015

CATÁLOGO: Distrito 9

Copley: camarões espaciais e discurso engajado. 

Quando Neil Blomkamp surgiu para o mundo com a ficção científica Distrito 9 houve um consenso que se estava diante de uma obra capaz de injetar novas cores ao gênero para o século XXI. Fazia tempo que um filme não conseguia inserir tantos comentários sociais num universo com seres espaciais. Blomkamp criou um alegoria sobre a exclusão social, sendo que ao invés de mostrar pobres vivendo em condições degradantes, ele utiliza alienígenas para falar da nossa sociedade globalizada e a exploração da pobreza (assim como as desastrosas medidas utilizadas para mantê-la à margem). Contado num formato quase documental, o filme conta como a sociedade (não por acaso em Johannesburgo, na África do Sul, terra do diretor e a cidade mais violenta do mundo na época) mudou diante da chegada de uma gigantesca nave espacial na década de 1980 - e que permanece parada sobre a cidade, enquanto seus passageiros extraterrestrs vivem entre os humanos no chamado Distrito 9.  Apresentado como uma grande favela, o 9 serve de abrigo para os aliens impossibilitados de voltar para seu planeta natal - ali vivem alimentando-se de comida para gatos e despertando a cobiça de traficantes sobre seus apetrechos intergalácticos. Diante da grande confusão que se tornou a convivência dos "camarões" (apelido nada carinhoso dedicado aos visitantes espaciais), o governo decide que eles devem ser removidos para um outro lugar, o Distrito 10 (quem conhece a história da Cidade de Deus ou de Nova Sepetiba no estado do Rio de Janeiro reconhece fácil essa medida governamental). Encarregado desse procedimento, o funcionário da Multinational United chamado Mikus van der Merwe (Sharlto Copley), termina contaminado no meio da desapropriação do Distrito 9 e seu corpo passa a sofrer transformações que farão com que ele sinta na pele as dificuldades de ser excluído socialmente. Curiosamente, o filme foi lançado no mesmo ano de Avatar (e ambos concorreram ao Oscar de melhor filme), os dois partem de um ponto semelhante, ainda que sigam direções opostas. Embora os dois filmes caminhem para o espetáculo, o filme de Blomkamp tem a vantagem de criar uma ficção científica ultrarrealista, seja em sua fotografia digital e nos efeitos especiais crus que dão incrível credibilidade às cenas ou à abordagem de uma temática inusitada que consegue ser bastante pertinente diante do que vemos nos telejornais todos os dias. Há de se exaltar ainda a atuação de Copley - que é muito mais interessante que a apresentada em seus trabalhos posteriores (que nunca valorizam a sua versatilidade ou carisma). Ao final, Blomkamp deixa o caminho aberto para uma sequência que ainda não saiu do papel (e talvez nem esteja nele), mas que permite aos dessa pérola o desejo de ver um pouco mais dessa alegoria socialmente engajada. 

Distrito 9 (District 9 / EUA - Nova Zelândia - Canadá - África do Sul/2009) de Neill Blomkamp com Sharlto Copley, Jason Cope e John Summer. ☻☻☻☻

segunda-feira, 18 de maio de 2015

NaTela: Chappie

Chappie: melhor deletar...

Recentemente o diretor sul africano Neill Blomkamp recebeu aval para dar prosseguimento à saga Alien com direito à tenente Ripley e todo o resto. Essa é uma ótima notícia para os fãs do monstrengo, já que faz tempo que o personagem anda merecendo respeito. Além disso, por mais que eu curta Prometheus (2012), compreendo a frustração dos fãs com a ficção científica apresentado por Ridley Scott como prequel da série. Existe um consenso de que Blomkamp tem tudo para realizar um bom trabalho, já que, dos diretores atuais, mostra-se um grande amante de sci-fi. Sempre vale a pena lembrar que o rapaz fez Distrito 9 (2009), um dos melhores filmes do início do século XXI e indicado a 4 Oscars (incluindo Melhor Filme). Neill também não decepcionou em Elysium (2013), deixando evidente sua preocupação de usar o gênero para abordar questões sociais. Em Chappie ele tenta repetir a mesma desenvoltura, mas eu considero o filme decepcionante. Sei que o filme é um dos mais vistos ao redor do mundo atualmente, mas a abordagem de Neill é um desastre, sendo assim, o resultado é, no máximo, desengonçado em suas referências que vão de Short Cirtuit (1986) ao clássico Robocop (1987) - chega a ser engraçado que depois do remake cometido pelo brasileiro José Padilha no ano passado, o filme de Paul Verhoeven ainda tenha que lidar com esse aqui. Ambientado em Johannesburgo num futuro próximo, robôs policiais são responsáveis pela segurança das cidades. Na empresa que os fabrica trabalham o jovem idealista Deon Wilson (Dev Patel) e o agressivo Vincent Moore (Hugh Jackman). Enquanto Deon pensa em criar um robô com consciência para escrever poesia, Vincent tenta vender a ideia de um robô ainda mais poderoso no combate ao crime (cujo até o design parece com do ED-209 do filme de Verhoeven) para a dona da empresa, Michelle Bradley (a tenente Ripley em pessoa, Sigourney Weaver). No entanto, o experimento pacifista de Deon acaba caindo nas mãos de bandidos e sendo batizado de Chappie (algo como "chapa" em inglês). Chappie é inofensivo, parece uma criança descobrindo o mundo ao seu redor, pena que ele conta com a ajuda de Amerika (Jose Pablo Castilho), Yolandi (a rapper Yo-Landi Visser) e Ninja (vivido pelo parceiro de Yo na vida real: Ninja) para lhe mostrar o mundo de crimes e contravenções, ao ponto dele quase ser destruído no seu "rito de iniciação". Assim, o filme mostra uma família incomum, com Chappie sendo treinado para tornar-se um ladrão ou assassino, por aqueles que ele chama de pai (Ninja) e mãe (Yolandi) - por mais que o seu criador o ensine a não agir contra as leis (percebeu as metáforas óbvias do roteiro?). No fim das contas o comportamento de Chappie irá trabalhar a favor do projeto de Vincent no combate ao caos que  a cidade se tornará. Além disso, o filme não decide se volta-se para o público infanto-juvenil (a voz de Sharlto Copley caminha para isso) ou adulto (já que a violência é bastante sanguinolenta), criando um grande desequilíbrio na tela entre dilemas éticos, morais e cinematográficos que nem vou me deter aqui. Porém, posso dizer que fica difícil engolir o trio marginal que cuida de Chappie, já que são tipos barra-pesada demais para merecer a simpatia da plateia (além de Yo e Ninja serem atores bem sofríveis). Para piorar, o roteiro se estende demais para dar um final feliz aos personagens que nem interessam tanto. Ainda que faça sucesso, Chappie é um tropeço na carreira de Blomkamp. Retornando à estética crua de sua estreia em Distrito 9, ele erra justamente ao considerar que o fato de seus personagens serem bandidos pobres tornam-se dignos de torcida.  Talvez se houvesse explorado mais como se organiza uma sociedade dependente de robôs para manter a paz, ele até conseguisse. Nisso, nem a analogia do robô com uma criança abandonada à mercê da bandidagem salva o filme, já que perde a sutileza logo no início e torna-se uma caricatura risível das críticas sociais que o diretor almeja realizar. 

Chappie (EUA-México-África do Sul/2015) de Neill Blomkamp com Charlto Copley, Dev Patel, Hugh Jackman, Sigourney Weaver e Yo-Landi Visser. ☻

sexta-feira, 30 de maio de 2014

DVD: Elysium

Wagner e Matt: Mudando apenas de endereço. 

Distrito 9 deve ser uma das ficções científicas mais bacanas de todos os tempos com seu estilo documental e trama cheia de referências sociais. Lançado em 2009, produzido por Peter Jackson e dirigido por Neill Blomkamp, o filme concorreu a quatro merecidos Oscars (filme, edição, roteiro e efeitos especiais - merecia ter concorrido a outros), mas não levou nenhum. A legião de fãs cabia aguardar que se concretizassem as especulações acerca de uma possível sequência (Distrito 10?). Na falta disso, o novo filme de Blomkamp foi aguardado com grande expectativa. Elysium tem uma produção mais caprichada, mas mantém o discurso social do cineasta, embora, não tenha uma das características mais fortes de sua obra de estreia: o roteiro enxuto. O texto é bom, mas em alguns momentos padece de excessos que fazem os personagens parecerem presos a estereótipos tão fortes que, mesmo as metáforas perseguidas pelo diretor, se tornam óbvias demais. No ano de 2154 a Terra se tornou um planeta devastado destinado somente aos menos favorecidos - que tentam sobreviver com empregos marcados pela exploração e as péssimas condições de execução. É numa prévia desse universo que conhecemos o pequeno Max, que desde pequeno queria mudar-se para Elysium, uma colônia espacial habitada por milionários que podem bancar um estilo de vida a anos luz da realidade terrena (ainda que com o dinheiro arrecadado às custas do trabalho sobre as reservas naturais escassas do planeta deixado para trás). Max cresce (e vira Matt Damon) distante de Elysium, mas por conta de um acidente no trabalho seus dias estão contados. Enquanto seu organismo entra em colapso com a radiação a que foi submetido, ele conta com a ajuda de uma espécie de líder da resistência, chamado Spider (Wagner Moura, inventor do hilário "baianinglish") que organiza tentativas de chegar a Elysium com naves espaciais clandestinas que são destruídas pela vilanesca Delacourt (Jodie Foster) - a responsável pelo padrão de vida e segurança da colônia. Max consegue mais algum tempo de vida com a ajuda de um exoesqueleto e irá colaborar com uma invasão e possível revolução no sistema da Colonia futurista. Além de Spider ele conta com a ajuda de uma amiga de infância (Alice Braga) que tem uma filha doente  e a oposição do estranho Kruger (Sharlto Copley, o protagonista de Distrito 9), matador responsável pelo serviço sujo que Delacourt precisa fazer para deixar a Terra distante daquele universo idílico. Os efeitos especiais são caprichados, os atores também são bons apesar da mão surpreendentemente pesada do seu diretor. Wagner Moura aproveita a chance de estrear em Hollywood com eficiência (o ator ficou conhecido por lá com Tropa de Elite 2 - que fez muito sucesso por lá, enquanto o primeiro mal foi visto pelo Tio Sam) mas sabemos que ele pode dar conta de um personagem mais complexo do que a tagarelice de Spider. Alice Braga faz o mesmo papel que lhe cabe sempre no cinema americano: a latina boazinha que ajuda o mocinho.  Apesar das boas ideias, Blomkamp corre o risco de tornar-se repetitivo se não souber dosar sutilezas em seu discurso autoral. Com as fronteiras da fantasia esgarçadas por sua abordagem, Elysium não fez o sucesso esperado, mas ainda mostra-se gratificante por ser algo que não pretende ser um espetáculo de violência embalado por efeitos especiais deslumbrantes. Aqui, mais uma vez, as diferenças sociais aparecem mudando apenas de endereço. 

Elysium (EUA-2013) de Neill Blomkamp com Matt Damon, Jodie Foster, Wagner Moura, Sharlto Copley e Alice Braga. ☻☻☻