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quinta-feira, 3 de maio de 2012

DVD: Tudo Pelo Poder


Gosling: alguém tem que fazer o serviço sujo...

Depois de um enorme tropeço de público e crítica em sua carreira de diretor (com o bobo O Amor não Tem Regras/2008), George Clooney reencontrou o sucesso em seu segundo ofício quando resolveu adaptar a peça "Farragut North" de Bill Willimon para o cinema. Tudo Pelo Poder aborda novamente a política, tema que rendeu vários elogios ao diretor de Boa Noite, Boa Sorte (2005). Mas se no que concorreu ao Oscar de 2006 o cineasta abordava a caça aos comunistas na década de 1950, agora ele volta sua lente para as eleições presidenciais, ou melhor, o burburinho que cerca a escolha dos candidatos. Cercado de um elenco de primeira, Clooney fez um dos filmes mais aclamados do ano passado e, embora tenha concorrido a vários Globos de Ouro (incluindo filme e direção), no Oscar teve que se contentar com a indicação ao prêmio de roteiro adaptado. O filme aborda as prévias para a escolha do candidato democrata à presidência americana, no centro da disputa está o governador Mike Morris (George Clooney) candidato que se alimenta do auxílio valioso de seus assessores, o calejado Paul Zara (Phillip Seymour Hoffman) e o prodígio Stephen Myers (Ryan Gosling). Morris é um pré-candidato do partido que precisa vencer as prévias nos estados e a situação nunca lhe parece muito favorável diante de seu concorrente, o senador Thompson (Jeffrey Wright) e a gana de seu assessor Tom Duffy (Paul Giamatti). Clooney consegue manter um clima tenso onde as articulações políticas soltam aos olhos e tendem a contaminar até os mais certinhos. Desde o início Myers é mostrado como um rapaz esperto, mas que persegue ideais que nenhum outro personagem considera que possam ser representados por muito tempo pelo candidato Morris. Quando o centro da narrativa parece girar em torno do fim da campanha existe um desvio nos interesses do especator. Quando surge Molly (Evan Rachel Wood), uma bela estagiária que cruza o caminho de Myers podemos ter uma ideia do que irá acontecer, mas essa camada mais pessoal da narrativa tromba com a outra e o resultado reflete bem o clima paranóico que cerca uma eleição. Mas quando a fidelidade de Myers é questionada e ele precisa salvar mais do que a sua reputação (leia-se os ideais que parece ter abandonado pelo caminho) o filme tem pouco tempo para resolver o cenário que armou cuidadosamente. Embora o roteiro tenha um punhado de clichês, o filme consegue ser interessante por sempre cruzar o pessoal e o coletivo utilizando os interesses de um candidato e de seus eleitores - prova disso são os discursos e entrevistas que sempre abordam temas polêmicos como aborto, homossexualismo, racismo, guerras. Da mesma forma, o filme se beneficia de construir no espectador sempre uma desconfiança sobre a forma como os fatos são mostrados (os caminhos que se seguem ao fato de Molly tornar-se um problema são as maiores provas disso). O roteiro atira para todos os lados, democratas, republicanos, idealistas bem intencionados, a imprensa (bem representada por um Marisa Tomei mais escorregadia que de costume) e ninguém parece ficar limpo até o final da sessão, todos tem seus pequenos (ou grandes) pecados pessoais  que podem se tornar uma vantagem para o adversário. O que emerge de tudo isso é o fato do ser humano ser extremamente político, sempre equilibrando seus interesses para realizar qualquer ação - o problema é quando no meio do caminho podemos tomar decisões que não podem ser desfeitas e, neste ponto, nem o final aberto que o filme  reserva para  seu herói (?) idealista pode resolver. Mesmo com o elenco afiado, Gosling é o que mais motiva o espectador a acompanhar o processo de desmonte moral (ou crescimento?) que seu personagem sofre (mesmo que pareça não se dar conta disso) e, ao fim, embora seus olhar possa reservar o auge de uma vingança, o desfecho pode decepcionar boa parte da plateia.

Tudo pelo Poder (Ides of March/EUA-2011) de George Clooney com Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Phillip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Marisa Tomei e Jeffrey Wright. 

domingo, 1 de abril de 2012

DVD: Meia-Noite em Paris


Adriana e Gil: O passado é sempre melhor?

Aclamado em todas as premiações, Meia Noite em Paris é o filme de Woody Allen com maior arrecadação de bilheteria. Desde a sua exibição em Cannes o filme colheu elogios e pavimentou o caminho da França no Oscar deste ano. Indicado ao Oscar de Melhor Filme, o longa fez com que Allen levasse para a casa o quarto Oscar (roteiro original) de sua carreira (o filme ainda concorreu aos prêmios de diretor e direção de arte) e foi merecido. Imagina como Woody Allen faz filmes desde a década de 1960 e ainda, vez por outra, consegue captar as tendências da temporada. Num ano onde a nostalgia ditou o gosto da Academia, Meia Noite em Paris é uma alegoria sobre o tema. Gil (Owen Wilson, indicado ao Globo de Ouro) é um escritor em crise que passa alguns dias em Paris com a noiva chatinha Inez (Rachel McAdams). Ele está lá para sentir o clima da cidade, suas paisagens históricas e imaginar todos os artistas que já passaram por lá - especialmente na década de 1920 onde ditava tendências mundiais na música e na literatura. As diferenças entre Gil e Inez só crescem quando eles encontram o pedante Paul (Michael Sheen), que se gaba de conhecer as histórias de tudo que aconteceu na França. Enquanto Inez o faz sentir-cada vez mais deslocado ele encontra refúgio na própria cidade, especialmente à meia-noite, é nesse momento que consegue viajar no tempo e encontrar figuras célebres. Depois do estranhamento inicial ele recebe conselhos de Ernest Hemingway (um impressionante Corey Stoll), tem seu livro avaliado por Gertrude Stein (Kathy Bates), se torna amigo do casal F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston) e Zelda Fitzgerald (a ótima Alison Pill), além de discutir sobre rinocerontes com Salvador Dalí (Adrien Brody numa curta e hilária participação). Esse saudosismo de Gil parece ainda maior quando conhece Adriana, musa de Picasso e sente-se fortemente atraído por ela. Assim como ele, Adriana (Marion Cotillard) idolatra um outro tempo, a Belle Époque do século XXI - período que considera a idade de ouro da capital francesa. Apesar de tantas brincadeiras com o passado, o filme de Allen é essencialmente sobre o presente - além da necessidade de todo artista estar em sintonia com a sua época para que possa refletir sobre ela em sua própria obra. Allen constrói um filme belamente iluminado, com caprichada reconstituição de época e uma leveza incomum se comparado aos seus filmes mais recentes. É evidente que o filme é o reencontro do próprio diretor com seus momentos mais surreais como A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e Zelig (1983), mas este reencontro aparece numa ideia nova e que cai fácil no gosto dos mais entendidos em artes.  No entanto, apesar de toda a coesão do texto que exibe um personagem que encontra no passado as respostas para seu presente, o filme parece ancorado mais em uma (ótima) ideia do que numa história. Fico com a sensação de que Gil poderia ser mais aproveitado dentro da trama, sendo tão fã dos personagens ilustres quanto sujeito concreto da narrativa, mas isso pode ser só inveja já que não bastasse o cara estar na França, ele ainda tem como guia turístico a primeira dama francesa Carla Bruni! Apenas a cereja do de um filme, que como fantasia,  funciona muito bem. 

Meia Noite em Paris (Midnight in Paris/EUA-Espanha/2011) de Woody Allen com Owen Wilson, Marion Cotillard, Corey Stoll, Michael Sheen, Kathy Bates, Carla Bruni, Tom Hiddleston e Alison Pill. 

sábado, 31 de dezembro de 2011

OS MELHORES DE 2011

Acho que nada melhor (e mais óbvio) para terminar um ano de um cinéfilo do que eleger os seus favoritos do ano. Em 2011 resolvi fazer as coisas de um jeito diferente, por motivo de empate em várias categorias escolhi os seis melhores do ano em minha modéstia opinião. Além disso parei de ficar separando o melhor roteiro original e roteiro adaptado, afinal eu não tenho paciência de ficar entrando em polêmicas do que é isso ou aquilo. Por exemplo, tem gente que diz que o roteiro de Cisne Negro é uma adaptação do próprio espetáculo enquanto outros dizem que é original. Há quem diga que Reino Animal é adaptado de um texto jornalístico enquanto outros dizem que existe mais conteúdo original e blablabla... enfim, isso é o que vou levar cinematográficamente de 2011!

Filme
Cisne Negro
Muitos o consideram a obra-prima de Darren Aronofsky, mas quem conhece o cineasta sabe que trata-se da retomada dos pesadelos em sua cinematografia. A bailarina Nina entrou para a história do cinema nesse drama psicológico de arrepiar as penas de qualquer um. Outros favoritos: (esq.) Árvore da Vida; Meia Noite em Paris; (dir.) Namorados para Sempre; Reencontrando a Felicidade; Rango


Direção
Darren Aronofsky (Cisne Negro)
Considero um bom diretor aquele que consegue deixar a sua marca em nossa memória. Levando em consideração o jeito muito particular de contar uma história, nada mais justo que Aronofsky leve o prêmio pelo filme de balé mais arrepiante da história! Outros favoritos (sentido horário): John Cameron Mitchell (Reencontrando a Felicidade); Terrence Mallick (Árvore da Vida); Woody Allen (Meia-Noite em Paris); Mike Mills (Toda Forma de Amor); Derek Cianfrance (Namorados para Sempre)

Ator 
James Franco (127 Horas)
Um bom ator é capaz de nos capturar para a tela e nos fazer seus reféns por algum tempo. James Franco fez isso e muito mais na performance de sua vida no filme de Danny Boyle. Se o filme funciona é graças à sua força em encarnar o rapaz que fica preso num canyon e precisa fazer uma dolorosa escolha se quiser sobreviver. Sua angústia transborda da tela ao ponto de nos contaminar com sua dor. Outros Favoritos (sentido horário): Colin Firth (O Discurso do Rei); Javier Bardem (Biutiful); Owen Wilson (Meia-Noite em Paris), Paul Giamatti (Minha Versão do Amor); Michael Fassbender (X-Men: Primeira Classe)

Atriz 
Natalie Portman (Cisne Negro)
Sabiamos que Portman era uma grande atriz desde que a vimos aos 12 anos num filme de Luc Besson, mas faltava-lhe um papel em que pudesse mostrar tudo (e mais um pouco) do que é capaz. Aronofsky arranca da boa moça Portman seu lado mais obscuro e mostra que a atriz possui mais nuances do que a maioria de seus papéis lhe pede. Outras favoritas (sentido horário): Kirsten Dunst (Melancolia); Michelle Williams (Namorados para Sempre); Nicole Kidman (Reencontrando a Felicidade); Jennifer Lawrence (Inverno da Alma); Carey Mulligan (Não me Abandone Jamais)

Ator Coadjuvante
Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Parece que o passar do tempo só fez bem ao ex-galã Christopher Plummer. A cada ano, suas atuações se tornaram cada vez mais vigorosas, mesmo quando tem que encarnar um homossexual. Construindo o personagem sem frescuras, Plummer empresta seu corpo e a alma para um pai que assume a homossexualidade enquanto luta contra um câncer em estágio terminal. Sem melodramas, Plummer tem uma atuação tão honesta quanto inesquecível. Outros favoritos (sentido horário): Brad Pitt (Árvore da Vida); Geofrey Rush (O Discurso do Rei); Tom Hiddleston (Thor); Christian Bale (O Vencedor); Ben Mendelsohn (Reino Animal)

Atriz Coadjuvante
Jessica Chastain (Árvore da Vida)
Não tenho dúvidas de que Jéssica foi a musa do ano. Com uma penca de bons filmes lançados em 2011, Jessica já escreveu seu nome entre as queridas de Hollywood. O pontapé inicial para sua consagração foi o papel da mãe amorosa do viajante filme de Terrence Mallick. Se o que dá sentido ao filme são os sentimentos, Jéssica é a uma das grandes responsáveis pela aclamação do filme. Outras Favoritas (sentido horário): Charlotte Gainsbourg (Melancolia); Chloe Moretz (Deixe me entrar); Jackie Weaver (Reino Animal); Helena Bonhan Carter (O Discurso do Rei); Delphine Chanéac (Splice - A Nova Espécie)

Melhor Roteiro
Cisne Negro
Foi a categoria em que tive mais dúvidas para votar e entre filmes com narrativas muito próprias escolhi o de meu longa favorito do ano. O texto de Mark Heyman, Andres Heinz e John McLaughlin mistura realidade e fantasia borrando clichês (mãe dominadora, diretor tirano, amiga fingida...) e mesclando a trajetória da protagonista com a de seu papel em O Lago dos Cisnes. Original? Adaptado? Genial? Seja como for, Cisne Negro nos faz mergulhar no trabalho de uma artista e beber um pouco dessa mistura de sangue, suor e lágrimas. Outros favoritos (sentido horário): Reino Animal; Meia-Noite em Paris; Toda Forma de Amor, Reencontrando a Felicidade; Melancolia. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

DVD: Melancolia

Ir ver um filme de Lars Von Trier é garantia de se deparar com algum estranhamento durante a sessão. Seja um musical deprimente (Dançando no Escuro/2000), filmes sem cenário (Dogville/2003 e Manderlay/2005) ou terror erótico (Anticristo/2009), mas o estranhamento que senti ao ver Melancolia foi totalmente diferente. Não que as sensações ao ver seus filmes anteriores fossem iguais, mas todos tendiam a uma mesma direção, Melancolia vai na direção oposta de seus irmãos. Talvez por estar ciente de que sua nova criação era tão límpida que Trier criou aquela polêmica toda dizendo ser nazista e que acabou no seu banimento no Festival de Cannes. A brincadeira (de mau gosto) do cineasta apareceu nas entrevistas por conta de sua inspiração no romantismo alemão, especialmente em telas que aparecem quase que reproduzidas em seu brilhante epílogo (ao som da ópera Tristão e Isolda)  que nos conta o que acontecerá durante as próximas duas horas de sessão. Sabendo o que acontecerá de antemão, porque continuar assistindo ao filme? Porque Lars Von Trier é um dos grandes contadores de história do cinema atual, o mais legal é que você nem precisa gostar dele, basta ficar sentado diante de seus filmes e deixar-se hipnotizar por seus personagens cheios de contradições defendido por atuações irrepreensíveis. Digira seus filmes por alguns dias e irá entender o que estou dizendo. Kirsten Dunst que o diga, mesmo com toda a polêmica em Cannes, a apreciação de sua atuação como a maníaco depressiva Justine  saiu ilesa e acabou levando para casa o prêmio de melhor atriz do Festival. Mas Dunst não está sozinha ela conta com Charlotte Gainsbourg (premiada em Cannes em 2009 por sua corajosa atuação em Anticristo e a única atriz que topou atuar novamente sob a batuta do dinamarquês). Elas ainda contam com seus pares, que dão conta de encarnar personagens totalmente opostos a elas, Kiefer Sutherland que deixa Jack Bauer de lado para ser um ricaço cego pela razão científica e o estreante Alexander Skarsgard (filho do ator favorito de Trier, Stellan que está no filme como o chefe boçal de Justine) que interpreta o romântico noivo de Justine. É curioso como todo o filme é organizado em torno de oposições, portanto, nada mais vontrieriano do que dividir o filme em duas partes distintas. A primeira é dedicada ao casamento de Justine, uma festa organizada pela irmã e o cunhado que é, na verdade, um acordo para que ela seja feliz. Justine sorri, mas o único  momento que lhe dá alegria é quando a limusine não consegue fazer as curvas da estrada até a festa - é como se Justine soubesse desde o início que sua festa seria um grande martírio. Seja pela presença do chefe insistente por um slogan publicitário, pela mãe dominadora (a ótima Charlote Rampling, gélida como sempre) que não acredita em toda aquela convenção ou o pai (John Hurt, o narrador de Dogville) que não leva nada a sério. Toda essa combinação pode justificar a tristeza de Justine no dia que poderia ser feliz, mas a ferida de Justine é mais profunda. Talvez por isso ela seja a primeira a ver que existe algo de diferente no céu na noite de seu casamento e que mais tarde descobriremos ser o tal planeta que dá nome ao filme. Trier pode merecer elogios por fazer a festa de casamento mais incômoda da história (e seus humor ácido ajuda muito nisso), acho que por conta desse incômodo que apreciei mais a segunda parte da história dedicada à Claire. Apesar de ser coadjuvante Charlote Gainsbourg tem ótimos momentos como a irmã tão zelosa quanto controladora, que quer o melhor para sua família desde que seja em seus termos. Por isso mesmo enquanto cuida de Justine (que retorna ao lar depois de uma instituição para tratar sua depressão profunda) nega a si mesma que o plante Melancolia irá se chocar com a Terra. O interessante é que Justine não está nem aí para essa colisão, ao contrário, é capaz de contemplar a ameaça banhando-se em sua luz azulada no meio da noite, assim, só para relaxar! A utilização de Justine  e Claire como elementos opostos da narrativa faz lembrar, em devidas proporções, as irmãs de Razão e Sensibilidade (1995) em suas diferentes formas de encarar o mundo. Houve uns debochados que disseram que era o blockbuster de Lars Von Trier por tratar do fim do mundo, mas quem conhece o cineasta sabia que o fim do mundo estaria alinhado com os contornos internos de seus personagem (tal e qual o horror serviu para a tortura física e psicológica do casal de Anticristo), ao mesmo tempo os fãs mais provocadores do cineasta disseram Melancolia é uma alegoria sobre o fracasso do casamento tendo-o visto como o início do fim da vida dos personagens. Eu prefiro ver tudo de uma forma mais ampla, Melancolia é um filme sobre um apocalipse que pode ser a redenção num mundo que tenta se equilibrar entre sentimentos opostos e, por isso mesmo, complementares. É da inabilidade de lidar com esses paradoxos que brota a tristeza tão bem encarnada por Kirsten Dunst, que consegue ser a alma feminina do filme mais singelo de Trier, o resto é puro marketing.

Alexander e Kirsten: a última chance de ser feliz ou o início do fim?

Melancolia (Melancholia - Dinamarca/Suécia/França/Alemanha-2011) de Lars Von Trier com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Sakarsgard, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Cameron Spurr, Udo Kier e Brady Corbet. ☻☻☻☻

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

10+ MELHORES FILMES 2011

Para listar os melhores filmes lançados no Brasil neste ano resolvi utilizar a ordem alfabética. O ano foi preocupante em lançamento cinematográficos, mas entre os lançamentos de 2011 e representantes da safra de 2010 que chegaram atrasados por aqui, a lista ficou assim:

A Árvore da Vida O filme de Terrence Mallick foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes, mas isso não garantia que o filme seria digerido pelo grande público. A Árvore da Vida é uma viagem  sensorial sobre a vida e a morte, a gênese e o apocalipse com base nas memórias de uma família  da década de 1950. As atuações marcantes de Brad Pitt e Jessica Chastain servem de guia nesta jornada de som, imagens, reflexões e alguma fúria de forma pouco vista no cinema recente. O longa de Mallick beira o experimental e torna-se uma das obras mais impressionantes do início desta década.

Cisne Negro Fazia tempo que Darren Aronofsky merecia um arrasa quarteirão no currículo. Obviamente que os mais antenados sabiam da existência do diretor desde Pi (1998), mas foi com este misto de drama e terror esquizofrênico que o diretor realizou o grande sucesso do início deste ano. Na jornada preparatória da boa moça Nina (Natalie Portman, excepcional) para ser a protagonista de O Lago dos Cisnes, ela terá que lidar com seus medos equilibrando seu lado mais doce com o mais agressivo. As consequências podem ser tão libertadoras como trágicas. Indicado a cinco Oscars (ganhou o de atriz) o filme elevou o cinema pesadelesco de Aronofsky ao status de blockbuster. 

Meia-Noite em Paris 2011 ficará conhecido como o ano em que Woody Allen alcançou o seu maior sucesso de bilheteria. Meia Noite em Paris abriu o festival de Cannes deste ano e já era declarado um sucesso. Todo mundo torcia o nariz para a escalação de Owen Wilson para o alter-ego de Allen e depois se rasgaram em elogios para a interpretação do escritor em crise que à meia-noite da capital francesa consegue revisitar o passado da cidade e suas figuras ilustres. O elenco recheado de bons atores (Rachel McAdams, Marion Cotillard, Adrien Brody, Tom Hidleston, Alisson Pill...) conta ainda com a colaboração da primeira dama Carla Bruni em participação especial. Entre a genialidade e a nostalgia o filme é um dos mais cotados às premiações. 

Melancolia Ainda em Cannes Lars Von Trier conseguiu ser declarado persona non grata no festival após desastrosas declarações de que era nazista. Francamente, ninguém aprendeu que Trier é um péssimo piadista? Seja como for, seu filme saiu premiado na categoria de melhor atriz com Kirsten Dunst no papel da noiva que vê seu casamento ameaçado pela colisão de um planeta (que dá nome ao filme) com a Terra. Quem imaginava um filme desastre convencional se surpreendeu com as divagações de Trier sobre a depressão. Entre a aceitação do fim e a resistência, Trier demonstra em seu epílogo que o que importa é seu talento para contar histórias que já conhecemos. 

Namorados Para Sempre Derek Cianfrance exibiu seu Blue Valentine em Cannes2010, mas os cupidos da vida quiseram que o filme chegasse por aqui somente no dia dos namorados deste ano. Muita gente viu o trailer e achou que o filme era uma fofura, bem... pelo menos só cinquenta por cento era. Com a ajuda de Ryan Gosling e Michelle Williams (indicada ao Oscar) o diretor conta a dissolução de um casal ressignificando acontecimentos do passado. Tudo que era doce, agora aparece enjoativo ou sem sabor. Na edição engenhosa e nas atuações vigorosas de seu elenco, Cianfrance conta uma das histórias mais realistas sobre o início e o fim de um relacionamento. O filme ainda conseguiu ser o favorito de minha mãe entre os lançamentos deste ano!

Não me Abandone Jamais Mark Romanek demorou quase uma década para retornar na direção de um longa metragem. Famoso diretor de video clipes ele teve que lidar com a frieza na recepção de seu Não me Abandone Jamais, baseado no livro de Kasuo Ishiguro. Mistura de romance e ficção científica, muitos criticaram a forma como os personagens aceitavam o seu destino. Desde os primeiros anos na escola (ou você acha que o início na escola é por acaso?) percebemos como a vida do trio formado por Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley não lhes pertence. Mulligan tem uma atuação excepcional e demonstra como a tristeza pode doer de ambos os lados da tela.  

Rango Enquanto Shrek chegava à sua quarta edição sem muito fôlego, Kung Fu Panda 2, Carros 2 e Happy Feet 2 disputavam para ver quem tinha a sequência menos desanimadora. Não fosse pelo camaleão psicodélico de Gore Verbinski as inovações no campo da animação teriam passado em branco nos cinemas de 2011. Rango é um camaleão que se perde no deserto e irá ajudar um vilarejo de animais (não propriamente bonitinhos) a ter sua água de volta. Entre inúmeras citações aos filmes de faroeste (e vertiginosas cenas de ação) o filme é de um deslumbramento visual irresistível. Ainda que possa parecer esquisito demais para os pequeninos, Rango é um dos filmes mais divertidos do ano. 

Reencontrando a Felicidade Ainda não sei como Nicole Kidman conseguiu ligar o diretor de Hedwig (2000) e Shortbus (2006) a esta adaptação de um renomada peça americana. Rabbit Hole deu a chance de John Cameron Mithcell provar que dá conta de filmes sem temáticas sexuais latentes - e de quebra provou que Kidman ainda é uma das melhores atrizes de Hollywood. Sua atuação como a mãe que tenta lidar com a morte do filho lhe valeu indicações a vários prêmios para espantar a má fase de sua carreira. O mais interessante do filme é como o elenco, o roteiro e a direção dão conta das transformações internas de seus personagens enquanto juntam os cacos para prosseguir. 

Toda Forma de Amor Nunca pensei que um filme de Mike Mills ficariam entre meus favoritos, mas seus longas sempre me deram  a impressão que não queriam ser inesquecíveis. Toda Forma de Amor é uma guinada em sua carreira, ainda que não seja perfeito, o diretor dá conta de tantos elementos que é notável a sua habilidade em lidar com os dramas de seus personagens. Christopher Plummer merece fazer bonito nas premiações como o pai que assume sua homossexualidade para o filho (Ewan McGregor, no seu melhor papel em muito tempo) e tem que lidar com o tratamento contra o câncer. Essa proximidade da morte, faz com que o filho pense em sua própria vida amorosa com uma atriz (vivida por Mélanie Laurent) e pense sobre a vida ao ler os pensamentos de um... cachorro. Entre o tocante e o inusitado, Mills fez o seu melhor filme.

Tudo Pelo Poder Por pouco o novo filme de George Clooney não fica para a lista do ano que vem! O filme estreou há poucas semanas no Brasil e contou com o apoio de suas quatro indicações ao Globo de Ouro (filme, direção, ator e roteiro) na divulgação. O filme explora como a política pode ser intoxicante a partir do ponto de vista de um porta-voz (Ryan Gosling) de um governador democrata (Clooney) que acredita estar do lado ideologicamente correto até... conhecer uma estagiária (Evan Rachel Wood) que é capaz de acabar com a carreira política do governador. Ainda que mantendo um tom cético, o filme afirma a todo instante que a política é um campo inerente á constituição do ser humano (o que não é pouca coisa). 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Combo : Revelações 2011

Durante todo o ano nossos olhos começam a dar atenção a novos rostos e talentos que são promessas para os anos seguintes. Em meio ao difícil ano que o cinema atravessou neste ano com produções mornas e que se concentraram mais em sequências e refilmagens, novos seres surgiram injetando sangue novo em Hollywood: 

5 Martha Marcy May Marlene (2011) Elizabeth Olsen era só mais uma irmã Olsen (você deve lembrar só daquelas gêmeas cabeçudas e anoréxicas) até aparecer no Festival de Cannes com este longa metragem, dirigido por Sean Durkin, sobre a história de uma adolescente que faz parte de um estranho culto até que as coisas começam a se tornar mais abusivas. As irmãs mais velhas devem estar subindo pelas tamancas de grife, já que Elizabeth conquistou unanimidade da crítica - que a aponta como uma das favoritas ao Oscar de atriz. Presente em várias listas de melhores do ano e indicada a prêmios, a atriz promete ficar em evidência nos próximos anos. 

4 Os Descendentes (2011) Apontado como um dos grande favoritos ao título de melhor filme do ano, The Descendants traz mais do que uma comovente atuação de George Clooney como o pai disposto a estreitar os laços afetivos com os filhos - enquanto a esposa se recupera do acidente. O filme traz ainda a aclamada atuação de uma promessa, Shailene Woodley. Woodley já participou de produções para a TV e de dois outros longa metragens, mas agora aos vinte anos, ela vive a primogênita da família King e aproveita a chance de humanizar um personagem sob a batuta de um diretor acostumado a inspirar boas atuações. Indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante e presente em todas as listas de revelação do ano a jovem de 20 anos é uma das grandes promessas para os próximos anos. 

3 Histórias Cruzadas (2011) Teve gente que ficou surpresa com o sucesso de The Help nos cinemas, mas além da desenvoltura com que o diretor Tate Taylor conta uma história sobre preconceito, ele conta com um elenco excepcional formado por Viola Davis, Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Sissy Spacek e Octavia Spencer. Spencer é apontada como uma das maiores responsáves pelo sucesso do filme. Na trama que gira em torno de um livro sobre empregadas negras em meio à luta pelos direitos civis no Texas, Spencer serve muitas vezes de alívio cômico como Minny Jackson, a empregada que fala o que pensa e encontra vingança em seus dotes culinários. Indicada a vários prêmios de coadjuvante (inclusive ao Globo de Ouro) pelo papel, Octavia deve promover uma disputa acirrada no Oscar. 

2 Thor (2011) Único homem da lista, o britânico Tom Hiddleston está com a medalha de prata por um motivo muito simples: enquanto suas companheiras desta edição de Combo estão em papéis de fortes possibilidades dramáticas e que as colocaram na mira das premiações, Hidleston encarou um papel perigoso: Loki, o irmão traiçoeiro do herói Thor na produção de Kenneth Branagh. Encarnar o deus da mentira poderia ser um desastre para sua carreira. Aquele capacete de chifres enormes e os momentos shakesperianos ao lado de Anthony Hopkins poderiam ter ido por água abaixo se o o ator não encarnasse seu vilão com seriedade absurda! Mas 2011 não ficará marcado somente marcado por esta adaptação da Marvel, Hidleston ainda apareceu como F. Scott Fitzgerald em Meia Noite em Paris de Woody Allen e será um dos personagens de Cavalo de Guerra de Steven Spielberg.

1 Árvore da Vida (2011) Vocês vão enjoar de tanto que irei escrever sobre Jessica Chastain não apenas por ter me apaixonado por ela como pelo fato dela ter feito sete filmes somente neste ano - e a maioria aclamados pela crítica. Há quem brinque que ela mereça até um prêmio pelo conjunto da obra somente pelos filmes que realizou este ano. Mas se no independente Jolene (2009) ela já demonstrava talento, foi em Árvore da Vida  que lhe recebeu alcance mundial como a mãe que é toda amor e compreensão com seus filhos em conflito com a educação rígida do pai (vivido por Brad Pitt). O mais incrível é que Jéssica consegue construir a personagem de forma gradativa em meio a fragmentada edição do longa. Indicada a vários prêmios, incluindo o Globo de Ouro de coadjuvante por Histórias Cruzadas, Jessica é presença certa no Oscar deste ano. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

DVD: Toda Forma de Amor

Plummer, Arthur e Oliver: ricos personagens.

Não faz muito tempo que Christopher Plummer foi indicado a vários prêmios por sua atuação em "A Última Estação" e ao que tudo indica o feito pode se repetir neste ano (e com fortes chances de ganhar alguns) por conta de sua comovente atuação neste Toda Forma de Amor, pelo qual está concorrendo ao Globo de Ouro de ator coadjuvante. Embora Mike Mills venda seu filme como comédia, trata-se de um drama bem humorado que merece ser visto nem que seja em DVD. Acho que o filme ainda tem chances de aparecer no Oscar de roteiro original, não que seja perfeito, mas a forma que Mills conta a sua história faz toda a diferença. O roteiro engenhoso mistura três tempos da vida do designer gráfico Oliver Fields (Ewan McGregor em um ótimo momento), sua infância principalmente ao lado da mãe (a desconhecida e excelente Mary Page Keller, veterana da TV), o martírio que atravessou crescido com o pai vítima de câncer (Plummer) e o presente onde estabelece um romance promissor com Anna (Mélanie Laurent). Mills estabelece mais do que uma linha temporal fragmentada, mas linhas narrativas onde o tempo e o espaço são perceptíveis a partir de cada elemento em cena - o que não deixa a trama confusa, ao contrário, impregna cada cena de significados a medida que a narrativa segue rumo ao fim. Claro que não basta pegar a vida de um personagem e embaralhar os momentos aleatoriamente, Mills sabe disso e reforça o crescimento emocional do personagem com alguns toques adicionais. Primeiro é o fato do pai vítima de câncer ter assumido a homossexualidade após a morte da esposa que lhe acompanhou por 44 anos, este personagem vivido por Christopher Plummer, em ótima forma e sem frescuras, faz toda a diferença (a frescura parece ter ficado a cargo do galã Goran Visnjic que não compromete o todo). Plummer faz do personagem um sujeito de carne e osso que não desistiu de encontrar a cara metade, mesmo após ter vivido vários anos num casamento convencional. Isto é o que mais intriga o seu filho, que após vários relacionamentos sempre consegue escapar deles a medida que se tornam mais sérios. Este também parece ser o problema de... e quando os dois decidem viver juntos as coisas acabam não saindo como o esperado. Mills tem o bom senso de não forçar as situações, deixando que tudo aconteça naturalmente entre a melancólica narrativa em off de seu protagonista alter-ego (pois é, o filme tem traços autobiográficos) e não parece ridículo nem quando ilustra o pensamento do simpático cãozinho Arthur com o uso de legendas. Mesmo com alguns toques que poderiam fazer parecer uma comédia maluca, o filme se beneficia de possuir um grupo de personagens interessantes disfarçados de pessoas comuns. Mais engenhoso do que a abordagem humanista sobre os preconceitos que um progenitor homossexual poderia gerar, Mills parece estar mais interessado na forma como a passagem do tempo e de relacionamentos influencia na construção do personagem (daí a utilização de três tempos distintos, da mania de Oliver utilizar referências cronológicas - seja em pixações em locais públicos ou utilizando imagens para contextualizar épocas diferentes). Este interesse  isso é muito bem ilustrado no desenho da pedra chamada passado esmagando um rapaz chamado presente. Buscando sempre o equilíbrio entre o drama familiar e a comédia de costumes, o filme de Mills mostra o quanto ele amadureceu enquanto cineasta desde o seu primeiro filme - ou pelo menos, que sabe que atrás de um sorriso pode haver um bocado de tristeza. Se esta não é sua obra-prima (o ritmo ainda tem aquela cadência perigosa e alguns personagens poderiam ser mais desenvolvidos) ela está bem próxima de chegar - afinal, ser capaz de arrancar uma atuação inesquecível do veterano Plummer merece todo o reconhecimento.

Toda Forma de Amor (Beginners/EUA-2011) de Mike Mills com Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic, Mary Page Keller e Keegan Boos. ☻☻☻☻

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

MOMENTO ROB GORDON: Melhores Pôsteres 2011

Com o fim do ano chegam as inevitáveis listas! Para começar eu listo os melhores no ramo de estabalecer o nosso primeiro contato com um filme: o poster! Não basta ser poster tem que conseguir instigar o espectador, motivá-lo a conhecer as idéias que estão por trás dele, ver sua história projetada numa telona, vender a história e – se não conseguir nada disso – pelo menos, ficar na memória por mais tempo que o filme! A seguir os meus posteres favoritos de 2011!
  
5 O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy)
Faz tempo que Gary Oldman anda merecendo um poster para chamar de seu. O filme deve lhe render indicações aos prêmios da temporada e o poster elaborado em instigante montagem sobre números, luzes e sombras deve ajudar na projeção do filme neste concorrido fim de ano.  

4 Tudo Pelo Poder (The Ides of March)
Numa trama sobre como a política pode intoxicar até o mais bem intencionado dos envolvidos, o cartaz que mistura as estampas de Ryan Gosling e George Clooney chega a ser arrepiante. Nunca havia percebido a semelhança existente entre os atores – assim como entre seus personagens.

3 Super 
Criando impacto e curiosidade sobre o filme, o poster de Super - uma comédia sobre super-heróis com Ellen Page e Rain Wilson - deixa claro em seu cartão de apresentação que deve ser descolado. Se for cinqüenta por cento tão originalmente divertido quanto o cartaz ainda estaremos no lucro!

2 A Árvore da Vida (The Tree of Life)
Ame ou odeie o filme, o cartaz de A Árvore da Vida já deixava claro o tom poético do novo filme de Terence Mallick. Simples, comovente, metafórico e genial! 


1 Shame
Premiado em Veneza com o prêmio de melhor ator para Michael Fassbender, o filme ainda conta com o auxílio de um poster minimalista. Existe uma versão mais recente com Fassbender descamisado sobre a cama, mas o que é melhor para contar os dilemas de um ninfomaníaco do que os lençóis amarrotados de uma cama vazia?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

FILMED+: A Árvore da Vida

Em determinada cena de A Árvore da Vida, o pai durão define para o filho o que é subjetivo: “É algo que está na sua cabeça. Algo que não existe!”. Certa vez, li um texto de Ana Maria Bahiana que ressaltava o quanto a experiência de ver um filme é extremamente subjetiva. O que comove, assusta, diverte ou chateia depende somente da forma como você, com todas as suas vivências, interpreta o que o autor propõe durante a projeção. Existem aqueles sentimentos que vivenciamos diante de uma obra que não nos aflige, por isso, muitas vezes, acabamos nos acomodando e comendo a mesma pipoca de um determinado gênero várias vezes. Tive vários amigos que diziam não achar graça em cinema, que não viam nada demais em filmes e que desde o começo já sabiam como o longa acabaria. Não era difícil notar que o problema não estava nos meus amigos, mas nos filmes que estavam vendo. De certa forma, eles estavam vendo os filmes errados e repetidas vezes ao longo da enxurrada de clones que vemos estrear todos os anos. Foi nesse momento que comecei a lhes emprestar o meu acervo pessoal de filmes: tome Spike Jonze, Paul Thomas Anderson, Almodóvar, Darren Aronofsky, Alexander Payne, Wes Anderson – e mais tarde - David Lynch e Lars Von Trier na veia. Apesar do estranhamento inicial, eles começaram a me pedir mais filmes emprestados e passaram a rever seus conceitos enquanto espectadores. Quando acompanhei a trajetória de A Árvore da Vida em Cannes, em meio a aplausos e vaias, eu sabia que o diretor Terence Mallick estava radicalizando seu estilo ao extremo após suspeitarem de sua genialidade ao dirigir, de forma mais tradicional, o pouco elogiado O Novo Mundo (2006). Mallick é diretor de apenas quatro filmes em quarenta anos de carreira e pelo tempo que A Árvore da Vida ficou na ilha de edição (sendo lapidado por cinco pessoas, incluindo o brasileiro Daniel Rezende) dá para se entender o motivo. Quando o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes era como se nascesse para o mundo diante do amor e ódio de quem o assistiu. A Árvore da Vida não tem começo, meio ou fim, mas isso não impede que fale da origem da vida e o fim dela a partir de uma família que tenta lidar com a morte de um filho. A cena da morte não aparece, mas é ela que move as lembranças que vemos e as reflexões (em off) dos membros deste clã enquanto Mallick nos deslumbra com as cenas mais lindas que se viu numa telona durante esse ano. Impregnados de religiosidade, os personagens nos guiam numa jornada sobre a morte e a vida, a criação do mundo, os primeiros seres vivos, e sobre os caminhos da razão e da emoção dos seres humanos. Além da habilidade ímpar de mesclar som (a narração e a trilha sonora são magistrais), o diretor contou com atuações inspiradas de Brad Pitt (que ajudou a viabilizar o projeto e sua projeção em escala mundial) como o pai  contraditório (como todo ser humano) e a esplêndida Jéssica Chastain (meu Deus, que mulher é essa?) como a mãe que é o amor em pessoa. É esta mãe que anuncia os dilemas que perpassam o filme: “Na existe o caminho da natureza e o caminho da graça, cabe a nós escolher qual devemos seguir” é quase uma apresentação do filme. Mas o protagonista da trama acaba sendo o desconhecido adolescente Hunter McCraken (quando adulto ele será vivido por um automático Sean Penn) que vive o filho mais velho que tem momentos de rebeldia diante da dicotomia entre o pai e a mãe. Ele que retoma a ideia da natureza ou a graça quando diz que o pai e mãe estão sempre brigando dentro dele – e sempre estarão. Até as belíssimas cenas finais onde as memórias dessa família se encontram numa praia celestial, Mallick nos guia numa jornada que é uma experiência cinematográfica única e nos deixa livres para amá-la ou odiá-la.  Acho que ele quer dizer que a subjetividade seja a única coisa que realmente exista, embora sejamos todos frutos de uma mesma árvore.

McCraken: reflexões sobre a vida e a morte.

A Árvore da Vida (The Tree of  Life/EUA-2011) de Terrence Mallick com Brad Pitt, Jessica Chastain, Hunter McCraken, Fiona Shaw e Sean Penn. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

DVD: Rango


Rango e seus amigos: um degrau acima de todas as animações de 2011.

Além da técnica apurada de animação, existem outros elementos que fazem Rango ser surpreendente. Um deles é o fato de ser produzido pela Nickelodeon, que desde que começou a investir em filmes deixou claro que suas obras eram voltadas para o público infantil e ponto. O outro elemento é a direção inspirada de Gore Verbinski estreando em uma animação. Por mais que Verbinski houvesse exibido seus melhores dotes em O Sol de Cada Manhã (2005), sempre que se fala o nome do diretor lembramos logo da saga saturada de Piratas do Caribe ou do chato encontro de Brad Pitt e Julia Roberts em A Mexicana (2001). Pelo que se vê em Rango tudo isso ficou no passado. Verbinski confirma aqui seu gosto por personagens estranhos (encarnados por Johny Depp, de preferência) e aventuras amalucadas. Desde a primeira cena percebemos que Rango não é um desenho qualquer, para começo de conversa seu herói é um camaleão de estimação que vive numa caixa de vidro inventando histórias com um peixe de brinquedo e um busto de Barbie sem cabeça. Mal sabe ele que sua vida irá mudar para sempre quando, por acidente, é deixado no meio de uma estrada que corta o deserto. Rango irá enfrentar uma jornada que o levará até a cidade de Poeira, onde o que há de mais valioso é água - e essa é cada vez mais rara. Rango acaba inventando histórias sobre si local e acaba declarado xerife da cidade, conduzindo os cidadãos de Poeira na busca de explicações para o sumiço da água da região. Entre vilões (uma família gigantesca de topeiras, uma cascavel com metralhadora no lugar do chocalho e uma águia), maracutaias, corujas cantantes e outros personagens que não primam exatamente pela beleza (olhos furados por flechas, gatos cinzentos e magricelos, ratos com olhos enormes, sapos grotescos e coelhos de uma orelha só - todos feitos com um detalhamento impressionante) Rango irá perceber que mais do que a busca por água está na busca de sua própria identidade. As crianças podem se divertir com as aventuras amalucadas do personagem, mas os adultos devem curtir muito mais com as inúmeras citações a sucessos do cinema (Matrix, Homem Aranha 2, Star Wars e especialmente os clássicos faroestes) e uma quantidade de piadas que deve fazer sentido só para os mais antenados - no entanto a agilidade da narrativa se equipara ao visual e nos faz relevar qualquer deslize (a piada sobre prostáta, o momento escatológico em torno da fogueira...). Destaco a  cena do ataque de morcegos citando Apocalypse Now que é inacreditavelmente bem feita, de cair o queixo mesmo -  que junto com outros predicados, faz com que Rango fique (pelo menos) um degrau acima de todas as animações do ano (e tenha fortes chances de ganhar o Oscar se a Academia engolir as esquisitices da trama, mas o que se pode esperar de uma animação com a voz de Johny Depp?). Com mais esse acerto no currículo depois de dar adeus aos piratas caribenhos (o quarto episódio já contava com a direção de Frank Marshall), Verbinski está próximo de integrar o primeiro time dos diretores americanos. Curioso é que Rango não deixa de ser uma volta às suas origens, alguém lembra das aventuras de Um Ratinho Encrenqueiro (1997)? 

Rango (EUA-2011) de Gore Verbinski com vozes de Johny Depp, Isla Fisher, Abigail Breslin, Bill Nighy, Alfred Molina e Clint Eastwood.  

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

DVD: Reencontrando a Felicidade


Kidman e Eckardt: a ausência como um tijolo no bolso.

A carreira de Nicole Kidman não andave bem. Desde que ganhou o Oscar por As Horas (2002) não emplacava um sucesso de bilheteria. Embora colecionasse bons trabalhos com diretores importantes como Lars Von Trier e Noah Baumbach, a maioria das pessoas preferia perceber os efeitos do botox em seus rosto do que sua atuação. Nicole chegou a falar em aposentadoria quando Austrália (2009) de Baz Luhrman naufragou nas bilheterias. Mas para tudo se tem um jeito. Reencontrando a Felicidade é uma espécie de tiro de misericórdia da atriz. Ela comprou os direitos da premiada peça Rabbit Hole e convidou John Cameron Mitchel para dirigir - com clara intenção de colocá-la novamente no páreo das premições (fora isso deixou de realizar as injeções de botox para evitar os sinais do tempo em sua face). O resultado é que depois de longo e tenebroso inverno, Kidman ficou novamente no páreo das principais premiações do ano (incluindo Oscar e Globo de Ouro), colhendo elogios de público e crítica. Nicole ainda foi responsável pela produção do filme (que custou 10 milhões de dólares, um valor considerável para revitalizar uma carreira) e o resultado é um filme simples, que não utiliza recursos baratos para envolver o público. Tudo no filme é direto, sem frescuras e absurdamente honesto. Nicole encarna Becca, uma mãe que sofre há oito meses com a morte de seu filho de quatro anos. Em busca de cicatrizar as feridas, Becca escolhe o caminho de apagar de sua frente qualquer vestígio que lembre o filho falecido. Seu esposo Howie (Aaron Eckardt, em mais um bom momento) opta por um caminho diferente, assiste a vídeos do filho e mantém o quarto dele intocado. O mais interessante do filme é justamente mostrar o período em que a vida deste casal tenta entrar nos eixos, quando decidem se desfazer das roupas do filho que perderam ou quando mostram o quarto do menino aos possíveis compradores da casa. Cada detalhe da casa parece emanar uma lembrança, cada frase ou olhar de quem se aproxima despertar memórias, todo este material resulta em atuações belíssimas. Outro diferencial do filme é a busca por conexões desse casal com o mundo, Howie começa a se envolver com uma parceira de grupo de auto-ajuda (Sandra Oh) enquanto Becca começa a ver nos encontros com o adolescente que vitimou seu filho (Miles Teller que parece anestesiado por boa parte do filme, mas até que funciona dentro da proposta de Mitchell) como uma espécie de terapia. Bons diálogos, ótimas atuações (incluindo Diane Wiest como a mãe de Becca), cortes precisos, trilha sonora perfeita e direção surpreendentemente contida de Mitchell (responsável pelo musical drag Hedwig/2001 e o erótico-cabeça Shortbus/2006) rendem momentos memoráveis como o momento em que Becca descobre que o filho faleceu (a cena se concentra somente em closes nas expressões de Kidman e Teller). É desta emoção arrebatadora, embora contida, que Reencontrando a Felicidade emana sua força narrativa de forma adulta e convincente.  Bem vinda de volta, Nic!

Reencontrando a Felicidade (Habbit Hole/EUA-2010) de John Cameron Mitchell, com Nicole Kidman, Aaron Eckardt, Miles Teller, Dianne Wiest e Sandra Oh.  

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

DVD: Não me abandone Jamais

Knightley, Carey e Andrew: drama romântico de ficção científica.

O novo filme de Mark Romanek chamou minha atenção assim que eu soube que estava sendo produzido, menos pela história em si (já que na época tentava preservar os segredos da trama que depois acabaram aparecendo em todo canto na mídia) e mais pelos nomes envolvidos. Para começar o filme é baseado no aclamado livro de Kazuo Ishiguro (o mesmo de Vestígios do Dia), o roteiro foi adaptado por Alex Garland (que após o sucesso na literatura tem acertado cada vez mais em seus roteiros, especialmente os dirigidos por Danny Boyle), os nomes envolvidos no elenco são excelentes: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Charlotte Rampling e Sally Hawkins, sem falar que sou um fã declarado da primeira experiência de Ronamek nas telonas após brilhante carreira no ramo dos video clipes. No suspense Retratos de Uma Obsessão (2002) o diretor já mostrava construir seus dramas lentamente, desvendando a complexidade de seus personagens em cenas bem construídas. Se o resultado não empolgou nas bilheterias (deixando um hiato de oito anos em sua carreira como cineasta), serviu para arrancar a última atuação memorável de Robin Williams (e que considero até a melhor de sua carreira). Em Não me Abandone Jamais sai o suspense como motivador dos dramas de seus personagens e entra a ficção científica. Mas a ficção científica entra de forma estranha, somente quando já estamos apegados aos personagens e nos causa estranhamento a forma como este ingrediente contamina a alma dos persoangens. No iníco o filme parece contar um desses dramas ingleses sobre os problemas de uma educação excessivamente repressora de um grupo de crianças. Trata-se da escola Hailsham, que aparentemente cuida de órfãos proibidos de ultrapassar os muros da instituição - para evitar que os pequenos saiam dali são contadas histórias de crianças mortas e mutiladas pela ameaça do mundo exterior. Mas tudo não poderia ser uma fantasia? "Mas que tipo de pessoa contaria histórias tão horríveis?", diz uma personagem antes de saber o que mudará sua vida para sempre. Condenadas à uma educação repressora, com roupas e brinquedos velhos vindos de doações anônimas - além de ter que realizar desenhos sem motivo aparente para uma galeria misteriosa - Hailsham está longe de ser uma escola de referência educacional. Em meio a esta gélida realiada que a tímida menina Kathy começa a se interessar por um dos seus colegas, o bom moço Tommy - que logo chama a atenção de Ruth, amiga de Kathy. A vida dos três sofre uma reviravolta quando a nova tutora (Hawkins) entrega o que de fato acontece entre os muros da instituição: eles educam clones, pessoas criadas em laboratório com a intenção de serem apenas doadoras de órgãos. A expectativa de vida deles gira em torno dos 26 anos, período em que falecem ao realizar a quarta doação. É inevitável a tristeza que cresce diante deste fato, ainda mais com os rumos do triângulo amoroso que se instala na trama. Tommy e Ruth (Garfield e Knightley quando crescidos) mantem um romance problemático, enquanto Kathy (a novamente ótima Carey Mulligan) mergulha na melancolia de seus destinos traçados. Não há escapatória. Embora o filme narre a relação dos três personagens diante do inevitável, o mais interessante é a reflexão que propõe sobre o inevitável encontro com a morte. Sem o estardalhaço sobre os conflitos éticos da clonagem humana, o filme (e o livro) incomodou muita gente que não gostou da aceitação de seus personagens perante o que lhes foi estabelecido, este detalhe incomoda ainda mais diante dos aplausos que destinam à diretora da escola (Rampling com sua expressão impenetrável) após um discurso que não lhes deixa alternativa. Ao mesmo tempo penso nos efeitos de uma educação escolar como a dos personagens, feita no isolamento, na falta de perspectivas, nas restrições, onde a aceitação do que está posto é vista como algo de que se deve orgulhar - sei que existem inúmeras simbologias presentes neste ponto e que estrapolam os limites da ficção científica alcançando o campo sociológico, psicológico e até pedagógico (será que é por acaso que a personagem de Ruth grita sua identificação com os excluídos socialmente?) - talvez brote desta aceitação (para alguns incompreensível) a maior tragédia de seus personagens. Repleto de boas atuações (Garfield se destaca num papel pequeno e Carey Mulligan alcança uma atuação até melhor que a sua indicada ao Oscar por Educação/2009), inúmeras camadas e cenas inesquecíveis (como a última cirurgia de Tommy, a tentativa de conseguir um adiamento, o questionamento se os clones teriam alma ou a triste cena final de Kathy contemplando a inevitabilidade de sua solidão), Romanek comprova ser um cineasta de mão cheia. Só espero que não demore tanto para fazer outro filme. 

Não me Abandone Jamais (Never Let me Go/Reino Unido-EUA/2010) de Mark Romanek com Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Charlotte Rampling e Sally Hawkins. ☻☻      

domingo, 19 de junho de 2011

Na Tela: Namorados para Sempre

Williams e Gosling: Vivendo do passado.

Deve haver milhares de filmes sobre separações, mas o filme de Derek Cianfrance não se contenta em ser apenas isso, Namorados para Sempre é um filme sobre o fim do amor. Não, ainda não é só isso, trata-se de um filme de quando se encontra o amor e a tentativa de manter-se junto a ele, quando este deixou de sê-lo. Não consigo lembrar de um filme que trabalhe com este momento específico da vida de um casal com tamanha perspicácia do que o de Cianfrance. O título em português foi feito sob medida para pegar os casais desesperados por um filme romântico às vésperas do dia dos namorados, mas quem é ligado em cinema, já sabia que era uma pegadinha (seu lançamento por aqui foi em 10 de junho, nos EUA foi em novembro do ano passado... mas quem é cinéfilo de carteirinha já ouvia falar do filme desde que causou comoção em Cannes2010 sob o título original de Blue Valentine, por inspiração de um álbum das antigas de Tom Waits. Ou seja, nada de pipoca). Para quem esperava uma sessão amena antes da pizza o efeito deve ter sido de uma bomba atômica. Para quem já sabia o que estava por vir, era conseguir sentir o filme com a isenção quase impossível de mais de um ano de críticas positivas. Eu me enquadrei neste segundo grupo. O diretor não se preocupa em fazer um filme bonito visualmente, na maioria das vezes os enquadramentos estão no ponto cego de seus atores (quando a câmera parece estar escondida pronta para captar as emoções no ponto em que estão mais vulneráveis), a fotografia não se preocupa em embelezar, a edição é sem frescuras, as cenas de sexo não são propriamente bonitas... a impressão é que o cara confia tanto na história que concebeu que isso basta para seduzir o expectador. Não é bem assim, Cianfrance se apropria bastante de elementos da linguagem documental para retratar a união e separação de um casal (não exatamente nesta ordem) e este estilo cai como uma luva para retratar um casal que reproduz na tela o sentimento de um bando de gente ao redor do mundo que percebeu que o relacionamento já era, ou como diria minha mãe "caminha em uma perna só". No início, o filme nos insere no cotidiano de um jovem casal, Cindy (Michelle Williams, indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar de Atriz) e Dean (Ryan Gosling, indicado ao Globo de Ouro) que possui uma filha (a eficiente Faith Wladyka) e estão às voltas com o desaparecimento da cadela de estimação. Este é o ponto inicial de um mal dia em que para levantar o astral, Dean irá tentar recomeçar marcando uma noite em um motel que fez parte da história de ambos. Poderia ser só isso, mas o roteiro retrocede no tempo em momentos estratégicos e mostra como se iniciou o relacionamento entre os dois: Cindy tendo problemas com o então namorado (sob o nome que em português parece uma piada: Bobby Ontario) enquanto almeja uma vaga numa faculdade de medicina & Dean trabalhando em  uma companhia de mudanças (e por conta disso acaba a conhecendo num abrigo para idosos). O filme constrói sua narrativa assim, pegando um momento específico do presente e localizando no passado referências sobre ele.  A ideia funciona com muita eficiência, aumentando a dramaticidade da situação atual do casal, ao mesmo tempo que alimenta o romantismo do passado. Estas idas e vindas irá convergir passado e presente, tornando tudo ainda mais melancólico. Cianfrance demonstra habilidade em lidar com uma estrutura narrativa perigosa, mas além da precisão cirúrgica na edição, usou outros truques como filmar com seus atores em ordem cronológica (o que é raríssimo de acontecer) e fazer com que seus atores convivessem juntos numa casa por algum tempo antes das filmagens. Claro que o efeito do filme é ampliado ainda mais pelas atuações de Gosling e Williams, esta até com mais méritos que seu parceiro. Fico realmente impressionado com a delicadeza que Williams interpreta sua personagem, de sua transição de adolescente para adulta responsável por carregar a família nas costas. Jamais eu poderia imaginar que aquela loira bochechuda chatinha do seriado Dawson's Creek iria se tornar uma das atrizes mais interessantes de Hollywood. Mesmo depois de sua indicação ao Oscar de coadjuvante por Brokeback Mountain (2005) eu imaginei que tudo seria fogo de palha. Ciafrance teve grande discernimento em esperar pela atriz (pouco antes da filmagem, falecia Heath Ledger com quem Michelle foi casada), ela está perfeita sintetizando em um olhar que nada do que fizer será capaz de salvar seu casamento. É esta certeza triste que anuncia o título em inglês e que Dean quer evitar a cada cena do casal que desmorona diante da câmera. E nem adianta reservar(metafóricamente) o quarto futurista do tal motel, os melhores momentos ficaram mesmo no passado.

Namorados Para Sempre (Blue Valentine/EUA-2010) de Derek Cianfrance, com Michelle Williams, Ryan Gosling, Faith Wladyka, John Dooman e Mike Vogel. ☻☻☻☻    

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

FILMED+: Cisne Negro

Natalie: Odile contempla sua Nina.

Darren Aronofsky parecia mais controlado nos últimos anos, chegou a dizer em entrevistas que não se vê mais como o diretor de Pi (1998) e Réquiem para um sonho (2000). Então, Cisne Negro deve ser uma recaída - já que guarda semelhanças fortes com estes longas. De Pi herdou o mergulho na loucura de uma pessoa determinada em alcançar seus objetivos, de Réquiem Para um Sonho absorve a atmosfera pesadelesca (incluindo o breakfast de ovo cozido e meia laranja). Ao contrário destes filmes, Cisne Negro se tornou um sucesso nos cinemas americanos (custou 13 milhões e já deve ter passado de 100 milhões de bilheteria, ou seja, um dos mais lucrativos filmes do ano) o que não é pouco para um filme que não ameniza as coisas para o espectador comum, sendo extremamente dark, incômodo e metafórico. Darren sempre ressalta que havia combinado com seu roteirista que fariam dois filmes irmãos, um sobre luta livre (e o resultado foi O Lutador (em sua leitura da forma mais baixa de arte) e outro sobre balé (visto como a forma mais elevada de arte). Em ambos ressalta o sangue, o suor e as lágrimas de seus personagens. Se em O Lutador o protagonista procura a leveza perdida de sua vida, em Cisne Negro a protagonista busca o oposto. Nina (Natalie Portman, favorita ao Oscar de atriz, ganhadora do Globo de Ouro, prêmios de crítica e sindicatos) é a jovem bailarina tecnicamente perfeita que está prestes a ter a chance de sua carreira ao ser escolhida para protagonizar O Lago dos Cisnes. O problema é se ela não consegue dar conta dos lados opostos de suas personagens, é tão pueril como o Odete, o cisne branco, e nada parecida com o luxuriante, sedutor e arriscado lado oposto, Odile - o Cisne Negro. O exigente diretor da companhia, Thomas (Vincent Cassel) a instiga a explorar seu lado mais sombrio através do sexo, o problema é que o nível de estresse de Nina cresce cada vez mais, sobre os indícios de que a loucura se aproxima. Nesse processo o sangue é uma constante em seus devaneios (fico pensando no vermelho simbolizando o desejo que tenta sair, mas ela sempre procura contê-lo, limpá-lo em troca de ser cada vez mais sufocada). Piora ainda mais o fato de Nina viver com sua mãe (Bárbara Hershsey, atriz que admiro muito e que anda cada vez mais sumida), bailarina frustrada e super controladora (o que sugere até suspeita de surtos anteriores de Nina). A jovem bailarina ainda tem que lidar com seu lado obscuro encarnado em uma novata, Lilly (Mila Kunis, que numa espécie de pegadinha foi premiada em Veneza no lugar de Portman) que pode tomar seu lugar no espetáculo caso Nina não supere as limitações. A jornada de Nina rumo à face de sua personalidade que não quer abraçar é o pretexto para Aronofsky misturar realidade e delírio, vida e arte  numa narrativa que funde a sua protagonista à trama de Lago dos Cisnes e o resultado é impressionante. Muitos críticos gostam de ressaltar as semelhanças do filme com clássicos de Roman Polanski (Repulsa ao Sexo/1965) e David Cronenberg (A Mosca/1986), mas o diretor diz mesmo que esse é seu filme de Lobisomen! Talvez por isso, apesar do elenco anabolizado, as maiores glórias recaiam sobre Natalie Portman  que explora todas as faces de sua personagem, da angústia dos ensaios pela busca da perfeição passando pelos momentos em que seu cisne negro se anuncia e lhe invade sem pudores (numa cena orgásmica primorosa - e não estou me referindo à cena com Kunis, mas quando... coloca as asinhas de fora...) matando a inocência que ainda existia diante de uma platéia impressionada. Essa pérola dramática com toques de horror está indicada a cinco categorias para o Oscar: filme, direção, atriz (Portman), edição e fotografia. Faltou a indicação ao roteiro – metaforicamente enriquecido pela participação de Winona Rider como a ex-primeira bailarina da companhia. A atriz que já foi uma das boas moças de Hollywood enfrentou problemas psicológicos e ainda luta para mostrar que é mais do que um cisne negro liberto. São todas essas leituras que elevam a maturidade de Darren Aronofsky a um dos melhores filmes da temporada.   

Cisne Negro (Black Swan/EUA-2010) de Darren Aronofsky com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel e Barbara Hershey. ☻☻☻☻☻