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domingo, 16 de março de 2025

PL►Y: The Here After

Ulrick: o preço do crime é a punição constante.

John (Ulrick Munther) acaba de retornar para casa do pai após cumprir pena na prisão. Após cumprir o período de punição pelo crime que cometeu, o rapaz tem esperança de recomeçar a vida do ponto em que foi interrompida, no entanto, não demora muito para que ele perceba que ninguém esqueceu o ocorrido, nem mesmo sua família e, mais do que isso: ninguém o perdoou. Desde o momento em que retorna para a escola, fica visível a rejeição da instituição e de seus antigos colegas. Observado sempre com desconfiança e ressentimento, o jovem sofre agressões, xingamentos e exclusões perante a comunidade que o cerca e o faz imaginar se realmente vale a pena persistir em seguir em frente e deixar de lado os impulsos agressivos que o fizeram ser preso. The Here After é o filme de estreia do diretor sueco Magnus Von Horn que recentemente lançou A Garota da Agulha (2024), indicado ao Oscar de filme internacional. Eu fiquei tão impressionado com seu último trabalho que desejei conhecer mais de sua cinematografia. Ao contrário de seu último trabalho, a estética de The Here After é bastante simples e tradicional, deixando que a fotografia em tons de azul, os silêncios e os poucos diálogos expressem a triste história que acompanhamos. É interessante a opção do diretor em não deixar claro ao longo da sessão qual foi o crime que o garoto cometeu, o que nos deixa ainda mais tensos diante do calvário de ofensas e rejeição que sofre ao retornar para casa. Não por acaso o diretor explora bastante a imagem inofensiva de Ulrick Munther como seu ator principal, para que aos poucos possamos vê-lo como uma bomba relógio sob pressão constante. Aqui, Horn também utiliza a ideia de um rosto desconfigurado para provocar nossa percepção acerca do que seria um monstro e o que podemos esperar dele, mas assim como em A Garota da Agulha esta monstruosidade parece mais o reflexo em que se vê o horror do mundo ao redor. The Here After pode não ser narrativamente tão impressionante como sua premiada última obra, mas demonstra o pulso firme de um diretor que gosta de provocar a plateia a elaborar julgamentos perante (tod)os os personagens que vemos na tela. Para John, sua namorada, seu pai, irmão caçula, a diretora da escola e colegas agressivos, todos estão ali para dizer ao protagonista o quão mal visto ele é, sem se dar conta de como também podem ser nocivos. O filme foi indicado ao Golden Camera (voltado a diretores estreantes) no Festival de Cannes e merece uma conferida antes que saia do catálogo da Mubi.

The Here After (Efterskalv / Suécia - Polônia - França / 2015) de Magnus von Horn com Ulrik Munther, Mats Blomgren, Ellen Jelinek, Loa Ek, Inger Nilsson, Wieslaw Komasa e Oliver Heilmann. ☻☻☻

domingo, 12 de janeiro de 2025

PL►Y: Micróbio e Gasolina

Baquet e Dargent: amigos na estrada.

Micróbio (Ange Dargent) e Gasolina (Théophile Baquet) são dois adolescentes que estudam na mesma escola e que aos poucos se tornam amigos. Enquanto Gasolina é descolado e recebeu o apelido por conta do cheiro adquirido por ajudar o pai na oficina, Micróbio é tímido e sempre fica irritado quando acham que ele é uma menina. Os dois começam a passar cada vez mais tempo juntos e o sentimento de não se encaixarem muito bem onde vivem (algo bastante comum na adolescência e a visão da vida adulta de quem está por perto), faz com que construam um "veículo casa" para visitarem o centro da França e reencontrar um antigo acampamento que frequentaram na infância. A viagem oferece ao filme ares de um road movie teen e resulta em diálogos interessantes, algumas situações inusitadas e... não espere muito mais do que isso. Michel Gondry tem um Oscar pelo roteiro original em parceria com Charlie Kauffman pelo cultuado Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (2004), mas em entrevistas sempre alega que possui dificuldade em construir histórias com princípio, meio e fim. Micróbio e Gasolina demonstra bem isso, mas o resultado não deixa de ser um retrato interessante sobre a amizade e o amadurecimento. Longe da mãe amorosa (vivida por Audrey Tautou) de Micróbio ou da frieza dos pais de Gasolina, os dois garotos precisam se virar para atravessarem as desventuras do caminho. Vale destacar que a casa sobre rodas inventada pelos dois também ressalta uma das marcas de Gondry em sua capacidade de explorar um cinema mais lúdico e de efeitos práticos, algo que ele já fazia em clipes que fizeram história como Let Forever Be do Chemical Brothers e Come into my World da Kylie Minogue. No entanto, o maior acerto do filme foi ter escalado dois atores estreantes certeiros para os papéis principais. Dargent e Baquet são bastante convincentes em cena e realmente parecem ser amigos ao longo de todo o filme. Meu único problema com a produção é que o roteiro soa disperso demais, bastante aleatório entre as situações em que insere os meninos, no entanto, nada que comprometa o frescor despretensioso que o filme carrega. 

Micróbio e Gasolina (Microbe & Gasoline / França - 2015) de Michel Grondry com Ange Dargent, Teóphile Baquet, Diane Besnier, Audrey Tautou, Vincent Lamoureux, Douglas Brousset, Agathe Peigney e Charles Raymond. ☻☻☻

domingo, 30 de julho de 2023

PL►Y: O Sonho de Greta

Bethany: quando Wes Anderson encontra David Lynch.

Infelizmente o cinema australiano não chama mais tanta atenção quanto o fazia nos anos 1990, quando produzia verdadeiros hits que rivalizava com os filmes dos Estados Unidos em nossos cinemas. No entanto, de vez em quando, um  filme da terra dos cangurus aparece e nos brinda com alguma nostalgia dos tempos de O Casamento de Muriel (1994) e Priscila a Rainha do Deserto (1994). A história de O Sonho de Greta tem nada relacionado com as duas obras citadas, mas o visual lembra aquele frescor que aqueles filmes traziam, sem medo de soarem estranhos ou cafonas para o grande público. O filme conta a história da adolescente Greta (Bethany Whitmore), que é bastante tímida e introspectiva. Ela tem dificuldades para fazer amizades no colégio e logo chama atenção de um garoto ruivo que parece gostar dela, Elliot (Harrison Feldman). Mas Greta é tão insegura que é mais fácil entender que ela não gosta dele do que possa ter qualquer outro sentimento. Ela também vive sendo cercada pelas trigêmeas populares da escola que causam mais arrepios do que simpatia, mas ela queria mesmo era ser invisível. Até dentro de casa, com  o pai bondoso (Matthew Wittet), a mãe animada (Amber McMahon) e a irmã (Imogen Archer) um pouco mais velha que já passou da fase de tentar agradar todo mundo - e acabou conseguindo um namorado bonitão (Eamon Farren). Se tudo o que a protagonista quer é ficar sossegada no canto do seu quarto, a ideia da mãe fazer uma festa de aniversário de 15 anos lhe causa verdadeiro horror. Imaginar os colegas de escola visitando seu refúgio é um verdadeiro festival de gatilhos sobre tudo o que pode dar errado. O Sonho de Greta é o simpático filme de Rosemary Myers que foi bastante lembrado nas premiações australianas no ano de seu lançamento. Baseado na peça do próprio Mathew Wittet (um dos atores favoritos de Baz Luhrman) o filme pode ser dividido em duas partes, na primeira é sobre a realidade da protagonista com todos os seus medos e temores típicos da insegurança adolescente. Nesta primeira parte, a diretora investe num tratamento visual que lembra bastante as comédias de Wes Anderson. A influência do diretor hollywoodiano aparece bastante na direção de arte que cria uma moldura de início dos anos 1980 com marcas da década anterior, assim como na composição de cenas que flerta com a simetria conferindo um tom graciosamente artificial à apresentação dos personagens. Curiosamente tudo mudo de configuração quando tem início a segunda parte em que somos apresentados ao sonho de Greta. Ali todos são transformados em outros personagens bastante simbólicos das fantasias  da personagem, o que faz tudo parecer uma brincadeira com o cinema de David Lynch. De figuras imaginárias e outras que inserem camadas sobre a sexualidade de Greta em sua passagem para a vida adulta, o filme traz um bem-vindo estranhamento ao que antes era tido como fofo, contido e ingênuo numa alusão de despedida da infância. Num elenco esforçado e correto, o destaque vai mesmo para Wittet que encarna dois personagens bastante distintos no decorrer da história e me deixou curioso de vê-lo em outras obras. O filme está atualmente em cartaz na MUBI e merece uma visita. 

O Sonho de Greta (Girl Asleep / Australia - 2015) de Rosemary Myers com Bethany Whitmore, Amber McMahon, Matthew Wittet, Harrison Feldman, Eamon Farren e Imogen Archer. ☻☻☻ 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

PL►Y: O Novato

Benoit (ao centro): a arte de fazer amigos. 

Benoit (Réphaël Ghrenassia) é novo na escola. Quem já passou por isso (e quem nunca passou?) sabe que é um período complicado. Aqueles dias de parecer estar pisando em ovos enquanto precisa conviver com pessoas que nunca viu na vida. A necessidade de ser aceito logo se junta à outra necessidade: fazer amigos. Olhando aquelas crianças na estranha fase de transição para a adolescência parece ainda mais difícil a tarefa de estabelecer novas amizades, afinal, tudo é ampliado pela insegurança e efervescência hormonal da adolescência. Esta fase de transição para a vida pré-adulta é um dos pontos que fazem O Novato de Rudi Rosenberg estar acima da média, mas o que mais achei interessante é como o filme aos poucos se torna um retrato bastante espontâneo do que é fazer amigos. Benoit até tenta fazer amizade com uns meninos que parecem populares, mas não demora para que demonstrem ser completos idiotas implicantes. Fosse um filme americano, a grande jornada de Benoit seria em busca de popularidade, namorar a garota mais bonita da escola e fazer amizade com alguns personagens estranhos estereotipados. Como O Novato é um filme francês, aos poucos ele começa a se aproximar de alguns personagens de forma bastante natural, assim, aparece aquele colega engraçadinho que senta ao lado dele no refeitório, o garoto de óculos que pretende ser representante de turma e uma menina com deficiência que ainda enfrenta comentários maldosos em toda parte. Obviamente que o pequeno Benoit também terá um interesse amoroso, mas este não é o ponto principal do filme. O mais interessante é notar como os personagens se aproximam e descobrem afinidades meio que por acaso e aprendem que não precisam de uma multidão de pessoas para terem bons momentos de conversa e diversão. É verdade quem em alguns momentos o pai de Benoit parece ter a mesma idade que os colegas do filho (e a forma como ele ensina os meninos a lidarem com comentários maldosos é quase didático em sua espontaneidade), mas o efeito só amplia a ideia de que crescer é um exercício contínuo. Filmado de forma simples com atores desconhecidos e muito eficientes, o longa carrega um maior jeitão de improviso, sem muita intervenção da diretora em tom quase documental (mera ilusão, já que é o tipo de trabalho mais difícil de se fazer na condução dos atores), O Novato se torna uma pequena pérola sobre uma fase da vida que aparece muitas vezes em terceiro plano em outros filmes, aqui, o cento da narrativa está justamente nestes personagens que ainda estão aprendendo a crescer e, neste trajeto, estar em boa companhia é fundamental. 

O Novato (Le Nouveau / França - 2015) de Rudi Rosenberg com Réphaël Ghrenassia, Joshua Raccah, Géraldine Martineau,  Guillaume Cloud-Roussel, Johanna Lindstedt e Max Boublil.  ☻☻☻☻

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

PL►Y: The Wise Kids / Henry Gamble's Birthday Party / Princess Cyd

 
The Wise Kids: religião e sexualidade.

Eu poderia escrever um post para cada um dos filmes que aparecem aqui, mas acho que quando os comento ao mesmo tempo, cria uma perspectiva muito semelhante à sensação que tive ao assisti-los ao longo da semana. Eu estava um tanto indisposto para ver filmes muito densos ou elaborados quando me deparei com The Wise Kids. Nunca havia escutado falar do filme e não busquei maiores informações além da sinopse sobre um grupo de adolescentes de uma comunidade religiosa que começavam a vivenciar questionamentos sobre o futuro, seja quanto à vida universitária ou  identidade sexual. O filme tem uma filmagem simples, que lembra muito os filmes feitos para a televisão nos anos 1990, mas tem um roteiro sensível que chama atenção pela forma como é dito pelos atores como se não estivessem interpretando. Aparentemente tudo gira em torno de uma peça na igreja, mas que aos poucos começa a se desviar para outras situações, como a homossexualidade de um jovem da igreja (Tyler Ross) e a chance de estudar cinema em uma faculdade distante. A autodescoberta do menino causa estranhamento em uma de suas amigas e faz com que outra comece a repensar alguns posicionamentos das pessoas que os cercam. O filme aos poucos se volta também para um casal em crise, sobretudo pelo desinteresse do marido pela esposa, curiosamente somente depois eu descobri que este marido é vivido por Stephen Cone, o diretor e roteirista deste e dos outros dois que estão em cartaz na MUBI. Cone não fez faculdade de cinema e diz que aprendeu a fazer filmes ao fazer filmes. Neste aqui, ele utiliza várias referências sobre sua vida em uma comunidade marcadamente religiosa para expressar o conflito pessoal não apenas de jovens, mas de adultos perante o que eles desejam e o que se espera deles. Se o visual do filme é simples, a complexidade dos personagens chama atenção e a compaixão da plateia. Embora algumas situações deixem a impressão de não serem exploradas em todo seu potencial, The Wise Kids sempre soa sincero e funciona como uma eficiente carta de apresentação da obra de Stephen Cone (embora seja seu terceiro longa-metragem). Seus longas costumam ter problemas de distribuição e são mais vistos em festivais, o que o fez se tornar um nome aclamado no cinema independente americano. Muitos dos elementos que aparecem neste filme já foram vistos nos filmes anteriores do diretor e aparecem também em Henry Gamble's Birthday Party (2015), só que agora concentrados em uma festa de aniversário. Mais uma vez os jovens lidam com o ambiente religioso, mas desta vez os hormônios torna o sexo um tema comum nas conversas - a começar pela cena de abertura do aniversariante (Cole Doman) conversando intimidades com seu melhor amigo (Joe Keery que depois ficou famoso como o Steve de Stranger Things). A curiosidade dos dois logo entra em contraste com o misto de tensão e repressão sexual que aparece na festa. Aqui, Cone demonstra maior habilidade em lidar com um grande número de personagens, criando diálogos tortos que soam muito reais, assim como olhares que revelam sempre algo a mais nas relações dos convidados. Entre trajes de banho, sensações tentadoras, paixões proibidas, casamentos em crise, homofobia e o medo de um suicídio, Cone tenta conduzir o filme com leveza, deixando que essência dos personagens (que parecem prestes a quebrar) conduza a narrativa até o desfecho ao som inesquecível de Everyone is Dark do New Canyons. 

Henry Gamble (Cole Doman): festinha complicada. 

Se estes dois filmes parecem complementares (sobretudo para notar a evolução de Cone enquanto cineasta) o terceiro filme merece destaque ainda maior. Princess Cyd (2017) é o último filme lançado pelo diretor. Aqui alguns temas dos filmes anteriores aparecem novamente (soam como verdadeiras obsessões para Cone), mas a forma como surgem na história é mais orgânica, talvez seja o efeito de restringir o número de personagens que tem em mãos e mudar o foco do masculino para o feminino (o que traz a busca de um novo ponto de vista que é muito bem vindo à cinematografia do diretor). É realmente impressionante como Stephen Cone consegue criar personagens femininas tão bem delineadas e que desenvolvem entre si uma relação tão rica. Ajuda muito também o fato do diretor investir ainda mais em movimentos de câmera e cortes mais precisos, o que oferecem à produção um ritmo ainda mais especial, com maior fluência cinematográfica e um formato menos "quadradinho" de contar a história. A começar pelo início, em que antes que alguma cena apareça, ele chama nossa atenção para algo terrível que aconteceu. Quando finalmente conhecemos a protagonista, Cyd (Jessie Pinnick), vários anos se passaram daquele incidente mencionado. Não sabemos ao certo quem é ela ou o que aconteceu, apenas descobrimos que o relacionamento dela com o pai não é muito bom, que ela sonha fazer faculdade e considera que uma visita de verão à tia em Chicago é uma boa ideia. Miranda Ruth (ótimo trabalho de Rebecca Spence), a tia, é uma escritora conhecida na região e de vez em quando leciona na Universidade local. Se no início ela fica um pouco tensa com a presença da sobrinha que não vê faz tempo, aos poucos, ela começa a apreciar a companhia da menina. Miranda é muito bem resolvida, mas a presença de Cyd começa a motiva-la a se abrir mais para o mundo, seja a encontrar prazer em uma manhã tomando sol no jardim, uma tarde na praia ou perceber que um amigo talvez possa se tornar mais do que apenas um companheiro de conversas literárias. Ao mesmo tempo, Cyd também irá perceber que aquilo que para ela é tão importante, para outras pessoas pode não ser. Interessada por pessoas de ambos os sexos, desinteressada por literatura e religião, o diretor Stephen Cone demonstra saber a medida exata de estabelecer uma tensão constante entre  as duas personagens para desconstruí-la aos poucos, pedaço por pedaço com diálogos primorosos, assim, ele cria uma narrativa que evolui aos poucos entre a convivência das duas personagens.  A relação entre as duas é construída de forma tão refinada que até o namoro de Cyd com a barista não binária Katie (Malic White) fica ofuscado, embora, o roteiro saiba como armar muito bem os momentos ternos entre este par romântico tratado com naturalidade, sem vestígio de sensacionalismos (um verdadeiro achado). No entanto, as cenas mais memoráveis do filme fica mesmo por conta de tia e sobrinha, que terminam o filme com aquela conversa breve no telefone  e deixa o espectador com vontade de manter aquela atmosfera afetuosa na memória por muito tempo. Com suas histórias sensíveis sobre o  crescimento de jovens e adultos, Stephen Cone se tornou um nome a ser notado. 

Miranda e Cyd (ao centro): bom demais de assistir. 

The Wise Kids (EUA-2011) de Stephen Cone com Tyler Ross, Stephen Cone, Molly Kunz, Eric Hulsebos, Lee Armstrong e Cliff Chamberlain. ☻☻☻

Henry Gamble's Birthday Party (EUA-2015) de Stephen Cone com Cole Doman, Joe Keery, Pat Healy, Elizabeth Laidlaw, Daniel Kyri, Travis A. Knight, Melanie Neilan, Francis Guinan e Tyler Ross. ☻☻☻


Princess Cyd (EUA - 2017) de Stephen Cone com Jessie Pinnick, Rebecca Spence, Malic White, Tyler Ross, James Vincent Meredith e Keith Kupferer. ☻☻☻☻

domingo, 11 de abril de 2021

PL►Y: Pessoas, Lugares e Coisas

Jemaine e suas filhas: os tropeços da vida com bom humor. 

Não sei vocês, mas ando com problemas para assistir filmes muito densos com sofrimentos, mortes e temas pesados. Some isso à minha implicância com comédias de baixaria ou de mil palavras por minuto e a coisa complica mais ainda. Eis então que encontrei este filme perdido na Netflix e fiquei bastante satisfeito. Sabe quando você encontra o filme ideal na hora certa? Foi exatamente isso. Pessoas, Lugares e Coisas não vai revolucionar o cinema ou mudar sua vida, mas cai como uma luva se você quer espairecer com personagens que parecem morar na sua vizinhança e não falam feito robôs descolados. O filme conta a história de Will Henry (Jemaine Clement de O Que Fazemos nas Sombras), um autor de graphic novels que considerava ter uma vida feliz junto à esposa e as duas filhas gêmeas (a história do relacionamento é apresentada logo na introdução como se a vida deles fosse uma graphic novel). No entanto, tudo muda quando ele descobre que a esposa (Stephanie Allynne) tem um amante (Michael Chernus) na festa de aniversário de cinco anos das meninas.  É o fim do casamento dos dois. Um ano depois ele está insatisfeito de morar hora e meia longe das filhas, vê-las somente nos fins de semana e se desdobrando com aulas para alunos não muito interessados. Preso à sua insatisfação, alguns acontecimentos começam a sinalizar que a vida pode (e deve) recomeçar. Das aulas invadidas por sua tristeza, à falta de jeito para administrar o cotidiano das filhas ou o início de um novo romance, o roteiro e a direção de Jim Strouse encontra o equilíbrio certo entre as doses de melancolia, a fofura da convivência com as crianças (vividas pelas gêmeas Aundrea e Gia Gadsby), bom humor e os primeiros passos de uma nova fase da vida. Nesta nova fase, uma aluna promissora Kat (a ótima Jessica Williams, que eu adoraria ver em mais produções) e a mãe dela (Regina Hall, divertida de um jeito bem original) terão papel mais que importante (enquanto a fragmentada discussão de relacionamento com a ex permanece). Com roteiro amarradinho nas mãos do elenco certo, o filme flui com uma naturalidade rara nos dias de hoje, com destaque para Jemaine Clement na pele de um homem comum e seus tropeços. O texto sem grandes pretensões a partir das confusões que as relações humanas podem gerar é bastante agradável de assistir, sobretudo ao pontuar as virtudes e defeitos dos seus personagens ao longo de hora e meia de projeção. Simpático, simples e divertido, Pessoas, Lugares e Coisas se torna uma bela surpresa. 

Pessoas, Lugares e Coisas (People Places Things / EUA -2015) de Jim Strouse com Jemaine Clement, Regina Hall, Jessica Williams, Stephanie Allynne, Aundrea Gadsby, Gia Gadsby e Michael Chernus. ☻☻☻☻

segunda-feira, 1 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: Songs My Brothers Taught Me

 
Johnny e Jashaun: a bela estreia de Chloé Zhao. 

Chloé Zhao é a favorita para levar para casa o Oscar de melhor direção deste ano por seu terceiro filme (Nomadland). Se ganhar, será a segunda mulher a levar o Oscar de melhor direção e será a primeira de origem oriental - o que ajuda muito no momento em que as mulheres cineastas clamam por oportunidades e reconhecimentos na indústria cinematográfica. No entanto, acredito que quando Zhao aceitou a proposta da atriz Frances McDormand para dirigir seu novo  filme, ela não imaginava que faria história na maior premiação do cinema americano. Para a maioria das pessoas a chinesa nascida em Beijing em 1984 é uma ilustra desconhecida (porém, os fãs de filmes de quadrinhos devem ter se acostumado a ouvir o nome dela já que será a responsável por levar para as telas Os Eternos da Marvel). Quem já acompanha a carreira da cineasta até aqui deve ficar imaginando como a Marvel imaginou que uma diretora querida no circuito independente se tornou o nome adequado para um filme de super-herói. Zhao chamou a atenção já em seu filme de estreia, Songs My Brothers Taught Me, que foi aclamado em festivais (incluindo Cannes e Sundance que ajudou a idealizar o filme em um dos seus laboratórios) e indicado a três Independent Spirit (melhor primeiro filme, fotografia e cineasta revelação) e premiado com o Gotham destinado a diretoras mulheres. O filme conta a história de uma família que vive em uma reserva indígena dos Estados Unidos, a Pine Ridge localizada na Dakota do Sul. Aqui o destaque é para o jovem Johnny (John Reddy) e sua pequena irmã, Jashaun (Jashaun St. John), ambos vivem com a mãe (Irene Bedard) após a prisão do irmão mais velho (Kevin Hunter). A cineasta já demonstra aqui seu interesse em construir uma narrativa entre o documental e a ficção, parecendo muitas vezes apenas espiar a vida daqueles personagens (em sua maioria vividos por atores amadores) em seu cotidiano repleto por atividades comuns que aos poucos apresentam alguns dilemas. Com estética mais etnográfica do que dramática, aos poucos sabemos o que aconteceu com o "prolífico" pai daquela família, que o primogênito prefere estar na prisão do que conviver com a mãe e conhecemos um pouco mais daquelas pessoas que vivem em um mundo bastante particular entre manter os antigos costumes enquanto a preocupação com o uso de álcool e drogas só aumenta (especialmente se levarmos em conta a falta de segurança que ronda a reserva). Existe também uma certa carência de perspectiva daqueles personagens, especialmente de Johnny, que acaba realiza contrabandos entre a fronteira da reserva e o mundo exterior e acaba pagando o preço por isso. Beneficiado pelas belas paisagens valorizada pela fotografia caprichada, atmosfera bucólica e uma bela trilha sonora, Songs My Brothers Taught Me é bastante contemplativo e até relaxante ao não ter pressa em acompanhar o cotidiano daqueles personagens que ainda procuram seus lugares no mundo em que vivem. Neste ponto, pesa bastante a relação entre Johnny e sua irmã que se torna uma espécie de âncora naquela família, especialmente quando ele planeja mudar de vida com a namorada e respirar novos ares e fecha o filme com seu momento mais bonito e poético. Quem assistiu ao filme seguinte da cineasta, Domando o Destino (2017) irá perceber aqui muitos elementos que Chloé voltou a explorar de forma ainda mais contundente e que a tornou um dos nomes mais relevantes do cinema indie nos últimos anos. Por isso, na expectativa de Nomadland chegar logo por aqui, escolhi o filme de estreia da diretora para abrir o Ciclo Diretoras 2021. 

Chloé Zhao: equilíbrio entre a realidade e a ficção.

Songs my Brothers Taught Me (EUA-2015) de Chloé Zhao com  John Reddy, Jashaun St. John, Irene Bedard, Kevin Hunter e Keanna Rowland. ☻☻☻

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Ciclo Verde E Amarelo: O Último Cine Drive-In

Breno e Bastos: nostalgia e reconciliação. 


Há uma razão especial para começar com O Último Cine Drive-In este Ciclo Verde & Amarelo em tempos pandêmicos. Seria o maior clichê dizer que o filme é uma declaração de amor ao cinema, não apenas enquanto arte, mas enquanto espaço mesmo. Aquele lugar que você compartilha com vários desconhecidos e compartilham a mesma emoção ao mesmo tempo, às vezes em sintonia completa. Mas o filme ainda é sobre um tipo de espaço de exibição bastante específico que ganhou força durante estes tempos de isolamento social, os drive-ins, ou como uma personagem diz a certa altura: "cinema para quem tem carro". A pandemia revitalizou estes espaços considerados mais seguros para ter uma experiência cinematográfica com o fechamento das salas convencionais. Nem precisa dizer que sinto uma saudade danada de ir ao cinema! O drive-in do título é praticamente um dos personagens do filme e promove o reencontro emocional entre Brandinho (Breno Nina) e seu pai, Almeida (Othon Bastos), o dono daquele espaço e pai ausente que passou anos sem ver o filho. Os dois se encontram de forma meio torta quando o protagonista é expulso do hospital em que a mãe, Fátima (a ótima Rita Assemany) está internada aguardando um exame há dias. Fica evidente que existe um bocado de ressentimento entre os dois e aquele Drive-In começa a impor as lembranças daquela família naquele espaço. O primeiro longa de Iberê Carvalho então decora seu filme com tantas memórias quanto pôsteres de filmes e retrata de forma bastante emocional a importância daquele espaço para todos os personagens. Fiquei particularmente emocionado quando Fátima conta como foi trabalhar naquele espaço e ver as pessoas diante da telona, do filme refletido nos vidros de todos os carros - e quem não tem lembranças sobre um momento na cena escura? Vale ressaltar que o filme sabe utilizar muito bem a tela de projeção ao ar livre durante a narrativa. Seja com os créditos rolando no vazio da escuridão ou com a projeção do clássico Central do Brasil/1998 (não por acaso, um filme de reencontro com participação do veterano Othon Bastos). Misturando drama, com doses discretas de humor (esqueci de dizer, Brandino se chama Marlonbrando, assim mesmo, todo junto - e existe até o pôster de O Poderoso Chefão nos cenários) e bastante nostalgia, O Último Cine Drive-In costura seus personagens como uma grande família que compartilha a mesma história e caminha devagar para uma mudança motivada para uma nobre contravenção que muda um pouco o seu tom melancólico. Outro destaque do filme é ser ambientado em Brasília e apresentar um cenário bastante árido, bem diferente dos cartões postais da capital nacional. Ao voltar sua câmera para um canto pouco explorado (incluindo os bastidores de uma projeção tradicional), Iberê Carvalho faz um filme interessante. 

O Último Cine Drive-In (Brasil - 2015) de Iberê Carvalho com Breno Nina, Othon Bastos, Rita Assemany, Othon Bastos, André Deca, Zécarlos Machado, Fernanda Rocha, Chico Sant'Ana e Rosanna Viegas. ☻☻☻☻   

segunda-feira, 4 de maio de 2020

PL►Y: Bem Vindo a Nova York

Depardieu e seus parceiros: reputação em risco.

Bem Vindo a Nova York é um filme que tentei assistir quando foi exibido na televisão um ano após seu lançamento. Em menos de dez minutos eu desisti. Dia desses eu reencontrei o filme, o assisti inteiro e consegui entender plenamente o desconforto que me provocou na primeira vez. Esse desconforto, a propósito, rendeu vários problemas para o diretor Abel Ferrara que defendia o corte final do filme com 125 minutos, enquanto os produtores desejavam o de 109 minutos (sem todas as cenas sexuais). A maioria dos minutos que seriam cortados está no início do filme, quando somos apresentados ao universo repleto de luxo e luxúria do milionário francês Mr. Devereaux (Gerárd Depardieu), poderoso presidente de uma instituição bancária internacional. Cercado de dinheiro, mulheres e bebidas, Devereaux não reconhece limites para o que deseja, prova disso é a assustadora cena em que abusa sexualmente de uma camareira que entra no quarto de hotel em que ele participou de uma orgia na noite anterior. Ele estava em uma viagem de negócios em Nova York e antes que pudesse voltar para seu país, foi surpreendido pela ação da polícia. Começa então as tentativas de sua esposa, Simone (Jaqueline Bisset) minimizar o escândalo e tentar limpar o nome do marido gastando alguns milhões de dólares para isso. É proposital que no primeiro momento o diretor queira incomodar o espectador com a postura do protagonista, afinal, o filme avança e incomoda mais ainda com as tentativas dele se safar das acusações recebidas, principalmente por ele negar sempre o que de fato aconteceu e praticar situações de abuso novamente. Ao viver um personagem tão asqueroso, Gerard Depardieu não tem pudores. Vestido ou despido, o ator tem seu melhor trabalho em anos na pele de um personagem que é fácil de odiar. Virando seu carisma bonachão do avesso, Depardieu carrega o filme nas costas com uma desenvoltura invejável perante um conteúdo tão polêmico. A polêmica rendeu até um processo para Abel Ferrara, que nunca negou inspiração em um famoso caso internacional que nem vou citar aqui... Bem Vindo a Nova York  é um filme que exige estômago para assistir e incomoda por ser uma tão realista. 

Bem Vindo A Nova York (Welcome to New York / EUA - França /2015) de Abel Ferrara com Gerárd Depardieu, Jaqueline Bisset, Paul Hipp, Paul Calderon e Elizabeth Kemp. ☻☻☻

sábado, 16 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Meu Nome é Ray

Elle, Naomi e Susan: talentos desperdiçados. 

Elle Fanning completa vinte e um anos em 2019, mas já tem currículo de veterana. Com dezessete anos de carreira (sim, ela começou a atuar aos três anos de idade, fazendo a versão mais nova de sua irmã, Dakota, em Uma Lição de Amor/2001), ela já trabalhou com diretores renomados como Sofia Coppola, JJ Abrams, Nicolas Winding Refn e John Cameron Mitchell. Mantendo o ritmo de quatro filmes por ano, Elle é uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood. Agora, imagine colocar a atriz no papel de um transexual, acompanhada de duas atrizes do cacife de Susan Sarandon e Naomi Watts e você terá um projeto bastante promissor. Enquanto era filmado, Meu Nome é Ray era um dos filmes mais aguardados de 2015, todos estavam de olho no filme da inglesa Gaby Dellal, mas bastou o filme ser exibido para que todo mundo o esquecesse automaticamente. A decepção aconteceu quando perceberam que o protagonismo da história não é de Ray (Elle Fanning), mas de sua mãe, Maggie (Naomi Watts), que por conta dos procedimentos para a mudança de sexo da filha terá que passar a limpo alguns detalhes de seu passado. Maggie trabalha como ilustradora e ainda mora com a mãe, Dolly (Susan Sarandon), uma lésbica bem resolvida que mora há décadas com Frances (Linda Emond). Dolly ainda tem um pouco de dificuldade em lidar com as inseguranças da filha e também não entende muito bem a transexualidade de Ray, no entanto, as três personagens dividem várias cenas que geralmente descambam para um humor que nem sempre funciona. O maior problema da história é que nenhuma das personagens são bem desenvolvidas, sendo apenas esboços de pessoas que poderiam ser reais. O roteiro gasta tempo demais abordando a necessidade de fazer o pai de Ray assinar os papéis para ajustar o corpo feminino de Ray para sua mente de menino. Essa transição poderia ser o grande trunfo do filme, mas o roteiro da diretora e da parceira Nikole Beckwith encontram uma grande dificuldade em tornar Ray em um personagem interessante. Para trabalhar a identidade do personagem o filme opta por registros documentais da vida do personagem, que servem apenas para torná-lo ainda mais distante do andamento da trama. A abordagem da transexualidade aparece sempre superficialmente, usando meia-dúzia de frases manjadas e abudando do número de vezes com que os personagens ficam se corrigindo em torno do gênero de Ray. Elle Fanning se esforça em cena, torna a voz mais grave, tem um trabalho gestual para se tornar mais masculina e fica mal humorada o filme quase inteiro... mas a garota não consegue fazer milagre com um roteiro tão simplista. Ray poderia tornar o filme uma obra muito mais interessante,  mas o roteiro prefere dar mais atenção às trapalhadas amorosas de sua mãe. Meu Nome é Ray perde a oportunidade de trabalhar um tema bastante atual com um ótimo elenco feminino, alcançando um resultado apenas mediano. 

Meu Nome é Ray (3 Generations / EUA - 2015) de Gaby Dellal, com Naomi Watts, Elle Fanning, Susan Sarandon, Linda Emond, Tate Donovan e Sam Trammell. ☻☻

quinta-feira, 14 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: O Monstro no Armário

Jessup: drama adolescente e surrealismo. 

Premiado em vários festivais de cinema (inclusive o prestigiado Festival de Toronto), O Monstro do Armário é um filme que explora a sexualidade de seu personagem de uma forma diferente. Não satisfeito em abordar um adolescente que começa a entender um pouco mais sobre seus próprios desejos, o filme de estreia do canadense Stephen Dunn utiliza toques surreais para aprofundar um trauma de seu protagonista. O resultado consegue ser bastante curioso. Quando ainda era pequeno e voltava para casa, Oscar presencia um ato de violência que ganhou os noticiários locais. Se tratava de um menino que saia da escola e foi violentado. Ao chegar em casa o pequeno Oscar comentou com o pai sobre o que viu e, lhe foi explicado que a "justificativa" para o ato hediondo era de que a vítima era homossexual. O pai não faz ideia do efeito daquela explicação na mente do menino, que na adolescência começará a sentir dores físicas, náuseas e alucinações, sempre que algum rapaz despertar seu interesse. Embora Oscar tenha uma grande amiga, Gemma (Sofia Banzhaf) seu interesse por ela é completamente diferente do que sente pelo colega de trabalho, Wilder (Aliocha Schneider) e... você pode imaginar o que acontece. Connor Jessup (que ficou conhecido por seus trabalhos nas séries American Crime e Falling Skies) tem um trabalho convincente na pele de Oscar, explorando o mal estar do personagem diante de um desejo proibido e encontrando um equilíbrio complicado entre o rapaz comum que, em alguns momentos parece estar enlouquecendo (ou você acha normal um adolescente ouvir a voz de um hamster e ter alucinações com um vergalhão?). Dunn utiliza vários elementos típicos da adolescência no filme: trabalho, escola, medos, festas, inseguranças e planos para o futuro se misturam no roteiro que ganha uma forma colorida e ágil nas mãos do diretor. A trilha sonora espera também ajuda a manter o filme num ritmo fluente, sem perder de vista os momentos mais tensos do roteiro. Boa parte da tensão do filme acontece em torno do relacionamento de Oscar com o pai (Aaron Abrams), um sujeito afetuoso, mas também agressivo e complicado de lidar. Os dois parecem ter um relacionamento, mas que está sempre por um fio a desmoronar.  Por utilizar elementos surreais e destacar a relação entre pai e filho, O Monstro do Armário demonstra um diferencial diante dos outros filmes sobre adolescentes que lidam com a sexualidade, especialmente quando explora o tom de horror que a homossexualidade pode receber em ambientes preconceituosos e intolerantes. 

O Monstro do Armário (Closet Monster/Canadá - 2015) com Connor Jessup, Aaron Abrams, Aliocha Schneider, Sofia Banzhaf, Joanne Kelly e Isabella Rossellini. ☻☻☻

domingo, 27 de maio de 2018

PL►Y: LIFE

Dane e Pattinson: amizade baseada em fatos reais. 

Anton Corbijn nasceu na Holanda em 1955, mas se tornou famoso como fotógrafo nos anos 1980. Além de ensaios fotográficos, ele também realizou clipes para astros da música e foi responsável pela capa de álbuns famosos (como o clássico The Joshua Tree do U2). No cinema ele estreou como diretor na condução de Control (2007), a cinebiografia de Ian Curtis, deixando claro que não estava disposto a fazer um cinema de mero entretenimento. Também foi assim quando utilizou o astro George Clooney em Um Homem Misterioso (2010) e depois Phillip Seymour Hoffman em O Homem Mais Procurado (2014), subvertendo as expectativas de quem aguardava filmes de ação desenfreada. Quando ele anunciou que filmaria o encontro de James Dean com o fotógrafo Dennis Stock, a crítica já sabia o que esperar. LIFE foi praticamente ignorado pelo público e premiações, mas é interessante por apresentar um James Dean banhado em melancolia. Na época do lançamento, o roteirista Luke declarou ter mais interesse pela personalidade de Dennis do que pelo ícone do cinema, afinal, é Stock o responsável pelo antológico ensaio para a revista LIFE que consolidou a imagem do ator quando ele ainda buscava um lugar ao sol de Hollywood. Reza a lenda que os dois se tornaram amigos após os dias em que conviveram para realizar as fotos. Stock percebia em Dean uma imagem diferente, algo que marcaria época, mas que ambos eram incapazes de definir ao certo o que era. A própria ideia para do ensaio veio aos poucos, com o fotógrafo querendo mostra-lo como um jovem do campo em sua transição para a cidade. Nesta jornada, uma visita à família de Dean no interior ajudou a consolidar de vez a imagem do astro e revelar um dos melhores aspectos do roteiro: as entrelinhas. Robert Pattinson tem um bom momento como Dennis Stock, sem medo de abraçar sua rigidez e vulnerabilidade mesmo nas cenas em que não faz a mínima ideia de como agir com o filho. Robert confere corpo e alma a um homem que desde cedo precisou se virar - mas que manteve a sensibilidade de captar belas imagens com sua lente. Seu parceiro de cena, Dane DeHaan compõe um James Dean distante do que idealizamos normalmente, mas que consegue demarcar bem a sua rebeldia quase inata e uma vulnerabilidade impertinente. Ele faz um bom trabalho de corpo e voz, que tenta constantemente escapar da mera imitação e ao lado de seu parceiro de cena, possui uma química que sustenta o filme com tranquilidade - e permite até uma leitura mais profunda se levarmos em consideração a bissexualidade de Dean (que chega a ser sugerida sutilmente em alguns diálogos). O filme constrói a amizade dos dois personagens aos poucos, sem pressa - e isso pode entediar alguns espectadores - mas se conclui como um retrato interessante de ambos os personagens, principalmente se levarmos em consideração que a trama está situada entre Vidas Amargas (1955) e Juventude Transviada (1955). O primeiro rendeu a primeira indicação ao Oscar aos 23 anos, o segundo o transformou em mito. Seu último filme veio logo depois, Assim Caminha a Humanidade (1956) que o consolidou de vez como estrela de cinema, ainda que morrendo precocemente num acidente de carro. Já Dennis Stock se tornou um dos fotógrafos mais importantes dos EUA, falecendo em 2010 aos 91 anos, contar a história do encontro destes dois artistas já é, por si só, interessante.

 LIFE (Reino Unido / Canadá / Alemanha / EUA - 2015) de Anton Corbijn com Robert Pattinson, Dane DeHaan, Joel Edgerton, Ben Kingsley, Alessandra Mastronardi e Kristian Bruun. ☻☻☻☻

segunda-feira, 7 de maio de 2018

PL►Y: Terra de Minas

Hofmann e Roland: humanizando o "inimigo". 

Terra de Minas foi o candidato dinamarquês ao Oscar de Filme Estrangeiro do ano passado - ocupando o desconfortável posto de azarão (já que ninguém imaginava que o filme estaria entre os cinco finalistas). Bem recebido no Festival de Toronto de 2015, o filme é inspirado em fatos reais com sua ambientação na Dinamarca após a II Guerra Mundial. O filme acompanha um grupo de jovens  alemães prisioneiros de guerra que são forçados a desarmar minas terrestres no litoral da Dinamarca sob o comando do sargento Carl Rasmussen (Roland Møller). Para realizar o trabalho, os jovens contam com um mapa aproximado da localização das mais de mil minas que se encontram na região. Os meninos são forçados a trabalhar de sol a sol e dormir num galpão trancado durante a noite na companhia de ratos e, se cumprirem a tarefa dentro do prazo previsto, poderão voltar para a casa ao final de três meses. Desde as primeiras cenas fica claro como o trabalho dos meninos é perigoso. Sob o risco de voarem pelos ares se não tiverem todo o cuidado necessário, resta a eles apenas a esperança de voltarem para suas famílias na Alemanha algum dia. O roteiro do diretor Martin Zandvliet utiliza esta premissa para abordar mais assuntos do que você imagina. A começar pelo ódio em torno dos alemães após as atrocidades cometidas durante a guerra, vistos sem compaixão pelos moradores locais e o sargento encarregado do grupo, os meninos são tratados da pior maneira possível, sendo explorados mesmo doentes e com fome. Quem considera que direitos humanos é para proteger bandidos, vale a pena ver o filme. Em tempos de intolerância, fica a sensação do quão semelhantes os algozes dos meninos são dos oficiais nazistas de outrora. A crueldade emerge em vários momentos da primeira metade do filme, até que uma sucessão de tristezas amolece o coração do sargento, num ótimo trabalho de Roland Møller, que na proximidade com aqueles meninos começa a percebê-los como um grupo de seres humanos subjugados a sofrimentos variados. Este  conflito entre vingança e compaixão torna a jornada dos personagens ainda mais melancólica. Além disso, do drama emana o suspense toda vez que eles precisam desarmar uma mina terrestre - ou a suspeita de que o desespero será capaz de promover uma ação radical entre um dos meninos. Com uma fotografia que já emula tristeza e um ritmo que só prorroga a tragédia, o filme só perde pontos do final onde uma sucessão de fatos apressados compromete a sobriedade da sessão. Ainda assim, Terra de Minas ganha pontos por conhecida e que merece ser redescoberta.

Terra de Minas (Under Sandet/Alemanha-Dinamarca/2015) de Martin Zandvliet com Roland Møller, Louis Hofmann, Joel Basman, Laura Bro, Emil Belton, Oskar Belton e Leon Seidel. ☻☻☻☻

segunda-feira, 12 de março de 2018

PL►Y: Proibido Homens

Patrick Gilmore: o último homem da Terra. 

Ao longo das décadas percebe-se que o aumento de mulheres que engravidam sem prática sexual. As autoridades não acreditam nos depoimentos delas e consideram que existe uma espécie de histeria sobre o assunto. Até mesmo uma freira engravida sem a necessidade de um homem por perto. Seu bebê poderia ser até considerado um novo messias, mas como nasce do século feminino, não seria possível. O bebê segue uma regra que chama atenção neste tipo de gravidez que não necessita de prática sexual: todos os bebês são do sexo feminino. Pesquisas revelam que o sexo entre homens e mulheres também para de funcionar, uma vez que os espermatozoides morrem antes de conseguir fecundar o óvulo e, diante da necessidade da humanidade continuar, a mãe natureza inventou uma nova estratégia... só que com o efeito colateral da extinção masculina. Já faz 37 anos que não nasce um bebê do sexo masculino e o último deles é o simpático Andrew Myers (o fofo Patrick Gilmore), que trabalha na casa de duas mulheres que precisavam de ajuda para cuidar de suas filhas. Existem tantos detalhes neste mundo paralelo que torna o falso documentário Probido Homens um programa interessantíssimo, principalmente por não dar bola para o politicamente correto e alfinetar ao mesmo tempo exageros da relação entre os sexos ao longo dos séculos. Se por uma lado as mulheres percebem que está na hora da virada sobre uma longa história do patriarcado, por outro, elas não dão a mínima para o fim dos homens e criam novas formas de organização social para que a vida prossiga numa boa. Com elas no poder, o mundo se torna um lugar mais pacífico e de grandes avanços tecnológicos, mas também, os poucos homens que existem são vítimas de discriminação, passando a ser segregados em lugares próprios, onde não representam ameaça para as mulheres e, suspeita-se, que são alimentados secretamente com hormônios femininos. Proibido Homens é de fato uma grande provocação, mas diverte por revelar os efeitos que posturas extremadas podem trazer para o relacionamento entre mulheres e homens, quando na verdade o ideal é não haver a subjugação de um sexo pelo outro. Aqui o discurso da igualdade entre os sexos é sabotado mais uma vez através de um olhar inusitado. Feito através de entrevistas falsas e análises deliciosamente elaboradas pelo diretor e roteirista canadense Mark Sawers. Alguns vão dizer que ele tropeça num certo conservadorismo na condução deste mundo paralelo, especialmente quando se esquiva ao abordar o lesbianismo neste universo ou quando uma nova mudança se aproxima... ainda assim, o filme diverte (e tem alguns momentos hilariantes, incluindo a última cena) e faz pensar com muito bom humor. 

Proibido Homens (No Men Beyond This Point/Canadá-2015) Mark Sawers com Patrick Gilmore, Bronwen Smith, Tara Pratt, Dakota Guppy e Stanley Burton. ☻☻☻☻

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PL►Y: Fuga Para a Liberdade

Julian e Sam: cômica caçada humana. 

Em 2017 o diretor Taika Waititi tornou-se conhecido pelo grande público ao dirigir em Hollywood pela primeira vez. Ainda que tenha conquistado uma indicação ao Oscar em 2004 (pelo curta Two Cars, One Night), para alguns ele já era conhecido por dirigir comédias peculiares em sua terra natal. Depois de Thor: Ragnarok/2017 , ainda que muitos não tenham curtido o humor transbordante  e o visual multicolorido da repaginada no Deus do Trovão, os próximos filmes do cineasta prometem chamar mais atenção do público e da mídia. Embora tenha feito algumas participações como ator em filmes americanos, conheci o trabalho de Taika no impagável O Que Fazemos nas Sombras (2014). logo quis conhecer um pouco mais de seus outros filmes. Lembro que ele estava lançando este Hunter for Wilderpeople e recebia resenhas elogiosas da imprensa pela história de Rick Baker (Julian Dennison), uma criança considerada problemática (já participou de furtos, roubos de carro e outras infrações...) que é encaminhada para viver com seus novos pais adotivos. Bella (Rima de Wiata) e Hector (Sam Neill) vivem reclusos perto de uma floresta. Bella está disposta a dar ao menino todo o carinho e atenção que ele precisa, independente de todas as histórias que já ouviu sobre ele. Já Hector é mais sisudo e distante, mas aceita a decisão da esposa de aumentar a família. Quando um golpe do destino muda os rumos desta família, Rick  foge de casa com seu cão (chamado Tupac) e Hector parte em sua busca. Não demora muito para que os dois sejam procurados pelas autoridades locais e todo tipo de história sensacionalista se propague sobre os dois - especialmente com a ajuda da assistente de proteção à infância vivida por Tioreore Nagatai-Melbourne (que também participou de Thor:Ragnarok), que é a vilã do filme. O filme tem traços de aventura infanto-juvenil e se torna irresistível pelo humor que perpassa toda a história, mesmo nos momentos em que se torna mais dramática. Tem o maior clima de comédias de aventura dos anos 1980, uma época em que o politicamente correto não atrapalhava o andamento da história e que Taika teria feito bilheterias milionárias. Além do roteiro esperto (baseado na obra de Barry Crump), o longa também se beneficia muito do elenco, sobretudo do menino Julian Dennison que é um verdadeiro achado (sua narrativa em off garante ótimos momentos e deve aparecer na nova aventura de Deadpool no cinema) além que Sam Neill, o veterano também está ótimo em cena e deixa a impressão que Hollywood nunca soube muito bem o que fazer com ele - mesmo que ele tivesse versatilidade para fazer muita coisa boa. Embora tenha recebido um nome genérico por aqui (Fuga para a Liberdade?! Come on!), Hunter for Wilderpeople tem um frescor irresistível e promete boas risadas para quem se aventurar ao lado de Rick Baker e seu pai que, ironicamente, estava doido para se livrar dele. 

Fuga para a Liberdade (Hunter for Wilderpeople/ Nova Zelândia - 2016) de Taika Waititi com Julian Dennison, Sam Neill, Rima de Wiata, Tioreore Nagatai-Melbourne,Troy Kingi e Stan Walker. ☻☻☻☻

domingo, 10 de dezembro de 2017

PL►Y: Dormindo com as Outras Pessoas

Brie e Jason: comédia de baixaria romântica. 

Exibido em alguns festivais de cinema independente, a comédia Dormindo com Outras Pessoas surpreendeu muita gente que esperava mais uma comédia romântica tradicional do típico casal que briga o filme inteiro para depois descobrir que se ama no final (e se o filme fosse eterno, você veria que eles continuariam brigando até um não aguentar mais a cara, a voz, o cheiro e tudo mais do outro). A surpresa ficou por conta do casal não brigar, mas das baixarias que os personagens falam todo o tempo. Perdi a conta de quantas piadinhas de conotação sexual foram ditas durante o filme, o ruim é que se uma vez ou outra a vulgaridade pode até provocar alguns risos na plateia, com o tempo começa a cansar. Para além deste ponto cansativo, a diretora Leslye Hadland consegue alguns pontos na construção de sua história ao abordar um reencontro de um casal que transou na época da faculdade (quase que acidentalmente, já que ela estava interessada em outro) e que se encontram vários anos depois. Jake (Jason Sudeikis) e Lainey (Alison Brie) nem eram amigos quando tiveram sua primeira noite de amor no campus, mas era impossível não perceber que havia algo em comum entre os dois. Como a vida não é perfeita, seguem cada um para o seu lado. Ele se torna o tipo de homem que não namora, mas coleciona parceiras sexuais. Ela está presa num relacionamento há tempos com um médico casado (Adam Scott) que compromete seu namoro com um rapaz cheio de si (Adam Brody). Como a vida amorosa dos dois não está nada bem, eles acabam se encontrando num grupo de ajuda para viciados em sexo e  se tornam bons amigos. Obviamente que todo mundo percebe que existe ainda uma fagulha entre os dois - e entre uma conversa aqui, uma abobrinha ali, os dois começam a questionar a forma como lidam com relacionamentos. É verdade que o filme tem alguns momentos bem esquisitos (como a cena em que Laney sensualiza com um grupo de crianças dançando numa festa infantil), tem algumas situações são subaproveitadas (o namoro de Jake com Amanda Peet é bem mais explorado do que de Lainey com Marc Blucas), mas debaixo de tudo até que existe uma história interessante, ao ponto de eu perceber a influência que Harry & Sally (clássico de 1989) no que vemos aqui. O problema é que se a aura "politicamente incorreta" era bem dosada no filme de Meg Ryan, aqui ela foge um pouco do controle, mas se no passado Meg simulava um orgasmo numa mesa de restaurante, aqui, Jake usa uma garrafa para ensinar à amiga como, digamos, aliviar a tensão quando está solitária. Sinal dos tempos. 

Dormindo com as Outras Pessoas (Sleeping with other People/EUA-2015) de Leslye Headland com Jason Sudeikis, Alison Brie, Amanda Peet, Adam Brody, Adam Scott, Natascha Lyonne e Katherine Waterston. ☻☻

sábado, 9 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Nise - O Coração da Loucura

Glória e seus companheiros: o tratamento pela humanização. 

Conheci o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira na faculdade, quando minha turma foi visitar uma exposição da celebração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Lembro que no Paço Imperial no Rio de Janeiro estavam expostos vários trabalhos de pessoas que participaram dos tratamentos por Terapia Ocupacional realizados por ela a partir da década de 1940. O mais fascinante da mostra chamada Imagens do Inconsciente (nome que batiza o museu criado por Nise em 1952) era que todas eram assinadas por clientes de sua iniciativa no Centro de Alienadas de Engenho de Dentro, uma instituição psiquiátrica criada para abrigar pessoas em tratamento no Hospício Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira). O cineasta Roberto Berliner resolveu levar para as telas uma biografia de Nise e usou toda a sua experiência no gênero documental para dar vida aos desafios que ela e seus clientes precisaram enfrentar. Berliner opta por uma narrativa clássica, que funciona muito bem, especialmente para seus aterradores momentos iniciais. Desde o momento em que ela volta ao  percebemos que ela não é uma pessoa de desistir fácil. Depois de um período afastada do serviço público (por motivos políticos que lhe renderam até uma prisão no ano de 1936) ela fica chocada com os tratamentos a que são submetidos os internos da instituição. Lobotomia e eletrochoque eram vistos como os melhores tratamentos para os transtornos que apresentavam, mas Nise sempre se posicionou contra tratamentos agressivos e violentos, de forma que revolucionou o tratamento da época utilizando a arte como terapia. Nise ganha corpo com a atuação vigorosa de Glória Pires que resgata a força da personagem diante do embate com o tratamento excludente com que se depara. Há de se exaltar também a atuação do elenco de apoio que tem a difícil tarefa de encarnar os clientes da clínica de forma convincente, especialmente na transição que atravessam ao longo do filme. A história de Nise é tão fascinante que poderia render outros filmes, um que conte o que houve antes do período retratado aqui (tempo em que se tornou amiga de Graciliano Ramos na prisão, o que a tornou personagem do livro Memórias do Cárcere) e até outro sobre a forma como se tornou reconhecida após anos desafiando seus colegas de trabalho a buscar um tratamento mais humanizado para os pacientes psiquiátricos (já que aqui existe um corte bem antes disto). Nise tinha diálogos com críticos de arte e Carl Jung (que aparecem no filme sem ser muito explicativos) serviram para que seu trabalho transcendesse a lógica da época, a tornando referência no tratamento psiquiátrico. O Ciclo Verde e Amarelo deste ano se despede com uma personagem histórica que merece ser sempre lembrada e celebrada, assim como Elis, que abriu nossa semana por aqui. 

Nise - O Coração da Loucura (Brasil/2015) de Roberto Berliner com Glória Pires, Fabrício Boliveira, Caludio Jaborandy, Flavio Bauraqui, Roney Villela, Julio Adrião e Bernardo Marinho. ☻☻☻☻

terça-feira, 29 de agosto de 2017

PL►Y: Visões do Passado

Adrien: entre mortos e vivos.  

Adrien Brody entrou para a história como o mais jovem ator a levar para casa o Oscar de Melhor Ator pela excepcional performance em O Pianista/2002 - e ele nem era o favorito, já que estava na disputa com outros quatro mais conhecidos e oscarizados (Nicolas Cage, Jack Nicholson, Michael Caine e Daniel Day Lewis). Brody realmente merecia o prêmio, mas ainda lembro do comentário do crítico Rubens Ewald Filho quando o ator levantou para pegar a estatueta: "Agora, o que se faz com um ator com essa cara?". A maldade era irritante, mas o tempo revelou que tinha o seu fundo de verdade em Hollywood. Brody tem traços que não se encaixam no perfil do galã tradicional (especialmente se levarmos em consideração o seu famoso nariz), mas tem talento suficiente para garantir espaço em qualquer tipo de filme - pena que ele nunca mais conseguiu chamar igual atenção de público ou crítica. Hoje ele se dedica a filmes de pequeno orçamento que nem sempre funcionam e quase sempre termina fazendo o mesmo personagem surpreso com os acontecimentos que lhe cerca. Isso acontece em Visões do Passado/2015 de Michael Petroni, filme que começa interessante carregando no suspense psicológico, mas que não demora para se enrolar nas reviravoltas sucessivas do roteiro. Aqui ele vive o psicólogo Peter Bower, que tenta se recuperar da morte da filha pequena e começa a ser procurado por uma menina misteriosa. Este é só o ponto de partida para que ele descubra que todos os seus clientes possuem algo em comum: um segredo sombrio que tem relação com seu próprio passado. Se no início o filme era intrigante, aos poucos ele se torna cada vez mais um genérico de O Sexto Sentido/1999 e aponta tantos caminhos para seguir pelo acaba se enrolando cada vez mais nos devaneios que apresenta, até que Peter precisa ajustar contas o que preferiu deixar para trás, ou melhor, esquecer - especialmente no que se refere ao seu pai (Bruce Spence). A narrativa do filme é meio engasgada, parece mais preocupada em dar o mesmo susto na plateia várias vezes, só que esquece do mais importante: desenvolver personagens. O melhor amigo de Peter, a policial que cruza o caminho do protagonista e a esposa de Peter são quase  sombras no roteiro e não acrescentam nada à história. Valorizando mais os mortos do que os vivos, no fim das contas você fica com a sensação de que já viu este filme uma dezena de vezes, fica com pena de Adrien tentando dar credibilidade a uma história tão sem graça, sorte que a sensação não dura muito tempo já que o filme fica na sua memória por pouco tempo. Melhor sorte da próxima vez, Adrien. 

Visões do Passado (Backtrack / Austrália - Reino Unido - Emirados Árabes / 2015) de Michael Petroni com Adrien Brody, Sam Neil, Robin McLeavy e Bruce Spence. ☻

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

CICLO PIPOCA: O Agente da U.N.C.L.E.

Armie e Henry: não, eles não são modelos...

Sou daqueles fãs que já perceberam que aquele Guy Ritchie esperto que dirigiu Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch (2000) não existe mais. Hoje sei que ele foi totalmente absorvido pelo mainstream, uma espécie de efeito colateral de seu casamento e divórcio com Madonna, enfim, Freud explica. O fato é que desde que alcançou bilheterias milionárias com Sherlock Holmes (2009), o diretor se tornou um nome à frente de criar novos formatos para personagens famosos. Com Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras (2011) ocupando o posto de meu filme menos favorito de sua carreira (isso mesmo, atrás até mesmo de Destino Insólito/2002) eu não tive nenhuma empolgação de assistir sua versão cinematográfica para O Agente da U.N.C.L.E. até recentemente. O fato de algumas fotos promocionais do filme parecerem saídas de um catálogo de moda (incluindo a que ilustra essa singela postagem) também despertavam a minha desconfiança.  Na verdade eu tentei assistir ao filme outras três vezes, mas eu sempre dormia logo no início, só que ontem eu me obriguei a ver tudo até o final e depois que me acostumei com a atmosfera do filme o assisti sem problemas. O fato é que ele demora um pouco para engrenar entre as brincadeirinhas com o mundo da espionagem e a edição não ajuda muito ao repetir cacoetes de Ritchie em meio às várias reviravoltas da história. Baseado na famosa série dos anos 1960 sobre o período da Guerra Fria, o filme conta uma missão de Napoleon Solo (Henry Cavill um britânico sofrendo para disfarçar o sotaque na pele de um americano) onde ele tem que resgatar Gaby (Alicia Vikander), a filha de um cientista que vive disfarçada na Alemanha Oriental, só que ele é perseguido por um agente russo durante a missão. Solo não faz ideia que na segunda parte da missão ele terá que trabalhar ao lado do próprio agente russo, o temperamental Illya Kuriakin (Armie Hammer), para ajudar Gaby a encontrar o seu pai (que também desperta o interesse de espiões nazistas). Aos poucos o trio de personagens se afinam e a narrativa flui melhor quando descobrimos um pouco mais sobre a personalidade dos três - e o trio de atores charmosos conseguem dar conta de suas identidades escorregadias. No entanto, nem sempre alguma cenas alcançam suas intenções com a edição "estilosa" que nem sempre faz muito sentido, a sorte de Ritchie é contar com um elenco que consegue fazer algumas gracinhas com um roteiro não muito divertido (incluindo Hugh Grant em um papel que não lhe exige muito e Elizabeth Debicki que tem presença marcante). Curiosamente, embora tenha surpresas a cada quinze minutos e várias cenas de ação O Agente da UNCLE não chega a ser um filme empolgante, mas tenta manter alguma elegância enquanto se equilibra entre a seriedade e a gaiatice (mas eu só consigo imaginar o resultado se Ritchie não estivesse sob a coleira de um estúdio doido por uma franquia milionária). 

O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E./ Reino Unido-EUA/2015) de Guy Ritchie com Henry Cavill, Armie Hammer, Alicia Vikander, Hufh Grant, Elizabeth Debicki e Jared Harris. ☻☻☻

segunda-feira, 31 de julho de 2017

PL►Y: O Clã

Os Puccio: atrocidades no porão. 

Sinto certa inveja quando vejo os filmes argentinos. Sempre fico impressionado com as qualidades do cinema dos hermanos, a capacidade de criar narrativas com roteiros bem elaborados, atuações intensas e cortes precisos na ilha de edição, não que no Brasil não existam alguns poucos filmes que sejam assim mas... O resultado disso é que todo ano algum filme argentino impressiona por sua bilheteria astronômica entre o público do país. Em 2015 foi a vez de O Clã de Pablo Trapero superar as bilheterias do oscarizado O Segredo dos Seus Olhos (2009) e do badalado Relatos Selvagens (2014), o filme bateu recordes (um deles foi de em dez dias ser visto por um milhão e meio de espectadores) o que, realmente, não é para qualquer um. O filme conta a história real da família Puccio, uma família aparentemente normal, mas que praticava sequestros milionários no início da década de 1990 - mantendo suas vítimas por dias aprisionadas no porão até que o resgate fosse pago em vão, já que matavam seus reféns para evitar o risco de serem descobertos. O mentor desta família era o pai, Sr. Arquímedes (um assustador Guillermo Francella), que ganhova a vida como mentor de vários crimes quando era agente do serviço de inteligência da mais recente ditadura militar do país (1976-1983). O patriarca utilizava sua vasta experiência e conhecimento para driblar a polícia e os investigadores com muito jogo de cintura. Entre um sequestro e outro, o filme se concentra na relação do pai com o primogênito, Alejandro (Peter Lanzani) que se tornou até famoso ao integrar o time de rúgbi argentino. A relação entre os dois é o grande fio condutor da trama - sendo vivida em menor intensidade entre os outros herdeiros dos Puccio - já as herdeiras e a mãe parecem saber o que está acontecendo mas evitam maiores conflitos e envolvimentos. Trapero investe curiosamente numa narrativa pop para esta trama criminal. As cores são intensas, a música (curiosamente de hits em inglês) e  uso de um humor cruel geral (propositalmente) desconforto na plateia. O roteiro, embora não seja muito elaborado (apenas intensifica os conflitos entre pai e filho entre os sequestros que começam a desandar) consegue ser valorizado pelo excelente trabalho do diretor, especialmente na construção do horror palpável dos vizinhos e amigos que não imaginavam que aquela família fosse capaz de cometer tamanhas atrocidades. Guillermo Francella está sensacional como o pai desta família macabra! Seu olhar fixo e gélido (como se estivesse sempre à espreita) provoca arrepios e o faz bem diferente de sua simpática participação em O Segredo dos seus Olhos e de toda sua carreira como comediante. A cena da discussão final entre pai e filho e o último ato de Alejandro são verdadeiras aulas de cinema, onde cada detalhe é tira o fôlego do espectador. O mais curioso é que ainda que trate de uma história ocorrida há mais de vinte anos, O Clã ainda fala muito sobre várias famílias engravatadas que cometem crimes com a serenidade de quem come um pacote de jujubas - e aparecem com a mesma cara de pau todos os dias nos telejornais. 

O Clã (El Clan / Argentina - 2015) de Pablo Trapero com Guillermo Francella, Peter  Lanzani, Lili Popovich e Ranco Masini. ☻☻☻☻