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sábado, 29 de agosto de 2015

PL►Y: Calvário

Gleeson e O'Dowd: um padre e seus fiéis estranhos. 

John Michael McDonagh estreou na direção com o incomum O Guarda (2011), filme que rendeu para o veterano ator irlandês Brendan Gleeson uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator de comédia. Já que a parceria funcionou, McDonagh escalou Gleeson para ser o protagonista de seu filme seguinte, o elogiado Calvário (2014). Ambos deixam claro que o cineasta roteirista tem um humor bastante peculiar, que tende tanto para o humor negro, quanto para uma crítica ácida das instituições. Se isso acontecia em seu filme anterior sobre agentes, detetives e policiais, em Calvário sua lente aponta para a igreja católica. Será mesmo? No início, o padre James (Gleeson) recebe no confessionário um homem que diz ter sofrido abusos sexuais de um padre quando era criança e que, embora adulto, ainda não superou as marcas que aquele tempo lhe provocou. O diálogo chocante continua, quando ele afirma que o padre que o violentou está morto, mas que se estivesse vivo não adiantaria nada matá-lo, porque não adianta matar um padre ruim para deixar uma mensagem, a mensagem, para ser ouvida, tem que ser a partir do assassinato de um padre bom. Diante disso o homem gera mais do que uma confissão, mas um aviso "eu vou te matar, padre James"! Até a data é revelada (no próximo domingo), assim como o local (na praia). O futuro assassino diz que deixa uma semana para que o padre resolva sua vida. A partir daí, padre James não está disposto a denunciar o seu algoz (que somente ele sabe quem é, mas não revela a ninguém) pelo contrário, caminha pela cidade como se nada houvesse acontecido, interagindo com os moradores da cidade onde vive (inclusive com seu futuro assassino). Menos interessado em gerar o suspense de descobrir quem é o assassino do padre (eu percebi desde o início pela voz do ator), McDonagh prefere retratar a semana árdua do seu protagonista - onde ele reencontra a filha que tentou suicídio (Kelly Reilly) e os moradores da cidade: uma mulher (Orla O'Rourke) que apanha do marido açougueiro (Chris O'Dowd) por traí-lo com um mecânico (Isaach De Bankolé), um médico sádico (o bom Aidan Gillen de "Game of Thrones"), um inspetor de polícia (Gary Lydon) que passa o tempo com um garoto de programa (Owen Sharpe), o morador milionário esnobe da região (Dylan Moran), entre outros quase sempre desagradáveis com o protagonista. Tanta estranheza torna o programa um tanto sádico para a plateia. O ator Dylan Moran, em entrevista de divulgação do filme, deu uma ótima explicação para a hostilidade que a maioria dos personagens direciona para o padre: "Para alguns ele é um símbolo da igreja católica, para outros é um amigo. Para alguns é um conselheiro, para outros uma figura de autoridade... o que vemos são as diferentes reações que as pessoas tem ao redor do que ele representa naquela região". Sendo assim, James é o retrato de como os estigmas da instituição católica recaem sobre seus ombros (e onde ele mesmo se depara com o preço de uma certa indiferença de sua parte). Se levarmos em consideração sua responsabilidade sobre deixou suas "ovelhas saírem do caminho correto" (será que ele tinha realmente esse poder sobre elas?) e que a história é ambientada na Irlanda (em seu eternos conflitos religiosos), temos uma ideia do que McDonagh deixa nas entrelinhas da história. Quem curte humor negro irá considerar o filme uma obra-prima... mas eu ainda penso que quando todos os personagens convergem para uma única nota tudo fica um tanto cansativo e pobre em nuances, restando nos apegar às atuações do elenco que faz o que pode dentro de uma certa mesmice do roteiro. Para além de Gleeson (que já provou várias vezes ser um ótimo ator), chama atenção a presença sínica de Aidan Gillen, o nervosismo de Chris O'Dowd (num papel diferendo do que acostumamos a ver seu tipo simpático) e a esperteza do menino Michael Og Lane (que também teve presença marcante em O Guarda), Michael vive o coroinha que surge como um ponto de esperança numa cidade onde morrer pode ser melhor do que conviver com tanta hostilidade.



Calvário (Calvary/Irlanda - Reino Unido/2014) de John Michael McDonagh com Brendan Gleeson, Chris O'Dowd, Aidan Gillen, Kelly Reilly, Michael Og Lane e Dylan Moran. ☻☻☻

terça-feira, 13 de novembro de 2012

DVD: O Guarda

Gleeson e seu informante: beirando o surreal. 

De vez em quando uma comédia inglesa independente conquista a crítica internacional e garante alguma projeção pelo mundo. Ano passado a escolhida foi O Guarda do diretor estrante John Michael McDonagh (que também assina o roteiro). O filme consegue ser engraçado em vários momentos, mas está longe de ser a maravilha que todo mundo dizia ser. A graça está em ver a atuação do rechonchudo Brendan Gleeson na pele de um policial politicamente incorreto numa história onde a trama importa menos do que os personagens curiosos (e talvez por isso foi indicado ao BAFTA de roteiro original). O Sargento Gerry Boyle (Gleeson, indicado ao Globo de Ouro de ator de comédia pelo papel) trabalha numa pequena cidade irlandesa sem grandes emoções, quando recebe um novo parceiro(Rory Kennan). Neste dia eles se deparam com um caso de assassinato onde se lê  5¹/² escrito com sangue na parede -  e suspeitam que seja obra de um serial killer (mas as piadinhas envolvendo Fellini e Se7en dispersam qualquer suspense). Nesse mesmo dia eles são convidados por um agente do FBI (Don Cheadle) a participar de uma investigação contra traficantes internacionais, mas Boyle quase coloca tudo a perder ao dizer que imaginava que somente negros eram traficantes [sic]. Para complicar o jovem parceiro de Boyle desaparece e ele tenta ajudar a esposa (Katarina Cas) a encontrá-lo. Dizendo assim parece uma brincadeira com os filmes noir ao embaralhar crimes e suspeitos de uma forma quase aleatória, mas o centro de tudo é mesmo o personagem de Gleeson que nem parece ofensivo pelo jeito bronco bonachão com que diz as maiores sandices para o resto do elenco. É hilariante quando ele diz que não pode ajudar o agente do FBI por que é dia de folga ou quando se encontra com um informante precoce que está sempre passeando com o cachorro. Além de brincar com a personalidade irlandesa, o filme tem o mérito de manter o seu humor que beira o surreal  por toda a sessão (incluindo um fotógrafo amador que sempre aparece nas cenas dos crimes antes mesmo da polícia) e tenta deixar uma interrogação na cabeça do expectador em sua cena final. O fato é que por debaixo das piadinhas grosseiras, o filme é inofensivamente divertido com aquele humor tipicamente britânico, oops, quero dizer, irlandês! Vale ressaltar que John Michael McDonaugh é irmão de Martin McDonaugh (diretor do aclamado Na Mira do Chefe/2008) e compartilha com ele o mesmo senso de humor que lhes rendeu um Oscar pelo curta-metragem Six Shooter/2004

O Guarda (The Guard/Irlanda-2011) de John Michael McDonaugh com Brendan Gleeson, Don Cheadle, Mark Strong, Katarina Cas, Laurence Kinlan e Rory Kennan. ☻☻☻