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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

FILMED+: Hedwig


John Cameron Mitchell: ótimo diretor, ator, roteirista, cantor...

Involuntariamente acabei falando dos filmes de John Cameron Mitchell em ordem cronológica inversa e posso dizer que deixei o melhor para o final. Hedwig é uma peça escrita por Mitchell com ajuda do compositor Stephen Trask nas (ótimas) canções. A peça sobre o transexual que vendeu a alma para o rock se tornou um musical premiado, recebendo recentemente uma montagem paulista (a mesma que nasceu no Rio de Janeiro com elenco encabeçado por Paulo Vilhena e direção de Evandro Mesquita -devo dizer que em sua versão para os palcos brasileiros algumas ideias estapafúrdias não ajudaram muito, como o fato de Hedwig ser interpretada por dois homens, e que as canções perderam o impacto com a tradução e interpretação de nossos atores - que não cantam, apenas tagarelam as letras sobre uma banda enfurecida que não deixa ouvir o que eles dizem). Hedwig virou filme em 2001 pelas mãos de seu autor, Mitchell que ainda interpreta, com gosto,  o protagonista. Devo dizer que fico em dúvida se Mitchell é melhor ator ou diretor (já que consegue sempre lidar com uma série de ideias não muito simples de forma articulada e original, seja no drama - como o recente Reencontrando a Felicidade com Nicole Kidman - ou no drama erótico - Shortbus/2006). Ao encarnar Hedwig, Mitchell entrega uma atuação tão comovente quanto impagável, ele simplesmente desaparece em cena (quem já viu o moço vai ficar surpreso com sua cara de rapaz comportado) deixando-se levar pela personagem amargurada por ter suas canções roubadas por um ex-namorado, Tony Gnosis (Michael Pitt, que sempre convence em tipos esquisitos) que se torna famoso a partir delas. Hedwig na verdade é um rapaz nascido na Alemanha Oriental e padeceu do lado comunista do muro (como deixa bem claro primeira canção do filme, "Tear me down", que funciona como cartão de apresentação da trama). Para sair de seu país de origem se submeteu a uma cirurgia de mudança de sexo mal sucedida (que dá origem à "polegada raivosa" do título em inglês e ao nome de sua banda), tendo que assumir a identidade da mãe. O filme constrói a trajetória da personagem  através das músicas (que possuem letras geniais, como "The Origin of  Love" onde explica sua sexualidade híbrida ou o hino "Midnight Radio"). Ao contrário de Shortbus, Mitchell tem o maior cuidado para não deixar seu filme explicíto, optando por momentos puraramente lúdicos - como a utilização das canções, de desenhos de traço infantil para mostrar cenas desagradáveis da vida de sua estrela e o simbolismo das balas em formato de ursos sufocados dentro do pacote plástico. O filme tem tantas ideias e referências tão bem articuladas (glam rock, Nina Hagen, drag queens, Farrah Fawcett...) que é impossível ficar indiferente ao mundo incomum que Mitchell nos convida a mergulhar. Indo da comédia ao drama (tem como não se comover com Hedwig pedindo para amá-lo simplesmente do jeito que ele é?), o filme se equilibra entre a caricatura, o realismo e a fantasia de maneira que parece até fácil. Além dos prêmios de filme e direção em Sundance (2001) o filme ainda foi premiado no Festival de Berlim no ano de seu lançamento. O filme ainda obteve a merecida indicação ao Globo de Ouro (2002) de melhor ator de comédia/musical para Mitchell e acabou virando cult (tão cult que permanece inédito em DVD no Brasil). É o tipo de filme para ver e comprar a trilha, já que o filme merece lugar entre os melhores musicais de todos os tempos (é infinitamente superior às fraudes feitas por Rob Marshall). Voltando à minha dúvida se JCM ser melhor ator ou diretor, o cara ainda manda muito bem no palco (voz correta, punch rockeiro e a sensibilidade nas interpretações que colocam muito rockstar no chinelo)! O ato final, que é puro surrealismo, é de uma  profundidade inacreditável e retrata fielmente o momento em que Hedwig percebe que na vida tudo é transitório, das vitórias às derrotas. 

Hedwig - Rock, amor e Traição (Hedwig and The Angry Inch/EUA-2001) de John Cameron Mitchell com John Cameron Mitchell, Michael Pitt, Mirian Shor, Michael Aronov, Rob Campbell e Stephen Trask.

domingo, 25 de setembro de 2011

CATÁLOGO: Shortbus

 
Com a chegada de Reencontrando a Felicidade (2010) nas locadoras é provável que muita gente busque o conhecer o trabalho de John Cameron Mitchell (foto), mas é bom deixar claro que apesar de todo o tom singelo da trama protagonizada por Nicole Kidman e da cara de bom moço de seu diretor, o cara tem uma cabeça flamejante.  Famoso por ter levado às telas sua peça Hedwig (2001) sobre punk drags,  o moço resolveu radicalizar de vez com Shortbus (2006) - um filme que causou escândalo por suas cenas de sexo explícito inseridas num drama - o que não chega a ser uma novidade, apesar de raramente aparecer com tanta contundência e serventia à trama quanto em Shortbus. O título se refere a um clube onde os personagens se encontram para refletirem sobre seus dilemas sexuais e terem novas experiências na área. Mitchell escalou amigos para darem conta dos personagens de seu texto que gira em torno de um casal de homossexuais, James (Paul Dawson) e Jamie (PJ DeBoy) que aparentemente estão dispostos a aderirem ao relacionamento aberto e uma terapeuta sexual (Sook-Yin Lee) que não consegue atingir o orgasmo. É por conta do casal que ela começa a frequentar o clube do título e questionar o que acontece com seu corpo e mente, já que ama o marido mas não consegue atingir o ápice do prazer. Em suas dúvidas nem adianta utilizar explicações científicas ("para a reprodução humana o orgasmo feminino não tem obejtivo nenhum"), sua insatisfação é latente. Ao lado desses personagens existes outros tipos curiosos como a drag queen que serve de mestre de cerimônias desse point moderninho, uma dominatrix e seu namorado encoleirado, o esposo da terapeuta, um pretendente para James & Jamie, um senhor que lamenta não ter assumido sua homossexualidade e um voyeur. Há muito humor no filme, mas o que mais impressiona é a forma cuidadosa com que Mitchell constrói a história de seus personagens, com melacolia e solidão. Enquanto os mais conservadores devam reparar somente nas cenas de sexo explícito (reconheço que o começo do filme é um desafio explícito aos puristas), os mais espertos e capazes de entender um filme para adultos (com trocadilho, por favor) vão perceber que o filme trata da solidão dos conflitos internos com a sexualidade. Saber entender e articular a individualidade com o mundo é a grande questão evidenciada por Michell. O ônibus pequeno do título pode ser interpretado como um espaço fácil de acumular pessoas amontoadas, ou como o nosso corpo é capaz de abrigar diversos traços de personalidade. A criatividade de Mitchel em criar alegorias aparece em outros momentos, como a maquete de Nova York que abriga os personagens (que pode ser interpretada como a afirmação de que um filme não é capaz de captar com fidelidade absoluta a vida real, ou como todos são sujeitos que vivem no mundo criado por seu autor, ou, a melhor de todas, que é um olhar novo sobre uma cidade que cansamos de ver no cinema como um cartão postal). Você pode até se escandalizar com o filme, mas ao final da sessão terá a sensação de que viu um raro caso de originalidade ao lidar com um assunto que ainda é tabu - e a trilha sonora em colaboração com  Yo La Tengo (uma des melhores bandas indies de todos os tempos) só ressalta a visão única sobre o tema. Em determinado momento um personagem diz: "é como nos anos 60, só que com menos esperança", alimentando que não há há moralismo, vulgaridade ou hipocrisias no filme, trata-se de uma obra que trabalha a sexualidade com rara naturalidade (graças a um diretor que almeja estimular um músculo que ainda precisa ser muito trabalhado na espécie humana: o cérebro).    

Lee e Barker: falta algo nesse casamento...

 Shortbus (EUA-2005) de John Cameron Mitchell com Sook-Yin Lee, Raphael Barker, Paul Dawson, PJ DeBoy, Jay Brannan, Peter Stickles e Lindsay Beamish. ☻☻☻

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

DVD: Reencontrando a Felicidade


Kidman e Eckardt: a ausência como um tijolo no bolso.

A carreira de Nicole Kidman não andave bem. Desde que ganhou o Oscar por As Horas (2002) não emplacava um sucesso de bilheteria. Embora colecionasse bons trabalhos com diretores importantes como Lars Von Trier e Noah Baumbach, a maioria das pessoas preferia perceber os efeitos do botox em seus rosto do que sua atuação. Nicole chegou a falar em aposentadoria quando Austrália (2009) de Baz Luhrman naufragou nas bilheterias. Mas para tudo se tem um jeito. Reencontrando a Felicidade é uma espécie de tiro de misericórdia da atriz. Ela comprou os direitos da premiada peça Rabbit Hole e convidou John Cameron Mitchel para dirigir - com clara intenção de colocá-la novamente no páreo das premições (fora isso deixou de realizar as injeções de botox para evitar os sinais do tempo em sua face). O resultado é que depois de longo e tenebroso inverno, Kidman ficou novamente no páreo das principais premiações do ano (incluindo Oscar e Globo de Ouro), colhendo elogios de público e crítica. Nicole ainda foi responsável pela produção do filme (que custou 10 milhões de dólares, um valor considerável para revitalizar uma carreira) e o resultado é um filme simples, que não utiliza recursos baratos para envolver o público. Tudo no filme é direto, sem frescuras e absurdamente honesto. Nicole encarna Becca, uma mãe que sofre há oito meses com a morte de seu filho de quatro anos. Em busca de cicatrizar as feridas, Becca escolhe o caminho de apagar de sua frente qualquer vestígio que lembre o filho falecido. Seu esposo Howie (Aaron Eckardt, em mais um bom momento) opta por um caminho diferente, assiste a vídeos do filho e mantém o quarto dele intocado. O mais interessante do filme é justamente mostrar o período em que a vida deste casal tenta entrar nos eixos, quando decidem se desfazer das roupas do filho que perderam ou quando mostram o quarto do menino aos possíveis compradores da casa. Cada detalhe da casa parece emanar uma lembrança, cada frase ou olhar de quem se aproxima despertar memórias, todo este material resulta em atuações belíssimas. Outro diferencial do filme é a busca por conexões desse casal com o mundo, Howie começa a se envolver com uma parceira de grupo de auto-ajuda (Sandra Oh) enquanto Becca começa a ver nos encontros com o adolescente que vitimou seu filho (Miles Teller que parece anestesiado por boa parte do filme, mas até que funciona dentro da proposta de Mitchell) como uma espécie de terapia. Bons diálogos, ótimas atuações (incluindo Diane Wiest como a mãe de Becca), cortes precisos, trilha sonora perfeita e direção surpreendentemente contida de Mitchell (responsável pelo musical drag Hedwig/2001 e o erótico-cabeça Shortbus/2006) rendem momentos memoráveis como o momento em que Becca descobre que o filho faleceu (a cena se concentra somente em closes nas expressões de Kidman e Teller). É desta emoção arrebatadora, embora contida, que Reencontrando a Felicidade emana sua força narrativa de forma adulta e convincente.  Bem vinda de volta, Nic!

Reencontrando a Felicidade (Habbit Hole/EUA-2010) de John Cameron Mitchell, com Nicole Kidman, Aaron Eckardt, Miles Teller, Dianne Wiest e Sandra Oh.