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domingo, 1 de junho de 2014

NªTV: The Normal Heart

Bomer e Ruffalo: a ameaça da "peste gay" nos primeiros anos da AIDS.  

Ryan Murphy é um diretor que ganhou fama na TV à frente de séries como Popularidade (1999/2001), Glee e American Horror Story. À frente de filmes ele ainda pena para ser reconhecido, embora tenha realizado um dos filmes mais bacanas sobre adolescência que eu já assisti (o subestimado Correndo com Tesouras/2006). Depois do fracasso ele resolveu ser mais convencional quando topou adaptar Comer Rezar Amar (2010) onde Julia Roberts tornou a história insossa em sucesso de bilheteria. Não deixa de ser interessante que o diretor volte a ousar como cineasta, mas dessa vez num telefilme feito para a HBO. The Normal Heart é baseado numa peça sobre o efeito dos primeiros anos da AIDS num grupo de amigos homossexuais. O sucesso de Clube de Compras Dallas (2013) é a prova de que vasculhar a história da doença é sempre bem vinda e Ryan faz o mesmo aqui. No entanto, é preciso lembrar o contexto da história que acontece após a revolução sexual da década de 1970, onde os gays viveram todas as emoções que podiam entre até o início da década de 1980, quando o HIV surgiu como um freio, primeiro para eles e depois para o resto da humanidade para uma vida marcada por múltiplos parceiros sexuais. Os minutos iniciais do filme são utilizados para apresentar esses anos dourados, antes que a misteriosa doença aparecesse para trazer à tona o moralismo, que uma sociedade pretensamente liberal ainda escondia. A começar pela pecha que a AIDS recebia de "câncer gay" sob a colaboração do sarcoma de Kaposi. Não ia demorar muito tempo para que fosse classificada como peste gay (o que é muito bem trabalhado em E a Vida Continua/1993) e "praga", ou seja, um quadro clínico é logo rotulado com elementos impregnados de conotações religiosas. No meio disso tudo, a narrativa é centrada em Ned Weeks (Mark Ruffalo) uma espécie de líder de um grupo de amigos gays que percebe um padrão dentro das mortes de seus amigos próximos. Em meio às mortes que cruzam seu caminho, ele conhece a médica Emma Brookner (Julia Roberts), que enquanto não tem repostas para o que está acontecendo pede para que os amigos de Ned parem de manter relações sexuais. O que é recebido com risadas e frases de afronta perante o que consideravam ser sinais de um moralismo tosco. É no meio do medo que o câncer gay provoca entre seus amigos que Ned conhece o jornalista Felix Turner (Matthew Bomer com a pinta de Superman que apresenta na série White Collar), com que passa a ter um relacionamento sério. Ned e seus amigos se articulam para exigir pesquisas sobre a doença e além do descaso dos governantes (que não queriam se envolver com a palavra "gay" em seu discurso), da patrulha heterossexual e do sensacionalismo da mídia, ainda tinham que lidar com as dificuldades do próprio grupo lidar com o temperamento de Ned. Entre os amigos. Sempre existe uma queda de braço entre ele e Bruce Niles (o sempre insosso Taylor Kitsch) que tenta ser apaziguada por Tommy (Jim Parsons) diante do estresse crescente da narrativa. A jornada dos personagens de The Normal Heart merece ser conhecida, no entanto o diretor Ryan Murphy carrega no exagero. Na maior parte do tempo, o tom está acima do ideal. Grita-se muito e nem sempre as explosões de desespero parecem autênticas. Mark Ruffalo faz de Ned um sujeito quase insuportável, o qual podemos compreender seu desespero, mas que tendemos a concordar com seus amigos que ele sempre passa da conta. Mas existem outros colegas de elenco que também padecem de overacting quando deveriam brilhar na trama (e isso acontece até com Julia Roberts) que está melhor quando sua personagem é apenas amarga. No fim das contas, The Normal Heart funciona bem graças à atuação de Matt Bomer, que consegue dar conta de seu personagem sem pitis e com interpretação crível quando a exaltada perfeição física de seu personagem é devastada pela AIDS. Boomer confere a leveza que falta à histeria do filme (que deve ser lembrado nas premiações ao final do ano, embora Bomer possa ser esquecido pelo preconceito de ser um  homossexual interpretando um homossexual, como se héteros que interpretam héteros não merecessem reconhecimento). Sempre que Bomer que aparece em cena consegue nos contaminar com o que a aparição do HIV tem de mais doloroso: a interrupção irremediável da vida cheia de sonhos e possibilidades.

The Normal Heart (EUA/2014) de Ryan Murphy com Mark Ruffalo, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Julia Roberts e Jim Parsons. ☻☻☻

terça-feira, 12 de abril de 2011

DVD: Comer, Rezar, Amar


Javier & Julia: Talentos demais numa trama de menos.

Eu nem sei por onde começar a escrever sobre Comer, Rezar, Amar. Vou começar do começo, trata-se da adaptação do best seller da escritora Liz Gilbert, que após a crise pós-divórcio resolveu viajar e se recuperar dos altos e baixos do relacionamento. Sendo assim foi para a Itália desfrutar das belas paisagens e das massas, depois à Índia para encontrar a paz espiritual e depois foi para Indonésia encontrar com um guru e de quebra conhecer um brasileiro que poderia fazer acreditar novamente no amor. A mulherada caiu de amores pela obra e sua transformação em longa metragem era inevitável. O filme foi feito no capricho escalaram Julia Roberts para protagonizar, o criador de seriados (ousados como Glee e Nip/Tuck) Ryan Murphy para dirigir. Pediram aos indicados ao Oscar James Franco, Viola Davis, Richard Jenkins, além do (oscarizado) espanhol Javier Bardem e Billy Crudup para dar apoio ao elenco. Mas no fundo, apesar de tantos talentos, bela fotografia, locações deslumbrantes e roteiro simpático o filme é vazio. Não sei se é culpa do livro ou no meio do caminho esqueceram de perceber se no fundo queriam contar a história de uma mulher que precisa aprender que não são as coisas que conferem sentido à sua vida, mas sim, que sua vida dá sentido às coisas. Deu para entender? Vou tentar ser menos filosófico. Após o divórcio, a escritora Elizabeth Gilbert (Julia Roberts) acaba se envolvendo com um jovem ator (Franco) que adaptou sua obra para uma peça de teatro-cabeça. Talvez por perceber que ele capta a essência de seu livro (e portanto estaria apto a captar seus anseios) acaba engatando um romance com ele. Logo as diferenças começam a surgir e apresentá-la às delícias da meditação não são suficientes para segurar a relação. Ela acaba viajando para lidar melhor com seus problemas. Na Itália parece se libertar da culpa de saborear uma bela macarronada e várias fatias de pizza – o que a ajuda a lidar com o fato de que os homens não se importam tanto assim com um pneuzinho, ou até dois. Depois vai para Índia atrás de um equilíbrio interior que acredita ser alimentado por uma sala de meditação ou uma guru mundialmente famosa. Nesse momento começa a perceber que boa parte dos problemas que percebe em sua vida não passa de xiliques, principalmente ao conhecer Richard (Jenkins). Quando acha que finalmente encontrou seu equilíbrio ela parte para Indonésia atrás de um guru conhecido e encontra uma nova chance de amar. Para nós brasileiros a coisa fica meio esquisita quando vemos o espanhol Javier Bardem num português sofrível, mas o cara é bom ator em qualquer idioma. Sem querer desmerecer a atuação de Julia Roberts (que mais uma vez encarna uma personagem de best seller atrás de uma indicação ao Oscar) ela não consegue disfarçar o quanto sua personagem tem problemas sérios em lidar consigo mesma, especialmente quando ama. Essa insegurança em lidar com as emoções quase esgotam suas chances de ser feliz até o que se anuncia. No fim da sessão sobra pouco para lembrar além da embalagem do filme (belas locações, fotografia e trilha sonora caprichadas) - eu, por exemplo,  só lembro daquela pizza saboreada pela personagem. É um romance aguado com açúcar, mas talvez seja isso mesmo que as pessoas procuram ao assisti-lo, mas sinceramente, uma ficha técnica dessas merecia muito mais. Sorte mesmo teve Javier, que se tornou amigo de Julia, que acabou realizando um jantar para conseguir uma vaga para o espanhol na categoria de Melhor Ator no Oscar deste ano. Mas isso já é outra história...

Comer, Rezar, Amar (Eat Pray Love/EUA-2010) de Ryan Murphy com Julia Roberts, Javier Bardem, Viola Davis, James Franco, Billy Crudup e Sophie Thompson. ☻☻ 

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Catálogo: Correndo com Tesouras


Cross e Benning: O caos interno administrado com pílulas

Sempre que eu escuto falar de Ryan Murphy (o diretor de Comer, Rezar, Amar) a primeira coisa que me vem à cabeça é seu envolvimento com a criação do seriado Nip/Tuck, onde as entranhas da cirurgia plástica eram expostas em seu envolvimento mais sombrio e irônico com o sexo e a auto-estima (entre outras coisas do mundo adulto). Em 2006 Murphy chegou aos cinemas dirigindo a adaptação do best seller "Correndo com Tesouras", que foi tido como um dos favoritos às premiações daquele ano, mas o fracasso de bilheteria acoplado ao estranhamento que o filme causava não ajudou. Mas não se assuste, Correndo com Tesouras é um filme mais interessante do que o protagonizado por Julia Roberts. Assim como Comer, Rezar, Amar, também é baseado numa auto-biografia, no caso a de Augusten Burroughs (no filme vivido por um inspirado e pouco conhecido Joseph Cross) um adolescente que cresceu entre o distanciamento do pai (Alec Baldwin) e as loucuras de sua mãe aspirante à poetiza (Annete Benning, digna de Oscar). Por uma dessas loucuras que só aconteceriam na década de 1970, sua mãe se entope de anti-depressivos e o jovem acaba ficando sob a tutela do psiquiatra dela (Bryan Cox). Esse momento promete ser um rito de passagem doloroso para o protagonista, uma vez Burroughs adora a mãe - o que a transforma em um referencial importante na construção de sua identidade, incluindo a homossexualidade do rapazinho, desde sempre evidente. A casa do psiquiatra parece uma versão de Família Adams Sanatorial. A esposa (Jill Clayburgh) parece catatônica e deixa a árvore de natal montada o ano inteiro, a filha adotiva caçula (Evan Rachel Wood) gosta de brincar com o aparelho de dar choques na cabeça dos pacientes, a filha mais velha  (Gwyneth Paltrow numa ponta divertida) cria um gato numa gaiola e o filho mais velho (Joseph Fiennes) é um psicopata que planeja matar seu pai adotivo (além de ser homossexual, mas isso não é um problema para Augusten, que logo se interessa pelo sujeito). Com personagens estranhos em situações que beiram o limite o filme merece atenção pela trajetória de Augusten que aos dezesseis anos precisa fazer suas próprias escolhas para não sucumbir ao ambiente ao seu redor.Além disso, Murphy se mostra um bom diretor de atores e arranca atuações memoráveis de Benning, Cross e Fiennes, pena que nem todo tipo de público curte um filme com escrita forte e vigor ao mergulhar na loucura de seus personagens - num período onde começaram a disfarçar nossas dores psicológicas com pílulas.

Correndo com Tesouras (Running with scissors/EUA-2006) de Ryan Murphy com Joseph Cross, Annette Benning, Bryan Cox, Evan Rachel Wood, Joseph Fiennes e Alec Baldwin. ☻☻☻☻