domingo, 30 de agosto de 2026

PL►Y: O Convite

Seth e Olivia: casal anfitrião em crise. 

Entusiasmado diáriw, fico muito feliz de ver Olivia Wilde reencontrando seu caminho como diretora após a bagunça de Não se Preocupe, Querida (2022). A diretora brigou para que seu terceiro filme fosse lançado nos cinemas e chegou a recusar uma proposta robusta da Netflix que o lançaria direto no streaming. O resultado é um sucesso de bilheteria abraçado pelo público adulto que estava carente de um comédia madura ancorada em diálogos e atuações inspiradas. Baseado no filme espanhol Sentimental (2020) de Cesc Gay, o roteiro de Rashida Jones e Will McCormack  onsegue dar aos personagens novas nuances que torna tudo mais interessante. O filme conta a história do jantar promovido por Angela (Olivia Wilde) para os seus vizinhos, Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) - mesmo que seu esposo, Joe (Seth Rogen) seja contra. A situação anda tensa entre o casal anfitrião, Joe é frustrado com sua carreira na música e Angela nunca conseguiu se dedicar à sua profissão, ficando presa às neuras de afazeres cotidianos. Já os convidados são descolados e tem uma vida sexual audível que mostra-se ainda mais movimentada do que os seus vizinhos suspeitavam. Entre diálogos afiados sobre a vida dos casais e alguns constrangimentos surge um convite inesperado para o casal em crise sair da rotina. Olivia Wilde faz um ótimo trabalho na direção, os atores apresentam uma ótima sintonia e a narrativa do filme flui de forma surpreendente levando em consideração a ambientação em uma única locação. Utilizando a estrutura do apartamento para emoldurar seus personagens, O Convite tem um pouco do cinema de Woody Allen quando ele dizia "vamos parar de rir e falar sério" e, não por acaso, o filme é dedicado à Diane Keaton (musa master do cineasta cancelado). Eu amei a última cena que deixa o final em aberto. 

O Convite (The Invite / 2026) de Olivia Wilde com Olivia Wilde, Seth Rogen Penelope Cruz e Edward Norton. ☻☻☻☻ 

PL►Y: Michael

Jafaar: honrando o legado do tio. 

Sonoro diáriw, a cinebiografia de Michael Jackson rende mais de um bilhão de bilheteria. Enquanto estava em cartaz era comum ver as reclamações com uma plateia disposta a render-se à empolgação e cantar junto, levantar e dançar na frente da tela. O repertório do Rei do Pop justificaria a postura de quem esqueceu os bons modos em casa e achou que iria para um show? Fato é que a trilha sonora de Michael é realmente empolgante e quem vivenciou aquele tempo em que ele dominava as rádios e a MTV (antes de se tornar um sujeito estranho) viverá uma compreensível nostalgia. Tirando a música do filme não sobra muita coisa no longa assinado por Antoine Fuqua. O roteiro de John Logan é capenga e se limita a costurar com algumas situações da vida do cantor os momentos dedicados aos seus maiores sucessos, no entanto vemos pouco do processo criativo do artista e nada de sua complexidade artística ou enquanto sujeito. De resto temos Jaafar Jackson (sobrinho do Michael) convincente como o cantor enquanto está cantando, dançando e consegue representar os gestos, olhares sorrisos e voz do tio, mas como ator o material que tem em mãos é pouco para trabalhar, já que os conflitos do protagonista estão mais vinculados à sua figura paterna opressora (vivido por Colman Domingo fazendo mais do que o roteiro lhe oferece) do que as suas ambições. Desta forma o final não poderia ser muito diferente do que ele anunciando sua saída do crivo do pai, mas é como cinema é pouco. A produção é bem cuidada, as luzes, a montagem, o som... mas o texto é fraquíssimo. O Rei do Pop merecia mais. Não por acaso a mana Janet Jackson pediu para nem ser mencionada na produção. Terminando na era Bad (1987), o filme terá uma sequência que acompanhará os anos mais complicados da carreira de Jackson. Imagino como será...  

Michael (EUA-2026) de Atoine Fuqua com Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Mike Myers, Laura Harrier, Jessica Sula e KeiLyn Durrell Jones. 

sábado, 29 de agosto de 2026

PL►Y: 9 ¹/² Semanas de Amor

Kim e Mickey: relacionamento tóxico. 
Amoroso diáriw, este filme faz parte daquela lista de "filmes muito falados que eu nunca assisti". Nunca tive muita vontade de assistir, acho que por pré-conceito mesmo já que sempre imaginei que era sobre uma casal apaixonado até que o amor acabava antes da décima semana. Confesso que fiquei surpreso em perceber como o filme tem mais nuances do que a pecha de romance erótico que atribuíram a ele. As cenas de sexo são  discretas e não deve deixar espectadores impressionados, mesmo contando com os corpos jovens de Kim Basinger e Mickey Rourke. Ele vive um executivo charmoso e um tanto misterioso, ela vive uma mulher que ainda tenta lidar com as feridas de um divórcio. Os dois começam um tórrido relacionamento amoroso, mas logo nas primeiras cenas você percebe que o rapaz é meio cretino e curte promover umas situações humilhantes com sua amada. Chamar de amada é um tanto demais, já que eu não enxerguei muito amor no filme. Percebi desejo, tesão, fantasias e fetiches, mas amor... a coisa fica ainda mais complicada quando percebemos a vulnerabilidade de Elizabeth em um relacionamento que mexe em algumas feridas de  sua auto-estima. Dizem que o diretor Adryan Lyne (que se tornou expert em dramas sexuais já no ano seguinte com Atração Fatal/1987 e depois vieram Proposta Indecente/1993, Lolita/1997 e Infidelidade/2002) tinha várias horas de filme que foram cortadas e que davam um sentido muito mais complexo (e ordenado) para o relacionamento entre os personagens. No fim das contas achei um filme ousado para época (foi fiasco nos EUA e sucesso na Europa) e serviu para dar status de estrela para o casa principal. Décadas depois cada um receberia uma indicação ao Oscar, mas neste filme Kim tem cenas de partir o coração (e nunca tinha imaginado como ela parecia com a Liv Ullman!). 

9 ¹/² Semanas de Amor (9¹/² Weeks / EUA - 1986) de Adrian Lyne com Kim Basinger, Mickey Rourke, Margareth Whitton, Sarah Kernochan, Christine Baranski e David Marguiles. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Pódio: Tim Curry

Bronze: o palhaço maldito. 

3º It - Uma Obra-Prima do Medo (1990) Antes de Bill Skarsgård encarnar o palhaço macabro criado por Stephen King no cinema em 2017, foi Tim Curry que deixou muita gente com medo de palhaço (tem até nome para isso: coulrofobia) ao viver o ser misterioso que personifica os medos alheios (para se alimentar dos próprios temerosos). Na produção feita para TV em 1990 em formato de minissérie (e chegou por aqui em VHS duplo para dar conta de suas mais de 3 horas de duração), o palhaço sinistro inferniza a vida de sete pré-adolescentes que na vida adulta precisam derrotá-lo. Tim é o destaque da produção com sua caracterização assustadora que nunca mais deixou um palhaço ser visto da mesma forma. 

Prata: O Coisa Ruim.
2º A Lenda (1985) Antes de dar conta do palhaço do mal, Tim viveu o Senhor das Trevas em pessoa neste filme de Ridley Scott. Você deve estar se perguntando o motivo dele estar na medalha de prata e não na posição do bronze. O fato é que eu tinha mais pesadelos com o chifrudo depois de ver o filme estrelado por Tom Cruise do que com o palhaço maldito. No entanto, de nada valeria a caracterização impecável (os chifres gigantes, os dentes pontudos e até o corpo torneado) se a alma do coisa ruim não fosse um ator do porte de Tim Curry. Formado em Teatro de Birmingham e com vasta experiência em musicais, o ator demonstra uma expressividade facial e física que faz toda a diferença para viver um ser tão malévolo. Um clássico esquecido que merece ser revisto. 

1º O Transexual Transilvânia
1º Rocky Horror Picture Show (1975) Quando assisti ao filme dirigido por Jim Sharman na adolescência eu imaginei que aquele ator que vivia o cientista alienígena transexual do planeta Transilvânia teria recebido vários prêmios pelo seu trabalho. Não foi bem assim. O filme foi um fracasso de bilheteria, mas ao longo dos anos os produtores perceberam que uma parcela do público desenvolvia um verdadeiro culto em torno dele em sessões à meia-noite. Tornando-se cult na marra, o musical alucinadamente queer sobre um casal comportado que vai parar no castelo habitado por um grupo de criaturas, digamos, diferentes, tornou o personagem Frank'n Furter em um ser icônico do cinema e tudo por conta da energia contagiante impressa por Tim Curry. Só por este papel, ele já merece o céu junto aos Deuses do Cinema. 

4EVER: Tim Curry

19/04/1946 ✰ 25/08/2016
Timothy James Curry nasceu em Cheshire na Inglaterra filho de uma secretária escolar e um capelão, formou-se em Inglês e teatro na Universidade de Birminghan. Após trabalhos nos palcos e na TV, sua estreia no cinema aconteceu em 1975 na pele do antológico cientista Frank'n Furter no cultuado musical The Rocky Horror Show. O papel icônico lhe rendeu vários convites para papéis parecidos, mas Curry decidiu escolher papéis bastante diferenciados ao longo da carreira. Tim também ficou famoso por seu trabalho como dublador e continuou seus trabalhos até 2024 mesmo após ter sofrido um AVC em 2012. A causa da morte não foi informada. 

4EVER: Dolly Parton

19/01/1946 ✰ 25/08/2026
Dolly Rebeca Parton Dean foi a quarta filha de uma família de doze irmaõs. Nascida no Tennesssee em uma família de agricultores, Dolly começou a cantar na infância na igreja e posteriormente na rádio local. Diante do reconhecimento foi para Nashville após a conclusão do Ensino Médio e ficou famosa após aparecer em um programa de TV. Dolly conquistou vários prêmios e também se destacava como atriz, empresária, produtora, compositora e filantropa. Entre seus clássicos estão Jolene e I Will Always Love You. Dolly concorreu ao Oscar de melhor canção duas vezes e recebeu um prêmio especial este ano. Dolly faleceu tratando um câncer. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

NªTV: Clarice

Breeds: o legado da agente Starling. 
Querido diáriw, O Silêncio dos Inocentes (1991) foi o primeiro filme de gente grande que assisti. O longa se tornou um clássico, com performances inesquecíveis de Anthony Hopkins e Jodie Foster. Com o mérito de ser um dos poucos filmes a receberem os cinco principais prêmios do Oscar (filme, direção, ator, atriz e roteiro adaptado da obra de Thomas Harris), o filme se tornou uma referência do gênero policial. Embora tenha rendido vários derivados, nada se compara à grandiosidade do filme de Jonathan Demme. Eis que dia desses procurando algo para assistir no Prime Video encontrei a série Clarice, lançada em 2021 que apresenta o que acontece com a agente Starling após os fatos do filme. Embora tenha durado somente uma temporada, a série prendeu minha atenção e a considerei bastante interessante ao capturar detalhes do filme que poderiam ser aprofundados (e como tem desdobramentos possíveis!). A começar pelo estresse pós-traumático da jovem Clarice (vivida pela competente Rebecca Breeds que reproduz alguns elementos da atuação de Foster) após o confronto com Bufallo Bill e a proximidade com Lecter (que por motivos de direitos autorais não pode ter o nome citado na produção). Depois de um ano de licença, Clarice voltou ao batente cheia de prestígio, mas insegura ao lado de uma equipe. Agora, ela ajuda a desvendar mortes que parecem executadas por um serial killer, mas sua capacidade de olhar para os lados menos óbvios do caso permanece intacta.  A série sofreu críticas por não trazer nada de novo e parecer com outras séries policiais em exibição. Só esqueceram que a série se inspira na atmosfera do filme que serviu de referência para quase tudo ligado à investigações que veio depois dele. A temporada é satisfatória, o elenco é bom, os personagens são interessantes e eu veria mais algumas temporadas sem problemas. 

Clarice (EUA/2021) de Jenny Lumet e Alex Kurtzman com Rebecca Breeds, Michael Cudlitz, Lucca de Oliveira, Marnee Carpenter, Devyn A. Tyler e Nick Sandow. ☻☻☻☻.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

4EVER: Glória Menezes

19/10/193418/08/2026

Nilcedes Soares de Magalhães nasceu em Pelotas no Rio Grande do Sul e se tornou famosa como Glória Menezes. Ela iniciou a carreira na televisão nos anos 1950 e se consagrou com sua personalidade múltipla no clássico Irmãos Coragem (1970), em que fez par com o esposo Tarcísio Meira. Em sete décadas de carreira encarnou papéis inesquecíveis (como esquecer da Laurinha de Rainha da Sucata/1990?) e fez história no cinema ao atuar em O Pagador de Promessas (1962) único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes e primeiro longa brasileiro indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Gloria estava afastada das novelas desde 2015 e faleceu de causas naturais. 

4EVER: Laura Cardoso

13/09/1927 ✰ 17/08/2026
Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni nasceu em São Paulo e se tornou uma referência da dramaturgia brasileira. Com papéis no rádio, teatro, cinema e televisão, ela começou a carreira em 1950 e participou de mais de uma centena de produções. Ao longo de décadas fez papéis importantes em Mulheres de Areia (1993), A Viagem (1994) e Chocolate com Pimenta (2003). Seu último trabalho na TV foi em A Dona do Pedaço (2019). No cinema fez mais de trinta filmes, entre eles os premiados Terra Estrangeira (1995) e Através da Janela (2000). A atriz faleceu de causas naturais. 

domingo, 16 de agosto de 2026

4EVER: Hayden Panettiere

21/08/1989 ✰ 16/08/2026

Hayden Lesley Panettiere nasceu em Nova York e estreou como atriz profissionalmente em 1994 quando participou da novela One Life to Live, mas ficou mundialmente famosa quando a série Heroes (2006-2010) estreou e ela se tornou o verdadeiro lema da série ao viver a ("salve a") líder de torcida, Claire Bennett. O primeiro ano da série se tornou febre mundial e abriu portas para novos projetos como a série Nashville (2012-2018) que lhe rendeu duas indicações ao Globo de Ouro. No cinema, seu papel mais famoso foi como Kirby personagem introduzida na franquia Pânico em 2011. A causa da morte da atriz não foi divulgada.   

Na Tela: O Fim da Rua

Anne: meus vizinhos dinos. 

Dedicado diáriw, acredito que Anne Hathaway receberá algum prêmio de funcionária do ano, já que este já é o terceiro filme com ela que assisto no cinema em 2026. Colaboraria muito com o prêmio o fato que ela foi bastante criteriosa nas escolhas feitas. Uma continuação, a adaptação de um clássico e um filme de dinossauro! O Fim da Rua pode ser visto como um Jurassic Park/1993 em pequena escala, o que não prejudica em nada o andamento do filme que já dizem ser o melhor filme de dinos desde o primeiro filme da franquia. Produzido por JJ Abrams, o filme conta a história de uma família do ano de 1982 que após o clarão em meio a uma noite de chuva é levada para mais ou menos uns 200 milhões de anos atrás. O fato é que não foram só eles que viajaram no tempo, mas todo o bairro foi levado para o passado e agora, os vizinhos que discutiam por conta de cachorros no quintal e brigas infantis, agora precisam correr para salvar suas vidas. O roteiro e a direção são de David Robert Mitchell, que depois de toda a confusa pretensiosa de O Mistério de Silver Lake (2018) resolveu simplificar as coisas e fez uma trama simples e redonda sobre um casal em crise que precisa lutar para manter a família... inteira. Hathaway vive a mãe que deseja ser escritora (e escreve escondida no porão), Ewan McGregor vive o pai que faz uns bicos para pagar as contas, Maisy Stella e Cristian Convery vivem os filhos que acham que um divórcio se anuncia. Sem perder de vista os personagens, Mitchell capricha nos efeitos especiais e na construção do suspense, tal e qual fez muito bem no seu aclamado A Corrente do Mal (que em breve terá uma sequência). Uma produção com aquele gosto especial de filme pipoca dos bons. 

O Fim da Rua (The End of Oak Street/EUA-2026) de David Robert Mitchell com Anne Hathaway, Ewan McGregor, Cristian Convery, Maisy Stella, Jordan Alexa Davis, P.J. Byrne e Hudson Meek. ☻☻☻

sábado, 15 de agosto de 2026

PL►Y: Song Sung Blue

Kate e Hugh: irresistíveis no palco. 

Surpreso diáriw, havia uma dúvida sobre quem ficaria com a quinta vaga na disputa pelo Oscar de melhor atriz e houve uma surpresa geral quando Kate Hudson cravou sua indicação ao prêmio (mesmo sendo indicada antes ao Globo de Ouro, BAFTA e prêmio do Sindicato). Vendo o filme é fácil entender o motivo da atenção recebida. Ela está bastante carismática em uma personagem mãe solo, que tem voz, presença de palco e vive uma mudança brusca na vida devido a um acidente. Embora não tivesse chances de levar a estatueta, não considero um equívoco diante de tantas presepadas já indicadas por conta de campanhas milionárias. O filme é ambientado num mundo bastante particular dos anos 1980, com atmosfera kitsch (leia-se cafona) e músicas antigas. Ela vive Claire que conhece Mike (Hugh Jackman) nos bastidores de shows de covers de artistas famosos. Os dois se juntam para fazer shows com canções de Neil Diamond e se tornam famosos enquanto vivem um romance que gera até um casamento. Baseado na história real de Lightining e Thunder, dupla que ficou famosa em Milwauke e chegaram a abrir shows para o Pearl Jam, o filme se beneficia muito do talento de Kate e Jackman (que ama fazer musicais) que apresentam uma química irresistível e prende nossa atenção até quando o filme vira um melodrama daqueles! Se a primeira parte é uma celebração à música, a segunda investe pesado nas dificuldades do casal e tende a se tornar um filme de superação. Com base no documentário de mesmo nome, o filme altera algumas situações em nome da dramaticidade, mas se torna uma produção a que se assiste com facilidade, do tipo que dificilmente cai nas graças dos atuais votantes do Oscar. Eu gostei justamente por ser despretensioso e de puro entretenimento. 

Song Sung Blue (EUA -2025) de CRaig Brewer com Hugh Jackman, Kate Hudson, Ella Anderson, Hudson Hensley, King Princess, Michael Imperioli, Jim Belushi, Fisher Stevens e Kena Anae. 

PL►Y: Engolidos

Koch: terror queer. 

Platônico diáriw, fiquei surpreso com o que o diretor Carter Smith faz neste filme. Ainda que o último ato seja bastante problemático, Engolidos é um terror que tem orgulho de ser queer - e eu nem imaginava isso diante das pistas presentes no cartaz e no título. O filme conta a história de dois amigos que estão em uma noite de despedida. Benjamin (Cooper Koch) está prestes a ir para Los Angeles para se tornar um astro pornô e o amigo Dom (Jose Colom) está disposto a ajudá-lo a ter algum dinheiro para se estabelecer por lá. Os dois resolvem traficar drogas para o Canadá em uma única noite, só não imaginavam que teriam que engolir uns pacotes com uma substância misteriosa. Como o mundo é cruel, uma briga ocorre por conta de preconceito e um soco no estômago de Dom faz com que se deem conta de que a tal substância é mais perigosa do que imaginavam. Tendo que resolver a situação, Ben só pode contar com a ajuda de quem os colocou naquela situação, a traficante Alice (Jena Malone) e a coisa só piora quando o chefe dela (Mark Patton) entra em cena. O que prendeu minha atenção no filme foi a relação entre Ben e Dom, dois amigos que diversas cenas sugerem que poderia haver algo mais, caso o roteiro seguisse caminhos mais convencionais, mas como é um terro que flerta com o body horror a relação entre os dois envereda por um caminho totalmente diferente com direito a cenas bastante incômodas. O laço entre os dois ajuda a relevar as guinadas bruscas da história e os horrores que precisam passar, mas o terceiro ato se torna longo e arrastado demais para manter o interesse. Enquanto terror queer, eu não tinha visto nada parecido com o que acontece em Engolidos, com nudez masculina, ereções e... melhor nem escrever, o filme faz horror com o que para muitos seria puro fetiche.  

Engolidos (Swallowed / EUA-2022) de Carter Smith com Cooper Koch, Jena Malone, Mark Patton, Jose Colom e Roe Pacheco. 

PL►Y: Erupcja

Charli: estreia no cinema. 

Vulcânico diáriw, existe um bocado de esperteza da cantora inglesa Charli XCX estrear no cinema como Bethany neste filme de Pete Ohs, mas também existe um tantinho de coragem por não viver uma personagem fácil. Ela vive uma turista britânica que passeia por Varsóvia na Polônia com o namorado, Rob (Will Madden). Enquanto ele está todo animado em preparar momentos românticos para pedi-la em casamento, ela está mais interessada em encontrar Nel (Lena Góra), uma jovem florista. O título vem da estranha coincidência de que sempre que as duas se encontram (fato que ocorre esporadicamente desde que Bethany tinha 16 anos), um vulcão entra em erupção. As duas consideram que isso seja algo especial e resolvem aproveitar o tempo em que estão juntas para deixar os compromissos de lado. Rob não entende muito bem o que está acontecendo, mas sente na pele a instabilidade e um tanto de irresponsabilidade emocional da namorada, assim como o interesse amoroso de Nel que já passou por isso. Vale dizer que desde o início sabemos que Nel está interessada em Ula (Agata Trzebuchowska), mas não sabe muito bem o que fazer com isso. Erupcja se desenvolve com o auxílio de um narrador e surpreende ao deixar de lado qualquer envolvimento sexual entre as duas amigas, embarcando numa fantasia que as duas criaram para si (e que um certo personagem desconstrói), mas que ao mesmo tempo pode esconder um desejo nunca plenamente assumido. Erupcja foi exibido no Festival de Toronto e dividiu opiniões pela forma como a trama se desenvolve sem muita pretensão ou novidades perante as possibilidades que possui. Sobre a performance de Charli, ela é discreta, mas consegue preencher sua personagem com uma vida interior que permanece um enigma até o fim da sessão. 

Erupcja (EUA-Polônia) de Pete Ohs com Charli XCX, Lena Góra, Will Madden, Jeremy O. HArris, Agata Trzebuchowska, Maja Michnacka e Jacek Zubiel. 

NªTV: Diários de Um Robô Assassino

Alexander: ótima fase. 

Robótico diáriw, se tenho algum arrependimento com esta série da AppleTV é não ter assistido antes. A boa notícia é que vou esperar menos pela nova temporada que deve estrear no ano que vem! Diários de Um Robô Assassino é baseado na série de 4 livros de Martha Wells que se tornou um sucesso entre os fãs de ficção-científica. O grande motivo do sucesso é a construção irresistível do protagonista, um robô de segurança que consegue hackear o próprio sistema para fazer o que bem entende (no caso assistir, séries de ficção científica e tecer comentários sarcásticos sobre a humanidade). O personagem caiu como uma luva no dinamarquês Alexander Skarsgård que está na melhor fase de sua carreira. Enquanto protagonista ele consegue dar conta de todas as angústias e inseguranças perante o medo de seu "defeito" ser descoberto e leva-lo à destruição. A sorte é que ele se torna responsável pela segurança de um grupo de cientistas "alternativos", com tendências hippies e à vida em comunidade, o que os leva a ficar no meio do caminho entre acolher o protagonista ou desconfiar de que ele possa matar todo mundo. O elenco está bastante coeso em cena e são as relações do grupo que movem as cenas de ação e os muitos momentos de humor. Destaque para Dra Mensah (Mona Dumezweni) e Gurathin (David Dastmalchian) que exemplificam bem a relação hesitante dos humanos com o "equipamento" de segurança. Durante os dez episódios o protagonista descobre que seu livre-arbítrio o aproxima mais de ser humano do que ele imagina. O fato é que a série não funcionaria sem Alexander (que também assina a produção) que com expressões contidas e olhares intensos, consegue da conta dos circuitos contraditórios de uma máquina pensante. Feito pelos manos Chris e Paul Weitz (separados desde o sucesso Um Grande Garoto/) a produção é um grande acerto. 

Diários de Um Robô Assassino (Murderbot/EUA - 2025) de Chris e Paul Weitz com Alexander, Skarsgård, Mona Dumezweni, David Dastmalchian, Sabrina Wu, Akshay Khanna, Tamara Podemski, Tattiawna Jones, John Cho e Clark Gregg. 

domingo, 9 de agosto de 2026

PL►Y: Undertone

Nina: maldição caótica. 

Aterrorizado diáriw, a julgar pelos filmes de terror que recebem atenção atualmente, posso dizer que os slasher movies e seus serial killers mascarados estão em baixa. A ideia agora é investir pesado no terror psicológico, no poder da sugestão, nos silêncios e brincar com medos mais íntimos da plateia. Nessa esteira que Undertone chegou aos cinemas. A trama se concentra em Evy (Nina Kiry), uma jovem cética que produz um podcast junto com o amigo Justin (Adam DiMarco) voltado para histórias assustadoras. Recentemente ela precisou se mudar para cuidar da mãe doente, este e outros aspectos da vida pessoal de Evy irão influenciar bastante a forma como ela lida com o trabalho quando recebe um conjunto de dez gravações de áudio de um casal desconhecido. Durante cada áudio escutado cresce a sensação de que algo estranho aconteceu com o casal que estava prestes a ter o primeiro filho. Evy sempre tenta explicar o que está acontecendo pela luz da lógica, mas aos poucos ela começa a perceber que em sua própria residência situações estranhas começam a acontecer. Undertone faz com que o espectador se identifique com a personagem por compartilhar com ela a audição dos áudios angustiantes, mas o filme escorrega quando na última meia hora precisa dar conta de concluir o que está acontecendo e tudo vira uma grande bagunça. Um misto de alucinação, culpas, maldições, entidades e crendices religiosas que são costuradas meio de qualquer jeito até que os créditos apareçam. Era uma ideia original com desenvolvimento irregular até virar um caos completo.  No entanto, não deixa de ser uma estreia promissora do canadense Ian Tuason. 

Undertone (Canadá-2025) de Ian Tuason com Nina Kiri, Adam DiMarco, Michèle Duquet, Jeff Yung, Ryan Turner, Keana Kyn Bastidas. 

PL►Y: Fremont

Zada: coração desamparado. 
 Isolado diáriw, Fremont é o tipo de filme que gosto muito de assistir, mas que é difícil de encontrar e de realizar. Tem um senso de humor sutil, um drama que é contado nas entrelinhas e se desenvolve com bastante fluidez entre silêncios e situações. O filme conta a história de Donya (Anaita Wali Zada), uma afegã que vive na cidade californiana do título em um prédio com outros afegãos, alguns não falam com ela devido ao período em que trabalhou como tradutora para os EUA no Afeganistão (cerca de 17.000 vistos americanos foram emitidos para tradutores afegãos, além de cerca de 10.000 para parentes, muitos deles ainda perigosamente abandonados após a retirada das tropas). Talvez por conta deste clima tenso, ela prefira ir todo dia trabalhar em São Francisco em uma fábrica de biscoitos da sorte (e justifica que achou que seria bom ver chineses de vez em quando). Donya tem problemas para dormir e procura um psiquiatra para ajudar, talvez ela nem tenha ideia da necessidade que sinta de construir vínculos em um lugar distante de sua terra natal. Anaita Wali Zada constrói uma personagem contida e um tanto enigmática, mas podemos sua alma num misto de força e desamparo. Durante o filme a percebemos cercada de personagens interessantes, uma colega de trabalho, o patrão chinês, o psiquiatra (Gregg Turkington é um achado) e até um mecânico (um fofo Jeremy Allen White) que acende uma pequena chama em seu coração solitário. Há quem veja traços do cinema de Jim Jarmusch neste filme de Babak Jalali, mas eu notei um tanto de Wes Anderson dos bons tempos. É um filme simples, simpático e bastante agradável de assistir. 

Fremont (EUA-2023) de Babak Jalali com Anaita Wali Zada, Gregg Turkington, Hilda Schmelling, Siddique Ahmed. ☻☻☻

sábado, 8 de agosto de 2026

Combo: Inspirado em Jane Austen

05 Jane Austen Arruinou Minha Vida (2024) foi o filme que me fez lembrar que para além das mais de 30 adaptações que a obra de Jane Austen (1775-1887) já rendeu para cinema e TV, existe um subgênero cinematográfico vinculado à popularidade da escritora. São produções que embora não sejam versões para as telas dos livros da autora, bebem diretamente na fonte de suas referências. Esta comédia romântica francesa não chega a ser engraçada e o romance é visto de forma um tanto... desconstruída, mas faz das desventuras de sua personagem uma mistura de referências do que já vimos em Razão e Sensibilidade (não é a toa que a protagonista tem uma irmã desencanada de romances), Orgulho e Preconceito e Emma

04 O Clube de Leitura de Jane Austen (2007) baseado no sucesso editorial de Karen Joy Fowler, este foi um dos primeiros exemplos de que os fãs de Austen estavam dispostos a curtir um filme sobre Austen que não fosse uma adaptação de um dos seus cultuados romances. O longa conta a história de cinco mulheres e um homem que se encontram para conversar sobre a obra da escritora quase como se fosse uma terapia de grupo para resolver tudo o que ocorre na vida sentimental de cada um. O elenco é impressionante ao juntar Emily Blunt, Maria Bello, Hugh Dancy, Kathy Baker e Amy Brenneam com nomes menos conhecidos. Pena que o filme tenha personagens e dilemas demais para dar conta em uma narrativa cheia de água com açúcar. 

03 Orgulho Preconceito e Zumbis (2016) Jane Austen deve ter levado um susto no túmulo quando viu que em 2009 sua obra clássica recebeu uma releitura em tom de paródia que colocava as irmãs Bennett e Mark Darcy tendo que lutar contra uma legião de zumbis no século XIX. A fanfic do escritor Seth Grahame-Smith se tornou um sucesso nas livrarias e foi levada aos cinemas pelas mãos de Burr Steers (de A Estranha Família de Igby/2002, quem diria!). Embora se leve mais a sério do que deveria, o filme prende atenção pela química entre Lizzy (Lily James) e Darcy (Sam Riley) em meio ao massacre de zumbis. Vale dizer que figurinos, cenários e penteados são feitos no capricho até que um romance de época seja dominado por mortos-vivos. 

02 Austenland (2014) é mais uma adaptação literária de um livro voltado para fãs de Jane Austen, a diferença é que este conseguiu uma adaptação bastante equilibrada para a a telona, sendo divertido e esperto. Baseado na obra de Shannon Hale, o filme conta a história de  Jane Hayes (Keri Russell), uma mulher que aos 33 anos não encontrou seu par ideal. Apaixonada pela obra de Jane Austen, ela resolve usar suas economias para visitar um parque temático voltado para fãs da escritora. Lá ela vive um triângulo amoroso (que não sabe ser de verdade ou encenação) e se depara com os aspectos menos apaixonantes dos tempos de Austen (o ócio, o preconceito, as madames esnobes e a falta de dinheiro). Ser mocinha nos tempos de Austen não era moleza! 

01 Amor e Inocência (2007) confesso que quase que Austenland ficou em primeiro lugar na lista, mas achei que seria de bom tom deixar esta cinebiografia de Jane Austen. Dirigido por Julian Harrold, o filme conta um pouco da vida pessoal da cultuada autora nos tempos em que sonhava em conhecer o mundo e os pais queriam que se casasse com um homem rico. A americana Anne Hathaway vive a escritora inglesa e James McAvoy garante o tom de romance na pele de Tom Lefroy, homem que teria servido de inspiração para criação do famoso Mark Darcy em Orgulho e Preconceito. A graça do filme é captar as referências aos livros da autora que temperam a produção. O filme fez um relativo sucesso e Hathaway foi indicada ao British Independent Film Award na categoria de melhor atriz. A biopic vale uma conferida. 

PL►Y: Jane Austen Arruinou Minha Vida

Charlie e Camille: roteiro sem graça. 

Romântico diáriw, comédias românticas estão longe de ser meu gênero favorito. Porém, de vez em quando, até curto assistir algum longa metragem que prometa alguma coisa de diferente no gênero. Foi por conta disso que assisti Jane Austen Arruinou Minha Vida de Laura Piani, longa que recebeu alguma atenção no ano passado e rendeu para a atriz Camille Rutherford ao César de atriz revelação. Ela vive Agathe, uma dona de livraria que é fã da autora de Orgulho e Preconceito, mas que a vida amorosa anda estagnada. Traumatizada por um acidente, ela vive com a irmã e o sobrinho, além de ter como homem mais próximo o melhor amigo Félix (Pablo Pauly). Agathe também pretende escrever um livro, mas sempre considera que não tem tempo suficiente para isso. Eis que Félix a inscreve em uma espécie de retiro na propriedade que foi de Jane Austen na Inglaterra. Ela fica relutante em ir e os sentimentos pelo amigo ficam um tanto confusos. A coisa complica ainda mais quando ela conhece um tatatataraneto de Austen, Oliver (Charlie Anson), que é professor de literatura, desiludido do amor e imita trejeitos de Hugh Grant. Não é difícil perceber que Oliver assume aqui o papel de Mark Darcy e Agathe se vira como pode como uma heroína romântica contemporânea. O problema é que o filme faz pouca alusão à obra de Austen, os momentos que eram para ser engraçados não são tão engraçados assim e tudo soa bem menos esperto do que poderia ser devido às convenções do roteiro. Serve para passar o tempo e curtir o charme de Charlie Anson que parece mesmo um galã saído dos filmes baseados na obra da escritora. Confesso que não entendi o burburinho que houve em torno do filme, me pareceu bastante convencional e o final apressado serve só para expressar que não havia muito a dizer.

Jane Austen Arruinou Minha Vida ( Jane Austen a gâché ma vie / França - 2024) de Laura Piani com Camille Rutherford, Pablo Pauly, Charlie Anson, Annabelle Lengronne, Liz Crowther, Alan Fairban e Alice Butaud. ☻☻ 

PL►Y: We're All Going to the World's Fair

Anna: a vida online é ou não é real?

Arrepiado diáriw, antes de impressionar com Eu Vi o Brilho da TV (2024) a diretora Jane Schoenbrun realizou (ao lado de Valeria Santiago) este We're All Going to the World's Fair e deixou claro que tinha algo a dizer que não fosse convencional. O território de Jane é o thriller psicológico, temperado com dramas existenciais adolescentes que se alimentam uma atmosfera da horror. Aqui o roteiro se utiliza de um desafio online em que o cotidiano é transformado em registros que precisam avançar para situações de terror. A protagonista, Casey (a ótima Anna Cobb) é iniciante na brincadeira e não sabe muito bem como seus registros irão avançar. Sozinha no sótão registando vídeos e assistindo de outros participantes, Casey começa a construir sua trajetória online de forma que quem assiste não sabe se ela está sendo sincera ou se está criando uma ficção diante da câmera. A situação fica tensa quando um jogador veterano chamado JLB (Michael J. Rogers) começa a interagir com ela. O filme nunca deixa claro quais são os interesses de JLB em Casey e também não esclarece se os relatos dela são realmente angústias que ela atravessa cotidianamente. São nas ambiguidades do que é real e o que é encenação online  que o filme avança de forma instigante em um formato pouco convencional. A tensão cresce lentamente no estranhamento que o filme provoca, especialmente por usar o verniz do terror para falar de um tempo em que postagens online são constantes e embaçam a percepção de quem assiste. Esta ideia é o que torna o desfecho (apenas o relato de um personagem) ainda mais estranho.  Cheio de lacunas a serem preenchidas pelo espectador, o filme revela-se uma reflexão instigante sobre o mundo online e a solidão que camufla. Em cartaz na MUBI o filme é um ótimo aquecimento para Acampamento Miasma, novo filme da diretora que foi premiado em no Festival de Cannes deste ano. 

We're All Going to the World's Fair (EUA / 2021) de Jane Schoenbrun e Valeria Santiago com Anna Cobb, Michael J. Rogers, Turner Greaves, Theo Anthony, Marc Santiago e Holly Anne Frink. ☻☻☻

PL►Y: Toque Familiar

Kathleen: veterana premiada. 
Querido diáriw, naquele época de listas de melhores do ano, houve uma menção que fiquei realmente curioso. Dentre todas as atrizes que estavam disputando vagas em Oscar e tudo mais, uma pessoa (realmente não lembro quem foi) elegeu Kathleen Chalfant como a melhor performance feminina de 2024. A atriz veterana de 81 anos, estreou nos cinemas na década de 1980 e coleciona vários trabalhos para a telona e para a TV  - particularmente lembro dela como a avó da série The Affair (2014-2019). Embora tenha muito tempo de carreira, ela foi indicada a prêmios pela primeira vez em sua carreira por este Toque Familiar, pelo qual foi indicada ao Independent Spirit de melhor atuação e foi premiada no Festival de Veneza. No filme, a atriz interpreta Ruth, uma mulher que devido a problemas de memória passa a viver em uma casa de repouso para receber cuidados especiais. Kathleen consegue expressar com brilhantismo a confusão mental da personagem, construindo reações que se alternam de um minuto para o outro enquanto não consegue reconhecer que realmente possui um problema. A diretora e roteirista Sarah Friedland se concentra na relação de Ruth com quem está por perto (seja o filho ou os cuidadores), mas principalmente na relação com os fragmentos de memória que ainda lhe resta. O resultado não possui exatamente uma estrutura de começo meio e fim, mas uma espécie de costura de acontecimentos e situações que revelam um pouco mais sobre quem foi aquela mulher e sua relação com o mundo. É um filme com momentos emocionantes ancorados na atuação precisa de uma atriz que nunca recebeu a devida atenção. O trabalho de Kathleen Chalfant compensa a narrativa pouco inventiva, especialmente para quem viu a imersão sensorial proposta por Florian Zeller em Meu Pai (2020) que subverteu tudo que vimos nesse tipo de filme. 

Toque Familiar (Familiar Touch / EUA - 2024) de Sarah Friedland com Kathleen Chalfant, Carolyn Michelle, Andy McQueen, H. Jon Benjamin e Rafael Hernandez. 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

4EVER: William Orbit

15/12/1956 ✰ 07/08/2026

William Mark Wainwright nasceu em Londres e abandonou a escola aos 15 anos para estudar por conta própria. O artista iniciou sua carreira na música nos anos 1980 como integrante do grupo Torch Song e fundou sua própria gravadora em 1989. Elogiado como músico, compositor e produtor, seu reconhecimento na cena eletrônica dos anos 1990 rendeu-lhe o convite de produzir o icônico álbum Ray Of Light (1998) de Madonna que recebeu 4 prêmios Grammy (sendo indicado a Álbum do ano). Dentre os artistas com quem estão U2, Blur e Prince. Ao longo de sua carreira solo, o artista lançou dez álbuns. A causa da morte não foi informada. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO 2026

Jesuíta: melhor ator. 
Ontem aconteceu a entrega dos prêmios da Academia Brasileira de Cinema, o Prêmio Gande Otelo foi entregue no Rio de Janeiro e selou uma estranha rivalidade que marcou toda a temporada do ano passado. A culminância com o empate entre O Agente Secreto e Manas como melhor filme foi uma das coisas mais estranhas da história da premiação. Se ano passado Ainda Estou Aqui quase ganhou um prêmio especial e ficou de fora de todas as categorias para que os acadêmicos pudessem premiar outros profissionais do ramo, a sensação é que este ano a vontade foi tentar fazer o mesmo. O Agente Secreto (que foi indicado a quatro Oscars) acabou levando quatro prêmios técnicos na noite e a categoria principal. Manas levou cinco (atriz coadjuvante, direção, roteiro original e montagem). Fiquei feliz mesmo foi com Jesuíta Barbosa celebrado por Homem com H que foi escolhido como melhor filme pelo júri popular (pairando acima de toda briga de egos que marcou o gosto da Academia durante a temporada). A seguir os premiados da noite: 

Melhor Filme de Ficção

Melhor Filme de Comédia
Velhos Bandidos

Melhor Documentário
Apocalipse nos Trópicos

Melhor Filme Infantil
O Diário de Pilar na Amazônia

Melhor Animação
Tainá e os Guardiões da Amazônia 

Melhor Filme Ibero-Americano

Melhor Direção
Marianna Brennand — Manas

Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem
Rafaela Camelo — A Natureza das Coisas Invisíveis 

Melhor Atriz de Longa-Metragem
Denise Weinberg — O Último Azul 

Melhor Ator de Longa-Metragem

Melhor Atriz Coadjuvante de Longa-Metragem
Dira Paes — Manas

Melhor Ator Coadjuvante de Longa-Metragem

Melhor Roteiro Original

Melhor Roteiro Adaptado

Melhor Direção de Fotografia
Evgenia Alexandrova — O Agente Secreto 

Melhor Direção de Arte
Thales Junqueira — O Agente Secreto

Melhor Figurino

Melhor Maquiagem

Melhor Montagem de Ficção
Isabela Monteiro de Castro — Manas

Melhor Montagem de Documentário
Apocalipse nos Trópicos

Melhor Efeito Visual

Melhor Som

Melhor Trilha Sonora

Melhor Série

Melhor Atriz em Série
Alice Carvalho — Cangaço Novo 

Melhor Ator em Série

Melhor Série de Documentário
Caçador de Marajás 

Melhor Série de Animação
Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma (3ª temporada) 

Melhor Curta de Ficção
Amarela

Melhor Curta de Documentário
Sebastiana

Melhor Curta de Animação
A Tragédia do Lobo-Guará

terça-feira, 4 de agosto de 2026

NªTV: DTS St. Louis

Jason e David: nada é o que parece.
Elogiado diáriw, a minissérie DTS St Louis da HBO se tornou uma das produções mais celebradas do ano e, se considerarmos suas 13 indicações ao EMMY, deve se tornar uma das mais premiadas da temporada. Exibida nos meses de março e abril na emissora, meu interesse pelo programa veio com os comentários positivos unânimes que ouvi. O mérito aqui é subverter a impressão inicial de "já sei o que vai acontecer". Aquela sensação de comédia dramática suburbana que gerou pérolas como Beleza Americana (1999) e a série Desperate Housewives (2004-2012) repete-se aqui, mas nada é do jeito que você imagina. A trama aborda a amizade entre o apresentador Clark Forrest (Jason Bateman) e o intérprete de libras Floyd Smernitch (David Harbour) que o acompanha nos telejornais. Os dois ficam muito próximos e quando Floyd é encontrado morto, recai sobre Clark a suspeita de assassinato. Ao final do primeiro episódio a suspeita ganha ares de certeza com o caso entre ele e a esposa do falecido (Linda Cardellini) e os seis capítulos que se seguem servem para confundir o público e os investigadores encarregados do caso vividos por Richard Jenkins e Joy Sunday (que já teve destaque na série Wandinha, mas aqui mostra-se a revelação do elenco). A trama criada por Steve Conrad mistura adultério, aplicativos sexuais, amizade e auto-estima como uma espécie de jogo contra as expectativas do espectador. Se a visão inicial é a intenção de surpreender a plateia a qualquer custo, no desfecho percebemos que a proposta torna-se um desafio à nossa percepção sobre relações humanas. Não por acaso, a minissérie reforça o tempo inteiro que de perto ninguém é normal - e afinal, o que é ser normal? No fim das contas, só senti falta de um melhor desenvolvimento da esposa de Clark que praticamente some da narrativa. 

DTF St. Louis (EUA-2026) de Steve Conrad com Jason Bateman, David Harbour, Linda Cardellini, Richard Jenkins, Joy Sunday, Peter Sarsgaard, Chris Perfetti e Arlan Ruff.  

domingo, 2 de agosto de 2026

PL►Y: Mesa Maldita

Pareja: o horror do luto. 

Enlutado diáriw, dia desses vi este filme espanhol em uma lista de filmes angustiantes ao lado de Speak No Evil (2022), Faça Ela Voltar (2025) e outros filmes que já assisti. Fiquei curioso e fui procurar mais sobre este filme e fiquei surpreso ao descobrir que recebeu mais de vinte prêmios internacionais e, devido ao sucesso, rendeu até uma versão turca que foi lançada no ano passado. A trama conta a história de um casal que acaba de ter o primeiro filho. Depois de muitos anos de tratamento para conseguir um herdeiro, o clima entre Maria (Estefanía de los Santos) e Jesús (David Pareja) anda tenso. A cena de abertura em que os dois discutem sobre a compra de uma mesa de centro retrata bem como as alfinetadas entre um e outro se tornaram constantes. Ele quer comprar uma mesinha com tampa de vidro que dizem ter design sueco, ela acha a mesa horrorosa (e é mesmo). Contrariando a vontade de esposa, ele compra o móvel, mas ocorre um imprevisto na montagem e um acidente ocorre logo depois envolvendo o marido. Sem coragem de contar o que aconteceu, ele tenta esconder os fatos da esposa enquanto tenta lidar com seu próprio trauma. A parte em que o filme lida com a tensão entre marido e esposa funciona com perfeição, mesmo as atitudes um tanto desencontradas do marido fazem sentido diante o choque que vivenciou. A coisa perde um pouco o tom no jantar com as visitas que resolvem aparecer, junto com a vizinha de 13 anos que insiste em dizer que está apaixonada pelo marido de Maria. Nessa parte todo drama e tensão se dissolve no exagero, o que compromete um pouco o ótimo trabalho do diretor Caye Casas até então. Contado com atmosfera de filme de terror, o filme funciona mesmo como um drama pesado sobre um casal em crise.  

Mesa Maldita (La mesita del comedor / Espanha - 2022) de Caye Casas com David Pareja, Estefanía de los Santos, Josep Maria Riera, Claudia Riera, Eduardo Antuña, Gala Flores e Cristina Dilla. 

NªTV: Proud

Ignassy: a vida em julgamento. 
Orgulhoso diáriw, a HBO acabou de exibir a primeira temporada da premiada série polonesa Proud e confesso que fiquei surpreso ao descobrir que existe um gancho para uma segunda temporada. O motivo de minha surpresa é que no sexto episódio (são oito no total) eu imaginava que as coisas já poderiam se resolver devido ao sabor de enrolação. A trama conta a história de Filip Raczynski (Ignacy Liss), um jovem rapaz gay que curte noitadas com múltiplos parceiros sexuais, álcool e drogas. Ele ganha a vida fazendo alguns trabalhos como modelo por indicação de amigos e mora com a irmã Anna (Sylwia Boron) e a sobrinha, Tosia (Alicja Lewczuk). Acostumado com uma rotina sem responsabilidades, tudo muda quando Anna morre e a pequena Tosia precisa de alguém para cuidar dela. De início Filip não quer assumir a sobrinha, mas acaba revendo seus próprios fantasmas do passado (o fato de ter crescido em um orfanato e durante a vida poder contar somente com a irmã, que não está mais por perto). No decorrer dos episódio, Filip percebe que precisa mudar o estilo de vida e enfrenta as dificuldades de ajeitar a rotina para dar conta de um bebê. Das dificuldades de conseguir um emprego, manter um relacionamento e até de ser levado a sério pelos amigos, tudo piora quando a guarda pela menina vai para a justiça e suas chances permanecem mínimas pelo fato de ser gay. Quando começa a parte das visitas da assistente social a série começa a enveredar por situações que carecem de um pouco de credibilidade, prejudicando o tom realista da série. Ignassy Lyss dá conta de viver a transição do protagonista e entre os coadjuvantes está a excepcional Joanna Kulig (do maravilhoso Guerra Fria/2018) como a advogada sem firulas de Filip. 

Proud (Polônia/2026) de Karol Klementewicz e Monika Pęcikiewicz com Ignassy Lyss, Maria Sobocińska, Kamil Studnicki, Joanna Kulig, Mateusz Więcławek e Maja Ostaszewska. ☻☻

PL►Y: Blue Moon

Hawke: texto afiado. 

Prezado diáriw, nos anos 1990 Ethan Hawke sofreu um bocado para provar que não era apenas um rostinho bonito. Vendo as várias produções que estrela atualmente, percebo que ele soube aproveitar muito bem a passagem do tempo em sua aparência. Trabalhando mais do que nunca, o ator conquistou sua quinta indicação ao Oscar, a terceira por um trabalho como ator e a primeira como ator principal. Ele vive o letrista Lorenz Hart (1895-1943) que ficou famoso por sua parceria com Richard Rodgers (e pela canção que aparece no título). O filme é ambientado em uma noite na vida de Hartz, 31 de março de 1943, a noite de estreia do musical Oklahoma!, escrito por Rodgers (vivido aqui por Andrew Scott) em parceria com Oscar Hammerstein II (Simon Delaney) que se tornou um enorme sucesso. O diretor Richard Linklater utiliza esta noite para que Hartz coloque sua vida em perspectiva, especialmente por conta de ter sido deixado de lado pelo parceiro por conta de seus problemas com o álcool. Hawke constrói o personagem de forma impressionante, com alteração na voz, na postura, no olhar e demonstra claramente a imagem de alguém que percebe que perdeu as rédeas da própria vida. Com melancolia, amargura e um senso de humor ácido, Hawke carrega o filme nas costas. Linklater por sua vez faz um bom trabalho no uso de planos e cortes para contornar o risco da sensação de um teatro filmado. O roteiro é baseado nas cartas trocadas entre Hartz e Elizabeth Weiland (vivida por Margaret Qualley), mas ironicamente, o longo diálogo entre os dois é a parte em que o filme mais perde o ritmo. A estética do filme é perfeita para a reproduzir a época em que se passa a trama e se torna um trunfo desta produção que também concorreu ao Oscar de roteiro original. 

Blue Moon - Música e Solidão (Blue Moon / EUA  2025) de Richard Linklater com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley, Jonah Lees, John Duran e Patrick Kennedy. ☻☻