domingo, 14 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: A História do Som

Josh e Paul: amor pela música. 
Sonoro diáriw, quando Paul Mescal e Josh O'Connor foram escalados para viver um romance gay o projeto já criou rebuliço. Quando o filme foi selecionado para o Festival de Cannes as expectativas foram às alturas, mas ao ser exibido, o consideraram decepcionante. Acho que as pessoas imaginaram os dois atores em cenas tórridas ao longo de mais de duas horas de filme, mas a proposta do filme é ser bem mais do que isso. Sim, existem cenas dos dois atores na cama, mas a ideia é principal é outra. O rigor com que Hermanus conta a história de Lionel Worthing (Paul Mescal) é tão marcante que até pensei se tratar de uma história real (mas é baseado no conto fictício de Ben Shattuck de 2018). Lionel nasceu filho de fazendeiros pobres na virada para o XX, desde pequeno notou ter a capacidade de enxergar cores nas melodias, assim como sentir sabores nas músicas. Seu interesse pela música encontra abrigo no professor David White (Josh O'Connor) que se encanta com a voz do rapaz. A música serve de ponto de partida para um relacionamento intenso entre os dois, que irá sofrer uma quebra na 1ª Guerra Mundial e um reencontro anos depois quando percorrem os Estados Unidos para registrar canções transmitidas oralmente pelos recantos do país. No entanto, existe um receio que faz com que o relacionamento nunca decole e afete a vida de ambos para sempre. O diretor Oliver Hermanus (de Viver/2022) já demonstrou curtir um cinemão clássico, com fotografia bem cuidada, figurino caprichado, atuações contidas e aqui ele segue o mesmo caminho até o último ato emocionante.  Quem esperava um filme cheio de erotismo se decepcionou, quem espera ver uma história bem contada (e um tanto melancólica) sobre dois personagens que se perdem de si mesmos (e um do outro) não irá se decepcionar. 

A História do Som (The History of Sound / EUA - Reino Unido - Suécia - Itália / 2025) de Oliver Hermanus com Paul Mescal, Josh O'Connor, Chris Cooper, Molly Price, Cate Finck e Emma Canning. ☻☻☻ 

sábado, 13 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: Nunca Fui Santa

Lyonne e Clea: sem estereótipos. 

Debochado diáriw, muito antes dos tratamentos da questionável cura gay chegar aos cinemas com toda a carga dramática de O Mau Exemplo de Cameron Post (2018), Boy Erased (2018) ou Pedágio (2023), a diretora Jamie Babbit em 1999 já abordada a situação com deboche deliciosamente queer. Nunca Fui Santa se tornou um filme cultuado por seu grupo de fãs pelo humor exagerado e atuações caricaturais que servem na verdade para cutucar um tema bastante sério. Natasha Lyonne vive Megan, a líder de torcida que é bastante popular e namora um rapaz cobiçado da escola, mas sua família começa a desconfiar que tudo isso é na verdade um disfarce para seu interesse por outras garotas. Por mais que Megan ressalte que ela não seja lésbica, a família resolve intervir e a mandar para um tratamento de "cura gay", lá ela conhece Graham (Clea Duvall) e você imagina o que acontece. É realmente genial juntar um bando de meninas que gostam de outras meninas num mesmo espaço e imaginar que a cura acontecerá! Embora colorido e satírico, o filme segue a cartilha da descoberta de si mesmo, o que é comum em qualquer filme sobre crescimento, mas a diferença é que as personagens que aparecem aqui sabem o que são e do que gostam, mas a sociedade insiste em negar-lhes a legitimidade do desejo (ainda mais intenso pelas descobertas e hormônios a flor da pele). Feito como um filme para adolescentes e com insinuações sexuais até sutis para os dias e hoje, o filme recebeu classificação etária de 17 anos e se tornou peça rara em locadoras. Com o passar do tempo e com a fama de sua atriz principal em trabalhos futuros (como na série Orange is The New Black), Nunca Fui Santa começou a receber um reconhecimento tardio pela forma como desconstrói estereótipos lésbicos e, fosse lançado hoje, acredito que seria um dos filmes mais comentados do ano.  

Nunca Fui Santa (But I'm a Cheerleader / EUA - 1999) de Jamie Babbit com Natasha Lyonne, Clea Duvall, RuPaul, Melanie Linskey, Cathy Mortiarty, Michelle Williams, Dante Brasco, Eddie Cribrian e Kip Pardue. ☻☻ 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: Apenas amigos

Josha e Majid: otimismo. 

Amoroso diáriw, eu sei que é bastante recorrente as críticas aos filmes de temática LGBTQIAP+ que reservam um destino cruel aos seus protagonistas (como se fosse uma punição à quem ousa ir contra a heteronormatividade), por isso mesmo, um romance queer água com açúcar é bem vindo, mas isso não o isenta de  tomar alguns cuidados em sua execução. Este é o caso de Apenas Amigos, um filme bem feitinho e simpático que arrisca abordar alguns temas atuais, mas se esquiva de aprofundar algumas questões que acabam retirando a complexidade que o seu par central possui. A trama gira em torno de Yad (Majd Mardo), filho de uma família Síria de imigrantes que abandonou a faculdade de medicina e passou um tempo em Amsterdam. Ele retorna para a casa e volta a dar aula de surf, além de fazer um extra cuidando da casa de uma senhora idosa (Jenny Arean). Acontece que a senhora tem um neto chamado Joris (Josha Stradowski) que é marrento e sofre com a perda recente do pai. Ambos se sentem um tanto deslocados e quando se conhecem o interesse entre os dois torna-se logo evidente. Esta parte do filme é desenvolvida como uma comédia romântica trivial que flui naturalmente, mesmo diante do notório preconceito da esnobe mãe de Joris que não faz ideia de que o rapaz que cuida da casa de sua mãe é namorado de seu filho. Pena que ao invés de abordar os conflitos pessoais de cada um, o filme resolve colocar o namoro em crise abruptamente no último terço de filme para resolver tudo de forma apressada e não muito criativa. O filme vai bem até a crise forçada e perde a chance de seguir por um viés mais original que poderia fazer seus personagens encararem os problemas de forma mais interessante. A sorte é que até escorregar numa fórmula gasta, o filme já recebeu nossa torcida para que os dois mocinhos tenham um final feliz, sem mortes, tragédias ou traumas. No fim das contas o diferencial aqui é o otimismo da dupla.

Apenas Amigos (Gewoon Vrieden / Países Baixos - 2018) de Annemarie van de Mond com Majd Mardo, Josha Stradowski, Jenny Arean, Tanja Jess e Melody Klaver. ☻☻

quinta-feira, 11 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: Watermelon Woman

Cheryl: pesquisa histórica. 
Instigado diáriw,  é incrível como um filme despretensioso como Watermelon Woman é capaz de entrar para  a História. O longa dirigido por Cheryl Dunye a fez se tornar a primeira diretora afro-americana assumidamente lésbica a dirigir um longa-metragem. Tudo se torna ainda mais interessante quando a temática do filme volta-se so seu interesse por uma atriz negra que fazia filmes na década de 1930 e era conhecida como Mulher Melancia. Cheryl  interpreta uma cineasta que trabalha em uma locadora, o que ajuda muito a realizar sua pesquisa sobre a atriz em questão. Ela busca novas informações sobre a atriz e se depara com a história de uma mulher lésbica e negra nos primórdios da história do cinema. Se o início passa a impressão que estamos diante de mais uma comédia romântica, aos poucos, Watermelon Woman ganha novas camadas, se torna divertido, curioso e militante ao revelar a forma como a sociedade ainda se relaciona com a imagem da mulher apresentada no título. Para além da pesquisa que o filme retrata, existe ainda o romance de Cheryl com Diana (Guinevere Turner) que rende algumas conversas interessantes sobre os arquétipos de ambas. Feito com baixíssimo orçamento e com uma espontaneidade desconcertante, o filme se tornou um marco no cinema queer dos EUA. Embora Dunye tenha lançado outros filmes com menor repercussão (aqui a perspectiva histórica faz toda a diferença no emaranhado narrativo que o filme apresenta), seu nome é sempre lembrado como um referência de um tempo em que mulheres negras homossexuais e cineastas era algo impossível de ser pensado no cinema (e estamos falando de apenas três décadas atrás). Nascida na Libéria, Cheryl tem se dedicado cada vez mais  a direção de episódios séries (Lovecraft Coutry, Bridgerton, You, Umbrella Academy...) e não lança um longa desde 2012. Em cartaz na Mubi o filme é um pequeno clássico do cinema indie

Watermelon Woman (EUA-1996) de Chreyl Dunye com Cheryl Dunye, Guinevere Turner, Valarie Walker, Lisa Marie Bronson, Chreryl Clarke, Irene Dunye e Camille Paglia. ☻☻ 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: Sebastiane

Treviglio: santo sofrimento. 

Esquecido diáriw, o diretor inglês Derek Jarman (1942-1994) é pouco lembrado, mas os seus filmes são frequentemente lembrados como marcos do cinema queer. Geralmente com orçamento modesto, Jarman fez história no cinema por conta de sua capacidade em utilizar criatividade estética para driblar a grana curta. Recentemente um amigo comentou sobre esta visão de Jarman sobre a vida de São Sebastião e fiquei bastante curioso em assistir. O filme gerou escândalo na época pela naturalidade com que apresenta a nudez masculina e o desejo homossexual de seus personagens. Ambientado no ano 300 e falado em latim, o filme conta os dias em que Sebastião (Leonardo Treviglio) passou exilado com outros soldados em um posto avançado no meio do nada. Em meio aos treinos, ele é alvo de deboches e provocações por ser cristão e a situação só piora diante das investidas de um general Severus (Barney James) que nutre forte desejo por ele e o submete a torturas variadas. Antes de gerar a famosa imagem por sua execução por flechadas, Sebastião foi soldado e capitão do império romano e teve papel importante na proteção dos cristãos perante as perseguições do imperador Diocleciano. Jarman (que assina a direção e o roteiro ao lado de Paul Humfress) utiliza estes fatos históricos para construir uma história de desejos latentes e um tanto de sadismo para construir cenas em que a luz e os enquadramentos valorizam os corpos masculinos torneados, suados e desinibidos. Em alguns momentos as cenas parecem pinturas e lembram que o diretor começou seu trabalho no cinema cuidando da cenografia para outros diretores. Seu cuidado estético fez com que nos anos 1980 e 1990 dirigisse vários clipes para artistas como The Smiths, Pet Shop Boys e Suede antes de falecer vítima do HIV. 

Sebastiane (Reino Unido / 1976) de Derek Jarman e Paul Humfress com Leonardo Treviglio, Barney James, Neil Kennedy, Richard Warwick, Donald Dunham, Ken Hicks e Janusz Romanov. ☻☻ 

terça-feira, 9 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: O Despertar da Juventude

Alex e Sam: desejos e receios.

Conflituoso diáriw, sabe aquele filme que você não espera muita coisa e conforme ele se desenrola você percebe o quanto ele tem algo mais a oferecer? Senti isso ao assistir Minyan, ou como foi chamado por aqui: O Despertar da Juventude. O filme conta a história de David (Samuel H. Levine), um jovem de família imigrante russa que em meados dos anos 1980 vive em Nova York e começa a descobrir sua própria sexualidade enquanto altera seu olhar sobre o mundo que o cerca. Ele se sente deslocado na escola judaica em que estuda e deseja frequentar uma escola pública, ele também prefere morar com o avô (Ron Rifkin) do que permanecer na casa dos pais e lidar com as pressões familiares, mas além disso, David começa a perceber que seu interesse sexual por homens é crescente. Neste ponto, os dois homens idosos que vivem no apartamento ao lado de seu avô ajudam a fazê-lo perceber que talvez seu desejo não precisa silenciado. No entanto, para evitar problemas com a família, ele começa a ter encontros secretos com desconhecidos até ter um envolvimento mais pessoal com Bruno (Alex Hurt), um bonitão que trabalha num bar gay da cidade. O diretor Eric Steel consegue fazer um belo filme baseado no livro de David Bezmozgis, mas sua abordagem intimista perde a chance de aprofundar algumas questões como o advento da AIDS nos anos 1980, algo que é apresentado de forma tão sutil que gera menos impacto do que deveria. A presença contida de Levine também pode incomodar em um personagem que vivencia conflitos tão intensos entre o tradicional e o transgressor. O rapaz passa quase o filme todo com a mesma cara, com alguns bons momentos para além das cenas tórridas com o filho de John Hurt. Porém, o filme aborda tantas questões que termina parecendo ainda ter material para mais meia hora de projeção, o que pode soar um tanto frustrante ao espectador.

O Despertar da Juventude (Minyan/ EUA -2021) de Eric Steel com Samuel H. Levine, Ron Rifkin, Mark Margolis, Alex Hurt, Brooke Bloom, Gera Sandler, Richard Topol e Zane Pais. ☻☻☻

segunda-feira, 8 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADEXL: Os Tempos de Harvey Milk

Milk: exemplo de luta. 

Queerido diáriw, considero sempre uma boa ideia lembrar de Harvey Milk. Ele foi o primeiro homem assumidamente gay a ser eleito para um cargo político na Califórnia. Antes de ser eleito conselheiro de seu distrito na cidade de São Francisco, ele administrava uma loja de máquinas fotográficas ao lado do companheiro e era conhecido por se envolver nas causas das minorias locais. Querido por sua comunidade, seu apelo transcendia o universo LGBTQIAPN+ de seu tempo. Sua vitória e ingresso na vida política foi um marco ao colocar em pauta questões que antes não encontrava voz na esfera política. Sua trajetória se tornou um exemplo de porque devemos eleger minorias (ou excluídos) para cargos políticos de representatividade. Não por acaso, como demonstra este documentário premiado com o Oscar em 1985, sua presença política incomodava muita gente. Sem seu trabalho, percebia-se que entre a luta por direitos e o combate à discriminação, existia uma linha quase invisível. Também soa emblemático que a vida e a carreira política de Harvey tenha terminado por iniciativa de um homem de bem, hétero e "de família" que em um momento de "descontrole" resolveu atirar no prefeito da cidade e em Harvey que sorriu ao vê-lo entrar em seu escritório. O valor da vida desses dois homens rendeu somente cinco anos e alguns meses de prisão ao assassino que levou o júri às lágrimas ao contar como sua vida estava difícil devido às suas próprias escolhas. Os Tempos de Harvey Milk é mais do que um documentário, mas um registro histórico necessário para entender  as engrenagens de uma sociedade que trata os diferentes como anomalias a serem silenciadas. Para conhecer um pouco mais sobre Harvey Milk vale assistir ao filme de Gus Van Sant (Milk/2008) que rendeu o Oscar de roteiro original para Dustin Lance Black e de melhor ator para Sean Penn. 

Os Tempos de Harvey Milk (The Times of Harvey Milk) de Rob Epstein com Harvey Milk, Harvey Fierstein, Anne Kronnenberg, Tory Hartmann, Tom Ammiano e Jim Elliott. ☻☻☻☻

quinta-feira, 4 de junho de 2026

4EVER: Marjane Satrapi

22/11/1969 ✰ 04/06/2026

Nascida em Rasht no Irã, Marjane Ebrahimi ficou famosa com o lançamento da graphic novel Persépolis que narrava sua infância em Terrã diante da Revolução Islâmica. O sucesso da HQ fez a história se tornar uma animação indicada ao Oscar em 2007 (a qual dirigiu ao lado de Vincent Paronnaud). Com o filme, Marjane dirigiu outros cinco filmes (o último permanece inédito por aqui) e firmou-se como cineasta junto à carreira de escritora. Familiares afirmam que Marjane não se recuperou após a morte do esposo no ano passado, alegando que a autora faleceu de tristeza.

PL►Y: Wicked Parte II

Ariana e Erivo: nem feitiço. 

Cantante diáriw, com certeza Wicked2 foi o maior decepcionado com o Oscar deste ano. O primeiro filme conseguiu dez indicações ao careca dourado (incluindo melhor filme e para sua dupla de atrizes) e cravou duas merecidas estatuetas (design de produção e figurinos). Diante de um sucesso estrondoso, quando o segundo filme estreou, o público e a crítica não demonstraram o mesmo entusiasmo do anterior. Algo já me dizia que o ponto em que o primeiro acabava, sobrava pouco para o segundo filme, já que diante dos boatos que transformavam Elphaba (Cinthya Erivo) em Bruxa Má - para desacreditar qualquer tentativa de desmascarar a farsa do mágico de Oz (Jeff Goldblum) - restava uma caça às bruxas para desenvolver. Ela é desenvolvida sem muito brilho, principalmente se comparado ao primeiro filme. Os momentos musicais não empolgam, as músicas não são legais, o desenvolvimento das personagens também não avança e deixa tanto Elphaba quanto Glinda (Ariana Grande) fazendo o que podem com o que lhes resta. Até mesmo aquele momento em que a história das bruxas de Oz se cruza com a clássica chegada de Dorothy fica de escanteio, tendo alguma graça quando descobrimos a origem do leão covarde, do Homem de Lata e do Espantalho, mas é pouco. Houvesse desenvolvido mais estes detalhes da trama conhecida talvez o filme ficasse mais interessante do que investir no triângulo amoroso formado pelas duas protagonistas com o príncipe Fiyero (Jonathan Bailey). Com uma trama que não empolga o suficiente para segurar mais de duas horas de exibição, resta o visual caprichado para passar o tempo e o esforço do elenco para prender a atenção. Acho que com jeitinho caberia os dois filmes em um longa de três horas, mas... o resultado acabou sendo dois filmes em que um se torna o oposto do outro. Difícil agradar o público com esta guinada (para baixo). 

Wicked Parte II (Wicked for Good / EUA - 2026) de John M. Chu com Cynthia Erivo, Ariana Grande, Jonathan Bailey, Jeff Goldblum, Michelle Yeoh, Ethan Slater, Ethan Slater e Marissa Bode. ☻☻

PL►Y: Pai Mãe Irmão Irmã

Vicky: laços de família

Premiado diáriw, fiquei surpreso quando o novo filme de Jim Jarmush ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza. A torcida era muito maior para outros títulos ( os elogiados A Voz de Hind Hajab e A Única Saída por exemplo), mas o ícone do cinema indie teve mais força entre os votantes e o seu longa dividido em três histórias distintas levou o prêmio. A primeira história traz um casal de irmãos (Adam Driver e Mayim Bialik) que realiza sua visita anual ao pai (Tom Waits), mas o distanciamento permanece numa formalidade apática até quando o pai provoca os filhos afim de despertar-lhes alguma reação menos calculada. A segunda história é bastante semelhante com duas irmãs (Cate Blanchett e Vicky Krieps) visitando a mãe (Charlotte Rampling) para o chá da tarde anual e a conversa também nunca parece avançar. São duas histórias em que os filhos demonstram um distanciamento emocional dos pais que seria cômico se não fosse trágico. Entre silêncios constrangedores e assuntos que não fazem a mínima diferença seguem sem maiores sobressaltos deixando que o espectador preencha as entrelinhas daquelas famílias. O terceiro episódio segue uma estrutura diferente, com um casal de irmãos gêmeos (Indya Moore e Luka Sabbat) visitam o apartamento dos pais que faleceram recentemente e relembram fatos do passado. O encanto do filme reside justamente em ter um elenco famoso e filmá-los em um pequeno recorte da vida daqueles personagens tradados feito pessoas comuns. É um filme simples e que pode soar nada demais ou promover reflexões sobre laços familiares. Particularmente não vi nada demais no filme. É agradável de assistir, tem alguns detalhes interessantes que conferem um charme à narrativa, mas continuei surpreso com o prêmio em Veneza. 

Pai Mãe Irmão Irmã (Father Mother Brother Sister/ EUA - Irlanda - França - Japão / 2025) de Jim Jarmush com Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Vicky Krieps, Cate Blanchett, Luka Sabbat e Indya Moore. 

domingo, 31 de maio de 2026

PL►Y: Submarino

Jakob: rumo ao fundo. 
Fraterno diáriw, quando aparecem aqueles dois irmãos cuidando de um bebê enquanto todos são negligenciados pela mãe, surgiu como um estalo o motivo do dinamarquês Thomas Vinterberg batizar seu filme com este  título: um submarino foi feito para afundar. Mal conhecemos os meninos e o roteiro já nos apresenta a tragédia que os marcará para sempre. Dito isso, vemos o irmão mais velho Nick (Jakob Cedergren) tentando seguir a vida e colocá-la nos eixos, embora a fotografia azulada e as pessoas que cruzam seu caminho deixem claro que não existe coisa boa a acontecer. Entre o caso com uma vizinha e o reencontro com um ex-cunhado instável, o que representa alguma esperança para Nick é  encontrar o irmão (Peter Plaugborg), que tenta cuidar do filho (Gustav Fischer Kjærulf) enquanto lida com o vício em drogas e o envolvimento com o tráfico para conseguir dinheiro. Tudo neste filme de Vinterberg puxa os irmãos para o fundo do poço, resta saber como eles lidam com este trajeto e se algum deles se salvará da danação. A atmosfera densa deixa a morte sempre à espreita dos personagens, no entanto, curiosamente existe alguma esperança que paira sobre a narrativa. Vinterberg fragmenta a narrativa em três eixos para depois costurá-los e apresentar as linhas tortas, mas um tanto circulares nos arcos de seus personagens. Aqui ele pode não demonstrar a mesma genialidade que o fizeram um queridinho por Festa de Família (1998), um dos marcos do movimento Dogma95,  mas o pulso firme com que conduz a narrativa faz a diferença para prender a atenção do espectador e, em alguns momentos, manter a nossa respiração suspensa diante deste drama familiar com ótimos desempenhos de Jakob e Peter. Curiosidade: em 2010 houve outro filme com o mesmo título e totalmente diferente. 

Submarino (Dinamarca - Suécia / 2010) de Thomas Vinterberg com Jakob Cedergren, Peter Plaugborg, Gustav Fischer Kjærulf, Morten Rose, Helene Reingaard Neumann e Patricia Schumann. ☻☻☻

sábado, 30 de maio de 2026

NªTV: Pela Metade

Bell e Gadd: relação pesada. 

Traumatizado diáriw, depois do sucesso estrondoso de Bebê Rena é incrível perceber que o escocês Richard Gadd acertou mais uma vez com uma produção sobre outro relacionamento temperado com com traumas, saúde mental e uma dinâmica tóxica entre os personagens. Em Pela Metade (uma tradução bem menos interessante do que o literal Meio Homem do original) conhecemos Niall (Jamie Bell), que no dia de seu casamento recebe a visita do "irmão" Ruben (Richard Gadd) entre os convidados. Os dois tiveram que conviver devido ao relacionamento de as mães lésbicas, mas a passividade do primeiro se chocou com a agressividade do segundo desde a adolescência (e os atores Mitchell Robertson e Stuart Campbell são fundamentais para estabelecer a intoxicante relação entre os dois). Cada episódio revela um detalhe dos rumos da vida de ambos e paira nas entrelinhas uma tensão sexual latente, que se arrasta (ou os esmaga) ao longo de décadas enquanto tentam organizar suas vidas (e sempre voltam ao mesmo ponto mal resolvido). Lançada pela HBO e finalizada na noite de ontem, a minissérie é sufocante, mas não de um humor nervoso. A dinâmica entre Bell e Gadd (que está completamente diferente de seu sucesso anterior) sustenta a tensão dos episódios de forma assustadora, especialmente quando percebemos que a divisa entre mocinho e vilão são maleáveis. Gadd instaura na cabeça do espectador novamente a questão: "se uma relação é prejudicial, porque insistimos nela?" A respostas não é fácil, já que mexe em questões profundas de nós mesmos que tentamos nem pensar para evitar a desconstrução de como nos enxergamos. Após escrever, atuar e produzir mais um grande acerto, Richard Gadd desperta curiosidade sobre seus futuros projetos. 

Pela Metade (Half Man / Reino Unido - 2026) de Richard Gadd com Jamie Bell, Richard Gadd, Mitchell Robertson, Stuart Campbell, Neve McIntosh, Charlie de Melo, Amy Mason e Anjli Mohindra. ☻☻☻☻

segunda-feira, 25 de maio de 2026

PL►Y: O Dia de Peter Hujar

Ben: figura histórica.
Gravado diáriw, várias obras da cinematografia de Ira Sachs são marcadas por personagens queer (incluindo sua obra-prima O Amor é Estranho/2014) e com este aqui não é diferente. Peter Hujar (1934-1987) foi um importante fotógrafo dos EUA. Nascido em Nova Jersey, Peter foi criado pelos avós imigrantes ucranianos e depois foi viver com a mãe em Nova York. Sensível ao capturar a imagem de seus retratados, sua obra documentou a efervescente cultura underground dos anos 1970 e 1980 em NY até seu falecimento em decorrência da AIDS. Em tempos de cinebiografias que seguem uma cartilha pouco inventiva, Sachs opta por resgatar uma entrevista de Hujar para a amiga jornalista Linda Rosenkrantz que seria parte de um livro que nunca foi publicado. A entrevista tem como objetivo ser um relato de tudo que Peter fez durante um dia de sua vida. O longa não pretende fazer muito mais do que dramatizar a tal entrevista, colocando dois ótimos atores em cena para reproduzir o que foi registrado por Linda. Ben Wishaw  e Rebecca Hall conseguem prender a atenção do espectador que topar a ideia do que seria apenas uma conversa de oitenta minutos. Enquanto Hujar passa a maior parte do tempo relatando o encontro com o desconfiado Allen Ginsberg, entre fatos prosaicos do cotidiano, a dupla consegue transparecer o carinho de um personagem pelo outro. Apesar o formato inusitado, o trabalho de Wishaw evidencia alguns traços da personalidade do biografado, como sua eloquência, sensibilidade, descaso com a alimentação e o olhar sob a profissão. Outro ponto interessante é como a fotografia ressalta a passagem do tempo durante a entrevista. Muita gente irá considerar um filme arrastado e com poucos atrativos, mas vale pelo resgate de um artista que precisa ser lembrado pelo seu legado. 

O Dia de Peter Hujar (Peter Hujar's day / EUA - Alemanha - Reino Unido - Espanha/2025) de Ira Sachs com Ben Wishaw e Rebecca Hall. 

domingo, 24 de maio de 2026

Premiados Festival de Cannes 2026

O premiado de Cannes2026
Acho que ver Cristian Mungiu levar sua segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes (a primeira foi por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias/2007) pegou muita gente de surpresa, especialmente porque outros filmes eram apontados como favoritos ao prêmio e acabaram recebendo outros pelo caminho. No geral consideraram que foi uma seleção mais fraca do que nos últimos anos e as vaias na exibição de dois filmes em competição no último dia só ressaltou a impaciência perante o que era exibido. No entanto, alguns filmes já se firmaram como favoritos para a próxima temporada de prêmios. O polonês "Fatherland" de Paweł Pawlikowski e o espanhol La Bola Negra de Javier Calvo e Javier Ambrossi devem dar o que falar, assim como o estadounidense  "Teenage Sex And Death at Camp Miasma" de Jane Schoenbrun. O mais curioso foi ver o juri presidido por Park Chan-Wook promover um monte de empates entre os premiados. A seguir os filmes premiados no Festival de Cinema mais badalado do mundo:

Palma de Ouro
"Fjord" de  Cristian Mungiu 

Grand Prix
"Minotaur" de Andrey Zvyagintsev

Prêmio do Júri 
"The Dreamed Adventure" de Valeska Grisebach

Melhor Diretor
Javier Calvo e Javier Ambrossi | "La Bola Negra"
Paweł Pawlikowski | "Fatherland"

Melhor Ator
Emmanuel Macchia e Valentin Campagne | "Coward"

Melhor Atriz
Virginie Efira e Tao Okamoto | "All of a Sudden"

Prêmio Fipresci
"Fjord"

Júri Ecumênico
"Fjord"

Melhor Roteiro
"Notre Salut" 

Queer Palm
"Teenage Sex And Death at Camp Miasma" de Jane Schoenbrun.

Câmera de Ouro
"Ben'imana" de Marie Clémentine Dusabejambo

Prêmio Un Certain Regard
"Everytime" de Sandra Wollner

Prêmio do Júri 
"Elefantes na Névoa" de Abinash Bikram Shah

Prêmio Especial do Júri
"Iron Boy" de Louis Clichy

Melhor Ator
Bradley Fiomona Dembeasset de "Congo Boy"

Melhor Atriz
Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas | "Siempre Soy Tu Animal Materno" 

Palma Dog
Yuri | "La Perra"

NªTV: Kylie

Kylie: vida e música pop.

Querido diáriw, vendo o documentário de três episódios da Netflix sobre a australiana Kylie Minogue lembrei de quando a vi no provocativo Holy Motors (2012) de Leos Carax e seu trabalho como atriz era simplesmente sensacional. A minissérie serviu para lembrar que antes de ser uma estrela da música pop, Kylie começou como atriz adolescente em uma série de TV que se tornou mania na Austrália e na Inglaterra. Neighbours a lançou ao estrelato, mas ela queria mesmo era ser cantora. Ela sabia que sua voz não era grandiosa, mas tinha disposição suficiente para se tornar um dos poucos casos de artista que atravessa décadas na música pop. A produção serve para conhecer um pouco mais de uma artista que começou com o hit I Should be so Lucky e depois virou chacota da imprensa. Quem vê Kylie hoje com seus Grammys na estante nem imagina a crise em que mergulhou quando optou por ser indie ou quando viu o mundo das turnês mundiais levar seu romance com Michael Hutchance do INXS ao fim. Abordando diversos momentos da cantora, há espaço para o fracasso de sua fase indie, seu retorno triunfal com Spinning Around, o hit mundial de Can't Get You out of my Head e  até mesmo o assustador diagnóstico de câncer que recebeu pela primeira vez em 2005. Dentre vários momentos importantes da carreira e da vida pessoal, fiquei impressionado no desenvolvimento da amizade de uma figura tão solar com seu total oposto encarnado chamado Nick Cave. Os dois fizeram uma parceria inusitada na fúnebre Where the Wild Roses Grow (em 1995) e ele pareceu ter um papel importante para a diva se redescobrir enquanto diva pop (a cena dela no concurso de poesia apresentado por ele é um dos momentos mais emocionantes do programa). Confesso que sorri e chorei vendo o documentário. Senti falta de destacarem minha música favorita dela, Slow - mas tá perdoado. 

Kylie (Reino Unido / 2026) de Michael Harte com Kylie Minogue, Danii Minogue, Jason Donovan, Nick Cave e Lino Carbosiero. ☻☻☻☻

quinta-feira, 21 de maio de 2026

PL►Y: O Estranho

Stamp: exercício neonoir

Misterioso diáriw, Steve Soderbergh lançou tantos filmes nos últimos anos que viveu ocupado demais para se preocupar com o fato das premiações o ignorarem solenemente nos últimos vinte anos. Quando ganhou a Palma de Ouro em Cannes por sua estreia em Sexo, Mentiras e Videotape (1989), ele disse que dali em diante era tudo ladeira abaixo. Ele acertou. Seus filmes foram mal de bilheteria e ele só foi levado a sério novamente quando lançou este O Estranho, alguns anos antes de receber o Oscar de direção por Traffic (2000). Com uma história simples nas mãos, o que Steven queria era provar ser capaz de prender a atenção da plateia com uma narrativa envolvente no que podemos considerar como um exercício neonoir, já que os personagens embaçados aqui fazem muita alusão ao clássico gênero de filmes policiais. Só que o personagem principal não é um detetive, mas um pai em busca do assassino de sua filha. Vale dizer que Wilson (Terence Stamp) está longe de ser um pai exemplar, até porque passou os últimos anos na prisão após uma longa trajetória no mundo do crime.  Este currículo o torna imprevisível, até mais do que o provável assassino, um executivo do ramo da música (vivido por Peter Fonda). Soderbergh constrói um quebra cabeça juntando os personagens que Wilson encontra pelo caminho e costura cada pista com um pouco da relação de uma família que se perdeu pelo caminho. A edição é um dos destaques da produção (que apresenta cenas com antecedência como se fosse o título de um capítulo de livro além de cenas de A Lágrima Secreta/1967 como se fosse o passado de Wilson).  Com este filme, o diretor demonstrou ter fôlego para mais algumas décadas de carreira e caiu nas graças dos atores que até hoje fazem fila para trabalhar com ele.

O Estranho (The Limey - EUA /1999) de Steven Soderbergh com Terence Stamp, Peter Fonda, Lesley Ann Warren, Luiz Guzmán, Barry Newman e Nicky Katt. ☻☻☻

PL►Y: O Morro dos Ventos Uivantes

O casal: Matando um Clássico

Literato diáriw, deve fazer uns seis anos que li O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë. Confesso que não está entre os meus favoritos, o que não impede que eu reconheça a importância do livro e o que o torna um clássico da literatura mundial. Os personagens complicados, os diálogos cheios de atrito e as relações cheias de conflitos fazem dele um verdadeiro marco literário. Lançado em 1847 a o obra é cultuada até hoje por uma legião de fãs e conta com umas treze versões para o cinema. A primeira é de 1920 (ainda na época do cinema mudo), mas a que carrego na mente é a de 1992 com Juliette Binoche e Ralph Fiennes. Esta última é dirigida por Emerald Fennell, a diretora e roteirista tem um Oscar na estante por Bela Vingança (2020), filme que a tornou uma das poucas mulheres a concorrer ao Oscar de melhor direção. Talento a moça tem, assim como gosto pela controvérsia (basta ver seu filme seguinte, Saltburn/2023 que eu adoro), mas o que ela faz aqui é uma grande bobagem. Para além de todas as mudanças sobre classes sociais e personagens secundários no filme, tenho a impressão que toda a tensão entre Catherine (Margot Robbie) e Heahcliff (Jacob Elordi) se torna pretexto para um filme tão pretensioso quanto sem alma. Os dois são personagens complicados, que fervem de desejo, mas deixam convenções sociais e sentimentos sombrios se sobreporem a todo amor que possam vivenciar. Nesta nova versão, ambos parecem perdidos na escalada das emoções (e repetidas cenas de sexo com roupa não diminuem esta sensação). Margot e Jacob fazem o que podem, mas o filme não decola. É arrastado, chato e desencontrado - mas para Emerald ele deve ser ousado e incompreendido. Não é. Tem como desver isso? Única coisa que salva é a performance de Hong Chau como Nelly. Decepcionante.  

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights / Reino Unido - EUA / 2026) de Emerald Fennell com Margot Robbie, Jacob Elordio, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Ewan Mitchell e Martin Clunes. 

domingo, 17 de maio de 2026

PL►Y: Socorro!

Rachel: o survivor de Raimi.
Prezado diáriw, Sam Raimi é um tipo de diretor interessante que começou no cinema indie com filmes inspiradamente B e que quase foi absorvido pelo mainstream, mas tem um estilo muito próprio para deixar se levar pelos modismos de grandes estúdios (prova disso foi o rumo do Homem Aranha de Tobey Maguire) Com gosto pelo humor macabro, o gore e o terror, Raimi sempre demonstra estar mais a vontade quando pode soltar as rédeas do previsível e levar seus personagens para além do que esperamos. É isso que ele faz em Socorro! ao colocar Rachel McAdams como a funcionária exemplar competente que espera sua promoção há tempos e vê tudo indo por água abaixo quando o dono da empresa morre - e o filho playboy (Dylan O'Brien) assume o comando. Sem saber do risco de demissão iminente ela aceita até ir em uma viagem com um bando de jovens engravatados que adoram debochar dela. Eis que um acidente deixa somente ela e o jovem herdeiro em uma ilha deserta. Obcecada pelo programa Survivor, ela demonstra bastante habilidade para manter-se viva e cuidar do jovem patrão. O problema é que ele não percebe que as hierarquias sociais não valem por ali e que ela não é tão ingênua quanto imagina. Começa uma guerra entre dois personagens que não estão dispostos a facilitar o espectador a rotular quem é bonzinho e quem é malvado na trama. Cada vez que achamos que entendemos a dinâmica entre os dois a coisa muda de formas absurdas. Rachel e Dylan tornam tudo tão divertido quanto assustador e o jogo de cena se torna imprevisível. Disposto a demonstrar o lado obscuro dos personagens naquela situação, tive a impressão que o filme partiu da ideia de um Triângulo da Tristeza (2022) em menor escala . Para além dos atores se divertindo em cena, o destaque vai para um javali que rouba uma cena. 

Socorro" (Send Help / EUA - 2026) de Sam Raimi com Rachel McAdams, Dylan O'Brien, Xavier Samuel e Edyll Smail. ☻☻☻

10+: Meryl Streep

 Faz tempo que eu devia minha lista com trabalhos favoritos de Maria Louise Streep, ou melhor Meryl Streep, a atriz nascida em Nova Jersey e 1949 e que se tornou uma lenda em Hollywood com suas vinte e uma indicações ao Oscar (e poderia ter recebido muitas outras, imagine...). Com três carecas dourados na estante, não faltam trabalhos icônicos na carreira desta lendária atriz. Dito isso, aos 72 anos, ela se tornou o principal motivo para as pessoas irem aos cinemas verem O Diabo Veste Prada2 e fazer do filme um sucesso. A seguir, as dez performances desta atriz incrível na minha modesta opinião:

10 "Lembranças de Hollywood" de Mike Nicholls (1990)



07 "Kramer Vs Kramer" de Robert Benton (1979)



04 "As Pontes de Madison" de Clint Eastwood (1995)


02 "A Escolha de Sofia" de Alan J. Pakula (1982) 

Na Tela: O Diabo Veste Prada2

Meryl: Miranda de volta. 

 Icônico diáriw, baseado no best-seller de Lauren Weisberg, O Diabo Veste Prada se tornou um filme pop que ecoa até hoje, vinte anos após o seu lançamento. Existe de fato uma magia quase hipnótica no filme sobre os conflitos da jovem Andrea Sachs (Anne Hathaway) ao ir trabalhar com a lendária Anna Wintour Miranda Pristley (Meryl Streep) na mítica revista Vogue Runway. No fim das contas, Andrea resolve seguir outros caminhos no jornalismo, mas o destino resolve fazê-la reencontrar Miranda. Acontece que muita coisa mudou, a revista impressa agoniza nas bancas e tudo se resume a visualizações online e viralizar nas redes. A postura de Miranda passou a ser alvo de repressões e tudo que é dito é julgado pelos internautas e influenciadores. O medo do cancelamento ironicamente coincide com a dificuldade de estabelecer um jornalismo sério na era digital. Para dar uma repaginada na Runway, Andrea é chamada de volta e reencontra uma Miranda mais acuada ao lado de seu fiel escudeiro Nigel (Stanley Tucci) - e eles nem imaginam que novas guinadas virão pela frente. É interessante como o filme oferece uma atualizada no olhar sobre aquela cultuada revista e a figura mítica que está por trás dela, mas o resultado soa mais melancólico do que glamouroso. A embalagem é a mesma, muita roupa de grife, trilha sonora envolvente e atores afiados (mesmo que o texto não seja tanto), mas o tom é outro. Mesmo a cenografia me parece evocar algo decadente com seus espaços apertados, isso retira do filme a aura hipnótica do anterior mas imprime um pouco mais de realidade- que parece assombrada pela extinção do que Miranda ressalta defender em uma das cenas mais emblemáticas. Interessante que o desfecho ainda consegue ser otimista, afinal, o longa é para divertir e não para sair triste do cinema.

O Diabo Veste Prada 2 (Devil wears Prada 2 / EUA -2026) de David Frankel com Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci, Simone Ashley, Patrick Brammall e Lucy Liu. ☻☻☻ 

PL►Y: Eddington

Phoenix: herói de barro.

Desgovernado diáriw, me deparei com críticas muito ruins ao novo filme de Ari Aster. O diretor que fez dois filmes de terror dignos de nota com Hereditário (2018) e Midsommar (2019), teve problemas com Beau tem Medo (2023) e agora com Eddington constrói uma sátira política numa cidadezinha no meio do nada e ainda mais isolada em 2020, tempos de pandemia. Lá o embate entre o xerife da cidade (Joaquin Phoenix) e o prefeito (Pedro Pascal) renderá acontecimentos que tornarão as relações ainda mais polarizadas. O que poderia ser apenas o debate sobre o uso de máscaras, logo vira algo mais por conta das complicações envolvendo os traumas da esposa do xerife (vivida por Emma Stone). Mas não é só isso, o isolamento e busca de conexões com o mundo via internet, motivam ainda mais o caos na cidade com discursos que  viram modismo e caminham para a mais completa desordem. Aster constrói uma massaroca de referências sobre o mundo atual e toda a confusão em que mergulha com falsos gurus e fake news. Celulares parecem armas e vídeos parecem mais relevantes do que os fatos que registram. Diante de todo o caos que se instaura, parece que a solução encontrada para o desfecho é um tiroteio que me fez pensar que Aster viu Bacurau (2019). As conclusões ficam pela metade, os discursos são jogados para o alto e a realidade parece pronta para quem quiser colocar fogo nela. O cineasta demonstra continuar ambicioso e assumindo riscos para não ficar preso a um gênero cinematográfico. Aqui ele faz drama, faz comédia, faz um faroeste virado do avesso, escorrega no humor ao lidar com temas cuidadosos e, como seus personagens fazem, atira para todos os lados. O resultado é interessante, incômodo e com uma ótima atuação de Joaquin Phoenix como um daqueles heróis de barro que adoram cultuar. 

Eddington (EUA - Reino Unido - Finlândia / 2025) de Ari Aster com Joaquin Phoenix, Pedro Pascal, Emma Stone, Cameron Mann, Michael Ward, Clifton Collins Jr e Austin Butler. ☻☻☻

domingo, 3 de maio de 2026

PL►Y: Twinless

O'Brien: sem o irmão. 

Surpreso diáriw, acho que Twinless é um dos filmes com roteiro mais original que assisti nos últimos tempos. Indie e sem grana para campanhas milionárias, a produção ficou de fora do Oscar na categoria de roteiro original. Foi indicado ao Independent Spirit de roteiro, de melhor ator (Dylan O'Brien) e de melhor filme. Em Sundance ganhou o prêmio de melhor filme dramático, melhor ator (pro Dylan) e o prêmio do júri na categoria de drama. Além destas credenciais, foi lembrado em várias listas de críticos como um dos melhores lançamentos do ano passado. Considero a celebração bastante justa, já que James Sweeney faz um ótimo trabalho em seu segundo longa-metragem, sendo também responsável pelo texto e por carregar metade do filme nas costas interpretando Dennis. Dennis conhece Roman (O'Brien, que está ótimo) em um grupo de suporte para pessoas que perderam o irmão gêmeo. Dylan ainda amarga o luto recente pelo irmão Rocky, que faleceu em um acidente. Ambos estão inundados por uma sensação de vazio e, complementa ainda mais a amizade que se instaura entre os dois, o fato de Roman ser hetero e Dennis ser gay - assim como Rocky. Os dois estabelecem um laço que oferece suporte de um para o outro e tudo vai bem até que o roteiro resolve demonstrar que existe algo mais por trás disso tudo. O roteiro é bastante engenhoso e faz tudo se (embolar e) encaixar com perfeição, funcionando de forma bastante convincente, especialmente pela mistura de drama com o senso de humor perigoso - que funciona surpreendentemente bem com a habilidade do diretor e das atuações. A montagem do filme realça ainda mais as nuances presentes entre os personagens (que inclui ainda a mãe de Roman e uma colega de trabalho de Dennis). O filme é uma pérola que merece ser descoberta no streaming e já está no meu top10 do ano. 

Twinless: Um irmão a Menos (Twinless - EUA /2026) de James Sweeney com Dylan O'Brien, James Sweeney, Lauren Graham, Aisling Franciosi e Chris Perfetti. ☻☻☻☻

PL►Y: Harry Chegou Para Ajudar

Sergi: estranha amizade. 
Arrepiado diáriw, este filme francês dividiu opiniões ao chegar nos cinemas. Enquanto alguns enxergavam nele um exemplo do cansaço de filmes sobre psicopatas dos anos 1990, outros enxergaram méritos na inspiração hitchcockiana impressa pelo diretor Dominik Moll. Moll utiliza de fato uma narrativa bastante elegante na forma como apresenta os personagens, especialmente a psique perturbada do vilão, ao mesmo tempo que o herói perdido se insere em uma estranha dinâmica que não está sob seu controle. Quando Michel (Laurent Lucas) viaja com a esposa (Mathilde Seigner) e as filhas, ele nem imagina que irá reencontrar um antigo colega da escola pelo caminho. Harry (Sergi López) não vê Michel faz tempo, mas deixa claro desde o início o quanto o admirava, sobretudo os seus textos publicados no jornal da escola.  Ao que parece Michel soube organizar sua via ao lado da noiva, Plum (Sophie Guillemin), mas aos poucos percebemos uma necessidade de validação pelos olhos do antigo amigo e um exagero na forma com que deseja fazer Michel reorganizar a vida. A trama começa um tanto arrastada até que possamos perceber que existe algo fora do eixo na mente de Harry e as coisas começam a piorar quando fica clara a obsessão do personagem por Michel. É um exercício de suspense dramático lento e, talvez por isso mesmo, seja tão perturbador perceber o que se passa na cabeça do rapaz. Sergi López apresenta um ótimo trabalho, construindo um personagem de casca indefectível acima de qualquer suspeita, mas que de inofensivo não tem nada. Pena que falte a Laurent Lucas um tanto de garra para espantar a apatia de seu personagem e criar um duelo de atores de mesmo calibre, sobretudo no desfecho. 

Harry chegou para Ajudar (Harry, un ami qui vous veut du bien / França - 2000) de Dominik Moll com Sergi López, Laurente Lucas, Mahtile Seigner, Sophie Guillemin, Liliane Rovère, Dominique Rozan e Michel Fau. ☻☻☻

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pódio: Sergi López

Bronze: o amante descompromissado. 

3º Uma Relação Pornográfica (1999) Fazendo cinema desde 1991 é curioso perceber que aos poucos, o ator passou a ser conhecido pelos vários papéis de vilão que interpretou.  Como acompanho a carreira de Sergi faz tempo, sei como ele é bastante versátil em papéis mais dramáticos, cômicos e até românticos como neste filme. Basta lembrar seu personagem que responde ao anúncio de uma mulher que procura um homem para viver um relacionamento descompromissado, pornográfico e anônimo. De encontro em encontro a curiosidade sobre um e do outro se torna inevitável, assim como os sentimentos que começam a aparecer entre eles. O filme concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, mas foi Sergi que saiu de lá com o prêmio de melhor ator e sua parceira em cena, Nathalie Baye, com o prêmio de melhor atriz. Merecidíssimo!  

Prata: o vilão sanguinário. 
2º O Labirinto do Fauno (2006) Muita gente conheceu o trabalho do ator por conta de sua performance como o vilão deste sucesso assinado por Guillermo Del Toro. Na pele de Capitão Vidal, muita gente cogitou que o ator merecia uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante por sua performance assustadora (e um tanto sedutora) como um fascista sanguinário. Ambientado na Espanha falangista de 1944, ele vive o novo padrasto da protagonista que não mede esforços para conter grupos rebeldes que atuam na região. Se você ainda não assistiu a esta obra-prima, não perca tempo e descubra o melhor trabalho do prestigiado Del Toro. Uma mistura de realidade e fantasia que poucas vezes alcançou um nível tão sublime na história do cinema. 

Ouro: o amigo obsessivo. 
1º Harry Chegou para Ajudar (2000) Este foi o primeiro filme que assisti com Sergi López e me fez fã de seu trabalho. Ele interpreta Harold Balestoro, que reencontra um amigo do Ensino Médio e provoca uma reaproximação. Acontece que o Harry do título tinha uma verdadeira obsessão pelo amigo e ela se reacende. O diretor Dominik Moll usa referências hitchockianas para construir uma narrativa que evolui gradativamente e que depende muito da habilidade de Sergi transitar entre o simpático e o arrepiante em um personagem complicado de tão escorregadio. O filme rendeu ao espanhol o prêmio de melhor ator no Cesar (o Oscar francês) daquele ano e o colocou entre os melhores atores europeus de sua geração. Nascido em 1965, Sergi seque aos 60 anos ativo nas telonas. 

PL►Y: Sirât

Bruno e Sergi: leite de pedra. 
Confuso diáriw, pode me explicar como Sirât cravou sua indicação ao Oscar de melhor filme internacional no Oscar deste ano? Eu já sabia (devido as críticas de suas passagens em festivais) que dentre os cinco indicados ele era o filme mais controverso (mas sinceramente, não me importo com isso). Por aqui, o filme já recebeu uma antipatia bônus devido ao comentário infeliz do diretor Oliver Laxe sobre o Brasil ter muitos votantes no Oscar e, por isso ,qualquer coisa consegue ser indicada (oi? ele sabe quantos Oscars e indicações a Espanha já teve?). O comentário soa ainda mais irônico quando durante as quase duas horas de personagens vagando no deserto em seu filme eu me perguntei: onde está a história? O ponto de partida é um pai (Sergi López tirando leite de pedra), com o filho caçula (Bruno Núñez), chegando em uma rave no meio do deserto do Marrocos procurando pela filha desaparecida. Embalado por música eletrônica por uns vinte minutos, o exército chega e conduz a multidão para fora dali, mas um grupo foge pelo deserto. Seguindo pelo meio do nada, com comida e água escassas, eles passam por adversidades enquanto a Terceira Guerra Mundial se aproxima. As dificuldades do grupo só aumentam entre um cachorro que come excrementos com LSD e um trágico acidente. O cuidado com a estética não consegue disfarçar a falta de assunto e ausência de desenvolvimento dos personagens em um road movie que é uma verdadeira peregrinação (até para o público que não entende o objetivo da produção). Haja paciência para presenciar os acontecimentos ruins que recaem sobre o protagonista para fingir que existe um desenvolvimento de narrativa. O sentido do título (que na mitologia islâmica é uma ponte mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma navalha situada sob o inferno) é muito mais interessante do que o filme em si. 

Sirât (Espanha - França / 2025) de Oliver Laxe com Sergi Lopez, Bruno Núñez, Steffania Gadda, Joshua Lian Henderson, Tonin Janvier e Jade Oukid.