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sábado, 10 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: Meu Amigo Hindu

Dafoe e Maria Fernanda: entre dores e amores. 

Acho justo terminar o Ciclo Verde e Amarelo de 2016 escrevendo sobre o último filme do cineasta Hector Babenco, que faleceu recentemente aos 70 anos no dia 13 de julho. O primeiro cineasta latino a ser indicado ao Oscar de melhor diretor (pelo antológico O Beijo da Mulher Aranha/) sempre rejeitou dizer que Meu Amigo Hindu era um filme biográfico, ainda que seja inspirado no período em que enfrentou um doloroso tratamento contra um câncer. Babenco ofereceu o papel do cineasta Diego para vários atores brasileiros - que rejeitaram o projeto - e acabou nas mãos de Willem Dafoe quase que por acaso após um jantar entre diretor e o ator. Por conta do interesse de Dafoe, os atores brasileiros, que já estavam no projeto, tiveram que filmar em inglês para depois dublar suas atuações em português.  No Brasil o filme foi lançado em versões dubladas e legendadas, ambas causando estranhamento do público, mas passada essa sensação, o que vemos é uma obra que demonstra porque Babenco era um cineasta cultuado por cinéfilos ao redor do mundo. Sei que a maioria das pessoas não irá gostar das primeiras cenas do filme (especialmente as do casamento repleto de comentários cortantes), mas vale a pena resistir a esses momentos em que os personagens são apresentados (e Diego visto como uma pessoa um tanto desagradável) e ser compensado por todo o resto. Do período de tratamento nos Estados Unidos, passando pelo retorno ao Brasil e a crise no casamento com a esposa (Maria Fernanda Cândido), o filme tem bons momentos, especialmente quando investe num tom delirante. São nesses delírios que Babenco entrega as melhores cenas, fazendo bonito com o melhor uso dos atores e da bela fotografia. Nesses momentos surreais o destaque fica por conta de Selton Mello, numa variação da Morte que visita Diego no hospital (e com quem joga xadrez), às vezes acompanhado por uma atriz de visual bastante peculiar. Como Babenco não é chegado a convenções, seu protagonista não irá encontrar o sentido da vida, tornar-se uma pessoas mais humilde ou espiritualizada, tão pouco encontrar a redenção, pelo contrário, ele pretende apenas sobreviver e, por conta disso, não deixa de expressar sua personalidade forte, bem distante dos tipos frágeis que aparecem nesse tipo de filme. No entanto, não falta momentos sensíveis em sua jornada, o próprio título se refere a um menino hindu que lhe fez companhia no hospital e que o faz reencontrar o prazer de contar histórias (e as poucas cenas entre os dois alcançam uma ternura que contrasta muito bem com as cenas amargas). Ainda que não seja uma biografia, Babenco empresta muito de sua história pessoal para Diego, da carreira como cineasta ao encontro com a atriz Bárbara Paz (que está ótima, especialmente em sua surpreendente última cena), o filme revisita pontos específicos da vida de seu autor, momentos felizes e outros bastante densos (inclusive quando termina o tratamento e precisa juntar o que sobrou de sua vida) mas, sobretudo, mostra-se uma declaração de amor ao cinema (especialmente por musicais, o que não deixa de ser uma grande surpresa para os fãs do diretor). Se Meu Amigo Hindu não é a obra-prima que muitos esperavam, pelo menos honra a carreira do diretor que sempre escapou do óbvio e ousava provocar a plateia enquanto contava suas histórias numa telona.  Babenco não está mais fisicamente entre nós, mas seu legado o faz eterno.

Meu Amigo Hindu (Brasil/2016) de Hector Babenco com Willem Dafoe, Maria Fernanda Cândido, Selton Mello, Bárbara Paz e Guilherme Weber. ☻☻☻

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: De Onde eu Te Vejo

Denise e Domingos: separação bem próxima...

Li em algum site um espectador reclamando que pelo trailer ele já sabia o final de De Onde Eu Te Vejo - e por isso mesmo o filme merecia apenas uma estrela (numa cotação de cinco, sendo que o site classificou o filme com quatro). Sinceramente, não me importo se um trailer já me mostra como o filme termina, o que me interessa é como o diretor irá manter minha atenção até chegar no final da história que ele conta - e isso Luis Villaça faz muito bem. Faz tempo que Villaça e sua esposa, Denise Fraga, investem num tipo de filme bastante específico no cinema brasileiro, longe de apelação e do humor fácil, sempre buscam contar histórias de pessoas comuns com bom humor e sensibilidade para abordar os problemas que encontram pelo caminho (seja no cinema ou na televisão). Em De Onde eu Te Vejo, a dupla toca em questões importantes enquanto nos fazem pensar que estamos diante de uma comédia romântica das mais simpáticas. Ana Lúcia (a sempre interessante Denise Fraga) decidiu se separar de Fábio (Domingos Montagner, ótimo em seu primeiro papel de destaque no cinema) após vinte anos de união. Ela ficou com o apartamento, onde mora com a filha e Fábio conseguiu alugar um outro no prédio ao lado - e sua janela fica exatamente de frente para o apartamento da esposa. A ideia já é suficiente para render piadas e reflexões sobre essa relação de separação tão próxima, mas o filme quer tratar de algo mais. Se o sentimento de isolamento de Fábio é mais evidente, com a filha do casal (Manoela Aliperti)  prestes a ir para a faculdade, a ideia de solidão também começa a rondar a mente de Ana Lúcia em seu ninho vazio. Não bastasse isso, a vida profissional do ex-casal também atravessará mudanças que servirão para o sub-texto que perpassa todo o filme: a renovação. Durante toda a história surgem personagens que por um motivo ou outro, conversam sobre as mudanças que observam na cidade. Espaços fecharam, outros são demolidos ou deram lugar para outros que emolduram a ideia do casamento desfeito de um casal que ainda se gosta e que nem sabe muito bem porque não funciona mais sob o mesmo teto. Se para Ana, sempre atraída por novidades e por sentidos cósmicos da existência, seu casamento não tem mais jeito, para Fábio é sempre possível tentar mais um pouquinho. Entre o novo e o velho, o conforto da rotina do casamento (ou o tédio alicerçado sobre a mesma rotina) ou a (nada) simples passagem do tempo, Villaça e Denise promovem um filme leve que não perde a oportunidade de fazer o público pensar sobre o mundo ao seu redor - cabendo destacar aqui como o diretor utiliza as locações na cidade de São Paulo de forma irresistível.  De Onde eu Te Vejo já está na minha lista de comédias favoritas do ano (e dos que verei várias vezes) e só para destacar ainda mais as qualidades do filme, ele foi quase todo filmado em estúdio - o que possibilita belos movimentos de câmera  e o uso preciso de especiais em boa parte das cenas. Arrisco dizer que é o melhor filme de Luis Villaça ao lado de Denise Fraga. 

De Onde Eu Te Vejo (Brasil/2016) de Luis Villaça com Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti e Marisa Orth. ☻☻☻

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: Muitos Homens Num Só

Vladimir e Alice: romance policial de época. 

O cinema parece território fértil para anti-heróis, principalmente porque as ambiguidades desses personagens, quando bem estruturados, podem render histórias muito interessantes. O curioso foi que até o final da sessão eu não sabia que a história de Muitos Homens Num Só é baseada em fatos reais, especificamente nas histórias que João do Rio (heterônimo de Paulo Barreto) escrevia para os folhetins sobre um misterioso ladrão dos hotéis cariocas do início do século XX conhecido como Dr. Antônio. As histórias acabaram reunidas no livro Memórias de um Rato de Hotel que serve inspiração para esse filme da cineasta Mini Kerti. Vladimir Brichta está ótimo na pele do protagonista escorregadio, afinal, some a estampa do ator à elegância e inteligência do roteiro e você terá um homem acima de qualquer suspeita (e ele até brinca com isso durante o filme). Utilizando diversas identidades diferentes, o doutor se hospeda em hotéis de luxo na Cidade do Rio de Janeiro para roubar jóias e pertences valiosos de seus hóspedes. Sem estabelecer laços emocionais com quem atravessa seus caminho, ele parece uma espécie de fantasma que começava a fazer parte das lendas urbanas cariocas. No entanto, a vida do doutor se complica quando precisa realizar um ousado roubo para o mentor Velléz (César Troncos) e acaba conhecendo Eva (Alice Braga), a insatisfeita esposa de Jorge (Pedro Brício). A dupla Alice e Vladimir torna palpável a atração entre os dois personagens, sem precisar de muitas explicações para justificar como um complementará o outro num romance proibido.  A diretora ainda demonstra bastante habilidade para explorar gêneros diferentes dentro do mesmo filme, capricha no romance, no suspense e no tom policialesco diante das investigações de um certo Félix Pacheco (Caio Blat) com a esperança de encontrar o lendário ladrão. É na parte policial que o filme apresenta sua parte mais curiosa ao fazer referências aos estudos de antropometria para identificação de criminosos - até que Félix estabelece uma referência importante para as investigações (e que existe até hoje). Também vale destacar a presença de Silvio Guindane como o cético jornalista que se interessa pela história do bandido doutor e não acredita em nenhum dos métodos científicos do amigo investigador. Outra atração a parte é a reconstituição de época primorosa, ainda mais valorizada pelos cenários mais glamourosos do Rio de Janeiro no início do século passado. Embora não tenha chamado muita atenção ao chegar aos cinemas no ano passado, Muitos Homens num Só é um filme cheio de méritos e, por isso mesmo, levou 10 prêmios no CinePE, incluindo filme, direção, ator, atriz e trilha sonora (assinada por Dado Villa Lobos).

Muitos Homens Num Só (Brasil-2014) de Mini Kerti com Vladimir Brichta, Alice Braga, César Troncos, Pedro Brício, Caio Blat e Silvio Guindane. ☻☻☻

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: A Marvada Carne

Adilson e Fernanda: romance (quase) folclórico. 

André Klotzel está entre os meus cineastas favoritos, pena que ele filma pouco. Com quatro filmes no currículo, o diretor chamou atenção desde sua estreia com o premiado A Marvada Carne (e com o sotaque interiorano fica ainda mais gostoso de dizer esse título)! O mais incrível é que três décadas depois, o filme ainda se garante (com facilidade) entre uma das obras mais interessantes do nosso cinema. Em 1985, Klotzel deliciou o público com a história de amor entre Quim (o ótimo Adilson Barros) e Carula (Fernanda Torres em início de carreira), uma história que se passa no interior do Brasil e está repleta de referências ao folclore brasileiro... mas não espere um filme didático e que força a mão para inserir personagens como Mulher Diaba (Regina Casé cheia de nuances) ou Curupira (Nelson Triunfo) de forma gratuita, todos estão inseridos de forma divertida numa história que parece uma espécie de versão de Ulisses para uma realidade brejeiramente brasileira. Afinal, se Quim tem como maior objetivo comer um pedaço de carne pela primeira vez, Carula quer apenas conhecer o homem de sua vida (nem que para isso tenha que torturar a estatueta de Santo Antônio até o limite - e a cena clássica das bolhas de ar saindo do santinho é de rolar de rir). É meio que por acaso que os caminhos de Quim e Carula se cruzam e a partir daí, ele terá que provar que é um homem digno de casar-se com aquela moça de família bastante tradicional. Klotzel usa e abusa do bom humor, sempre temperado com uma pitada de fantasia, encontrando amparo de um excelente roteiro (onde termos como "melúria" e "turina" não são de se rejeitar) e um ótico elenco (que precisa dar conta de um sotaque tão carregado que merecia até legenda em algumas cenas). Após tantos desafios enfrentados, talvez a maior adversidade de Quim seja quando ele vai para cidade grande e a realidade econômica do Brasil da década de 1980 vem à tona com seus congelamentos, produtos escassos e saques em supermercado (sem falar na esperteza brejeira dos personagens que é substituída pela malícia da cidade grande - encarnada por Chiquinho Brandão). O desfecho urbano e centrado na periferia mostra que A Marvada Carne estabelece uma espécie de transição entre dois mundos bastante específicos de nosso país e se estabelece como um filme que sempre gosto de rever e que indico para todas as pessoas que curtem um cinema nacional vigoroso e criativo (e adoraria que Klotzel, que não lança um filme desde Reflexões de um Liquidificador/2010 lesse essa humilde apreciação e voltasse a dirigir).

A Marvada Carne (Brasil-1985) de André Klotzel com Adilson Barros, Fernanda Torres, Dionísio Azevedo, Chiquinho Brandão, Regina Casé, Tio Celso, Tonico e Tinoco. ☻☻☻☻☻

CICLO VERDE E AMARELO: Chatô

Ricca: de descendente Tupi à Era Vargas. 

Depois de anos de uma produção conturbada (com orçamento estourado diversas vezes) e problemas após a conclusão (já que o filme foi "confiscado" para investigações pelo dinheiro gasto na produção), finalmente Chatô de Guilherme Fontes chegou aos cinemas. Soma-se vinte anos desde que o longa começou a ser filmado e, obviamente que havia grande curiosidade em torno dele até sua chegada aos cinemas no final do ano passado. O mais curioso é que depois de tanto tempo o filme continua atual e ousado por investir numa narrativa fragmentada que não opta pela obviedade de ser realista frente a história de Assis Chateaubriand. Chatô opta pela galhofa em tom de farsa. Baseado na biografia escrita por Fernando Morais, a produção mergulha num jogo de recorte e colagem quase aleatório de situações importantes na vida do brasileiro que se tornou magnata das comunicações. Apegado ao seu tom debochado, cínico e mulherengo, Marco Ricca constrói um personagem rico e, por isso mesmo, polêmico ao se distanciar do inofensivo.  O roteiro usa como pretexto uma trombose para mostrar tudo o que se passa dentro da mente de seu biografado, embaralhando referências, cores e personagens numa narrativa que beira o surreal. Serve como costura para os fatos o programa "O Julgamento do Século", onde o protagonista é questionado pelas suas ações, nem sempre louváveis, mas que serviram para impulsionar os meios de comunicação em nosso país. Ali discute-se os rumos de sua vida amorosa agitada, seu relacionamento com Getúlio Vargas (onde através da mídia foi capaz de leva-lo ao poder e depois cooperar em sua derrocada) e seu olhar astuto para os negócios (e produção de verdades notícias frente à população). Embora quem espera uma biografia convencional se decepcione (já que não utiliza pompa alguma para exaltar Chatô), o filme revela-se ainda mais interessante ao traçar a relação existente entre imprensa e política, mídia e poder, nos lembrando que ambas esferas são controladas por pessoas motivadas por seus próprios objetivos e motivações (mesmo em tempos de redes sociais as pessoas parecem ter esquecido disso). Nesse delírio, vale ressaltar a figura de Vivi Sampaio (ótima atuação de Andréa Beltrão) que é a mais esperta em cena, mas sempre limitada em suas aspirações por ser mulher. Com excelente direção de arte (que deve ter consumido boa parte do orçamento milionário) e narrativa tão ambiciosa quanto elaborada, Chatô está longe de ser o desastre que seus detratores desejavam. No entanto, há de se perceber que nem sempre o filme segura o ritmo vertiginoso que se propõe, deixando que algumas cenas pareçam soltas demais dentro do quebra-cabeça mental que estabelece - um defeito que parece até pequeno diante do retrato de um Brasil que parece mais atual do que deveria...

Chatô: O Rei do Brasil  (Brasil-2015) de Guilherme Fontes com Marco Ricca, Andréa Beltrão, Paulo Betti, Leandra Leal, Zezé Polessa, Gabriel Braga Nunes e Letícia Sabatella. ☻☻☻☻

CICLO VERDE E AMARELO: Obra

Irandhir e Júlio: o movimento de um mundo cinza. 

Famoso pelos curtas estilosos apresentados em festivais, Gregório Graziosi estreou em longa-metragem mantendo o mesmo rigor quanto à estética de sua cinematografia. Obra estreou no ano passado e chamou atenção com sua belíssima fotografia em preto e branco que emoldura com perfeição o trato com as imagens proporcionado pelo diretor. O filme conta a história de João Carlos (Irandhir Santos), um promissor arquiteto que está a frente de um projeto num terreno de sua família no centro de São Paulo, além da ansiedade perante o projeto, ele também está prestes a ser pai pela primeira vez. Tudo parece encaixar perfeitamente na vida do protagonista, até que uma ossada é encontrada no local da obra e ele prefere escondê-la para evitar atrasos na obra. Sua atitude gera problemas com o mestre de obras (Júlio Andrade) e uma série de angústias para o personagem, que vão do horror psicológico ao se deparar com suspeitas sobre o passado de seu avô e sentir dores crônicas na coluna. O filme avança em longos silêncios e cenas claustrofóbicas que só ressaltam a desconstrução vivida por João (preste atenção na primeira cena onde são projetadas imagens de prédios sobre o personagem até que um deles é demolido, uma cena que parece aleatória mas que trata-se de uma prévia do que veremos). Se a narrativa pode soar hermética para alguns, a construção das cenas são um verdadeiro deleite para os olhos. A preocupação com detalhes arquitetônicos e objetos em cena mostra-se um grande trunfo do filme, que para além dos conflitos morais do personagem, amplia o conceito de Obra para além da construção civil, referindo-se à família, à identidade e à carreira. Em alguns momentos o filme me lembrou Pi (1998), o primeiro filme de Darren Aronofsky e em outras o recente Demon (2015), embora siga por caminhos diferentes, a originalidade aqui está em fugir dos temas urbanos convencionais - não há o ritmo alucinante da metrópole, os carros parados no trânsito  (aspectos que estão presentes, mas como parte dos sons que sempre surgem em cena ao lado da trilha sonora). Graziosi impressiona por sua segurança ao contar uma trama repleta de simbologias sobre o que se esconde na história das grandes metrópoles - e o tom impresso pelo fotógrafo André Beltrão funde homens e cenários com perfeição, fazendo tudo parte de um mesmo corpo cinzento.  

Obra (Brasil/2015) de Gregório Graziosi com Irandhir Santos, Júlio Andrade, Lola Peploe, Fernando Coimbra e Marisol Ribeiro. ☻☻☻

terça-feira, 6 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: Califórnia

Estela (ao centro): garoto eu vou p'ra Califórnia...

Filha do cineasta Luis Sérgio Person, a também cineasta Marina Person ficou famosa como VJ da MTV Brasil entre 1995 e 2011. Além dos trabalhos com rádio e TV, Marina lançou um documentário sobre seu pai (Person/2007) e agora se aventura em seu primeiro longa de ficção: Califórnia. Ambientado em 1984 o filme conta os dilemas de Estela (Clara Gallo), adolescente que sonha ir para a Califórnia nos EUA para visitar o tio (vivido por Caio Blat) que vive por lá. Aquele destino significa tudo que ela não percebe em sua vida juvenil - tanto que rejeitou uma festança de 15 anos para investir em sua viagem. Enquanto o grande dia não chega, ela passa os dias de estudante ao lado de suas duas amigas e dois pretendentes ao seu coração: o praieiro Xande (Giovanni Gallo) e o soturno JM (Caio Horowitz). Se Xande seria o seu par mais convencional, JM se mostra mais alternativo, com suas roupas pretas, cabelo inspirado em Robert Smith (o personagem até revela ser fã incondicional do The Cure) e comentários que deixam a protagonista em dúvida sobre algumas questões. Após apresentar os personagens e chegar a um ponto cômodo, a trama muda de rumo, fazendo as certezas de sua personagem se perderem pelo  caminho. O filme demora um pouco para engrenar, mas aos poucos ele consegue relaxar e consegue um bom ritmo, onde até a atuação da novata Clara Gallo (que parece uma mistura da própria Marina com a Justine Frischman, vocalista do Elastica) ganha mais energia ao longo da história. Se a história sobre adolescência não chega a trazer novidades, Marina Person consegue lhe dar um colorido pop bastante coerente com a época retratada, Estela é fã de David Bowie, escuta Joy Division, tem pôster de E.T. na parede, frequenta festinhas que toca Titãs e Kid Abelha (na época dos Abóboras Selvagens) e recebe informações sobre tudo o que se tornaria novidade no mainstream da cultura pop nos anos seguintes (uma fita k-7 com os primeiros sons do Red Hot Chilli Peppers, um pôster do filme de estreia dos irmãos Joel & Ethan Coen...), mas nem tudo é descolado, afinal a AIDS começa a aparecer no horizonte para inibir a celebrada liberdade sexual de meninos e meninas. Porém, ae o roteiro é bastante carinhoso com as angústias de sua protagonista, o mesmo não se pode dizer de alguns personagens, como o pai vivido por Paulo Miklos e até o jovem Xande, que são mais unidimensionais do que deveriam. No fim das contas, Califórnia mostra-se mais do que o destino de uma viagem, mas a busca por um estado de espírito que qualquer adolescente (de qualquer época) deseja, mas no caminho se depara com dúvidas, incertezas e escolhas... quem disse que crescer era fácil?

Califórnia (Brasil/2015) de Marina Person com Clara Gallo, Caio Horowitz, Giovanni Gallo, Virginia Cavendish, Caio Blat e Paulo Miklos. ☻☻☻

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: Mais Forte que o Mundo

Loretto e Rômulo: lutando dentro e fora dos ringues. 

O cineasta brasileiro Afonso Poyart apresentou em sua estreia, Dois Coelhos (2012), ter uma assinatura diferente da grande maioria dos cineastas de sua geração. Nada de longos planos, câmera parada e edição contida, seus filmes possuem um ritmo ágil e com grande inspiração no cinema de ação. Essa característica o levou a ser convidado para dirigir Anthony Hopkins no recente Presságios de um Crime, sua estreia no cinema americano. O convite acabou adiando outro projeto, o filme sobre a história do lutador de MMA José Aldo, que começou a ser gerado em 2012 tendo Malvino Salvador como protagonista. Com o tempo, Salvador saiu do elenco e foi substituído por José Loreto - que apesar de não ser parecido com o biografado, está bastante convincente na pele do lutador de origem humilde e cheio de vontade de vencer. Poyart tem como maior desafio não deixar o filme desandar para o melodrama perante as dificuldades enfrentadas por Aldo junto à família em Manaus. O pai (Jackson Antunes) tinha sérios problemas com a bebida e agredia a esposa (Claudia Ohana em ótimo momento) constantemente. Morando na periferia e sem muita perspectiva de vida, a primeira parte do filme deixa claro que Aldo estava prestes a ter um destino obscuro se continuasse a não domar toda a raiva que trazia dentro de si - especialmente contra o rival Fernandinho (Rômulo Neto). Sorte que em determinado momento Aldo parte para o Rio de Janeiro e decide investir em sua carreira de lutador. A vida na Cidade Maravilhosa também não era fácil, mas ele conhece algumas pessoas que ajudam a dar uma guinada em sua vida, entre eles a bela Viviane (Cleo Pires), o treinador Dedé Pederneiras (Milhem Cortaz) e o amigo Marco Loro (Rafinha Bastos, responsável pelo alívio cômico dos treinos), que se tornam importantes em sua trajetória. Com duas horas de duração, Poyart realiza um bom trabalho para segurar a atenção da plateia, capricha nos cortes, no uso de câmera lenta e nos ângulos da reprodução das lutas que fizeram José Aldo chamar atenção da mídia como peso leve do agressivo esporte. De vez em quando o longa escorrega ao explorar demais os dramas familiares do personagem que ainda precisa domar seus demônios internos para brilhar nos ringues. Por outro lado, Poyart acerta ao não amenizar a força bruta do personagem - que nem sempre é mostrado como um sujeito fácil de lidar. O melhor é que Poyart sabe quando desacelerar para emocionar a plateia (devo admitir que achei emocionante a forma encontrada para encaixar como o protagonista conseguiu sua cicatriz no rosto, sem dúvida é um grande acerto). Feito com energia e competência, o filme poderia ser um pouquinho mais curto, mas nada que atrapalhe a capacidade do diretor para contar histórias no melhor estilo arrasa quarteirão (e o sucesso de bilheteria só comprova que isso é muito bem vindo em nosso cinema). 

Mais Forte que o Mundo - A História de José Aldo (Brasil-2016) de Afonso Poyart com José Loretto, Cleo Pires, Jackson Antunes, Milhem Cortaz, Claudia Ohana, Romulo Neto, Paloma Bernardi e Rafinha Bastos. ☻☻☻

domingo, 4 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: Boi Neon

Cazarré: entre o ideal e o real. 

Premiado no Festival de Veneza, no Festival de Havana e no Festival do Rio o filme Boi Neon de Gabriel Mascaro estreou sob grande expectativa do público - talvez não apenas pelos prêmios que acumulou, mas também pela presença de Juliano Cazarré, ator gaúcho que se tornou um dos artistas mais cobiçados pelo cinema brasileiro e que ficou bastante popular por suas participações em telenovelas. No entanto, é no cinema que Cazarré costuma viver seus personagens mais complexos e diferentes, aqui por exemplo ele se torna o centro da narrativa, marcada pelo contraste entre a realidade e as ambições. O ator vive Iremar, um rapaz que trabalha em rodeios no norte do Brasil, cuidando dos bois ao lado de Mário (Josinaldo Alves), Galega (Maeve Jinkings, outra cobiçada intérprete no cinema atual), mãe da menina Cacá (Alyne Santana). Para além do cenário árduo e do trato com os animais, Iremar tem o desejo de se tornar estilista - e se satisfaz construindo figurinos para uma apresentação onde Galega deixa de ser a mulher sem glamour e se torna uma espécie de híbrido movido à musica eletrônica. São dessas janelas entre o que vivem e o que podem se tornar que o filme de Mascaro ganha força, no entanto, o filme repete alguns cacoetes estilísticos que se tornaram comuns entre os cineastas tupiniquins. Os planos são quase sempre abertos, existe o apelo de cenas que parecem de puro voyeurismo (incluindo uma com um cavalo puro-sangue) que conferem ao filme um erotismo diferente e que pode soar incômodo para a maioria do público, além disso, o filme parece terminar em sua metade, logo depois que Iremar vai ao "local de seus sonhos" e revela sua orientação sexual (e sinceramente eu nem me preocupava com isso). Com uma hora e quarenta minutos de projeção, sobram cenas exaustivas de (maus?) tratos com bois e cenas longas (muitas arrastadas), Boi Neon revela sua ideia gradativamente até a última cena, mas ainda assim, deixa a impressão que apenas a apresentou mas não a explorou em todas as suas possibilidades. Talvez a ideia do diretor seja exatamente essa, mostrar que as expectativas de seus personagens ainda não encontram espaço para se revelarem no cotidiano que vivenciam, assim, talvez a minha insatisfação seja a mesma dos personagens. Falando em insatisfação, Mascaro tornou-se notícia ao discordar da legitimidade da escolha do filme que irá disputar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro do ano que vem. Por conta da pendenga com um jornalista que criticou levianamente um dos filmes que aspiram à indicação, Mascaro retirou Boi Neon da competição e sugeriu que outros diretores fizessem o mesmo. 

Boi Neon (Brasil/2015) de Gabriel Mascaro com Juliano Cazarré, Maeve Jinkins, Vinícius Oliveira e Alyne Santana. ☻☻