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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

NªTV: Clarice

Breeds: o legado da agente Starling. 
Querido diáriw, O Silêncio dos Inocentes (1991) foi o primeiro filme de gente grande que assisti. O longa se tornou um clássico, com performances inesquecíveis de Anthony Hopkins e Jodie Foster. Com o mérito de ser um dos poucos filmes a receberem os cinco principais prêmios do Oscar (filme, direção, ator, atriz e roteiro adaptado da obra de Thomas Harris), o filme se tornou uma referência do gênero policial. Embora tenha rendido vários derivados, nada se compara à grandiosidade do filme de Jonathan Demme. Eis que dia desses procurando algo para assistir no Prime Video encontrei a série Clarice, lançada em 2021 que apresenta o que acontece com a agente Starling após os fatos do filme. Embora tenha durado somente uma temporada, a série prendeu minha atenção e a considerei bastante interessante ao capturar detalhes do filme que poderiam ser aprofundados (e como tem desdobramentos possíveis!). A começar pelo estresse pós-traumático da jovem Clarice (vivida pela competente Rebecca Breeds que reproduz alguns elementos da atuação de Foster) após o confronto com Bufallo Bill e a proximidade com Lecter (que por motivos de direitos autorais não pode ter o nome citado na produção). Depois de um ano de licença, Clarice voltou ao batente cheia de prestígio, mas insegura ao lado de uma equipe. Agora, ela ajuda a desvendar mortes que parecem executadas por um serial killer, mas sua capacidade de olhar para os lados menos óbvios do caso permanece intacta.  A série sofreu críticas por não trazer nada de novo e parecer com outras séries policiais em exibição. Só esqueceram que a série se inspira na atmosfera do filme que serviu de referência para quase tudo ligado à investigações que veio depois dele. A temporada é satisfatória, o elenco é bom, os personagens são interessantes e eu veria mais algumas temporadas sem problemas. 

Clarice (EUA/2021) de Jenny Lumet e Alex Kurtzman com Rebecca Breeds, Michael Cudlitz, Lucca de Oliveira, Marnee Carpenter, Devyn A. Tyler e Nick Sandow. ☻☻☻☻.

sábado, 15 de agosto de 2026

NªTV: Diários de Um Robô Assassino

Alexander: ótima fase. 

Robótico diáriw, se tenho algum arrependimento com esta série da AppleTV é não ter assistido antes. A boa notícia é que vou esperar menos pela nova temporada que deve estrear no ano que vem! Diários de Um Robô Assassino é baseado na série de 4 livros de Martha Wells que se tornou um sucesso entre os fãs de ficção-científica. O grande motivo do sucesso é a construção irresistível do protagonista, um robô de segurança que consegue hackear o próprio sistema para fazer o que bem entende (no caso assistir, séries de ficção científica e tecer comentários sarcásticos sobre a humanidade). O personagem caiu como uma luva no dinamarquês Alexander Skarsgård que está na melhor fase de sua carreira. Enquanto protagonista ele consegue dar conta de todas as angústias e inseguranças perante o medo de seu "defeito" ser descoberto e leva-lo à destruição. A sorte é que ele se torna responsável pela segurança de um grupo de cientistas "alternativos", com tendências hippies e à vida em comunidade, o que os leva a ficar no meio do caminho entre acolher o protagonista ou desconfiar de que ele possa matar todo mundo. O elenco está bastante coeso em cena e são as relações do grupo que movem as cenas de ação e os muitos momentos de humor. Destaque para Dra Mensah (Mona Dumezweni) e Gurathin (David Dastmalchian) que exemplificam bem a relação hesitante dos humanos com o "equipamento" de segurança. Durante os dez episódios o protagonista descobre que seu livre-arbítrio o aproxima mais de ser humano do que ele imagina. O fato é que a série não funcionaria sem Alexander (que também assina a produção) que com expressões contidas e olhares intensos, consegue da conta dos circuitos contraditórios de uma máquina pensante. Feito pelos manos Chris e Paul Weitz (separados desde o sucesso Um Grande Garoto/) a produção é um grande acerto. 

Diários de Um Robô Assassino (Murderbot/EUA - 2025) de Chris e Paul Weitz com Alexander, Skarsgård, Mona Dumezweni, David Dastmalchian, Sabrina Wu, Akshay Khanna, Tamara Podemski, Tattiawna Jones, John Cho e Clark Gregg. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 4 de agosto de 2026

NªTV: DTS St. Louis

Jason e David: nada é o que parece.
Elogiado diáriw, a minissérie DTS St Louis da HBO se tornou uma das produções mais celebradas do ano e, se considerarmos suas 13 indicações ao EMMY, deve se tornar uma das mais premiadas da temporada. Exibida nos meses de março e abril na emissora, meu interesse pelo programa veio com os comentários positivos unânimes que ouvi. O mérito aqui é subverter a impressão inicial de "já sei o que vai acontecer". Aquela sensação de comédia dramática suburbana que gerou pérolas como Beleza Americana (1999) e a série Desperate Housewives (2004-2012) repete-se aqui, mas nada é do jeito que você imagina. A trama aborda a amizade entre o apresentador Clark Forrest (Jason Bateman) e o intérprete de libras Floyd Smernitch (David Harbour) que o acompanha nos telejornais. Os dois ficam muito próximos e quando Floyd é encontrado morto, recai sobre Clark a suspeita de assassinato. Ao final do primeiro episódio a suspeita ganha ares de certeza com o caso entre ele e a esposa do falecido (Linda Cardellini) e os seis capítulos que se seguem servem para confundir o público e os investigadores encarregados do caso vividos por Richard Jenkins e Joy Sunday (que já teve destaque na série Wandinha, mas aqui mostra-se a revelação do elenco). A trama criada por Steve Conrad mistura adultério, aplicativos sexuais, amizade e auto-estima como uma espécie de jogo contra as expectativas do espectador. Se a visão inicial é a intenção de surpreender a plateia a qualquer custo, no desfecho percebemos que a proposta torna-se um desafio à nossa percepção sobre relações humanas. Não por acaso, a minissérie reforça o tempo inteiro que de perto ninguém é normal - e afinal, o que é ser normal? No fim das contas, só senti falta de um melhor desenvolvimento da esposa de Clark que praticamente some da narrativa. 

DTF St. Louis (EUA-2026) de Steve Conrad com Jason Bateman, David Harbour, Linda Cardellini, Richard Jenkins, Joy Sunday, Peter Sarsgaard, Chris Perfetti e Arlan Ruff. ☻☻☻☻ 

domingo, 2 de agosto de 2026

NªTV: Proud

Ignassy: a vida em julgamento. 
Orgulhoso diáriw, a HBO acabou de exibir a primeira temporada da premiada série polonesa Proud e confesso que fiquei surpreso ao descobrir que existe um gancho para uma segunda temporada. O motivo de minha surpresa é que no sexto episódio (são oito no total) eu imaginava que as coisas já poderiam se resolver devido ao sabor de enrolação. A trama conta a história de Filip Raczynski (Ignacy Liss), um jovem rapaz gay que curte noitadas com múltiplos parceiros sexuais, álcool e drogas. Ele ganha a vida fazendo alguns trabalhos como modelo por indicação de amigos e mora com a irmã Anna (Sylwia Boron) e a sobrinha, Tosia (Alicja Lewczuk). Acostumado com uma rotina sem responsabilidades, tudo muda quando Anna morre e a pequena Tosia precisa de alguém para cuidar dela. De início Filip não quer assumir a sobrinha, mas acaba revendo seus próprios fantasmas do passado (o fato de ter crescido em um orfanato e durante a vida poder contar somente com a irmã, que não está mais por perto). No decorrer dos episódio, Filip percebe que precisa mudar o estilo de vida e enfrenta as dificuldades de ajeitar a rotina para dar conta de um bebê. Das dificuldades de conseguir um emprego, manter um relacionamento e até de ser levado a sério pelos amigos, tudo piora quando a guarda pela menina vai para a justiça e suas chances permanecem mínimas pelo fato de ser gay. Quando começa a parte das visitas da assistente social a série começa a enveredar por situações que carecem de um pouco de credibilidade, prejudicando o tom realista da série. Ignassy Lyss dá conta de viver a transição do protagonista e entre os coadjuvantes está a excepcional Joanna Kulig (do maravilhoso Guerra Fria/2018) como a advogada sem firulas de Filip. 

Proud (Polônia/2026) de Karol Klementewicz e Monika Pęcikiewicz com Ignassy Lyss, Maria Sobocińska, Kamil Studnicki, Joanna Kulig, Mateusz Więcławek e Maja Ostaszewska. ☻☻☻

sábado, 11 de julho de 2026

NªTV: O Segredo de Widow's Bay

Rhys: maldição turística.

Misterioso diáriw, tive a impressão que todo mundo repentinamente começou a falar da série O Segredo de Widow's Bay e fui tomado por uma curiosidade súbita, ainda que tardia (já que o último episódio foi ao ar no dia 24 de junho e desde então está completa na AppleTV). A produção criada pela roteirista Katie Dippold é um verdadeiro deleite para os fãs de mistério e terror, sendo que, carrega um tempero delicioso de humor a cada episódio. Nem sei se o termo terrir ainda existe ou é usado, mas desde o primeiro episódio vemos que é exatamente este o interesse da diretora. Embora faça graça aqui e ali e tenha um irresistível timing cômico em meio às situações, a trama prende a atenção por deixar o espectador esperto para entender o que está acontecendo. Widow's Bay é uma ilha que fica isolada à costa da Nova Inglaterra. Aparentemente é um lugar muito agradável de se viver, pelo menos até o prefeito (o ótimo Matthew Rhys) inventar de promover o turismo por ali. Descrente de todos os comentários de que a ilha é amaldiçoada, ele insiste em atrair turistas para o local e... não dará certo. Entre uma pousada mal assombrada, almas penadas na praia, mortos que são desenterrados com vida, serial killers lendários, moradores que não podem sair da cidade e uma tempestade que promete acabar com tudo, Dippold dá uma aula de como construir um roteiro cheio de referências em episódios amarradinhos sem perder o charme próprio. Quem costura tudo é Matthew Rhys que vê a tragédia local cair literalmente no seu colo e precisa tentar resolver os mistérios que rondam a localidade. Com ótimo elenco, trilha sonora marcante e atmosfera bem construída, a série mistura de diferentes gêneros de terror e demonstra fôlego para mais algumas temporadas. Já está entre minhas favoritas do ano. 

O Segredo de Widow's Bay (EUA-2026) de Katie Dippold com Matthew Rhys, Kate O'Flynn, Stephen Root, Hamish Linklater, Kevin Carroll, Kingston Rumi Southwick, Dale Dickey, Jeff Hiller e K Callan. ☻☻☻☻☻ 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

NªTV: Margô Está em Apuros

Elle: carreira em alta. 
Televisivo diáriw, Elle Fanning deve estar muito feliz com seu ano de 2026. Foi o ano em que recebeu sua indicação ao Oscar pelo seu belo trabalho no oscarizado Valor Sentimental (2025) e que recebe elogios unânimes por seu trabalho em Margô está em Apuros, produção da AppleTV em parceria com A24 que deve lhe render indicações aos prêmios de televisão no próximo ano. Me atrevo  dizer que a atriz está em sua melhor fase aos 28 anos e 25 anos de carreira (!!). Ela vive Margô Millet, estudante de literatura que pretende ser escritora, mas fica grávida de um professor (Michael Angarano) casado. Daí em diante tudo se complica, ela perde o emprego, faz um acordo complicado com  a família do pilantra, perde as amigas com quem dividia o apartamento e o dinheiro fica cada vez mais minguado para sustentar um bebê. Embora conte com a ajuda da mãe (a maravilhosa Michelle Pfeiffer) e do pai, que andava sumido (o ótimo Nick Offerman), a grana curta a faz abrir uma página no OnlyFans e os acontecimentos seguem de forma cada vez mais caótica ao ponto de ter o risco de perder a guarda do bebê. Feito sem moralismos e com elenco afiado, Margô está em Apuros é uma delícia de assistir, sobretudo por expor as hipocrisias do mundinho estadounidense que adora se ver como recatado, mas que não tem postura para sustentar o discurso. Tem algo que retrata isso melhor do que o professor que transa com aluna e acusa a mesma de não ter moral? Encontrando um raro equilíbrio entre o drama e a comédia, a minissérie comove e faz rir com um ótimo texto baseado no livro de Rufi Thorpe. Assim que o livro foi lançado, Elle e a irmã Dakota Fanning ficaram de olho nos direitos e descobriram que Nicole Kidman e o produtor David E. Kelly (esposo de Michelle Pfeiffer) também queriam adaptar o material. Todos se juntaram e o resultado é um grande acerto. 

Margô está em Apuros (Margo got Money Troubles / EUA - 2026) de David E. Kelley com Elle Fanning, Michelle Pfeiffer, Nick Offerman, Michael Angarano, Marcia Gay Harden, Greg Kinnear, Thaddea Graham e Nicole Kidman. ☻☻☻☻ 

sábado, 20 de junho de 2026

NªTV: Spider-Noir

Spider: Cage em boa forma.

Cinzento diáriw, interessante ver que somente agora Nicolas Cage se aventurou em uma produção televisiva. Curiosamente, seu primeiro projeto para TV é devido ao seu trabalho em uma animação, já quem em Homem-Aranha no Aranhaverso (2018) ele foi o responsável por dar a voz ao Spider-Noir. Trata-se de uma versão alternativa do herói aracnídeo que vive como detetive na década de 1930. O personagem foi publicado pela primeira vez em 2009 e ganhou notoriedade quando chegou ao cinema. O personagem empolgou tanto que pensaram em fazer um filme para ele, mas a ideia acabou virando uma série em cartaz no Prime Video. Diante de toda saturação de filmes de heróis no cinema, achei a ideia bem mais apropriada, já que pode construir o universo do personagem com mais calma e a produção ainda inventou uma saída interessante ao deixar a cargo o espectador escolher se quer ver a produção em cores ou em preto e branco - que parece mais apropriado à atmosfera noir que o personagem sugere. Na trama, Ben Reilly (Cage) é um detetive que perdeu o amor de sua vida, por conta disso decidiu aposentar seu alter-ego o herói Spider. No entanto, suas habilidades de aranha permanecem em ação. O trabalho como detetive não vai bem e as coisas pioram quando ele se mete em uma investigação envolvendo o chefe do crime da cidade, o Cabelo de Prata (Brendan Gleeson), e um grupo de pessoas com poderes especiais que começam a aparecer. Como todo bom noir, nada é o que parece e temos uma femme fatale, no caso Cat Hardy (Li Jun Li), para bagunçar o coração do herói. Bem cuidada e com um estilo diferente do que vimos em séries de heróis até aqui, Spider-Noir é uma grata surpresa para os fãs de quadrinhos e traz Cage em um daqueles papéis que lembram o quão interessante ele pode ser.

Spider-Noir (EUA-2026) de Oren Uziel com Nicolas Cage, Lamorne Morris, Brendan Gelleson Li Jun Li, Jack Huston, Lukas Hass, Abraham Popoola e Scott MacArthur. ☻☻☻

sábado, 30 de maio de 2026

NªTV: Pela Metade

Bell e Gadd: relação pesada. 

Traumatizado diáriw, depois do sucesso estrondoso de Bebê Rena é incrível perceber que o escocês Richard Gadd acertou mais uma vez com uma produção sobre outro relacionamento temperado com com traumas, saúde mental e uma dinâmica tóxica entre os personagens. Em Pela Metade (uma tradução bem menos interessante do que o literal Meio Homem do original) conhecemos Niall (Jamie Bell), que no dia de seu casamento recebe a visita do "irmão" Ruben (Richard Gadd) entre os convidados. Os dois tiveram que conviver devido ao relacionamento de as mães lésbicas, mas a passividade do primeiro se chocou com a agressividade do segundo desde a adolescência (e os atores Mitchell Robertson e Stuart Campbell são fundamentais para estabelecer a intoxicante relação entre os dois). Cada episódio revela um detalhe dos rumos da vida de ambos e paira nas entrelinhas uma tensão sexual latente, que se arrasta (ou os esmaga) ao longo de décadas enquanto tentam organizar suas vidas (e sempre voltam ao mesmo ponto mal resolvido). Lançada pela HBO e finalizada na noite de ontem, a minissérie é sufocante, mas não de um humor nervoso. A dinâmica entre Bell e Gadd (que está completamente diferente de seu sucesso anterior) sustenta a tensão dos episódios de forma assustadora, especialmente quando percebemos que a divisa entre mocinho e vilão são maleáveis. Gadd instaura na cabeça do espectador novamente a questão: "se uma relação é prejudicial, porque insistimos nela?" A respostas não é fácil, já que mexe em questões profundas de nós mesmos que tentamos nem pensar para evitar a desconstrução de como nos enxergamos. Após escrever, atuar e produzir mais um grande acerto, Richard Gadd desperta curiosidade sobre seus futuros projetos. 

Pela Metade (Half Man / Reino Unido - 2026) de Richard Gadd com Jamie Bell, Richard Gadd, Mitchell Robertson, Stuart Campbell, Neve McIntosh, Charlie de Melo, Amy Mason e Anjli Mohindra. ☻☻☻☻

domingo, 24 de maio de 2026

NªTV: Kylie

Kylie: vida e música pop.

Querido diáriw, vendo o documentário de três episódios da Netflix sobre a australiana Kylie Minogue lembrei de quando a vi no provocativo Holy Motors (2012) de Leos Carax e seu trabalho como atriz era simplesmente sensacional. A minissérie serviu para lembrar que antes de ser uma estrela da música pop, Kylie começou como atriz adolescente em uma série de TV que se tornou mania na Austrália e na Inglaterra. Neighbours a lançou ao estrelato, mas ela queria mesmo era ser cantora. Ela sabia que sua voz não era grandiosa, mas tinha disposição suficiente para se tornar um dos poucos casos de artista que atravessa décadas na música pop. A produção serve para conhecer um pouco mais de uma artista que começou com o hit I Should be so Lucky e depois virou chacota da imprensa. Quem vê Kylie hoje com seus Grammys na estante nem imagina a crise em que mergulhou quando optou por ser indie ou quando viu o mundo das turnês mundiais levar seu romance com Michael Hutchance do INXS ao fim. Abordando diversos momentos da cantora, há espaço para o fracasso de sua fase indie, seu retorno triunfal com Spinning Around, o hit mundial de Can't Get You out of my Head e  até mesmo o assustador diagnóstico de câncer que recebeu pela primeira vez em 2005. Dentre vários momentos importantes da carreira e da vida pessoal, fiquei impressionado no desenvolvimento da amizade de uma figura tão solar com seu total oposto encarnado chamado Nick Cave. Os dois fizeram uma parceria inusitada na fúnebre Where the Wild Roses Grow (em 1995) e ele pareceu ter um papel importante para a diva se redescobrir enquanto diva pop (a cena dela no concurso de poesia apresentado por ele é um dos momentos mais emocionantes do programa). Confesso que sorri e chorei vendo o documentário. Senti falta de destacarem minha música favorita dela, Slow - mas tá perdoado. 

Kylie (Reino Unido / 2026) de Michael Harte com Kylie Minogue, Danii Minogue, Jason Donovan, Nick Cave e Lino Carbosiero. ☻☻☻☻

domingo, 5 de abril de 2026

PL►Y: Emergência Radioativa

Massaro: catástrofe histórica. 

Acidentado diáriw, assisti a minissérie da Netflix sobre uma situação que me causou pesadelos na infância. Emergência Radioativa aborda o terrível acidente ocorrido com Césio-137 em Goiânia em 1987. Eu tinha oito anos quando a tragédia ganhou atenção dos noticiários e toda aquela situação me provocava arrepios. Na época não entendi muito bem o que havia acontecido, mas a minissérie dirigida por Fernando Coimbra e Iberê Carvalho reconstitui toda a situação alterando os nomes dos personagens e investe num tom investigativo somado a um olhar humanitário sobre os personagens. Toda situação ocorreu devido ao fechamento de forma irregular de um clínica de radiologia, em meio ao prédio abandonado, dois homens acharam uma caixa de chumbo e resolveram vender para o ferro velho. A caixa foi aberta e um pó azul brilhoso causou fascínio nas pessoas que tiveram contato com ele. Não faziam ideia que aquele era o Césio, um isótopo radioativo que causaria estrago na vida das pessoas que tiveram contato com ele. Na minissérie, se dona Tininha (Ana Costa) não houvesse percebido a relação daquela "sucata" com o mal estar que sentiam, a tragédia poderia ter sido muito maior. Na situação de emergência nunca vivida antes no Brasil, novos protocolos tiveram que ser testados e lidar com os interesses políticos que estava em questão. Ao todo quatro mortes imediatas ocorreram, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, mais de 1.000 pessoas receberam monitoramento contínuo e mais de 112 mil foram examinadas na época. Embora a produção escorregue aqui e ali (seja no didatismo, nas frases feitas e no melodrama) ela é bem conduzida e tem ótimo elenco, tanto que já figurou no top10 global da gigante do streaming. 

Emergência Radioativa (Brasil - 2026) de Fernando Coimbra e Iberê Carvalho com Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Antonio Saboia, Alan Rocha, Ana Costa, Marina Merlino, Leandra Leal, Bukassa Kabengele, Tuca Andrada e Emílio de Mello. ☻☻☻☻

NªTV: Rivalidade Ardente

Hudson e Connor: pegando fogo. 
 Hypado diáriw, acho que não resta dúvidas de que a série mais falada de 2026 até agora é a canadense Rivalidade Ardente, adaptação de uma série de livros escrita por Rachel Reid. A primeira temporada gira em torno de dois jogadores de hóquei, o canadense Shane Hollander (Hudson Williams) e o russo Ilya Rozanov (Connor Storrie). Jogadores de times rivais, os dois sentem uma atração imediata um pelo o outro e após a primeira transa, continuam realizando encontros esporádicos para saciar o desejo que um sente pelo outro. A narrativa é marcada por grandes intervalos temporais e alguns conflitos que os dois possuem diante da relação homoafetiva que se estabelece aos poucos. Existe a necessidade de manter tudo em segredo duelando com a vontade de Shane querer algo mais do que apenas sexo, enquanto Ilya mostra-se bissexual e receoso da repercussão de sua sexualidade em uma cultura legalmente homofóbica como a russa e por aí vai. Sem pudores em criar cenas de sexo entre os dois (embora evite exibição de genitálias), a série se aproveita ao máximo da plasticidade física dos rapazes e não foge muito dos clichês, o diferencial parece ser  a voracidade sexual em apresentar um romance tórrido gay para o grande público. Entendo toda a curiosidade em ver dois homens lindos e de corpos perfeitos se pegando, mas bem que o roteiro poderia desenvolver várias situações que são citadas e abandonadas quase que em seguida (e os dois são talentosos para dar conta disso). Soa tudo apressado e com medo de promover alguma reflexão do meio de tanta testosterona em ebulição. Meu episódio favorito é o quinto em que algumas situações se amarram, mas o sexto (e último) me fez duvidar sobre o fôlego para uma nova temporada. Veremos se o tesão dura mais uma leva de episódios. 

Rivalidade Ardente (Heated Rivalry - Canadá / 2026) de Jacob Tierney com Hudson Williams, Connor Storrie, François Arnaud, Robbie G. K., Christina Chang, Dylan Walsh e Sophie Nélisse. ☻☻☻

domingo, 8 de fevereiro de 2026

NªTV: Pluribus

Rhea: contra o coletivo
Dissonante diáriw, o final de 2025 trouxe aquela que se tornou a série mais falada e e elogiada do ano. Com a assinatura ilustre de Vince Gilligan (o cérebro por trás de Breaking Bad/2008-2014)) a ficção científica Pluribus virou febre com seus episódios semanais (agora todos disponíveis na AppleTV. A ideia é genial: um sinal vindo do espaço funciona como uma liga que conecta todas as mentes das pessoas do planeta Terra. As mentes interligadas fazem com que as pessoas se entendam melhor e convivam de forma pacífica. As brigas, a violência, os crimes, as guerras acabaram e todos estão felizes vivendo como nunca antes. No entanto, algumas pessoas demonstram imunidade à este pensamento coletivo. Dentre estas doze pessoas está a escritora Carol Sturka (Rhea Seehorn), que torna-se ainda mais amarga quando sua companheira morre durante o processo de propagação desta ligação. O primeiro episódio da série é perfeito, misturando ficção científica, terror e drama, construindo uma atmosfera envolvente que bebe diretamente na clássica série Além da Imaginação. Nos episódios seguintes, Carol começa a questionar todo aquele comportamento, no entanto, percebe que toda sua insatisfação e revolta podem gerar efeitos colaterais entre os outros. Obstinada a descobrir o que está acontecendo, ela se depara com alguns mistérios, cria algumas confusões e a série se beneficia ao apresentar uma nova configuração mundial, que por um lado traz benefícios e por outro assusta ao instaurar somente uma forma de pensamento. Pode se fazer várias analogias à trama, seja sobre a internet, o fascismo, o comportamento de manada, a manutenção de uma identidade própria e o pensamento dissonante como uma ameaça. Ainda que sua personagem seja uma chata,  Rhea Seehorn está ótima em cena e até nos faz esquecer de como sua personagem é de uma nota só. Particularmente achei que lá pela metade tudo se torna repetitivo, mas a curiosidade com este admirável mundo novo, permanece até uma nova temporada. 

Pluribus (EUA-2025) de Vince Gilligan com Rhea Seehorn, Karolyna Wydra, Carlos Manuel, Miriam Shor, Max Reeves, Menik Gooneratne e Samba Schutte. ☻☻☻☻

sábado, 7 de fevereiro de 2026

NªTV: Stranger Things - Temporada Final

Noah: um novo X-Men

Estranho diáriw, pensei muito se deveria escrever alguma coisa sobre a quinta e  última temporada de Stranger Things, afinal, faz um tempo que pararam de comentar sobre ela, mas acho que vale o registro de uma série que se tornou febre mundial e enfrentou todo tipo de desafio até chegar em seu desfecho. Desde o início sabia-se que o elenco infantil iria crescer. O problema é que depois de uma pandemia e uma greve de roteiristas, elas cresceram mais do que o planejado. Além destes percalços, entregar cinco temporadas ao longo de dez anos com intervalos irregulares já faz tudo ficar um pouco esquecido e perdido no fio da meada. Eu esperei todos os episódios estarem disponíveis para assistir de uma vez, mas confesso que nunca demorei tanto para ver oito episódios. Tive a impressão que todos eram uma grande enrolação até chegar ao confronto final com duração esticada de longa metragem. Precisava de tudo isso? Não. Ainda acho que poderia ter terminado na quarta temporada, esta quinta privilegia mais a ação ao separar os personagens em várias tarefas que visam destruir o vilão Vecna. Nisso tem algumas pontas da temporada anterior para amarrar e se Millie Bobby Brown parece desanimada ao retomar Eleven, a produção ao menos tem a boa ideia de colocar Will (Noah Schnapp) com maior destaque ao explorar sua conexão com o vilão da história, o temido Vecna (Jamie Campbell Bower). No entanto, achei uma chateação aquela reunião para Will sair do armário com gente chorando de emoção e todos o aceitando de boa nos anos 1980... como este, nos raros momentos em que o foco recai no desenvolvimento de personagens eu achei forçado, tanto que aquelas últimas cenas do último episódio soam protocolares. É triste ver uma série tão legal terminar de forma tão sem graça. Prova disso é o que fizeram com Winona Ryder, David Harbour, Linda Hamilton entre outros com personagens sem muito o que fazer no meio do corre-corre interminável da temporada. Deveria ser uma aventura de tirar o fôlego, mas só me deu sono. Enfim, acabou. Amém. 

Stranger Things - Temporada Final (Stranger Things / EUA - 2025) de Matt Duffer e Ross Duffer com Millie Bobby Brown, David Harbour, Winona Ryder, Noah Schnapp, Jamie Campbell Bower, Finn Wolfhard, Caleb McLaughlin, Gaten Matarazzo, Joe Keery, Sadie Sink, Natalia Dyer, Maya Hawke e Charlie Heaton. ☻☻

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

MELH✪RES DA TV EM 2025

 Com já escrevi por aqui, minha rotina mudou tanto em 2025 que foi difícil assistir filmes e escrever por aqui. Imagina então ver séries que demandam ainda mais tempo! No entanto, tive algumas produções favoritas ao longo do ano e elas aparecem nesta postagem. Lembrando que nem todas tive tempo de escrever aqui no blog, mas, prometo que assim que possível escreverei sobre elas. A seguir as produções que fizeram minha TV mais interessante: 

►ATRIZ COADJUVANTE 


►ATOR COADJUVANTE 


► MINISSÉRIE 


►ATOR 


►ATRIZ 


►SÉRIE 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

NªTV: O Lendário Martin Scorsese

Scorsese: uma trajetória em cinco episódios. 

Parece que foi de propósito, mas juro que foi coincidência que passei o final de semana assistindo a minissérie O Lendário Martin Scorsese da AppleTV para depois descobrir que o cineasta completa 83 anos na data de hoje! A minissérie mergulha na vida pessoal e na obra do diretor ao longo de seus 66 anos de carreira, desde os seus curtas até a elaboração de seu último filme. No primeiro episódio ele conta um pouco de sua infância e histórias de sua família, de como foi difícil crescer com asma e presenciando figuras famosas por seu envolvimento com a máfia local. Ao longo dos episódios ganham destaque seus casamentos, a importância da amizade com Robert De Niro, sua busca por encontrar sua voz autoral e perceber a necessidade de sempre ultrapassar limites em suas narrativas. Esta necessidade é evidenciada em seus trabalhos em Taxi Driver (1976), Os Bons Companheiros (1990) e O Lobo de Wall Street (2013), mas está presente em várias de suas obras. Vemos aqui a dificuldade que foi tirar A Última Tentação de Cristo (1988) e Gangues de Nova York (2002) do papel - e se o primeiro precisou lidar com uma polêmica gigantesca (que o levou até a ser chamado de Anticristo) o segundo lhe rendeu outra parceria importante na carreira, com  o astro Leonardo DiCaprio que conseguiu viabilizar vários projetos posteriores. Achei muito interessante conhecer um pouco mais dos bastidores dos filmes,  especialmente quando a vida pessoal de Marty se mistura com as obras - lembra o caos de New York, New York (1977) em meio a crise do casamento e ter que lidar com o fracasso de ambos, sua identificação com o protagonista de Depois de Horas (1985) e o mal-estar sentido nas filmagens de Ilha do Medo (2010). Interessante notar como a violência era a marca mais latente da obra de Scorsese, mas que com o tempo ele conseguiu criar um universo ainda mais rico e de destaque junto ao cinema dos Estados Unidos. Sua pendenga para ganhar o Oscar (a frustação com Touro Indomável/1989 e Aviador/2004 que não vingaram perante a Academia) e como sua obra passou a ser revisitada e recebeu maior reconhecimento mostrando-se atemporais. Filmes que não foram bem de bilheteria como O Rei da Comédia (1982) e A Época da Inocência (1993)  hoje recebem o devido reconhecimento e se provam atemporais. A minissérie também conta com várias entrevistas que tornam o olhar sobre Scorsese mais transversal, dos depoimentos das filhas, da amiga montadora Thelma Schoonmaker, de amigos do porte se Spielberg, Spike Lee e estrelas como Sharon Stone, Daniel Day Lewis e Jodie Foster, nos fazem perceber um pouco mais do homem por trás da lenda do cinema. É perceptível ao longo dos episódios como aos poucos Scorsese se tornou uma pessoa mais leve e a vontade com a fama e suas aflições pessoais. Conduzido por Rebecca Miller, a minissérie se torna mais envolvente a cada episódio, mas fica evidente como os projetos mais recentes do cineasta são abordados de forma um tanto apressada nos episódios finais (e A Invenção de Hugo Cabret/2011 sequer é citado), mas nada que prejudique o panorama de um cineasta ousado que sempre se esquivou de julgar moralmente seus personagens e, por conta disso, colocou sua carreira em risco várias vezes. O programa termina com Scorsese filmando Assassinos da Lua das Flores (meu filme favorito de 2023), um épico que impressiona ainda mais quando nos damos conta da energia invejável deste senhor ao fazer cinema com a mesma paixão de quando filmava bonequinhos de papel quando era adolescente. Obrigado Mr. Absolute Cinema!

O Lendário Martin Scorsese (Mr. Scorsese / EUA - 2025) de Rebecca Miller com Martin Scorsese, Domenica Cameron-Scorsese, Robert De Niro, Brian De Palma, Steven Spielberg, Thelma Schoonmaker, Jay Cocks, Jodie Foster, Spike Lee, Daniel Day Lewis, Paul Schrader, Cathy Scorsese, Ari Aster, Sharon Stone, Leonardo Di Caprio e Isabella Rossellini. ☻☻☻☻

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

NªTV: O Estúdio

Seth e sua equipe: a arte de rir de si mesmo.  

Durante o período que estive afastado aqui do blog eu assisti uma série que foi muito comentada na época, mas que preferi aguardar todos os episódios estarem disponíveis para ver. A série em questão é O Estúdio da AppleTV que se tornou a recordista de indicações na história do EMMY - das quais recebeu doze prêmios (entre eles série de comédia, direção e ator de comédia). Idealizada por Seth Rogen, a série é uma grande chacota com a indústria cinematográfica e possui tantas referências, piadas e provocações ao meio que é até difícil destacar qual é a melhor. Seth vive Matt Remick, um produtor que ganha a tarefa do dono do estúdio (papel de Bryan Cranston) de ser o diretor do estúdio. O que parece ser o sonho de sua vida, começa a apresentar os efeitos colaterais quando precisa lidar com seu gosto por fazer arte e a necessidade de gerar lucro. Além disso, existe um punhado de egos no caminho para lidar e uma equipe barulhenta que sempre dilui suas certezas sobre o que é certo fazer ou não. Composto de onze episódios a primeira temporada investe em um ritmo caótico, que na grande maioria das vezes não deixa pausas para respirar e investe em longos planos sem cortes. Existem trocentas participações especiais por aqui (a minha favorita é a de Martin Scorsese vivendo ele mesmo em momentos complicados com sua relevância artística em contraposição com valores monetários desejados pelo estúdio. Martin está tão bem no papel dele mesmo que foi indicada ao Emmy de ator coadjuvante), assim como momentos de pura galhofa como aquele episódio do Globo de Ouro em que todo o drama gira em torno de um discurso de agradecimento.  Sei que pelo tempo que demorei para postar sobre a série você já deve ter assistido, mas se não assistiu, vale a pena dar uma chance para uma das comédias mais engraçadas dos últimos anos. Vale dizer que Seth Rogen me surpreendeu ao investir em um projeto tão ambicioso e que utiliza seu talento para além do besteirol. Em diversas vezes tenho a impressão que sua habilidade de rir de si mesmo está exposta em vários momentos, assim como o dom de olhar com cinismo e ternura para o trabalho a que se dedica desde que recebeu algum destaque na série Freaks and Geeks (1999). Claro que quem é cinéfilo de verdade irá apreciar ainda mais as camadas sobrepostas de piadas que temos aqui sobre o mundo as celebridades e seus projetos, meu único problema com a série é o último episódio que destoa de todo o resto e funciona como um anti climax a tudo que se viu até ali. 

O Estúdio (The Studio / EUA - 2025) de Seth Rogen, Evan Goldberg e Peter Huyck com Seth Rogen, Catherine O'Hara, Ike Barinholtz, Chase Sui Wonders, Kathryn Hahn, Dewayne Perkins, Nicholas Stoller, Dave Franco e Bryan Cranston. ☻☻☻☻ 

terça-feira, 28 de outubro de 2025

NªTV: Boots

Miles Heizer (em destaque): crescimento árduo. 
 
Baseado no livro The Pink Marine sobre as experiências de seu autor Greg Cooper White como fuzileiro naval, a série Boots se tornou uma das séries mais aguardadas do ano por conta da ideia de contar a história de um jovem gay que ingressa na vida militar. White foi militar nos anos 1970, um período em que ser homossexual nas forças armadas era ilegal. Mantendo sua sexualidade em segredo até os anos 1980, ele chegou a se tornar sargento, mas depois se tornou roteirista de TV e considerou importante incentivar os jovens que se viam em situações parecidas com a dele. Por conta disso escreveu o livro que deu origem à série da Netflix. Obviamente que o material original sofreu alterações em sua transição para outro formato, mas nada que atrapalhe o desenvolvimento da história em torno de Cameron Cope (Miles Heizer) que se alista na marinha ao lado do amigo heterossexual, Ray (Liam Oh) e lá descobre que a situação é bem mais tensa do que imaginava (tanto com relação ao treinamento quando à exposição dos corpos masculinos). A série demonstra como o treinamento é árduo para qualquer um, mas o bullying e a perseguição sofrida por Cameron piora um pouco mais as coisas para ele, especialmente quando ele mesmo percebe que está ali mais para provar algo a si mesmo do que para qualquer outra pessoa. Cameron sofre um bocado, mas pode-se dizer que os outros personagens também tem doses consideráveis de desafios. Entre colapsos nervosos, acidentes e brigas por qualquer motivo, a ideia de uma masculinidade que não alcança o ápice do que se espera dela se torna um verdadeiro fardo para a maioria dos personagens. Neste ponto, as interações entre os personagens em seus dramas pessoais faz com que a trama caminhe bem por boa parte dos oito episódios, embora eu considere que nos três últimos a coisa comece a se tornar um tanto repetitiva e arrastada. É preciso dar os parabéns para Miles Heizer que realiza um ótimo trabalho como o protagonista em amadurecimento diante de um espaço tão opressor. O ator consegue transmitir toda a transformação do personagem personagem e, além disso, vive até uma outra versão de si mesmo (uma que encara o fato de ser gay com muito mais naturalidade, sem as preocupações com os outros) que lhe faz companhia de vez em quando. Quem também merece destaque é Blake Burt (John Bowman) que de início parece o vilão da história até que os episódios começam a descascar sua personalidade através de uma investigação. Pode se dizer que na segunda metade da série, Blake começa a receber mais destaque na trama e toda sua perseguição em torno de Cameron muda de contexto ao olhar do espectador. Bem produzida e com bom elenco, Boots se tornou um acerto da Netflix que soube se destacar para além das eventuais polêmicas sobre sua temática (precisa lembrar que Donald Trump se deu ao trabalho de dizer que odiou a série?). Ambientado nos anos 1990 (período em que houve a política do "Don't Ask, Don't Tell" em torno da sexualidade de militares nos Estados Unidos), Boots termina a primeira temporada com um gancho interessante para a próxima temporada. Resta saber o que a vida sexual de Cameron lhe reserva para a próxima leva de episódios, já que durante os treinos desta aqui ele foi um rapaz bastante comportado. 
 
Boots (EUA - 2025) de Andy Parker com Miles Heizer, Blake Burt, Ana Ayora, Cedrick Cooper, Dominic Goodman, Nicholas Logan, Kieron Moore, Angus O'Brien, Liam Oh, Max Parker e Vera Farmiga. ☻☻☻☻ 

sábado, 18 de outubro de 2025

NªTV: Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente

Bruna e Johhny: contrabando de AZT para o Brasil.  

 Contar uma história sobre um período tão sombrio quanto à propagação da AIDS nos anos 1980 não é tarefa fácil. No cinema já vimos vários filmes sobre o assunto, mas quando se trata deste período no Brasil a coisa complica. Geralmente aparece como pano de fundo da biografia de algum artista como recentemente em Homem com H (2025). Em termos de televisão a coisa fica ainda mais restrita por aqui. A  HBO já se aventurou por este território nos EUA várias vezes, seja com os telefilmes E A Vida Continua (1993) e Normal Heart (2014) ou com a genial minissérie Angels in America (2003), agora chegou a vez do canal abordar esta história em terras brasileiras com Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, que após concluir a exibição semanal de seus cinco episódios dirigidos por Marcelo Gomes e Carol Minêm o programa está disponível na HBOMax. Baseado em um história real sobre comissários de bordo que contrabandearam AZT para o Brasil quando o medicamento ainda era proibido por aqui, a trama gira em torno principalmente de Nando (Johnny Massaro), um jovem comissário de bordo que escuta os comentários sobre a AIDS classificando-os como uma paranoia. Nando é gay assumido e colhe os frutos da revolução sexual e do amor livre das décadas passadas sem pestanejar. Ele é um retrato bastante crível de como a doença surgiu como um verdadeiro pesadelo rotulada pelo preconceito que a considerava uma "peste gay", termo impregnado de conotação moralista. Acontece, que como o roteiro ressalta muito bem, o rótulo serviu somente para atrasar a compreensão do que estava acontecendo enquanto homens e mulheres, homossexuais ou não começaram a se infectar e propagar a doença. Não é por acaso que Nando tinha um relacionamento clandestino com um jogador de futebol e uma das personagens se contaminou com o marido que  mantinha um caso com uma mulher trans. A minissérie parece como uma amalgama de personagens que ilustram situações que se tornaram trágicas no período. No entanto, para além da doença, os soropositivos precisavam lidar com o preconceito seja de suas famílias, da política, da mídia ou de qualquer outra instância. O roteiro faz várias alusões a artistas que se infectaram com o vírus e precisavam ser discretos com relação a isso e no meio do caos. É neste cenário que Nando se envolve num esquema de contrabando de medicamentos para o Brasil, de início para beneficio próprio ao descobrir que contraiu o vírus, depois para ajudar outras pessoas que sofriam da mesma situação. Existem outras tramas no meio do caminho (especialmente envolvendo a Lea, a comissária de bordo vivida por Bruna Linzmeyer e melhor amiga de Nando), mas o motor do programa é a situação sufocante dos personagens perante a sensação de que a morte estava próxima e ninguém fazia nada para impedir. Embora considere que a minissérie faça um ótimo trabalho na construção da tensão vivida no período, em alguns momentos acho que ela erra pelo tom adotado que tornam situações um tanto festivas em demasia. Entendo que a comunidade LGBTQIAPN+ sempre curtiu baladas e tal, mas em alguns momentos soa um tanto forçado em cena, assim como alguns diálogos e estéticas que fazem mais sentido hoje do que naquele tempo. Em vários momentos o anacronismo grita, mas entendo que foi feito assim para dialogar melhor com o público atual. No fim das contas, a minissérie conta como o Brasil se tornou referência no que diz respeito ao tratamento e prevenção da AIDS no sistema de saúde pública. Afinal, a medicação que é alvo de tantos esquemas e polêmicas na série, passou a ser fornecido aos portadores de HIV através de ações governamentais. Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente pode ter seus deslizes, mas é uma obra importante sobre um tema que merece ser mais lembrado entre nossas produções audiovisuais. 

Máscaras de Oxigênio não Caírão Automaticamente (Brasil / 2025) de Marcelo Gomes e Carol Minêm, com Johnny Massaro, Ícaro Silva, Bruna Linzmeyer, Carla Ribas, Hermila Guedes, Kika Sena, Júlio Machado, Lucas Drummond e Sergio Menezes. ☻☻☻☻

domingo, 10 de agosto de 2025

NªTv: Dept Q.

Salim, Goode e Leah: investigações em meio a traumas do passado. 
Embora não considere o britânico Matthew Goode um mau ator, sempre tenho a impressão que ele interpreta o mesmo personagem. Com corpo esguio e maior pinta de modelo de ternos masculinos, confesso que percebi uma certa implicância minha com ele. Uma dessas coisas que nem você sabe explicar direito. É estranho porque gosto bastante dele interpretando o Ozymandias do Watchmen (2009) de Zack  Snyder, mas dali em diante, só implicâncias... eis que ouvi muita gente falando bem da série estrelada por ele,  Dept Q da Netflix (que alguns exagerados disseram que seria a nova Slow Horses em referência à excelente série da AppleTV, mas não é para tanto). Eis que um dos maiores acertos da série é justamente ter Goode no alto dos créditos, especialmente em um papel diferente do que costumamos vê-lo. De barba crescida, descabelado e com roupas amarrotadas, ele em nada lembra os outros personagens que já interpretou na vida e, mais do que isso, a profundidade emocional que ele proporciona ao amargo Carl Morck é um verdadeiro deleite. Criada por Scott Frank e Chandni Lakhani, a série britânica é baseada no livro de Jussi Adler-Olsen e conta a história de um grupo de personagens que se envolve em resolver casos sem solução. Por conta de um arranjo governamental, a responsabilidade do tal departamento do título recai sobre  Carl que tem seus fantasmas a exorcizar quando o assunto é crimes não resolvidos. Afinal, logo nos primeiros minutos da série, ele é baleado no cenário de um crime junto ao parceiro (Jamie Sives) que fica comprometido fisicamente e um jovem policial (que morre no local). A situação sempre gerou especulações, mas nada foi resolvido. Carl também tem problemas de fazer a terapia como deve ser e parece mais interessado na terapeuta (Kelly MacDonald) do que em melhorar sua saúde mental. A relação com o filho adolescente (Aaron McVeigh ) também não é das melhores e a situação só complica quando seu nome fica em evidência novamente por conta de seu temperamento instável. Bom que indicam Akran Salim (Alexey Manvelov) para ajudá-lo no e depois a secretária Rose (Leah Byrne) também torna-se parte do departamento. Misturando personagens cheios de fantasmas para solucionar o mistério da temporada (o sumiço de uma advogada pouco querida), confesso que o mistério em torno do caso foi o que menos me motivou a ver a série, mas tenho que admitir que a forma como a narrativa se estrutura mudando o foco das suspeitas é bem realizado. A construção dos personagens e a forma como eles interagem é feito de forma tão redondinha que ao terminar a série, tive vontade de ver logo mais episódios (e olha que sou daqueles que gosta de ver aos poucos, uns dois episódios por dia). Ao que parece a segunda temporada já está confirmada e desejo ver muitas outras. E desculpa, Matthew, você é mesmo um bom ator, só precisava estar menos lindo diante da câmera. 
 
 Dept Q (Reino Unido / 2025) de Scott Frank e Chandni Lakhani com Matthew Goode, Alexey Manvelov, Leah Byrne, Kelly MacDonald, Chloe Pirrie, Kate Dickie, Steven Miller, Shirley Henderson e Aaron McVeigh ☻☻☻☻  

domingo, 3 de agosto de 2025

NªTV: Morrendo por Sexo

Rob e Michelle: morrendo de desejo. 

Quem acompanha o blog deve ter percebido que estou um pouco afastado de séries de TV. Confesso que comecei a ver várias novas temporadas e não consegui avançar muito para comentar por aqui. No entanto, recentemente finalmente consegui ver algumas que me prenderam atenção (e devo comenta-las ao longo do mês de agosto). Uma delas foi Morrendo por Sexo do FX, que por aqui fica no streaming da Disney+ (o que não deixa de ser interessante perante o título em português). Não sei se já comentei por aqui, mas faz poucos anos que meu pai faleceu por conta de um tumor no cérebro e desde então - e após ficar dois meses com ele no hospital, tenho dificuldades de acompanhar narrativas sobre doenças, quimioterapia, radioterapia, estágio quatro... mas depois de assistir um trailer com Michelle Williams fazendo algumas coisas que não lembro de tê-la visto fazer antes, fiquei bastante curioso. A atriz que já conta com cinco indicações ao Oscar e nenhuma vitória tem encontrado na televisão um espaço mais do que promissor para o seu talento. Em Fosse/Verdon (2019) ela foi premiadíssima ao viver a Senhora Bob Fosse com todo o rigor que merecia e, ao que tudo indica, sua performance por Morrendo por Sexo deve ir pelo mesmo caminho, afinal, o papel de Molly Kochan a permite transitar entre o cômico e o trágico com uma desenvoltura que poucas vezes tive a oportunidade de ver uma atriz realizar. Bom que logo no primeiro episódio o programa espanta qualquer semelhança com The Big C (2010-2013) com Laura Linney e, melhor ainda, a produção se encerra no oitavo episódio sem deixar chances para que novas temporadas coloquem em risco tudo o que foi construído ao longo da temporada. No primeiro episódio, Molly está um tanto cansada de ver seu marido (Jay Duplass) ter se tornado seu cuidador. A mulher está com a libido lá em cima e o marido só consegue olhar para ela como se fosse alguém doente prestes a morrer. A postura dele faz com que Molly já estivesse prestes a ser enterrada viva. Não demora muito para que ela perceba que se quiser aproveitar o tempo de vida que lhe resta, precisa se distanciar dele. Ela então mergulha em uma jornada bastante pessoal em busca de desejos que nunca foram explorados. No entanto, desbravar o mundo de sua sexualidade também esbarra em lidar com assuntos delicados de sua infância que nunca foram devidamente cicatrizados. Coloque aí um pouco da relação complicada com a mãe (Sissy Spacek), a parceria de longa data com a melhor amiga Nikki (Jenny Slate) e o uso de um aplicativo cheio de machos doidos por fetiches e Morrendo por Sexo consegue conciliar um tema tão delicado quanto o câncer com sensualidade, profundidade e muito bom humor. Destaque a parte são os parceiros sexuais que Molly encontra pelo caminho, especialmente o vizinho vivido por Rob Delaney que está perfeito como o objeto de desejo mais inesperado que ela poderia encontrar. Morrendo por Sexo se equilibra sobre o fio da navalha e muito se deve ao trabalho profundamente comprometido de Michelle em dar vida à uma mulher que se recusa a morrer antes da hora. Entre risos e lágrimas (além de imagens penianas) a minissérie caiu nas graças do Emmy que a indicou em nove categorias no páreo das minisséries, entre elas: melhor minissérie, atriz (Michelle), atriz coadjuvante (Slate), ator coadjuvante (Delaney), direção, roteiro e casting. 

Morrendo por sexo (Dying for Sex / EUA - 2025) de Elizabeth Meriwether e Kim Rosenstock com Michelle Williams, Jenny Slate, Rob Delaney, Jay Duplass, Sissy Spacek, Kelvin Yu, David Rasche, Esco Jouley, Margaret Cho e Zack Robidas, ☻☻☻☻