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domingo, 21 de março de 2021

PL►Y: Liga da Justiça de Zack Snyder

 
A Liga de Zach Snyder: longo e (obrigatoriamente) mais coerente. 

Percebo uma certa obrigatoriedade de escrever sobre a nova versão de Liga da Justiça, o famoso #SnyderCut que ganhou corpo e força ancorado no movimento dos fãs. Eu vou evitar relatar toda a confusão que foi na época do lançamento da versão de 2017 (eu já fiz isso na ocasião e você pode ler clicando aqui). No entanto quando escrevi aquele texto, Liga da Justiça ainda não havia decepcionado nas bilheterias e envelhecido mal à uma segunda olhada. Era conhecido o fato de que a Warner mandou cortar muita coisa do filme quando Joss Whedon assumiu a direção e o imaginário dos fãs fermentou com tudo que o filme poderia ter sido e não foi. Passado o tempo, o próprio Zack Snyder (recuperado do suicídio da filha) afirmou que não havia outra versão do filme para apresentar. Algum tempo depois foi convidado a retomar o projeto com as cenas que ficaram de fora, alguns ajustes e cenas que foram gravadas posteriormente. Com os cinemas fechados, o filme foi disponibilizado on demand no dia 18 de fevereiro onde ficará até o dia 07 de abril ao preço de R$ 49,90 para depois se tornar exclusivo da plataforma HBO MAX (que exibiu o filme rapidamente por "acidente"... o que só aumentou a expectativa dos outros fãs). Até ontem Zack deixava claro que não faria uma sequência, mas diante do sucesso estrondoso (o filme já é o mais comprado em várias plataformas ao redor do mundo) já começaram os boatos de que mais dois filmes devem ser lançados. Somando pandemia e o jejum de longas de heróis, Snyder Cut é um verdadeiro deleite para o público fã de quadrinhos, fermentado para ter o dobro de tempo ele tem mais ação, melhores efeitos especiais, mais barulho, mais tempo de tela para Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher), participação do Caçador de Marte, Darkseid, Vovó Bondade... enfim, é o filme de 2017 em versão anabolizada com quatro horas de duração. A história é a mesma: o Lobo da Estepe planeja encontrar as lendárias caixas maternas e dominar (ou seria destruir?) o planeta Terra. Enquanto isso, Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) começa a procurar seres poderosos que possam lhe ajudar nos perigos que estão por vir após a morte de Superman (Henry Cavill). Não vou detalhar aqui o uniforme preto do Homem de Aço, a mudança na paleta de cores, o formato quadradinho 3:4, as piadinhas e cenas que ficaram de fora, mas vale destacar que não existe nem sinal daquela deformidade que fizeram no rosto do Henry Cavill por conta de um bigode. Com o dobro de duração, existe tempo para desenvolver melhor vários pontos que estavam soltos no longa anterior, além de dar sentido maior às cenas de ação (afinal, quem não pensou que o Lobo da Estepe conseguia as caixas com muita facilidade?). Confesso que a primeira hora de filme foi bastante cansativa, mas conforme o tempo passa ele se torna mais envolvente até chegar a um desfecho melhor resolvido que o anterior. Obviamente que Snyder está em estado de graça com sua versão chegando até o espectador e mais ainda com a receptividade das promessas de seu epílogo, não apenas daquela cena já conhecida com Lex Luthor (Jesse Eisenberg) e Exterminador (Joe Manganiello), mas principalmente com aquela parte pós-apocalíptica que deixa aquele sabor do que poderia vir por aí se a Warner não ficasse cheia de melindres e optasse por filmes engraçadinhos com os heróis que tem em mãos. SnyderCut faz mais sentido que o anterior e faz mais mais do que isso, rende a esperança de que o universo da DC nos cinemas encontre seu caminho. No entanto, se penso seriamente que se este filme houvesse chegado aos cinemas em 2017 (com todo o embalo da Marvel nos cinemas ao virar uma referência de como fazer filme de super-herói para o grande público), ele seria bastante criticado pela tom sombrio e sua duração excessiva (e a Warner faria tudo igual no seu universo DC que vemos desde então). No final da minha postagem de 2017 eu dizia que Liga da Justiça 2 seria melhor... se a repaginada de Snyder já é boa, as novidades que ele tem na cabeça me soam melhores ainda. Agora é só esperar (assim como a sessão no cinema pós-pandemia com gritos e aplausos quando o filme começar e terminar na telona). 

Liga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder's Justice League / EUA -2021) de Zack Snyder com Ben Affleck, Gal Gadot, Henry Cavill, Ezra Miller, Ray Fisher, Jason Momoa, Amber Heard, Willem Dafoe e Diane Lane. ☻☻☻

domingo, 19 de novembro de 2017

Na Tela: Liga da Justiça

A Liga: tentando colocar o universo DC nos eixos. 

Depois de uma produção bastante conturbada finalmente chegou aos cinemas um dos filmes mais esperados de todos os tempos. Faz tempo que os fãs sonhavam com um filme da Liga da Justiça reunindo os maiores heróis da DC Comics e, conforme o tempo demonstrou, lidar com tanta expectativa está longe de ser algo fácil - e diante dos novos parâmetros demarcados pela Marvel nos cinemas a coisa piorou bastante. Depois que os filmes de Homem de Ferro & Cia se mostraram interligados, a Warner (detentora dos direitos da DC nos cinemas) sentiu a pressão de fazer o mesmo com os heróis que tinha em mãos. O efeito foi sentido na continuação de Homem de Aço (2013), que foi mexido o suficiente para abrigar Batman e se tornar o controverso Batman Vs. Superman (2016). O filme de Zach Snyder foi o ponto de partida para a construção de um universo unificado da DC nos cinemas, no entanto, o gosto de que essa ideia foi feita às pressas era indisfarçável. De início a Warner não tinha a mínima intenção de criar algo assim, preferindo contratar diretores com visões particulares sobre os personagens e deixar que as produções seguissem de forma independente. Com o sucesso de Vingadores (2012) eles perceberam que talvez pudessem repensar a estratégia (embora ainda não houvessem amadurecido o suficiente o universo que queriam construir). Se as interferências eram vivíveis no confronto do Homem-Morcego com o Superman, a coisa ficou muito pior com Esquadrão Suicida (2016) que deixou de ser o filme sombrio que se anunciava para se tornar uma espécie de quebra-cabeça de ideias mal trabalhadas. Mulher-Maravilha (2017) também sofreu intervenções, mas Patti Jenkins foi esperta o suficiente para criar uma unidade no filme que se tornou sucesso de público e crítica, se tornando o filme mais bem sucedido deste universo até o momento. Ao que parece, Liga da Justiça também foi mexido, principalmente depois que Zach Snyder precisou se afastar da produção devido à uma tragédia familiar. O destino abriu espaço para as intervenções de Joss Whedon, diretor de... Os Vingadores na produção - e outros problemas surgiram. Dizem que Whedon mexeu em 20% do filme e enfrentou também sua cota de desafios: inserir mais humor (e aposto que consegui identificar cada cena gerada por Whedon), cortar Darkside, cortar Lex Luthor, cortar namorada de Flash, cortar, cortar, cortar (incluindo o bigode involuntário do Superman Henry Cavill protegido em causa contratual de outro filme). Portanto, quando você for ao cinema, fique sabendo que o filme é bem diferente de como ele foi pensado, mas, ainda assim, ele funciona,. Não é uma obra-prima, mas funciona. 

Lobo da Estepe: vilão diabólico esquecível. 

Depois de Batman Vs. Superman ficou claro que o mundo estava prestes a viver ameaças bem diferentes do que Batman (Ben Affleck) estava acostumado a enfrentar. Pela primeira vez, o herói sem super-poderes se deparava com um universo habitado por alienígenas e deuses. Era de se esperar que a ameça agora parecesse mais um demônio do que um vilão humano. A ameaça agora é encarnada por Lobo da Estepe (voz de Ciarán Hinds), que procura as três caixas maternas para transformar o mundo em seu reino. Seguido pelos parademônios (derrotados transformados em criaturas sombrias que se alimentam de medo), Batman e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) precisam encontrar aliados para derrotar este inimigo. Cabe a eles convencerem Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher) a formarem um grupo que tem grandes chances de falhar em seu desafio. Como todo filme de equipe, os personagens precisam de tempo para aceitar a proposta, existem algumas picuinhas, alfinetadas... mas os heróis logo se entendem e (o mais importante) funcionam como time. A boa dinâmica entre os atores é um dos grandes pontos positivos do filme - o que nos faz até esquecer como a concepção de Aquaman é confusa e que nem todas as piadas do Flash são dignas de riso. É visível o desafio que Chris Terrio (oscarizado pelo roteiro de Argo/2012) enfrentou para costurar a história e seus vários personagens, precisando ainda dar conta do retorno de um dos membros fundadores da Liga,  o Superman (Henry Cavill). Quem acompanha histórias em quadrinhos ficará bravo em como o filme faz algumas promessas e as deixa pelo meio do caminho, mas a maioria do público irá gostar de ver os heróis juntos na tela e ficará empolgada com as cenas de ação. Porém, isso não quer dizer que Lobo da Estepe não seja um dos pontos fracos do filme (mas para os demônios talvez o poder pelo poder já satisfaça, sem maiores problematizações) e que exista muita coisa para ser resolvida em duas horas de exibição (lembro quando a Warner achou o filme muito longo e mandou cortar, cortar, cortar...). No fim das contas o filme é puro entretenimento despretensioso. Você ainda percebe a insegurança do estúdio em bancar suas escolhas, mas, não há problema em ser sombrio ou não ter piadas a cada cinco minutos, o problema é não bancar as ideias que resolveram colocar em prática. Sorte que Liga da Justiça é a prova que mesmo em meio ao caos, os heróis podem salvar o filme - principalmente com os atores certos no lugar exato.  Gal Gadot está cada vez melhor como Mulher Maravilha e até Ben Affleck surpreende como Batman. Embora tenha aqui uma versão menos soturna, Affleck está cada vez mais convincente como Bruce Wayne e seu alter-ego das trevas (o que só me faz lamentar que não veremos suas ideias para The Batman na telona em breve). Algo me diz que Liga da Justiça 2 será melhor.  

Gadot e Affleck: heróis convincentes. 

Liga da Justiça (Justice League/EUA-2017) de Zach Snyder de Ben Affleck, Gal Gadot, Henry Cavill, Ezra Miller, Amy Adams, Ray Fisher, Diane Lane, Jason Momoa, Jeremy Irons, Connie Nielsen e J.K. Simmons. ☻☻☻

sábado, 26 de março de 2016

NaTela: Batman Vs Superman - A Origem da Justiça

Batman e Superman: o homem vs o desconhecido. 

Faz tempo que não vejo um filme de super-herói gerar tanta discussão entre os fãs na internet. Portanto, vou logo dizendo: eu curti muito Batman Vs Superman. É verdade que o filme está longe de ser perfeito, mas está ainda mais distante de ser ruim. O fato é que Zack Snyder recebeu a descomunal tarefa de colocar o Superman de volta aos eixos no cinema (depois que Brian Singer falhou nessa missão), no currículo, Snyder tinha aquele que deve ser o filme de HQ mais subestimado de todos os tempos: Watchmen/2009 - que é tão atual que merece ser revisto, pelo menos, uma vez por ano. Depois que Homem de Aço (2013) estreou com sucesso, a Warner ao lado da DC Comics começou a pensar em seguir os passos da Marvel e unificar seu universo nas telonas. O que era apenas uma ideia começou a ganhar corpo nos últimos anos e a sequência de Homem de Aço começou a ganhar contornos de primeira parte de uma obra muito maior, uma verdadeira trilogia sobre a Liga da Justiça. O oscarizado roteirista Chris Terrio já disse em várias entrevistas que dar forma a esses projetos se tornou o trabalho mais difícil de sua carreira e, se você relaxar e entender isso, Batman Vs Superman fará muito mais sentido. Sabiamente o filme começa pelo final de Homem de Aço, mostrando a perspectiva de Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck, bastante convincente) sobre toda a destruição ocorrida com a batalha entre Zod (Michael Shannon) e Superman. Não é por acaso que o nome do Homem Morcego aparece primeiro no título, afinal, o filme investe muito na forma como Batman enxerga a vinda de Superman para a Terra e tudo o que ela representa. Enquanto muitos costumam olhar para o kryptoniano como um Deus, outros o encaram como uma verdadeira ameaça (e Snyder já trabalhou essa dicotomia muito bem sobre Dr. Manhattan em Watchmen), entretanto, o roteiro não cansa de tentar humanizar o homem de aço, tanto por sua relação com Lois Lane (Amy Adams), com a mãe (Diane Lane) ou com o pai falecido (Kevin Costner) - esforço que se mostra importante para sua aproximação com Batman (que todo mundo já conhece a tragédia familiar). Entre semelhanças e diferenças, não podemos esquecer que Batman é um homem sem super-poderes que se depara com o desconhecido, um alienígena super poderoso, assim, Batman serve assim, para espelhar o estranhamento da humanidade diante de uma nova era de heróis. Se ele é um homem inteligentíssimo (embora amargo após vinte anos de luta contra o crime à margem da justiça), Superman é um herói exaltado por uma batalha épica que deixou milhares de mortos em Metrópole e... ele ainda irá se deparar com uma filha dos deuses: a Mulher Maravilha (Gal Gadot).

Mulher Maravilha (Gal Gadot): finalmente, um toque feminino. 

Um dos maiores obstáculos sempre sinalizado para criar um filme da Liga da Justiça é a dificuldade de apresentar um equilíbrio entre os vários personagens que estão em cena. A Marvel foi esperta ao apresentar seus personagens separadamente para depois reuni-los em Os Vingadores (2011) e a Warner junto à DC Comics resolveu aceitar o desafio. Incluir a Mulher Maravilha ao lado de Batman e Superman pode ter sido um grande risco, mas que o filme consegue realizar de forma coerente, inserindo o alter-ego da amazona em algumas cenas, deixando uma aura de mistério até que seu segredo seja revelado e ela ajude os rapazes quando precisam de... um toque feminino. Seriedade à parte, ver os três maiores nomes da Liga da Justiça juntos na tela é bom demais! Mais complicado foi citar os outros heróis como metahumanos e inserir cenas rápidas que introduzem o que será mais explorado nos filmes da Liga. No filme o resultado fica meio desengonçado, mas sabendo que é uma trilogia dá para relevar (e perceber porque Batman fica tão preocupado com o que se aproxima). Snyder pontua os pavores do Cavaleiro das Trevas com pesadelos, cria cenas com o Homem de Aço comendo o pão que Lex Luthor (Jesse Eisenberg) amassou e deixa claro que a arma mais devastadora da humanidade não é páreo para o que está por vir. Luthor é um capítulo à parte. Eu não entendi a escalação de Jesse (achei jovem demais para o papel), mas depois que entendi exatamente qual era a intenção, o ator de A Rede Social/2010 injeta verdadeiro sangue novo (e perturbador) ao maior inimigo de Kal-El. Batman Vs Superman será criticado por ser exagerado, pesar a mão no tom sombrio, esgarçar o que os heróis tem de mais violento... mas (putz!) o filme é dirigido po Zack Snyder, oras! Ele não é sóbrio como Brian Singer ou solene como Christopher Nolan, por isso mesmo, consegue inserir algo novo no que poderia soar um pastiche (afinal, foram sete filmes do Homem Morcego e cinco do Homem de Aço, além de inúmeras séries de TV, até se juntarem na tela). Snyder ainda faz o favor de não jogar no lixo os filmes de Nolan (talvez só o Alfred, que agora tornou-se mais irônico e ofensivo... quase o filho da pá virada do personagem de Michael Caine nos filmes do Cavaleiro das Trevas), encaminhando seu desfecho para a introdução do ambicioso Liga da Justiça e não para outro filme solo do herói. Existe muito som (alto) e fúria no filme, mas seria injusto dizer que o filme é vazio de emoção. Pelo contrário, tem muita, especialmente quando percebemos que a guerra entre Batman e Superman é inglória e sem sentido, como todas as outras, mas aqui (pelo menos) ela serve para que os "inimigos" percebam que são mais semelhantes do que imaginam em sua luta por um bem comum. Essa seria a Origem da Justiça? Pelo visto, o filme acredita que sim. Que venha a Liga!

Alexander Luthor (entre Clark e Bruce): vilão renovado. 

Batman Vs Superman - A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice/EUA-2016) de Zack Snyder com Ben Affleck, Henry Cavil, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Diane Lane, Laurence Fishburne, Holly Hunter e Scoot McNairy. ☻☻☻☻

terça-feira, 23 de julho de 2013

Na Tela: Homem de Aço

Cavill: entre o humano e o alienígena. 

As histórias em quadrinhos se tornaram a maior mina de ouro da indústria hollywoodiana atualmente. A coisa ficou ainda maior com os sucessos da Marvel e obviamente que sua rival não poderia ficar para trás. O problema é que enquanto a Marvel bolou a estratégia de apresentar seus personagens em vários filmes antes de apresentar o seu verdadeiro arrasa quarteirão (Os Vingadores/2012), a DC Comics tinha que se contentar com o sucesso de Christopher Nolan capitaneando Batman. O sinal vermelho soou quando se deram conta que o contrato de Nolan só iria até a terceira aventura do Homem Morcego - lembrando que a última aventura do Superman não agradou nem aos fãs mais fervorosos. Dirigido por Brian Singer (que reformulou a forma de filmar quadrinhos com o primeiro X-Men/2000), Superman - O Retorno (2006) era bem produzido mas a trama beirava o desastre. Nada contra Brandon Hoult homenageando Christopher Reeve, mas o resultado foi um exercício de ventriloquismo mal sucedido. Se Singer foi tão bem sucedido em levar Professor Xavier e seus alunos para o cinema, o mesmo não se podia dizer do que armou para o habitante mais famoso de Krypton. Além de ter arranjado uma Lois Lane que não convencia como renomada jornalista (Kate Bosworth convencerá como mulher só quando não tiver medo de deixar de ser adolescente), ainda deu um filho para ela criar... o resto você já sabe. O filme não agradou, mas deram uma segunda chance para Singer, a continuação de seu Superman chegou a ter o roteiro escrito e algumas cenas rodadas, mas com o sucesso arrasador de O Cavaleiro das Trevas (2008), a Warner mandou refazer tudo para que não amargasse outra decepção. Como a coisa não decolou, o projeto foi engavetado e chamaram Nolan para capitanear a repaginada. Esperto, Nolan resolveu assinar somente a produção, chamando para a direção alguém que parece se especializar em adaptações de HQ: Zack Snyder. É visível que Nolan tinha Watchmen (2009) na cabeça quando confiou nos dotes do diretor para reformular as aventuras de Superman no cinema. Ciente da diferença que um elenco faz (podem reclamar de seus filmes, mas ele está sempre atento a nomes que só precisam de um empurrão para estourar: Ty Burrel, Gerard Butler, Michael Fassbender, Malin Ackerman, Oscar Isaac...), a vontade de dar uma nova cara para o herói sacrificou Brandon Routh e colocou no lugar o britânico Henry Cavill, dando-lhe um par de talento incontestável  e com quatro indicações ao Oscar (Amy Adams), depois juntou nomes de veteranos com prestígio (Kevin Costner, Laurence Fishburne, Russell Crowe e Diane Lane) e ousou deixar o maior inimigo do Homem de Aço de fora. Nada de Lex Luthor, o algoz da vez é o sanguinário General Zodd (o sempre ótimo Michael Shannon) e seu exército de banidos. 

Shannon: outro doido no currículo?

Com isso em mãos, o roteiro só teve que se preocupar em apresentar o herói, articulando o fim de Krypton à loucura de Zodd - que é banido na zona fantasma pouco depois que o filho de Jor-El (Crowe) e Lara (a belíssima Antje Traue) é enviado para um planeta distante "habitado, aparentemente, por vida inteligente". Embora tenha feito pequenas alterações na origem do herói, a essência permanece a mesma. Kal-El é criado como Clark por Martha (Diane) e Johnatan Kent (Costner) e a descoberta de seus poderes é mostrada paralelamente a Clark Kent (Henry Cavill) vagando pelo mundo ajudando pessoas a se livrar de apuros. Nem vou citar os elementos religiosos que o roteiro capitaneado por David S. Goyer quer atribuir ao personagem (afinal, ao ser enviado para Terra, Jor-El anuncia que ele será cultuado como um deus e seus atos heroicos são conhecidos quando ele tem 33 anos!), mas o plot funciona direitinho entre o conflito de revelar seus poderes e levar uma vida normal. Curiosamente, todos confiam tanto na história que estão que nem se incomodam em fazer Lois Lane ter contato com o herói antes que ele desenvolva uma identidade secreta. Se existe um alvo de reclamação no filme é a ação ininterrupta, especialmente quando Zodd descobre o paradeiro do filho de Jor-El e ruma para a Terra com segundas e até terceiras intenções. Snyder capricha no som ensurdecedor de cada pancada, de cada efeito especial que planeja fazer de nosso planeta uma colônia de Krypton. No entanto, eu percebi que apesar de todo o espetáculo (que é o gênero do filme no fim das contas) o diretor sempre deixa claro a marca de cada personagem, especialmente de seu protagonista e a missão que ele escolheu para si. Talvez por confiar na história (Clark/Kal-El ter que aceitar quem é, seja exibindo no peito o símbolo da esperança ou o S de super) e em seus atores (que estão bem e garantem nossa identificação com tudo que está acontecendo), O filme exacerba todas a possibilidades de um filme de super-herói. No fim, Homem de Aço cumpre seu papel de fazer bonito nas férias e o mais complicado: pavimentar o caminho de novos heróis da DC Comics no cinema. Com o sucesso do filme e uma sequência anunciada, já falam de um encontro de Superman com Batman e o aguardado filme da Liga da Justiça para 2017. Os fãs não tem do que reclamar perante a era de heróis que se anuncia. 

Adams, Kent e a vilã Faora-Ul: adivinha quem está de TPM...

O Homem de Aço (Man of Steel/EUA-2013) de Zack Snyder com Henry Cavill, Amy Adams, Russell Crowe, Michael Shannon, Diane Lane, Laurence Fishburne, Kevin Costner, Christopher Meloni, Ayelet Zurer e Antje Traue. ☻☻☻☻

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CATÁLOGO: 300

Butler: um espartano como manda o figurino. 

Em 2006 chegava a encher o saco a quantidade de pessoas que ficava falando sobre 300, adaptação para o cinema da célebre graphic novel de Frank Miller sobre o famoso exército de Esparta. No Brasil o burburinho foi ainda maior com Rodrigo Santoro na pele do vilão semideus andrógino Xerxes O filme foi o segundo longa dirigido por Zack Snyder, que aqui percebeu que poderia mostrar tudo o que era capaz  de fazer na construção de imagens com ajuda de computadores. Se em Madrugada dos Mortos (2002), alguns mais céticos ainda suspeitavam da capacidade do diretor contar uma história decente, aqui ele demonstrou que pode retratar personagens com a mesma intensidade das cenas de ação cuidadosamente elaboradas. O filme é bastante fiel à obra de Miller, isso já agrada os fãs, mas a atmosfera agressiva impressa pelo diretor caiu no gosto do público que transformou o filme num sucesso que terá sua sequência lançada em 2014 (e onde somente Santoro participará do elenco origina). O filme ficou famoso por atrair os marmanjos com suas cenas violentas e a mulherada por conta dos atores de musculatura incrementada digitalmente em trajes sumários. Não deixa de ser curioso que o filme conte com atores que ganharam destaque nos anos seguintes: Michael Fassbender, David Wenham, Dominic West, Lena Headey e, obviamente, Gerard Butler. O filme colocou Butler na categoria brucutu favorito da mulherada (tanto que apareceu em várias comédias românticas), coisa que não acontecia quando era visto como um canastrão irlandês. Butler encarna o rei Leônidas de Esparta com uma gana impressionante! É da construção dessa figura emblemática que nasce a força dos 300 espartanos contra o avanço do império sanguinolento de Xerxes, rei da Pérsia. O bando de Xerxes era mais numeroso, mas não contava com a coragem, honra e senso de sacrifício da tropa de Leônidas. O final todo mundo já sabe, afinal trata-se de um embate emblemático da história da humanidade. Snyder capricha nas cenas de batalha, num ritmo vertiginoso em que o espectador parece estar no meio dos personagens! Tem sangue a rodo, mas o diretor parece saber o momento certo para definir cada personagem dentro da trama. Até mesmo o modesto papel da Rainha vivida por Lena Headey tem seus momentos de grande força dramática. Além do cuidado com o desenho cru dos personagens, 300 tem um trabalho gráfico impressionante, que sofreu algumas críticas (desnecessárias) por suas semelhanças com os games. Esteticamente irretocável e de ação incessante, 300 estabeleceu uma espécie de novo gênero: o "neo-épico", uma espécie de reinvenção que o diretor também experimentava em seu filme anterior (com os "neo-zumbis"), o maior mérito de Zack é que mesmo com tantos elementos que poderiam deixar o filme ridículo, ele mantém a testosterona no topo num equilíbrio que é mais complicado do que aparenta. Prova disso é Rodrigo Santoro como Xerxes, gigantesco em suas ambiguidades, assim como todo o filme - que serviu para Snyder fazer das adaptações de HQs o seu território favorito. 

300 (EUA-2006) de Zack Snyder com Gerard Butler, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro, Dominic West e Lena Headey. ☻☻☻

CATÁLOGO: Madrugada dos Mortos

Polley (ao centro): arrastão zumbi em shopping center?

Aproveitando a chegada do Superman de Zack Snyder não custa nada lembrar do primeiro filme que o rapaz dirigiu. Estou falando de Madrugada dos Mortos, que somente no instante que resolvi escrever esse post me dei conta de que faz nove anos que foi lançado! De lá para cá, Snyder já dirigiu outros cinco filmes, o que serve para atestar que os estúdios e o público percebem méritos na sua forma de fazer cinema. Já em sua estreia Snyder padecia do que lhe serviria de rótulo até hoje (ser eficiente em levar para telas ideias de outras pessoas, seja HQs, livros ou remakes), uma vez que Madrugada dos Mortos é uma ideia original de George A. Romero que iniciou na década de 1960 sua famosa trilogia dos mortos (o clássico absoluto A noite dos Mortos-Vivos/1968, O despertar dos mortos (1978) e O dia dos mortos/1981) e não teria rendido essa refilmagem se Danny Boyle não houvesse utilizado sua prosa seca para o sucesso de Extermínio (2002). O estúdio precisava de alguém capaz de dar uma modernizada na trama e buscou no campo publicitário alguém que fosse capaz de remodelar uma ideia conhecida ao gosto da geração que cresceu com o ritmo de games e clipes, não por acaso o filme tem boa parte de seu tempo dedicado a um grupo de pessoas num shopping cercado de zumbis! No início existe até uma certa crítica social presente nessa ideia, com alfinetada no consumismo, na defesa da propriedade, o "ser e o ter" e blábláblá, mas depois tudo isso fica de lado para as cenas de ação. O filme começa com Ana (Sarah Polley), uma enfermeira que depois de uma noite de amor com seu esposo é atacada pela filha que parece estar com alguma doença misteriosa. Seu marido logo é infectado e ela precisa fugir, ao sair de casa ela percebe que uma espécie de praga zumbi inexplicável infectou os vizinhos. Ela acaba conhecendo outras pessoas que não foram contaminadas (papéis de Ving Rhames, Mekhi Phiffer e Inna Korobkina) e todos buscam refúgio em um shopping que se encontra no alto de uma colina. Lá encontram alguns seguranças autoritários (o mais bonzinho é vivido por Kevin Zegers) que atrapalham a convivência do grupo. O filme até investe em alguns dilemas morais entre os personagens, como a tentativa de salvar os que se infectam pelo caminho ou um vizinho a mercê dos zumbis, mas investe pesado mesmo é na sanguinolência e no visual de um bando desesperado de zumbis com fome de entranhas humanas. Com enquadramentos elaborados, algum senso de humor e suspense, Snyder transformou o filme num sucesso que ajudou a criar toda uma nova safra de filmes de mortos-vivos feitos sobre medida para uma geração que adora correria. Os fãs desse tipo de filme não tem do que reclamar, mas sinto que o filme perde parte do seu ritmo lá pela metade da sessão e demora para recuperá-lo. Seja como for, a bilheteria robusta garantiu um certo status ao seu diretor e ainda rende elogios pela estética que consegue imprimir em seus filmes inspirados em universos alheios.  

Madrugada dos Mortos (Dawn of The Dead/EUA-2004) de Zack Snyder com Sarah Polley, Ving Rahames, Jake Weber e Kevin Zegers ☻

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

DVD: Sucker Punch - Mundo Surreal


Malone, Browning e Cornish no roteiro sem noção de Snyder.

Enquanto filmes ambicionam um posto nobre entre as premiações deste ano, outros começam as suas orações para que o Framboesa de Ouro os esqueça. Um dos sérios candidatos a piores do ano é Sucker Punch de Zack Snyder. Acredito que faz um tempo que os votantes das bombas do ano querem a cabeça do diretor de 300 (2007) - e não vão perder a chance de fazer essa (des)homenagem quando Snyder inventou um roteiro de sua própria cabeça (todos os seus quatro filmes anteriores eram adapatações). Misturando influências claras de histórias em quadrinhos (especialmente os mangás), games e filmes recentes (Mouling Rouge, Chicago, Garota Interrompida e A Origem, acreditem!!!) o diretor só esqueceu de fazer algo que fizesse sentido. No meio de tantas referências faltou recheio, ou melhor, uma costura mais competente. Apesar da estética bem construída (afinal, esse é o grande forte das obras do diretor) o roteiro é um desastre ao acompanhar os delírios de Babydoll (Emily Browning), uma garota internada num sanatório pelo próprio pai e que será submetida ao radical processo de lobotomia. Acontece que sempre que algo de muito ruim vai acontecer, a garota recorre a um mundo de fantasia (um não, dois, como percebemos no final), sendo assim os funcíonários da instituição, incluindo a Drª Gorsky (Carla Gugino, que esteve no melhor filme do diretor, a adaptação de Watchmen/2009) e o insano Blue (Oscar Isaac) aparecem em seus delírios como membros de um cabaré clandestino - onde as internas têm que preparar um show para seus visitantes. Babydoll se torna a queridinha do pedaço por dançar como nenhuma outra (mas ironicamente não há cenas de dança, já que sempre que a garota precisa preparar um número ela foge para um mundo paralelo onde enfrenta batalhas inusitadas). Nessa parte da trama, Babydoll conta com a ajuda de outras garotas internadas, Rocket (Jena Malone), Sweet Pea (Abbie Cornish), Amber (Jamie Chung) e Blondie (a ironicamente morena Vanessa Hudgens). O quinteto têm a missão de juntar alguns objetos para que possam sair da instituição, essa busca é o que move a trama, ou pelo menos deveria. Lidar com várias camadas narrativas não é tarefa para qualquer um, ainda mais quando se tem uma premissa tão trivial como a busca pelos objetos "libertadores". A costura dos universos paralelos de Sucker Punch é de uma fragilidade de principiante, ficando claro que pouco importa a história, o principal a ser mostrado são os efeitos especiais, as cenas de ação absurdas (e bem realizadas) e as curvas das garotas. Falando em garotas as suas atuações não ficam no mesmo nivel. Abbie Cornish (a ótima atriz de Brilho de Uma Paixão) está visivelmente desconfortável e disse em entrevistas que em vários momentos se sentia como uma manequim de lingeries. Vanessa Hudens (que ganhou a fama como a mocinha de High School Musical) até surpreende num papel pequeno, mas bem diferente do que a consagrou. Jamie Chung faz mais do mesmo (a oriental sexy e ponto). A surpresa é Jena Malone que encara com gosto seu primeiro papel como heroína de filme de ação, mostrando que cresceu desde sua estréia como a menina de Marcas do Silêncio (1996) e que se tornou uma atriz muito atraente. Pena que Snyder caiu na besteira de colocar Emily Browning como protagonista. Browning é um desastre, fria, inexpressiva e de cabelos oxigenados esquisitos a garota não convence (e parece que em seu novo filme, Sleeping Beauty ela vai pelo mesmo caminho como uma prostituta que é dopada para satisfazer seus clientes) é uma pena ver no que se transformou a doce meninha de Desventuras em Série (2006). Embora se esforce para arrancar atuações do elenco, o roteiro não ajuda e por isso Zack ainda apareceu na imprensa reclamando que por exigência dos estúdios muita coisa se perdeu e blábláblá, mas não convenceu. De qualquer forma, o cineasta deveria ter exaltado um pouco mais o seu primeiro roteiro original, já que a impressão deixada é que nem ele achava que sua trama era tão importante. No fim das contas o visual exuberante evita o desastre absoluto, mas isso não é novidade já que foi a estética apurada que fez o diretor ser chamado de visionário por aí. Veremos o que ele reserva para o novo Superman e como o Framboesa de Ouro vai digerir essa empreitada que de surreal só tem o título tupiniquim.

Sucker Punch - Mundo Surreal (Sucker Punch - EUA/2011) de Zack Snyder com Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Carla Gugino, Oscar Isaac, Hon Hamm, Scott Glenn e Jamie Chung. ☻

quarta-feira, 23 de março de 2011

FILMED+: WATCHMEN

Watchmen: Heróis lidando com seus próprios vilões internos.

Acho que nenhum filme que eu citar no FILMED+ é tão odiado quanto Watchmen. Porém, sei que o filme tem uma cota considerável de fãs (a maioria deles na Europa onde o filme virou sucesso de bilheteria, enquanto o resto do mundo o rejeitou). Tanto amor e ódio é mais do que compreensível quando pensamos que o filmé é baseado na mais cultuada HQ de todos os tempos, a obra-prima de Alan Moore e David Gibbons, sendo a única história em quadrinhos presente na lista da revista Time sobre as maiores obras da língua inglesa. Obviamente que tanto culto à obra impressa se reverteria em mesma medida em marketing e decepção para os fãs quando o filme ficasse pronto. Talvez por isso a adaptação da saga de Comediante & Cia tenha demorado tanto para ganhar as telas. Na época em que o Batman (1989) de Tim Burton fez sucesso, os estúdios ficaram coçando as mãos para adaptar Watchmen - mas graças aos deuses do cinema a versão estapafúrdia proposta à Terry Gillian não saiu do papel. No século XXI sobravam rumores envolvendo nomes como Darren Aronofsky e Paul Greengrass, mas ambos não tiveram fôlego para tocar um projeto com tamanho nível de complexidade, expectativas e cobranças do estúdio. Acostumados ao cinema independente isso é totalmente compreensível. Foi um fã da série em quadrinhos que topou a empreitada com medo dos estragos que poderiam fazer à uma obra tão cultuada. Zach Snyder havia saído do sucesso de 300 (2006) de Frank Miller e mergulhou de cabeça no universo paralelo criado por Miller e Gibbons, fazendo um filme visualmente irrepreensível e que está longe de ser um filme de herói comum. A maior ousadia do diretor talvez seja condensar a trama de doze gibis revistas em quase três horas de projeção (dizem que havia uma cópia com quatro horas que era a versão integral, mas que acabou virando uma espécie de lenda). O filme procura ser bem fiel à trama original e muitos até a criticam por isso. Num mundo onde os heróis existem de verdade, Richard Nixon foi reeleito várias vezes, tendo até envolvimento com a lei Keane que proibe que os heróis usem máscaras se não possuírem sua identidade revelada. Com isso poucos se registram (como Comediante), outros se aposentam (como o Coruja) e alguns continuam atuando às escondidas (como Rorschach). É com o assassinato de Comediante (Jeffrey Dean Morgan, numa atuação competente que merecia atenção nas premiações) que a trama começa sob a suspeita de que alguém quer acabar os heróis. O problema é que atribuem essa suspeita à personalidade paranóica de Rorschach (Jackie Earle Haley digno de uma segunda indicação ao Oscar de coadjuvante). O filme acompanha a trajetória desses personagens em clima de filme noir e descasca seus heróis sem pudores. Afinal, o que se passa na cabeça de um herói? Uma pessoa que coloca uma máscara e sai por aí espancando bandidos? Será um psicopata como Comediante? Um semi-deus como Dr. Manhanttan (Billy Crudup)? Ou uma herdeira (Malin Ackerman) de uma heroína com pretensões de tornar-se atriz como Spectral (Carla Gugino)?  Um covarde impotente que nem sabe muito bem o que se tornou com o passar dos anos como o Coruja (Patrick Wilson)?  Será que a solução é capitalizar o prestígio e se tornar um capitalista que ganha dinheiro apregoando a paz mundial enquanto alardeia ser o homem mais inteligente do mundo como Ozymandias (Matthew Goode)? A trama conta em flashback a história dos heróis americanos entrelançando com fatos da história dos EUA (a abertura do filme é antológica ao som de Bob Dylan) e nos revela os danos que anos de combate ao crime pode causar - sem perder de vista a noção pura de heroísmo que brota na mente de todo garoto (afinal, é isso que Spectral e Coruja representam). Sem abrir mão dos momentos mais escabrosos do gibi e outras polêmicas (como a nudez radioativa de Manhattan) o filme é muito bem sucedido ao romper com o maniqueísmo entre mocinhos e bandidos, mostrando que o nosso maior inimigo pode estar em nós mesmos. Fora isso, tem aquele verniz político que toda trama de herói que chega aos cinemas quer. Mesmo tendo alterado o final (mas não em sua essência), Watchmen é um filme que será redescoberto com o tempo, pode escrever!

WATCHMEN - O Filme (Watchmen/EUA-2009) de Zack Snyder com Jackie Earle Halley, Patrick Wilson, Jeffrey Dean Morgan, Malin Akerman, Matthew Goode e Carla Gugino. ☻☻☻☻☻

DVD: A Lenda dos Guardiões


A Lenda dos Guardiões: Snyder estreia na animação.

Desde a sua estreia com Madrugada dos Mortos (2004) o diretor Zack Snyder mostra que sabe conduzir cenas de ação com competência. Além disso é um dos poucos diretores que sabem lidar com o visual de um filme cheio de efeitos visuais sem deixar aquele jeitão artificial que tantos outros conseguem. Depois do sucesso de 300 (2007) o cara foi até chamado de visionário pela concepção que tem de cinema. Talvez por ter demonstrado uma coragem exorbitante ao adaptar a Bíblia das HQs Watchmen para o cinema em 2009, o cara tenha pego leve ao resolver fazer este A Lenda dos Guardiões baseado nos três primeiros exemplares da coleção de treze escrita pela americana Kathryn Lasky. Pois é, depois de toda a violência de seus filmes anteriores o cara resolveu fazer uma obra voltada para um público mais jovem e inocente. O resultado apresenta as características típicas do diretor (visual arrebatador, cenas de ação caprichadas e até atuação convincente de um bando de corujas criadas por computador), mas o filme peca justamente na história que Snyder resolveu contar. A trama conta a história de dois irmãos corujas que são sequestrados enquanto aprendem a voar, ambos acabam sendo levados para um lugar afastado de seus lares onde um grupo de corujas fascistas escravizam as outras espécies os fazendo trabalhar sob uma espécie de transe. Um dos irmãos será escravizado (o bonzinho Soren), o outro se tornará um soldado (Kludd) que oferecerá até sua irmãzinha caçula para os seus novos líderes. Soren acredita que pode fugir dali e encontrar os lendários guardiões que zelam pela segurança e justiça entre as corujas. Para uma animação não existe nada que ultrapasse o ridiculômetro até aqui. No entanto, por mais que o filme possua personagens carismáticos e cenas bem elaboradas (muitas em câmera lenta para nos impressionar com o movimento preciso das penas dos personagens) existem grandes tropeços na narrativa. Por ser voltado para as crianças mais grandinhas o roteiro resolveu não expor algumas coisas que acabam sem sentido para o público - como a forma como funciona a "lunatização" das corujinhas escravizadas ou que resíduo brilhante é aquele que são obrigados a descobrir entre restos de ratos regurgitados por eles mesmos. Além disso, algumas soluções aparecem de forma tão acelerada que parece que ninguém teve paciência para chegar ao final onde os dois irmãos irão se enfrenta em lados opostos. No fim das contas é uma animação competente visualmente, mas que esqueceu de dar um trato mais cuidadoso em seu roteiro - mas não se surpreenda se o filme ganhar uma sequência.

A Lenda dos Guardiões (Legend of the Guardians: The Owls of GaHoole/EUA-Austrália - 2010) de Zach Znyder com vozes de Jim Sturgess, Helen Mirren e Ryan Kwaten. ☻☻