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segunda-feira, 8 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: A Juíza

 

Ruth Bader Ginsburg: ícone na luta pela equidade de gêneros. 

Pode não parecer mais fazer um Ciclo temático aqui no blog dá mais trabalho do que se imagina. Para começar preciso assistir aos filmes com alguma antecedência para conseguir postar um texto por dia na rotina do dia-a-dia. Depois tem alguns parâmetros (que nem eu sei direito quais são) que me fazem perceber que um filme não se encaixa muito bem na proposta do ciclo e acha que aquele outro ficaria mais interessante no meio da semana. Também procuro ver filmes variados e no último dia sempre penso que deveria falar sobre um filme de destaque, seja pela trama, por ser um clássico ou por quem dirige. Eu pensei muito sobre qual filme seria ideal para fechar esta retomada do Ciclo Diretoras (e uma das ideias aparecerá no #FimDeSemana deste mês) e lembrei que em 2019, quando o blog ficou parado, eu assisti um longa que seria ideal para este fechamento. Em 2018 as cineastas Julie Cohen e Betsy West lançaram A Juíza, documentário obrigatório sobre um dos nomes mais influentes sobre a luta pela equidade de gênero, trata-se de Ruth Baden Ginsburg, juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos. O filme conta a história de Ruth com uma cadência pop irresistível, especialmente por apresentar como esta mulher discreta se tornou uma celebridade pelas ideias que sempre defendeu. É interessante ver como a comparam à uma super-heroína ou lhe conferem o apelido de Notorious RBG em analogia ao famoso rapper dos anos 1990 (e que Ruth lembra compartilhar com ela a mesma origem em Nova York). O filme relata muito de como Ruth sofreu na pele a discriminação de gênero (como o dia em que na faculdade reuniram as alunas do curso de direito para dizer que elas tomaram o lugar de um homem naquele espaço ou quando já formada se deparava com agências que não contratavam mulheres). Ruth comenta com muita tranquilidade e inteligência sobre os desafios que enfrentou em sua carreira, reserva muito carinho ao esposo (o também advogado Martin Ginsburg que faleceu em 2010 aos 68 anos), com quem dividiu a vida desde 1964. Os comentários do casal de filhos e dos amigos fazem com que se enxergue ainda mais a mulher por trás da lenda e um tanto de como foi difícil impor-se num mundo tão marcadamente masculino (inclusive na legislação americana). Dos processos que marcaram época e revolucionaram a equidade de gênero na justiça, percebemos como seu trabalho foi importante nos tribunais e para inspirar as futuras gerações. Curiosamente, no mesmo ano, um outro filme foi realizado para homenagear esta personalidade emblemática, Suprema de Mimi Leder com Felicity Jones no papel de Ruth, que destaca o caso que se tornou uma guinada na carreira de Ruth ao evidenciar a discriminação presente nas leis. Embora seja interessante (e sirva até de complemento do documentário), o filme de Leder não dá conta de todas as nuances da trajetória da advogada, talvez por isso foi A Juíza que foi lembrado nas premiações, chegando a disputar duas categorias no Oscar (melhor documentário e melhor canção original). Este documentário é mais do que um filme, mas um registro histórico sobre uma mulher que merece ser lembrada por suas lutas e que nos deixou em setembro do ano passado. Diante do seu falecimento o filme se torna ainda mais emocionante e necessário. 

Betsy West e Julie Cohen: documentário obrigatório. 

A Juíza (The RBG / EUA - 2018) de  Julie Cohen e Betsy West com Ruth Bader Ginsburg, Ann Kittner, Harryette Helsel, Brenda Feigen e Mary Hartnett. ☻☻☻☻☻

domingo, 7 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: Bela Vingança

 
Carey: enfiando o bisturi na ferida. 

Cassandra (Carey Mulligan) é uma jovem que tem uma rotina bem diferente das outras garotas de sua idade. Ela gosta de ir para estabelecimentos noturnos e fingir que ingeriu mais álcool do que devia para atrair homens aparentemente inofensivos que tentem se aproveitar dela. Quando eles estão prestes a se aproveitarem de sua inconsciência, ela demonstra que está bastante sóbria, mais do que eles, inclusive. Assim, ela segue uma rotina de fazer os homens tremerem perante as atrocidades que são capazes de cometer como se fosse a coisa mais natural do mundo. Existe um motivo bastante sensível para que ela faça isso, tem relação com o tempo em que estava na faculdade e uma situação degradante de abuso não foi encarada com a seriedade que merecia. Passado muitos anos, sua insatisfação com o caso e a forma como as instituições lidaram com a situação, só fazem a sua sede de vingança ainda maior, ainda mais quando um  ex-colega da faculdade reaparece e traz personagens do passado de volta... mas esta não é a única função do simpático Ryan (Bo Burnham), já que ele se interessa amorosamente por Cassandra  que, por conta de sua rotina arriscada, por vezes mete os pés pelas mãos e pode colocar tudo a perder. Vale ressaltar que a premissa em torno da protagonista é o fio condutor de um filme que toca em várias feridas que estão constantemente em debate nos dias atuais - e aqui recebem situações bastante ilustrativas e incômodas sobre a forma como os abusos contra as mulheres foram naturalizados. O melhor de tudo é que o filme não é realizado da forma quadradinha, mas com um senso de humor maldoso e muitas provocações que dividem a opinião do público e até da crítica, mas que torna Bela Vingança um filme que é impossível ser assistido com indiferença. Escrito e dirigido por Emerald Fennell o filme foge das obviedades e, para entender um pouco mais a estética do filme, vale conhecer um pouco mais sobre sua diretora. Emerald é inglesa e uma das roteiristas de Killing Eve (o que explica sua habilidade em misturar drama, suspense e o humor maldoso), ela também se tornou conhecida por interpretar a jovem Camilla Parker Bowles na série The Crown e surpreender ao ser indicada ao Globo de Ouro e Independent Spirit de melhor direção enquanto disputava a vaga com cineastas mais experientes. Em sua estreia em longas metragens, Emerald mira em uma espécie de confraria que perdoa qualquer atitude condenável feita pelos seus pares, embora seja composta em grande parte por homens, muitas mulheres no filme reproduzem o mesmo discurso permissivo e capaz de perdoar um homem por ter estuprado uma mulher enquanto aponta o dedo para ela por estar alcoolizada (como se isso a tornasse menos digna de respeito).  No entanto, Bela Vingança tem o mérito de colocar o dedo na ferida de forma envolvente, embalado pelo elenco interessante capitaneado por Carey Mulligan que desponta como uma das favoritas ao Oscar deste ano. A atriz que sempre foi competente vive aqui uma personagem diferente das outras que já viveu no cinema, mas insere camadas deliciosamente humanas (para o bem e para  mal) para não ser confundida com uma personagem vingativa comum. Outro destaque é Bo Burnham  (diretor de Oitava Série/2018) que tem algumas guinadas surpreendentes em seu personagem (e ele dá conta direitinho). Se existe algo que causa horror no filme é o seu penúltimo ato, mas que condiz com a postura da diretora tocar na ferida e não se importar com o incômodo que pode provocar com seus vilões disfarçados de cordeiros imaturos e fanfarrões. Vou evitar spoilers e nem vou dizer de qual filme o final me lembra... mas dou a dica que era de 1991 e tem relação com duas amigas. 

Emerald Fennell: Killing Eve e The Crown no currículo. 

Bela Vingança (Promising Young Woman / EUA - Reino Unido / 2020) de Emerald Fennell com Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Laverne Cox, Jennifer Coolidge, Clancy Brown, Adam Brody, Christopher Mintz-Plasse, Sam Richardson, Christopher Lowell e Connie Britton. ☻☻☻☻

sábado, 6 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: Inpire, Expire.

 
Sadjo e Patrik: empatia verdadeira. 

A primeira coisa que nos vem a cabeça quando pensamos na Islândia é o fato de ser um país extremamente gelado, depois disso até lembramos de Björk, Sigur Rós e time de futebol formado por voluntários na Copa do Mundo. A maioria das pessoas não devem ter visto nenhum filme islandês na vida (aqui no blog eu devo ter comentado uns cinco) e por isso mesmo é interessante que o premiado Inspire, Expire esteja em cartaz na Netflix para um número gigantesco de pessoas que dificilmente o assistiria se estivesse nos cinemas. O primeiro longa metragem da cineasta  Isold Uggadottir trata de um tema bastante recorrente no cinema europeu recente, os imigrantes ilegais, mas o faz por um viés bastante original ao estabelecer um laço de duas mulheres de origens diferentes, mas que descobrem na amizade uma forma de resolver seus problemas que são até parecidos. Uma delas é Lára (Kristín Þóra Haraldsdóttir), mãe solteira que não tem dinheiro para arcar com as despesas ao lado do filho. Ela começa a trabalhar no aeroporto enquanto passa a viver no carro com o pequeno Eldar (Patrik Nökkvi Pétursson). É no trabalho que Lára conhece Adja (Babetida Sadjo), mulher nascida em Guiné-Bissau que se vê separada da filha após ter seu passaporte falso descoberto antes de embarcar para o Canadá. Separada da família, sozinha e num lugar gélido, a sua angústia só cresce no abrigo para refugiados. Porém, o roteiro irá juntar o trio de personagens em meio a sentimentos como insegurança, medo e o desejo de manter-se próxima de quem se ama. Aos poucos a amizade cresce e ganha contornos de uma família diferente. É neste laço que se constrói entre os personagens que o filme cresce e se torna ainda mais comovente na evolução sutil de uma narrativa um tanto rígida, mas consegue revelar o que estas personagens tem de mais forte e também de mais frágil. Se distanciando do sentimentalismo enquanto as personagens tentam resolver seus problemas, Inspire, Expire foge dos lugares comuns e apresenta algumas cenas assustadoras sobre a realidade que ainda buscam seu lugar no mundo. São estas cenas que nos fazem pensar no que é realmente certo ou errado perante uma realidade dura e excludente. Não bastasse o excelente trabalho das atrizes, a diretora Isold Uggadottir demonstra aqui aquela habilidade rara de conduzir o drama de seus personagens gerando um verdadeiro suspense. A forma como conduz a jornada de suas personagens é quase um manifesto contra um mundo à beira do abismo individualista. Embora sua ambientação transpire o ar gélido da Islândia, Inspire, Expire emana calor humano através do seu trio protagonista e se transforma em uma lição de enxergar o outro em seus desejos e necessidades. A empatia nada forçada que emana do filme lhe valeu elogios e um prêmio no Festival de Sundance.  

Isold Uggadottir: melhor direção internacional no Festival de Sundance. 

Inspire, Expire (Andið eðlilega / Islândia - Suécia - Bélgica / 2018) de Isold Uggadottir com  Kristín Þóra Haraldsdóttir, Babetida Sadjo, Patrik Nökkvi Pétursson e Bragi Arnason. ☻☻☻☻

sexta-feira, 5 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: First Cow

 
Lee e Magaro: negócio arriscado. 

Faz algum tempo que o cinema de Kelly Reichardt chama a atenção da crítica. Embora esteja longe de ser unanimidades filmes como O Atalho/2010, Movimentos Noturnos/2013 e Certas Mulheres/2016  deixavam claro que o cinema de Kelly tem força e algo a dizer em seus longos silêncios. É verdade que ela possui um estilo um tanto seco, sem firulas e pouca (ou nenhuma) concessão à plateia.  Não fosse o estranho ano de 2020, talvez seu sétimo longa, First Cow houvesse caído nas graças do público, tanto quanto a crítica caiu de amores por ele. O filme começa com a descoberta de duas ossadas encontradas nos dias atuais para logo depois voltar no tempo, mais precisamente para Oregon o ano de 1820 quando o padeiro Otis Figowitz (John Magaro) viaja com um  grupo de caçadores e encontra Ling-Lu (Orion Lee) no caminho. Sem roupas e desprotegido, Lu recebe a ajuda de Otis e nasce dali uma amizade genuína e verdadeira pautada pela confiança. Lu convida o amigo para morar em sua casa e juntos constroem uma rotina dentro da narrativa lenta sobre o cotidiano dos dois. O ritmo desta parte faz o filme demorar para engrenar (e a cineastas curte mesmo uma narrativa mais vagarosa), mas logo depois a situação muda quando um rico inglês (Toby Jones) chega para morar naquela localidade e traz com ele uma vaca, a primeira daquele lugar esquecido. O animal chama a atenção do padeiro, que passa a imaginar os biscoitos que poderia fazer com o leite produzido e não demora para que ele e seu amigo passem a ordenhar a vaca clandestinamente todas as noites e vender o tal biscoito para os moradores locais. O produto faz sucesso e chama atenção até do tal fazendeiro, deixando os dois cada vez mais preocupados com o risco que continuam assumindo todas as noites em nome do dinheiro que conseguem ganhar com as vendas. Da situação nasce então um contraste interessante, seja da tranquilidade local com a ameaça de que algo terrível poderá acontecer aos dois ou as diferenças entre quem tem dinheiro e quem não tem. First Cow é baseado no livro A Half Life de Jonathan Raymond que assina o roteiro ao lado da diretora, que alcança aqui o seu trabalho mais envolvente, principalmente por nos fazer importar com a dupla de amigos magistralmente interpretada por John Magaro (de quem sou fã desde que o vi na série Orange is the New Black) e Orion Lee (que eu não conhecia, mas agora ficarei atento aos seus trabalhos futuros). First Cow é uma história simples e linear, com enquadramentos elegantes e que se enriquece pelos detalhes gradativamente. Existe uma forte campanha para que o filme apareça no Oscar que vem por aí, mas talvez seja alternativo demais para os votantes da academia (mas dizem que tem chances de ser indicado pelo roteiro adaptado e seria merecido). First Cow concorreu ao prêmio de melhor filme no Festival de Berlim no ano passado, foi indicado à três categorias do Independent Spirit (direção, melhor filme e ator coadjuvante para Orion Lee), cinco prêmios Gotham (Melhor filme, direção, ator/John Magaro, roteiro e ator revelação/Lee) e aparece em várias listas de críticos de melhores lançamentos do ano passado. Se antes eu sentia certa frieza nos filmes da diretora, aqui sinto um tom caloroso na condução da trama, que fez muito bem à sua cinematografia. First Cow é um daqueles tesouros escondidos que merece ser encontrado. 

Kelly Reichardt: o gosto pelos detalhes. 

First Cow (EUA-2020) de Kelly Reichardt com John Magaro, Orion Lee, Toby Jones, Ewen Bremner, Manuel Rodriguez, Ryan Findley, Jared Kasowski e Evie. ☻☻☻☻

quinta-feira, 4 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: Atlantique

 
Soulemain e Ada: amor sobrenatural. 

Soulemain (Ibrahima Traoré) é um jovem que trabalha em uma grande construção no subúrbio litorâneo de Dakar, capital do Senegal. Ele e seus colegas estão revoltados com o patrão que não paga há meses o que deveria. Desapontado com a situação, ele começa a imaginar uma forma de mudar o rumo de sua vida e o preço será afastar-se da doce Ada (Mame Bineta Sane), adolescente pela qual está apaixonado mas que está prometida para Omar (Babacar Sylla) - que passa a maior parte do tempo trabalhando na Itália e que tem uma situação econômica muito melhor que o seu rival. No desespero de uma busca por mudança, Soulemain decide atravessar o Oceano Atlântico rumo à Espanha com seus amigos e resta à Ada sofrer com sua sua ausência e a insegurança diante da possibilidade de uma tragédia. Esta realidade não é apenas vivida pela protagonista, mas também por várias outras jovens que ficaram sem saber sobre o destino de seus amados após partirem sem se despedir (na certa por saberem que elas seriam contra a ideia que tinham em mente). Resta então à Ada aceitar o destino de casar-se com um homem que não ama... mas eis que um fato estranho acontece na confortável casa do casal durante a festa matrimonial e  Soulemain torna-se o principal suspeito. Atlantique da diretora Mati Diop concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2019 e saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri e um contrato de distribuição mundial pela Netflix, que deu ao filme uma visibilidade que dificilmente alcançaria nos cinemas. Esta é a estreia da diretora em longas metragens e basta observar seus primeiros quinze minutos para perceber o talento da moça para ganhar a atenção do espectador. Existe tanta tensão no início conjugadas com aquela imensidão do mar que você já consegue entender o que está prestes a acontecer. Depois o filme parece ser uma história de imigrantes ilegais contadas pelo lado de quem fica, mas surpreende ao dar conotações sobrenaturais à história que tem em mãos. As cenas com as mulheres de olhos brancos assombrando a cidade estão entre os melhores momentos do filme, especialmente pela aura de mistério que passa a perpassar as relações entre as personagens. No entanto, o roteiro (assinado por Diop e Olivier Demangiel) encontra espaço para o crescimento de Ada, que começa a torna-se dona da própria história diante de uma sociedade opressora e uma família que questiona sua índole a maior parte do tempo. Tantos bons elementos deixa a parte da investigação policial um tanto deslocada, especialmente por conta da previsibilidade do que está acontecendo com o detetive responsável pelo caso, curiosamente, toda vez que ele recebe o protagonismo o fluxo da narrativa tropeça. Quando Ada e suas amigas assombradas estão em cena o filme funciona infinitamente melhor e se sustentaria por conta própria sem necessidade de uma trama policial no meio do caminho. No entanto, este é um detalhe pequeno diante do bom trabalho realizado pela diretora ao longo da sessão. Pode se dizer que ela acerta no que a história tinha de mais arriscado (os elementos fantásticos) e escorrega quando insere ao seu filme uma camada mais trivial (a investigação). Mati Diop nasceu em Paris em uma família de senegaleses e começou sua carreira no cinema como atriz, ao se reconectar com suas origens em Atlantique (filme escolhido pelo Senegal para disputar uma vaga na disputa de filme estrangeiro no Oscar do ano passado), ela nos deixa curiosos para conhecer seu próximo passo como cineasta.  

Mati Diop: reconectando às origens. 

Atlantique (Senegal, França, Bélgica / 2019) de Mati Diop com  Mame Bineta Sane, Amadou Mbow, Ibrahima Traoré, Nicole Sougou, Aminata Kane, Mariama Gassama, Coumba Dieng e Babacar Sylla. ☻☻☻☻

quarta-feira, 3 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: Saint Maud

 
Morfydd: a fé enquanto camisa de força. 

Maud (Morfydd Clark) é uma jovem enfermeira que após um incidente traumático passa a se dedicar à Amanda (Jennifer Ehle), uma dançarina profissional que sofre de câncer terminal. Maud é bastante solitária e muito apegada à religião e percebe sua profissão mais do que como um trabalho, mas como uma espécie de missão - o que se intensifica ainda mais ao descobrir maiores detalhes sobre a vida pessoal de sua paciente. Diante do estilo de vida de Amanda, a jovem começa a encarar aquele trabalho como mais do que cuidar do corpo enfermo de alguém, mas uma espécie de missão divina no resgate da alma daquela mulher enferma. Este é o ponto de partida de Saint Maud, impressionante estreia da diretora britânica Rose Glass, a ideia poderia servir de premissa para um drama sobre fé e redenção, mas trata-se de um dos filmes de terror mais falados no exterior no conturbado ano passado. Um dos grandes méritos do filme é não contar muito sobre Maud, deixando que o espectador passe a especular sobre sua história particular, seja com a estranha cena inicial, as lembranças (ou alucinações?) que são apresentadas em flashes rápidos ou as pessoas que encontra pelo caminho. O fato é que debaixo de toda fé da personagem existe um bocado de desejos reprimidos e tendências à loucura - e o filme abraça este fator com louvor, deixando que o olhar da protagonista sobre o mundo dite os rumos da narrativa, especialmente em sua segunda metade. É uma experiência bastante estranha, ao mesmo tempo sutil e assustadora emoldurada pelos cenários sombrios, fotografia soturna e uma trilha sonora arrepiante. A atriz Morfydd Clark está assustadora no papel do título e consegue passar a exata medida de como alguma coisa está fora do eixo na personagem, sendo capaz de revelar suas emoções mais secretas com olhares, movimentos e sons estranhos rumo ao final aterrador. Jennifer Ehle também está ótima (como sempre e cada vez mais parecida com a Meryl Streep), a atriz consegue ser o contraponto ideal para desestabilizar a cuidadora - as cenas entre as duas possuem uma tensão absurda. No entanto, o maior mérito do filme é mesmo de Rose Glass, uma diretora que sabe exatamente a história que quer contar e como deseja fazer o serviço, apresentando uma contenção severa no início da história, ela não decepciona quando solta as rédeas e deixa a loucura de sua personagem incendiar o filme de vez. Se a crítica gosta de ressaltar que Robert "A Bruxa" Eggers e Ari "Hereditário" Aster revolucionaram o conceito de terror em Hollywood, agora, atrevo-me a dizer que terão que incluir Rose Glass nesta santíssima trindade do gênero. O único problema de Saint Maud foi ter o azar de ter sua distribuição nas salas de cinema comprometida pela pandemia. Fosse um ano normal, o filme poderia até figurar em algumas premiações da temporada de ouro que se inicia. Ao menos o British Independent Film Awards reconheceu todos os méritos do filme e o indicou à dezessete categorias (levando para casa o de melhor fotografia e de cineasta revelação). De quebra, Saint Maud ainda tem um subtexto bastante atual com os extremismos que vemos hoje em dia. 

Rose Glass: terror psicológico na medida certa.

Saint Maud (Reino Unido / 2019) de Rose Glass com Morfydd Clark, Jennifer Ehle, Lily Knight e Lily Fraser. ☻☻☻☻

segunda-feira, 1 de março de 2021

CICLO DIRETORAS: Songs My Brothers Taught Me

 
Johnny e Jashaun: a bela estreia de Chloé Zhao. 

Chloé Zhao é a favorita para levar para casa o Oscar de melhor direção deste ano por seu terceiro filme (Nomadland). Se ganhar, será a segunda mulher a levar o Oscar de melhor direção e será a primeira de origem oriental - o que ajuda muito no momento em que as mulheres cineastas clamam por oportunidades e reconhecimentos na indústria cinematográfica. No entanto, acredito que quando Zhao aceitou a proposta da atriz Frances McDormand para dirigir seu novo  filme, ela não imaginava que faria história na maior premiação do cinema americano. Para a maioria das pessoas a chinesa nascida em Beijing em 1984 é uma ilustra desconhecida (porém, os fãs de filmes de quadrinhos devem ter se acostumado a ouvir o nome dela já que será a responsável por levar para as telas Os Eternos da Marvel). Quem já acompanha a carreira da cineasta até aqui deve ficar imaginando como a Marvel imaginou que uma diretora querida no circuito independente se tornou o nome adequado para um filme de super-herói. Zhao chamou a atenção já em seu filme de estreia, Songs My Brothers Taught Me, que foi aclamado em festivais (incluindo Cannes e Sundance que ajudou a idealizar o filme em um dos seus laboratórios) e indicado a três Independent Spirit (melhor primeiro filme, fotografia e cineasta revelação) e premiado com o Gotham destinado a diretoras mulheres. O filme conta a história de uma família que vive em uma reserva indígena dos Estados Unidos, a Pine Ridge localizada na Dakota do Sul. Aqui o destaque é para o jovem Johnny (John Reddy) e sua pequena irmã, Jashaun (Jashaun St. John), ambos vivem com a mãe (Irene Bedard) após a prisão do irmão mais velho (Kevin Hunter). A cineasta já demonstra aqui seu interesse em construir uma narrativa entre o documental e a ficção, parecendo muitas vezes apenas espiar a vida daqueles personagens (em sua maioria vividos por atores amadores) em seu cotidiano repleto por atividades comuns que aos poucos apresentam alguns dilemas. Com estética mais etnográfica do que dramática, aos poucos sabemos o que aconteceu com o "prolífico" pai daquela família, que o primogênito prefere estar na prisão do que conviver com a mãe e conhecemos um pouco mais daquelas pessoas que vivem em um mundo bastante particular entre manter os antigos costumes enquanto a preocupação com o uso de álcool e drogas só aumenta (especialmente se levarmos em conta a falta de segurança que ronda a reserva). Existe também uma certa carência de perspectiva daqueles personagens, especialmente de Johnny, que acaba realiza contrabandos entre a fronteira da reserva e o mundo exterior e acaba pagando o preço por isso. Beneficiado pelas belas paisagens valorizada pela fotografia caprichada, atmosfera bucólica e uma bela trilha sonora, Songs My Brothers Taught Me é bastante contemplativo e até relaxante ao não ter pressa em acompanhar o cotidiano daqueles personagens que ainda procuram seus lugares no mundo em que vivem. Neste ponto, pesa bastante a relação entre Johnny e sua irmã que se torna uma espécie de âncora naquela família, especialmente quando ele planeja mudar de vida com a namorada e respirar novos ares e fecha o filme com seu momento mais bonito e poético. Quem assistiu ao filme seguinte da cineasta, Domando o Destino (2017) irá perceber aqui muitos elementos que Chloé voltou a explorar de forma ainda mais contundente e que a tornou um dos nomes mais relevantes do cinema indie nos últimos anos. Por isso, na expectativa de Nomadland chegar logo por aqui, escolhi o filme de estreia da diretora para abrir o Ciclo Diretoras 2021. 

Chloé Zhao: equilíbrio entre a realidade e a ficção.

Songs my Brothers Taught Me (EUA-2015) de Chloé Zhao com  John Reddy, Jashaun St. John, Irene Bedard, Kevin Hunter e Keanna Rowland. ☻☻☻

sábado, 10 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Visages Villages (FILMED+)

Agnès e JR: deliciosa viagem 

Um dos meus erros nas apostas do Oscar deste ano foi ter considerado que Visages Villages levasse o prêmio de melhor documentário. Bem, ele não levou, mas isto não quer dizer muita coisa, já que ele ainda é um dos filmes mais interessantes que assisti nos últimos meses. O longa parte da ideia da cultuada diretora francesa Agnès Varda - responsável por clássicos imortais como As Duas Faces da Felicidade (1965), Os Renegados (1985) e o recente As Praias de Agnès (2008), que assim como este aqui envolve suas memórias e a paixão pela fotografia - em ter uma parceria com o artista JR, famoso pelas fotografias gigantes de anônimos em preto e branco coladas em lugares públicos. Embora sejam de gerações diferentes (ela tem 90 anos e ele deve ter uns quarenta) os dois deixam claro que seus trabalhos tem afinidades bem marcantes. O encontro é irresistível desde o início, quando os dois contam de forma muito simpática como eles não se conheceram. Logo depois eles entregaram que se conheceram através da arte um do outro. Ele lembra do cinema de Varda e ela se impressionou com algumas fotografias que ele espalhou por aí. Assim, fica fácil entender como ela teve a ideia de convidá-lo para uma viagem criativa pelo interior da França em busca de anônimos prestes a se tornarem obras de arte. Sorte que o filme consegue ser mais do que apenas uma sucessão de sessões de fotografia, uma vez que dá voz para as pessoas comuns, suas histórias e reações diante das imagens gigantes. As fotografias rendem encontros, resgates históricos, apresentações e momentos um tanto surreais guiados pela imaginação da dupla. São momentos deliciosamente lúdicos (o caminhão ilustrado como uma máquina fotográfica - e que revela as fotos como uma enorme Polaroid sobre rodas  é um verdadeiro achado). Visages Villages é uma verdadeira ode às pessoas comuns e o que podem ter de mais interessante: suas histórias de vida. Para além da proposta em si, o filme explora um pouco a relação entre os  dois artistas (especialmente o incômodo de Agnès em sempre ver seu parceiro de óculos escuros) e ver a cineasta comentar um pouco sobre o envelhecimento, a visão (que se torna cada vez mais turva - como ela já relatou no documentário brasileiro Janela da Alma/2001) e até a solidão após a morte do esposo, o também diretor Jacques Demy. Criativo, sensível e engraçado, o filme poderia ser o primeiro de uma série de filmes com a dupla e, o melhor de tudo, demonstra como uma mulher genial permanece uma mulher genial, mesmo sob os efeitos do tempo. Vale lembrar que o Oscar de documentário não foi para o filme, mas Varda foi a homenageada do ano pela Academia, recebendo um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra no cinema. 

Agnès Varda

Visages Villages (França/2017) de Agnès Varda e JR com Agnès Varda, JR, Marie Douvet, Claude Flaert e Vincent Gills. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 9 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: A Festa

Os convidados: elegantes alfinetadas sobre a Europa atual. 

A inglesa Sally Potter dirige filmes desde que ganhou sua câmera oito milímetros aos quatorze anos. Ela começou a carreira fazendo curtas e chamou atenção da crítica quando ousou adaptar Orlando - A Mulher Imortal (1992), a saga escrita por Virginia Woolf em que a ambiguidade sexual de sua protagonista atravessa os séculos. O filme foi indicado para dois Oscars e foi um dos primeiros filmes a colocar Tilda Swinton sob os holofotes da mídia internacional. Em seus filmes seguintes, o fato de contar com personagens femininas fortes tornou-se uma marca registrada, mesmo que por vezes as utilizasse de forma inusitada (basta lembrar da modelo vivida por Jude Law em Fúria/2009). Sally definitivamente não liga para convenções e, por isso mesmo, seus filmes costumam sempre deixar a plateia um tanto inquieta. Foi isso que aconteceu com A Festa, que foi exibido por aqui no Festival do Rio do ano passado e dividiu a crítica pela forma que a diretora constrói sua história. A trama gira em torno de uma noite onde um grupo de amigos se encontram para comemorar a nomeação de Janet (Kristin Scott Thomas) para ocupar o cargo de Ministra da Saúde na Inglaterra. Entre os convidados estão o esposo de Janet, Bill (Timothy Spall) - que parece um tanto catatônico diante da notícia - , a amiga americana  politicamente desiludida, April (a excepcional Patricia Clarkson), e o namorado alemão  otimista, Gottfried (Bruno Ganz num personagem que até o nome parece uma piada).  Também marcam presença o casal de amigas formado por Martha (Cherry Jones) e Jinny (Emily Mortimer) que precisam lidar com a notícia da chegada de trigêmeos na família. Ah, claro, não poderia faltar Tom (Cillian Murphy), o marido bonitão da atrasada Marianne - e que está disposto a contar um segredo capaz de desestabilizar toda a comemoração. A Festa tem uma essência totalmente teatral, mas foi escrita para a telona mesmo, ressaltando a forma como a diretora utiliza uma câmera ágil para intensificar a agitação dos personagens com todos os dilemas que surgem daquele encontro, especialmente com a crise deflagrada no casamento de Janet - que tenta manter a calma, mas está visivelmente à beira de um ataque de nervos. Existem dois pontos que fazem a diferença no filme, um deles é o humor negro, tipicamente britânico que faz a plateia rir nervosa em vários momentos (a cena em que April diz para a amiga o que ela precisa fazer para governar o país é de rolar de rir), o outro ponto fica por conta dos diálogos elaborados lapidados para retratar como é difícil entender política enquanto parte das relações humanas, especialmente no mundo pós-moderno cheio de discursos efêmeros e dicotomias. Esperanças, ideologias, desilusões, fidelidades, traições e falência das instituições aparecem em vários diálogos emoldurados por closes constantes ou ângulos diferenciados, quase expressionistas. Existe um cinismo realmente cortante no roteiro que muitos percebem retratar uma Europa de pouca certeza em suas convicções e que não sabe muito bem para onde vai - talvez por isso, a diretora opte pela belíssima fotografia em preto e branco para mostrar o quanto algumas questões parecem datadas, ou  seriam clássicas? Talvez sejam apenas cinzentas mesmo. 

Sally Potter

A Festa (The Party / Reino Unido - 2017) de Sally Potter com Kristtin Scott Thomas, Patricia Clarkson, Timothy Spall, Bruno Ganz, Emily Mortimer, Cillian Murphy e Cherry Jones. ☻☻☻

quinta-feira, 8 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Fatal (FILMED+)

Ben e Penélope: romance e melancolia. 

Os livros de Phillip Roth costumam complicar a vida dos diretores que tentam levar suas histórias para a tela, ainda assim, ele é um dos escritores favoritos quando o assunto é adaptação cinematográfica. Geralmente seus fãs ficam desapontados com o resultado, mas, pode se dizer que o trabalho da cineasta espanhola Izabel Coixet sobre o livro Animal Agonizante é uma das melhores adaptações do autor para o cinema. Talvez, o que faça a diferença seja a presença de uma mulher dirigindo uma história tão centrada no olhar masculino sobre um romance. O protagonista da história é o professor universitário David Kepesh (Ben Kingsley), ele adora sair com suas alunas mais jovens, mas isto não impede que ele tenha um relacionamento somente sexual com a colega Carolyn (Patricia Clarkson). Os dois são maduros e aparentemente bem resolvidos, se encontram regularmente há anos e não existem cobranças emocionais sobre namoro, casamento ou monogamia. A rotina de David muda quando ele conhece Consuela (Penélope Cruz) e, por mais que o romance entre os dois se intensifique, ele faz questão de manter um distanciamento, afinal, não se considera homem de assumir compromissos. No entanto, nasce ali um sentimento diferente, que David não sabe muito bem como lidar e que sofrerá um duro golpe quando o destino de Consuela sofrer uma mudança dolorosa. Com este material em mãos, muitos críticos e leitores perceberam que mesmo sendo fiel ao livro de Roth, Coixet banha seu filme em uma melancolia ainda maior,  o que torna a história ainda mais interessante e revelador, especialmente em suas dores sobre o envelhecimento e a morte. Ben Kingsley está ótimo como o homem autocentrado que evita envolvimento emocional com as suas parceiras, mas é Penélope Cruz que tem o melhor momento do filme, naquela cena em que ela se despede de suas formas antes que o inevitável aconteça. É uma cena tão devastadora que ainda hoje não consigo assistir sem chorar como se fosse pela primeira. Não foi por acaso que a diretora resolveu colocar outro nome em seu filme, Elegy (Elegia, um poema lírico, terno e triste) que ilustra muito melhor o que vemos na tela (sabe se lá o motivo de no Brasil o filme se chamar Fatal). Coixet capricha em cada detalhe de seu filme, na fotografia, na condução de seus atores (com destaque ainda para o casal formado por Dennis Hooper e a rockeira Debbie Harry do Blondie). Este é o meu filme favorito da diretora nascida em Barcelona e que filma cada vez mais em língua inglesa. Não deixa de ser curioso que em um de seus filmes mais recentes (o bem mais leve Assumindo a Direção/2014) ela tenha trabalhado novamente com Patricia e Ben em papéis totalmente diferentes que vemos aqui.

Isabel Coixet

Fatal (Elegy/EUA-2008) de Isabel Coixet com Ben Kingsley, Penelope Cruz, Patricia Clarkson, Dennis Hooper, Debbie Harry e Peter Sarsgaard. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 7 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Miss Stevens

Miss Stevens e seus alunos: a dura arte de crescer. 

Ouvi falar do filme Miss Stevens por acaso no meio das matérias sobre os indicados ao Oscar deste ano que transbordaram nas últimas semanas. O matéria era sobre atuações marcantes dos indicados que provavelmente ninguém viu. O citado em questão era o Timothée Chalamet, indicado ao Oscar de Melhor Ator por Me Chame Pelo seu Nome que aqui recebe destaque como o problemático Billy, um menino que tem dom para atuação e que está, provavelmente, apaixonado pela professora que dá nome ao filme. Miss Stevens é a jovem professora de Literatura de uma escola americana que recebe a tarefa de levar três alunos para uma competição de arte dramática no fim de semana em outra cidade. Assim, ela terá que conviver mais de perto com Margot (Lili Reinhart), Sam (Anthony Quintal) e o introspectivo Billy (Chalamet). A viagem tem lá seus contratempos, mas o que interessa é como a proximidade faz com que Miss Stevens baixe a guarda e comece a se revelar mais como Rachel do que como a professora de todos os dias na escola. Ela fala palavrão quando fura o pneu do carro, comenta travessuras de sua adolescência em uma escola conservadora, bebe quando está numa festa e até flerta com um homem casado. A postura da professora deixa seus alunos um tanto confusos, especialmente quando a própria professora precisa lembrar a si mesma que por mais que esteja próxima daqueles adolescentes ela é a adulta responsável por eles naqueles três dias. O mais interessante do filme é apresentar que se os três alunos são seres em construção, a própria protagonista ainda precisa aprender a lidar com a vida adulta, especialmente após uma perda que ainda não conseguiu superar. O filme torna-se interessante justamente por ela tentar ajudar seus alunos a superarem seus desafios quando ela mesma não sabe muito bem o que deve fazer, mas segue em frente tentando acertar. A ideia rompe completamente com aquela velha imagem de professor redentor tão comum em vários filmes. Miss Stevens é tão humana quanto seus alunos e, por isso mesmo, torna-se interessante. O filme dirigido pela estreante Julia Hart é bastante simpático e fácil de assistir, ao mesmo tempo carrega o encanto de mostrar aqueles personagens tentando fugir dos papéis que lhe cabem no ambiente escolar. Assim, Margot torna-se capaz de generosidade insuspeitas, Sam é bem menos seguro do que se imagina e Billy... mostra-se o personagem mais interessante da história. Seu interesse por Miss Stevens está sempre no olhar, no sorriso e nas tentativas de fazê-la se afastar do papel de professora. É neste embate entre o distanciamento e a identificação que um sente pelo outro que o filme se torna mais interessante. Talvez se estudassem na mesma escola, Billy e Rachel fossem amigos e até vivessem um romance pelas afinidades que possuem, mas com a distância de pouco mais de uma década a situação complica, mas a diretora trabalha esta situação com bastante leveza e sobriedade. Ajuda muito também o fato de Billy saber canalizar seus problemas para o palco com uma energia invejável (a cena em que ele se apresenta com um trecho de Um Bonde Chamado Desejo é arrepiante e mostra que Chalamet tem tudo para fazer bonito em Hollywood). Julia Hart pode até não aprofundar demais os conflitos de seus personagens, mas consegue realizar um filme simpático e bastante sincero, capaz de crescer em nossas mentes após a cena final. Sua estreia transita entre comédia e drama com facilidade - e me faz querer saber qual será seu próximo projeto atrás das câmeras. 

Julia Hart

Miss Stevens (EUA-2016) de Julia Hart com Lily Rabe, Timothée Chalamet, Lili Reinhart, Anthony Quintal, Oscar Nuñez e Rob Huebel. ☻☻☻

terça-feira, 6 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: A Hora da Estrela

Marcélia e Dumont: excelente adaptação da obra de Clarice Lispector. 

É surpreendente como nos Estados Unidos as cineastas ainda precisam fazer  barulho para ter seus méritos reconhecidos. Dia desses conversava com uma amiga e percebemos que no Brasil existe uma tradição de grandes diretoras que já são reconhecidas pelo seu talento, com prêmios, bilheterias expressivas e tudo mais. Obviamente que elas devem enfrentar alguns preconceitos para bancar os seus projetos, mas em termos de méritos artísticos, são bem posicionadas perante o público e a crítica e não precisam provar mais nada para ninguém. Não consigo imaginar diretoras do porte de Laís Bodansky ou Tata Amaral clamando por indicações e prêmios por seus trabalhos. A consagração já acontece, o que não deixa de ser uma situação notável em um país com tantos problemas rondando sua produção cinematográfica. Citaria fácil umas dez diretoras brasileiras que são reconhecidas aqui e no exterior e, no meio delas, estaria Suzana Amaral. A estreia da diretora aconteceu em 1985 com A Hora da Estrela, adaptação do livro lançado sete anos antes pela icônica Clarice Lispector - o qual viria a se tornar o último livro da escritora publicado em vida. Considerado um clássico do cinema nacional, o filme está entre  as melhores adaptações de um livro para o cinema e, o mais curioso, é que consegue transpor toda a alma da história para a telona sem precisar ser rigorosamente fiel ao livro. Ele já começa com a ousadia de cortar o narrador do livro, o que não é pouco, já que quem leu o livro sabe que o narrador é praticamente um personagem da história. Suzana deixou as imagens falarem por si só, valorizando os diálogos entre os personagens e, sobretudo as atuações de um elenco inspirado. Coube à então estreante Marcélia Cartaxo dar vida à protagonista, Macabéa, que aqui não vive no Rio de Janeiro, mas em São Paulo. Macabéa trabalha como datilógrafa num escritório, divide a casa com outras mulheres e  tem como maior passatempo ouvir a Rádio Relógio - anotando até em um caderninho com as informações que considera as mais interessantes. A vida de Macabéa segue sem grandes emoções, até que ela encontra um namorado, Olímpico (José Dumont), mas ele é tão grosseiro que fica difícil torcer para que os dois se acertem. Ela também tem uma amiga, Glória (a sumida Tamara Taxman) que é seu completo oposto e a vida e só ressalta o quanto a personagem está pouco confortável no mundo em que habita. Pelo papel de Macabéa, Marcélia foi premiada no Festival de Berlim e seu trabalho é notável pela vulnerabilidade que transborda da personagem, transmitindo uma inocência quase infantil ao mesmo tempo que mo termina cada frase como se pedisse desculpa pela própria existência. Pela magistral condução dos seu elenco, que torna cada personagem cheio de camadas e de difícil julgamento, Suzana se tornou um dos maiores nomes do cinema nacional. A narrativa um tanto áspera com contraste às esperanças de sua protagonista ainda é bastante vivaz e faz jus ao estilo de Clarice Lispector descrever o que ela chamava de geografia interior de suas criações sem perder a sensibilidade diante delas (vale lembrar que estou falando da verdadeira Clarice, não aquela farsante de memes em redes sociais). Apesar da trilha sonora datada, o filme envelheceu bem e ao assistí-lo só lamentamos o fato de Suzana filmar tão pouco. Em 33 anos de carreira, a cineasta realizou apenas quatro filmes, sendo que o último (Hotel Atlântico/2009) dividiu opiniões pelo seu tom assumidamente inspirado em David Lynch. Suzana tem oitenta e cinco anos, formou-se na Escola de Comunicação e Arte da USP e fez pós-graduação em cinema na Universidade de Nova York e gosta de fazer filmes bastante diferentes um do outro. Por conta disto, é capaz de surpreender mais do que muitos jovens cineastas que estão por aí.

Suzana Amaral

A Hora da Estrela (Brasil - 1985) de Suzana Amaral com Marcélia Cartaxo, José Dumont, Tamara Taxman Sonia Guedes e Fernanda Montenegro. ☻☻☻☻

segunda-feira, 5 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: The Breadwinner

Parvana: animação a ser levada a sério. 

Parvana é uma menina de onze anos que vive em no Afeganistão sobre o regime do Talibã no ano de 2001. Seu pai é um ex-professor que ela ajuda nas vendas que auxiliam nas despesas da casa. Um dia ele é levado preso e a pequena Parvana deverá ajudar a mãe a manter a casa, cuidando de um irmão ainda bebê e contando com o auxílio da irmã mais velha. Não bastasse todos os dramas que decorrem da prisão do pai, a história ainda ressalta a opressão às mulheres daquele país e as complicações geradas a partir dela, já que Parvana mal pode sair de casa sem a presença do pai por perto. Diante destas condições, ela decide se passar por um menino, conseguindo não apenas trabalho e algum dinheiro, mas também tenta descobrir o paradeiro do pai preso injustamente. The Breadwinner é baseado no livro de Deborah Ellis e chegou às telas pelas mãos da diretora irlandesa Nora Twormey . A produção é de Angelina Jolie e, apesar do traço gracioso, o filme aborda uma história densa, mas sem perder a sensibilidade e um certo toque de fantasia - já que Parvana pontua sua trajetória com a história de um outro personagem quase mítico que tem vários desafios a vencer. Embora seja uma animação, o filme é bastante sério e deixa claro o cuidado da cineasta no trato com os personagens enquanto seres de carne e osso. Twormey privilegia sobretudo as relações de sua protagonista com a família em contraste com o cenário caótico que se intensifica com uma guerra iminente (e basta olhar o ano em que se passa a história para saber o motivo). Não deixa de ser curioso que o filme tenha sido indicado ao Oscar de melhor animação deste ano - ao lado de filmes que primam sobretudo ao entretenimento - já que um dos grandes méritos fica por conta do talento da diretora não diluir a força da história que tem em mãos afim de para torná-la mais palatável. O resultado é não apenas bonito visualmente, mas também comovente. Esta não foi a primeira vez que a animadora teve um filme indicado ao Oscar, em 2010 ela co-dirigiu The Secret of Kells que também concorreu ao prêmio de animação daquele ano. O mais interessante é que em seu projeto solo caiu como uma luva nos projetos de Jolie em contar histórias sobre a opressão vivida, especialmente por mulheres e crianças ao redor do mundo.

Norah Twomey

The Breadwinner (Canadá/Irlanda/Luxemburgo - 2017) de Norah Twomey com vozes de Saara Chaudry, Soma Chhaya, Noorin Gulamgaus, Laara Sadiq e Kawa Ada. ☻☻☻☻

domingo, 4 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Mudbound

Garrett e Mitchell: amizade contra o preconceito. 

Para abrir mais um Ciclo Diretoras deste ano no blog, escolhi comentar um filme que muita gente esperava que fosse consagrado no Oscar deste ano. Exibido e aclamado no Festival de Sundance, Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi concorre em quatro categorias no Oscar deste ano, mas poderia concorrer em muitas outras, incluindo filme e direção. O que provavelmente o deixou de fora destas categorias foi o fato de ter sido comprado pela Netflix... existe um papo muito esquisito sobre os diretores que estão aceitando as propostas do serviço de streaming para distribuir seus filmes, como se a melhor proposta fosse dos distribuidores das salas de cinema, que costumam pagar menos e ter uma distribuição um tanto capenga para filmes sérios e densos como este. Obviamente que na telona é muito melhor de apreciar um filme de qualidade, mas com centenas de salas tomadas por blockbusters fica complicado achar espaço para filmes que não irão faturar milhões em bilheteria. Mas vamos ao filme. Mudbound é dirigido por Diandrea Rees, ou melhor, Dee Rees. Americana nascida na cidade de Nashville que aos 41 anos se firma como uma das diretoras mais importantes dos Estados Unidos. Embora tenha trabalhos na televisão, curtas-metragens e um documentário no currículo, Mudbound impressiona por ser seu segundo filme (o primeiro foi o elogiado Pariah/2011). Sua direção é segura e um tanto destemida ao contar a história dolorosa de duas famílias que se cruzam no estado do Mississipi com seu racismo latente. O roteiro (que garantiu uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado para Dee e seu parceiro Virgil Williams) é baseado no livro de Hillary Jordan e mescla a narrativa de vários personagens sobre a vida em um lugar de muita lama, preconceitos e relações ásperas no período da Segunda Guerra Mundial. Assim conhecemos os irmãos Henry McCallan (Jason Clarke) e Jamie McCallan (Garrett Hedlund). O primeiro se apaixonou por Laura (Carey Mulligan) e o segundo tem fama de namorador, mas está prestes a ser piloto na Guerra. Quando Henry compra uma fazenda para viver com a família, ele imagina que sua vida mudará para melhor, mas chegando lá, percebe que caiu em um golpe. Pelos acasos do destino eles acabam se aproximando da família de Hap Jackson (Rob Morgan) e Florence (Mary J. Blige, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante e de melhor canção), para contragosto do Sr. McCallan (Johnatan Banks), que é racista até o osso. Os Jackson também tem um filho (Jason Mithcell) que foi lutar pelo país na Guerra - e o rapaz nem imagina que quando voltar tudo continuará como antes. A dura realidade do racismo nos sul dos Estados Unidos já apareceu em vários outros filmes, mas a direção de Rees lhe confere uma intensidade impressionante, ela paira sobre aqueles personagens como se fizesse parte do calor daquele lugar. A tensão cresce até ferver no último ato conduzido de forma firme, sem concessões. Embora  em alguns momentos o filme abuse da narrativa em off, o resultado é bastante coeso, amparado principalmente pelo ótimo elenco, que impressiona na sintonia ao alternar o tom entre a leveza e a densidade nos momentos exatos. Ao lidar com atores de lugares, formações e identidades tão distintas, a sintonia entre eles conduzida pela diretora é um dos pontos altos do filme. São destaques também a fotografia que alterna luz e sombras constantemente (que fez história com Rachel Morrison se tornando a primeira mulher indicada ao Oscar da categoria) e ter uma diretora nascida no sul dos EUA e que deve ter sofrido na pele o preconceito que exala daquelas relações. Embora aborde temas pesados e tenha cenas fortíssimas em seu desfecho, Mudbound acerta ao costurar sua trama com a amizade sincera entre alguns personagens, reforçando que para sentimentos nobres, a cor da pele é um detalhe completamente irrelevante. Dee Rees merece nossa atenção não apenas pelo seu talento, mas também pela intensidade do que tem a dizer.

Dee Rees

Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi (EUA-2017) de Dee Rees com Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jason Mithcell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jason Clarke e Johnatan Banks. ☻☻☻☻

sábado, 11 de março de 2017

10+: Diretoras

Para fechar o Ciclo Diretoras desta semana, o blog lembra (em ordem alfabética) de alguns filmes assinados por mulheres que já apareceram por aqui. Embora sempre recebam (injustamente) menos atenção que seus colegas homens (basta ver que em toda história do Oscar apenas quatro mulheres concorreram ao Oscar de direção, a primeira foi a italiana Lina Wertmüller na 50ª edição do prêmio!), as diretoras de cinema já mostraram diversas vezes que fazer filme bom não depende do sexo e sim de talento! Aqui estão dez cineastas, em atividade, que sempre merecem nossa atenção. 

Foi o filme que Kathryn fez logo após se tornar a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor diretora por Guerra ao Terror/2009 (derrotando o ex-marido James Cameron). Neste filme ela coloca uma mulher no centro da narrativa da captura de Osama Bin Laden. 

A filha do celebrado cineasta Francis Ford Coppola amadureceu e ganhou brilho próprio ao ser a primeira americana a concorrer o Oscar de direção. Ela não ganhou o prêmio, mas fez história (e levou o de melhor roteiro original por esta singela comédia dramática). 

Enxergar fora da caixa é o maior mérito da diretora britânica, filha de iranianos (que fugiram de Teerã nos primeiros dias da revolução islâmica). Criada na Califórnia, Lily começou a filmar aos doze anos e no seu primeiro filme conta a história de uma vampira no Irã. Resultado: Sensacional!

A diretora californiana tem três longas no currículo e chamou atenção ao mostrar uma nova organização familiar neste filme que foi indicado a vários prêmios (incluindo 4 Oscars). A marca de Lisa é a leveza para tratar temas que ainda são tabus para a sociedade. 

A criadora (e atriz) da série Girls chamou atenção em Sundance neste seu segundo longa, onde uma jovem busca a identidade numa narrativa sincera e despojada. Por seu estilo, Lena foi considerada a voz de uma geração e preza por ir ao limite para desglamourizar suas personagens. 

A neozelandeza (nascida em Wellington)  tem sua cinematografia marcada por mulheres fortes. Com esta obra-prima, ela levou o Oscar de roteiro original (e viu suas atrizes, Holly Hunter e Anna Paquin sendo premiadas), além de se tornar a segunda mulher a concorrer ao Oscar de direção. 

A escocesa tinha dois filmes pouco conhecidos quando contou a história de uma mãe que suspeita que existe algo de muito errado com seu filho. Arrepiante, o filme conta com uma atuação soberba de Tilda Swinton e lança um olhar sem frescuras sobre o sentimento de culpa na maternidade.

Romancista gráfica, cineasta, ilustradora e escritora infanto-juvenil, Marjane cresceu em Teerã  e presenciou a revolução de seu país  antes de viver na França. Sua história é contada na  HQ que virou este filme imperdível indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro. 

Muylaert sempre fez ótimos filmes, mas repararam nela somente quando resolveu abordar a relação entre as classes sociais no Brasil a partir da história de uma doméstica e sua filha. Premiado na estreia em Sundance o filme foi um grande sucesso no Brasil e no mundo. 

Com este filme, Ava se tornou a primeira diretora negra a ter uma obra concorrendo ao Oscar de Melhor Filme. Indicada ao Globo de Ouro de direção pela sua narrativa da jornada de Martin Luther King pelos direitos civis, DuVernay voltou ao Oscar neste ano com o documentário 13ª Emenda. 

CICLO DIRETORAS: Sonho de Valsa

Xuxa e Daniel: ela preferia ser viúva. 

A cineasta Ana Carolina Teixeira Soares, ou simplesmente, Ana Carolina nasceu em 1949 em São Paulo e se tornou um ícone do cinema brasileiro, pena que ela filma pouco. Ela começou a carreira de cineasta em 1968, lançando em média dois longas por década a partir dos anos 1970. Em 1987, nos tempos da Embrafilme, Seu quinto filme teve problemas com distribuição e sua obra-prima Sonho de Valsa terminou sendo exibido somente na TV, mas hoje ele pode ser visto em mostras e festivais na tela grande. Como nos seus filmes mais famosos (Mar de Rosas/1977, Das Tripas Coração/1982 e Amélia/2000) a diretora se dedica a várias inquietações femininas de toda ordem (ou desordem), mesclando drama e humor além de carregar fortes simbologias. Sonho de Valsa é um verdadeiro marco em nosso cinema por ser profundamente inventivo em sua narrativa, com fartas doses surrealistas para contar a jornada pessoas de Teresa (Xuxa Lopes, digna de Oscar) uma mulher que ao completar 30 anos ainda se vê insegura perante a maturidade (mas afinal, o que é isso?). Ela mora numa casa bastante confortável com o pai (Arduíno Colassanti) e o irmão (Ney Matogrosso), mas cheia de conflitos (basta perceber a cena inicial fofa do gatinho e o que se segue no comportamento quase infantil da personagem). Teresa é cheia de desejos, mas encontra alguns obstáculos para crescer em suas próprias inseguranças - e o texto primoroso de Ana Carolina serve para ilustrar tudo o que se passa na mente da personagem. Do relacionamento quase incestuoso com os homens da casa (afinal, eles são os únicos homens daquele mundo) para depois ampliar sua rede de relações numa festa que parece destinada à frustração - cortesia do pretendente Carlos Alberto (Ricardo Petráglia). Não por acaso, da festa Teresa pula de um abismo ao lado do seu novo amor. Ao lado de Marcos (Daniel Dantas) a vida a dois, fora do conforto da casa do pai, torna-se um mar de neuroses, povoado por todas as inseguranças e expectativas que um romance pode proporcionar, some ao tédio gerado pela rotina e tudo vai pelo cano (literalmente) e frases como "perdi o meu amor" (próprio?) e "estou sem identidade" dão conta do que se passa dentro de Teresa. Ana Carolina brinca com simbologias o tempo inteiro, o que pode tornar o filme um pouco confuso para quem imagina uma comédia romântica para passar o tempo. Pois é, além de gerar risadas, o filme é denso, bastante denso. A complexidade do filme vai para além dos personagens, fazendo com que cada personagem seja um signo: a mulher em frente ao pai, o irmão, a amiga, o namorado, o melhor amigo do namorado... este merece destaque especial pelo charme  deliciosamente canastrão de Paulo Reis, um homem que parece seguro, mas está cheio de "hesitações e dúvidas", onde até mesmo a sua sexualidade é ambígua (e a forma como Ivan multiplica as dicotomias entre o sagrado e o profano na mente de Teresa é um deleite). Nas mãos da diretora, o desempenho superlativo de Xuxa Lopes ganha contornos surpreendentes em suas angústias, paranoias e ansiedades diante do que Teresa espera da vida (ou seria do que os outros esperam que ela faça da própria vida?). A jornada de Teresa é tão intensa que ela até retorna como uma filha pródiga para a casa do pai, mas aquele conforto não sugere mais proteção, mas uma verdadeira prisão em seus medos de encarar a vida. Partindo do príncipe encantado, passando pelo fundo do poço - e pelo sapo (que ao invés de um beijo ganha uma mastigada, afinal "é importante aprender a engolir sapos) - o filme termina retratando que Adão e Eva no fundo são irmãos, portanto filhos do mesmo pai  e iguais perante os olhos dele. Deu para entender? Ainda que tenha trilha sonora datada (leia-se sintetizadores) e padeça daquela inserção de som estranha dos filmes brasileiros dos anos 1970 (o som era inserido depois das filmagens), Sonho de Valsa promove uma verdadeira montanha-russa de emoções e o melhor, graças à sua riqueza de detalhes você irá querer assistir várias vezes e perceber coisas que era incapaz de notar (dentro e fora do filme). Um clássico. 

Ana Carolina

Sonho de Valsa (Brasil/1987) de Ana Carolina com Xuxa Lopes, Daniel Dantas, Paulo Reis, Ney Matogrosso, Arduíno Colassanti, Cristina Pereira e Ricardo Petráglia. ☻☻☻☻☻