| Elordi: rapaz esforçado na pele da criatura. |
Alguns diretores parecem ter nascido para alguns projetos. Senti isso no ano passado com Nosferatu de Robert Eggers e agora em 2025 a coisa se repete com Guillermo Del Toro com a nova versão de Frankenstein feita para a Netflix. Vi uma entrevista recente em que o diretor relatou que ao ver o filme clássico de 1931 dirigido por James Whale (cineasta retratado magnificamente em Deuses e Monstros/1998) e estrelado por Boris Karloff e, ainda jovenzinho, decidiu que dirigiria aquela história. O tempo passou, os sucessos vieram, os prêmios também e Del Toro finalmente conseguiu realizar seu sonho. Embora o personagem tenha aparecido em releituras recentes (Frankenstein Entre Anjos e Demônios/2014 e Victor Frankenstein/2015) parece que a última versão do clássico de Mary Shelley que foi levado a sério foi aquele de 1994 estrelado por Robert De Niro e dirigido por Kenneth Branagh. Branagh que estava em alta por suas versões shakesperianas caprichou no visual do filme e da criatura (indicado ao Oscar de maquiagem), mas o filme estava longe de ser inesquecível. Já o que vemos nas mãos de Del Toro é uma concepção mais preocupada com a psiquê do criador e da criatura, com destaque para diversos momentos em que nos perguntamos quem é o monstro da história. Victor Frankenstein (Oscar Isaac) é apresentado como um cientista egocêntrico, tão genial quanto traumatizado pela morte da mãe. Sua revolta é o que lhe motiva a driblar a morte e gerar seu experimento mais ambicioso: devolver a vida a um corpo morto. A tarefa não é fácil e digna de descrédito entre a comunidade científica do século XIX. No entanto, a partir da criação de um experimento composto de partes "reaproveitáveis" de diversos corpos, Victor terá sucesso em seu experimento ao trazer à vida sua criatura (vivida com empenho por Jacob Elordi), mas visivelmente não sabe o que fazer com ela para além de usa-la para alimentar seu ego. Conforme a criatura demonstra ter suas próprias vontades e anseios, Victor a considera fora de controle e é capaz de tomar decisões drásticas por conta disso. Embora o filme invista bastante tempo na dinâmica entre os dois personagens, ainda consegue espaço para destacar outros personagens, como o irmão de Victor, William (Felix Kammerer) e sua noiva, Elizabeth (Mia Goth), além do tio Harlander (Christoph Waltz) capaz de bancar as sandices de Victor. Em duas horas e meia, Del Toro capricha na ambientação de cada cena e deixa claro seu carinho por uma das criaturas mais famosas do cinema e da literatura. Elordi faz um belo trabalho em cena e compensa a maquiagem estranha que o faz parecer como um dos engenheiros de Prometheus (2012), sorte que conforme o filme avança a imagem da criatura parece ganhar uma identidade estética diferente, ainda que pareça mais sombria, ela funciona muito bem no contraste de alguém consciente dos seus desejos perante um mundo que não o compreende. Considerei que em alguns momentos o filme peca pelo exagero (a tentação de transformar a criatura em um super-herói, os figurinos de Elizabeth...), mas não chega a comprometer o resultado final. Não é por acaso que o desfecho é o mais esperançoso (e bonito) que o personagem já recebeu no cinema. Não sei se as premiações irão se encantar com o resultado, mas considero que Del Toro ficou bastante feliz com o resultado (assim como seus fãs).
Frankenstein (EUA - México / 2025) de Guillermo Del Toro com Oscar Isaac, Jacob Elordi, Mia Goth, Christoph Waltz, Felix Kammerer, Lars Mikkelsen, David Bradley, Nikolaj Lie Kass e Ralph Ineson. ☻☻☻☻
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