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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

MELHORES DO ANO - 2018

Para fechar o ano destaco os meus favoritos de 2018. Vale ressaltar que levo em consideração todos os filmes que foram lançados por aqui desde janeiro.Sei que muita gente vai discordar da minha opinião nas categorias, mas o mais interessante destas listas é fazer um resumo do ano, lembrar dos trabalhos que considero mais interessantes e, se você não assistiu, vale a pena procurar os filmes desconhecidos. Não importa se são filmes de super-heróis, sucessos, fracassos, se não passaram no cinema ou se são originais Netflix. Esta é a retrospectiva de meu 2018 com os responsáveis por torna-lo muito mais interessante:

ELENC✪
Parece até provocação que num ano em que o Brasil mais falava sobre ser de direita ou esquerda, Armando Ianucci lançasse um filme tão ácido e debochado. Em A Morte de Stalin o melhor é que não se trata de algo tendencioso, já que faz tempo que o humor de Ianucci é ambidestro e já alfinetou para todos os lados possíveis. Com a ajuda de um elenco em sintonia perfeita, um roteiro esperto e cheio de golpes certeiros, o filme foi um dos mais comentados do ano. Sendo assim os outros destaques do ano (o heróico Pantera Negra, o melancólico Custódia, o episódico A Balada de Buster Scruggs, o tom espirituoso de Mais Uma Chance e a provocação de The Square) foram derrubados... 

REVELAÇÃO DO AN✪
Dá para acreditar que Harry Melling era o primo gordinho chato de Harry Potter? Pois o rapaz cresceu e apareceu, surpreendendo por sua expressividade em um dos episódios mais complicados de A Balada de Buster Scruggs. Interpretando um artista sem membros e com falas que se repetem até o final, muito do que se passa no personagem é transmitidos pelo rosto do ator num trabalho sensacional! Espero que em breve possamos vê-lo em mais projetos, assim como a adolescente Elsie Fisher (Oitava Série), a mexicana Yalitzia Aparicio (Roma), a pequena Millicente Simmonds (que ficou famosa com o hit Um Lugar Silencioso, mas que apareceu pela primeira vez com Sem Fôlego lançado no início do ano), a ladra de cenas Zazie Beetz (excelente como a Domino de Deadpool2) e Vicly Krieps (que não se intimidou diante do gigantesco Daniel Day Lewis em Trama Fantasma). 

ATRIZ C✪ADJUVANTE
Quatro das atrizes que aparecem nesta categoria disputaram a mesma no Oscar. Foi um ano excelente para estas atrizes que chamaram atenção de muita gente pela primeira vez. Laurie Metcalf (Lady Bird), Lesley Manville (Trama Fantasma) e Mary J. Blige (Mudbound) fizeram bonito, mas foi Allison Janney que quebrou todos os limites como a mãe da patinadora Tonya Harding, numa atuação que era misto de mãe zelosa, vilã e caricatura em Eu, Tonya! Simplesmente sensacional! Completaram o páreo a ótima Eddie Falco numa das atuações mais tocantes de sua carreira no drama Ouside In e Blake Lively brincando com o clima noir de Um Pequeno Favor. 

ATOR C✪ADJUVANTE
Conheci Simon Russell Beale nos episódios de Penny Dreadful e custei para reconhecê-lo em A Morte de Stalin. Na pele do ardiloso Lavrentiy Beriya ele causa medo e risadas, especialmente quando um emaranhado de conspirações toma conta da história - e ele não perde o ritmo em momento algum com os diálogos ágeis e jogos de interesses intermináveis. Impossível esquecê-lo! Assim como o trabalho de Christopher Plummer (famoso por substituir Kevin Spacey em cima da hora em Todo Dinheiro do Mundo), da dupla Woody Harrelson e Sam Rockwell (como policiais opostos em Três Anúncios para um Crime), o vilão de Michael B. Jordan (Pantera Negra) e Armie Hammer provando que não basta ser galã, tem que arrasar todos os corações de Me Chame Pelo seu Nome. 

CINEASTA REVELAÇÃ✪
Greta Gerwig entrou para a história como uma das poucas diretoras que já concorreram ao Oscar de direção - sendo a primeira a ser praticamente uma estreante (antes ela dividiu a direção de Nights and Weekends/2008 com Joe Swanberg). Greta fez de Lady Bird o filme queridinho da temporada. Ainda que muita gente considere que o filme não era para tanto, sua firmeza na direção e a capacidade de fazer drama e humor nos detalhes, a colocam como uma das diretoras mais interessantes de Hollywood (tanto que seu novo projeto é uma versão do clássico Little Women). Outros nomes interessantes para se ficar de olho são Jennifer Fox (que demonstra grande coragem na condução de O Conto), Cory Finley (com firmeza impressionante em Thoroughbreds), Ari Laster (que causou alguns dos momentos mais estranhos do ano com Hereditário), Matt Spicer (que surpreendeu com o humor crítico de Ingrid Vai para o Oeste) e Bo Burnham que elevou o drama adolescente para outro patamar com Oitava Série). 

MELHOR AT✪R 
Realmente não consigo escolher outro ator para representar  a melhor atuação masculina do ano que não seja Rami Malek na pele de Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. É verdade que o filme tem problemas, mas o trabalho quase mediúnico do ator nos faz esquecer os tropeços pelo meio do caminho. Em várias cenas eu até esquecia que estava diante de uma interpretação e imaginava estar diante do cantor novamente. Os outros favoritos do ano foram Jay Duplass com cara de quem precisa de um bom abraço em Outside In, Bradley Cooper no melhor trabalho de sua carreira em Nasce Uma Estrela (e o rapaz ainda estreou na direção com o pé direito), além de Denzel Washington no seu melhor trabalho em muito tempo com Roman J. Israel. Thimotée Chalamet também fez bonito ao se revelar para o grande público com Me Chame pelo seu Nome (eu lembro deste mocinho já interessante na série Homeland) e para fechar o sexteto, Daniel Day Lewis em mais uma de suas últimas atuações em Trama Fantasma (mas pedindo com jeitinho ele volta). 

MELH✪R ATRIZ
Margot Robbie não apenas entregou a atuação feminina mais interessante do ano, como também provou ter coragem de se arriscar como produtora de um material bastante controverso. Não é qualquer uma que teria o destemor de levar para as telas a versão da patinadora Tonya Harding sobre um dos maiores escândalos do mundo dos esportes. Em Eu, Tonya, Margot está arrasadora! Seu trabalho tem tantas camadas que temos a impressão que ela aguentaria mais cinco horas na pele da personagem! Pelo trabalho até concorreu ao Oscar (ao lado de Sally Hawkins no oscarizado A Forma da Água), mas não levou. Quem também fez bonito foi Kathryn Hahn ótima como uma mulher lutando contra o seu relógio biológico (Mais Uma Chance), Karine Teles penando nas contradições de uma mãe zelosa (em Benzinho, meu filme brasileiro favorito do ano), Toni Collette descobrindo que sua família padece de uma terrível maldição (Hereditário) e Emily Blunt excelente na cena de parto mais arrepiante do cinema (Um Lugar Silencioso). 

MELHOR ROTEIR✪
Esta é a categoria mais complicada de todas, sempre fico perdido sobre as qualidades que estou avaliando num roteiro - e tento não deixar me influenciar pelo resto do filme. Assim, The Square: A Arte da Discórdia foi o que mais me chamou atenção por suas provocações de um mundo onde até a arte e seus apreciadores precisam redefinir alguns conceitos (ou não?). Eu também curti muito o texto de As Aventuras de Brigsby Bear, o considerando um dos mais originais dos últimos anos. Mais uma Chance e Gente de Bem tem pontos em comum, mas seguem por caminhos diferentes em sua abordagem de pessoas comuns em dramas cotidianos. Sem Amor me deixa devastado só de ver o trailer (mas eu vi o filme e fiquei arrepiado com o que se passa na tela) e Ingrid Vai para o Oeste é uma dessas pérolas que retrata uma geração de forma bastante afiada. 

DIREÇÃ✪
O sueco Ruben Östlund é um destes casos que você descobre os filmes recentes dele e quer conhecer tudo o que ele já fez (e vale a pena). The Square é seu quinto longa-metragem e já deixou claro que embora faça parte do time de cineastas europeus provocadores, ele é menos sisudo que os seus colegas - e sabe fazer refletir sem apelar para polêmicas gratuitas. Outros trabalhos de destaque em 2018 foram os de Luca Guadagnino que fez de Me Chame Pelo seu Nome um dos filmes mais belos de se assistir em 2018. Dee Rees que cria uma narrativa magnificamente humanista em Mudbound, John Krasinski que desafiou o impossível num filme de terror comercial com Um Lugar Silencioso, Alfonso Cuarón que filmou suas memórias no pessoal Roma e Tamara Jenkins com a tragicômica saga de um casal em busca de aumentar a família em Mais Uma Chance. 

FILME DO AN✪
Só para ter ideia, The Square: A Arte da Discórdia estreou por aqui em janeiro e continuou na minha cabeça o ano inteiro - e sintetiza muita coisa que aconteceu no ano em que sobrevivemos. Uma verdadeira colagem de episódios que nos fazem questionar como a arte é capaz de nos conectar com o mundo (ou seria o contrário?). Um dos filmes mais inteligentes e provocadores que já assisti e, o mais importante, sem perder o bom humor! Neste ano dois documentários também chamaram muito a minha atenção, Visages Villages (que me deixou até triste quando terminou sua jornada) e Três Estranhos Idênticos,  dois documentários que não poderiam ser mais diferentes e envolventes. Minha animação favorita do ano, Ilha dos Cachorros de Wes Anderson já tem minha torcida para a temporada de prêmios que se aproxima. Mudbound fez menos sucesso do que deveria e merece ser redescoberto por qualquer pessoa que curta bom cinema - o filme possui algumas das cenas mais bonitas que vi no ano (e algumas bastante assustadoras também). Me Chame Pelo Seu Nome parece que já nasceu clássico e seu sucesso foi tão grande em todo mundo que deve render algumas sequências sobre o romance entre Théo e Oliver. Como já disse antes, Benzinho foi meu filme brasileiro favorito do ano! Uma pequena obra-prima sobre o complicado laço entre uma mãe e o filho que quer ganhar o mundo - ele é o total oposto de Sem Amor, um dos filmes mais dolorosamente cinzentos que já assisti. Lançado no finalzinho do ano, Roma se tornou o mais elogiado de 2018 e ganhou pontos pela beleza que emana ao contar uma história aparentemente banal. Para fechar, Eu, Tonya, um exercício narrativo exuberante sobre uma das personagens mais controversas do esporte americano. A capa do blog no mês de dezembro foi um apanhado dos meus favoritos do ano!


Estes foram os filmes que fizeram meu ano que termina, quais foram os seus? 
Que venha 2019!

sábado, 29 de dezembro de 2018

MELHORES DA TV - 2018

2018 foi um ano estranho. Não houve as novas temporadas de Stranger Things, Veep, Mindhunter e Mr. Robot por motivos variados. A segunda temporada de Westworld rendeu mais roncos do que interesse e duas de minhas favoritas chegaram ao fim. Uma delas já era sabido, a outra pegou de surpresa todo mundo que ficou babando pela sua brilhante terceira temporada. Antes que eu diga mais do que eu devo, seguem os meus favoritos do ano:

SÉRIE DE COMÉDIA
Eu não imaginava que a minissérie Maniac seria meu programa cômico favorito da temporada, se ele não houvesse aparecido, provavelmente eu teria escolhido Silicon Valley (que ficou uma beleza sem o chato do T.J. Miller no caminho). Em Maniac, Cary Fukunaga acerta em cheio com um programa que flerta com a insanidade, com a identidade e muito delírio. Adoraria ver mais uma temporada, mas vamos ver o que acontece. Orange is The New Black acabou entregando sua temporada mais sombria, mas deixando sua carga cômica afiada. A segunda temporada de Glow também recebeu elogios, embora eu tenha curtido mais a primeira (e esteja muito ansioso pela terceira que vem por aí). Sem Veep no caminho, a HBO entregou a novata Barry que caiu no meu gosto nesta temporada. 

ATOR DE COMÉDIA
Primeiro deixa eu explicar que não sou grande fã de Jonah Hill (mesmo que o ex-gordinho tenha duas indicações ao Oscar no currículo). O fato é que diante das várias identidades assumidas nos devaneios de Maniac o rapaz se superou, por vezes era comovente, em outras era hilariante e entre uma e outra um sujeito comum. Seus colegas também estão muito bem em papéis bem diferentes entre si, mas foi Jonah que desafiou a própria versatilidade com vários papéis em uma única série. 

ATRIZ DE COMÉDIA
O mesmo serve para o trabalho de Emma Stone em Maniac. A atriz que tem um Oscar fresquinho na estante entregou o seu melhor trabalho demonstrando que sua veia cômica é realmente a mais latente. Parceira de Jonah Hill nas desventuras do labirinto mental proposto pela série, a atriz rendeu boas risadas em 2018. O mais engraçado é que a Netflix dominou a categoria com todas as concorrentes estando presentes em seu catálogo. 

ATOR COADJUVANTE 
A maior crueldade do ano foi a terceira temporada de Demolidor. A série apresentou episódios matadores e deixou o público com grande expectativa para a quarta temporada após a apresentação do vilão Mercenário vivido por Wilson Bethel no trabalho mais interessante da temporada. No entanto, nem o Rei do Crime de Vincent D'Onofrio teria a ideia de cancelar a série no auge do sucesso (gerando protestos infinitos de público e crítica). A maldade do serviço de streaming consegue ser ainda maior que a do misterioso Berlim (Pedro Alonso) de A Casa de Papel. Completando a disputa, Zach Woods aparece roubando a cena em Silicon Valley e o britânico Oliver Jackson-Cohen fez muita gente chorar no terror familiar de A Maldição da Residência Hill. 

ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Clarkson é uma das minhas atrizes favoritas e se tornou um dos principais motivos para eu assistir o bocejante Sharp Objects até o fim. No papel de uma matriarca de voz tão macia quanto cortante, a atriz foi um arraso! Neste ano, outros trabalhos interessantes foram os de Sally Fields como a mãe psicanalista e Sonoya Mizuno como a auxiliar quase caricatural, ambas de Maniac. Kate Siegel também fez bonito como a irmã capaz de tocar as emoções dos outros em A Maldição da Residência Hill, assim como Alice Eve que deve voltar nas séries sobreviventes da Marvel como a vilã com dupla personalidade Mary Tifoyd da temporada final de Punho de Ferro.  

ATOR DE DRAMA
 Neste ano nos despedimos do espião russo mais querido das séries de TV, o Phillip (Matthew Rhys ) de The Americans. O ator viveu vários conflitos ao longo da série, sempre com uma dedicação absoluta, mas nada se compara às lágrimas do último episódio da temporada. A cena de sua ligação para o filho no último episódio da série é de rasgar o coração. Pelo trabalho o ator levou até o Emmy para casa e pode levar o Globo de Ouro também. Quem também concorre ao próximo Globo de Ouro é Daniel Brühl e Freddie Highmore em papéis que estreiam entre os meus favoritos. James Franco continua o esmero no papel duplo de The Deuce e Charlie Cox se despediu de Demolidor em grande estilo, retornando ao páreo após concorrer na primeira temporada da série. 

ATRIZ DE DRAMA
A sintonia entre Matthew e Keri Russell é tão grande que os dois casaram na vida real durante as filmagens de The Americans. Não faria sentido premiar um e não premiar o outro neste ano. Keri deixou a doce Felicity (cultuada série dos anos 1990) de lado e entregou uma atuação impecável como uma espiã dura na queda, mas que aos poucos começa a perceber que todos os riscos que correu foi por uma causa que viraria pó nos jogos políticos da Guerra Fria. Quase que Elisabeth Moss foi a eleita neste ano por seu trabalho primoroso no arrepiante The Handmaid's Tale. Claire Foy também continua fazendo bonito em The Crown, a australiana Toni Collette também teve um grande ano por seu trabalho no cinema e na série inglesa Wanderlust - onde se aventura pelo casamento aberto. Quem também chamou atenção na telinha foi Amy Adams, sendo um dos motivos para aguentar a trama inerte de Sharp Objects ao longo dos capítulos. 

SÉRIE DE DRAMA
A sexta temporada foi a despedida de The Americans, uma série que nunca fez sucesso proporcional às suas qualidades. A cada temporada os desafios do casal de espiões russos disfarçados em solo americano se tornavam maiores nos anos 1980 - e o programa se tornava cada vez melhor. Esta temporada foi um arremate brilhante para os anos em que acompanhamos Phillip e Elizabeth, tendo um dos últimos episódios mais sensacionais que já assisti na TV. Perto dele, todos os excelentes concorrentes ficaram em segundo plano. Sentirei saudade da série que nos deixa num período bastante complicado na política mundial. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

10+ Favoritos do Ano

Passo o ano inteiro fazendo minha lista de favoritos, ao longo de doze meses ela costuma ficar bem maior do que esta que contem somente dez títulos lançados no Brasil desde janeiro. O ano de 2018 nos deu filmes de muito sucesso, alguns ainda no clima das premiações do ano anterior, outros foram lançados mundialmente e tiveram a sorte de chegarem por aqui a tempo de aparecerem entre os meus favoritos do ano que chega ao fim. A lista está em ordem alfabética:











PL►Y: Roma

Yalitza e Marco: passeando pelas memórias do diretor. 

Alfonso Cuarón levou para casa o Oscar de melhor direção (e também o de Melhor Edição) por Gravidade (2013), um filme de ficção científica que contou com a ajuda de Sandra Bullock para se concretizar (e a atriz foi indicada a todos os prêmios de atuação feminina daquele ano). Depois daquela produção ambiciosa, repleta de efeitos especiais e de qualidades irrepreensíveis todo mundo parecia se perguntar qual seria o próximo passo do diretor mexicano. Cuarón foi esperto, deixou a poeira baixar e cinco anos depois lançou Roma, filme que é visualmente bastante diferente do seu longa anterior - me arrisco até a dizer que  é o mais diferente entre todos os outros que ele já fez, sendo o mais introspectivo e singelo, quase uma provocação para os que consideraram Gravidade era um filme de mais forma do que conteúdo. Roma também pode ser visto desta forma, afinal, é um filme com uma trama bastante simples, com pessoas comuns, situações corriqueiras, mas feita com um capricho visual que enche os olhos (o transformando numa verdadeira obra de arte). Ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza e presente em dez entre dez listas de melhores filmes do ano, Roma se tornou a grande unanimidade do ano. Em entrevistas o próprio Cuarón revela se surpreender com este sucesso, afinal, o ritmo lento e sua história marcada por elementos biográficos, fez com que o filme fosse contra tudo a que o grande público está acostumado. Por outro lado, a Netflix confiou tanto no autor que mudou até as regras de lançamento, quebrando o protocolo e lançando um "original Netflix" primeiramente nas telas com uma grande margem de tempo antes de entrar para o seu catálogo (o Brasil ficou de fora por motivos óbvios), esta medida aparentemente simples já colocou o filme na categoria de filme estrangeiro no Globo de Ouro e garante seu espaço em várias categorias para o Oscar. Ao contrário do que muita gente pensa, o título não se refere à capital italiana, mas ao bairro de classe média da Cidade do México em que Cuarón cresceu, mas o título imponente também surpreende ao girar em torno de pessoas comuns, tendo como protagonista a empregada inspirada na mulher que cuidou de Cuaón desde que ele era um garotinho. Cleo (um trabalho encantador da estreante Yalitza Aparicio) trabalha na casa de Senhora Sofia (Marina de Tavira) e além de cuidar da casa, precisa dar conta de ficar de olho nos quatro filhos da família, sendo mais chegada ao pequeno Pepe (Marco Graff, que tem algumas tiradas muito interessantes sobre "o tempo em que era adulto"). O filme retrata o cotidiano dos personagens sem grandes truques ou surpresa e a câmera deixa claro (em seus movimentos e longos planos) que o espectador invade aquele universo tendo a câmera como guia de seu olhar. A estética deixa visível que se trata do filme mais pessoal do diretor (Cuarón ainda escreveu, editou, segurou a câmera...) de forma que fica fácil perceber que o resultado é um conjunto de suas memórias (e considero um charme extra as alusões que podemos notar a outros filmes do diretor, incluindo Filhos da Esperança/2006 e o próprio Gravidade além das referência ao trabalho de Fellini). O roteiro é um primor de realismo e sabe brincar muito bem com as ironias dos acontecimentos (o constante coco de cachorro na varanda, o avião sempre cruzando o céu, o carro grande demais para a garagem, o pai sempre ausente e o namorado de Cleo que tem umas das cenas de nu frontal mais inusitadas da história do cinema). Misturando drama com um humor sutil, Roma universaliza as emoções de seu diretor e, embora seja bastante diferente da grande maioria dos filmes que estreiam toda semana, é uma produção profundamente emocional. 

Roma (México/EUA-2018) de Alfonso Cuarón com Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Marco Graff, Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero, Verónica García, Nancy García García e Diego Cortina Autrey.  ☻☻☻☻

domingo, 23 de dezembro de 2018

10+ Melhores Pôsteres de 2018

A primeira lista de final de ano, tradicionalmente fica por conta do cartão de apresentação de um filme: 

Damien Chazelle me fez querer conhecer o espaço com Ryan Gosling ao ver este pôster pela primeira vez.

#09 Uma Dobra no Tempo
Fracasso nas bilheterias, a fantasia de Ava Duvernay já anunciava que teria um visual caprichado neste cartaz. 

#08 Suspiria
Como resistir ao remake de um clássico cult do terror dirigido por Luca Guadagnino  e com um cartaz estiloso destes? Impossível.

A relação com meu filme de animação favorito do ano nasceu com este cartaz. Uma declaração de amor ao ótimo elenco canino.

#06 Roma
Alfonso Cuarón fez o filme mais singelo e elogiado do ano - e rompeu barreiras para um filme produzido pela Netflix. Lindo que só. 

#05 A Casa que Jack Construiu
Lars Von Trier não é um cineasta, mas um provocador - e este pôster lembra que um filme hediondo também pode ser de arte. 

Todos eram miniaturas diante do que pairava sobre os personagens. Ari Aster misturou drama e horror (invadindo pesadelos em 2018). 

O filme de super-herói mais falado do ano conseguiu até indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama. Wakanda Forever!

#02 Os Incríveis 2
Só 14 anos se passaram até que a família mais super-heróica do cinema voltasse para as telonas, mas o pôster deixava claro que algo era diferente.

#01 A Favorita 
As intrigas palacianas ganham uma ilustração perfeita no novo filme do grego Yorgos Lanthimos. A expectativa só cresce!

sábado, 24 de novembro de 2018

FILMED+: Três Estranhos Idênticos

Robert, David e Eddy: estranhos mistérios. 

Em 1980 um rapaz de dezenove anos foi para uma faculdade nos Estados Unidos e ficou surpreso com a receptividade dos colegas que nunca o viram antes. Bastou uma pessoa chamá-lo por um nome que não era dele para ter certeza de que estava sendo confundido com outra pessoa. No entanto, não se tratava de um incidente qualquer. Levado por um colega, que ficou impressionado com a semelhança entre os dois, a um telefone, o mesmo ficou impressionado que do outro da linha houvesse uma voz igual a dele. As semelhanças não pararam por aí, os dois haviam nascido na mesma data e na mesma cidade, não restava dúvida: os dois eram gêmeos. O assunto ganhou atenção da mídia e a surpresa só aumentou quando um terceiro irmão surgiu na história. A alegria foi imediata, assim como a conexão entre os três, que começaram a se complementarem como irmãos de toda uma vida. A semelhança entre eles extrapolava a aparência, os gostos eram parecidos e até a estrutura familiar era semelhante - embora a situação financeira delas fosse diferente. O trio virou celebridade, aparecendo até no cinema (sim, fizeram uma pontinha em Procura-se Susan Desesperadamente/1985), abriram um restaurante de sucesso e tudo poderia ser uma grande alegria se o fato de trigêmeos separados no nascimento já não fosse o ponto de partida de uma história bem mais sombria. Diante de um material destes, o documentarista Tim Wardle constrói uma narrativa que é um primor! Juntando cenas de arquivo, entrevistas e reconstituições com atores, o filme mergulha numa estranha história que concilia suspense e drama de uma história real. É na segunda parte do filme (justamente depois da criação do tal restaurante) que o filme se torna mais sombrio ao abordar o que havia por trás daquela história - que era muito mais do que um centro de adoção desalmado que separou três irmãos. O que se revela é uma história que beira o inacreditável, que oferece marghem para especulações infinitas sobre aquela situação surreal. O filme oferece uma reflexão bastante interessante sobre o comportamento humano (será que existe mesmo um equilíbrio entre a base biológica e a influência do meio na construção da personalidade? Até que ponto temos livre arbítrio sobre os rumos de nossas vidas? Qual a importância da educação realizada pelos pais? Até que ponto o convívio com os irmãos influencia nosso comportamento? E por aí vai...). Em alguns pontos esta história real lembra o fictício Predestinados/2018 (e acho que esta afirmação já diz mais do que o necessário), mas revela-se cada vez mais assustadora por deixar pontos ainda obscuros sobre a história dos irmãos separados quando tinham apenas seis meses de idade. Ainda que o mistério persista (e ainda persistirá por muito tempo, conforme o filme aponta) existe uma série de ponderações que podem ser bastante fiéis aos objetivos por trás do que assistimos. Três Estranhos Idênticos é um dos filmes mais impressionantes que assisti neste ano e permanecerá comigo por um bom tempo (e não duvido que em breve irá gerar um filme "baseado em fatos reais"). 

Três Estranhos Idênticos (Three Identical Strangers / Reino Unido - 2018) de Tim Wardle, com Eddy Galland, David Kellman, Robert Shafran, Andrew Lovesey e David Straus. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

PL►Y: Benzinho

Karine e Sarris: a quase ausência. 

Lançado em agosto nos cinemas brasileiros, Benzinho foi logo aclamado como um dos filmes mais ternos do cinema nacional. Fica fácil perceber o motivo quando se assiste ao novo filme de Gustavo Pizzi, já que ele envereda por um caminho diferente da maioria dos filmes brasileiros recentes. Ele não constrói uma trama marcada por criminalidade, não investe em cenas polêmicas ou num humor bobo que apela para a vulgaridade. Na verdade, ele vai num caminho contrário a tudo isso e causa até um estranhamento por investir em movimentos mais abstratos de serem retratados. O filme poderia ser somente sobre o amor de uma mãe pelo filho, mas ele se amplia de tal forma que fica até difícil apontar se ele é sobre isto ou aquilo. No centro da história está Irene (Karine Telles), esposa, mãe e mulher que batalha ao lado do marido para criar quatro filhos. Não é acaso que na primeira cena, por conta de um problema na porta, a mãe fica presa dentro de casa com os filhos - e desde então, todos precisam sair por uma janela ao longo do filme. A situação financeira da família não está fácil! A obra na casa nova vive parada e o pequeno negócio do marido (Otávio Muller numa composição bem mais contida do que estamos acostumados) não vai bem, mas Irene faz o que pode para colocar dinheiro dentro de casa: vende roupas de cama, prepara quentinhas, produz sacolés... na certeza que que pode conseguir algo melhor, ela também está prestes a se formar no Ensino Médio. Nesta estrutura familiar cabe até a irmã Sonia (Adriana Esteves) que diante dos problemas com o esposo agressivo leva até o filho para viver na casa de Irene. No entanto, diante de tantas situações, o que tira mesmo Irene do eixo é quando seu filho mais velho, Fernando (Konstantinos Sarris, não é impressão sua, o garoto nasceu na Grécia mesmo) recebe uma proposta para ir jogar handebol na Alemanha. Dali em diante, existe uma luta de sentimentos ambíguos em Irene. Ela tem consciência de que é uma grande oportunidade para o filho, mas embora considere que ele possa ajudar nas despesas da casa, ela silenciosamente, preferia que ele ficasse ao lado dela. O filme poderia até enveredar pela ideia de que ele é o filho que mais participa do cuidado com os irmãos e com a casa, mas o roteiro prefere deixar isso de forma quase invisível, preferindo explorar  a dificuldade daquela mãe cortar o cordão umbilical com seu primogênito. É uma história que se desenvolve nas entrelinhas e mistura sentimentos diversos que são muito bem trabalhados por sua protagonista Karine Telles. Telles (que também assina o roteiro e ficou famosa como a patroa de Que Horas Ela Volta?/2015) está brilhante em cena, em seus silêncios os olhos e expressões revelam todas as emoções complicadas que vivencia. O medo do desconhecido, a necessidade de proteger o filho, a saudade que sentirá com a distância, ao mesmo tempo existe uma pitada de egoísmo e  insatisfação para o que o futuro revela. Tudo se mistura na personagem, que  nunca diz o que está realmente sentindo (mesmo quando ela parece dar uma surtada ao se dar conta de que o filho irá embora de verdade ela foge por uma tangente). A história de Benzinho se revela nas sutilezas do relacionamento daqueles personagens, um recorte que é tão espontâneo que se assemelha ao olhar sobre pessoas que moram na casa ao lado. É um filme bastante diferente, com humor sutil e sensibilidade para se tornar universal em seu retrato de como o amor pode ser cheio de ambiguidades. Não é uma tarefa fácil conduzir um filme assim - e ele bem que merecia ser o candidato brasileiro à uma vaga no Oscar de Filme Estrangeiro do ano que vem. Benzinho é tão simples e terno que chega a ser surpreendente.

Benzinho (Brasil/2018) de Gustavoi Pizzi com Karine Telles, Otávio Müller, Konstantinos Sarris, Adriana Esteves, César Troncoso e Mateus Solano. ☻☻☻☻

sexta-feira, 27 de julho de 2018

FILMED+: Ilha dos Cachorros

Os cachorros e o menino Atari: o mundo cão da pós-verdade. 

Desde o início de sua carreira no cinema, Wes Anderson nunca conseguiu disfarçar que o estilo de seus filmes carrega fortes referências do cinema de animação. A forma como o visual é concebido, as atuações, figurinos e interpretações em Os Excêntricos Tenenbaums (2001) ou O Grande Hotel Budapeste (2014) tem muita semelhança com o tratamento dado aos bonecos que apareciam na animação O Fantástico Senhor Raposo (2009). Desde que começou a se aventurar pelo gênero, Wes deixou claro que pensa cinema live action e com bonecos da mesma forma. Portanto, a expectativa quando ele começou a trabalhar em Ilha de Cachorros só cresceu até seu recente lançamento. Já em cartaz no Brasil, o filme está em um circuito restrito, especialmente por não ser um filme voltado para a criançada (as piadas ácidas renderam classificação de 13 anos nos EUA), obviamente que as mais crescidas poderão curtir o filme, mas são os adultos que irão se divertir captando as referências que aparecem na tela. Inspirado na cinematografia japonesa, o filme é um verdadeiro deleite para olhos e ouvidos, conciliando o humor peculiar do diretor com um teor político que não lembro de ter percebido em outros filmes de Wes - um dos poucos que conseguiu criar um universo próprio, com fortes cores de fantasias dentro do cinema americano. Vale ressaltar que a história não ocorre no Japão, mas em Megasaki, uma cidade oriental fictícia que existirá no futuro. Um lugar que, como bem explica o epílogo, tem uma longa tradição na relação entre homens e cachorros, no entanto, com o aparecimento de uma gripe canina, os cães foram banidos para uma ilha que antes servia somente para depósito de lixo. Deixados à própria sorte pela política do prefeito Kobaiashy (voz de Konichi Nomura), que ama gatos e odeia cachorros, a ilha é habitada por cães das mais variadas histórias e grupos que lutam por comida e espalham boatos que ninguém sabe direito a origem. É nesta ilha que vive Chief (voz de Bryan Cranston) e seu bando, que tentam lidar de forma democrática com os desafios que aparecem na ilha (hilariante como tudo é resolvido com votações). O cotidiano destes cães muda quando chega à ilha um menino em busca de seu cachorro perdido, Spots. Os cães irão ajuda-lo a encontrar o bicho de estimação enquanto Kobaiashy inventa novas artimanhas para dizimar os bichos da ilha. A trama é simples, mas impressiona pela forma como o diretor a desenvolve com grande apuro visual, sem deixar de criar algumas analogias interessantes sobre a forma como se produz verdades que se propagam pela mídia (mesmo os fatos mais escabrosos aparecem seguidos de elogios no telejornal que aparece na trama). Obviamente que se trata de uma fantasia (estamos falando de um filme com cachorros falantes, oras!), mas que não dispensa um pé na realidade. Este detalhe consegue dar ainda mais substância a um filme que é tecnicamente impecável. A direção de arte é primorosa, a trilha sonora com tambores é bem marcante e o trabalho com os bonecos é sensacional! Enquanto personagens eles tem personalidades marcantes e vozes ainda mais (o elenco vocal do filme impressiona, contando ainda com Edward Norton, Bill Murray, Tilda Swinton e muitos outros membros da já famosa patota do diretor). Ilha dos Cachorros é uma delícia de assistir (ainda que algumas pessoas se incomodem de muitos diálogos japoneses não serem traduzidos - para estes eu recomendo ver A Gangue/2014 que é sem legenda e todo em linguagem de sinais), carrega o humor inteligente de seu realizador e se encaixa perfeitamente bem no cenário conturbado de 2018 - sendo um forte concorrente ao próximo Oscar de animação (além de roteiro original e outras categorias se a Academia entender a brincadeira)!

Ilha de Cachorros (Isle of Dogs/EUA-Alemanha - 2018) de Wes Anderson com vozes de Bryan Cranston, Edward Norton, Jeff Goldblum, Bill Murray, Tilda Swinton, Scarlett Johansson, Koyu Rankin, Akira Takayama, Harvey Keitel e F. Murray Abraham. ☻☻☻☻☻

sábado, 10 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Visages Villages (FILMED+)

Agnès e JR: deliciosa viagem 

Um dos meus erros nas apostas do Oscar deste ano foi ter considerado que Visages Villages levasse o prêmio de melhor documentário. Bem, ele não levou, mas isto não quer dizer muita coisa, já que ele ainda é um dos filmes mais interessantes que assisti nos últimos meses. O longa parte da ideia da cultuada diretora francesa Agnès Varda - responsável por clássicos imortais como As Duas Faces da Felicidade (1965), Os Renegados (1985) e o recente As Praias de Agnès (2008), que assim como este aqui envolve suas memórias e a paixão pela fotografia - em ter uma parceria com o artista JR, famoso pelas fotografias gigantes de anônimos em preto e branco coladas em lugares públicos. Embora sejam de gerações diferentes (ela tem 90 anos e ele deve ter uns quarenta) os dois deixam claro que seus trabalhos tem afinidades bem marcantes. O encontro é irresistível desde o início, quando os dois contam de forma muito simpática como eles não se conheceram. Logo depois eles entregaram que se conheceram através da arte um do outro. Ele lembra do cinema de Varda e ela se impressionou com algumas fotografias que ele espalhou por aí. Assim, fica fácil entender como ela teve a ideia de convidá-lo para uma viagem criativa pelo interior da França em busca de anônimos prestes a se tornarem obras de arte. Sorte que o filme consegue ser mais do que apenas uma sucessão de sessões de fotografia, uma vez que dá voz para as pessoas comuns, suas histórias e reações diante das imagens gigantes. As fotografias rendem encontros, resgates históricos, apresentações e momentos um tanto surreais guiados pela imaginação da dupla. São momentos deliciosamente lúdicos (o caminhão ilustrado como uma máquina fotográfica - e que revela as fotos como uma enorme Polaroid sobre rodas  é um verdadeiro achado). Visages Villages é uma verdadeira ode às pessoas comuns e o que podem ter de mais interessante: suas histórias de vida. Para além da proposta em si, o filme explora um pouco a relação entre os  dois artistas (especialmente o incômodo de Agnès em sempre ver seu parceiro de óculos escuros) e ver a cineasta comentar um pouco sobre o envelhecimento, a visão (que se torna cada vez mais turva - como ela já relatou no documentário brasileiro Janela da Alma/2001) e até a solidão após a morte do esposo, o também diretor Jacques Demy. Criativo, sensível e engraçado, o filme poderia ser o primeiro de uma série de filmes com a dupla e, o melhor de tudo, demonstra como uma mulher genial permanece uma mulher genial, mesmo sob os efeitos do tempo. Vale lembrar que o Oscar de documentário não foi para o filme, mas Varda foi a homenageada do ano pela Academia, recebendo um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra no cinema. 

Agnès Varda

Visages Villages (França/2017) de Agnès Varda e JR com Agnès Varda, JR, Marie Douvet, Claude Flaert e Vincent Gills. ☻☻☻☻☻

domingo, 4 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Mudbound

Garrett e Mitchell: amizade contra o preconceito. 

Para abrir mais um Ciclo Diretoras deste ano no blog, escolhi comentar um filme que muita gente esperava que fosse consagrado no Oscar deste ano. Exibido e aclamado no Festival de Sundance, Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi concorre em quatro categorias no Oscar deste ano, mas poderia concorrer em muitas outras, incluindo filme e direção. O que provavelmente o deixou de fora destas categorias foi o fato de ter sido comprado pela Netflix... existe um papo muito esquisito sobre os diretores que estão aceitando as propostas do serviço de streaming para distribuir seus filmes, como se a melhor proposta fosse dos distribuidores das salas de cinema, que costumam pagar menos e ter uma distribuição um tanto capenga para filmes sérios e densos como este. Obviamente que na telona é muito melhor de apreciar um filme de qualidade, mas com centenas de salas tomadas por blockbusters fica complicado achar espaço para filmes que não irão faturar milhões em bilheteria. Mas vamos ao filme. Mudbound é dirigido por Diandrea Rees, ou melhor, Dee Rees. Americana nascida na cidade de Nashville que aos 41 anos se firma como uma das diretoras mais importantes dos Estados Unidos. Embora tenha trabalhos na televisão, curtas-metragens e um documentário no currículo, Mudbound impressiona por ser seu segundo filme (o primeiro foi o elogiado Pariah/2011). Sua direção é segura e um tanto destemida ao contar a história dolorosa de duas famílias que se cruzam no estado do Mississipi com seu racismo latente. O roteiro (que garantiu uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado para Dee e seu parceiro Virgil Williams) é baseado no livro de Hillary Jordan e mescla a narrativa de vários personagens sobre a vida em um lugar de muita lama, preconceitos e relações ásperas no período da Segunda Guerra Mundial. Assim conhecemos os irmãos Henry McCallan (Jason Clarke) e Jamie McCallan (Garrett Hedlund). O primeiro se apaixonou por Laura (Carey Mulligan) e o segundo tem fama de namorador, mas está prestes a ser piloto na Guerra. Quando Henry compra uma fazenda para viver com a família, ele imagina que sua vida mudará para melhor, mas chegando lá, percebe que caiu em um golpe. Pelos acasos do destino eles acabam se aproximando da família de Hap Jackson (Rob Morgan) e Florence (Mary J. Blige, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante e de melhor canção), para contragosto do Sr. McCallan (Johnatan Banks), que é racista até o osso. Os Jackson também tem um filho (Jason Mithcell) que foi lutar pelo país na Guerra - e o rapaz nem imagina que quando voltar tudo continuará como antes. A dura realidade do racismo nos sul dos Estados Unidos já apareceu em vários outros filmes, mas a direção de Rees lhe confere uma intensidade impressionante, ela paira sobre aqueles personagens como se fizesse parte do calor daquele lugar. A tensão cresce até ferver no último ato conduzido de forma firme, sem concessões. Embora  em alguns momentos o filme abuse da narrativa em off, o resultado é bastante coeso, amparado principalmente pelo ótimo elenco, que impressiona na sintonia ao alternar o tom entre a leveza e a densidade nos momentos exatos. Ao lidar com atores de lugares, formações e identidades tão distintas, a sintonia entre eles conduzida pela diretora é um dos pontos altos do filme. São destaques também a fotografia que alterna luz e sombras constantemente (que fez história com Rachel Morrison se tornando a primeira mulher indicada ao Oscar da categoria) e ter uma diretora nascida no sul dos EUA e que deve ter sofrido na pele o preconceito que exala daquelas relações. Embora aborde temas pesados e tenha cenas fortíssimas em seu desfecho, Mudbound acerta ao costurar sua trama com a amizade sincera entre alguns personagens, reforçando que para sentimentos nobres, a cor da pele é um detalhe completamente irrelevante. Dee Rees merece nossa atenção não apenas pelo seu talento, mas também pela intensidade do que tem a dizer.

Dee Rees

Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi (EUA-2017) de Dee Rees com Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jason Mithcell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jason Clarke e Johnatan Banks. ☻☻☻☻