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sábado, 23 de março de 2024

#FDS Diretoras: Anatomia de Uma Queda

Sandra Hüller e Swan Arlaud: entre a verdade e o sensacionalismo.

Enquanto nutria minha vontade gigante de assistir Anatomia de Uma Queda, realizei uma retrospectiva dos filmes anteriores de Justine Triet. Antes de ser premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, a cineasta francesa havia realizado outros três longa metragens, todos também escritos por ela e seu esposo, Arthur Harari (ambos premiados com pelo último Oscar de roteiro original de Anatomia de uma Queda). O mais interessante é perceber que vistos em ordem cronológica, seus filmes revelam pontos em que uma produção revela  um ponto de inspiração para seu sucessor, no entanto, nada realizado anteriormente pela diretora se compara ao brilhantismo que ela exibe aqui, seja na escrita ou no controle da narrativa. O mais interessante é que o filme nasce de uma ideia fixa na filmografia de Trier: casais em crise. Se em Na Cama com Vitória (2016) a relação do casal acaba parando nos tribunais, aqui, o que está em julgamento parece ser o próprio casamento dos personagens. O filme conta a história de uma escritora, Sandra (a excelente atriz alemã Sandra Hüller, indicada ao Oscar pelo papel) que vive afastada com esposo (Samuel Theis), filho (Milo Machado-Graner) e cachorro (Messi, um achado) nos alpes franceses da cidade em que o seu esposo nasceu. Quando o filme começa, ela tenta ser entrevistada enquanto marido coloca uma música altíssima para embalar a reforma do sótão. A entrevista é interrompida. O filho vai passear com o cachorro e ao voltar, ele se depara com pai morto sob a neve. Sandra escuta os gritos do filho e o que aparentemente era um acidente chega aos tribunais com a suspeita de que Sandra pode ser responsável pela morte do esposo. A partir daí, momentos bastante pessoais daquela casal começam a ser destrinchados e impostos para justificar um assassinato ou a tentativa de um suicídio. Aspectos pessoais da vida de Sandra (sua sexualidade, nacionalidade, profissão e obra) começam a impulsionar narrativas que questionam cada vez mais a sua inocência, num labirinto de versões e inferências sobre fatos que por vezes nem mesmo o espectador sabe mais o que pensar. Anatomia de uma Queda se torna assim um verdadeiro estudo sobre a construção da verdade, da difícil tarefa de chegar ao que de fato aconteceu quanto uma série de informações são apresentadas e manipuladas para chegar a um objetivo: a inocência ou a condenação de Sandra. Justine Triet conduz o filme com maestria ancorada por um roteiro excepcional e uma montagem esperta (também indicada ao Oscar), que sempre revela o necessário para manter a interrogação na mente do espectador. O filme é uma verdadeira aula de como manter o interesse do espectador com base nos diálogos encadeados e, por vezes, confrontados ao longo de duas horas e meia de narrativa. Anatomia de Uma Queda se constrói como quebra-cabeça, mas no fim não saberemos se todas as peças estão no lugar certo, especialmente depois do testemunho final deixado na interpretação do prodígio Milo Machado-Graner. É um daqueles filmes que faz você pensar por muito tempo e pode até se tornar uma referência para os surrados filmes de tribunal. O filme, que concorreu a cinco Oscars, incluindo o de Melhor Filme já está disponível no Prime Video. 

Anatomia de Uma Queda (França / 2023) de Justine Triet com Sandra Hüller, Milo Machado-Graner, Swann Arlaud, Samuel Theis, Antoine Reinartz e Anne Rotger. ☻☻☻☻☻

domingo, 25 de fevereiro de 2024

#FDS Justine Triet: Sibyl

Gaspard, Adèle e Sandra: Freud explica?

 Para fechar o #FimDeSemana dedicado à cineasta Justine Triet, temos seu terceiro longa de ficção. Depois de dois filmes que enveredavam pelo tom cômico, a francesa Justine Triet resolveu explorar o campo do suspense com uma história complexa que flerta o tempo inteiro com projeções, transferência, arquétipos, identidades e tudo mais. O resultado estreou no Festival de Cannes2019 e dividiu opiniões, sobretudo pela forma como o roteiro amplia tanto suas possibilidades que depois enfrenta problemas para resolver o que apresentou ao espectador. Sibyl (Virginie Efira) é uma psicoterapeuta que sonha ser reconhecida como escritora. Ela está tão decidida a escrever um romance que chega a interromper o tratamento de trinta pacientes para que possa se dedicar à escrita. Enquanto busca inspiração, ela acaba recebendo a ligação de Margot Vasilis (Adèle Exarchopoulos), uma jovem atriz que está em crise. Desesperada, Margot passa a se consultar com Sibyl e revela que está muito aflita por estar grávida de seu parceiro de cena, Igor (Gaspard Ulliel) que namora a diretora do filme em que trabalha atualmente. Margot pretende fazer um aborto para não comprometer sua carreira e a do amante, mas também não tem certeza se essa é a decisão certa a fazer. O drama da atriz faz com que Sibyl relembre um dilema parecido que enfrentou no passado e considera que ali existe a inspiração necessária para escrever seu livro. Só que Sibyl começa a fazer tudo o que não deve em nome de seu processo criativo, além de gravar as conversas com a paciente sem consentimento dela, se apropria de sua história para construir a trama do livro e, mais tarde, ela mesma começa a ter contato com Igor. Sibyl e Margot tem suas semelhanças, mas também são figuras um tanto antagônicas que se complementam ao longo da história que tropeça aqui e ali enquanto mistura as duas num emaranhado de situações em que a vida de Sibyl começa a entrar em crise e desmoronar no envolvimento com a nova paciente. O filme cria um emaranhado psicológico tão complicado entre seus personagens que por vezes nem se preocupa em colocar sua protagonista em situações que façam sentido (como as duas intervenções diretas de Sibyl na gravação do filme), isso compromete um pouco a credibilidade da história perante o espectador. O melhor mesmo fica por conta das atuações (com participação de Sandra Hüller como a diretora séria e traída) que ajudam o espectador a não saber muito quem de fato são aqueles personagens, além daquelas cenas em que o filme não se leva muito a sério (a cena dos tapas seguidos em Igor soa como uma vingança velada). Triet apresenta aqui mais uma vez seu interesse por personagens femininas em crise, mas começa a enveredar por uma seara mais complexa do que vimos em seus longas anteriores se tornando mais inquieta e ousada na construção de suas tramas. 

Sibyl (França-2019) de Justine Triet com Virginie Efira, Adèle Exarchopoulos, Gaspard Ulliel, Sandra Hüller, Niels Schneider, Arthur Harari e Paul Hamy. ☻☻☻

sábado, 24 de fevereiro de 2024

#FDS Justine Triet: Na Cama com Victoria

Virginie e Vincent: a vida em caos.
 

Se você um dia encontrasse com a Victoria (Virginie Efira) e perguntasse em que lugar sua vida se tornou um verdadeiro caos, ela talvez dissesse que foi naquela festa de casamento de uma amiga em que um amigo, Vincent (Melvil Paupaud) foi acusado de cravar uma faca na namorada. Depois ela talvez se lembrasse que foi na mesma festa em que retomou o contato com um ex-cliente (Vincent Lancoste) que era acusado de ser traficante de drogas e, que disposto a mudar de vida, quis entrar para o ramo da advocacia e se ofereceu para cuidar das duas filhas dela, só para ficar mais tempo perto da rotina de Victoria. Foi o ex-cliente que disse para ela ficar atenta ao ex-marido, David (Laurent Poitrenaux) que inventou de escrever na internet sobre uma tal advogada chamada Vicky e que mistura alguns fatos reais da vida da ex com outras sandices inventadas para ser pura provocação, ou melhor, autoficção. MAs talvez Victoria não lhe respondesse nada, já que acontece tanta coisa em sua vida que ela nem tenha tempo para processar tudo o que está acontecendo, especialmente quando sua vida profissional e pessoal começou a se misturar de um jeito que ela não consegue mais ter controle sobre uma ou outra. Na Cama com Victoria é o segundo longa metragem de ficção de Justine Triet e já deixa evidente alguns aspectos que se tornaram marcas da cineasta: a protagonista que tem sua vida em julgamento (seja da plateia ou no roteiro), a ideia de que não há um certo e um errado (apenas interpretações sobre o que vemos na telona) e uma avalanche de informações que serve mais para desorientar do que propriamente seguir uma linha reta e segura. Victoria é vivida com gosto por Virginie Efira que consegue deixar visível a constante sensação de uma mulher que precisa respirar em meio ao furacão que sua vida se tornou. O nome da personagem é o título original do filme, mas os distribuidores daqui devem ter se empolgado com a vida amorosa da personagem e resolveram dar um ar mais... "íntimo" no pôster. A vida amorosa da moça vai de mal a pior, além do ex-marido, que se acha no direito de se apropriar da vida da ex como forma de vingança, ela já teve vários parceiros, mas nada parece ser muito empolgante. Pode se dizer que a mulher vai descer até o inferno, chegando a ficar proibida de trabalhar por conta das atribulações que sua vida atravessa. Justine Trier faz um filme ácido, bem humorado e frenético, uma mistura que já desejava em seu filme anterior (A Batalha de Solferino/2013 que guarda algumas semelhanças com a protagonista que vemos aqui), mas aqui o resultado é mais lapidado e organizado em uma estrutura que parece de uma comédia romântica esperta, muito por conta da  química entre Virginie e Vincent Lancoste que desde a primeira cena juntos já desperta torcida na plateia. O filme só decepciona por criar tantas situações em torno da personagem que por vezes não sabe que rumo tomar rumo à conclusão da história. O resultado é eficiente e bom para passar o tempo, evidenciando que a diretora começava a pensar em roteiros mais rebuscados e que tivessem mais a dizer sobre seus personagens. Antes de Anatomia de Uma Queda (2023) este era o filme mais conhecido da cineasta,   

Na Cama Com Victoria (Victoria/França - 2016) de Justine Triet com Virginie Efira, Vincent Lancoste, Melvil Paupaud, Jeane Arra-Bellanger, Arthur Harari e Alice Daquet. ☻☻☻

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

#FDS Justine Triet: A Batalha de Solferino

Laetitia: o caos no macro e no micro.

Em foco no #FimDeSemana do mês, a cineasta Justine Triet é aclamada mundialmente após Anatomia de Uma Queda levar para a casa a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2023, o primeiro de muitos prêmios que o filme recebeu ao longo do ano de 2023. A aclamação culminou nas cinco indicações ao Oscar recebidas pelo filme (incluindo melhor filme, direção e roteiro) nada mal para uma produção estrangeira que não foi a escolhida por seu país de origem a disputar a vaga de filme internacional. Reza a lenda que um dos motivos para este snob são as falas políticas de Trier na imprensa que critica política cultural do atual governo francês. Esta pegada política da cineasta é muito presente em seu primeiro longa de ficção: A Batalha de Solferino, que de certa forma, retoma o tema de um documentário realizado por ela em 2009 sobre as eleições francesas. Aqui ela mescla o acompanhamento da apuração das eleições francesas de 2012 (na disputa entre Sarkozy e François Hollande que estavam praticamente empatados nas pesquisas) com um dia no cotidiano da repórter Laetitia (Laetitia Dosch) responsável para cobrir a apuração diante da multidão na Rua Solferino, local em que se encontra a sede do partido socialista francês. Se a multidão na rua cria um clima caótico, a vida da protagonista não é muito diferente, já que ela mal consegue se arrumar para o trabalho enquanto suas duas filhas pequenas choram e o namorado pede atenção por se sentir um tanto de lado. Quando o babá chega para ajudar, as coisas não melhoram muito com as crianças e tendem a piorar com a recomendação de que ele não deve de forma alguma deixar que o pai das crianças, Vincent (Vincent Macaigne, eleito melhor ator no Festival de Mar Del Plata) entre na casa para vê-las. Caso isso aconteça, ela pede até para um vizinho (Vatsana Sedone) intervir. Acontece que ela vai para o trabalho e Vincent chega e complica ainda mais o dia daquela mulher. Trier ainda carrega aqui as marcas de seu trabalho documental, sobretudo quando percebemos que as entrevistas com os escolhidos na multidão são reais, seja pelos discursos engajados ou desarticulados que estão no filme. Fica marcado assim uma disputa no campo político mais amplo daquele país, mas que cria uma analogia interessante na disputa que se estabelece entre Laetitia e Vincent pelas filhas, o que por vezes gera decisões absurdas de ambos até envolver a polícia. Trier imprime um tom propositalmente frenético e caótico no filme, trazendo um senso de urgência que por vezes torna até compreensível as decisões equivocadas dos personagens. É tanta discussão, tanta gente falando ao mesmo tempo, tanta gritaria que por vezes beira o insuportável. Curiosamente quando o filme se acalma e se torna mais "domiciliar" o filme perde o ritmo e se torna um tanto redundante. Desta vez a improvisação fica mais evidente, mas não sabe para onde ir, chegando a um final que aspira ser de diálogo e conciliação (ou um pastiche disso) mas que se torna insatisfatório por nunca avançar em sua mistura entre o dramático e cômico. No entanto, esta contraposição entre o micro e o macro estabelecido pelo roteiro serviu para que Triet fosse indicada ao César pela primeira vez na categoria de melhor primeiro filme. Uma estreia longe de ser perfeita, mas bastante promissora. 

A Batalha de Solferino (La Bataille de Solférino/França - 2013) de Justine Triet com Laetitia Dosch, Cincent Macaigne, Arthur Harari, Virgil Vernier, Liv Harari e Vatsana Sedone. ☻☻