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domingo, 12 de fevereiro de 2023

Na Tela: Os Banshees de Inisherin

Colin e Brendan: amizade que chega ao fim. 

Na mitologia celta (irlandesa), Banshees são seres da família das fadas que são consideradas malignas por preverem a morte das pessoas. Não é por acaso que Martin McDonagh oferece destaque a esta palavra no título de seu novo filme. O longa não apenas é localizado na Irlanda (mais precisamente na fictícia ilha de Inisherin), como também narra uma história que traz algumas mortes. A maioria delas não acontece na ilha, mas a certa distância dela, já que na pacata ilha se escuta o som de bombas e tiros vindos do continente por conta da guerra civil que assolava a Irlanda no ano de 1923. Se de um lado irlandeses matavam irlandeses, na ilha dois amigos irlandeses deixam de ser amigos. Pádraic (Colin Farrell) tenta seguir a rotina de todos os seus dias até ali, mas se surpreende quando seu melhor amigo, Colm (Brendan Gleeson) não quer mais conversar com ele, sem apresentar um motivo para isso. Pádraic não aceita. Pensa que deve ter feito alguma coisa quando encheram a cara na véspera. Pensa que é alguma brincadeira de mal gosto e insiste para que continuem sendo amigos, afinal, ontem mesmo, eles eram inseparáveis. Acontece que Colm está irredutível e chegou à conclusão que ser amigo de Pádraic é uma grande perda de tempo. Este é o ponto de partida para um filme de rumos imprevisíveis, que mistura humor obscuro e drama em iguais medidas. Martin McDonagh encontra um equilíbrio entre estes dois pontos com maestria, deixando um tom cômico pairar sobre a história que mergulha cada vez mais no absurdo e incomoda o espectador por deixar  a impressão que aquele rompimento não precisava chegar ao extremo que caminha a passos largos até o desfecho. Se Colin e Brendan estão muito bem em cena (e repetem a outra parceria que tiveram com o diretor, o elogiado Na Mira do Chefe/2008), o primeiro como o homem um tanto ingênuo e o segundo como um homem mais velho e cada vez mais amargo, ambos estão muito bem amparados por atores secundários, sobretudo Kerry Condon na pele de Siobhán (a esclarecida irmã de Pádraic que está prestes a desistir de encontrar sentido nas coisas que acontecem naquela ilha)  e Barry Keoghan, que interpreta Dominic (um rapaz que sofre nas mãos do pai policial e que tenta se aproximar de Pádraic e Siobhán). De um ponto de partida simples, o texto de McDonagh dá voltas sobre si mesmo, intensificando cada vez mais as notas de sua história emoldurada por bela fotografia e uma trilha sonora que casa perfeitamente com cada cena. Embora seja temperado com certo humor, o filme é terno em sua melancolia e caiu no gosto da Academia que o indicou ao Oscar em nove categorias: filme, direção, ator (Colin Farrell), ator Coadjuvante (Brendan e Barry), atriz coadjuvante (Kerry Condon), roteiro original, trilha sonora e montagem.

Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin/Reino Unido - EUA - Irlanda / 2022) de Martin McDonagh com Colin Farrell, Brendan Gleeson, Kerry Condon, Barry Keoghan, Gary Lydon, Aaron Monaghan, Pat Shortt e David Pearse. ☻☻☻☻ 

 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Na Tela: Três Anúncios Para um Crime

Frances: entre a justiça e a vingança. 

A filha adolescente de Mildred foi estuprada, queimada e morta há meses e a polícia não faz ideia de quem possa ter cometido o crime. Tudo aconteceu na aparentemente tranquila cidade de Ebbing no estado de Missouri nos Estados Unidos. Insatisfeita com a situação, considerando que existe um descaso com a tragédia que atravessou sua vida, Mildred resolve utilizar três outdoors em uma estrada da cidade indagando sobre os rumos da investigação que não aponta responsáveis. Fosse lançado há algum tempo atrás, Três Anúncios Para um Crime seria um corpo estranho entre os indicados ao Oscar, mas hoje ele ocupa o posto de favorito entre os nove indicados na categoria de Melhor Filme - e tem chance de levar alguns dos sete prêmios a que concorre, especialmente o de melhor atriz para Frances McDormand, que entrega outra atuação memorável na pele da endurecida Mildred. Quem conhece o trabalho de Frances já está acostumado em vê-la dar um toque especial em seus personagens, tanto que já tem um Oscar na estante pela policial de Fargo (1996). Aqui ela vive uma mulher cansada de silenciar a raiva e indignação diante do descaso das autoridades, o problema é que quando ela libera todo o ódio que estava cansada de segurar, acarreta um emaranhado de situações que revelam o que a pacata Ebbing preferia manter escondido. É neste momento que o filme opta por sempre seguir um caminho diferente ao abordar seus personagens, seja a própria Mildred, o delegado Willoughby (Woody Harrelson, indicado ao prêmio de coadjuvante) que demonstra sensibilizado, mas impotente diante do caso ou o policial Dixon (Sam Rockwell, favorito à estatueta de coadjuvante deste ano após levar para casa praticamente todas as premiações do ano), um grosseiro, racista, homofóbico e que abusa de autoridade sempre que possível. No entanto, além de aparecer em seu relacionamento com a mãe - apresentada como uma bela professora para o filho ser tudo o que é - Dixon recebe o arco mais transformador do filme. Escrito e dirigido pelo inglês Martin McDonagh (que já foi indicado ao Oscar por Na Mira do Chefe/2008 e já tem um Oscar na estante pelo curta Six Shooter/2004) ele conjuga aqui os dois pilares de seu estilo (a violência e o humor negro) mas os costura com uma linha mais emocional sem medo de expandir a história para vários personagens - seja o filho (Lucas Hedges) de Mildred que se incomoda com as ações da mãe, o jovem administrador dos outdoors (Caleb Laundry Jones) ou a esposa do delegado (Abbie Cornish).  Mais contido em seu humor, McDonagh conta uma história que libera a raiva aos poucos, acarretando sempre consequências destruidoras que não atingem o foco e por isso mesmo, gera a ânsia por uma catarse que nunca chega. Enquanto vira a cidade do avesso, Três Anúncios para Um Crime nos faz pensar até que ponto a vingança não se confunde com justiça, quanto a ineficiência do sistema pode gerar mais violência e o quanto o mundo se parece cada vez mais  com aquela cidadezinha com suas intolerâncias e incompreensões. Talvez por isso a última cena nos deixe com um nó na garganta imaginando onde aquilo tudo irá parar... ou se vai parar. Não foi por acaso que Três Anúncios para Um Crime se configurou como o favorito da temporada, torna-se impossível não torcer pela justiça que Mildred tanto espera, mas aos poucos começamos a repensar suas atitudes e perceber que se perder no caminho é mais fácil do que se imagina.  

Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri/EUA-2017) de Martin McDonagh com Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Lucas Hedges, Peter Dinklage, Caleb Laundry Jones e Abbie Cornish. ☻☻☻☻

sábado, 10 de maio de 2014

DVD: Sete Psicopatas e um Shih Tzu

Olga, Walken, Colin, Sam, Abbie, Tom e Woody: com quantos psicopatas se faz um filme? 

Por sua engenhosidade, o inglês Martin McDonagh tem um Oscar na estante de melhor curta de ficção por Six Shooter (2004), prêmio que lhe rendeu a repercussão necessária para dirigir seu primeiro longa metragem, o superestimado Na Mira do Chefe (2008), que lhe rendeu a indicação ao Oscar de roteiro original e  o Globo de Ouro de ator de comédia para Colin Farrell (aquele ator irlandês de espessas sombrancelhas que andou gastando seu talento em refilmagens como O Vingador do Futuro/2012 e A Hora do Espanto/2011). É interessante que o filme mais interessante que Farrell fez desde então seja o segundo longa de McDonagh, este Sete Psicopatas e um Shih Tzu. Maldosamente, o filme teve menos repercussão que o anterior, embora seja mais elaborado e com atuações mais marcantes. No entanto, entendo o motivo das reservas que alguns tiveram com o filme, já que em alguns momentos o diretor tropeça em sua própria pretensão narrativa. A história gira em torno de Martin (Farrell), roteirista de cinema que está tendo dificuldades para criar seu novo roteiro: Sete Psicopatas. Afim de subverter a ordem dos filmes americanos do gênero, Martin não consegue criar a história de seus sete personagens, assim apela para a ajuda do amigo Billy (Sam Rockwell) que lhe dá algumas sugestões na construção deles. Billy já seria um personagem interessante por si só, já que ajuda um senhor acima de qualquer suspeita, Hans (Christopher Walken, estupendo), a sequestrar cachorros para depois devolvê-los aos donos - depois deles divulgarem uma gorda recompensa para quem encontrar o cãozinho. Quando some o Shih Tzu do gangster Charlie (Woody Harrelson, ótimo), Hans torna-se o principal suspeito, mas existem outros interesses de Billy debaixo do sumiço do gracioso Bonny. McDonagh utiliza sua engenhosidade para costurar essa trama quase banal com os sete psicopatas do roteiro de Martin, que inspirados na vida real, acabam cruzando seu caminho em alguns momentos. Um quaker com sede de vingança, uma jovem negra sequestrada que se une ao namorado para assassinar serial killers, um vietnamita budista e um assassino que deixa cartas de baralho no local das mortes são alguns dos tipos curiosos que aparecem pelo roteiro. Dá para perceber que o diretor faz sua escrita sobre a própria história que assistimos e, a maior parte do tempo, faz com grande desenvoltura. O irônico é que enquanto costura suas tramas até o ponto em que os personagens imaginários revelam-se reais, o filme é de tirar o fôlego, depois que resolve virar "um filme francês" (nas palavras de um  dos personagem com delírios em volta de uma fogueira no deserto) o filme perde o ritmo bruscamente em situações aquém da tensão que se armava no início. Essa quebra no ritmo é até perdoável se não deixasse a impressão que McDonagh considera isso a grande sacada de sua história. Não é bem assim. Seu exercício de metalinguística funciona melhor quando é auto-crítico, como o momento em que reclama-se que a personagens femininas de Martin nunca apresentam profundidade (e percebemos que o diretor escalou um time feminino de primeira com Gabourey Sidibe, Abbie Cornish e Olga Kurylenko para pequenas participações que ficam pelo meio do caminho) ou quando relata-se uma cena de "tiroteio final" que sabemos que nunca acontecerá (embora possa ter passado pela cabeça de McDonagh). A certa altura tudo parece que é o filme que Guy Ritchie teria pensado após ver Adaptação (2002). O longa tem cenas de arrepiar entre o divertido e o sangrento, além de atuações vigorosas de Walken, Harrelson e Amanda Warren - a única personagem feminina de respeito e Sete Psicopatas e um Shih Tzu não deixa de ser uma evolução de seu criador como cineasta, agora só falta a humildade de não entregar tanto ouro antes da hora.

Sete Psicopatas e um Shih Tzu (Seven Psychopaths/EUA-2012) de Martin McDonagh com Colin Farrell, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Christopher Walken, Tom Waits e Tom Waits. ☻☻☻

terça-feira, 23 de agosto de 2011

CATÁLOGO: Na Mira do Chefe

Gleeson para Farrell: "Essas sobrancelhas são de verdade?"

Admito que demorei um bocado para ver este filme que rendeu o Globo de Ouro de melhor ator de comédia para Colin Farrell em 2009. Talvez, por ter passado o seu período de estreia eu não tenha visto nada demais nesta estreia do diretor Martin McDonagh em longa metragem. O filme trabalha com o marginal mais glamourizado pelo cinema: o matador de aluguel. Todo mundo tem um profissional desses no currículo e com sucesso: Brad Pitt, Angelina Jolie (tem até duas matadoras no currículo), George Clooney, Bridget Fonda, Antonio Banderas, Silvester Stallone, Steve Buscemi, John Cusack, Pierce Brosnan e até Murilo Benício! Eu poderia lembrar de vários outros nas próximas linhas, mas prefiro destacar o fundamental para a coisa dar certo nas mãos do ator correto: uma crise de consciência. Este é o ponto de partida para este filme que flerta com o humor negro e o drama. Farrell é Ray um assassino de pouca experiência que foge com o seu parceiro Ken (Brendan Gleeson) para uma cidadezinha nos cafundós da Bélgica (a Bruges do título em inglês), o chefe deles os mandou para lá para que algumas poeiras baixassem após um serviço mal sucedido. O chefe (vivido por Ralph Fienes) vive ressaltando que a cidade parece de um conto de fadas, mas pelos enquadramentos e fotografia impressos pelo diretor a coisa parece mais voltada para o Conde Drácula! Chega a ser divertido essa ironia, assim como a inquietação de Ray diante do tédio que a cidade lhe inspira enquanto seu parceiro se sente numa viagem turística. Para passar o tempo, Ray acaba flertando com uma mocinha que conhece numa filmagem e a coisa vai enrolando para divulgar o que muita gente já percebeu logo no início (isso é um SPOILER?), que o protagonista enfrenta uma crise de consciência por ter matado um inocente e que seu chefe está lhe armando uma verdadeira armadilha. O roteiro vai girando cada vez mais em torno do personagem de Farrell, que se comporta como um bocó na maioria das situações em que se mete. A virada "surpreendente" deve ser quando descobrimos as tendências suicidas do rapaz... sinceramente acho pouco para tudo o que se disse sobre o filme (que concorreu ao Oscar de roteiro original). Apesar de algumas partes inusitadas e diálogos bem lapidados o filme tem problemas graves em sua cadência. Arrastado e exagerado em diversos momentos é preciso ter paciência para ver as coisas acontecendo por aqui. Acho que para entender o prêmio de Farrell devo levar em consideração que o cara tentava se recuperar de Alexandre (2004) de Oliver Stone e usou o prestígio que lhe restava para dar projeção a esta produção britânica e independente. Pelo menos o prêmio fez bem a auto-estima do ator, que fez papéis pequenos e elogiados em O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (2009) e Coração Louco (2009), tanta humildade lhe colocaram novamente na mira dos estúdios, seja para fazer o chefe caricato do recente Quero Matar meu Chefe ou na refilmagem do vampiresco Fright Night -que está prestes a ser lançado. Em Na Mira do Chefe seu assassino em crise raramente ultrapassa as caretas e o destaque fica mesmo para Brendan Gleeson numa atuação sem estardalhaço que consegue explorar todas as nuances de seu personagem. Vale ressaltar ainda o último ato repleto de ironias - inclusive com o expectador - que mostra que McDonagh pode fazer muito mais do que apresenta na primeira hora de filme.

Na Mira do Chefe (In Bruges / Reino Unido-2008) de Martin McDonagh com Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes. ☻☻