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domingo, 26 de janeiro de 2025

PL►Y: Canina

Amy e os caninos: o desperdício de uma ideia promissora. 

Amy Adams é uma ótima atriz e com o passar do tempo virou um daqueles casos em que se acumula várias indicações ao Oscar e nenhuma estatueta, fato que só acrescenta a qualquer novo projeto que embarca aquela sensação de "será que agora vai?". Isso aconteceu com Canina assim que a diretora Marielle Heller divulgou que Amy seria a protagonista da adaptação do livro de Rachel Yoder para o cinema. A trama curiosa é cheia de possibilidades, já que conta a história de uma mulher que após ter seu primeiro filho tem a sensação de que está se transformando em um cachorro. A trama é cheia de reflexões sobre a situação da mulher com a chegada da maternidade, em que todas as novas responsabilidades se somam às já existentes, com o acréscimo de um organismo inundado por uma carga hormonal gigantesca, somada à privação do sono e a presença de um marido que nem sempre ajuda. A mistura de afeto e fúria se faz presente em vários momentos e o filme investe nesta mistura num misto de humor, drama e surrealismo. O problema é que algo se perdeu na transição, o roteiro mal amarrado deixa a trama desengonçada e com a estranha sensação de que nada avança no decorrer do filme. As reflexões promissoras caminham para o lugar comum, as possibilidades se dissolvem, o surrealismo se torna repetitivo, o humor fica sem graça, o drama se torna raso, de nada serve o esforço de Amy Adams sem o amparo de um roteiro consistente. Em determinado momento tudo caminha pelo caminho da obviedade. Em alguns momentos os diálogos de empoderamento feminino surgem somente para garantir algum engajamento à narrativa. Tudo soa postiço e artificial para completar o sabor de decepção. Amy conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia ou musical pelo seu esforço, mas eu só imaginava o que aconteceu com a diretora Marielle Heller para realizar um filme tão desconjuntado. Depois de trabalhos como atriz, Heller estreou na direção com o impactante Diário de uma Adolescente (2015), fez bonito com o excelente Poderia me Perdoar? (2018) e não decepcionou com Um Lindo Dia na Vizinhança (2019), mas em Canina ela parece ter errado o tom e, principalmente, no encadeamento de um roteiro que desperdiça uma ideia interessante. 

Canina (Nightbitch/ EUA - 2024) de Marielle Heller com Amy Adams, Scoot McNairy, Arleigh Snowden, Emmett Snowden, Jessica Harper, Zoë Chao, Mary Holland e Archana Rajan    ☻☻

domingo, 3 de maio de 2020

PL►Y: Um Lindo Dia na Vizinhança

Hanks e Rhys: encontro terapêutico com um ícone americano. 

Em tempos de Covid19, o casal Tom Hanks e Rita Wilson foi uma das primeiras provas de que ninguém está imune. Recentemente tivemos a boa notícia de que depois de várias semanas de tratamento os dois estão bem e colaborando com pesquisas para encontrar uma forma de combater a doença. Antes disso, Hanks havia começado o ano bem, rompendo o jejum de dezenove anos sem indicação ao Oscar. Depois de longo período sendo esnobado, o ator foi indicado ao prêmio de ator coadjuvante por seu trabalho neste bom filme da diretora Marielle Heller sobre o icônico apresentador de TV Fred Rogers (1928-2003). Mais conhecido como Mr. Rogers, ele era formado em Pedagogia e foi Ministro Presbiteriano, além de compositor de músicas educativas. Seu programa de televisão (Mr. Rogers Neighborhood) foi produzido de 1968 a 2001, o que ajudou a construir uma verdadeira lenda do entretenimento americano. Rogers ficou famoso por nadar todas as manhãs, não beber ou fumar, era vegetariano, casado e pai de dois filhos. Se apresentava como um sujeito cativante e, portanto, torna-se mais do que compreensivo a construção de um filme envolvendo sua personalidade. O filme retrata um episódio muito particular em sua vida, a ocasião em que o jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) é indicado para realizar uma matéria sobre ele. Vogel é o total oposto de Rogers, pessimista, cético e amargo devido ao relacionamento problemático com o pai (vivido por Chris Cooper) e seu temperamento começa a afetar seu casamento. A verdade é que a forma de encarar a vida faz com que ele tenha bastante resistência em aceitar que possa existir uma pessoa com a serenidade de Rogers. Embora no início exista um desconforto inevitável, são os diálogos com Rogers que fazem o jornalista começar a repensar sua postura diante das dores e rancores perante o mundo. Baseado num artigo publicado sobre este encontro de opostos, Heller reforça a aura que Mr. Rogers possui com uma atuação serena e um tanto melancólica de Hanks, que atinge uma naturalidade impressionante como uma pessoa pública. O filme foi um tanto criticado por não apresentar nenhuma novidade sobre a personalidade do apresentador, embora, o roteiro faça isso de forma muito sutil no diálogo de Vogel com a senhora Rogers (Maryan Plunkett) e na última cena em que o Rogers toca piano. O trabalho de Matthew Rhys (ator britânico celebrado pelo seu excelente trabalho na série The Americans) é mais complicado: provocar empatia com um personagem um tanto antipático (mas ele executa a tarefa de maneira convincente). De certa forma, seu papel reflete um pouco o olhar da própria diretora sobre o famoso apresentador. Cineasta indie acostumada a lidar com personagens controversos (como em Diário de Uma Adolescente/2015 e Poderia me Perdoar?/2018), Rogers é o oposto do que ela costuma trabalhar em suas obras - e por isso mesmo deve ter lhe despertado tanto interesse. No entanto, diante dos seus trabalhos anteriores, parece que aqui ela patina em gelo fino. Embora tenha forte carga emocional, o filme é bastante discreto mas (aspecto que achei muito interessante), por vezes, flerta com a fantasia no meio da narrativa - o que reserva momentos de grata surpresa para o espectador. 

Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood / EUA - 2019) de Marielle Heller com Matthew Rhys, Tom Hanks, Chris Cooper, Susan Kaleshi Watson e Maryan Plunkett. ☻☻☻

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Na Tela: Poderia me Perdoar?

Richard e Melissa: mentindo com talento. 

Lee Israel foi autora de biografias de sucesso e até apareceu na lista de mais vendidos do New York Times, no entanto, permaneceu uma ilustre desconhecida nos anos 1990. Embora ainda tivesse vários projetos editoriais para serem desenvolvidos, a escritora não tinha crédito sequer com a sua própria editora. Com contas para pagar, um gato doente e toneladas de frustração, Lee precisava ganhar dinheiro e rápido. Foi quase que por acaso que descobriu que no mundo dos apreciadores da alta literatura havia um grupo de pessoas capaz de pagar altas quantias por cartas de escritores famosos - e conforme ela aprende, quanto mais pessoal for a carta, mais valiosa era. Foi assim que ela utilizou seu conhecimento histórico e talento para forjar cartas que nunca foram escritas por seus autores. De Noel Coward à Dorothy Parker, Lee falsificou mais de quatrocentas e ganhou dinheiro suficiente para se manter por algum tempo até ser descoberta. Estas desventuras renderam um livro autobiográfico e, embora o título do livro e do filme deixe a sugestão de arrependimento, Lee Israel sentia-se plena ao ver que seu talento para captar a voz daqueles autores consagrados confirmava ainda mais seus dotes de escritora. Trata-se de um reconhecimento um tanto distorcido, mas que recebe um tratamento muito especial no roteiro de Nicolle Holofcener e Jeff Whitty (indicados ao Oscar de roteiro adaptado deste ano). O texto é o argumento perfeito para um trabalho impressionante de Melissa McCarthy na pele da escritora. Embora a atriz tenha trabalhado em várias comédias de gosto duvidoso (chegando ao fundo do poço com Crimes em HappyTown/2018 que lhe rendeu uma indicação ao Framboesa de Ouro de pior atriz deste ano), ela demonstra ser capaz de sobrepor várias camadas da personalidade da personagem numa composição bastante complexa. Melissa desaparece na pele de Lee Israel. A personagem possui vários pontos complicados em sua vida e se enrola cada vez mais quando torna a grande farsa em sua grande verdade.  Melissa está ótima em cena e mereceu ser lembrada em todas as premiações do ano (Globo de Ouro, Critic's Choice, SAG, Oscar...), pena que até a Lady Gaga tem mais chance de levar o Oscar de melhor atriz do que ela. Quem também está muito bem em cena é o veterano Richard E. Grant, que utiliza sua aparência de lorde inglês para criar o afetado amigo de Lee, Jack Hock que a ajuda em alguns trambiques, trotes e mentiras. Os dois tem uma ótima química em cena e conseguem ser encantadoramente humanos na pele dos anti-heróis que encarnam. Conforme a trama avança, o filme condensa sua melancolia (embalada com muito jazz) e comove com a triste história de uma escritora talentosa que buscava reconhecimento. Poderia me perdoar? é envolvente e interessante, além de dotado de uma sensibilidade que só comprova o talento da diretora Marielle Heller, que antes havia pesado a mão em Diário de Uma Adolescente (2015). Aqui ela acerta em tudo e, assim como sua dupla de atores, merecia destaque nas premiações.  

Poderia me Perdoar? (Could you ever Forgive Me? / EUA-2018) de Marielle Heller com Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Ben Falcone, Dolly Wells, Christian Navarro e Jane Curtin. ☻☻☻☻

terça-feira, 14 de junho de 2016

PL►Y: O Diário de uma Adolescente

Kristen, Bel e Alexander: entre amores e horrores. 

Ganhador de vários prêmios no circuito de filmes independentes (incluindo o Gotham Awards de Melhor atriz para Bel Powley e o Independent Spirit de Melhor Filme de Estreia), Diário de uma Adolescente é um filme que começa simpático em sua evocação setentista psicodélica, mas pode se tornar bastante assustador se você não estiver ciente do que irá ver. Dirigido com firmeza pela estreante Marielle Heller, a partir da graphic novel de Phoebe Gloeckner, o filme conta a história da adolescente Minnie (Bel Powley) que vive na cidade de São Francisco na década de 1970 sob o mesmo teto que a mãe Charlotte (Kristen Wiig) e o padrasto Monroe (Alexander Skarsgard). Com os hormônios em ebulição, nada consegue disfarçar que o início da vida sexual de Minnie está prestes a começar - e para ser mais complicado, será com a ajuda do padrasto mesmo. Será o primeiro passo de Minnie para uma vida de aventuras sexuais, que terão momentos prazerosos e outros bastante assustadores que compõem uma espécie de montanha russa construída pela diretora e o elenco com sinceridade impressionante. Enquanto Minnie e Monroe se envolvem cada vez mais, cresce uma espécie de abismo entre mãe e filha que se torna ainda intenso conforme a verdade promete aparecer. Se Wiig constrói uma mãe sempre distante, Alexander cria um Monroe tão charmoso que você é até capaz de simpatizar com ele (ainda que ele seja extremamente perdido em sua trajetória amorosa), mas o destaque fica mesmo com a novata Bel Powley. Bel, com seus olhos enormes, preenche de vida os mais difíceis momentos de Minnie, sem autopiedade ou melodramas, sem dúvida uma atuação que não cede a moralismos. Com a atriz certa diante da câmera, Heller ousa contar um filme sobre as descobertas sexuais de uma garota como se fosse narrado por uma adolescente de verdade, utilizando um incômodo tom de brincadeira que se revela até nos momentos mais desconfortáveis para a plateia. Entre a curiosidade e a inconsequência, a busca por autoafirmação e o amor próprio, o período turbulento da sexualidade na adolescência é apresentado em seus amores e horrores de forma intensa, mas sem cair no exagero, algo que poucas vezes o cinema americano conseguiu fazer.

O Diário de Uma Adolescente (Diary of a Teenage Girl / EUA - 2015) de Marielle Heller com Bel Powley, Kristen Wiig, Alexander Skarsgard e Christopher Meloni. ☻☻☻