terça-feira, 31 de outubro de 2023

HIGH FI✌E: Outubro

 Cinco produções assistidas no mês que merecem destaque:

"Assassinos da Lua das Flores" de Martin Scorsese
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"Neruda" de Pablo Larraín
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"Uma Boa Pessoa" de Zach Braff
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Na TV: A Queda da Casa de Usher

Os Usher: as maldições do Poeverse.

 Quando soube que Mark Flanegan (de A Maldição da Residência Hill/2018 e Missa da Meia-Noite/2021, duas das melhores produções já feitas pela Netflix) faria uma adaptação do conto A Queda da Casa de Usher de Edgar Allan Poe, eu fiquei bastante animado. Quando me dei conta de que seria uma minissérie, a animação virou preocupação. O conto com pouco mais de cem páginas daria conta de um filme, mas uma minissérie? Lembrei logo da sensação de quando O Hobbit (2013) foi anunciado como uma trilogia com filmes de três horas... quase a mesma coisa de uma série com oito episódios de aproximadamente uma hora. Sorte que Flanegan não estava somente interessado em contar a saga do patriarca que testemunha seus filhos morrerem um a um ciente de que se trata de um acerto de contas com o destino. Flanegan queria mesmo era homenagear a obra de Poe, ou como diria minha amiga Morgana: "criar um Poeverse". Flanegan deu uma patinada em gelo fino quando resolveu homenagear outro clássico do terror (A Outra Volta do Parafuso de Henry James que inspirou a Maldição da Mansão Bly/2021), mas aqui, ele parece ter montado um esquema que funciona melhor com suas intenções. Os fãs de Flanegam podem até estranhar a forma mais elaborada (e menos sanguinolenta)  com que ele costura os episódios, mas para quem curte a obra de Poe é um deleite catar as referências à obra do autor (seja nas evidenciadas no título de cada capítulo e, não podendo esquecer, a presença obrigatória do Corvo). Existe aqui um fio condutor que entrelaça poder, cobiça, ambição, traição e outros sentimentos pouco nobres que motivam a família Usher, o que garante aos membros do clã características que são compartilhadas entre todos em maior ou menor grau, sem que o texto caia na tentação de dizer "este é o bonzinho", "esta é a inteligente", "este é o doidinho", "esta é a ignorante"... no fundo nenhum dos filhos vale muita coisa, o que deixa a sensação de ser uma paródia gótica de Succession da HBO (o que acho ótimo já que a abandonei na primeira temporada por achar sem sal). Aqui o patriarca Roderick Usher (vivido jovem por Zack Gilford e mais velho por Bruce Greenwood) e sua irmã (a jovem Willa Fitzgerald e a madura Mary McDonnell, que pouca gente lembra ter sido indicada ao Oscar por Dança com Lobos/1990) ergueram um verdadeiro império farmacêutico enquanto observam a vasta prole de Roderick brigar entre si para chamarem a atenção do pai. Quando o primeiro morre num incidente bizarro, os demais herdeiros começam a falecer um a um corroídos por suas próprias culpas e fraquezas. No decorrer de tudo isso existem outros dois personagens importantes que se sobressaem, uma é a mulher misteriosa que funciona como a chegada a morte (e que se torna ainda mais estranha com a imagem de Carla Gugino mostrando-se bastante versátil em facetas assustadoras de tonalidades variadas), o outro é Arthur Gordom Pym o famigerado sobrevivente da única novela de Allan Poe, que aqui aparece mais velho como o experiente advogado (e assessor para assuntos ilícitos) da família encarnado com gosto por Mark Hamill. Uma das minhas cenas favoritas é o encontro de Hamill e Gugino, ato em que uma fagulha de esperança aparece entre toda a perdição dos Usher. Falando nisso, se existe um aspecto que me incomodou na trama foi um certo exagero na intenção de modernizar os personagens, que por vezes parecem com um bando de outros caracteres de séries por aí, a sorte é que Flanegan puxa a cordinha para o seu mundinho particular antes que a coisa se torne repetitiva demais. Entre legítimos e bastardos, mortos e feridos, A Queda da Casa de Usher pode não ser uma obra perfeita, mas chega até perto pela ambição do seu criador inspirado em um dos ícones do gênero a que parece conhecer as entranhas históricas com propriedade acima da média.

A Queda da Casa de Usher (The Fall of the House of Usher / EUA -2023) de Mark Flanegan com Bruce Greenwood, Mary McDonnell, Carla Gugino, Mark Hamill, Zach Gilford, Willa Fitzgerald, Henry Thomas, Rahul Kohli, Samantha Sloyan, T’Nia Miller, Michael Trucco, Katie Parker, Matt Biedel, Crystal Balint, Ruth Codd, Kyliegh Curran, Carl Lumbly, Kate Siegel, Sauriyan Sapkota, Paola Núñez, Malcolm Goodwin e Daniel Jun. ☻☻☻

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Palpites para o Oscar 2024 - Parte III

Para encerrar a trilogia: os últimos palpites para a temporada de ouro:

"A Cor Púrpura" de Blitz Bazawule
É preciso ter um bocado de coragem para criar uma nova versão da obra de Alice Walker  depois que Spielberg fez a obra-prima de 1985 que esta foi indicada a 11 Oscars (e vergonhosamente não levou nada para casa). O tempo passou, o filme se tornou mais amado e ganhou uma versão musical nos palcos que chega agora aos cinemas. A Warner está confiante e até deixou alguns filmes para o ano seguinte para esta repaginada na história difícil de Nettie. O elenco estelar conta com Taraji P. Henson, Halle Bailey, Aunjanue Ellis, Danielle Brooks, Colman Domingo e Fantasia Barrino. 

"Saltburn" de Emerald Fennell
Depois da consagração na estreia com Bela Vingança/2021 (que lhe rendeu o Oscar de roteiro original), Fennell volta à dirigir mais uma mistura de comédia, drama e suspense, desta vez sobre um estudante de Oxford que cai em tentação quando vai passar alguns dias junto com a excêntrica família de um colega endinheirado. O filme dividiu opiniões no Festival de Veneza, mas colheu elogios para as atuações de Barry Keoghan e Jacob Elordi. Pelo visto, obras divisivas serão a especialidade da diretora, acostumem!

"Priscilla" de Sofia Coppola
Jacob Elordi também tinha outro filme a apresentar no Festival de Veneza, um filme em que ele vive ninguém menos que o Rei: Elvis Presley. Mas ao contrário do filme de Baz Luhrman, o foco de Sofia Coppola está em sua esposa, Priscilla Presley, que ele conheceu ainda adolescente e viveu um conto de fadas contaminado pelos problemas do mundo real. Embora o filme tenha recebido alguns elogios, o que sustenta mesmo o filme é o trabalho da novata Cailee Spaeny (com uma vibe Lana Del Rey) premiada como melhor atriz em Veneza. Ela segue forte na corrida do Oscar.

"Origin" de Ava DuVernay
O roteiro parte de uma ideia interessante: apresentar as relações sociais entre a diversidade racial dos Estados Unidos dentro de uma hierarquia de divisões humanas. Essa espécie de crônica sobre o sistema de castas da Terra do Tio Sam chamou a atenção de crítica e público, mas há quem diga que ficaria melhor se fosse moldado como um documentário. Será? Com atuações elogiadas de Aunjanue Ellis, Jon Bernthal, Vera Farmiga e Nick Offerman, o filme tem chances na categoria de melhor atriz (Ellis) e roteiro original. 

"Nyad" de Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi
Será que Annette Benning finalmente levará para casa o Oscar de melhor atriz? Após quatro indicações ao longo da carreira, a Netflix planeja investir pesado no prestígio nunca oscarizado da atriz para que ela saia agraciada da cerimônia. O papel tem o maior cheiro de prêmio: ela vive Diana Nyad, atleta que aos 60 anos tenta realizar o sonho de nadar 110 milhas em mar aberto de Cuba até a Flórida. Mas nem só de Annette vive o filme, Jodie Foster vive sua melhor amiga e treinadora (e está cotada para categoria de atriz coadjuvante). 

"Napoleão" de Ridley Scott
O diretor não anda cotado junto à Academia após seus últimos projetos (e até virou piada na cerimônia de 2021), mas pode ser que ele tenha sorte com este épico baseado na vida de uma figura histórica. O filme oferece uma visão pessoal das origens de Napoleão (Joaquin Phoenix) e de sua ascensão rápida e implacável ao império, no entanto, destaca seu relacionamento intenso com a esposa, Josephine (Vanessa Kirby). Especula-se muito sobre indicações para o casal de protagonistas, mas resta saber se a Academia renovada curtirá um filme desses para além das categorias técnicas.

domingo, 29 de outubro de 2023

FILMED+: Assassinos da Lua das Flores

 
Leo e Lily: história de amor em meio ao genocídio.

Lançado em 2017, o livro de David Grann  sobre as investigações sobre as mortes entre o povo originário Osage nos Estados Unidos chamou a atenção do mestre Martin Scorsese quando ele percebeu a quantidade de camadas históricas que existia naquela narrativa. Basta imaginar que os Osage, como boa parte da população indígena nos Estados Unidos, foi dizimada (como cansamos de ver nos faroestes) e os sobreviventes acabaram ficando com um pedaço de terra que ninguém tinha muito interesse, mas que se mostrou uma cobiçada fonte de petróleo. Com isso, aquela nação se tornou um dos grupos mais ricos do país. Obviamente que isso chamou atenção de muita gente, que começou a gravitar em torno deles. No entanto, o número de mortes entre os osages era assustador nos anos 1920. Geralmente os casos eram considerados acidentes ou decorrentes de doenças cujo organismo Osage ainda não estava acostumado. Sim, é para soar estranho mesmo. Na mente de Scorsese, Leonardo DiCaprio era um investigador que tentava entender o que estava acontecendo por ali a partir do apelo de Mollie (Lily Gladstone) ao presidente dos EUA. As filmagens já tinham começado quando a pandemia de Covid-19 fez tudo parar. Vendo o que estava realizando, Scorsese percebeu que aquela não era a forma correta de contar a história que tinha em mãos. Ele refez o roteiro em parceria com Eric Roth e mudou o foco da trama para tentar ver de dentro os horrores vivenciados ali. Assim, DiCaprio deixou de ser um agente federal (papel agora vivido por Jesse Plemons) e passou a ser o esposo aparentemente tapado de Mollie, Ernest Burkhart, que chega para viver naquela região após sobreviver à guerra. Agora ele está sob os cuidados do tio, William Hale (Robert DeNiro). Ernest se encanta por Mollie, que antes de ser sua esposa, torna-se uma passageira recorrente em seu táxi. Embora tudo indique que Ernest realmente se apaixona por Molly, são os interesses de seu tio, somados à adoração do rapaz por dinheiro que fazem com que ele se torne peça importante nas engrenagens daquele lugar. Scorsese conta como funciona a lógica do homem branco naquela região sem pressa, ressaltando dicotomias que contradizem qualquer oposição que o cinema tradicional fazia entre o indígena apresentado como selvagem e o colonizador como civilizado. Assassinos da Lua das Flores desmonta qualquer discurso nesse sentido e o faz com um vigor invejável. Acho fascinante ver o cineasta aos 81 anos filmar com tamanha energia e, mais ainda, estar disposto a se repensar sem pudores. Digo isso não apenas por sua desenvoltura em mudar o ponto de vista do seu projeto inicial, mas também em absorver as críticas a quem acusa a violência de seus filmes ser estilizada (aqui ela surge mais covarde, absurda e estúpida do que nunca) ou daqueles que disseram que seus filmes não destacavam personagens femininas (um exagero, já que ele rendeu o Oscar para Ellen Burstyn em Alice não Mora Mais Aqui/1974 e Cate Blanchett por Aviador/2004, ele também conseguiu indicações para a precoce Jodie Foster por Taxi Driver/1976, Cathy Mortiarty por Touro Indomável/1980, Lorraine Bracco por Os Bons Companheiros/1991 e Sharon Stone por Cassino/1995, sem falar que foi ele o responsável por revelar a poderosa Margot Robbie em O Lobo de Wall Street/2013). Não sei se isso teve relação ao destaque que foi dado aqui para a personagem Molly Burkhart, mas isso rendeu para Lily Gladstone um dos personagens mais complexos da temporada. Aliás, tenho que agradecer a Scorsese por escalar uma atriz que merecia estar em alta desde sua participação em Certas Mulheres/2016 . É a química entre Lily e DiCaprio que fazem a história de um genocídio ganhar tons de uma história de amor fadada à derrota. Ela está perfeita e desponta como uma das favoritas ao Oscar de melhor atriz. Se DiCaprio está bem (deixando seu personagem ambíguo até após a subida dos créditos - afinal, é possível alguém ser tão tapado? ou ele está fingindo para se safar?), Robert DeNiro está perfeito como o populista cheio de más intenções. Juntar os dois atores favoritos de gerações distintas do cineasta é quase um mimo aos fãs (lembrando que Scorsese foi quem revelou DiCaprio ao produzir O Despertar de Um Homem/1993, também estrelado por DeNiro). Acho que Scorsese ficou tão satisfeito com o resultado de sua ideia repaginada que até deu a graça de sua presença no final, em que realiza uma esquete que soa como uma crítica a quem possa ver uma história dessas como mero entretenimento. Porém, Assassinos da Lua das Flores não é diversão é quase uma reparação cinematográfica no formato de um crucial anti-faroeste. Manter uma narrativa dessas fluindo por três horas e vinte minutos não é para qualquer um e Scorsese o faz com maestria. Obrigado mestre! Seu novo Oscar chega logo logo. 

Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon/EUA - 2023) de Martin Scorsese com Leonardo DiCaprio, Lily Gladstone, Robert DeNiro, Jesse Plemons, Tantoo Cardinal, Cara Jade Myers, John Lithgow, Jillian Dion, Jason Isbell, Scott Shepherd, Tatanka Means, Louis Cancelmi, William Belleau, Janae Collins, Brendan Fraser, Jack White e Martin Scorsese. ☻☻☻☻

Pódio: Alfredo Castro

Bronze: o Homossexual Fugitivo.

3º Sinfonia Inacabada (2006) Alfredo Castro nasceu no Chile em 1955, estudou teatro na Faculdade de Artes na Universidade do Chile e após receber prêmios no teatro ano final dos anos 1970, começou uma extensa carreira na televisão na década seguinte. Não satisfeito com seus dotes artísticos, foi se aprimorar na London Academy of Music and Dramatic Arts nos anos oitenta. A carreira no cinema começou com este filme de estreia de Pablo Larraín, com quem realizou vários trabalhos posteriormente (entre eles O Clube/2015 e o recente O Conde/2023). Aqui, o ator vive um homossexual confinado em um sanatório, mas que planeja sua fuga. Longe de ser o protagonista, ele rouba a cena e se torna o personagem mais interessante em cena. 

Prata: o Psicopata Dançarino
2º Tony Manero (2018) Alfredo interpreta Raul Peralta, um homem  obcecado pelo personagem de Os Embalos de Sábado à Noite. Raul é um sujeito com uma única expressão - que não muda sequer quando está se requebrando ao som da trilha sonora do filme que já assistiu ao uma dezena de vezes e o faz encontrar sentido até nas falas mais toscas do verdadeiro Tony. O sonho de Peralta é participar de um concurso na TV que procura encontrar o melhor Tony Manero do Chile. Ele não se envolve com política (o filme é ambientado na ditadura de Pinochet) e, vale ressaltar, também é um psicopata. O tempo me fez gostar ainda mais deste filme sombrio - e esta parceira de Alfredo Castro com Pablo Larraín os revelaram para o mundo. 

Ouro: o Voyeur Misterioso.
1º De Longe Te Observo (2015) Ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o filme rendeu várias indicações para a atuação de Alfredo Castro no papel de Armando, que poderia ser apenas mais um voyeur se não fosse o dia em que conhece o jovem Elder (Luis Silva), rapaz agressivo, homofóbico e envolvido com gangues de rua. O interesse dele só cresce em torno do rapaz. Começa então um verdadeiro jogo de sedução e poder entre os dois, mas  nada é o que parece. Nas mãos de Castro, Armando torna-se um verdadeiro enigma. Tão incômodo quanto sutil, o filme surpreende ao abordar o cruzamento entre temas sociais e desejos reprimidos. Uma aula de atuação e de cinema. 

#FDS Pablo Larraín: Neruda

 
Gael: personagem perseguindo o seu escritor. 

Pablo Neruda é um escritor que se tornou mundialmente famoso, ao ponto de receber o Nobel de Literatura em 1971. No entanto, em um dos períodos mais sombrios de seu país, o escritor se tornou fugitivo ao final da década de 1940 por ser filiado ao partido comunista (Neruda foi até eleito senador pelo partido). Este período em que Neruda precisou fugir e ficar escondido se tornou o ponto de partida para o filme que fecha o #FinalDeSemana dedicado à obra do cineasta Pablo Larraín. Apesar do teor político da história, o chileno constrói aqui o seu filme mais poético ao dar asas à sua imaginação perante a busca pelo paradeiro do escritor. O espectador já sabe desde o início os passos de Neruda (vivido com gosto por Luis Gnecco), que está a maior parte do tempo ao lado da esposa, Delia (Mercedes Morán), no entanto, enquanto se impõe um cativeiro para a própria segurança, seu temperamento começa a ficar um tanto alterado pela tensão que começa a se construir ao seu redor. Uma fuga para Argentina se torna a solução. Quem se torna responsável por sua captura é o agente Óscar Peluchenneau (Gael Garcia Bernal), que aos poucos se torna o eixo da narrativa que passa a desenvolvê-lo como se fosse um dos personagens do escritor, um policial obcecado por encontrar seu procurado, mas que entra em crise perante sua jornada. Essa ideia de que Peluchenneau é uma criação do próprio Neruda permite que Larraín aprofunde cada vez mais a atmosfera noir do filme. Aqui existem cenas que são lindamente filmadas como uma espécie de reprodução dos clássicos que Hollywood realizava na mesma década em que a trama se passa. Dos figurinos, aos diálogos, passando pelas paisagens que são nitidamente projeções em uma parede, Larraín capricha na embalagem do filme. Curiosamente, o filme estreou no mesmo ano em que ele se aventurou pelo cinema americano com Jackie (2017), que rendeu uma indicação ao Oscar para Natalie Portman no ano em que este aqui pretendia conseguir uma vaga na lista de filme estrangeiro. No entanto, nada disso aconteceu. Muita gente torceu o nariz para Neruda  pela forma como o diretor apresenta o cultuado escritor, visto aqui como um sujeito de boa vida, que foi apontada como "vida burguesa" por vários críticos, que também torceram o nariz para suas visitas a bordeis e o diálogo com uma proletária, cenas que refletem uma imagem que arranha a percepção de um artista comunista engajado (particularmente acho uma ingenuidade imaginar que o escritor fez voto de pobreza durante a vida por ser comunista, já que a ideologia que ele acreditava está muito além do que essa superficialidade). Larraín não tinha a mínima intenção de criar um retrato fidedigno de Neruda - e visitando seus filmes posteriores envolvendo figuras históricas, como a já citada Jackeline Kennedy, Lady Di (em Spencer/2021) ou Pinochet em O Conde (2023), sabemos que seu interesse em criar histórias sobre esses personagens é muito mais um artístico do que documental. O melhor do filme é ver como o filme é construído de forma quase surreal até pouco antes do desfecho, naquele momento belíssimo no gelo com um monólogo estupendo de Gael. Tendo em vista que para Larraín ninguém é sagrado (basta ver a participação minúscula reservada a Alfredo Castro, seu ator favorito), trata-se de um filme de encher os olhos (e os ouvidos). 

Neruda (Chile/2016) de Pablo Larraín com Gael Garcia Bernal, Luís Genecco, Mercedes Morán, Diego Muñoz, Marcelo Alonso, Michael Silva e Pablo Derqui. ☻☻☻☻

sábado, 28 de outubro de 2023

4EVER: Matthew Perry

19 de agosto de 1969 28 de outubro de 2023

Nascido em Massachussets (EUA), Matthew Langford Perry cresceu no Canadá após o divórcio de seus pais. O pai de Matthew também era ator, o que lhe rendeu o interesse pela profissão. No entanto, durante a adolescência, a paixão pelo tênis quase o fez desistir da carreira de ator. Desde pequeno, Perry demonstrava interesse pela comédia, exercitando sua habilidade de fazer os outros rirem desde os tempos de escola. A vida de ator começou em 1979, o ator fez algumas participações em programas de televisão, mas as tentativas de um voo solo sempre naufragava por perder espaço para atores mais conhecidos. Nesses tempos chegou a fazer uma participação na primeira temporada de Barrados no Baile (1991), mas o sucesso veio mesmo em 1994 quando conseguiu o papel de Chandler Bing na cultuada série Friends. A sitcom durou dez anos e lhe rendendo um dos maiores salários da TV e uma indicação ao Emmy. A fama lhe rendeu papeis de destaque no cinema como em Fools Rush In (1997) com Salma Hayek e Three to Tango (1999) com Neve Campbell, mas a carreira no cinema não decolou. Perry realizou outros programas para a televisão, mas seus problemas pessoais provocados pelo uso excessivo de analgésicos (após um acidente de jet ski em 1997) prejudicaram sua carreira. Perry foi encontrado em casa com sinais de afogamento. 

#FDS Pablo Larraín: Ema

 
Mariana e Gael: atuações decepcionantes. 

Ema (Mariana Di Girolamo) é uma dançarina que está em crise pessoal. Tudo indica que a crise teve início quando seu desejo de ser mãe encontrou um grande obstáculo quando descobriu que seu marido, Gastón (Gael Garcia Bernal), um artista performático, era estéril. Os dois resolveram então adotar um menino nas portas da adolescência, só que Ema teve que enfrentar suas próprias frustrações diante da maternidade através de um menino que não nasceu de seu ventre. Após uma sucessão de acontecimentos, ela decidiu devolver o menino para o lar adotivo de onde o tirou. Só por esse trecho, percebe-se a sensação de fracasso pessoal que paira sobre a personagem e ela é ampliada ainda mais pelo julgamento de todos os personagens que estão ao seu redor, especialmente de sua família que foi diretamente afetada por uma das atitudes do menino. No entanto, com a cabeça mais arejada, Ema sente um grande arrependimento e percebe que fez errado ao desistir do menino quando na verdade deveria tê-lo acolhido. Por outro lado, conforme avança a narrativa de Ema, percebemos que as atitudes controversas do garoto (que não aparece na maior parte do filme) refletem muito do casal que o escolheu para compor um lar. São essas complexidades que tornam o filme de Pablo Larraín um verdadeiro quebra-cabeças, que conforme as peças vão se juntando alcança um retrato no mínimo doentio de sua protagonista. Ela  demonstra ter uma relação bastante complicada com todos que estão ao seu redor e não mede esforços para envolver outros personagens em sua jornada para reaver o filho que deixou para trás. O  curioso é que o diretor faz questão de não explicar muito ao espectador sobre o que está acontecendo, deixando que ele descubra o que se passa na história conforme tenta encaixar as cenas  aleatórias ao longo da sessão. A presença de uma assistente social esperta (a ótima Catalina Saavedra), uma advogada insatisfeita (Paola Gianini) e um bombeiro bonitão (Santiago Cabrera) se tornam peças importantes para o rumo que a trama irá tomar, da mesma forma que o interesse da personagem título por fogo revela muito sobre sua personalidade incendiária. No entanto, embora o roteiro esteja cheio de situações para desenvolver e o diretor invista cada vez mais numa estética moderninha (com cenas de dança, projeções e luzes neon), falta ao casal protagonista a energia para carregar tudo isso nos ombros. Mariana di Girolamo nitidamente não sabe muito bem o que fazer com toda a complexidade de Ema, assim como Gael parece disposto a ser apenas um espectador de todas as situações em que se mete por conta dela. A edição arrastada também não ajuda, de forma que senti uma dificuldade enorme de me envolver com os personagens, especialmente com Ema que mostra-se bastante ardilosa e manipuladora mas sem carisma capaz de seduzir. A última cena do filme só deixa claro que ela é um risco para quem está por perto, inclusive à ela mesma. O filme parece um amontoado de ideias interessantes nunca plenamente desenvolvidas. Apesar de não ter curtido o filme (em cartaz no TelecinePlay) o longa foi eleito o melhor filme Ibero Americano no GP Cinema Brasil em 2022.  

Ema (Chile/2019) de Pablo Larraín com Mariana di Girolamo, Gael Garcia Bernal, Paola Gianini, Santiago Cabrera, Catalina Saavedra, Critián Suárez e Diego Muñoz. ☻☻ 

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

#FDS Pablo Larraín: Post Mortem

Castro: sem vida à beira da ditadura chilena. 

Motivado pela presença do controverso O Conde (2023) na Netflix, resolvi fazer um #FinalDeSemana dedicado ao cineasta chileno Pablo Larraín. Não por acaso, resolvi começar pelo seu segundo longa-metragem. Depois de Sinfonia Inacabada (2006) o diretor resolveu deixar claro que seu estilo estava para além da narrativa truncada que brincava com diferentes tempos na narrativa, seu interesse estava mesmo era em construir desconforto ao explorar personagens problemáticos. Aqui, como em todos seus outros filmes, o ambiente social dos personagens motiva ainda mais a estranheza. Post Mortem é começa ambientado no Chile de 1973, nos últimos dias do governo Allende e às portas da ditadura de Pinochet. O diretor opta por abordar essa chegada ao poder de forma pouco óbvia, ele utiliza um necrotério para demonstrar que a morte e a insegurança pairam no ar. Mario (Alfredo Castro), trabalha no necrotério da cidade, tem interesse em uma vizinha dançarina (Antonia Zeggers), mas mesmo quando a encontra, ele passa a maior parte do filme com a mesma expressão apática e sem se envolver muito com o que está ao seu redor. A cena em que ele vê uma manifestação de dentro de seu carro e resolve atravessa-la  lentamente em sentido oposto demonstra bastante a sua postura diante dos fatos. No entanto, embora todo o cenário ao redor do personagem demonstra a situação complicada que o país atravessa, entre manifestações, ruas vazias e carros incendiados, Mario deixa escapar seu temor em poucas cenas (como aquela em que sem motivo aparente começa a acompanhar o choro de outra personagem como se iniciasse por uma imitação quase obrigatória de sua parceira de cena). Não para de chegar corpos ao necrotério. "Esta mulher apanhou até a morte" diz o legista pouco antes de pedir para que não registre aquilo no laudo, "foi só um comentário", tenta consertar. Mario observa aquilo petrificado, mas não como se estivesse assustado, mas indiferente mesmo. Robótico e um tanto sem reação, até seu corte de cabelo parece ser de alguém fora do eixo. Talvez ele não saiba o que fazer perante a realidade, talvez tenha optado por enfrentar o mundo daquela maneira para não enlouquecer, ou apenas esteja tão morto quanto os corpos com que precisa lidar todos os dias no trabalho. No entanto, a realidade se faz cada vez mais próxima e se esfrega na cara do personagem que tenta manter sua ausência de reação ao longo do filme. Para dar corpo a um personagem tão sem alma o cineasta conta com Alfredo Castro, com quem já havia trabalhado em sua estreia na direção (fazendo um personagem totalmente oposto, mas com igual brilhantismo), assim como também  apareceu em outros filmes posteriores do cineasta. Aqui ele demonstra que consegue ser expressivo mesmo diante de um personagem completamente travado e confuso com relação às emoções e desejos que nutre ao longo da narrativa. Um belo desafio, que permite ao expectador projetar em seu trabalho sua própria leitura perante a apatia ressaltada ainda mais pela fotografia sem vida. 

Post Mortem (Chile/2010) de Pablo Larraín com Alfredo Castro, Antonia Zegers, Jaime Vadell, Marcelo Alonso, Ernesto Malbran e Amparo Noguera. ☻☻☻

Palpites para o Oscar 2024 - Parte II

 
"Maestro" de Bradley Cooper
Depois da derrota de Ataque dos Cães (2021), a Netflix ficou bastante confusa no ano passado ao investir em Glass Onion para o Oscar de melhor filme (!!), deixando em segundo plano o robusto Nada de Novo no Front. Parece que este ano, a gigante do streaming tem certeza que o novo filme de Bradley Cooper irá fazer bonito na premiação. A cinebiografia do maestro Leonard Bernstein tem tudo para cair no gosto da Academia, seu maior problema é o jeitão de "filme feito para o Oscar". Bradley também assume o posto de protagonista e escreveu  o roteiro com Josh Singer. Ainda no elenco estão Carey Mulligan (cotada para melhor atriz como a esposa do maestro), Maya Hawke e Jeremy Strong. 

"Segredos de Um Escândalo" de Todd Haynes
Outra aposta da Netflix para a temporada de ouro é um dos filmes mais badalados do Festival de Cannes deste ano. May-December conta a história de uma atriz (Natalie Portman) que ao fazer uma pesquisa para viver uma personagem, conhece Gracie (Julianne Moore) que se tornou alvo da mídia ao se envolver com Joe (Charlie Melton), um rapaz várias décadas mais jovem. O roteiro azeitado de Samy Burch está cotado para o Oscar, assim como Julianne e Melton podem concorrer como coadjuvantes. Já Natalie Portman, que bancou a produção do filme, precisa correr garantir um lugar na concorrida disputa por uma vaga ao prêmio de melhor atriz. 

"Zona de Interesse" de Jonathan Glazer
Outro filme aclamado no Festival de Cannes que ganha força para a temporada de premiações é este que investe numa narrativa incomum sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial. O filme é todo ambientado em uma casa confortável com um cotidiano aparentemente comum para a década de 1940. A diferença está nos barulhos, cheiros e outras coisas presente nas redondezas... acontece que a tal casa dos sonhos é de um oficial nazista que reside ao lado do campo de concentração de Auschwitz. A forma peculiar com que Glazer narra essa história deve lhe valer algumas indicações, entre elas as de filme estrangeiro, direção, roteiro adaptado e atriz coadjuvante para Sandra Hüller. 

"All of Us Strangers" de Andrew Haigh
Campeão de indicação ao Gotham Awards, O filme conta a história de um roteirista (Andrew Scott) que visita a casa em que viveu durante a infância antes de seus pais falecerem em um acidente. A coisa complica quando ele passa a ver os espíritos de seus pais (Jamie Bell e Claire Foy) e agora eles precisam se relacionar com a sexualidade do filho. O filme é baseado no livro Srangers by de Taychi Yamada e conta com a direção sempre surpreendente de Andrew Haigh (do cult LGBTQ+ Weekend/2011 que já demonstrava gosto por fantasmas do passado no indicado ao Oscar 45 Anos/2015). Filme, direção, roteiro, ator (Scott) e atriz coadjuvante (Claire Foy) são algumas das categorias em que o filme aparece forte até o momento.

"The Holdovers" de Alexander Payne
Quem está de volta para a temporada de prêmios é o cineasta canadense que não emplaca uma indicação ao Oscar desde Nebraska (2013). O filme conta a história de Paul Hunham (Paul Giamatti que faz empo merece uma vaaguinha no Oscar de melhor ator), um solitário professor de História de uma escola preparatória de Massachusetts. Sem família ou amigos, Paul usa suas férias para ficar de olho nos alunos que não conseguiram ir para casa. Quem conhece o histórico do diretor sabe do que ele é capaz com um ponto de partida desses! No elenco ainda estão Dominic Sessa e Da'vine Joy Randolph, que estão cotadíssimos como coadjuvantes da temporada. 
 
"Dinheiro Fácil" de Craig Gillespie
Comédias costumam ficar de lado no Oscar, mas se conseguir apelo nas premiações que o precedem pode ser que tenha chances - ainda mais quando conta com a assinatura de Gillespie que sempre consegue uma indicação aqui e ali para seus filmes. Aqui ele conta uma absurda história real sobre um rapaz comum (Paul Dano) que usa suas economias para comprar ações de uma loja de videogames. Ele posta a respeito na internet, a dica interfere no mercado de ações e se transforma em um movimento que deixa muita gente rica. Só que alguns  bilionários não gostaram nada disso... a sandice tem chances em roteiro e muitos clamam finalmente uma indicação de melhor ator para Paul Dano. Será que acontece?

domingo, 22 de outubro de 2023

CATÁLOGO: Epidemic

Trier em cena: testando a paciência do fã mais devotado. 

O dinamarquês Lars von Trier ganhou ao longo de sua carreira a fama de difícil. Ele foi considerado um sujeito difícil quando cursava cinema, atrizes reclamaram da forma como conduz as filmagens em suas produções. Alguns críticos o detestam da mesma forma como outros o adoram, além disso, o público por vezes não sabe como reagir às suas provocações, seja em entrevistas ou na telona mesmo. No entanto, nada, absolutamente nada, da fama do cineasta me deixou preparado para assistir seu segundo longa metragem: Epidemic (disponível na MUBI). Longa que foi inserido instantaneamente no último lugar na minha lista de filmes do diretor. Mais uma vez, o que ajuda a passar  o tempo (assim como em Elemento do Crime/1984) é identificar o embrião de tudo que o cineasta se tornaria em seus filmes seguintes. Aqui, enquanto o diretor mescla a produção de um filme sobre uma misteriosa epidemia com uma epidemia de verdade ao redor do mundo, vemos mais uma vez o seu estilo provocador, sua vontade de inovar e instigar o espectador perante a forma com que se faz cinema. Aqui para separar realidade da ficção, ele insere uma espécie de selo para que possamos identificar o que é ficção do que seria a realidade de quem está envolvido no projeto. No entanto, sua ânsia de não seguir regras do cinema convencional faz o filme soar mais confuso do que interessante. A ideia de registrar o processo criativo envolvido na tarefa de fazer cinema também aparece em As Cinco Obstruções (2003) que o diretor faria posteriormente, o gosto por uma linguagem mais crua e realista, quase documental também foi melhor aproveitada pelo diretor em Os Idiotas (1998) e até na comédia O Grande Chefe (2006), além de ser a base para a instituição do movimento Dogma95. Quando flerta com a ficção científica, o diretor demonstra que a ideia de levar o gênero a sério lhe perseguia muito antes de Melancolia (2011), o problema é que Epidemic não consegue sustentar o interesse por si só. Os personagens (se é que podemos chama-los assim) não são interessantes ou minimamente desenvolvidos, a mistura de camadas também soa fragmentada demais para que ofereça algum ritmo plausível à narrativa. Diante disso, o elenco está sempre improvisando (basta ver as risadas espontâneas que aparecem a todo instante) e ao se colocar como ator diante da câmera, Lars deixa claro o motivo de ter evitado atuar posteriormente. Apesar da boa aparência, seu carisma não vai muito além do olhar típico de quem está prestes a aprontar. Arrastado e confuso, Epidemic se tornou um fiasco. Sorte que o fez repensar sobre sua forma de fazer cinema e ele ressurgiu com a excelente adaptação de Medeia (1988) para a TV dinamarquesa , para logo depois ganhar às telas novamente com o inebriante Europa (1991) - longa que pavimentou o auge de sua carreira nos anos seguintes. O filme vale pela curiosidade, mas exige disposição até do fã mais devotado. 

Epidemic (Dinamarca /1987) de Lars von Trier com Lars von Trier, Allan de Waal, Ole Ernst, Michael Gelting, Colin Gilder, Svend Ali Hamann, Ib Hansen, Udo Kier, Cæcilia Holbek Trier e Gert Holbek.  

PL►Y: Estranha Forma de Vida

 
Ethan e Pedro: motivando Almodóvar. 

O espanhol Pedro Almodóvar é um dos cineastas mais conhecidos do mundo e desde o final da década de 1980 que Hollywood vive o sondando para dirigir projetos em língua inglesa. De vez em quando, Almodóvar topa um projeto e depois de um tempo, pensa mais algumas vezes e o deixa de lado. Foi assim com a adaptação de Paper Boy (2012) e também com o aclamado Brokeback Mountain (2005). Sobre este, em especial, o diretor parece ter uma certa dose de arrependimento por não ter topado ir até o final do projeto, já que Estranha Forma de Vida é sobre dois cowboys que se apaixonam e tentam viver num mundo de aparências por algumas décadas. Os personagens dessa história de amor complicada pelas convenções sociais são vividos por Ethan Hawke e Pedro Pascal. Como Almodóvar não é bobo, ele sabe exatamente como aproveitar o sex appeal do ator chileno em cena, brincando o tempo inteiro com a sugestão de seu corpo exposto diante da câmera. Pascal está ali visivelmente para colocar uma pimenta latina à rigidez do personagem de Ethan Hawke, os dois atores estão muito bem em um trabalho de contrastes que resulta eficiente desde a primeira cena em que os dois aparecem juntos. No filme, Silva (Pascal) está de volta à sua cidade de origem após 25 anos e reencontra sua paixão do passado, Jake (Hawke) - que agora é o respeitado xerife da cidade. Não demora para descobrimos que algo mais do que a tensão sexual une os dois, afinal, houve um crime na cidade e Silva tem relação direta com o principal suspeito. A cena em que os dois discutem no quarto após matarem a saudade carnal um do outro deixa bem claro que o relacionamento ali é cheio de temores e ressentimentos, evidenciando que Almodóvar tem nas mãos uma dupla de personagens que renderia um dos seus longas mais interessantes em muito tempo. No entanto, Estanha Forma de Vida é um curta-metragem que ganhou notoriedade no Festival de Cannes e chegou a ser lançado lançado nos cinemas brasileiros (junto com uma entrevista do diretor em que ele comenta sobre suas ideia para o filme e como ele imagina a continuação da história), agora o curta está disponível na MUBI. Fico imaginando o motivo do cineasta não fazer um longa-metragem com a ideia completa que tem na cabeça. Este é o segundo curta em língua inglesa que ele realiza nos últimos anos (o anterior foi o mais experimental (e chatinho) A Voz Humana/2020 com Tilda Swinton). Aqui ele deixa mais uma veza impressão de que está tentando se acostumar com outra língua enquanto testa a transição de seu estilo para a Terra do Tio Sam. Produzido pela grife Yves Saint Laurent (que agora se aventura pelo cinema), Estranha Forma de Vida tem potencial de sobra  para se tornar um longa-metragem, mas alguém precisa avisar ao Almodóvar que não precisa ter tanto medo de Hollywood, a gente apoia no que for preciso. 

Estranha Forma de Vida (Strange Way of Life / Espanha - França) de Pedro Almodóvar com Pedro Pascal, Ethan Hawke, Pedro Casablanc, Manu Ríos, José Steane, José Condessa e Jason Fernández. ☻☻☻

PL►Y: Wes Anderson em Curtas na Netflix

 

A patota de Wes: Roald Dahl na tela da Netflix. 

Enquanto não assisto Asteroid City (o filme simplesmente não entrou em cartaz na minha cidade ou nas redondezas), a Netflix me deu o presente de ver Wes Anderson em quatro curtas-metragens baseados na obra de Roald Dahl. Anderson é declaradamente fã do autor e já se aventurou pela obra dele no magnífico O Fantástico Senhor Raposo (2009) e agora opta pelo trabalho em live action para adaptar quatro contos do escritor. Devo dizer que minha relação com os curtas foi bastante peculiar. Especialmente porque comecei a ver pelo mais alardeado de todos que é A Incrível História de Henry Sugar e, confesso, que foi o que menos gostei. Talvez seja por conta da duração mais extensa (41 minutos) que fez o filme me parecer um poço de pretensão. Achei o filme um tanto pesado em todos os seu maneirismos para contar a história de um milionário (Benedict Cumberbatch) que cruza o caminho de um homem que é capaz de enxergar sem usar os olhos (Ben Kingsley). Apesar de não ter curtido, fica claro ali o estilo do diretor impresso com uma narrativa ainda mais peculiar, já que ele faz questão de deixar a sensação de que o texto literário foi adaptado na íntegra, com o narrador (aqui vivido por Dev Patel, em ótima estreia na patota do diretor) por vezes descrevendo não apenas as emoções dos personagens como também as ações que são apresentadas em imagens. Mais do que tagarelice, uma sandice, mas que por vezes soa engraçada, assim como cansativa. Wes brinca com a percepção do espectador ao subverter a ideia de que nem sempre o importante é o que está sendo dito (ou quem diz). Comecei a curtir mais a brincadeira quando passei a não direcionar meu olhar para o narrador e ficar de olho no andamento da ação com outros personagens (e aqui o diretor soa como se fizesse troça de quem sempre fala de sua obsessão por simetria, já que com  o narrador em cena,  a ação não está ao centro, mas na visão periférica da cena). Henry Sugar parece na verdade dois filmes emendados e ressalta mais uma vez a paixão de Wes pelo oriente, aqui ele não está nem aí para as acusações de apropriação cultural, já que está plenamente seguro de que construiu um mundo só seu. Outro detalhe que fica latente aqui é um acabamento teatral da mise en scène , especialmente na transição dos cenários e convite à imaginação do espectador para complementar elementos em várias cenas. Confesso que desanimei após este aclamado curta. Sorte que depois eu assisti Veneno, eu nem sabia, mas é o curta-metragem que encerra a série de curtas e o achei o mais divertido com a história de um homem (Benedict Cumberbatch) que encontra uma cobra venenosa dormindo em sua cama e gera uma série de trapalhadas sob a tensão de uma morte eminente. Aqui, a narração de fala acelerada se torna mais orgânica e a rigidez do personagem de Cumberbatch, ao interagir com os elementos narrativos propostos pelo diretor, resulta em algo bastante divertido, embora trate de um tema sério como a xenofobia. O trato bem sacado me fez investir mais um pouco do meu tempo e ver O Caçador de Ratos. Se antes eu já achava o maior barato a forma como Ralph Fiennes (que se tornou membro do cast do diretor em O Grande Hotel Budapeste/) se encaixa nas tramas de Wes (ele também interpreta Roald Dahl sempre que necessário ao longo dos curtas), aqui, ele larga a sua boa aparência para se tornar um sujeito tão esquisito quanto os ratos que ele caça. Seus métodos nada ortodoxos garantem a graça da trama narrada por Richard Ayoade, que por vezes se confunde com o próprio Dahl. O tom nervosinho ganha mais graça ainda com Rupert Friend com cara de "onde eu estava com a cabeça quando contratei esse sujeito?". Embora o final seja bem menos interessante do que sugere, o curta cumpre seu papel sem maiores problemas. É interessante que deixei por último O Cisne, talvez o curta mais melancólico dos quatro, ao contar a história de um garotinho que sofre um bocado na mão de algumas pessoas mal intencionadas. Aqui Rupert Friend assume a narrativa e ganha pleno destaque já que é ele que fala a maior parte do tempo. O ator narra, faz vozes diferentes, encena... até que no final, Roald Dahl explica um pouco mais sobre o seu jovem personagem, cuja inspiração veio de uma triste história real que foi publicada nos jornais da época. O Cisne resulta então num filme sobre inocência, adaptação e sobrevivência. É o mais dramático dos quatro e flerta até um pouco comoo horror devido a violência que sugere (em todos os curtas as cenas mais chocantes são apenas narradas). Embora a maioria dos críticos bata palmas para A Incrível História de Henry Sugar, acho que O Cisne, com toda sua beleza triste, seria meu favorito para conquistar vários prêmios e, quem sabe até conceder finalmente um Oscar para Wes Anderson (ele merece faz tempo). 

A Incrível História de Henry Sugar ( / EUA-2023) de Wes Anderson com Benedict Cumberbatch, Ben Kingsley, Dev Patel e Ralph Fiennes. ☻☻

O Caçador de Ratos (The Rat Catcher / EUA-2023) de Wes Anderson com Richard Ayoade, Ralph Fiennes e Rupert Friend. ☻☻☻

Veneno (Poison / EUA-2023) de Wes Anderson de Wes Anderson com Benedict Cumberbatch, Dev Patel, Ben Kingsley, Ralph Fiennes e Benoît Herlin . ☻☻☻☻ 

O Cisne (The Swan / EUA - 2023) de Wes Anderson com Rupert Friend, Asa Jennings e Truman Hanks. ☻☻☻☻ 

sábado, 21 de outubro de 2023

PL►Y: Camaleões

 

Benício e Alicia: reencontro 26 anos depois. 

Em 1997, Alicia Silverstone estava no auge após o sucesso de As Patricinhas de Berverly Hills (1995) e se aventurava como produtora em Excesso de Bagagem, filme para o qual escalou Benicio Del Toro para ser seu par. Ela acabou recebendo mais elogios do que ela e ganhando a pecha de salvar o filme, que, ainda assim, foi um fracasso de bilheteria. O sinal vermelho soou na carreira de Alicia que depois acabou se tornando cada vez mais afastada de grandes projetos no cinema. Já Benício ganhou um Oscar quatro anos depois por Traffic e outra indicação por 21 Gramas em 2004. Hoje o ator anda afastado de grandes projetos, mas não deixa de ser curioso que ao produzir Camaleões tenha convidado Alicia para fazer o papel de sua esposa. Se em 1997 a diferença de idade entre os dois chamava a atenção, hoje está longe de incomodar, principalmente porque os dois demonstram uma química que soa mais como cumplicidade no papel do casal Nichols. Ele é um policial que acaba de se mudar por conta de problemas enfrentados na cidade em que viviam. Ela é Judy, a esposa esperta capaz de ajudar o marido a perceber coisas que podem lhe escapar em uma investigação. Salvo as devidas proporções, os dois são apresentados quase como uma dupla de investigadores no filme em cartaz na Netflix. No filme, Nichols de depara com a morte de uma agente imobiliária que estava prestes a se casar com o herdeiro da firma em que trabalha. O tal herdeiro é vivido por Justin Timberlake que tenta ajudar as investigações no que for possível. Acontece que Nichols é calejado (e sua mão ferida parece estar lá para nos lembrar disso) e se por vezes o caminho das investigações parece cada vez mais fácil e óbvio, pode ser sinal de que as coisas não são o que aparentam. O diretor Grant Singer faz um filme que é a cara dos suspenses investigativos dos anos 1990, tanto que demonstra inspiração evidente nos primeiros longas de outro Fincher, o David diretor de Sev7en (1995). Embora não seja tão arrojado e radical como sua fonte de inspiração, Grant tem um trato interessante para apresentar seus personagens como seres de carne e osso, até mesmo quando coloca em cena um personagem esquisitão vivido por Michael Pitt. A narrativa se desenvolve sem pressa e consegue prender atenção pelas suas surpresas que não parecem forçadas, mas anunciadas em pequenas revelações ao longo da sessão. Nada mal para um filme de estreia. Não sei se foi impressão minha, mas aquela última cena deu ao filme o maior jeitão de personagem para um seriado estrelado por Benício e Alicia. Acho que seria uma boa ideia. 

Camaleões (Reptile - EUA/2023) de Grant Fincher com Benicio Del Toro, Alicia Silverstone, Justin Timberlake, Michael Pitt, Frances Fischer e Klaus Glusman.  


PL►Y: O Clube dos Anjos

 

O Clube do Picadinho: na mira de um misterioso cozinheiro. 

Lançado em 1998, O Clube dos Anjos se tornou um dos livros mais queridos da série Plenos Pecados da Editora Objetiva. A série trazia sete livros assinados por autores renomados com tramas inspiradas nos sete pecados capitais. Embora o meu favorito para virar filme fosse Xadrez, Trucos e Outras Guerras do José Roberto Torero (a Ira), também lançado em 1998, fiquei curioso para ver o que o diretor Angelo Defanti fez em seu primeiro filme de ficção. Sabendo se sua experiência em curtas e documentários, imaginei como o cineasta os acontecimento repetitivos que perpassam o livro. Afinal, a escrita de Veríssimo consegue dar conta de manter o interesse com o mistério cheio de ironias sobre um grupo de amigos que se reúnem a tempos para comer, conversar e dizer bobagens. O grupo se conhece desde pequeno e mesmo com suas vidas seguindo caminhos diferentes, tentaram manter o contato. Obviamente que existiram picuinhas aqui, algumas tretas ali, alguns ressentimentos e um bocado de discussões. Ao longo de décadas de amizade, nada mais óbvio que existam algumas roupas a serem lavadas. Autointitulados de Clube do Picadinho, os encontros começaram a ser ameaçados quando o mais velho do grupo faleceu e deixou um clima pesaroso de fracasso sobre os demais membros do público. No entanto, quando Daniel (Otávio Müller) conhece um misterioso cozinheiro de mão cheia chamado Lucídio (Matheus Nachtergaele), o Clube renasce em nome da saborosa gastronomia. Logo estarão reunidos novamente Pedro (Marco Ricca), Samuel (Paulo Miklos), Abel (Ângelo Antônio), Tiago (André Ambujamra), João (Augusto Madureira) e o novato André (Cesar Mello), que entrou meio que por acaso no grupo para substituir o falecido - e parece o mais bem resolvido do grupo. Quem conhece o livro sabe, que logo depois do primeiro jantar, um dos membros irá falecer. Talvez seja pela emoção. Mas após um novo encontro, existe mais um falecimento. Depois tem outro... outro... outro... O Clube dos Anjos é uma história sobre a Gula, o delicioso pecado capital que parece o mais inofensivo, mas aqui se torna-se um pecado mortal. O grupo começa a se questionar se a comida está envenenada, se é tudo uma coincidência e depois se pergunta porque continua se reunindo (e comendo) sabendo do desfecho de cada encontro. Afinal, se correm risco de morrer, qual o motivo de permanecerem comendo? Os motivos para isso deixavam o leitor instigado e, de certa forma, compõe o foco de atenção do filme, embora em alguns momentos o filme escorregue ao abraçar a esquisitice com um tempero sombrio exagerado, que expressa pouco o humor refinado do livro O elenco está em boa sintonia, mas o tom de farsa adotado pelo diretor estraga um pouco o desfecho que explica as motivações de Lucídio topar cozinhar o grupo, este se torna o maior segredo do filme. O Clube dos Anjos é um filme interessante, mas é daqueles casos que eu prefiro o livro, no entanto, sugiro que veja o filme e leia o livro ou vice-versa para experimentar o sabor de cada um.

O Clube dos Anjos (Brasil/2020) de Angelo Defanti com Otavio Müller, MAtheus Nachtergaele, Paulo Miklos, Marco Ricca, Ângelo Antônio, César Mello, André Abujamra e Augusto Madureira.  

Palpites para o Oscar 2024 - Parte I

Apesar da longa greve de atores e roteiristas, as apostas para o Oscar já começaram! E com a temporada de ouro logo ali, com cada vez mais filmes sendo apresentados e cogitados para o prêmio, o blog resolveu dividir as apostas da temporada em três postagens. Se Oppenheimer era  o filme mais cotado até agora para levar o careca dourado para a casa e Barbie ganhou chances em várias categorias, saiba quem são os outros que devem entrar na disputa por uma estatueta:

"Assassinos da Lua das Flores" de Martin Scorsese
Acabando de chegar nos cinemas brasileiros, o novo filme do mestre Martin Scorsese é elogiado desde que estreou no Festival de Cannes. O filme é baseado no best-seller de David Grann e conta uma triste história de amor em meio à uma trama sórdida de traições, cobiça e crimes adotados para dizimar o povo originário americano Osage. Com Leonardo DiCaprio e Robert de Niro no elenco, os maiores elogios ficam por conta do trabalho de Lily Gladstone, que está cotada para o Oscar de melhor atriz, uma das várias indicações que o filme deve receber rumo à consagração na categoria principal. 

"Past Lives" de Celine Song
Sabe aquele filme indie que começa a ser querido pelo público e começa a chamar cada vez mais atenção? Este é o caso deste filme sobre uma história de amor cheia de camadas muito bem exploradas pela direção, elenco e roteiro. Vivendo dois amigos de infância que se encontram em Nova York depois de 20 anos, Nora (Greta Lee) e Hae (Teo Yoo) começam a revisitar o sentimento que sentiam um pelo outro, mas no meio do caminho tem Arthur (John Magaro), o marido de Nora. Delicado e sutil, o filme se tornou a aposta da A24 depois do naufrágio (merecido) de Beau tem Medo.  

"Pobres Criaturas" de Yorgos Lanthimos
Considerado o melhor filme do Festival de Veneza, o novo filme do badalado cineasta grego chega com força para as premiações. Obviamente que a versão feminista de Frankenstein vem carregada com elementos que devem desagradar os mais conservadores, mas a estética e o trabalho do elenco (com aquele estilo seco que o diretor adora) deve garantir indicações para melhor filme, direção, atuações, roteiro adaptado e categorias técnicas. Emma Stone é a favorita ao Oscar de melhor atriz no momento. Será que leva? Ainda no elenco estão Mark Ruffalo e Willem Daffoe, que devem ser indicados a coadjuvantes. 

"Anatomia de Uma Queda" de Justine Trier 
Falando em festival, o ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes tem tudo para ser o filme de língua não inglesa a figurar na categoria principal do Oscar. O filme sobre a truncada investigação de um assassinato colecionou elogios desde que foi exibido no Festival, mas surpreendeu ao não ser o filme indicado da França pra categoria de filme estrangeiro. Não que faça diferença, o filme deve figurar nas categorias principais e render para a alemã Sandra Hüller uma indicação ao Oscar de Melhor atriz pelo papel da mulher que precisa lidar com as suspeitas em torno da morte do esposo. 

"American Fiction" de Cord Jefferson
Meses atrás este filme nem apareceria entre os nomes fortes da temporada, mas bastou ser exibido no Festival de Toronto para sair de lá premiado e com as expectativas lá em cima! Eleito o melhor filme do Festival pelo público, o longa conta de forma esperta uma trama sobre a hipocrisia do mundo literário. No elenco está Jeffrey Wright (que merece ser lembrado no Oscar faz tempo) como o escritor com a carreira estagnada por seu texto não ser "negro o suficiente". Dirigido pelo estreante Cord Jefferson e baseado no livro de Percival Everett, trata-se de um daqueles filmes que pode surpreender nas categorias mais robustas. 
 
"Are You There, God? It's me, Margaret." de Kelly Fremon Craig
Filme que deve receber uma campanha de lembrança rumo à temporada de ouro é essa comédia simpática baseada na aclamada obra de Judy Plume. No filme, Margaret (Abby Ryder Fortson) se muda da cidade para o subúrbio e passa a vivenciar uma outra vida - com destaque para suas indagações sobre religião. O filme estreou no primeiro semestre, mas seu roteiro permanece digno de elogios, assim como o trabalho das coadjuvantes vividas por Rachel McAdams e Kathy Bates. O tipo de filme simpático que garante a torcida dos fãs e que pode surpreender em roteiro adaptado.