domingo, 26 de abril de 2026

PL►Y: Thelma

June: caindo no golpe do telefone. 

Experiente diáriw, imagina que a June Squibb nasceu em Ilinois em 1929. Trabalhou no teatro por décadas e o cinema só abriu as portas para ela em 1985 em Simplesmente Alice (1990), embora tenha trabalhado em várias produções desde então, ela só foi reconhecida em 2013 por seu trabalho em Nebraska, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. Com uma energia impressionante, June se tornou um exemplo de que nunca é tarde para ter uma guinada na vida. Ciente de que nem sempre Hollywood lhe garantirá bons papéis, ela também assina a produção deste filme simpático Thelma, que poderia ter lhe rendido mais atenção nas premiações. Ela vive uma senhora que já passou dos 90 anos e recebe cuidados do neto (Fred Hechinger) após alguns problemas de saúde. Aplicada em aprender a lidar com tecnologia, ela fica indignada quando cai em um golpe e perde dez mil dólares acreditando que seu neto foi preso. Quando todos acreditam que tudo está resolvido, Thelma permanece indignada e pretende reaver a quantia. Ela parte então em busca de quem enganou encontrando velhos conhecidos pelo caminho e um sujeito amargo no desfecho. O melhor de Thelma é a forma como aborda com muito bom humor a postura de idosos diante da vida, os diálogos despretensiosos, a recusa da mente em lidar com um corpo que envelheceu e uma certa teimosia em perceber que sozinho a vida é mais complicada. Escrito e dirigido por Josh Margolin, o filme é uma daquelas produções que agradam sem fazer esforço com seu jeito despretensioso. O elenco de apoio está em plena sintonia e o roteiro tem ótimas sacadas, mas o que chama ainda mais atenção aqui é o olhar carinhoso sobre a protagonista que é valorizada pela atuação irresistível de June. 

Thelma (EUA-2024) de Josh Margolin com June Squibb, Fred Hechinger, Parker Posey, Clar Greg, Richard Roundtree, David Giuliani e Malcolm McDowell. ☻☻☻

.Doc: Celulóide Secreto

James e Sal: nas entrelinhas. 
Censurado diáriw, ainda lembro quando Celulóide Secreto chegou nos cinemas em 1995 e se tornou um dos documentários mais comentados daquela década. Com base no livro de Vitto Russo, o filme aborda como Hollywood lidou com a homossexualidade por muito tempo. Da forma como personagens homossexuais eram presentes de forma cômica no início do século XX (desde o cinema mudo), mas que com a censura décadas depois, mesmo este aspecto precisou ficar restrito às entrelinhas em clássicos como Rebecca (1944), Festim Diabólico (1948), Juventude Transviada (1955) e Ben-Hur (1959), ou aparecendo de forma um tanto mais sugestiva em clássicos esquecidos como Infâmia (1961). No geral, personagens queer eram (!?) punidos no desfecho após vivenciarem seus desejos com muita culpa. É engraçado ver Os Rapazes da Banda (1970) sendo revisto sentindo-se culpado em seu sarcasmo, como se não espelhasse o retrato de um tempo vindo de tanta censura, para depois Cabaret (1972) retratar homossexualidade com mais naturalidade (vale lembrar que levou o Oscar de melhor filme daquele ano) antes de toda uma onda de filmes violentos sobre o mundo queer (Parceiros da Noite/1980 que o diga). Interessante ver que nos anos 1990 houve uma mudança neste olhar que chegou ao mainstream, ainda que carregando marcas do passado como em  Tomates Verdes Fritos (1991), Filadelfia (1993) e até Priscila - A Rainha do Deserto (1994). Entre entrevistas, trechos de filmes e estrelas que se tornaram ícones gays no futuro, o legal  é ver como os roteiristas de diversos tempos lidam com o preconceito para retratar uma parcela do público (incluindo a si mesmos) e "agradar" a outra. Você jamais verá os clássicos do cinema do mesmo jeito. 

Celulóide Seccreto (The Celluloid Closet / EUA - Reino Unido - França - Alemanha / 1995) de Rob Epstein e Jeffrey Friedman com entrevistas com Lilly Tomlin, Shirley MacLaine, Tom Hanks, Whoopi Goldberg, Susan Sarandon, Tony Curtis, Harvey Fierstein e Gore Vidal. ☻☻☻☻

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pódio: Gwyneth Paltrow

Bronze: a noiva desconfiada.

3º O Talentoso Ripley (1999) filha da atriz Blythe Danner e do produtor/diretor Bruce Paltrow, Gwyneth estava com todos os holofotes voltados para ela após o Oscar de melhor atriz (aquele mesmo roubado da Fernanda Montenegro e que virou peso de porta) quando apareceu na telona como Maggie - a namorada do milionário Dickie Greenleaf (Jude Law) que percebe ter algo de muito errado com o Tom Ripley (Matt Damon). Considero a performance aqui melhor do que a que lhe rendeu o Oscar por Shakespeare Apaixonado/1998 (que está fora da lista porque ela nunca me convenceu com aquele bigodinho). Passando de mulher apaixonada à iludida, desconfiada e incompreendida ela está muito competente no papel. 

Prata: a prodígio perdida. 
2º Os Excêntricos Tenenbaums (2001) Gwyneth já estava um tanto desanimada com a vida pós-Oscar, afinal, ninguém se torna a oscarizada mais jovem da categoria impunemente. Talvez por isso, ela tenha vivido Margot Tenenbaum com tanta desenvoltura. A menina prodígio que se torna uma menina complicada, casada com o terapeuta e apaixonada pelo irmão tem aquele estilo contido que Wes Anderson sabia imprimir tão bem aos seus personagens, a diferença é que Gwyneth imprime um calor à personagem que nunca está permitido de vir à tona. Com seu dedo de madeira e figurino que a tornou ícone fashion, Margot quase garantiu a medalha de ouro. Ainda lembro a decepção da atriz quando ela mesma anunciou o Oscar de roteiro original e viu os Tenenbaums perderem para Gosford Park

Ouro: a patricinha inglesa
1º Emma (1996) Sei que existe muito hate em torno de Gwyneth Paltrow, seja por sua empresa de produtos malucos, das pataquadas que ela diz em entrevista ou por conta da Fernandona mesmo, o fato é que houve um momento em que ela era uma jovem atriz promissora. O ponto de virada em sua carreira foi com esta adaptação do clássico de Jane Austen. Na pele da heroína imperfeita, Gwyneth personifica ao mesmo tempo a graça e a arrogância de uma personagem que domina com perfeição a casca de convenções sociais de seu tempo, mas que precisa descobrir sua própria leitura do mundo que a cerca. Embora muitos a achem sem sal, Gwyneth tinha 23 anos durante as filmagens e empresta muito de seus sonhos e ambições à Emma.  

PL►Y: Marty Supreme

Chalamet: foi por pouco...
Frenético diáriw, 2025 marcou a separação dos irmãos Josh e Ben Safdie após o sucesso de Bom Comportamento (2017). Cada um lançou seu filme para temporada a prêmios e restava saber a repercussão dos respectivos trabalhos, se Bem tinha o marketing de The Rock com (o fiasco) Coração de Lutador, Josh tinha Thimothée Chalamet rumo à terceira indicação (e doido para levar desta vez). Desde que estreou, Marty Supreme caiu nas graças da crítica e das premiações, muito por conta da forma surpreendente como conta a história de um rapaz obstinado a se tornar um campeão de tênis de mesa nos anos 1950. Marty Mauser (Chalamet) que também assina a produção ganha a vida vendendo sapatos, mas deseja ser algo mais, só que sua habilidade em se meter em encrencas só perde para sua total falta de escrúpulos para vencer na vida. Ele faz tantos trambiques, passa tanta gente para trás e cai em humilhações variáveis que o roteiro surpreende pela habilidade pop como conta esta história (embalada por hits dos anos 1980 e uma edição moderninha). Josh filma como se estivesse nos anos da nova Hollywood de 1970! É tudo tão visceral que você até esquece a inspiração em uma figura real, o jogador Marty Reisman (1946-2002) que empresta muito do folclore em torno de sua persona para a construção do roteiro. O elenco é espetacular e Chalamet bem que poderia ter levado a estatueta de melhor ator se sossegasse um cadinho. O rapaz parece um furacão que drena a vida de quem cruzar seu caminho, seja a vizinha Rachel (a ótima Odessa A'Zion), a estrela Kay Stone (Gwyneth Paltrow voltando às telas) ou o criminoso Ezra Mishkin (um assustador Abel Ferrara). Indicado a nove Oscars (e levando nenhum), foi merecidamente um dos destaques do ano passado. 

Marty Supreme (EUA - 2025) de Josh Safdie com Thimothée Chalamet, Odessa A'Zion, Gwyneth Paltrow, Abel Ferrara, Fran Drescher, Emory Cohen, Luke Manley, George Gervin e Sandra Bernhard. 

PL►Y: A Longa Marcha

David e Cooper: andar e surtar . 

Relutante diáriw, confesso que eu estava com preguiça de assistir A Longa Marcha. O que fez a diferença foi a recomendação de minha amiga Morgana, que me fez perceber que o filme era mais do que um bando de garotos caminhando mais de uma hora e meia diante da câmera. O fato de ter sido o primeiro livro escrito por Stephen King (nos tempos em que estava no primeiro ano da faculdade, embora só tenha sido lançado após o sucesso editorial de Carrie), traz para a trama uma atmosfera curiosa por conta da alegoria que um jovem dos EUA concebia na década de 1960. A contracultura já existia e deixa a história mais interessante. A trama é sobre um grupo de rapazes que são sorteados, para representar cada um o seu estado em uma longa caminhada que pode render a um deles uma fortuna capaz de mudar suas vidas em um país em tempos de crise. O grupo é escoltado por tanques e militares que são liderados por um autoritário major. Ao longo da caminhada as infrações geram advertências e se ultrapassar o número de infrações aceitáveis, você leva um tiro na cabeça. Durante a caminhada conhecemos um pouco mais sobre os personagens, com destaque para o solitário Peter (David Jonsson) e Garrett (Cooper Hoffman), que recebeu do pai uma educação... diferente e que possui um plano a realizar. Francis Lawrence traz para cá um pouco a atmosfera que utilizou em Jogos Vorazes (2013) em escala intimista e segura a longa caminhada com ângulos variados, montagem ágil e um grupo de atores dispostos a valorizar os diálogos e as surpresas que situam o espectador naquele universo que, embora absurdo, remete a situações atuais (o que valoriza ainda mais a criatividade de King). Se você entrar no clima, pode agradar. A empreitada valeu ao filme o prêmio Robert Altman no último Independent Spirit Awards. 

A Longa Marcha (The Long Walk / EUA -2025) de Francis Lawrence com Cooper Hoffman, David Jonsson, Mark Hamill, Judy Greer, Charlie Pummer, Garrett Wareign, Ben Wang, Joshua Odjick, Jordan Gonzalez e Roman Griffin Davis. 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Na Tela: O Drama

Os noivos: fantasmas do passado. 
Comprometido diáriw, assisti O Drama não por ter nos créditos Robert Pattinson ou Zendaya, mas pela assinatura de Kristoffer Borgli na direção. Depois de ter assistido os dois filmes anteriores do norueguês  (Doente de Mim Mesma/2022 e O Homem dos Sonhos/2023 ambos citados em meus top10 de seus respectivos anos), era inevitável que seu novo projeto despertasse minha curiosidade. O filme conta a história de Emma (Zendaya) e Charlie (Pattinson), os dois se conhecem no maior clima de comédia romântica fofinha e três anos se passam até que resolvem se casar. Eis que uma noite junto a um casal de amigos, resolvem brincar de contar o que já fizeram de mais assustador em suas vidas e o horror paira sobre o que Emma planejou fazer quando era adolescente, mas (para o bem de todos) acabou desistindo. A confissão cai como uma bomba entre o quarteto - e a madrinha Rachel (Alana Haim), que se considera a pessoa mais evoluída da Terra (mesmo tendo confessado uma ação horrenda que praticou contra um menino) resolve execrar Emma. Paira então sobre Charlie o medo de não conhecer a mulher com quem irá se casar. Toda a imagem de mulher doce se desfaz e no lugar disso, paira infinitas desconfianças e inseguranças. Quem conhece o diretor sabe que ele ama um desconforto carregado de um humor maldoso, o que funciona como um tempero diferencial na estrutura do que seria uma comédia romântica. Adorei como Emma recebe um alvo na testa e serve de pretexto para todos errarem em torno dela.  O elenco está ótimo  e valoriza ainda mais as entrelinhas do roteiro que flerta com temas como cancelamento, hipocrisias, mídia, engajamento, militância, lacração e principalmente a necessidade de se reinventar para sobreviver (e sim, a cena final é sobre isso). 

O Drama (The Drama / EUA - 2026) de Kristoffer Borgli com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Hailey Gates, Jordyn Curet, Michael Abbott Jr e Sydney Lemon. 

domingo, 12 de abril de 2026

PL►Y: Arco

Arco e Íris: retrofuturismo. 

Colorido diáriw, todo ano uma animação alternativa consegue uma vaga entre os indicados a melhor animação no Oscar, este ano a vaga ficou com o francês Arco dirigido por Ugo Bienvenu. Eu tenho uma tendência a gostar mais destes indicados "diferentões" do que os que levam a estatueta (e o motivo por não ter uma resenha por aqui de Guerreiras do gay K-Pop é que não aguentei ver mais de dez minutos do filme da Netflix). O ponto de partida já desperta interesse: e se o arco-íris for na verdade o rastro de um viajante no tempo? Com um visual retrofuturista, o filme conta a história de Arco, um menino do ano 3000, filho de viajantes no tempo que desobedece a regra de só poder viajar no tempo após os doze anos. Inexperiente e doido para ver dinossauros, ele acaba no ano de 2075. Ali, ele conhece a menina Íris, que tenta lhe ajudar a voltar para casa. Conciliando uma história de aventura enquanto costura uma bela amizade, o filme se torna encantador conforme um certo estranhamento se desfaz. Vale destacar que a amizade não fica restrita às duas crianças, mas se amplia ao trio de adultos que perseguem Arco e que estão longe de ser os vilões da história. O trio surpreende por ser composto por crianças crescidas que não perderam a capacidade de enxergar a possibilidade de fantasia no mundo depois de adultos. Não deixa de ser interessante como o filme apresenta o futuro habitado por Arco como algo idílico, mas de Íris como ameaçador - mas o destaque são as salas de aula cheias de hologramas (que junto à biblioteca fechada e as viagens no tempo, traçam uma perspectiva bem interessante sobre nossa relação com o passado, presente e futuro). Com belos momentos  e um estilo que lembra muito as criações do Estúdio Ghibli, Arco é uma animação com mais a propor do que correria e gritaria para crianças e adultos. 

Arco (França - EUA - Reino Unido / 2025) de Ugo Bienvenu com vozes de Margot Ringard Odra, Oscar Tresanini, Nathanaël Perrot, Alma Jodorowsky, Louis Garrell e Vincent Macaigne. 

sábado, 11 de abril de 2026

FESTIVAL DE CANNES 2026

Finalmente foi divulgada a seleção oficial do Festival de Cannes de 2026! Acho que nem precisa dizer que Cannes se confirmou cada vez mais como o maior Festival de Cinema do mundo, já que os filmes selecionados costumam ser comentados ao longo de todo ano! Basta ver os selecionados (seja na competição ou nas mostras paralelas) para apostar em quem dará o que falar ao longo do ano (e nem precisa ganhar o prêmio principal para isso). A programação conta com filmes novos de Almodóvar, Nicolas Winding Refn, Ira Sachs, Ryûsuke Hamaguchi, Agnès Jaoui, Asghar Farhadi, Paweł Pawlikowski, Hirokazu Koreeda, Lukas Dhont e o que dizer de ter o novo filme de Jane Schoenbrun como filme de abertura? Um deleite para os cinéfilos. A seguir os filmes selecionados para o Festival:

EM COMPETIÇÃO

Minotaur / Andrey Zvyagintsev

El ser querido / Rodrigo Sorogoyen

The Man I Love / Ira Sachs

Fatherland / Paweł Pawlikowski

Moulin / László Nemes

Histoires de la nuit / Léa Mysius

Fjord / Cristian Mungiu

Notre Salut / Emmanuel Marre

Gentle Monster / Marie Kreutzer

Nagi Notes / Hiroshi Fukada

Hope / Na Hong-jin

Sheep in the Box / Hirokazu Koreeda

The Unknown / Arthur Harari

All of a Sudden / Ryûsuke Hamaguchi

The Dreamed Adventure / Valeska Grisebach

Coward / Lukas Dhont

The Black Ball / Javier Ambrossi and Javier Calvo

Life of a Woman / Charline Bourgeois-Taquet

Parallel Tales / Asghar Farhadi

Natal Amargo / Pedro Almodóvar


FORA DE COMPETIÇÃO

Her Private Hell / Nicolas Winding Refn

L’Abandon / Vincent Garenq

L’objet du délit / Agnès Jaoui

La bataille de Gaulle: L’âge de fer / Antonin Baudry

Karma / Guillaume Canet

The Electric Kiss / Pierre Salvadori (Filme de Abertura)

Diamond / Andy Garcia


UM CERTO OLHAR

All the Lovers in the Night / Yukiko Sode

Teenage Sex and Death at Camp Miasma / Jane Schoenbrun

Everytime / Sandra Wollner

Club Kid / Jordan Firstman

I’ll Be Gone in June / Katharina Rivilis

Yesterday the Eye Didn’t Sleep / Rakan Mayasi

The Meltdown / Manuela Martelli

Elephants in the Fog / Abinash Bikram Shah

Iron Boy / Louis Clichy

Ben’imana / Marie-Clémentine Dusabejambo

Congo Boy / Rafiki Farial

Uļa / Viesturs Kairišs

Strawberries / Laïla Marrakchi

Forever Your Maternal Animal / Valentina Maurel

Words of Love / Rudi Rosenberg


CANNES PREMIERE

Visitation / Volker Schlöndorff

Propeller One-Way Night Coach / John Travolta

Kokurojo: The Samurai and the Prisoner / Kiyoshi Kurosawa

The Third Night / Daniel Auteuil

The Match / Juan Cabral e Santiago Franco

PL►Y: À Paisana

Tom e Russell: de aparências.

Censurado diáriw, de vez em quando um filme de temática queer ganha os holofotes no exterior e gera expectativa no público ao redor do mundo. Neste início de ano, este espaço foi ocupado por À Paisana, longa estrelado por Russell Tovey, um ator assumidamente gay e que já apareceu em várias produções sob a temática. No filme ele interpreta Andrew, um homem maduro que costuma ter encontros sexuais em um shopping da cidade. O shopping aliás deve ser o point de pegação mais manjado dali, já que tem até um policial disfarçado para atrair e deter homossexuais que usam o banheiro para outros fins. O policial em questão é Lucas (Tom Blyth), que de início tem naquela missão uma forma de sentir-se desejado por outros homens, já que é incapaz de assumir que não é hétero para a namorada ou família. A coisa se torna um tanto mais complicada quando ele sente forte atração por Andrew. Os dois vão se encontrar alguma vezes e descobrir que são mais parecidos do que imaginam na repressão dos desejos e lidar com uma vida de aparências. Resta saber quem irá resistir mais tempo para não deixar tudo desmoronar. Os atores estão bem em cena e o roteiro é simples, mas eficiente em suas intenções. A montagem escorrega um pouquinho quando recorta a narrativa com cenas granuladas um tanto picotadas.. A diretora Carmem Emini também escreveu o roteiro e demonstra sensibilidade na condução dos conflitos dos personagens, reservando ao menos uma cena picante para os dois amantes. Com duas reviravoltas no meio do caminho, ela consegue conduzir o desfecho para o limite de um personagem que percebe que se não tomar as rédeas de seus desejos, perdera o rumo da própria vida. Destaque para a carta (quase um testamento) e o título em alusão ao estilo discreto, praticamente camuflado de ambos. 

À Paisana (Painclothes / EUA - Reino Unido / 2025) de Carmen Emmi com Tom Blyth, Russell Tovey, Maria Dizzia, Christian Cooke, Gabe Fazio e Amy Forsyth. 

PL►Y: Sorry, Baby

Eva: estreia promissora.
Promissor diáriw, vale a pena registrar o nome de Eva Victor como alguém para se ficar de olho nos próximos anos. A atriz fez sua estreia como diretora com Sorry, Baby e foi lembrada na categoria de melhor atriz em várias premiações independentes e até no Globo de Ouro. No filme, ela dirige, atua e assina o roteiro (que esteve até cotado para o Oscar). Ela vive Agnes (Eva Victor), uma professora e estudante de literatura que está prestes a terminar sua tese. Sua vida seguiria normalmente entre as responsabilidades e as conversas com a amiga Lydie (Naomie Ackie), até que um dia ela vivencia uma situação de abuso sexual com seu orientador. O roteiro de Eva retira tudo que há de apelativo nisso e está mais preocupado nos sentimentos de sua personagem perante a situação e, com isso, subverte expectativas. Agnes prefere tentar superar o trauma e seguir a vida, embora toda a situação se complique enquanto tenta superar o acontecido. Seja nos momentos em que aquela ferida precisa ser tocada (como no momento em que está prestes a se tornar jurada, quando tenta investir em um relacionamento amoroso ou quando alguém menciona o nome de seu abusador) ou quando reflete sobre a vida. Narrado em episódios ambientados um ano após o outro, Sorry, Baby evolui sem grandes explosões emocionais ou maiores surpresas. Pode ser visto como um filme de superação intimista, com as maiores alterações ocorrendo no interior da personagem defendida de forma bastante realista pela diretora. O elenco de apoio também ajuda bastante, especialmente Naomie e Lucas Hedges (estava com saudade dele) no papel de um vizinho que deseja ser algo mais. Mesmo com toda sinceridade impressa na produção, um desfecho mais elaborado fez falta. 

Sorry Baby (EUA-2026) de Eva Victor com Eva Victor, Naomie Ackie, Lucas Hedges, Kellu McKormack, Louis Cancelmi, John Carroll Lynch e Jordan Mendoza.  

domingo, 5 de abril de 2026

Pódio: Selton Mello

Bronze: o palhaço em crise.
3º O Palhaço (2011) o mineiro Selton Mello estreou como ator aos oito anos de idade na novela Dona Santa (1981) da Bandeirantes e desde então acumulou trabalhos que o fizeram ser um dos raros casos de artista mirim que continua a carreira sem maiores percalços na vida adulta. Consagrado no teatro, na televisão e no cinema, ele também investiu na carreira de roteirista e cineasta. Entre seus trabalhos como diretor, merece destaque seu trabalho como o protagonista Benjamin, que é filho de palhaço (vivido por Paulo José), que cresceu num circo, mas que entra em crise com a profissão que o destino teima em lhe reservar. Um trabalho bastante sutil e discreto que lhe valeu o GP Cinema Brasil de melhor ator e diretor. O longa também foi considerado o melhor filme daquele ano. 

Prata: O homem estranho
2º O Cheiro do Ralo (2006) Selton tem tantos trabalhos interessantes no cinema e na TV que fica até difícil escolher somente três (e justo por ser concebido originalmente para a TV que o Chicó do Auto da Compadecida/2000 ficou de fora). Transitando com maestria entre a comédia e o drama, o papel de Lourenço neste filme de Heitor Dhalia lhe caiu como uma luva. O humor bastante peculiar do personagem cheio de manias se tornou um dos grandes destaques da carreira do ator na pele de um sujeito dono de uma loja de empenhos e que realiza jogos de poder bastante cruéis com quem lhe procura. O roteiro adaptado da obra de Lourenço Mutarelli é um verdadeiro achado e recebeu vários prêmios. 

Ouro: O filho pródigo 
1º Lavoura Arcaica (20001) Eu sei que provavelmente você tem outros papéis favoritos do Selton para lembrar, seja do cinema com o oscarizado Ainda Estou Aqui (2024) ou na televisão por seus trabalhos impecáveis como na minissérie Ligações Perigosas (2016), mas eu ainda considero o trabalho dele nesta adaptação de Luiz Fernando Carvalho para a obra de Raduan Nassar um verdadeiro divisor de águas na carreira do ator. André (Selton) é um jovem que abandona a vida ao lado de sua família no interior para buscar outros caminhos. O que seria uma analogia sobre a parábola do filho pródigo recebe outras camadas quando ele retorna para casa dos pais e temas como autoritarismo, rigidez moral e incesto entram em choque em um dos filme mais densos do cinema brasileiro. Um clássico. 

PL►Y: Enterre seus Mortos

Selton: no fim dos tempos. 
Apocalíptico diáriw, o cineasta Marco Dutra assina um dos meus filmes de terror favoritos, Quando eu Era Vivo (2014) e tem em seu currículo outros filme muito interessantes. Não é novidade que ele é apaixonado por histórias de terror e posso dizer que sua assinatura sempre me deixa curioso. Confesso que fiquei um tanto decepcionado com sua nova obra: Enterre seus Mortos que é baseado o livro de Ana Paula Maia. A trama é ambientada em um período em que o fim do mundo se aproxima. Entre chuva de pedras, céu vermelho e uma nova religião que promete a salvação no fim dos tempos, existem crianças enviadas para ilhas de isolamento e uma síndrome que ninguém sabe explicar de onde veio. Nestes tempos sombrios, temos Edgar (Selton Mello), um homem calado e com traumas no passado que trabalha com resgate de animais mortos nas estradas. Ele tem como colega de trabalho o padre excomungado Tomás (Danilo Grangheia) e tem um caso com sua chefe Nete (Marjorie Estiano). Todos vivem na cidade de Abalurdes, que virou cenário de situações tão estranhas quanto os pesadelos de Edgar. São tantos elementos para lidar que o filme se tornou bastante confuso. Antes houvesse se concentrado nos fantasmas pessoais de Edgar, que só se revelam mesmo perto do final. Tomás também tem os seus demônios para exorcizar, mas nem teve tempo com o desfecho que seu personagem recebe. Com seus personagens destinados à danação, o filme é ambicioso com seus diálogos em atrito e abraça uma estética de filme B, mas faltou foco na trama ambientada em um universo bastante rico e particular.  Tive a impressão que ficaria melhor se fosse uma minissérie. 

Enterre Seus Mortos (Brasil - 2025) de Marco Dutra com Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria, Maria Manoella e Gilda Nomacce. 

PL►Y: A Única Saída

Lee: por um lugar ao sol. 

Desesperado diáriw, quando ouvi a história do sul coreano No Other Choice pela primeira vez eu lembrei imediatamente de O Corte (2005) do diretor Costa Gravas e para zero surpresa os dois filmes são baseados no mesmo livro de Joy Collins, no entanto o tratamento narrativo das adaptações cinematográficas são bastante distintas e merecem ser conferidas. Park Chan Wook visivelmente se diverte com as tintas mais absurdas da história do homem que depois de passar anos se dedicando à uma empresa fabricante de papel é mandado embora sem muita cerimonia e decide se livrar de todos os seus possíveis concorrentes a conseguir um novo emprego. Wook é cheio de estilo na composição das cenas, capricha nos ângulos, nas cores na trilha sonora, na montagem e constrói um filme envolvente com a ajuda de um elenco afiado, sobretudo Lee Byung-hun na pele de Yo Man-Soo (que foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel) que consegue explorar as nuances mais secretas da alma mundana de seu personagem (seja na frieza, nas dúvidas, nas incertezas ou nas piadas fora de hora). Ele é seguido de perto por Son Ye-jin na pele da esposa que percebe que algo está errado (mas não sabe se vale a pena mudar de direção). Nesta alegoria sobre a selvageria de um mundo capitalista com cada vez menos empregos e custo de vida cada vez mais alto, o filme nem se inibe em deixar claro que no o final da grande maioria será igual dos oponentes de Man-Soo. Um filme esperto e elogiado, mas que seguiu a sina de deixar Park Chan-Wook fora do Oscar de novo. Será que a Academia achou tudo muito ácido? Já está no meu top10 do ano. 

A Única Saída (Eojjeolsugaeopda Eobsda/ Coreia do Sul - França / 2025) de Park Chan-Wook com Lee Byunh-hun, Son Ye-jin, Woo Seung Kim, So Yul Choi, Par Hee-soon, Yeom Hye-ran, Oh Dal-su e Cha Seung-won. 

PL►Y: Emergência Radioativa

Massaro: catástrofe histórica. 

Acidentado diáriw, assisti a minissérie da Netflix sobre uma situação que me causou pesadelos na infância. Emergência Radioativa aborda o terrível acidente ocorrido com Césio-137 em Goiânia em 1987. Eu tinha oito anos quando a tragédia ganhou atenção dos noticiários e toda aquela situação me provocava arrepios. Na época não entendi muito bem o que havia acontecido, mas a minissérie dirigida por Fernando Coimbra e Iberê Carvalho reconstitui toda a situação alterando os nomes dos personagens e investe num tom investigativo somado a um olhar humanitário sobre os personagens. Toda situação ocorreu devido ao fechamento de forma irregular de um clínica de radiologia, em meio ao prédio abandonado, dois homens acharam uma caixa de chumbo e resolveram vender para o ferro velho. A caixa foi aberta e um pó azul brilhoso causou fascínio nas pessoas que tiveram contato com ele. Não faziam ideia que aquele era o Césio, um isótopo radioativo que causaria estrago na vida das pessoas que tiveram contato com ele. Na minissérie, se dona Tininha (Ana Costa) não houvesse percebido a relação daquela "sucata" com o mal estar que sentiam, a tragédia poderia ter sido muito maior. Na situação de emergência nunca vivida antes no Brasil, novos protocolos tiveram que ser testados e lidar com os interesses políticos que estava em questão. Ao todo quatro mortes imediatas ocorreram, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, mais de 1.000 pessoas receberam monitoramento contínuo e mais de 112 mil foram examinadas na época. Embora a produção escorregue aqui e ali (seja no didatismo, nas frases feitas e no melodrama) ela é bem conduzida e tem ótimo elenco, tanto que já figurou no top10 global da gigante do streaming. 

Emergência Radioativa (Brasil - 2026) de Fernando Coimbra e Iberê Carvalho com Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Antonio Saboia, Alan Rocha, Ana Costa, Marina Merlino, Leandra Leal, Bukassa Kabengele, Tuca Andrada e Emílio de Mello. 

PL►Y: Foi Apenas um Acidente

Foi Apenas um Acidente: Palma de Ouro.  
Premiado diáriw, eu queria muito ter gostado de Foi Apenas um Acidente do iraniano Jafar Panahi, mas não consegui. O filme ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes do ano passado, concorreu ao Oscar de Filme Internacional deste ano e apareceu em várias outras premiações e listas de melhores do ano, mas eu não conseguiria coloca-lo entre meus dez favoritos do ano. Reconheço toda a admiração que Panahi merece em continuar filmando na clandestinidade com toda a perseguição que sofre do governo de seu país, mas o filme me exige um paciência que estou longe de ter. A história começa com o acidente de uma família em uma estrada deserta e no dia seguinte, o pai da família resolve levar o carro para consertar. O dono da oficina suspeita que aquele homem foi responsável por torturá-lo no passado, o sequestra e quase o enterra vivo, mas uma fagulha de sensatez surge e ele resolve procurar outras pessoas que também cruzaram com o mesmo torturador no passado. Cada um deles apresenta um temperamento, do mais ponderado ao mais explosivo, caracterizando não apenas certezas e incertezas diante da identidade do tal homem, mas também se o que estão fazendo é justiça, vingança ou só barbárie mesmo. É um filme bastante atual em sua temática com personagens descrentes do sistema na sociedade em que vivem, mas a discussão se repete por mais de uma hora sem maiores alterações. Como alegoria para a situação o Irã o filme pode até ter conquistado fãs pelo mundo, mas eu achei cansativo, repetitivo e um tanto parecido com Ação entre Amigos (1998) de Beto Brant, filme brasileiro que gosto bastante e que mostra-se mais enxuto e envolvente com uma situação bastante parecida.

Foi Apenas um Acidente (Yek tasadof-e sadeh / Irã - França - Luxemburgo - EUA / 2025) de Jafar Panahi com Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten e Majid Panahi. 

NªTV: Rivalidade Ardente

Hudson e Connor: pegando fogo. 
 Hypado diáriw, acho que não resta dúvidas de que a série mais falada de 2026 até agora é a canadense Rivalidade Ardente, adaptação de uma série de livros escrita por Rachel Reid. A primeira temporada gira em torno de dois jogadores de hóquei, o canadense Shane Hollander (Hudson Williams) e o russo Ilya Rozanov (Connor Storrie). Jogadores de times rivais, os dois sentem uma atração imediata um pelo o outro e após a primeira transa, continuam realizando encontros esporádicos para saciar o desejo que um sente pelo outro. A narrativa é marcada por grandes intervalos temporais e alguns conflitos que os dois possuem diante da relação homoafetiva que se estabelece aos poucos. Existe a necessidade de manter tudo em segredo duelando com a vontade de Shane querer algo mais do que apenas sexo, enquanto Ilya mostra-se bissexual e receoso da repercussão de sua sexualidade em uma cultura legalmente homofóbica como a russa e por aí vai. Sem pudores em criar cenas de sexo entre os dois (embora evite exibição de genitálias), a série se aproveita ao máximo da plasticidade física dos rapazes e não foge muito dos clichês, o diferencial parece ser  a voracidade sexual em apresentar um romance tórrido gay para o grande público. Entendo toda a curiosidade em ver dois homens lindos e de corpos perfeitos se pegando, mas bem que o roteiro poderia desenvolver várias situações que são citadas e abandonadas quase que em seguida (e os dois são talentosos para dar conta disso). Soa tudo apressado e com medo de promover alguma reflexão do meio de tanta testosterona em ebulição. Meu episódio favorito é o quinto em que algumas situações se amarram, mas o sexto (e último) me fez duvidar sobre o fôlego para uma nova temporada. Veremos se o tesão dura mais uma leva de episódios. 

Rivalidade Ardente (Heated Rivalry - Canadá / 2026) de Jacob Tierney com Hudson Williams, Connor Storrie, François Arnaud, Robbie G. K., Christina Chang, Dylan Walsh e Sophie Nélisse.