terça-feira, 29 de setembro de 2026

PL►Y: Eu Já Fui Engraçada

Rachel: em busca de si. 
Traumatizado diáriw, este filme canadense chamou minha atenção pelo título incomum e pela presença de Rachel Sennott que é uma das jovens atrizes mais interessantes do cinema atual. Eu não sabia muito bem qual era a história e a sinopse sobre uma jovem comediante de stand up que tenta encontrar uma garota que ela tomava conta não ajuda muito. Aos poucos você começa a desvendar o tema do filme e quando ele terminou, só pensei que ele merecia mais atenção em sua época de lançamento. Primeiro por misturar temas bastante complicados e, ainda que por vezes os embole durante seu desenvolvimento, o resultado ainda consegue ser bastante acima da média, sobretudo pela sinceridade com que conduz a trama. Não existe uma redenção ou momento catártico que irá salvar as personagens, existe no centro uma relação de amizade que sofre um corte brusco e violento que causa cada vez mais desconforto enquanto não consegue ser confrontado. Rachel Sennott dá conta de uma personagem que transita entre as idas e vindas da narrativa, entre o passado em que se apresentava em shows de humor, se sustentava cuidando da adolescente  Brooke (Olga Petsa), namorava com Noah (Ennis Esmer) e se divertia com os amigos (Sabrina Jalees e Caleb Hearon), já no presente a personagem não sabe muito bem como lidar com um trauma que tirou toda sua vida dos trilhos. A atriz consegue elaborar a personagem nestes momentos distintos com bastante desenvoltura. Depois de dirigir curtas, clipes e séries de televisão, a diretora e roteirista Ally Pankiw faz uma estreia bastante promissora em longa-metragem e consegue estruturar o drama central como uma espécie de suspense que se desvenda aos poucos. Algumas situações do roteiro poderiam ser mais lapidadas, mas nada que comprometa o resultado final. 

Eu Já Fui Engraçada (I Used to Be Funny / Canadá -Reino Unido - 2024) de Ally Pankiw com Rachel Sennott, Olga Petsa, Jason Jones, Sabrina Jalees, Caleb Hearon e Ennis Esmer. ☻☻☻

FILMED+: Pulp - Até Onde Você Vai Por um Bis?

Jarvis: puro suco do britpop.
Amado diáriw, aguardei ansiosamente para a estreia do documentário Pulp: Até Onde Você Vai por Um Bis? na Mubi e assim que o documentário acabou, eu assisti tudo de novo. A produção acompanha o show de nº 566 da banda que foi realizado na lendária O2 Arena em Londres. O show fazia parte da turnê de volta de banda que lançou o álbum More em 2025 quebrando um hiato de 24 anos sem lançar material inédito. Eles até realizaram alguns show aqui e ali, mas os fãs acreditavam que o retorno da banda era cada vez mais incerto. O show ainda rendeu um (ótimo) álbum ao vivo e o documentário faz parte do pacote celebratório em torno da banda do mítico Jarvis Cocker, um dos vocalistas mais interessantes do universo. Dirigido or Garth Jennings, o filme traz cenas de palco entrelaçada com vários registros da banda desde o seu início em 1978 na cidade de Sheffield. A trajetória do Pulp é contada de forma bastante concisa e descontraída pelo vocalista, tornando a produção ainda mais envolvente pelo seu tom bem humorado. Cocker (e lógico que fazem piada com o sobrenome do moço) revisita os álbuns da banda, que inicia meio folk, passa pelo gótico, pela influência da música eletrônica até ganhar o público com toda essa mistura (que inclui Barry White também) no início dos anos 1990 até explodir no sucesso do álbum Different Class (1995). Eu conheci a banda nessa época (ouvindo Disco 2000 e Common People no Lado B da MTV. Bons tempos!). Durante pouco mais de hora e meia de duração, você entende o motivo do Pulp ter se tornado uma banda icônica do britpop. Enquanto Blur e Oasis se matavam por popularidade, a banda de Sheffield parecia estar mais preocupada com o visual retrô e suas esperiências sonoras inconfundíveis. Confesso que sou fã mas já está na minha lista de filmes favoritos do ano. 

Pulp: Até Onde Você Vai por Um Bis (Pulp: What Do You Do for an Encore / Reino Unido - 2026) de Garth Jennings com Jarvis Cocker, Nick Banks, Candida Doyle e Mark Webber e Mark Sainsbury. 
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domingo, 27 de setembro de 2026

PL►Y: Sem Cortes

Kieron: entre personas. 

Polêmico diáriw, ao ser exibido em Festivais e lançado em circuito indie restrito nos Estados Unidos, Sem Cortes recebeu elogios pela ousadia com que constrói os temas em torno do encontro de seus dois personagens principais. Aaron (Kieron Moore) ganha a vida fazendo vídeos eróticos na internet. Uma noite ele é contratado por um dos seus admiradores (Hank Grant), mas o chegar no local do encontro, o homem encapuzado parece querer mais conversar do que fazer outras coisas. Ao longo da conversa, Aaron percebe que existe algo estranho no interesse daquele homem por ele e a coisa se torna ainda mais complexa quando descobre que aquele senhor de cabelos brancos é alguém do seu passado. Este é o longa de estreia de Elliot Tuttle que também assina o roteiro e merece atenção pela coragem com que demonstra interesse em desvendar a personalidade de um personagem tão perigoso quanto o cliente vivido pelo veterano Hank Grant. Ao longo dos diálogos travados entre os dois personagens vemos as camadas de desejo e solidão vividas por ambos, sendo que sempre sempre que o personagem mais velho está em questão, um arrepio percorre a mente do espectador. A produção aborda um tema pesado, mas o faz pelos olhos de Aaron que parecia tão seguro em sua persona online, mas que mostra-se vulnerável ao se reencontrar com seu passado. Sua curiosidade e tentativa de desvendar a mente de seu interlocutor gera situações e emoções que ele nem imaginava reviver. Embora o texto tenha um grande potencial para os palcos (somente dois atores, longos diálogos e somente uma locação), o diretor e o elenco espantam qualquer vestígio de teatro filmado. Embora o sexo seja algo presente desde a primeira cena, a forma como ele e tratado aqui é bastante diferente. Considero o filme uma grande surpresa.

Sem Cortes (Blue Film / EUA - 2025) de Elliot Tuttle com Kieron Moore e Hank Grant. ☻☻☻☻

PL►Y: Bom Garoto

Anson Boon: reabilitação forçada. 

Provocador diáriw, além de O Aniversário, o diretor polonês Jan Komasa lançou outro filme em língua inglesa que está disponível no streaming. Chamado por aqui de Bom Garoto (mais um... aff) o filme se tornou um dos mais controversos do ano passado. O longa conta a história de Tommy (um furioso Anson Boon, um daqueles jovens atores que merece atenção), um rapaz de 19 anos que vive uma rotina de drogas, bebida e violência até que em uma noite em que está completamente dopado, ele é sequestrado. Ele acorda em um porão, com uma coleira acorrentado à uma parede e será submetido a um processo de "reabilitação" forçada comandado por um estranho casal. Chris (Stephen Grahan) e Kathryn (Andrea Riseborough) demoram a demonstrar o que está por trás de suas intenções com o rapaz, mas aos poucos, Tommy e o espectador começam a entender o que está acontecendo. Obviamente que a situação absurda deixa Tommy com medo e revoltado, mas a presença do menino Jonathan (Kit Rakusen) e da diarista Rina (Monica Frajczyk) trarão outras nuances para a temporada em que o rapaz participa do estranho confinamento. Komasa capricha na estranheza da história e se de início concebe Tommy como uma variação do protagonista do aclamado Corpus Christi (2019), aos poucos o desenvolve por outros caminhos. O bom elenco capricha na bizarrice das relações daquela família e embora o filme se repita em algumas cenas, o diretor segura a tensão até o final quando apresenta ao espectador um final surpreendente. A trama que caminha entre dois extremos representada por Tommy e a família que o captura se perde um pouco quando precisa desenvolver o arco de Rina, mas nada que torne o filme menos interessante. 

Bom Garoto (Heel / Polônia - Reino Unido / 2026) de Jan Komasa com Anson Boon, Stephen Graham, Andrea Riseborough, Kit Rakusen, Monica Frajczyk e Savannah Steyn. ☻☻☻☻

sábado, 26 de setembro de 2026

PL►Y: O Aniversário

Kyle e Diane: família em apuros. 

 Assustador diáriw, ouvi muitos comentários sobre este filme que está em cartaz no Prime Video e fiquei muito contente em saber que é dirigido pelo polonês Jan Komasa que dirigiu o excepcional Corpus Christi (2019), que foi indicado ao Oscar no mesmo ano em que lançou o ótimo Rede de Ódio (2020) - façanha que rendeu a ele o título de melhor diretor aqui no blog em 2020. Komasa permanece com sua verve contundente para abordar temas atuais, aqui ele usa o microcosmo de uma família para apresentar ao longo de anos os efeitos de uma sociedade que se permite seduzir pelo discurso antidemocrático. Ellen Taylor (Diane Lane) é uma professora universitária que está prestes a completa 25 anos de casamento com o esposo, Paul Taylor (Kyle Chandler). O casal feliz e unido compartilha a vida com três filhas e um filho (Dylan O'Bryen) que aproveita a comemoração para apresentar a namorada, Elizabeth (Phoebe Dynevor). Acontece que Ellen reconhece Elizabeth como uma de suas ex-alunas, especialmente por conta de um controverso trabalho apresentado durante o curso. A suspeita de que a moça não se aproximou de seu filho por acaso só cresce e a coisa piora conforme o tal trabalho mostra-se o alicerce para uma mudança sócio-política no país. Komasa conta a dissolução desta família em uma sociedade que persegue qualquer pensamento divergente. Se a ideia parece a gênese de uma distopia, ela se torna ainda mais arrepiante quando percebemos semelhanças com o mundo em que vivemos atualmente. Komasa conta esta história com atmosfera novelesca que ganha contornos cada vez mais assustadores. Embora peque pela falta de sutileza, o filme funciona como uma alegoria sem firulas sobre rumos não tão distantes do mundo atual. 

O Aniversário (The Aniversary / EUA -2025) de Jan Komasa com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O'Bryen, Zoey Deutch, Madeline Brewer, McKenna Grace e Daryl McCormack. ☻☻☻☻ 

PL►Y: Pais

Søren e Bodil: jovens de novo. 
Complexo diáriw, faz tempo que estava em busca do filme de estreia do dinamarquês Christian Tafdrup na direção. Christian começou a carreira como ator e alcançou prestígio com seu terceiro longa, Speak no Evil (2022) que recebeu até uma versão hollywoodiana (pavorosa) em  2024. Levando em conta a cronologia dos seus filmes, podemos dizer que ele buscou aprimorar sua capacidade de provocar desconforto na plateia, especialmente na forma como apresenta seus personagens aparentemente comuns até que explore suas relações de forma inusitada. Em Pais ele inicia isso ao apresentar um casal maduro que acaba de ver o filho ir para faculdade. Com a vida universitária, o rapaz se distancia cada vez mais dos pais, principalmente quando encontra uma namorada e a rotina de festas e compromissos se torna constante. A mãe é quem mais sofre com a "síndrome do ninho vazio" e na busca de melhorar a rotina, o casal resolve voltar para o apartamento em que viviam antes do nascimento do filho. É um lugar pequeno (se comparado com a casa que ficou grande demais) e que passa a ser ajeitado para evocar o passado. Eis que os dois acordam jovens novamente e as relações familiares se alteram perante a inconsequência da juventude. Tafdrup afirma que a trama é inspirada em um sonho (ou seria pesadelo?) e a ideia surreal ganha atmosfera onírica em suas mãos. Achei muito interessante a forma como o diretor aborda a mudança na postura dos pais quando rejuvenescem como se perdessem as referências de si mesmos e de tudo o que construíram até ali, mas a ideia perde força quando se esquiva de aprofundar os aspectos mais polêmicos da relação entres os personagens deixando que o espectador crie sua própria leitura rumo ao desfecho. 

Pais (Forældre / Dinamarca - 2015) de Christian Tafdup com Søren Malling, Bodil Jorgensen, Elliott Crosset Hove, Miri Ann Beuschel, Anton Honik e Christian Tafdrup. ☻☻☻

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PL►Y: De Volta ao Mar

Saoirse: talento em filme caótico.  

Picotado diáriw, acho que existe um consenso de que a irlandesa Saoirse Ronan é uma grande atriz. Com 32 anos de idade e 23 anos de carreira, ela já possui quatro indicações ao Oscar e todo filme que ela aparece cogitam que outra indicação acontecerá. Foi o que aconteceu com este De Volta ao Mar, em que vive uma jovem alcóolica que tenta colocar a vida novamente nos eixos. Saoirse foi muito elogiada pelo seu trabalho, mas o fato de ser um filme europeu independente e sem muito apelo junto ao público dos Estados Unidos acabou a deixando de fora das grandes premiações. O fato da diretora alemã Nora Fingscheidt optar por contar sua história embaralhando o tempo, com idas e vindas entre passado e presente, também dificulta apreciar o desenvolvimento da personagem, que hora está bem, hora está em crise, hora tem recaída... entender em que fase a personagem está guiado pela cor do seu cabelo é um exercício que cansa antes da metade da sessão. Entre a relação com a família, com o namorado, com os amigos e com a reabilitação, o roteiro ainda costura toda a narrativa com algumas curiosidades gerais que funcionam como analogias à situação da personagem durante as fases de sua vida. Embora Saoirse esteja ótima em cena e conte com "pais" do porte de Stephen Dillane e Saskia Reeves, acompanhar as duas horas de montagem aleatória transforma o filme em uma jornada árdua. É um daqueles casos em que me pergunto se o filme não seria melhor se seguisse uma narrativa linear. Baseado no livro de memórias da jornalista e escritora escocesa Amy Liptrot (será que a narrativa do livro é um fluxo de consciência e o filme tentou fazer o mesmo?) o que achei mais interessante foi a ambientação nas Ilhas Órcades localizadas na Escócia. 

De Volta ao Mar (The Outrun / Reino Unido - Alemanha / 2024) de Nora Fingscheidt com Saoirse Ronan, Paapa Essiedu, Saskia Reeves, Stephen Dillane, Nabil Elouahabi, David Garrick e Izuka Hoyle. ☻☻

PL►Y: O Homem que Sussurra

Robert e Adam: sobre pais e filhos. 
Prezado diáriw, nas últimas semanas ouvi muitos comentários sobre uma produção da Netflix abraçada pelo público, mas que a crítica estava torcendo o nariz. Resolvi ver o filme para chegar às minhas próprias conclusões. O filme é baseado no livro de Alex North e conta a história de um escritor que volta à sua cidade natal após a morte da esposa. Tom Kennedy (Adam Scott) imagina que voltar para as origens pode ser positivo para o filho, Jake (Acston Luca Porto), mas o moço nem cogita voltar a ter contato com o pai (Robert De Niro), um policial aposentado que ficou conhecido na região por sua investigação sobre um serial killer chamado Homem que Sussurra. No entanto, décadas depois, uma série de crimes semelhantes começam a acontecer e uma detetive (Michelle Monaghan) precisa da ajuda do veterano para entender o caso. Tom já tem problemas demais e quer distância de tudo isso, mas, quando o pequeno Jake desaparece, o principal suspeito é o criminoso que repete os procedimentos do famoso assassino - e pai e filho precisam esquecer a roupa suja para ajudar na investigação. Embora tenha um bom elenco e a direção de James Ashcroft seja esforçada, é difícil disfarçar algumas situações difíceis de engolir no roteiro (o próprio retorno de Tom para aquela cidade traumática não faz sentido), mas a forma como o longa insere personagens intrigantes na trama ajuda a prender atenção (embora apresente dificuldades em trabalhar os nós das relações entre pais e filhos). Se Robert De Niro está com cara de que fez o filme para pagar boletos, destaco o trabalho de Michael Keaton como o personagem do título e um irreconhecível Hamish Linklater como um sujeito muito estranho. Não é uma obra-prima, mas deixa a plateia curiosa até o final.

O Homem que Sussurra (The Whisper Man / EUA - 2026) de James Achcroft com  Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan, Michael Keaton, Hamish Linklater, Acston Luca Porto e Owen Teague. ☻☻☻

domingo, 20 de setembro de 2026

PL►Y: No Caminho

Victor: fugindo do passado. 

Ousado diáriw, achei afrontoso o México indicar para tentar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro o drama No Caminho que está em cartaz na HBOMax. O filme conta a história de Veneno (Vitor Prieto Simental), um jovem rapaz que está  fugindo para algum lugar que nem ele mesmo sabe direito onde fica. Aos poucos descobrimos que na verdade ele não está fugindo para um lugar, mas de um lugar que gostaria de nunca ter estado. Devido à sua fuga, ele passa a ser procurado sem ninguém saber ao certo o motivo. Quem aceita lhe ajudar é Muñeco (Osvaldo Sanchez), um caminhoneiro que está distante da família faz tempo e, devido a problemas com as drogas, não tem previsão de ver seus filhos tão cedo. A bordo do caminhão que atravessa estradas poeirentas do México, eles ensaiam algumas conversas até que se tornam próximos. A proximidade só aumenta com a sensação de solidão e isolamento, mas enquanto Veneno imagina que algo sério possa nascer dali, Muñeco não está disposto a ceder um espaço ao parceiro de viagem em sua vida. A coisa complica quando um crime atravessa o caminho da dupla e as desconfianças podem colocar a vida dos dois em risco. Sem  pudores em apresentar cenas tórridas e genitais masculinos expostos, dificilmente o filme cairá no gosto dos votantes do Oscar. O diretor David Pablos  marca a narrativa com um tom de desespero baseado na necessidade dos personagens principais se apegarem um ao outro, embora as circunstâncias se tornem cada vez mais hostis. O resultado  é uma história de amor marcada pela violência com um final assustador. Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez apresentam bons trabalhos em personagens complicados e bem que mereciam um final feliz diante das mazelas do roteiro.  

No Caminho (En El Camino / México - 2025) de David Pabloc com Victor Prieto Simental, Osvaldo Sanchez, Victor Manuel Aguirre, Mariano López Sosa, Giovanni Ontiveros e Héctor Cárdenas. ☻☻☻

PL►Y: Vestido Maldito

Fatma e Marianne: sinistrices. 
Enfeitiçado diáriw, o inglês Peter Strickland é um dos diretores mais curiosos de seu país. Seus longas geralmente possuem um ritmo muito particular, direção de arte caprichada e uma atmosfera hipnótica, geralmente caprichando no suspense alimentado pela estranheza. Foi assim com Berberian Sound Studio (2012), com O Duque de Burgundy (2015) e de forma ainda mais escancarada com este Vestido Maldito. O filme conta a história de um vestido vermelho que está destinado a complicar a vida de quem  o usa. Foi assim desde a primeira modelo que o vestiu para um catálogo e a maldição segue quando Sheila (a ótima Marianne Jean-Baptiste) o compra para vestir em um encontro. A começar com o que parece um problema alérgico, a coisa só piora quando o vestido é colocado para lavar ou quando resolve azucrinar quem mais se aproximar de Sheila. No meio da sessão o vestido vai parar nas mãos de um rapaz (Leo Bill) que está prestes a casar e as situações estranhas passam a ter outro alvo. O filme capricha no visual anacrônico que deixa o tempo em que se passa a história indecifrável e evita explicar demais o que está por trás do tal vestido, mas sugere que esteja relacionado às vendedoras e o estranho proprietário da loja. Particularmente gosto mais da primeira parte com as desconfianças de Sheila de que existe algo de errado com o vestido enquanto precisa lidar com os patrões enjoados. Temperado com um pouco de humor macabro e um cadinho de luxúria, Vestido Maldito pode ser encarado como uma alegoria ao consumismo ou a relação que temos com uma roupa, mas Strickland pega essa ideia e vira do avesso num filme que chega ao caos completo em seu último ato. Embora a ideia possa parecer ridícula, o diretor consegue evitar que tudo caia no ridículo durante toda a sessão. 

Vestido Maldito (In Fabric / Reino Unido - 2018) de Peter Strickland com Marianne Jean-Baptiste, Fatma Mohamed,  Jaygann Ayeh, Richard Bremmer, Steve Oram, Gwendoline Christie e Barry Adamson. ☻☻☻

PL►Y: Supergirl

Milly: garota esforçada. 

Flopado diáriw, Supergirl se tornou uma decepção arrecadando menos do que custou nas bilheterias. O motivo para isso? Talvez seja toda a expectativa em torno do segundo longa-metragem do DCU capitaneado pelo James Gunn. É verdade que ele ficou meio sem opção quando desejou fugir dos nomes dos heróis que ganharam filmes-solo na era Zack Snyder, mas logo depois de levar Superman para as telas investir em um longa da prima do kryptoniano parece mais do mesmo. Embora o filme seja baseado na cultuada HQ A Mulher do Amanhã de Tom King, talvez o espectador aguardasse algo mais robusto do que uma aventura trivial como segundo longa-metragem do famigerado universo. No filme, Kara Zor-El (Milly Alcock) resolve comemorar seu aniversário viajando pelo espaço até que uma órfã com sede de vingança (Eve Ridley) cruza seu caminho e propõe que a ajude a encontrar um grupo de bandidos espaciais que mataram sua família. Kara rejeita a proposta, mas quando sua nave é roubada e a vida de seu cãozinho Krypto é colocada em risco, ela resolve partir em busca dos vilões da história. O diretor Craig Gillespie é craque em lidar com personagens femininas fora da caixinha (basta ver Eu, Tonya/2017 ou Cruella/2021), mas aqui o roteiro não ajuda com a protagonista sempre bêbada, apanhando e usando o famoso uniforme só no finalzinho. A trama roda, roda, roda e não sai do lugar numa aposta arriscada de engajar o público. A bilheteria murcha deve ter soado o alarme e a venda da Warner só complica mais as coisas. Se você olhar o cronograma da DC no cinema a coisa fica ainda mais complicada: Cara de Barro estreia mês que vem e o resto são séries e animações para a TV. Animados?

Supergirl (EUA-2026) de Craig Gillespie com Milly Alcock, Eve Ridley, David Corensweat, Matthias Schoenaerts, Ferdinand Kingsley, Diarmaid Murtagh e David Krumholtz. ☻☻☻ 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: A Natureza das Coisas Invisíveis

Laura e Serena: amizade irresistível. 

Querido diáriw, esta semana a Academia Brasileira de Cinema escolheu o filme Feito Pipa de Allan Deberton para concorrer à uma vaga nas indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Será uma ano complicado sem um concorrente impulsionado pela consagração em grandes festivais até o momento. Quem também estava no páreo para ser escolhido era A Natureza das Coisas Invisíveis que está em cartaz na Netflix e que mostra-se uma verdadeira joia a ser descoberta. É um dos filmes mais fofos que assisti nos últimos tempos e o mais interessante é que consegue o ser tocando em temas bastante sensíveis e até polêmicos. A leveza do filme deve-se muito à opção da diretora e roteirista Rafaela Camelo abraçar a lógica do olhar das meninas protagonistas. Glória (Laura Brandão) está de férias, mas precisa passar os dias no hospital acompanhando sua mãe no trabalho (Larissa Mauro). Lá ela conhece Sophia (Serena), que está no mesmo hospital com a mãe (a ótima Camila Mardila) por conta da bisavó (Aline Marta Maia), que está internada. Enquanto as meninas ficam amigas aproveitando aquele ambiente inusitado, as mães tem um primeiro encontro complicado que logo muda de rumo para que se aproximem também. Logo todas as personagens estarão dividindo um outro cenário em uma trama  bem escrita sobre amizade, amor, morte, aceitação e muitos outros temas que você consegue sentir nas interações daquelas personagens. Embora demore um pouco para engrenar, o filme se torna cada vez mais interessante e chega a um desfecho emocionante. Assista com um lenço que você vai precisar. Uma excelente estreia da diretora Rafaela Camelo em longa-metragem. 

A Natureza das Coisas Invisíveis (Brasil-2025) de Rafaela Camelo com Laura Brandão, Serena, Camila Mardila, Larissa Mauro e Aline Marta Maia. ☻☻☻☻  

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Sonhar com Leões

Denise: estranha onda portuguesa. 
Amargo diáriw, este filme dirigido por Paolo Marinou-Branco é um daqueles que testa as reações da plateia. Muito se deve ao tom tragicômico com que lida com a vida de Gilda (Denise Fraga), uma mulher com câncer em fase terminal que se muda para Portugal com o esposo (Roberto Bomtempo) para participar de um workshop que ensina a morrer com dignidade.  Gilda já tentou o suicídio três vezes e diante da doença que atravessa uma ideia se tornou fixa em sua cabeça: eutanásia. Disposta a aderir ao suicídio assistido, o workshop começa a deixá-la cada vez mais irritada e consciente de que a vida não lhe serve mais. É um tema incômodo e que o diretor e roteirista aborda com doses cavalares de humor negro que mais desafia a plateia do que faz rir. Denise Fraga faz tudo o que pode ao defender uma personagem amarga diante do que o destino lhe reserva. Ela quebra a quarta parede, narra suas tentativas frustradas e ilustra como o diretor/roteirista estava um tanto cansado de ver pessoas doentes terem que demonstrar bravura e heroísmo diante das dores e tratamentos - além de apresentar uma ojeriza à positividade tóxica. Gilda ilustra tudo isso, mas se perde quando o roteiro cai no clichê do romance com seu colega órfão Amadeu (João Nunes Monteiro). É um filme interessante, mas que encontra dificuldade para encontrar o tom certo do humor com críticas ácidas que realiza. Apesar de ser uma coprodução entre Brasil, Portugal e Espanha, o que fica mais evidente é a inspiração do diretor (que nasceu em Nova York, mas é descendente de portugueses e... gregos) no cinema da estranha onda grega que consagrou Yorgos Lanthimos. Existe muito do absurdismo daquele cinema por aqui e talvez por isso seja um desafio para maioria dos espectadores. 

Sonhar com Leões (Brasil - Portugal - Espanha/2024) de Paolo Marinou-Blanco com Denise Fraga, João Nunes Monteiro, Joana Ribeiro, Victoria Guerra, Sandra Faleiro, Roberto Bomtempo, António Durães e Felipe Rocha. ☻☻☻

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Ruas da Glória

Caio: apaixonado pelo abismo. 

Apaixonado diáriw, o cinema queer brasileiro continua rendendo filmes interessantes como este assinado por Felipe Sholl. O carioca já é reconhecido pelos seus roteiros de filmes consagrados como Hoje/2013 e Manas/2025, mas aqui segue por um caminho completamente diferente ao contar a história de Gabriel (Caio Macedo), um professor que se apaixona por Adriano (Alejandro Claveaux), um garoto de programa que lhe quebra completamente a rotina. No entanto, a coisa sai do controle quando Adriano some sem maiores satisfações. Gabriel passa a procurá-lo e deixa sua vida de lado em busca do parceiro perdido. Ruas da Glória pode render várias leituras, uma delas é sobre a dependência emocional de Gabriel que busca absorver a vida de Adriano para fazê-lo presente novamente em sua vida. Entre drogas, orgias e mudar-se para o apartamento do desaparecido, Gabriel se perde na busca do que ele acredita ser o amor que o abandonou. Há quem perceba uma certa ingenuidade no rapaz em cair sem para-quedas (ou salva-vidas) em um relacionamento com um sujeito tão escorregadio, outros apontam uma espécie de crítica ao próprio comportamento do moço ao encarar a relação daquela forma - o que acarreta o último ato em que ele mesmo começa a repensar sua situação (ainda que por linhas tortas). Cheio de nudez e cenas tórridas, o filme é bastante ousado e apresenta uma história cheia de perdição no desejo. Destaque para a beleza com que  o diretor constrói as locações na praia (que funcionam como um respiro em meio ao caos). Ruas da Glória é ousado e não faz questão de agradar todo mundo ao apresentar as camadas mais sombrias de um relacionamento que flerta com o abismo. 

Ruas da Glória (Brasil/2024) de Felipe Sholl com Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini, Ernesto Piccolo e Daniel Rangel. ☻☻☻

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Pódio: Leandra Leal

Bronze: a escritora  obsessiva. 

3º Nome Próprio (2007) Filha da atriz Ângela Leal com o produtor Américo Leal, Leandra começou a atuar no teatro aos sete anos e na adolescência foi trabalhar na televisão no ano seguinte. Entre séries e novelas chegou ao cinema em 1997 e desde então colecionou papéis importantes na telona. Um deles foi neste filme de Murilo Salles em que vive Camila, uma jovem que deseja ser escritora, no entanto, seu processo criativo parece sair do controle quando ela cria um blog e escreve compulsivamente sobre suas experiências nem sempre agradáveis. Sua obsessão com a escrita gera até mesmo um isolamento cada vez maior. O papel rendeu à atriz vários prêmios, incluindo melhor atriz no Festival de Gramado e no Grande Prêmio Cinema Brasil. 

Prata: a menina crescida. 
2º A Ostra e o Vento (1997)  A atriz começava a ser conhecida por seu trabalho na televisão quando foi escalada para realizar este filme de Walter Lima Jr. Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. O longa conta a história de Marcela, uma garota que cresceu em uma ilha ao lado de seu pai faroleiro (vivido por Lima Duarte) e Daniel (Fernando Torres), um senhor que acredita que a menina merecia ter uma vida para além daquele isolamento. Conforme Marcela cresce, sua relação com o pai se torna mais complicada e o vento se torna um elemento poético em uma trama que aborda temas delicados. Fazia dois anos que o cinema brasileiro voltava a respirar e o filme foi um dos mais comentados da era da retomada. Pelo papel de Marcela, Leandra foi eleita melhor atriz do Festival de Biarritz aos quinze anos de idade. 

Ouro: a sofrida vingativa.
1 O Lobo Atrás da Porta (2014) A atriz foi premiada novamente no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro com sua performance avassaladora como neste drama de suspense dirigido por Fernando Coimbra. Leandra vive a mulher que acredita ter encontrado o amor de sua vida, mas sua vida se torna num verdadeiro pesadelo que a mergulhará em uma trama de vingança da qual não há chance de sair ilesa. A atriz faz a transição da personagem da doce jovem apaixonada para uma mulher sem limites de forma arrepiante (e foi indicada aqui no blog como uma das melhores atuações daquele ano). Com 44 anos de idade recém completados e 37 anos de carreira, Leandra Leal é uma das atrizes mais respeitadas do Brasil. Com 24 filmes no currículo e 32 prêmios ao longo da carreira, Leandra também conquistou espaço como produtora e roteirista. 

CICLO VERDE E AMARELO: Os Enforcados

Irandhir e Leandra: em crise. 

Elogiado diáriw, difícil acreditar que um filme tão interessante como Os Enforcados tenha recebido tão pouca atenção. Mesmo o Grande Prêmio Cinema Brasil lembrou dele em somente duas categorias: ator (Irandhir Santos) e ator coadjuvante (Augusto Madeira), deixando de fora o trabalho de atuação mais interessante do filme, o de Leandra Leal. Esta é a segunda colaboração da atriz com o diretor Fernando Coimbra, diretor de O Lobo Atrás da Porta (2014). Leandra vive Regina, a esposa de Valério (Irandhir Santos), os dois são apaixonados e confiam um no outro ao ponto de serem cúmplices em fantasias sexuais, digamos, "agressivas". Os dois vivem num casarão que está numa interminável reforma, mas este se tornará o menor dos problemas quando os negócios ilegais da família começarem a entrar em crise e a solução encontrada pelo casal só trará mais problemas. Entre assassinatos e uma investigação policial, a crise se instaura na confiança do casal. Existe uma tensão absurda no encadeamento dos acontecimentos sórdidos da trama, mas ao mesmo tempo, o filme não deixa de temperar a trama com um senso de humor cortante. Me atrevo a dizer que diante do ótimo elenco, os melhores diálogos são travados entre Leandra e Irene Ravache que vive a sua mãe com uma visão pouco ortodoxa perante os temores da filha. Misturando um drama criminal com referências que vão de clássicos Macbeth e Crime e Castigo ao noticiário diário em sua guerra de criminosos, Os Enforcados é um filme que chama atenção pela sua eficiência narrativa auxiliada por uma montagem perfeita. Além disso, tem Leandra Leal em um daqueles papéis que só comprovam que ela é uma das melhores atrizes de nosso país. Seu trabalho na transformação pela qual Regina passa ao longo da trama é digna de Oscar. 

Os Enforcados (Brasil/2024) de Fernando Coimbra com Irandhir Santos, Leandra Leal, Thiago Thomé, Pêpê Rapazote, Augusto Madeira, Ernani Moraes, Irene Ravache e Stepan Nercessian. ☻☻☻☻

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: (Des)Controle

Carol: indicada a prêmios. 

Querido diáriw, Carolina Dieckmann foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz no Grande Prêmio Cinema Brasil deste ano por conta de seu trabalho neste filme dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm. O trabalho da atriz é o principal motivo para ver o filme, já que por mais que tente aprofundar sua discussão sobre uma personagem alcóolica, o filme por vezes se perde em uma montagem picotada demais que faz a carga dramática da trama perder sua força. Carolina vive Kátia Klein, uma escritora de sucesso que após quinze anos de sobriedade volta a beber por conta de sua realidade estressante. Entre a escrita de um novo livro, problemas com a família e a falta de tempo, a protagonista encontra na bebida um refúgio para sua rotina exaustiva. Se de início ela pensa que está tudo sob controle com um golinho aqui e outro ali, não demora para que a situação se complique colocando em risco sua vida e de pessoas queridas.  Como é comum na carreira de Rosane Svartman (que também se tornou autora de novela após seu sucesso no cinema), apesar do tema sério, a trama é desenvolvida com bastante leveza e toques de bom humor tendo até um toque de surrealismo quando a personagem se vê diante de uma outra versão de si mesma que assume o controle quando se entrega ao vício com cada vez mais frequência. Centrado em sua protagonista, sobra pouco tempo para desenvolver os personagens que estão ao seu redor. No entanto, o maior problema do filme é a edição acelerada, sei que pode ser uma forma de fazer o espectador sentir na pele a sensação da personagens sentir-se perdida diante dos fatos, mas esta opção narrativa prejudica o desenvolvimento de situações importantes ao longo da narrativa. Baseado em histórias reais de superação, o final é exatamente como você imagina. 

(Des)Controle (Brasil/2026) de Rosane Svartman e Carol Minêm com Carolina Dieckmann, Caco Ciocler, Irene Ravache, Daniel Filho, Júlia Rabello e Mouhamed Harfouch. ☻☻☻

domingo, 13 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Love Kills

Thais Lago: vampiros em São Paulo. 

Vampiresco diáriw, a O2 filmes acabou de lançar um canal no Youtube em que colocará filmes de seu acervo em cartaz de forma gratuita, Love Kills é um dos filmes que está em cartaz por lá. Adaptado da graphic novel de Danilo Beiruth, a diretora Luiza Shelling Tubaldini faz um verdadeiro deleite estético na construção de uma cidade de São Paulo habitada por vampiros. Fotografia, figurino, direção de arte, tudo é feito no capricho para contar uma fase complicada da vida imortal de Helena (Thais Lago), uma vampira com mais de cinco mil anos que procura suas refeições pela maior metrópole brasileira. Sua rotina de dormir de manhã e vagar durante a noite é transformada  quando um grupo de vampiros pretende acabar com sua existência. Após a vampira tanto tempo tendo ao seu lado somente o amigo Victor (curiosamente vivido por Flow Kountouriotis), surge um rapaz mortal aparece apaixonado por ela. Leander (Erom Cordeiro) trabalha no bar frequentado por ela e aos poucos descobre que sua amada está longe de ser uma mera mortal. De vez em quando o roteiro arranha a história de Leander, mas ela nunca recebe muita atenção, concentrando o texto em sua relação com Helena. Cheio de estilo, Love Kills inova ao ser um raro filme de vampiro brasileiro, mas por vezes tropeça na própria pose, o que que torna a experiência um tanto artificial. Os diálogos um tanto rebuscados também incomodam, mas se você embarcar na atmosfera proposta pelo filme você é capaz de relevar tudo isso. O capricho da produção não evita também que tenhamos a sensação de que estamos diante do primeiro episódio de uma série para televisão sobre uma vampira que encontra o amor enquanto todos os desafetos colecionados através  dos milênios resolvem se vingar dela. Se você busca um filme brasileiro diferente, este é uma boa pedida. 

Love Kills (Brasil-2025) de Luiza Shelling Tubaldini com Thais Lago, Erom Cordeiro, Flow Kountouriotis, Almir Guilhermino, Gabriela Flores, Rosana Maris e Marat Descartes. ☻☻☻

sábado, 12 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Transe

Luisa e Ravel: de boas intenções...

Fúlgido diáriw, o período das eleições de 2018 se caracteriza como um dos mais estranhos da história recente de nosso país. Nos anos seguintes, a coisa apenas se complicou ainda mais com uma pandemia no meio para embolar ainda mais as lembranças e as emoções da população. No meio da polarização acirrada daquela eleição as diretoras Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor resolveram realizar filmagens do que resultaria em Transe, filme lançado em 2022 com registros daquele período. O filme é um misto de ficção e documentário com base em seu trio de atores interagindo com pessoas nas ruas e improvisando cenas diante da câmera. Em alguns momentos a coisa parece se tornar interessante, mas em outras cai em armadilhas que só denunciam uma fragilidade no discurso que só evidencia certa superficialidade. Luisa Arraes vive Luisa, uma atriz que mora com o namorado músico Ravel (Ravel Andrade). Ela conhece Johnny (Johnny Massaro) em uma manifestação e subitamente se estabelece um trisal. A ideia é que o trio personifique tudo o que incomoda a família tradicional brasileira, mas faltou construir os personagens para que eles parecessem de verdade. A ideia de dar a eles o nome dos atores também não ajuda, assim como os diálogos saídos de uma enciclopédia de clichês, o que dificulta ainda mais a plateia comprar o discurso politizado que tenta imprimir. Algumas pessoas com que os atores interagem tiram o filme do marasmo, mas nada avança como debate interessante sobre um período crucial da realidade sócio-política brasileira recente. O distanciamento temporal só faz a produção soar ainda mais simplista em suas complexas intenções de desvendar o transe coletivo em torno do candidato que seria eleito.  

Transe (Brasil/2022) de Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor com Luisa Arraes, Ravel Andrade, Johnny Massaro, Bella Camero, Matheus Macena e Ana Flavia Cavalcanti. ☻☻

PREMIADOS FESTIVAL DE VENEZA 2026

Woman Unknown: melhor filme e melhor atriz em Veneza

 E o Festival de Veneza chegou ao fim anunciando seus premiados. Gerou alguma polêmica o fato do grande premiado com o Leão de Ouro ser Woman Unknown da diretora May El-Toukhy o único longa da mostra competitiva dirigido por uma mulher. Ainda assim, as qualidades do filme (sobre a rotina de uma empregada na ocupação alemã na Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial) devem lhe garantir algum fôlego para o Oscar do próximo ano - e ao que parece a mídia já anunciou o seu favorito ao Oscar de melhor ator: John Malkovich. A seguir todos os premiados desta edição: 

Leão de Ouro: "Woman Unknown" de May el-Toukhy

Leão de Prata - Grande Prêmio do Júri: "Amor Possível" de Lee Chang-dong

Leão de Prata - Melhor Direção: Ilya Khrzhanovsky (DAU)

Prêmio Especial do Júri: "NAZA"  de Yuval Abraham e Rachel Szor

Melhor Roteiro: "Un bon petit soldat"

Copa Volpi de Melhor Ator: John Malkovich (Cavalo Selvagem Nove) 

Copa Volpi de Melhor Atriz: Mathilde Arcel (Woman Unknown)

Prêmio do Público: "Eu Contez" de Alina Şerban

Melhor Jovem Ator: Malou Khebizi  (A Place to Heal)


terça-feira, 1 de setembro de 2026

4EVER: Gracindo Júnior.

21/05/1943 ✰ 01/09/2026

Epaminondas Xavier Gracindo nasceu no Rio de Janeiro, filho do lendário ator Paulo Gracindo, estreou como ator no teatro em 1962. Na mesma década iniciou seus trabalhos na televisão em produções. Trabalhou nas novelas A Moreninha (1965), Dona Beija (1986), Mandala (1987) e Celebridade (2003) e muitas outras. Em 1980, Gracindo Jr fez um comercial para a Loja Adonis em que inaugurou a nudez masculina na TV (na ocasião ele aparecia sem roupa somente com uma sombra na altura dos quadris). Diretor, roteirista, ator e roteirista, fez mais de vinte filmes ao longo de sua carreira, incluindo Buffo & Spalanzani (2001) e Irmã Dulce (2014). O artista faleceu de causas naturais.