Mostrando postagens com marcador The Tafdrup Collection. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador The Tafdrup Collection. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de setembro de 2026

PL►Y: Pais

Søren e Bodil: jovens de novo. 
Complexo diáriw, faz tempo que estava em busca do filme de estreia do dinamarquês Christian Tafdrup na direção. Christian começou a carreira como ator e alcançou prestígio com seu terceiro longa, Speak no Evil (2022) que recebeu até uma versão hollywoodiana (pavorosa) em  2024. Levando em conta a cronologia dos seus filmes, podemos dizer que ele buscou aprimorar sua capacidade de provocar desconforto na plateia, especialmente na forma como apresenta seus personagens aparentemente comuns até que explore suas relações de forma inusitada. Em Pais ele inicia isso ao apresentar um casal maduro que acaba de ver o filho ir para faculdade. Com a vida universitária, o rapaz se distancia cada vez mais dos pais, principalmente quando encontra uma namorada e a rotina de festas e compromissos se torna constante. A mãe é quem mais sofre com a "síndrome do ninho vazio" e na busca de melhorar a rotina, o casal resolve voltar para o apartamento em que viviam antes do nascimento do filho. É um lugar pequeno (se comparado com a casa que ficou grande demais) e que passa a ser ajeitado para evocar o passado. Eis que os dois acordam jovens novamente e as relações familiares se alteram perante a inconsequência da juventude. Tafdrup afirma que a trama é inspirada em um sonho (ou seria pesadelo?) e a ideia surreal ganha atmosfera onírica em suas mãos. Achei muito interessante a forma como o diretor aborda a mudança na postura dos pais quando rejuvenescem como se perdessem as referências de si mesmos e de tudo o que construíram até ali, mas a ideia perde força quando se esquiva de aprofundar os aspectos mais polêmicos da relação entres os personagens deixando que o espectador crie sua própria leitura rumo ao desfecho. 

Pais (Forældre / Dinamarca - 2015) de Christian Tafdup com Søren Malling, Bodil Jorgensen, Elliott Crosset Hove, Miri Ann Beuschel, Anton Honik e Christian Tafdrup. ☻☻☻

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

PL►Y: Uma Mulher Terrível

Amanda e Anders: como ser refém de uma relação.

O dinamarquês Cristian Tafdrup ganhou fama mundial com os pesadelos de Speak no Evil (2022) que recebeu recentemente um remake que já está em cartaz nos cinemas brasileiros (curiosamente o original permanece sem distribuição por aqui). No filme, uma família sofre na mão dos anfitriões que os recebem para passar um final de semana prolongado. A certa altura, o pai da família visitante pergunta o motivo de fazerem tudo aquilo e o anfitrião responde: "Porque vocês permitiram". Esta ideia da permissão em nome dos modos polidos e boas maneiras também está presente neste filme anterior do diretor: Uma Mulher Terrível (também conhecido como Uma Mulher Horrível em algumas plataformas). A grande diferença é que ao invés do filme se render ao horror, ele conta a história de amor (?) entre Rasmus (Anders Juul) e Maria (Amanda Collin) com um minucioso senso de crueldade que flerta o tempo inteiro com um humor desconcertante. Rasmus é um rapaz que está sempre cercado pelo seu grupo de amigos e em uma das festas promovidas por eles, ele conhece a amiga da namorada de um deles, Maria. O encantamento entre os dois é quase imediato e os dois começam a namorar pouco depois. Não demora muito para que Maria vá morar com Rasmus e o rapaz percebe a necessidade de deixa-la a vontade no apartamento dele, que passa a ser dos dois. No intuito de construir uma vida em comum e minimizar conflitos, ele está sempre disposto a entender e acatar os pedidos da namorada, ele até aceita vender a sua preciosa coleção de CDs para que os livros tomem conta da estante e que o pôster de seu filme favorito saia da parede para dar espaço à uma obra abstrata. Não há nada demais em você ceder espaço para o outro, o problema é quando o outro quer o espaço todo para ele e não sobra nada para você. Sempre na tentativa de agradar Maria, Rasmus se torna uma espécie de refém que considera bastante natural ter que sempre ceder em nome do amor. Mas isso seria amor mesmo? Uma Mulher Terrível pergunta isso ao espectador o tempo inteiro enquanto aguardamos o momento em que Rasmus irá traçar algum limite naquela relação. Se depois de tantos acontecimentos você ainda achar que a postura de Maria não é nada grave, existe aquele momento no museu em que ela destrói qualquer fagulha de simpatia que sua personagem possa despertar no espectador. Lembro de poucas vezes ter visto uma personagem dizer coisas tão cruéis ao seu parceiro com tanta desenvoltura, como se fosse uma metralhadora de ofensas. O pior é o que vem depois. A plateia se pergunta: como alguém pode se sujeitar a um relacionamento assim? Ontem estava indo para o trabalho e tocou Como Eu Quero do Kid Abelha no carro, lembrei automaticamente do filme e como as pessoas escutaram esta música por décadas sem se dar conta que o refrão "eu quero você como eu quero" não usava uma repetição para dar ênfase ao bem querer, mas para dizer que "eu quero você não do jeito que você é, mas do jeito que eu quero que você seja". Ao longo do filme Rasmus deixa de ser ele e nitidamente desaparece em nome do que ele imagina que seja amor. Talvez alguém diga que Maria é uma narcisista, pode ser, mas eu digo que ele tem, no mínimo, Síndrome de Estocolmo. Tafdrup faz aqui um filme interessante que permanece em nossa mente por vários dias e já demonstra sua preocupação com a passividade de seus personagens diante do que não deveriam aceitar.

Uma Mulher Terrível (En frygtelig kvinde / Dinamarca - 2017) de Christian Tafdrup com Anders Juul, Amanda Collin, Rasmus Hammerich, Nicolai Jandorf, Vibeke Hastrup e Christian Tafdrup. ☻☻☻☻

domingo, 23 de abril de 2023

PL►Y: Speak no Evil

Sidsel e Morten (de frente) : não confie em estranhos

Vou começar dizendo que Speak no Evil do dinamarquês Christian Tafdrup se tornou fácil um dos filmes mais assustadores que já vi em toda minha vida. Sei que vai ter gente que dirá que não viu nada demais e que só no final que o filme assusta e tal... para esses eu só posso dizer que se não fosse todo o desenvolvimento do filme até o desfecho, provavelmente o final seria bem menos arrepiante. São pouco mais de hora e meia de projeção, mas tudo é desenvolvido com tanto detalhe que se torna uma verdadeira obra-prima do horror. Não do horror vinculado aos corpos que se empilham ao logo da história, mas um horror psicológico que vai crescendo e se torna devastador por tocar em questões que são universais. O filme gira em torno de dois casais que se conhecem de férias na Toscana, na Itália. Os dinamarqueses Bjørn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch) são pais da adorável Agnes (Liva Forsberg). Ele está sempre com um sorriso no rosto, ela é vegetariana e a pequena está sempre com o coelho de pelúcia por perto. Se os dinamarqueses são o polimento em forma de família, o casal neerlandês, Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders) é mais atirado e comunicativo, embora o pequeno Abel (Marius Damslev) seja bastante quieto e retraído. Conforme a afinidade cresce, surge o convite para os dinamarqueses passarem um fim de semana na casa dos novos conhecidos. Eles pensam por algum tempo, acham que seria deselegante recusar o convite e, conforme dizem a certa altura, "o que pode dar errado?". Tudo. Conformem vivem na mesma casa por alguns dias, as coisas começam a sair dos trilhos em várias situações de desconforto. De grosserias passando por mentiras e o tratamento dado ao pequeno Abel, os visitantes sentem cada vez mais de que existe algo de muito errado por ali.  Quando o filme começa, pouco mais do que a trilha sonora denota que existe algo de ruim para acontecer. Conforme a trilha se torna menos densa, o espectador já está imerso naquele pesadelo.  Outro detalhe é a fotografia que investe no contraste da coloração idílica nas belas paisagens com o tom sombrio em todas as outras locações, com destaque para o preto e o vermelho. Os quinze minutos finais de Speak no Evil são atordoantes. Me deram uma espécie de convulsão nervosa e depois, fiquei paralisado, esta reação acontece muito por conta de ver as consequências de tudo que foi mostrado até ali, mas também pela busca de uma lógica por trás das atitudes do casal neerlandês (a qual procuro até agora) e algo muito parecido com o que acontece a Bjørn dentro do carro. Quando a trilha se eleva novamente é para dar ao desfecho uma conotação quase religiosa e a noção de punição por seus pecados (que não são muito mais do que escolha de caminhos errados, correto?), afinal, como é dito em um diálogo entre os casais, tudo acontece pq Louise e Bjørn permitiram. Terminando quase num retorno ao seu início, você nunca sentirá tanto rancor de um coelho de pelúcia e ainda irá pensar mil vezes antes de aceitar convites de estranhos. O filme apareceu em várias listas de melhores filmes de terror do ano passado e foi indicado Critics Choice de melhor filme de terror e melhor ator (para Fedja van Huêt). Não por acaso, uma versão Hollywoodiana com James McAvoy já está sendo preparada, mas dificilmente terá o impacto do que vemos aqui. Para quem assistiu ao original, o impacto do desfecho do remake nunca será o mesmo. 

Speak no Evil (Dinamarca - Países Baixos / 2022) de Christian Tafdrup com Morten Burian, Fedja van Huêt, Sidsel Siem Koch, Marius Damslev, Karina Smulders e Liva Forsberg. ☻☻☻☻