sábado, 31 de outubro de 2026

NªTV: Slow Horses - 6ª Temporada.

Lowden: só problemas. 

Maratonado diáriw, esta série da AppleTV chegou à sua sexta temporada e permanece como uma das minhas favoritas. Baseada na série de livros Slough House de Mick Herron, a produção merece aplausos pela desenvoltura com que costura suas narrativas através das temporadas, sempre deixando aquela sensação de que tudo pode acontecer: personagens queridos podem morrer ou podem sair do programa e podem retornar quando você menos espera... nesta sexta temporada estes temperos que já faziam a glória dos fãs é elevado à potência máxima já que os agentes rejeitados que já passaram pela Slough House (um lugar da Inteligência Britânica destinada a lidar com arquivos e para onde são encaminhados agentes desprezados que tiveram algum problema em campo, ou seja, o limbo) passam a ser executados um a um. Por conta disso, o desleixado Jackson Lamb (Gary Oldman) precisa tomar algumas providências junto à agora chefona Diana Taverner (Kristin Scott Thomas) - que precisa lidar com os efeitos de algumas ações equivocadas com os russos. No meio disso tudo, River (Jack Lowden) ficará tão feliz quanto o público com a volta de uma personagem muito querida... Entre cenas de ação, piadas e aquelas perseguições que podem terminar de forma imprevisível, a série prende mais uma vez a atenção do espectador ao longo de seus seis episódios (sempre com aquele gancho para segurar as expectativa de um episódio para o outro e... para a nova temporada que já está prontinha).  Se existe algum problema é que aqueles a maioria dos diálogos de troca de insultos entre os personagens já soam cansativos, mas é um defeito pequeno diante do que a temporada entrega (dessa vez até com uma criança desbocada). Ao ver o trailer da próxima temporada eu só lembrava que será a penúltima. Que tristeza!

Slow Horses - 6ª Temporada (Reino Unido - EUA /2026) de Mick Herron com Gary Oldman, Jack Lowden, Kristin Scott-Thomas, Saskia Reeves, Christopher Chung, Aimee Ffion Edwards, Rosalind Eleazar, Ruth Bradley, Tom Booke, Joanna Scanlan e Hugo Weaving. ☻☻☻☻

PL►Y: Mirrors nº 3

Paula: um lugar para ocupar. 

Acidentado diáriw, o diretor alemão Christian Petzold permanece em sua linha mais intimista com Mirrors nº3 e para isso escala novamente uma de suas atrizes favoritas, Paula Beer (Afire/2022, Undine/2020 e Em Trânsito/2018. A atriz vive Laura, uma estudante de música que viaja meio a contragosto com um casal de amigos e o namorado pelo interior da Alemanha. Naquela paisagem bucólica, uma mulher chama atenção de Laura à beira da estrada em frente uma das poucas casas que compõem aquela paisagem. Ela nem imagina que por conta de um acidente ela passará um tempo na casa daquela mesma mulher solitária. Betty (Barbara Auer) acolhe a jovem com bastante zelo e aos poucos uma se instaura na rotina da outra, servindo de companhia e ajuda. A casa vazia está cheia de objetos quebrados que precisam de reparos, o jardim precisa de cuidado, a cerca precisa ser pintada... é como se aquele espaço aos poucos pedisse para se tornar um lar novamente. Quando entra em cena o marido (Matthias Brandt) e o filho (Enno Trebs) de Betty, que moram do outro lado da cidade, o espectador passa a ter certeza de que algo aconteceu e deixou aquela família em pedaços. Petzold mistura os personagens e compõe uma narrativa que evolui através dos detalhes, das roupas que servem perfeitamente em Laura, os cochichos secretos os olhares que sempre parecem esconder algo. Entre interações por vezes cômicas e outras um tanto dramáticas, as relações entre os personagens parecem desenhar um suspense que (propositalmente) nunca se consolida. Quando a revelação surge, ela causa menos impacto do que a expectativa do que acontecerá a seguir. Petzold cria este microuniverso com bastante cuidado e encontra nas atuações de seu elenco em sintonia perfeita o mecanismo ideal para que o filme funcione. Misturando luto, dependência e identidade, Mirrors nº3 parece modesto, mas alcança um resultado interessante dentro de sua proposta emocional. 

Mirrors nº3 (Miroirs nº 3/ Alemanha - 2025) de Christian Petzold com Paula Beer, Barbara Auer, Matthias Brandt, Enno Trebs e Phillip Froissant. ☻☻☻

PL►Y: Tony

Dominic: chef em formação. 

Famoso diáriw, quem também recebeu uma biografia recente foi o renomado chef Anthony Bourdain, que conciliou sua carreira em restaurantes com a de escritor, jornalista e documentarista, tendo ficado famoso mundialmente por conta de seus trabalhos para a televisão. O filme dirigido por Matt Johnson (que também é ator e esteve recentemente em Matt & Mara/2025) foca na juventude de Anthony, ou melhor Tony. Vivido por Dominic Sessa (o ator revelação de Os Rejeitados/2023), o filme parte daquele momento do pontapé inicial para Bourdain se tornar quem seria no futuro. Ele sonhava ser escritor, mas após perder sua bolsa na faculdade, ele parte para o litoral e passa a trabalhar num restaurante simplório de frutos do mar. Não existe nada de glamour aqui. Devido a uma confusão, termina responsável por lava os pratos. Em troca de um teto, dorme em uma rede, acorda com balde d'água na cara todas as manhãs, mas começa a ter cada vez mais interesse pela cozinha. O interesse pelos ingredientes só perde espaço para Nancy (Emilia Jones), uma velha conhecida que nunca deu muita bola para ele. Outro destaque do elenco é Antonio Banderas, no papel do chefe de Tony que se torna uma espécie de mentor e Leo Woodall como o amigo cozinheiro conquistador. Narrado de forma fluente, sem grandes surpresas, Tony é um filme bastante agradável de assistir e torna compreensível como um sujeito como Antony Bourdain se tornou tão admirado. Embora não tenha recebido muita atenção nos cinemas, o filme é uma boa opção para passar o tempo e entrou recentemente em cartaz no PrimeVideo. 

Tony (EUA - Canadá / 2026) de Matt Johnson com Dominic Sessa, Antonio Banderas, Emilia Jones, Leo Woodall, Stavros Halkias e Rich Sommer. ☻☻☻

PL►Y: A Cronologia da Água

Poots: drama pesadão. 
Afogado diáriw, a atriz Kirsten Stewart realizou uma estreia na direção bastante promissora com esta adaptação da biografia de Lidia Yuknavitch, aspirante à nadadora que se tornou escritora. Imogene Poots é responsável por viver a escritora e realiza um ótimo trabalho, especialmente se levarmos em conta as situações pesadas que o roteiro lhe reserva e o fato da montagem optar por um estilo quase aleatório no encadeamento das cenas (mas que não prejudica o desenvolvimento da personagem). No início considerei os cortes intensos bastante cansativos, mas meia hora depois, compreendi a intenção e a própria narrativa começa a fazer sentido enquanto um conjunto de memórias em que fatos presentes trazem à tona situações do passado e estabelece uma relação com situações futuras. É verdade que Lídia sofre um bocado, a infância marcada por situações abusivas vividas por ela e pela irmã (quando crescida é vivida por Thora Birch em uma tristeza contida que cai muito bem à personagem) reserva à Lidia um futuro de relações tumultuadas, álcool, drogas e um tantinho de gosto pela autodestruição. O fato é que no meio de tudo isso, ela começa a perceber na escrita uma forma de exorcizar tudo isso. Vale destacar que seu mentor no ofício de escritora é Ken Kesey (vivido por James Belushi), autor que em 1962 lançou Um Estranho no Ninho. O filme se revela uma montanha-russa de emoções e Kirsten demonstra bastante sensibilidade ao lidar com os vários momentos complicados na vida de sua protagonista. Embora não seja um filme para todos os gostos, gostei da forma como as coisas se encaixam perto do final e oferecem à Lidia a chance de organizar as emoções e a vida, deixando os traumas do passado em seu devido lugar. 

A Cronologia da Água (The Chronology of Water / EUA - França - Letônia / 2025) de Kirsten Stewart com Imogene Poots, Thora Birch, Susannah Flood, Michael Epp, Charlie Carrick, Tom Sturridge, Earl Cave e Kim Gordon. ☻☻☻ 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

PL►Y: Mother Mary

Hathaway: o nome dela é trabalho. 

Famoso diáriw, Anne Hathaway resolveu não ficar em casa nos últimos tempos e lançou cinco filmes ao longo de 2026. O primeiro deles foi um fracasso de bilheteria e recentemente chegou ao streaming. Mother Mary traz a assinatura ilustre de David Lowery, mas que avança pouco em sua relação entre estética e conteúdo. A atriz vive uma cantora pop que está em crise e procura uma antiga estilista (Michaela Coel) para ajudá-la a criar seu figurino para um show. Acontece que as duas tiveram desentendimentos no passado e voltar a trabalhar juntas pode se tornar uma verdadeira tortura psicológica para elas e... para a plateia. Repleto de simbologias e muitos diálogos sobre traumas e ressentimentos, a narrativa costura o reencontro das personagens com algumas cenas de palco que demonstram a transição de uma artista cultuada pelos fãs como uma verdadeira divindade para uma pessoa fragilizada e em crise com seu ofício. Se por um lado a parte estética com figurinos, direção de arte e trilha sonora caprichada (produzida por Jack Artonoff, Charli XCX, FKA Twigs e Daniel Hart, entre outros) que emolduram os dons vocais de Hathaway, o roteiro se enrola na tentativa de ser profundo, mas soa truncado e até banal. Um pouco mais de clareza no desenho do conflito entre as duas personagens cairia muito bem na história. Existe aqui um olhar curioso sobre o universo pop que concilia com uma interessante atmosfera gótica, mas a forma como é desenvolvida deixa a dramaticidade afetada, com muita pose e a necessidade de fazer o sofrimento soar sexy e envolvente. Quando o filme terminou eu fiquei imaginando onde ele queria chegar, já que tive a impressão que ficou parado em seu ponto de partida desde o início.  

Mother Mary (Reino Unido, Finlândia, Alemanha, EUA - 2026) de David Lowery com Anne Hathaway, Michaela Coel, Hunter Schafer, Sian Clifford e FKA Twigs. ☻☻

Na Tela: Cara de Barro

Tom: identidade transformada. 
Derretido diáriw, as coisas andam tão estranhas para o lado da DC nos cinemas que bastou ser lançado um filme mais modesto, com baixas expectativas que o público o abraçou na medida certa. Cara de Barro era um filme que ninguém esperava muita coisa, mas se pagou tranquilamente em seu fim de semana da estreia. O filme é uma história de origem de um dos vilões do Batman que já passou por várias versões nas HQs, aqui Matt Hagen deixa de ser um caçador de tesouros para se tornar um ator famoso que cai em desgraça quando se envolve com a mulher errada. Vivido com competência pelo galês Tom Rhys Harries, Hagen tem seu rosto destruído por um gângster e vê não apenas sua carreira entrar em declínio como sua reputação também. Desesperado, ele se oferece para ser cobaia de um experimento revolucionário com a doutora Caitlin Bates (Naomie Ackie), mas embora os resultados sejam promissores, aos poucos eles percebem que os efeitos não funcionam como os esperados. Aos poucos a pele de Hagen se torna cada vez mais instável, mas os problemas aos poucos se mostram habilidades que podem ajudá-lo em realizar uma vingança. Idealizado por Mike Flanagan como um body horror, a direção caiu nas mãos de James Watkins (responsável pelo remake horroroso de Não Fale Mal/2024) que se sai bem quando lida com a identidade em dissolução do protagonista junto com seu corpo em deterioração, mas encontra dificuldade de apresentar algo mais quando a vingança toma conta da narrativa. No entanto, com um protagonista bem desenhado e cenas marcantes com efeitos convincentes, o público parece ter aprovado o resultado. Fico curioso para saber o espaço que o personagem terá no Universo cinematográfico da DC que ainda soa disperso.

Cara de Barro (Clayface / EUA - 2026) de James Watkins com Tom Rhys Harries, Naomie Ackie, Max Minghella, Nany Carroll, Eddie Marsan, Joana Ribeiro, David Dencik e Joshua James. ☻☻☻

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

4EVER: Patrick Stewart

13/07/1944✰ 28/10/2026 

Filho de uma tecelã e de um militar, Patrick Hewes Stewart ingressou na Royal Shakespeare Company em 1966, estreou na TV em 1967 e na Broadway em 1970. No entanto, seu maior reconhecimento chegou somente em 1987 quando encarnou o capitão Jean-Luc Picard na série Star Trek: The Next Generation (1987-1994). A fama do ator só aumentou quando no ano 2000 encarnou o mutante Professor Charles Xavier nos filmes dos X-Men. Seu trabalho antológico retornará no Universo Cinematográfico da Marvel este ano no novo filme dos Vingadores que estreia em dezembro. O ator faleceu após conviver com Alzheimer. 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

10+ Favoritos entre os Premiados da Mostra Internacional de SP

No início, a Mostra Internacional de São Paulo deixava a cargo do público a função de eleger o melhor filme da mostra. Décadas depois, começou a diversificar, deixando que a crítica e um júri também fizessem suas escolhas. Assim, mais filmes ganhavam projeção na mostra e depois com categorias de ficção e documentários, divididos em produções nacionais e internacionais deixaram as escolhas ainda mais diversificadas, deixando o público mais atento às centenas de filmes que passam todo ano pela mostra. Em 2026 o evento chega à sua 50ª edição e vários dos filmes exibidos por lá receberam postagens por aqui ao longo dos anos. A seguir dez dos meus filmes favoritos que foram premiados nas várias edições. Como é quase impossível classificar tantas obras-primas (já foi difícil escolher somente dez), eu preferi organizá-los por ordem cronológica:

Prêmio da Crítica

Prêmio do Público  

Prêmio do Júri

Prêmio do Júri e Prêmio do Público

Prêmio do Júri 

Prêmio do Público

Prêmio do Público

Prêmio Especial da Crítica

Prêmio do Público 

Prêmio do Público

Prêmio do Público

NªTV: Viva o Cinema! Uma História da Mostra de SP

Cakoff: cinema é resistência!  

Cinéfilo diáriw, diante de toda a atmosfera tensa das eleições de 2026 resolvi me distrair com a minissérie documental Viva o Cinema! da HBO sobre a história da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Disponível no streaming, a produção conta a trajetória da Mostra idealizada por Leon Cakoff desde sua criação em 1977 no MASP e sua expansão pela cidade de São Paulo. Em quatro episódios, acompanhamos os desafios, as amizades, os participantes, os filmes que fizeram história com sua exibição nas edições e a forma como a paixão pelo cinema se mostrou um ato de resistência ao longo dos anos. Cakoff era crítico de cinema e ao idealizar a Mostra nunca teve a ideia de centra-se no glamour dos artistas. Sua ideia principal era valorizar os filmes dos mais variados lugares, das mais variadas culturas e temáticas e aproximar o público de filmes que geralmente não teria acessos nas salas de cinema convencionais. Diante deste ideal enfrentou problemas com a censura nos tempos da ditadura (e chega a ser engraçado quando forçou os censores a ver centenas de filmes a tempo da mostra e ajudou a pressionar pelo fim da censura) mais recentemente enfrentou problemas com perda de patrocínio diante do governo federal passado que olhava com desprezo para a cultura.  Dirigido pelo casal Marina Person e Gustavo Moura de Maria, o programa é uma declaração de amor ao cinema e à Mostra, que fica ainda mais evidente com o cuidado com que contextualiza as edições da Mostra e a relação dos filmes com a realidade do Brasil e do mundo. Dos golpes sofridos pela mostra (a falta de recursos, a morte de Cakoff, a edição online na pandemia...) aos fãs que colecionou ao longo da trajetória (da própria Marina à Quentin Tarantino), Viva o Cinema! é uma celebração à arte e ao cinema enquanto uma forma de olhar o mundo e refletir sobre ele. Só para lembrar, a edição deste ano termina na sexta-feira (29/10)! 

Viva o Cinema! Uma História da Mostra de SP (Brasil - 2024) de Marina Person e Gustavo Moura de Maria com Leon Cakoff, Marina Person, Gustavo Moura de Maria, Renata de Almeida, Daniela Thomas, Serginho Groissman e Jonas Chadarevian. ☻☻☻☻☻ 

NªTV: Tip Toe

Cumming: tempos sombrios. 

Temeroso diáriw, quando a série Tip Toe foi exibida no exterior, li muitas críticas sobre o quanto era sombria sobre a trama de um homem gay que termina assassinado pelo vizinho. Este é o ponto de partida para uma trama que assusta principalmente pela proximidade com a realidade. Ela torna-se ainda mais assustadora quando percebemos que o título (que traduzindo seria algo como "andando na ponta dos pés") se refere à forma como homossexuais sentem a necessidade de serem mais do que discretos para não chamarem atenção e não sofrerem algum tipo de agressão física ou psicológica em tempos em que existe o discurso de que você sair do armário não tem problema algum. Segundo um dos pontos da série, assumir a sexualidade se tornou um verdadeiro alvo com a ascensão de extremistas e seus discursos homofóbicos. Uma questão controversa, mas que faz pensar. A trama conta a história de Leo (Alan Cumming no papel de sua vida), um dono de pub gay e seu amargo vizinho Clive (David Morrissey). Clive é casado e pai de dois rapazes, um de 25 e outro de 16. Sua relação com Leo é pautada pela cordialidade em um nível de tolerância zero em que qualquer respiro pode fazer seus instintos mais primitivos transbordarem de preconceitos (mal sabe ele que seu filho mais velho ganha dinheiro com vídeos eróticos na internet e o caçula está doido para sair do armário). Ao longo dos cinco episódios vemos como a situação chegou ao nível de loucura para que Leo fosse morto diante da vizinhança em plena luz do dia. Tip Toe aborda temas complicados e o faz oscilando entre o trágico e o cômico com uma sucessão de erros que gera revelações que só destacam o quanto Clive está descolado da realidade na fragilidade de sua masculinidade tóxica. O último episódio é assustador e, por isso mesmo, soa bastante real com o ritmo impulsivo dos acontecimentos. 

Tip Toe (Reino Unido /  2026) de Russell T. Davies com Allan Cumming, David Morrissey, Elizabeth Berrington, Pooky Quesnel, Paul Rhys, Jackson Connor, Joseph Evans, Iz Hesketh e Gabriel Clark. ☻☻☻☻ 

domingo, 18 de outubro de 2026

PL►Y: Hit Para Dois

Paul Rudd: compositor roubado. 

Sonoro diáriw, o irlandês John Carney é um diretor de gênero bastante específico já que seus filmes são comédias envolvendo música. Se por um lado ele não ousa, ao menos produz filmes que são agradáveis de assistir (o ideal para se ver para aliviar a cabeça, ainda mais quando percebi que estava assistindo muitos filmes densos ultimamente). Hit Para Dois conta a história de Rick (Paul Rudd) um cantor de casamento que mora na Irlanda e que ao se apresentar em uma festa conhece um astro da música pop chamado Danny Wilson (Nick Jonas), que faz tempo que não lança um sucesso. Os dois se apresentam juntos na festa e depois de umas bebidas resolvem conversar sobre suas composições. Os dois parecem se entender bem e depois cada um segue sua vida... seria assim se Danny não usasse uma das composições de Rick para construir um novo hit. A música se torna um sucesso e o compositor é sequer mencionado. Rick tenta conversar com o moço, mas é evitado a todo custo, o que vira um verdadeiro inferno astral diante da injustiça ocorrida. Sem provas de que é o compositor original da canção, existem conflitos com seus colegas de trabalho, com a família, com a equipe de Danny... a coisa só complica mas de uma forma leve e cheia de gracinhas para não pesar o clima. O roteiro é simples e redondinho e o fato de contar com um bom elenco também ajuda a se envolver com a história com trilha sonora caprichada. Paul Rudd está bem no papel do cantor que deixou a carreira que não decolava para construir uma família - mas que vê naquela situação a chance de ter o reconhecimento que nunca conseguiu. Eu nunca tinha visto um filme com Nick Jonas e achei o moço convincente em seu mal caratismo. Vale destacar que a música que cria toda confusão é gostosinha de ouvir e pode estar no Oscar do ano que vem, especialmente por sua letra ambígua. 

Hit Para Dois (Power Ballad / EUA - Irlanda / 2026) de John Carney com Paul Rudd, Nick Jonas, Peter McDonald, Rory Keenan, Paul Reid, Keith McErlean, Beth Fallon e Marcella Plunkett. ☻☻☻

PL►Y: Suntan

Makis e Elli: paraíso corrompido. 

Ensolarado diáriw, Suntan é um filme que parece muito normal para pertencer ao movimento Estranha Onda Grega. Os personagens conversam normalmente, bebem, trabalham, vão em festas e quase sempre estão na praia. O que pode provocar algum estranhamento por aqui é como alguns frequentam a praia com roupas de banho e outros completamente nus sem maiores surpresas (mas dizem que por lá é assim mesmo dada à atitude liberal em relação ao corpo). No entanto, conforme o filme se aproxima do desfecho existe aquele uso do absurdo, do incômodo, da transição do cômico e do patético para o violento e bizarro de forma repentina. Lançado em 2016, o filme ilustra de forma contundente a confusão existente na mente do seu protagonista sobre o que é o amor e como vivê-lo.  O filme conta a história de Kostis (Makis Papadimitriou), um clínico geral de 42 anos que começa a trabalhar na ilha grega de Antiparos. No verão a ilha fica cheia de turistas que aproveitam as praias e festas locais. Nesse período, Kostis atende Anna (Elli Tringou), que está acampada na ilha junto com alguns amigos. Os dois se aproximam e ele fica animado com a possibilidade de romance com uma mulher com metade de sua idade. No entanto, o que era para ser algo prazeroso se torna uma verdadeira obsessão para Kostis, que mergulha em um declínio moral de consequências assustadoras. O diretor Argyris Papadimitropoulos  é bastante habilidoso em transformar o paraíso em um cenário tenso no decorrer do filme, assim como as atitudes de personagens se tornam cada vez mais humilhantes e desconfortáveis. Makis Papadimitriou cria com precisão a mistura de problemas de autoestima, rejeição e posse num resultado tóxico tornando um homem comum em um ser assustador. Achei que o filme trabalha de forma contundente um tema bastante atual. 

Suntan (Grécia / Alemanha - 2016) de Argyris Papadimitropoulos com , Makis Papadimitriou, Elli Tringou, Hara Kotsali, Milou Van Groesen, Dimi Hart, Marcus Collen e Pavlos Orkopoulos. ☻☻☻

PL►Y: Zonas Úmidas

Christoph e Carla: sem higiene.  

Desagradável diáriw, acredito que este seja o filme mais nojento já realizado. É verdade que você já deve ter visto filmes de terror que possam revirar o estômago, mas este aqui se apresenta como uma comédia dramática ácida que leva a escatologia para onde ninguém ousou ir. Tem tiradas bem humoradas, doses de drama, fotografia límpida e uma edição esperta para envolver o espectador enquanto sua protagonista desafia qualquer padrão de higiene. Se a ideia era  quebrar tabus e causar ojeriza e ainda assim ser interessante (!!), o objetivo é alcançado por dois terços do filme, já que conforme se aproxima do desfecho a coisa fica cada vez mais gratuita, repetitiva e desinteressante. O filme conta a história de Ellen (Carla Juri), uma jovem que tem uma relação problemática com os pais e deixa que isso se reflita em sua relação com o próprio corpo. Se por um lado ela parece ter fetiche por, digamos, fluídos corporais variados, por outro a total ausência de higiene reflete uma personalidade autodestrutiva. Alguns dirão que ela percebe tudo com naturalidade sobre seu corpo, mas isso não evita que ela se corte em uma depilação íntima e caminhe para escola com o sangue escorrendo pelas pernas como se nada estivesse acontecendo. Por conta disso ela vai parar num hospital e parece finalmente receber alguma atenção após anos lidando com pais negligentes. O filme é baseado no livro homônimo de Charlotte Roche e testa os limites do espectador e do próprio cinema com algumas cenas asquerosas. Ao longo da sessão, o destaque é da atriz Carla Juri que aos 28 anos convence na pele de uma adolescente! Dá para perceber que o diretor David Wnendt não tem medo de ousadias e depois adaptou para o cinema o best-seller Ele Está de Volta (2015) - filme obrigatório para os dias atuais. 

Zonas Úmidas (Feuchtgebiete / Alemanha - 2023)  de David Wnendt com Carla Juri, Meret Becker, Christoph Letkowski, Marlen Kruse, Selam Tadese, Axel Milberg e Edgar Selge. ☻☻

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PL►Y: Uma Infância Alemã

Nanning e o tio:  perdendo a inocência. 
Assombrado diáriw, o consagrado diretor Fatih Akin escreveu o roteiro deste filme baseado no livro de memórias do Hark Bohm, filho de um oficial do exército do führer na Segunda Guerra Mundial. Akin e Bohm dividem o texto e realizam um dos filmes mais precisos do ano ao expor as bordas do final da Guerra em um microuniverso que reflete com precisão a realidade daquele país. Nanning (Jasper Billerbeck) tem doze anos e vive com a mãe grávida, o irmão e a tia em uma casa na ilha de Amrum no ano de 1945. O contato com o continente acontece quando a maré fica baixa, mas a cena em que os aviões ingleses bombardeiam  o mar e o menino diz que é para descarregar o peso, ilustram bem o desconhecimento da realidade. Ao longo do filme o menino descobre um pouco mais sobre que está acontecendo, percebe que sua mãe não é a pessoa legal que ele imaginava e que seu pai oficial não é um herói de guerra. Nanning percebe que a situação ao seu redor é estranha quando o simples comentário feliz sobre o retorno do pai para o lar mediante o fim da guerra pode gerar a punição de uma vizinha. A situação das relações são tensas, os mantimentos são escassos e o fio condutor da narrativa é a tentativa do menino conseguir um pão branco, com manteiga e mel para o lanche de sua mãe. Enquanto tenta encontrar os ingredientes para satisfazer aquele desejo, o menino se depara com vários personagens que compõem um universo periférico ao Holocausto na Alemanha. Este universo é composto por pessoas comuns que ajudaram na construção dos horrores que o país atravessou - e as vozes dissonantes estão sempre sob vigilância. São as narrativas e ações destes personagens que fazem o cotidiano de Nanning ser repleto de crueldades em um mundo que nunca mais seria o mesmo (e que de vez em quando teima em voltar ao seu pior estado). 

Uma Infância Alemã (Amrum/ Alemanha - 2025) de Fatih Akin com Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister, Kian Köppke e Diane Kruger. ☻☻☻☻

Pódio: Kyle Chandler

Bronze: o primeiro Lanterna.
3º Lanternas (2026) Embora tenha realizado alguns trabalhos importantes no cinema (como o oscarizado Manchester a Beira-Mar/2016 e no recente O Aniversário/2025), a televisão parece ser o território ideal para os melhores trabalhos do ator nascido no estado de Nova York. Eu fiquei muito feliz quando soube que ele viveria o Lanterna Verde Hal Jordan na série dedicada aos heróis da DC, imaginei que por pior que a produção pudesse ser, ele não decepcionaria. Dito e feito. Embora Lanternas seja um programa problemático de sua concepção até a execução, Kyle está bastante convincente como o super-herói desiludido com toda a estrutura por trás do seu anel de poderes incríveis. Nas cenas em que aparece em sua versão gente boa em holograma, ele demonstra que o problema da série não é sua atuação. 

Prata: o Bom Samaritano. 
2º Early Edition (1996-2000) Foi com esta carinha de menino com pinta de galã da era de ouro de Hollywood que o ator conseguiu seu primeiro papel de grande destaque na TV. Embora atuasse desde os anos 1980, foi no seu papel de homem comum que recebe todas as manhãs um jornal do dia seguinte (e tenta evitar que coisas ruins aconteçam) que o ator demonstrou sua versatilidade em situações cômicas e dramáticas ao longo de quatro temporadas. Pelo papel de Gary, ele foi premiado com o Saturn Awards de melhor ator de televisão. Confesso que eu não perdia um episódio quando a série passava na TV aberta com o nome de Edição de Amanhã. O papel lhe rendeu destaque e  convites para trabalhos no cinema e outras séries.

Ouro: o Treinador Paternal. 
1º Friday Night Lights (2006-2011) o ator se tornou uma celebridade nacional nos Estados Unidos pelo seu papel nesta série querida pelo público americano que acompanha os Dillon Panthers, um dos melhores times de futebol do país, mas o destaque fica com o treinador, Eric Taylor (Chandler) que além de treinar os atletas, também faz hora extra como figura paterna que ajuda os jovens atletas a enfrentarem todos os dilemas que perpassam as temporadas. Aclamado pela crítica e o público, o papel rendeu indicações a vários prêmios ao longo das temporadas e garantiu o Emmy de melhor ator principal em série dramática para Kyle. Hoje aos 61 anos, Kyle se tornou um dos rostos mais populares para os amantes de séries de TV. 

NªTV: Lanternas

Kyle e Aaron: ruim de doer. 
Decepcionado diáriw, a situação para o James Gunn no DCU da Warner deve estar complicada, não apenas pelas mudanças que estão prestes a acontecer no estúdio, mas por conta das produções com o selo DC que foram lançadas este ano. Supergirl se tornou um dos maiores fracassos do ano e a série Lanternas é uma das coisas mais sonolentas que assisti recentemente. Todo universo do Lanterna Verde é um dos mais interessantes da editora, mas tiveram a ideia brilhante de jogar tudo no lixo e repaginar os personagens como dois policiais investigando um crime. O fato de estar na HBO fez tudo ainda mais parecido com True Detective (e não duvidaria que o roteiro fosse originalmente uma nova temporada da antologia que foi mexida para se tornar uma produção com selo DC). A série aborda o período em que o veterano Hal Jordan (Kyle Chandler), o Lanterna Verde original, é designado a orientar o novato John Stewart (Aaron Pierre) enquanto investigam um brutal assassinato na cidadezinha de Rushville. Hal percebe que aquele não é um crime comum e suspeita de ter indícios alienígenas no caso. Com uma premissa dessas a série poderia ser envolvente se caprichasse na relação entre os dois personagens, mas as tretas entre os dois se arrastam ao longo de oito episódios que se arrastam em uma costura ruim cheia de idas e vindas no tempo. Haja paciência para ver a trama rodar em torno do próprio rabo lembrando quase nada dos personagens dos quadrinhos. Nada contra apresentar um Hal Jordan desiludido, mas custava dizer o motivo dele ter ficado ao ponto de tratar John com total desprezo o tempo inteiro? Os Guardiões, Sinestro (Ulrich Thomsen) e Guy Gardner (Nathan Fillion)  aparecem pouco e não acrescentam muita coisa à trama que parece juntar dois programas que não conseguem conversar entre si. A série começa com a sensação de que vai melhorar e termina com o sabor de uma grande perda de tempo. Custava ser só uma série de super-herói?    

Lanternas (EUA-2026) de Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King com Aaron Pierre, Kyle Chandler, Kelly MacDonald, Poorna Jagannathan, Laura Linney, Garret Dillahunt, Chris Coy e Sherman Augustus. ☻

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

KLÁSSIQO: Vidas Amargas

Dean: filme de despedida. 

Saudoso diáriw, aproveitei toda a animação em torno da minissérie East of Eden da Netflix e procurei sua versão para o cinema realizada por Elia Kazan em 1955. Lançado por aqui com o nome de Vidas Amargas, o filme se tornou um clássico, muito pela presença de James Dean que tornou este seu último filme após falecer precocemente aos 24 anos de idade. Dean foi o primeiro ator a receber uma indicação póstuma ao Oscar de ator. No filme ele interpreta Caleb Trask, um dos filhos de Adam Trask (Raymond Massey) que sempre deixou clara sua insatisfação com o jovem, preferindo as atitudes do outro filho, Aron (Richard Davalos). O religioso Adam desde pequeno contou aos filhos que a mãe deles havia morrido, mas não é bem assim. O roteirista Paul Osborn optou por adaptar somente última parte da obra de John Steinbeck que se passa às vésperas da Primeira Guerra Mundial e que gira em torno de um triângulo amoroso formado pelos dois irmãos e a doce Abra (Julie Harris), deixando um mistério no ar sobre a mulher que Cal está sempre à espreita. Ela é Kate (Jo Van Fleet premiada com o Oscar de atriz coadjuvante), que possui um prostíbulo nas redondezas e parece muito bem resolvida com as escolhas que fez ao longo da vida. Elia Kazan enfatiza o tom de conflito entre a família Trask, no que ficou conhecido como uma releitura dos manos bíblicos Caim e Abel. O mais interessante é como Cal é apresentado como um adolescente rebelde um tanto desequilibrado até percebermos os traumas e mentiras que envolveram sua infância e adolescência. O diretor sabe utilizar muito bem o ar de vulnerabilidade do astro James Dean, que tem um bom trabalho apesar de alguns exageros melodramáticos que eram comuns no período de produção. O longa também concorreu aos Oscars de direção e roteiro adaptado naquele ano. 

Vias Amargas (East of Eden / EUA - 1955) de Elia Kazan com James Dean, Julie Harris, Richard Davalos, Jo Van Fleet, Raymond Massey, Burl Ives e Lois Smith. ☻☻☻

NªTV: East of Eden

Pugh: atuação impecável. 

Elogiado diáriw, a atual produção mais badalada da Netflix é esta minissérie de sete episódios baseada na obra de John Steinbeck. Parte do livro já havia chegado às telas pelas mãos de Elia Kazan em 1955 e a neta dele, Zoe Kazan, resolveu adaptar toda a obra. Antes de comparar o filme com a minissérie é bom lembrar que o formato em episódios permite trabalhar muito mais os personagens, especialmente Kathy (em um desempenho estupendo de Florence Pugh) que deixou de ser a mulher que abandonou os filhos para ter sua história conturbada exibida na telinha. A personagem é a que mais ganha nuances nesta nova produção, ao mesmo tempo que os crimes cometidos por ela também recebem atenção. Na minissérie ela é acolhida pelos irmãos Adam (Christopher Abbott) e Charles (Mike Faist) após ser agredida e deixada a beira da morte. Aos poucos conhecemos sua história e como Adam se apaixona por ela ao ponto de achar que poderia dirigir a vida da esposa. Ambientado no árido Vale das Salinas na Califórnia entre o período da Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial, o tom épico daqueles personagens perante a História dos Estados Unidos se enriquece ainda mais com coadjuvantes importantes como Lee (Hoon Lee), o filho de chineses nascido nos na Terra do Tio Sam e que não encontra espaço para viver o sonho americano. O elenco, a direção, a ambientação e todo resto é de uma perfeição de encher os olhos, mas em meio a tantos destaques nada brilha mais do que Florence Pugh na pele de Kathy. Todo mundo já sabe que a inglesa de é uma grande atriz, mas o que ela faz aqui a coloca entre as maiores atrizes em atividade (entreguem logo um Oscar para ela). A cena em que reencontra Aaron e tenta disfarçar o choro com uma risada é de partir o coração. A obra que era sempre lembrada como uma releitura de Caim e Abel, ganhou uma versão impecável que é impossível parar de assistir. 

East of Eden (EUA - 2026) de Garth Davis e Laure de Clermont-Tonnerre com Florence Pugh, Chritopher Abbott, Mike Faist, Ciarán Hinds, Joseph Zada, Joe Anders, Martha Plimpton, Tracy Letts e Hoon Lee. ☻☻☻☻☻

domingo, 11 de outubro de 2026

.Doc: A Artista e o Ladrão

Bertil e Barbora: amizade improvável. 

Surpreso diáriw, em abril de 2015 duas pinturas grandes e das mais valiosas da artista Barbora Kysilkova foram roubadas à luz do dia da Galleri Nobel no centro da cidade de Oslo. Apreensiva diante da situação, Barbora acompanha a investigação que descobre quem são os ladrões que irão a julgamento. Embora o mandante do crime seja desconhecido, a artista tem curiosidade de conversar com um dos ladrões, o norueguês Karl Bertil Nordland, um criminoso de currículo extenso. Obviamente que existe a curiosidade da pintora descobrir mais sobre o caso, mas enquanto Bertil argumenta não lembrar de nada devido ao efeito das drogas, Barbora começa a se interessar pela história pessoal rapaz. O laço entre os dois se firma de vez quando ela o utiliza como modelo para um dos seus quadros e ele fica em choque e depois chora ao ver a obra pronta. A cena foi a que motivou o diretor Benjamin Ree a estender as filmagens de seu curta-metragem por anos e acompanhar aquela relação de amizade improvável de 2016 até 2019. No decorrer dos anos conhecemos um pouco mais sobre a o passado de Bertil e sua capacidade autodestrutiva e como isso provocou alguma identificação em Barbora que canaliza esta energia perigosa para fazer arte. Premiado em Sundance, o filme se desenvolve de forma surpreendente e possui cenas marcantes, como aquela em que Bertil lembra quando foi afastado dos irmãos ainda muito pequeno, sua carreira como marceneiro e o trabalha com crianças com dificuldade de aprendizagem antes do vício em substâncias ilícitas. Enquanto isso  Barbora a se sentir uma pessoa pior quando começa a fazer terapia. Fosse uma obra de ficção, A Artista e o Ladrão seria considerado absurdo, mas é uma história real emocionante sobre vidas opostas que se encontram. 

A Artista e o Ladrão (Kunstneren og tyven / Noruega - EUA/ 2020) de Benjamin Ree com Barbora Kysilkova, Karl Bertil Nordland e Øystein Stene. ☻☻☻☻ 

10+ Cotados para o Oscar 2027

 A temporada de ouro se aproxima e com ela os lançamentos que ambicionam uma vaga nas premiações começam a ser lançados nos cinemas de olho no Oscar do ano que vem. Embora alguns filmes lançados ao longo do ano como A Odisseia, Devoradores de Estrelas, O Convite e Obsessão devem garantir vagas nas categorias principais, seus maiores concorrentes devem chegar aos cinemas na reta final do ano. A seguir os dez filmes que devem dar o que falar nos próximos meses:

#01 "A Bola Negra" de Javier Calvo e Javier Ambrossi
Exibido e premiado no Festival de Cannes o filme foi comprado pela Netflix que deve investir pesado para conquistar preciosas indicações. O filme interliga três vidas em períodos históricos diferentes para abordar a homossexualidade através dos tempos. Com participação especial de Glenn Close e Penelope Cruz, a produção franco-espanhola é a favorita na categoria de filme internacional, mas a concorrência será pesada com o polonês Fatherland, o romeno Fjord, o austríaco Rose e o francês Minotauro no páreo. 

#02 "A Grande Estreia" de Jesse Eisenberg 
Julianne Moore está cotada para levar seu segundo Oscar! Ela vive uma dona de casa que sempre sonhou ser atriz e que consegue um papel em uma peça de teatro local, mas precisa lidar com  um diretor exigente (Paul Giamatti que pode ser premiado como coadjuvante). Não sou grande fã do último filme do Eisenberg como diretor, mas a ideia e o elenco deste são bem interessantes. 

#03 "Artificial" de Luca Guadagnino
Esta comédia dramática aborda a crise de cinco dias da OpenAi em dezembro de 2023, crise que rendeu a demissão do CEO Sam Altman (vivido por Andrew Garfield) e sua recontratação pouco tempo depois. O filme não gerava grandes expectativas até sua primeira exibição que deixou muita gente animada com o resultado que lança um olhar bastante atual sobre nossa relação com a tecnologia. Yura Borisov e Monica Barbaro reforçam o elenco.

#04 "Behemoth!" de Tony Gilroy
Pedro Pascal indicado ao Oscar? Muita gente aposta que sim! O ator chileno está bastante elogiado por seu trabalho neste filme em que interpreta um violoncelista nascido em uma família de músicos que retorna para Los Angeles após 20 anos viajando pelo mundo. Prestes a gravar a trilha sonora de um filme, o músico se reencontra com seu passado. No elenco ainda estão Olivia Wilde, Will Arnet e Hank Azaria.

#05 "Cavalo Selvagem 9" de Martin McDonagh
John Malkovich foi eleito o melhor ator do Festival de Veneza e com isso cravou seu favoritismo ao Oscar do ano que vem. O ator que andou meio esquecido pelo Academia já tem duas indicações no currículo e será que agora leva? Ele vive um agente secreto que enfrenta uma missão de confiança no Chile no ano de 1973 , ao seu lado o parceiro, Lee (Sam Rockwell) ajuda na empreitada. 

#06 "Digger" de Alejandro González Iñárritu
Com Malkovich no páreo o favoritismo de Tom Cruise está em risco por seu trabalho nesta comédia ácida e absurdista (ou seria premonitória?). As críticas divisivas também podem dificultar as ambições do astro que se esforça bastante no papel do bilionário que coloca o mundo em risco com uma escavação arriscada na Groenlândia. Recém lançado no Brasil, o filme cheio de exageros tem como unanimidade a direção de arte, a maquiagem e o trabalho de Cruise que fazia tempo não se arriscava tanto em uma produção. 

#07 "Elsinore" de Simon Stone
Ian Charleson (Andrew Scott) é um talentoso ator inglês que aceita interpretar Hamlet em uma montagem ambiciosa do National Theatre. O trabalho se torna um desafio ainda maior porque Ian trava uma luta particular com o HIV o que torna a proposta a chance de realizar o grande trabalho de sua vida. A crítica caiu de amores pelo trabalho do (sempre bom) Andrew Scott - o que deve ajudar bastante ao ator cravar sua primeira indicação ao prêmio. Ainda no elenco Olivia Colman e Billie Piper. 

#08 "Ink" de Danny Boyle
Será que o escocês Danny Boyle retornará ao Oscar em grande estilo? Os fãs dizem que sim pelo seu trabalho ao contar a história do famoso jornal "The Sun" que em 1969 foi comprado por um magnata da mídia que ao lado do editor que tornou o tablóide no mais influente da Grã-Bretanha. No elenco estão Jack O'Connell, Guy Pearce e Claire Foy. Ponto negativo: o uso de IA na produção gera polêmicas. 


#09 "Primetime" de Lance Oppenheim
Enquanto o Oscar de melhor atriz deve ficar entre Julianne Moore e Inde Naravete, o de melhor ator sofre um congestionamento de candidatos ao prêmio. Robert Pattinson engrossa a fila com seu trabalho neste filme que demonstra as ambições por trás de um icônico programa jornalístico. Pattinson vive o complexo Chris Hansen que com sua audácia revolucionou o jornalismo da época. Vale lembrar que depois de tantos bons trabalhos tá na hora do Oscar lembrar do ator.

#10 "The Social Reckoning" de Aaron Sorkin
David Fincher ficou de fora da direção de seu sucesso A Rede Social (2010) porque está ocupado demais filmando a continuação de Era Uma Vez em Hollywood (2019) no lugar do Tarantino (As Desventuras de Cliff Both da Netflix e estrelado por Brad Pitt seria o número onze desta lista). Sendo assim, a direção deste aqui ficou com o roteirista premiado Aaron Sorkin que agora conta a história de anos depois em que Mark Zuckerberg (agora vivido por...) admite saber todos os maléficios provocados por sua criação e... lucra com isso! Será que o filme repetirá o mesmo sucesso do original? 

sábado, 10 de outubro de 2026

PL►Y: Acampamento Miasma

Gillian: diva do terror. 

Nostálgico diáriw, a diretora Jane Schoenbrun é responsável por Eu Vi o Brilho da TV (2024), um dos filmes mais interessantes daquele ano. Em 2026, ela exibiu seu novo filme na mostra Un Certain Regard  no Festival de Cannes e saiu de lá premiado com a Queer Palm. Acampamento Miasma é sobre uma famosa franquia de terror slasher iniciada ao final dos anos 1970 e que perdeu fôlego ao longo de várias continuações caça-níqueis. A história sobre o serial killer chamado Pequena Morte (o nome de inspiração francesa não é por acaso) que assombrava o acampamento em que foi morto pelos colegas caiu no ridículo depois de anos de produções ruins. A fama da saga é apresentada logo no início com recortes de jornal, brinquedos e cartazes que narram a trajetória da franquia de forma bastante concisa até que Kris (Hannah Einbinder), uma diretora indie diante do seu primeiro sucesso em festivais é convidada a reiniciar a franquia. Ela vai em busca da protagonista do primeiro filme, Billy Presley (Gillian Anderson, perfeita) que após o sucesso da personagem resolveu se afastar dos holofotes e vive décadas depois nas locações do filme. Kris fica intrigada com a atriz veterana e começa a ter ideias para o novo filme a ser protagonizado pela misteriosa atriz. O filme mistura o olhar sobre o gênero de Pânico (1996) com o clássico Crepúsculo dos Deuses (1950) para que a diretora utilize o terror mais uma vez para falar sobre a sexualidade de seus personagens. Porém, apesar dos jorros de sangue, o filme investe mais no romance entre as protagonistas (pena que Hannah Einbinder me parece ingênua demais no papel de Kris). Com um filme dentro do filme e uma mistura de ficção e realidade, o filme não consegue ser tão fascinante quanto o trabalho anterior da diretora, mas cria momentos bastante envolventes em paisagens surreais. 

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma / EUA - 2026) de Jane Schoenbrun, com Hannah Einbinder, Gillian Anderson, Jack Haven, Jasmin Savoy Brown, Aren Buchholz, Kevin McDonald, Ryan McEwen e Amanda Fix. ☻☻☻

NªTV: Meus Mortos Tristes

Morán: Laços espirituais de família. 

Assombrado diáriw, esta minissérie que chegou no final de setembro na Netflix conta a história de Ema (Mercedes Morán, que lembra muito a Carmela Soprano, ou melhor, a Edie Falco), uma médica que desde pequena dizia que conseguia ver e conversar com os mortos. As pessoas ao seu redor parecem nunca levar isso a sério. Agora, após anos cuidando da mãe enferma, ela presencia lidar com o espírito da matriarca chorando todos os dias na residência em que viveram juntas. A experiência se torna ainda mais intensa quando Ema se aposenta e fica mais tempo em casa e lidando com o relacionamento tenso com a filha (Dolores Fonzi), a visita da irmã que foi viver nos Estados Unidos com o marido e a filha, Julie (Carolina Álvarez) que enfrenta problemas por ter a mesma habilidade de Ema - só que as utiliza de forma diferente,  digamos um tanto... prazerosa. Em uma cidade repleta de espíritos, a direção do chileno Pablo Larraín, carrega as expectativas do público para outro caminho o que pode causar algum estranhamento (assim como a fotografia em tons de rosa desbotado). Sem sustos, a relação entre os fantasmas e as videntes falam muito mais sobre a forma como nos relacionamos com as lembranças de quem se foi do que com uma história de terror. Ao longo da trama a cidade parece invadida por almas penadas vistas por outros personagens, a maioria por conta dos conflitos que ocorrem na região, tornando o mundo dos vivos e dos mortos cada vez mais próximo. O destaque da narrativa fica por conta da relação de Ema com Julie, que se torna a alma da história até o desfecho com sabor de família reunida. Particularmente gosto muito mais quando Larraín filma fora de Hollywood, embora aqui eu considere que valeria ter enxugado a trama para caber em um longa-metragem. Uma obra interessante.

Meus Mortos Tristes (Mis Muertos Tristes / Chile - Argentina / 2026) de Pablo Larraín com Mercedes Morán, Dolores Fonzi, Alejandra Flechner, Carolina Álvarez, Carlos Portaluppi, Luz Jimenéz, Germán da Silva e Pablo Schwarz. ☻☻☻