domingo, 8 de novembro de 2026

PL►Y: O Truque da Galinha

O pai: não é fácil para ninguém. 

Desesperado diáriw, imagine que você está em uma festa de aniversário e o pai do aniversariante é convidado por um mágico a participar de um truque. Ele o coloca dentro de uma caixa de madeira diante dos convidados, sacode um pano vermelho, diz algumas coisas e ao abrir a caixa o pai foi transformado em uma galinha. Todos riem, aplaudem e após a aclamação o mágico coloca a galinha dentro da caixa novamente. Faz o que deve ser feito para reverter a mágica e ao abrir a caixa, a galinha continua lá. Ele tenta novamente. Mais uma vez e os risos começam a dar lugar è preocupação até que todos vão embora dizendo que o mágico está possuído. Ele tenta novamente e nada da galinha virar homem. Sem ter mais o que fazer o mágico vai embora e entrega a ave para a esposa e os três filhos que agora precisam se virar para continuar a viver sem o pai. Este é o ponto de partida do filme egípcio dirigido por Omar El Zohairy que ganhou o prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes 2021 ao contar com um elemento fantástico para contar o martírio da família que busca ajuda de feiticeiros variados para desfazer o feitiço enquanto lida com uma estrutura machista que não permite que a esposa trabalhe para sustentar a família - de forma que uma das crianças começa a trabalhar para arcar com as despesas família. Se por um lado a galinha sofre com as formas de reverter o feitiço, a dona da casa também atravessa situações desagradáveis com as autoridades locais, assediadores e mesmo quando a coisa parece que irá se resolver, ela só piora. É um verdadeiro desafio para o espectador acompanhar as  provações daquela família por conta do que seria um truque bobo de mágica e o desfecho sombrio deixa uma sensação ainda mais estranha no ar. A fotografia amarelada e o ritmo lento tormam o filme ainda mais difícil para parte do público, no entanto, apenas imaginei quantos desdobramentos interessantes a premissa deste filme pode gerar em diferentes mãos.   

O Truque da Galinha (Feathers / Egito - França - Países Baixos - Grécia / 2021) de Omar El Zohairy com Demyana Nassar, Samy Bassiouny, Fady Mina Fawzy e Mohamed Abd El Hady. ☻☻☻

Na Tela: 100 Dias

Bragança: Amyr de corpo e alma.  

Obstinado diáriw, entre 10 de junho e 18 de setembro de 1984 o navegador brasileiro Amyr Klink realizou a primeira travessia solitária do Oceano Atlântico a remo. Ele partiu da África, em Lüderitz na Namíbia, e chegou na costa brasileira na Bahia, percorrendo cerca de 6.500 quilômetros em cem dias. A proeza se tornou um feito celebrado nacionalmente e rendeu um livro que se tornou um sucesso editorial. Cem Dias Entre Céu e Mar foi lançado em 1985 e foi baseado no diário de bordo do navegador. Sempre pairou sobre a obra o interesse de uma adaptação cinematográfica, mas a ideia se tornou realidade quando Carlos Saldanha embarcou no projeto. Vindo de animações de sucesso no exterior (A Era do Gelo/2002, Rio/2011 e Touro Ferdinando/2017), esta é a primeira produção live-action dirigida pelo cineasta que realiza um bom trabalho, sobretudo pela sua habilidade em lidar com efeitos especiais. O roteiro é bastante fiel ao livro, mas insere flashbacks sobre a vida familiar de seu protagonista para contextualizar a ideia insana de realizar a travessia. O que o levou a ter essa ideia? Embora o filme não alarde uma motivação única, sugere que existiram uma série de fatores para a ideia ser gerada, sobretudo em sua relação complicada com o pai (Felipe Camargo). Com duas horas de duração, 100 dias tem o mérito de condensar a narrativa de forma bastante imersiva, transportando o espectador para dentro dos desafios daquele barco. Além disso, ganham destaques a preparação para a viagem, como o desenvolvimento da navegação e da alimentação. No entanto, quero destacar o trabalho de Filipe Bragança que está excelente no papel de Amyr Klink, transparecendo cada emoção e transformação física, a forma como ele compõe uma personalidade forte e um tanto cheia de si ajuda a humanizar o protagonista e torna a torcida por ele ainda mais interessante.     
100 Dias (Brasil-2026) de Carlos Saldanha com Filipe Bragança, Felipe Camargo, João Vitor Silva, Phillipine Leroy-Beualieu, Duda Mamberti, Martha Nowill, Gabriel Cano, Enzo Rosetti, Gero Camilo e Amyr Klink. ☻☻☻☻

Na Tela: O Bosque Selvagem

Prue: em busca do irmão. 

Obstinado diáriw, senti nas redes sociais uma verdadeira operação resgate diante da baixa bilheteria da animação O Bosque Selvagem por aqui. A nova animação dos estúdios Laika (o mesmo de Coraline/2009 e Kubo e as Cordas Mágicas/2016)  custou cerca de cem milhões de dólares e demorou cerca de cinco anos de trabalho intenso na técnica de stop-motion. Os números impressionantes se devem ao desejo do diretor Travis Knight em inovar no número de quadros por minuto feitos com o árduo trabalho com as miniaturas, além de construir uma trama de exigências impressionantes para o formato. Dos cenários construídos, ao número de personagens e uma cena de batalha épica, tudo impressiona na animação que enfrenta o problema de ser adulta e sombria demais para cair nas graças dos pequenos e exigir uma entrega que a maioria dos adultos não esteja disposta a dar para uma animação. O fato é que o longa já é um dos destaques do ano e merece ser visto na telona. A trama possui referências variadas de contos infantis ao tratar a história de Prue, uma menina que vê seu irmão ainda bebê ser sequestrado por um bando de corvos e ser levado para um bosque (que sempre ouviu dizer que não pode ser visitado). Junto com o amigo Curtis, ela irá encontrar um mundo dividido e perigoso onde vive uma feiticeira disposta a usar o irmão de Prue em suas magias. Entre segredos, bichos falantes e uma narrativa visivelmente ambiciosa, o filme impressiona por sua qualidade técnica, especialmente quando se relaciona com a expressividade das personagens, com destaque para a vilã Alexandra Svik que assombrada pelo luto é capaz de tudo para ter seu filho de volta. Se ainda existisse o MTV Movie Awards o filme ganharia fácil os prêmios de melhor vilã e melhor cena de batalha nos áureos tempos da premiação. O filme deve ser indicado ao Oscar de animação e... será o favorito se a bilheteria ajudar. 

O Bosque Selvagem (Wildwood / EUA - Reino Unido - Canadá/ 2026) de Travis Knight com vozes de Peyton Elizabeth Lee, Jacob Tremblay, Carey Mulligan, Richard E. Grant, Jake Jhonson, Charlie Day e Tom Waits. ☻☻☻☻


sábado, 7 de novembro de 2026

PL►Y: Apenas Coisas Boas

Drummond: do bucólico ao noir.  
Provocativo diáriw, por conta de seu trabalho em Vento Seco (2020) o goiano Daniel Nolasco inscreveu seu nome entre os destaques do cinema Queer brasileiro. Misturando fetiches e uma atmosfera oniricamente afrontosa o longa chamou atenção pela sua criatividade sem amarras. Era de se esperar que por conta disso seu longa seguinte fosse aguardado com grande expectativa. Apenas Coisas Boas tem uma ambientação rural e conta a história de Antonio (Lucas Drummond) que cuida sozinho de suas terras no ano de 1984. A vida do moço tem uma reviravolta quando ele encontra um motociclista acidentado (Liev Carols) e o leva para sua casa. Se você conhece o cinema de Nolasco já sabe o que acontecerá, já que o diretor tem gosto por retratar protagonistas de universo organizado que sente-se atraído pelo desconhecido. A relação entre os dois a passa ser comprometida pela tensão existente entre Antonio e o próprio pai e a consequência disso renderá uma guinada na trama que causa estranhamento na plateia. O filme que era ambientado no campo torna-se urbano, aquele clima bucólico logo é trocado por uma atmosfera noir, cheia de suspeitas e desconfianças protagonizada por um Antonio mais maduro (Fernando Libonati) e visivelmente infeliz que atravessa o desaparecimento de seu parceiro. Seus funcionários (Renata Carvalho e Nerval Berbari) especulam sobre o que teria acontecido ao outro patrão e o  filme parece não saber muito bem o que fazer a partir daí. Embora Nolasco retrate intimidade e as pressões sobre seu protagonista nas duas partes, existe uma ruptura brusca demais entre os dois polos da narrativa, ao mesmo tempo que a versão mais velha de Antonio em nada lembra o jovem fazendeiro. Se a ideia era o contraste entre  o passado promissor e o futuro frustrante, a sensação é que o diretor e roteirista tinha dois textos distintos e resolveu juntar os dois em um longa. A galera mais animada vai curtir as cenas de intimidade entre os homens do filme, mas o resultado está longe de ser orgânico ou interessante. 

Apenas Coisas Boas (Brasil - 2025) de Daniel Nolasco com Lucas Drummons, Liev Carlos, Fernando Libonati, Renata Carvalho, Nerval Berbari, Igor Leoni e Guilherme Théo. ☻