segunda-feira, 15 de novembro de 2010

DVD: As Melhores Coisas do Mundo


Miguez: olhos de Winona Ryder num mundo descartável.

Existe algo de afetivo entre eu e o cinema de Laís Bodanzky, a celebrada diretora de Bicho de 7 Cabeças e que recentemente lançou seu terceiro longa, este As Melhores Coisas do Mundo. Nós estudamos na mesma Universidade e percebo, em seu cinema, muito das discussões que apreendi em minha vida acadêmica. Portanto, mesmo novos e diferentes da maioria da safra nacional, suas obras me trazem algo nostálgico, não no sentido saudosista, mas num sentido (talvez até inexistente para o termo) de oxigenação. As Melhores Coisas do Mundo deve ter feito algum suceso nos cinemas pela participação do filho de Fábio Jr, o "meu primo" Felipe Galvão (mais conhecido como Fiuk) mas o filme tem outros méritos que o fazem merecer ser visto. Pra começar é um raro caso de filme nacional voltado para os adolescentes, para ser mais específico o de classe média - um público ingrato ao cinema, já que prefere ficar em casa pendurado na internet, bater perna no shopping ou aproveitando as maravilhas da TV por assinatura -, talvez por isso a diretora tenha sido muito sábia em universalizar as situações que vemos no roteiro que se desenvolve sem pressa num universo de situações que podem acontecer em qualquer lugar. O protagonista do filme é Mano (Francisco Miguez, que tem os olhos da Winona Ryder) um adolescente de quinze anos que não vê a hora de perder a virgindade. Até aí nada demais, já que dez entre dez filmes para adolescentes possuem essa temática, o diferencial vem depois. Primeiro mano descobre que seus pais estão se separando sem maiores explicações (somente depois descobre que seu pai está deixando a família para viver um relacionamento homossexual), depois Mano investe em suas poucas chances com a garota mais cobiçada da escola até que percebemos o foco principal do filme. As Melhores Coisas do Mundo trata de uma cítica ao mundo onde tudo é descartável, descartabilidade alimentada por preconceitos, essas coisas daninhas que separam as pessoas pelos motivos mais idiotas. Ao mesmo temo, Bodanzky cria um universo de bolha sem oxigênio numa escola, cheia de jovens onde as mais diversas expectativas se encontram, se unem ou repelem, traça perfis individualistas, coletivos, intelectuais que (não?) funcionam no contato com a realidade, a propagação de maledicências por meios eletrônicos, os egos feridos ou inchados, professores assediados, fotos comprometedoras, perseguições, traições, tendências suicidas... Sorte que em meio a tudo isso o filme parece nos dizer que não devemos ter medo de enfrentar o mundo e seus desafios. Uma questão de marcar posição mesmo, mostrar que está insatisfeito e que nem sempre o que parece tão atraente realmente o é. O filme pode não ser perfeito (as cenas nem sempre bem encadeadas, a repetição exaustiva de Something in the way dos Beatles, mas ok, ela mostra que os rapazes de Liverpool nunca serão descartados) mas trata-se de uma obra original em nosso cinema. O roteiro de Luiz Bolognesi foi baseado nos livros da série Mano de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, que merece ser conferido, nem que seja para concluir que as melhores coisas do mundo estão longe de ser descartáveis.  

As Melhores Coisas do Mundo (Brasil/2010) de Laís Bodanzky com Francisco Miguez, Fiuk, Denise Fraga, Caio Blat e Paulo Vilhena. ☻☻☻☻

DVD: Uma Noite Fora de Série


Fey e Carrell: ajuda de Wahlberg para salvar o casamento monótono?

Ano passado muita gente se surpreendeu com o Globo de Ouro de Melhor Comédia para Se Beber Não Case. Fazendo um paralelo com esse ano o mais próximo do filme de Todd Phillips foi esse sucesso estrelado por dois comediantes de primeira linha dos EUA, Steve Carrel (da série The Office) e Tina Fey (da série 30 Rock) são os Foster (só o fato de terem nome de ração já parece uma piada), um casal suburbano que segue sua vidinha simples e monótona cuidando dos filhos, do trabalho (no caso, ele de advogado tributarista) e da casa de gavetas sempre abertas pelo caminho. Uma vez por semana eles saem para um jantar sem grandes emoções na cidade e se divertem criando diálogos inusitados para quem está por perto. Enfim, os Foster, apesar de bacanas são um casal que mais parece uma dupla de amigos que dividem o mesmo quarto. O pior é que quando resolvem se aventurar num desses jantares semanais vão para um restaurante caro e assumem a reserva de um outro casal: os Triplehorn. A pequena contravenção será o início de uma noite onde terão que desafiar suas comodidades para sobreviver. O tal casal Triplehorn parece estar sendo perseguido por um mafioso local (Ray Liota) e eles acabam sendo sequestrados, perseguidos e quase mortos por conta disso. Mas não se preocupe, não é nada muito sombrio, o filme lembra aquelas produções que misturavam comédia e ação que eram comuns na décadas atrás e que fizeram a glória de Goldie Hawn e Kathlen Turner. Para se livrar dessa enrascada o casl Foster irá contar com a ajuda de uma policial bem intencionada (Taraji P. Henson, a mãe de Benjamin Button) e um descamisado de influência governamental (Mark Wahlberg). Apesar de ter um roteiro simples e esquemático a dupla de atores prende a atenção do público e fazem valer o ingresso especialmente por três momentos hilariantes (a fuga do Central Park, os carros grudados correndo por Nova York e a cena de dança na boate de strip-tease), sem falar na participação inusitada de James Franco como um autêntico whitetrash que é fã de Jeane Triplehorn - devidamente acompanhado de sua esposa interpretada por Mila Kunis (premiada em Veneza por Black Swan). Dizem que o filme foi rodado durante as férias de Carrel e Fey de seus programas televisivos, mas o sucesso de bilheteria inesperado deve garantir uma continuação em breve a ser rodada nas próximas férias, bom para os  Foster que terão outra noite animada para apimentar a relação!

Uma Noite Fora de Série (Date Night/EUA-2010) de Shawn Levy com Steve Carrell, Tina Fey, Taraji P. Henson, Mark Wahlberg, Mila Kunis, James Franco e Ray Liotta. ☻☻☻

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Apostas para o Oscar - Parte III

 Fair Game
O filme de Doug Liman (que se aventura por um gênero mais 'sério' do que em seus filmes anteriores) conta a história real de um jornalista conservador que descobre que sua esposa é uma agente da CIA, a partir daí uma série de implicações políticas envolvendo pós-11 de setembro passa a afetar essa família. O duplamente oscarizado Sean Penn está no elenco, mas quem rouba a cena é Naomi Watts - que merecia um Oscar desde que foi revelada por David Lynch em Cidade dos Sonhos. O filme passou em branco em Cannes, mas eles costumam fazer isso com filmes americanos mesmo...

Another Year
Aclamado em Cannes no início do ano, o novo filme de Mike Leigh deve ter algumas indicações ao Oscar, especialmente para o seu elenco que tem a difícil tarefa de lidar com uma trama simples sobre o passar do tempo, as alegrias e insatisfações do cotidiano de um casal de idosos e seus agregados. A Academia adora as obras de Leigh (e eu também) e deve render ao filme indicações graúdas como filme, direção, roteiro e atores (que inclui Jim Broadbent, Lesley Manville e Ruth Sheen).

Never Let Me Go
O ex-diretor de clipes Mark Romanek parece que finalmente será reconhecido nas telas de cinema (depois do esnobado interessante Retrato de uma Obsessão, que pelo menos deveria ter sido indicado ao prêmio de fotografia). Baseado no livro de Kazuo Ishiguro que conta a história de três amigos que estudaram numa misteriosa escola e se deparam com seu mórbido destino ao crescerem. Não empolgou? Então o elenco pode ajudar: Keira Knightley, Carey Mulligan e o novo Spider-Man Andrew Garfield.

Blue Valentine
Há quanto tempo você não vê um drama romântico contemporâneo dos bons? Essa produção escassa do gênero é um dos grandes responsáveis pela empolgação e pelas especulações sobre a presença de Blue Valentine entre os candidatos aos prêmios do ano, especialmente para o seu casal Ryan Gosling e Michelle Williams - que se firma como dois dos maiores atores da geração em meio à crise no relacionamento. O filme de Derek Cianfrance foi sucesso em Sundance.

Miral
Julian Schnabel costuma chamar atenção com seus filmes (Antes do Anoitecer com Javier Barden e O Escafandro e a Borboleta... a essa altura ninguém lembra de Basquiat, mas mesmo assim tá valendo). O filme acompanha um abrigo para refugiados após a criação do Estado de Israel. Dizem que o filme deve indicar Freida Pinto (Quem quer ser um milionário) ao prêmio de coadjuvante por sua atuação como professora num campo de refugiados. No elenco ainda estão Vanessa Redgrave, Alexander Siddig e Hiam Abass.

domingo, 7 de novembro de 2010

Catálogo: Ponte para Terabítia

Leslie e Jess: construindo um mundo paralelo.

Desde que O Senhor dos Anéis colocou a fantasia de novo na pauta de Hollywood os estúdios se degladiam pelo gênero e desde então veio Harry Potter, Crepúsculo, Crônicas de Nárnia, Desventura em Série, Bússola de Ouro, Alice repaginada... uns funcionam outros não. Entre tudo isso houve Ponte para Terabítia, baseado na obra de... que é uma fantasia que capta a essência que muitas dessas obras perderam entre toneladas de efeitos especiais. A trama é bem simples, Jess (o bom Josh Hutcherson, que parece o irmão caçula do Ben Affleck) é um garoto de família humilde perseguido pelos colegas da escola. Seu passatempo é desenhar e admirar a professora dé música (Zooey Deschannel) enquanto se divide entre as preocupações financeiras de sua família. As coisas começam a melhorar quando ele conhece sua nova vizinha (a lourinha quase veterana Anna Sophia Robb), filha de escritores e de imaginação fértil, juntos os dois irão construir um mundo paralelo à realidade que percebem em suas famílias e colegas de escola. Sendo assim eles constroem Terabítia, uma terra mágica de seres esquisitos e que existe apenas na mente dos dois. O maior trunfo do filme é mostrar um roteiro baseado numa brincadeira de dois pré-adolescentes onde controem um mundo de fantasia que funciona mais do que uma fuga da realidade e sim como uma releitura do mundo em que vivem. Assim, os colegas chatinhos da escola viram esquilos e urubus mal intencionados, á garota grandalhona vira um ogro, em alguns momentos o roteiro parece romper essa separação entre realidade e fantasia e o resultado parece uma versão light de O Labirinto do Fauno (2006), principalmente quando percebemos, assim como Jess, que a realidade afeta nossas fantasias e não importa o quão dolorosa ela seja. Temos que saber lidar com nossas perdas  e culpas, percebendo que temos amigos mesmo onde não notamos. Pela simplicidade com que conta sua história infanto-juvenil o filme merece atenção. Esqueça as músicas melosas e aproveite o que o filme tem de melhor: lembrar a infância. 

Ponte para Terabítia (Bridge to Terabithia/EUA-2007) de Gabor Csupo com Josh Hutcherson, Anna Sophia Robb, Zooey Deschannel e Robert Patrick. ☻☻☻

Ladies & Gentlemen: Helena Bonham Carter

Helena Bonham Carter é uma das minhas atrizes favoritas, filha de uma psicoterapeuta (que a ajuda a compor as personagens) e um banqueiro, a atriz começou na carreira na década de 1980 tendo seu primeiro papel de destaque em Uma Janela para o Amor (1985) de James Ivory, depois teve uma participação na série Miami Vice aqui, um outro filme de Ivory ali (Maurice de 1987). Mas Hollywood pareceu notar os dotes shakesperianos da atriz ao lhe entregar o papel de Ofélia no mortífero Hamlet encabeçado por Mel Gibson (1990). Três filmes e dois anos depois, a atriz trabalhou novamente com James Ivory no aclamado Retorno a Howard's End (1992), que oscarizou Emma Thompson, ex-esposa de Kenneth Branagh que escalou Helena para ser a noiva de seu Frankenstein (1994) e acabou se apaixonando por ela. No ano seguinte ela se rendeu aos pedidos de Woody Allen e foi a esposa chatinha de Poderosa Afrodite (1995). As premiações só notaram Helena quando ela encarou a obra de Henry James no caloroso Asas do Amor (1997), onde ela  interpretava uma golpista prestes a tomar a fortuna de uma jovem rica. Os dilemas morais de sua personagem lhe valeram a primeira indicação ao Oscar de atriz. Apesar dos elogios, poucos papéis surgiram para a atriz e ela acabou voltando para a Tv participando da minissérie Merlin (1998). No mesmo ano atuou em outro filme de Kenneth Branagh, o pouco visto Livre para Voar, onde interpretava uma mulher com problemas físicos. O filme acabou sendo o ponto final de sua relação com Branagh e ela começou a investir em alguns papéis mais... digamos... audaciosos. Foi assim que topou ser a maluquete Marla de Clube da Luta (1999) de David Fincher, onde muita gente esperava uma indicação ao Oscar de coadjuvante para a atriz. Depois de perder o papel de Bridget Jones para Reneé Zellwegger ela trabalhou com Tim Burton em sua malfadada versão de Planeta dos Macacos (2001) e acabaram se casando. Desde então os maiores destaques na carreira da atriz são os filmes do marido: Peixe Grande (2003), A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005), A Noiva Cadáver (2005).  Como nem tudo é família ela emprestou a voz para a vilã de Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais (2005) e estreou na saga Harry Potter em A Ordem da Phoenix (2007) como a bruxa mais estranhamente sexy do cinema. A melhor parceria da atriz com Tim Burton foi no musical gótico Sweeney Todd (2007) que lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro.  Depois ela emprestou alguma credibilidade para Exterminador do Futuro: A Salvação (2009) no mesmo ano foi lembrada em algumas premiações por sua atuação no telefilme Enid. Agora em 2010 ela engatou três filmes de grande projeção, foi a cabeçuda Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas, além de protagonizar The King's Speech ao lado de Colin Firth  e a primeira parte do último filme da saga Harry Potter: As Relíquias da Morte, dois deles devem lhe fazer figurar nas grandes premiações do ano.
Marla em Clube da Luta: uma doidinha num roteiro esquizofrênico.

DVD: Alice no País das Maravilhas


Helena: a melhor coisa de um filme que está longe de ser uma maravilha.

Semana passada Helena Bonham Carter mostrou que está no páreo do Oscar por dois filmes, além de The King's Speach ela anda cotada para a categoria de coadjuvante por sua inesquecível Rainha de Copas no último filme de seu marido Tim Burton. Na semana passada a atriz ganhou o Hollywood Award de coadjuvante pelo papel. O prêmio não chega a ser um grande termômetro para o Oscar - afinal premia os filmes antes que alguns trunfos dos estúdios para a época de ouro sejam lançados. Devido a esse prêmio resolvi vencer meus preconceitos e escrever essa breve resenha sobre aquele que julgo ser o pior filme de Tim Burton (sim, o acho pior do que o trash Marte Ataca!). Assim que o filme foi lançado Burton foi esperto para tirar o corpo fora e dizer que o filme foi feito sob encomenda para a Disney, com uma única exigência: ser em 3D. Diante do resultado nas bilheterias (o filme rompeu a barreira do bilhão) o estúdio não tem do que reclamar, já os fãs do cineasta... Pra começo de convera é completamente inútil fazer a personagem principal aparecer crescida e insatisfeita com seu noivado se dali para frente o que vemos é uma espécie de versão diluída e sem graça da clássica história de Lewis Carrol (que já chegou aos cinemas numa versão mais competente em animação da própria Disney). Mia Wasikowska passa o filme todo com a mesma cara de quem comeu algo estragado e que está prestes a desmaiar, como Alice ela se contenta em fingir que está surpresa em ver que sua Wonderland na verdade é Underland (?!) e que tudo está muito mais obscuro com a Rainha de Copas (Helena Bonham Carter) reinando por lá. curioso é que o motivo da decadência de Underland é a melhor coisa do filme! Num filme cheio de erros e que tropeça em suas próprias pretensões, o que salva mesmo é a atuação de Helena com um estranho efeito em que aparece com uma cabeça gigantesca. Em meio a tanta artificialidade que vemos na tela são os olhos repletos de alma da atriz que chama a atenção mais do que qualquer efeito especial. Nem adianta tentar falar do efeito 3D que não faz a mínima diferença da trama sofrível. Até Johny Depp (como Chapeleiro Maluco) acaba fazendo mais do mesmo (só acrescenta uma dancinha ridícula ao final da sessão) e Anne Hathaway merecia coisa melhor depois de sua indicação ao Oscar (por O Casamento de Rachel) do que interpretar a insossa (e inventada) Rainha Branca.  No fim das contas a marca de Burton se restringe ao visual (que deve render indicações pelo figurino, maquiagem, efeitos especiais e direção de arte) e seus atores fetiches (Helena e Depp que já estão na sexta  parceria com Burton), mas o que o diretor poderia ter feito com a clássica Alice de Carrol só podemos ver num breve momento onde vemos a personagem pequenina ao final da sessão. Um dos filmes mais esperados do ano mostrou-se um dos mais decepcionantes e só não é pior por conta da magistral patroa de Burton, o qual ele deve agradecer todos os dias por tê-la em casa.

Alice no País das Maravilhas (Alice/EUA-2010) de Tim Burton com Mia Wasikowska, Helena Bonham Carter, Johny Depp e Anne Hathaway. ☻

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Apostas para o Oscar 2011! - Parte II

Somewhere
Não é novidade para ninguém que Sofia Coppola pode se tornar a segunda diretora a levar um Oscar de direção para casa. Veneza já se rendeu ao seu novo filme, agora só falta Hollywood fazer o mesmo. Somewhere possui traços auto-biográficos ao contar a história de uma adolescente e seu relacionamento com seu pai astro de cinema. O filme ainda deve ter indicações nas categorias de filme, roteiro original, ator (Stephen Dorff) e atriz para Elle Fanning!

Biutiful
Outro que fez sucesso em festivais foi Biutiful de Alejandro González Eñarritú. Premiado em Cannes na categoria ator (mais um para coleção de Javier Bardem) o filme é mais um daqueles dramas pesadões que o diretor adora fazer, só que dessa vez ele assina o roteiro da trama de um homem envolvido com negócios ilícitos e problemas familiares. Se a coisa ainda não impressiona imagine até descobrir que ele tem câncer. O filme deve render mais uma indicação para Bardem e mesmo que não concorra ao prêmio principal é aposta certa na categoria filme estrangeiro (já que foi o eleito pelo México para representar o país).

The King's Speech
Se a Academia errou feio no ano passado ao não oscarizar Colin Firth por sua fenomenal atuação em Single Man, nesse ano ela pode reparar essa dívida com sua aclamada atuação em The King's Speech sobre os desafios do Rei George VI para superar a sua gagueira. O filme ainda traz uma forte concorrente no páreo de coadjuvante: Helena Bonhan Carter, que tem suas chances ampliadas depois de ser a única coisa que salva o sucesso Alice no País das Maravilhas do seu marido Tim Burton.

Get low
Em meio as estréias fracotas do verão americano desse ano, Get Low acabou virando uma espécie de oásis no deserto com sua trama amalucada sobre um eremita (Robert Duvall) que resolve organizar seu velório em vida para que possa aproveitar a festa. Para essa tarefa curiosa ele conta com a ajuda de um espceialista em funerais (Bill Murray). O filme é desenvolvido a partir de uma lenda urbana do Tennessee e agradou público e crítica com suas tiradas cômicas e sentimentais. O tipo de filme que acaba surpreendendo por sua despretensão.

Splice
Se ano passado duas ficções científicas chegaram aos dez finalistas do Oscar (Avatar e Distrito 9) esse ano o que deve fazer companhia à A Origem é Splice. O fime conta a história de um casal de cientistas (Adrien Brody e Sarah Polley) que misturam genes humanos ao de outros animais e dão origem a um ser híbrido criado em laboratório. Logo se apegam a ele. Logo criam outro... depois percebem que as coisas não são tão fáceis quanto pensam. Boas críticas amparam essa alegoria sobre o complexo de Deus de alguns cientistas. O diretor é o canadense Vincenzo Natali, responsável pelo sucesso nas locadoras: Cubo.  

DVD: Julie & Julia


Meryl e Tucci: O lado divino da culinária.

Outra cineasta que conseguiu sucesso no ano passado com o apoio de Meryl Streep foi Nora Ephron. Fazia tempo que a diretora não conseguia agradar o seu público (e tão pouco a crítica) mas com Julie & Julia as coisas mudaram. Meryl interpreta Julia Child, personagem ícone da cultura gastronômica dos Estados Unidos, a primeira mulher a ter aulas na mais prestigiada escola culinária França. Esposa de diplomata ela teve que lidar com a esnobação francesa e ainda mostrar que uma mulher pode ser uma chef de prestígio. Sei que hoje isso não parece nada demais, mas na década de 1940 a coisa era complicada. O roteiro de Ephron mescla a história de Julia ao de Julie Powell (Amy Adams) uma jovem insatisfeita de Nova York que resolve comentar num blog sua experiência com os 524 pratos do clássico livro de Julia - o que também não é uma tarefa das mais fáceis. O que acho mais interessante no filme (além da atuação de Meryl, que ganhou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar pelo papel) é o olhar que a diretora lança sobre a mulher em dois períodos distintos. Julia vive em meados do século XX com o seu marido (Stanley Tucci, que atuou com Meryl em O Diabo Veste Prada e exibe aqui  a mesma química) e Julie é uma nova-iorquina típica do século XXI, mas muito mais insatisfeita, mas que reencontra na culinária um prazer que faltava em seu cotidiano. Os desavisados podem até imaginar que há algo de machista nisso, mas Julia Child não tinha nada de submissa ou oprimida e por isso serve de inspiração para Julie, que apesar de todos os caminhos possíveis da modernidade se reencontra com o umbigo no fogão. Prefiro imaginar que o filme é sobre essa coisa quase divina que é preparar um prato, misturando ingredientes, servindo aos amigos numa boa conversa e dormir satisfeito por ter compartilhado o sabor de uma taref. Mais do que sobre mulheres e suas vidas o filme é sobre um objetivo: seja fazer um suflê ou encontrar um sentido para uma vidinha que parece medíocre. Por isso o filme termina com a publicação do livro de Julia (após um árduo processo editorial) e o ponto final no blog de Julie. Nosso legado nos faz interagir com as pessoas e, de certa forma, nos destina a imortalidade. Seja pelo alimento físico ou escrito. 

Julie & Julia (EUA-2009) de Nora Ephron com Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina e Jane Lynch. ☻☻☻ 

DVD: Simplesmente Complicado


Meryl e Alec: Como adolescentes em crise.

Recentemente fiz a lista das diretoras que estão cotadas para ganhar um Oscar - mesmo sabendo que algumas não serão sequer indicadas. Um amiga viu a lista e me perguntou se havia esquecido de Nancy Meyers. Ela ficou visivelmente decepcionada quando eu disse que não havia me esquecido, ela simplesmente não deveria estar ali. Meyers ainda tem que amadurecer um bocado para fazer com que suas comédias românticas se tornem premiáveis. Se a crítica viu algum potencial em Alguém tem que ceder (2003) - e até a Academia, já que rendeu à Diane Keaton uma indicação ao Oscar de atriz - elas diminuiram quando a diretora cometeu O Amor não Tira Férias (2006) com Cameron Diaz (que é uma das coisas mais xoxas que vi no cinema recente, que só não é pior porque ela teve o bom senso de colocar Kate Winslet no elenco). Ano passado ela voltou a querer agradar a terceira idade e lançou o simpático Simplesmente Complicado, que só pelo trio principal já vale uma olhada: Meryl Streep (indicada ao Oscar pelo papel), Alec Baldwin (indicado ao BAFTA de coadjuvante) e Steve Martin. Meryl é Jane, a dona de uma confeitaria de luxo que está divorciada há dez anos de seu ex-marido canastrão, Jake (Baldwin). Quando as coisas estão ajeitadas em sua vida, os dois engatam um caso. Vale lembrar que ele agora é casado com uma magrela vários anos mais nova e que está doida para engravidar dele. Enquanto ele percebe que com a idade as afinidades com Jane aumentatam, Jane começa a questionar sua desconfortável posição de amante (claro que misturado à uma certa vingança contra a jovem esposa atual). Para dar um tempero entra em cena o arquiteto sensível responsável pela reforma na casa dela (Martin), que ainda atravessa seu próprio período de adaptação pós-divórcio.  A protagonista então fica no dilema entre reviver o passado ou investir em um relacionamento novo para essa nova fase de sua vida, ou para os entendidos: ser uma mulher com mais de cinquenta disputada por dois homens. O roteiro de Meyers (indicado miraculosamente ao Globo de Ouro) nunca aprofunda muito os personagens masculinos e prefere fazer que essa crise de meia-idade se reflita em atitudes puramente adolescentes (as espreitas à janela, o baseado antes da festa, as conversas ao computador...), sorte que ela conta com Meryl Streep para dar alma para um roteiro esquemático e previsível dentro dos clichês que aborda. Streep está muito bem no papel principal e mostra porque é uma das atrizes mais versáteis do cinema. Alec Baldwin também tem seus méritos, principalmente por exibir seu abdomen rotundo após anos sendo considerado um dos caras mais belos de Hollywood. Mas, no fundo, Meyers só quer nos entreter e proporcionar uma inofensiva reflexão sobre a passagem do tempo e das relações. Se fica algum recado é que as afinidades transcendem o sexo e que não adianta enganar os anos passados se comportando feito adolescente.

Simplesmente Complicado (It's complicated/EUA-2009) de Nancy Meyers com Meryl Streep, Alec Baldwin, Steve Martin, John Krazinski e Rita Wilson. ☻☻