sábado, 18 de agosto de 2012

kLÁSSIQO: Drugstore Cowboy

Heather, James, Kelly e Dillon: junkies nus e crus. 

Eru era adolescente quando vi pela primeira vez Drugstore Cowboy, um dos clássicos de Gus Van Sant. Portando faz quase vinte anos! No entanto, é um desses filmes que fica na nossa memória por um bom tempo. Talvez minhas boas lembranças sobre o filme estejam relacionadas ao fato de que pertence ao gênero em que considero Van Sant um expert: a comédia de humor negro. Pena que ele quase não se aventura pelo gênero.   O filme até hoje gera polêmicas  por ser acusado de glamourizar o uso das drogas. Visto hoje em dia, me faz lembra de outro filme acusado de fazer o mesmo: Trainspotting (1996) de Danny Boyle. A temática perigosa tratada com humor inusitado, às vezes surrealista, é o que os dois filmes tem em comum. Menos frenético, Drugstore Cowboy consegue ser um retrato melancólico sobre jovens americanos que sustentavam o vício roubando farmácias e hospitais sedentos por estimulantes e tranquilizantes. O filme acompanha o bando de Bob (Matt Dillon) que ao lado da esposa Dianne (a linda Kelly Lynch) e dos amigos Rick (James Le Gross) e Nadine (Heather Grahan) em seus planos mirabolantes pelas redondezas. Líder dessa espécie de família disfuncional,  Bob já foi preso algumas vezes, já foi para a reabilitação mas não consegue largar o vício. O filme prefere não destacar o uso das drogas, mas o estilo de vida marginalizante que ela impões ao quarteto através de situações cômicas e outras dramáticas. Van Sant consegue a proeza de mudar o tom em questão de segundos, sem que comprometa o ritmo do filme. Prova disso é o episódio dedicado ao cãozinho Panda que acaba atrapalhando os plano do grupo - e a proibição do uso de palavras cão e chapéu pelos trinta dias de azar que proporcionam. É justamente na parte que aborda as desventuras do grupo em seus assaltos e os conflitos que surgem pelo caminho que o filme é mais interessante -  especialmente por conta dos diálogos extremamente lapidados (a cena em que Dianne reclama da falta de apetite sexual de Bob e ele alega que ela deve estar drogada para querer seduzí-lo faz qualquer um gargalhar). Com a morte de um membro do grupo, Bob acredita que sua sorte mudou e portanto, precisa mudar de vida - mesmo que isso signifique amargar o distanciamento de seu grupo. É arrebatadora a cena em que argumenta com uma assistente social sobre não querer ajudar outros viciados a largar o vício, mas, ironicamente o filme perde o ritmo quando chega neste ato que poderia ser de redenção. Embora menos inspirada essa parte rende tiradas filosóficas provocadoras saída dos lábios de William S. Burroughs no papel de um junkie aposentado. Essa parte só demonstra que quando Van Sant tem de lidar com uma tarefa complicada, ele consegue ser melhor do que no trivial (esse adjetivo vale para seus filmes oscarizados Gênio Indomável/1997 e Milk/2008 que devem ser os menos complicados de sua carreira). Sem discursos prontos e mostrando o vício como um hábito, o Cowboy de Drogaria de Van Sant consegue ser extremamente plástico em sua execução e honesto nas sutilezas dos personagens. Com ritmo lento e criação de algumas cenas experimentais, Van Sant chamou a atenção neste filme  pela extrema competência em contar histórias estranhas e conduzir seus atores.  Pelo final melancolicamente irônico muitos consideram que Matt Dillon encontrou neste filme o seu melhor papel.

Drugstore Cowboy (EUA-1989) de Gus Van Sant com  Matt Dillon, Kelly Lynch, James Le Gross e Heather Graham. ☻☻☻☻

DVD: Guerra é Guerra

Tom, Reese e Pine: sabotagem entre amigos. 

A cada novo filme chego à conclusão de que o Oscar não mudou a vida de Reese Witherspoon, e sim, o divórcio com Ryan Phillipe. O casal era um dos mais celebrados  de Hollywood desde que se conheceram e engataram um namoro nas gravações de Segundas Intenções/1999 - aquela versão moderninha de Ligações Perigosas de Chordelos de Laclos. Durante o casamento os dois alcançaram seus maiores sucessos de bilheteria, ela mais do que ele - ao ponto de ganhar o Oscar de atriz por Johny e June, onde encarnava a senhora Johny Cash. O divórcio veio alguns anos depois e, em nome da auto-estima, Reese se consolidou como garota propaganda da Avon e seus papéis no cinema começaram a seguir a mesma linha: "a gostosa". Foi assim que ela aceitou domar elefantes em Água para elefantes/2011, enfeitar um triângulo amoroso entre Paul Rudd e Owen Wilson no pífio Como Você Sabe?/2010 e, recentemente, repetiu outro relacionamento a três, desta vez entre Chris Pine e Tom Hardy. Antigamente Reese passaria longe dessas produções. Antes tinha fama de encrenqueira e se rendia a filmes independentes como Eleição (1999) e Psicopata Americano (2000), depois perceberam que seu lado cômico agradava ao público com o seu maior sucesso, Legalmente Loira (2001) e os estúdios não a deixaram mais em paz. Pena que isso não quer dizer que ela recebeu bons papéis nos últimos anos - o que deve mudar quando estrear Mud nos EUA, um filme independente que já é cotado para o Oscar. Essa volta ao mundo indie deve ter alguma relação com seu último filme, o bobinho Guerra é Guerra. É fácil notar que o roteiro nem se preocupa a construir personagens, pensaram que bastava colocar dois amigos espiões disputando a mesma garota que acharam que a trama andaria por si mesma. Acrescente algumas explosões, piadinhas e chamá-lo de comédia romântica (o gênero mais castigado do cinema) e pronto! Tuck (Tom Hardy, o Bane do último filme de Batman) é um agente da CIA romântico e divorciado que conhece Lauren (Reese) pela internet. Antes que ele apresente sua amada ao amigo FDR (Pine), ele terá a surpresa de descobrir que o amigo também está apaixonado por ela. Os dois se tornam rivais e - a parte mais original da trama - utilizam todo o aparato de espiões para sabotar um ao outro. Enquanto os amigos percebem que a amizade está por um fio, Lauren entra no velho dilema de quem é o cara ideal para ela, para isso toda sua figura de mulher moderna vai para o ralo com seus dilemas  românticos e um pouco antiquados para alguém que busca emoção com homens sujos e suados. O filme poderia ser uma grande diversão se o diretor McG não repetisse o que já fazia em As Panteras/2000:  tornar as cenas de aventura em sequências vazias e cansativas (algumas com o auxílio do vilão russo vivido pelo alemão Til Schweiger). Eu não achei graça do humor infantil, não me empolguei com os dilemas românticos dos personagens e o final chega a ser revoltante. Sei que há quem goste, mesmo sabendo que o filme resistirá menos de uma semana na memória. Algumas pessoas vão reclamar que nesse post eu falei pouco do filme, mas não existe muito o que falar sobre ele. Se existe algum mérito na produção deve-se aos atores que fazem das tripas coração para ganhar a simpatia do público - só para ressaltar, eu disse atores, não personagens. 

Guerra é Guerra (This Means War/EUA-2012) de McG com Tom Hardy, Reese Witherspoon, Chris Pine, Chelsea Handler, Angela Basset e Rosemary Harris. ☻☻

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

CATÁLAGO: O Nome da Rosa


Connery e Slater: Holmes e Watson de época.

Eu confesso que assisti pela primeira vez o filme O Nome da Rosa somente essa semana. Lembro de quando foi lançado em 1986 o meu primo o assistiu até no cinema (e eu enchia o saco dele perguntando como era um filme onde as pessoas buscavam o nome de alguém...). Naquela época eu nem imaginava que era um famoso livro de Umberto Eco lançado seis anos antes - e que eu até comprei na época da faculdade, mas (confissão número 2) nunca terminei de ler. Não que eu ache que ver o filme é melhor do que ler o livro, mas porque, simplesmente o DVD do filme estrelado por Sean Connery caiu em minhas mãos. Minhas impressões? Gostei mais da metade para o final, quando F. Murray Abraham aparece e espanta o clima de 007 de época. Não entendeu? Eu explico. A primeira parte da trama é pautado nas investigações do monge franciscano William de Baskerville (Sean Connery) que em 1327 investiga as mortes misteriosas num mosteiro ao norte da Itália, como fiel escudeiro ele tem o noviço Adson Van Melk (Christian Slater com 15 aninhos) - que irá reavaliar o celibato. As mortes misteriosas são atribuídas à ação do demônio no local, mas Baskerville, com todo o ceticismo que sua religiosidade e experiência permitem, acredita que o motivo dos assassinatos é bem mais obra do homem do que do chifrudo. Na obra de Eco fica claro que a trama é menos sobre as mortes e mais sobre a forma como o conhecimento era (?) ameaçador para a igreja Católica. Explora a ideia dos monges copistas (que apenas reproduziam o que liam), as cerimônias religiosas em latim, o caráter subversivo do riso (que era proibido) e o temor à danação que parece mais presente do que o divino. Esses aspectos históricos que tornaram a obra um sucesso editorial - e cultuada por sua descrição do período da Inquisição - tornam o livro mais interessante do que o filme. Pra começar achei péssima  a escalação de Connery para o papel, seu jeito cínico compromete um bocado o personagem com um ar lamentavelmente canastrão (eu não sabia se ria ou chorava quando ele diz para o seu parceiro "Elementar meu caro Adson"). Entendo a necessidade que uma obra com temática tão árdua tenha de criar alívios cômicos para agradar a plateia, mas do jeito que aparece aqui, quebra totalmente o esmero da reconstituição de época. O diretor Jean Jacques Annaud precisa tanto da atenção da plateia que tenho a impressão que ele esqueceu de toda a História e resolveu criar um filme de investigação. A forma como Baskerville encontra, estuda e estabelece suas conclusões lhe configura como um ancestral de Sherlock Holmes! Somente quando ele descobre uma relação da vasta biblioteca (e seus livros proibidos) com as mortes, o filme encontra a  grandiosidade da trama do livro. É mais ou menos nessa hora que entra em cena o grã-inquisidor Bernardo Gui (F. Murray Abraham, já oscarizado por Amadeus/1984) e se convence que o demônio está realmente presente naquele mosteiro - influenciando principalmente uma mulher (Valentina Vargas) e um deficiente (Ron Perlman, antes de ser Hellboy/2004). Cavando o passado dos presentes ali, inclusive de Baskerville, Bernardo Gui estabelece uma rede de intrigas no mosteiro e apresenta uma imagem religiosa bem distante do que a igreja deveria representar. Seu métodos de tortura para conseguir confissões e a arrogância - que só os que se julgam donos da verdade podem ostentar - praticamente esmagam o herói da trama. Não nego que Connery tenha carisma, mas aqui ele contribui um bocado para desviar a atenção do universo que Eco descrevia com tanta dedicação. Um mundo onde o conhecimento era tão ameaçador quanto uma gargalhada, onde quem não se enquadrava nos padrões era destinado à danação e o amor poderia ser mais condenável do que atear fogo em alguém. 

O Nome da Rosa (The Nem of the Rose/Itália-França-Alemanha - 1986) de Jean Jacques Annaud com Sean Connerey, F. Murray Abraham Christian Slater, Ron Perlman.☻☻☻

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

DVD: Drama

Jovens atores: emoções reais na busca pela identidade.

Considero muito interessantes os filmes que procuram explorar o processo de construção de um artista, tanto faz se são os escritores de As Horas (2002) ou a bailarina de Cisne Negro (2010),  por isso que assisti ao chileno Drama de Matias Lira. que chamou atenção desde que o roteiro foi premiado com verba de financimento no Festival de Havana. A premissa é das mais interessantes: um grupo de estudantes de teatro são motivados pelo professor a utilizar o método do teórico francês Antonin Artaud (ou método Artaudiano) que busca emoções reais para serem levadas ao palco - o que muitas vezes desperta sensações obscuras em seus adeptos. O método serve de pretexto para que os jovens experimentem situações perigosas nas ruas sem a segurança da atuação sobre o palco. O foco do filme está em três amigos, o andrógino Mateo  (Eusebio Arenas), sua namorada Maria (Isidora Urrejola) e o amigo Ángel (Diego Ruiz) que está descobrindo sua homossexualidade. O que poderia originar um triângulo amoroso serve de ponto de partida para uma história que agrega outros elementos, como a construção da identidade dos personagens e o efeito da ditadura chilena sobre as artes. Não é um filme para todos os gostos. Diante do método, todos os sentimentos estão ali para a desconstrução desses atores descontrolados. Assim, a cumplicidade existente entre o casal se dilui na busca pelos limites de cada um - e a confiança entre os amigos segue pelo mesmo caminho. Se Mateo se ressente  de sempre ser criticado de não atribuir emoções aos personagens, Maria e Angel começam a explorar a sexualidade interpretando a prostituição nas ruas. Já me parece um clichê essa mania de colocar atores sempre caindo no submundo (exploração sexual, tráfico de drogas...) para explorar suas emoções, mas no roteiro esse fato aparece claramente como uma desculpa ponto de partida para que os personagens descubram a si mesmos. Se Maria parece até casta com seu namorado, ela irá liberar suas fantasias... se Ángel está apaixonado por seu amigo, até o final irá perceber o quanto a imaturidade do amado é desinteressante. Mas o fio condutor da trama é a história de Mateo, que tem o passado mostrado em flashes durante uma montagem de Romeu e Julieta que o aflige até hoje. Parece estar ali a resposta para todos os seus problemas, suas limitações como ator, amante e até como filho. É até interessante como Arenas consegue subverter sua imagem angelical abraçando tudo que seu personagem tem de desagradável, mas aturar um protagonista petulante, agressivo e manipulador não é fácil, ainda mais com a atmosfera de pesadelo que o diretor utiliza em vários momentos (principalmente nas esquetes, especialmente na releitura mais sombria da história de Shakespeare). Por descascar a profissão de atuar de todo glamour e vesti-la de angústia o filme tem seus méritos, mas peca pelo prazer de chocar o público com polêmicas desnecessárias (como o esquete dos amigos sobre um padre traficante assediado por uma prostituta e um fiel gay) ou ainda jogar fora um bem tratado erotismo com as cenas de Ángel no carro com um "cliente" ou o sexo de Mateo com Julieta nos bastidores (apesar de Freud explicar isso muito bem).     Infelizmente o roteiro não está à altura das boas ideias que apresenta. No fim das contas, entre tantas traições (aos outros e a si mesmo), Mateo reencontra a sua história e se dá conta de que  só seus sentimentos por Maria podem salvá-lo. A partir daí... o filme termina com uma cena forte e instigante, que mistura a realidade do personagem com a fantasia não encontrada nos palcos, mas na própria rua. 

Drama (Chile/2010) de Matias Lira com  Eusebio Arenas, Isidora Urrejola, Diego Ruiz, Jaime McManus e Eduardo Pacheco. ☻☻

terça-feira, 14 de agosto de 2012

CATÁLOGO: Flores Partidas

Murray: desanimado até na cama com Sharon Stone!!!

Jím Jamursch é mais do que um cineasta, trata-se de um ícone cultuado por vários diretores moderninhos (Sofia Coppola, inclusive). Vou ser honesto e dizer que nem sempre seus filmes me agradam e essa  impressão se manteve quando comecei a assistir Flores Partidas que (ironicamente) passou no último domingo para celebrar o Dia dos Pais. O que motivou a vê-lo foi menos o diretor e mais o elenco. No fim das contas ver um filme com Tilda Swinton, Sharon Stone, Jessica Lange, Frances Conroy e Julie Delpy me interessou até mais do que a presença de Bill Murray. Na época, Murray ainda saboreava sua primeira indicação ao Oscar por Encontros e Desencontros (2003) de Sofia Coppola (e seu namoro com o público se intensificou ainda mais quando vimos as lágrimas em seus olhos ao perder o prêmio). Aqui ele consegue fazer do seu personagem Don Johnston (um trocadilho com o galã das antigas Don Johnson?) ainda mais apático do que o astro de cinema do filme anterior. Apesar de sua apatia Johnston coleciona casos amorosos - e dinheiro não lhe falta para isso. Ainda assim, ele não se apega a ninguém, não demonstrando grandes reações nem quando perde a companhia de Julie Depy (!?). Me incomodou bastante como o filme abraça essa indiferença da vida de Johnston, uma existência tão oca que parece se manter no vácuo apenas por não ter nada melhor para fazer. Sua melhor companhia acaba sendo o vizinho (Jeffrey Wright) que, sendo fã de livros policiais, motiva o amigo a embarcar na maior aventura de sua vida depois que Johnston recebe uma carta anônima dizendo que possui um filho com  uma de suas ex-namoradas. Esta revelação é  motivo suficiente para que Don saia (um pouco) de sua inércia e procure um pedaço de sua história que ficou para trás, antes mesmo de vivenciá-lo. A tal carta pode ter sido escrita por qualquer uma de suas ex-namoradas - e tirando uma que faleceu, sua jornada promete ser longa. Pistas? Ele tem pouco mais do que encontrar papel rosa semelhante ao da carta e uma amostra de caligrafia para descobrir quem é a mãe de seu herdeiro. É estranho que Jamursch tempere uma comédia com tristeza, melancolia e indiferença centrada numa figura sem sal como Don, sorte que a coisa acaba funcionando quando entra em cena as ex-namoradas do personagem. Como mulheres tão interessantes puderam se interessar por ele? É curioso ver  a química daquele sujeito com cada uma delas (passando pela terapeuta de animais vivida por Jessica Lange, uma sexy Tilda Swinton morena, a mamãe prafrentex vivida por Sharon Stone - cujo a filha é uma espécie de Lolita - , a comportada Frances Conroy...). Obviamente que a tal busca do filho é um trote do diretor, já que no meio do caminho isso é o que menos importa para o desanimado Johnston. Na primeira olhada o filme parece um exercício de paciência ao espectador, mas se você fficar atento aos contrastes que o roteiro apresenta e captar suas ironias você vai ver como o filme consegue ser interessante em sua simplicidade. Só para não perder o hábito de motivar as pessoas a me tacarem pedra na rua, aqui já estava na hora de Murray parar com essa mania de tentar imitar Terence Stamp (o veterano que não se animava nem quando fez uma drag-queen em Priscila-A Rainha do Deserto/1994), aqui sua apatia proposital chegou ao auge do (in)suportável. 

Flores Partidas (Broken Flowers/2005) de Jim Jamursch com Bill Murray, Jeffrey Wright, Sharon Stone, Frances Conroy, Jessica Lange e Julie Delpy. ☻☻☻

DVD: Nossa Vida Não Cabe num Opala

Medeiros: boa atuação em polêmica adaptação.  

Adaptado na peça "Nossa Vida não vale um Chevrolet" de Mário Bortolotto, este filme criou várias polêmicas, mais pelo filme em si. Pra começar a companhia de carros não autorizou o uso do título original, depois de muitas negociações aceitou o uso do Opala no título - por não ser uma marca e, principalmente por ter saído de linha. Depois houve uma discussão entre o próprio Bortolotto com o roteirista do filme, Di Moretti com a argumentação de que muita coisa se perdeu na transposição para a telona. No meio da discussão ficou o diretor estreante Reinaldo Pinheiro que conseguiu criar uma atmosfera interessante à história da família do subúrbio paulistano marcada pela tarefa de ganhar o sustento com  roubo de carros. Existe três aspectos muito marcantes no texto e que conduzem toda a narrativa. Um deles é a figura do patriarca Oswaldão que ao morrer (Paulo César Pereio) deixou como herança a dívida com um mafioso do ramo de desmanche de carros (Jonas Bloch). Mesmo morto o pai aparecerá para cada um de seus filhos: o primogênito Monk (Leonardo Medeiros) que tenta evitar que o caçula Slide (Gabriel Pinheiro) siga o seu caminho seja em lutas de boxe ou como ladrão de carros - tarefa já herdada pelo tresloucado Lupa (um caricato Milhem Cortaz). Nesse clã cheio de testosterona está Magali (Maria Manoella), uma tecladista que tenta fugir da sordidez ao seu redor. Outro aspecto marcante é que na ausência do pai, a vida dos filhos parece regida pelo mafioso, ele aparece como uma espécie de fantasma do "determinismo social", inclusive para convencer Magali a ser sua amante. Outro ponto marcante é a misteriosa Sylvia (Maria Luisa Mendonça) que parece saída de um filme de David Lynch. As cenas de Silvia aparecem repentinamente na trama como se acontecesse num universo paralelo, ela seduz cada um dos irmãos utilizando a mesma estratégia: mostra a foto de um homem, oferece vinho e escolhe uma música. Nesse momento surreal o diretor nos apresenta um pouco mais as particularidades dos personagens,  talvez por isso, renda os momentos mais hipnóticos do filme. Apesar dos prêmios que o filme recebeu em festivais nacionais (Filme, direção de arte, atriz/Mendonça, trilha sonora e roteito no Festival de Recife e Melhor Roteiro no Cine Ceará, além de ter sido indicado ao prêmio de Melhor Roteiro Adaptado no GP Cinema Brasil), eu entendo todas as críticas que foram feitas a ele. No entanto, vou ressaltar que ele ainda consegue ser mais interessante do que a maioria dos filmes nacionais que estão em cartaz. Se a história sobre a  herança falida dos irmãos está diluída em meio aos palavrões espalhados nos diálogos, a trama ainda consegue chamar a atenção pelo cuidado cênico impresso por Reinaldo Pinheiro. A edição é competente, a trilha sonora é ótima (cortesia de várias bandas paranaenses como OAEOZ, Íris, Patife Band e a própria banda de Bortolotto: "Bêbados Habilidosos") e acho que o filme poderia ser melhor se tivesse caprichado mais no final. Uma amiga me disse certa vez que filme brasileiro tem mania de acabar antes da última cena. Tive essa sensação ao ver Nossa Vida não Cabe num Opala.  A estratégia pode até funcionar com alguns filmes de arte (aqueles que sabem que o objetivo já foi compreendido pela plateia), mas aqui soa apenas pretensiosamente irritante. A cena da luta do caçula  com o que ele acha que deve ser (assim como a cena seguinte do pai fantasma desiludido sobre o ringue vazio) seria ainda mais forte se o filme não optasse por um ponto final prematuro. Os desdobramentos a tudo que se vê na última cena poderia deixá-lo ainda mais próximo do filme genial que poderia ser. Será essa a diferença entre o "caber" e o "valer"?

Nossa Vida Não Cabe Num Opala (Brasil/2008) com Leonardo Medeiros, Milhem Cortaz, Paulo Cesar Pereio, Maria Luisa Mendonça, Gabriel Pinheiro, Jonas Bloch, Maria Manoela, Marília Pêra e Dercy Gonçalves. ☻☻☻

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

DVD: A Árvore

Charlotte: a alma gêmea numa figueira. 

Filha dos icônicos Jane Birkin e Serge Gainsbourg, a cantora e atriz Charlotte Gainsbourg criou uma carreira própria ancorada especialmente em filmes sérios. Apesar das décadas de carreira (estreou em 1984), sua fama aumentou consideravelmente quando estrelou o polêmico O Anticristo (2009) de Lars Von Trier, filme pelo qual recebeu o prêmio em Cannes de Melhor Atriz. De brinde, Charlotte se tornou a atriz favorita do diretor, especialmente por ser a única a repetir a parceria com Trier (que tem fama de ser um torturador psicológico para suas estrelas). Além de ter aparecido em Melancolia (2011) e estar escalada para (o já polêmico) novo filme do cineasta (A Ninfomaníaca), a francesa prova que pode fazer papéis mais leves como neste A Árvore uma espécie de fábula pela metade. Escolhido para encerrar o Festival de Cannes/2010 O filme conta a história de uma família nos cafundós da Austrália que sofre com a morte do patriarca. Com a morte dele resta à viúva Dawn (Gainsbourg) colocar ordem na casa e nas relações com seus quatro filhos. Poderia ser só mais um drama familiar se a única filha do clã, Simone (a promissora Morgana Davies) não acreditasse que a alma de seu  pai está na gigantesca figueira ao lado da casa. A menina passa horas conversando com a árvore e conta o segredo para a mãe que aceita aquela situação como forma da garota superar a perda recente. A coisa poderia ser graciosa se a vida não tivesse que seguir seu rumo e Dawn não arranjasse um emprego e se apaixonasse pelo patrão - para a ira da menina e... da árvore! É até interessante como a diretora faz a árvore interagir com aquela família e expressar seu desagrado com a situação derrubando uma parede, fazendo com que os desafetos tropecem em suas raízes ou até mesmo prejudicando a estrutura da casa. No entanto, a diretora perde cada vez mais o ânimo perante o aspecto fantástico da história. O resultado soa arrastado e bem menos inventivo do que deveria - e a inércia da matriarca prejudica um bocado a identificação do espectador com aquela situação. Baseado no livro "Nosso pai que está na árvore" da escritora Judy Pascoe, o filme poderia ser genial se mergulhasse na fantasia que o livro propõe, mas, ao invés disso, resolve transformar a menina que era uma gracinha em uma  mimada intransigente, enquanto a mãe começa a questionar se deve continuar a viver ou se render àquela fantasia maluca de ter a alma do esposo presente ao lado da casa. Enquanto o cotidiano tenta encontrar seu rumo para a vida continuar seu ciclo (exemplo disso é o primogênito que passa a trabalhar, o segundo filho  que ajuda nos afazeres domésticos...), as mulheres da casa parecem receosas de seguir em frente - assim como a diretora em cumprir o que prometia e radicalizar seus simbolismos. Depois de patinar por longos minutos, as coisas melhoram com a cena do furacão que cumpre a função de concluir a trama com o último golpe do papai figueira. Penso o que M. Night Shyamalan teria feito com uma premissa dessas.

A Árvore (The Tree/L'Arbre - França/Austrália -2010) de  Julie Betuccelli com Charlotte Gainsbourg, Morgana Davies, Marton Csokas, Christian Byers e Tom Russell. ☻☻

domingo, 12 de agosto de 2012

COMBO: Quero Ser Spike Jonze

5 A Cela (2000) Sei que muita gente vai estranhar esse thriller protagonizado por Jennifer lopez na lista, mas francamente, um ano depois de invadirem a mente de John Malkovich resolveram fazer o memso com a mente de outra pessoa. A ideia do roteirista Mark Protosevich é bem simples: misture Quero Ser John Malkovich (1999) com O Silêncio dos Inocentes (1991) e você terá A Cela. Ao invés de vasculhar o inconsciente de um ator, aqui J.Lo encarna uma psicóloga capaz de entrar na mente de seus pacientes para desvendar seus transtornos - no caso um serial killer que não deixou vestígios de onde escondeu sua última vítima. O diretor Tarsem Singh (então famoso pela direção do vídeo Losing My Religion do REM) comprova aqui que tem mãos estilosas para construir cenários e alegorias - e também demonstra bom gosto para o elenco (Marianne Jean Baptiste, Vincent D'Onofrio é o doido mais uma vez e Vince Vaughn consegue ser sério). Faltava só  amadurecer um bocado na condução da trama confusa e cheia de buracos.  

4 Eu Amo Huckabees (2004) Antes de dirigir o oscarizável drama de ringue O Vencedor (2010), David O. Russel dirigiu essa comédia maluca sobre um poeta que só pensa em salvar o mundo (Jason Schwartzman) que contrata uma dupla de detetives birutas (Lilly Tomlin e Dustin Hoffman) que investiga a crise existencial de seus clientes. Puro pretexto para uma trama sem muito sentido sobre metafísica e crítica ao consumismo. Na parte metafísica ainda contamos com a francesa Isabelle Huppert bancando uma analista concorrente dos detetives e na parte "consumista" temos Jude Law e Naomi Watts como um casal em crise. No meio das duas tramas está Mark Wahlberg como um bombeiro romântico e bem intencionado. O começo interessante vai cansando pela falta de sentido e quando chega ao final nos perguntamos sobre o que era o filme mesmo? Pois é, nem todo diretor é Spike Jonze (nem todo roteirista maluco é Charlie Kaufman).

3 Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) Este parece um filme de Spike Jonze, mas não é. Após duas parcerias com Jonze, Charlie Kaufman engatou seu segundo trabalho com o diretor francês Michel Gondry (a outra foi em Natureza Quase Humana/2001), que, assim como Jonze, também ficou conhecido no meio dos video clipes. Kaufman escreveu uma verdadeira ode à dor de cotovelo! Joel (Jim Carrey, na atuação de sua vida) ainda tenta se recuperar do fim de seu namoro com a maluquete Clementine (Kate Winslet) quando ele descobre que ela participou de uma experiência neurológica onde o apagou completamente da memória. Raivoso com a situação, ele resolve fazer o mesmo, mas no meio do caminho descobre que há lembranças que merecem ser guardadas. O roteiro sentimental recebe tratamento amalucado nas mãos de Gondry e o resultado foi um dos filmes mais aclamados do ano - ganhador do Oscar de roteiro original e indicado ao prêmio de atriz. Completam o elenco Tom Wilkinson, Elijah Wood, Mark Ruffalo e Kirsten Dunst.    

2 Synedoque Nova York (2008) Basta saber que Kaufman não se contentava em ser roteirista e que absorvia (e sugeria) a forma como Jonze conduzia as coisas no set de Quero Ser John Malkovich /1999 para saber os rumos que sua carreira tomariam. Ao dirigir seu primeiro longa metragem, Kaufman teve que amargar críticas severas quanto sua habilidade na direção. O filme conta a história de um dramaturgo (Phillip Seymour Hoffman) que tem a ambição de criar uma épica montagem teatral que reproduza os rumos da vida. Além de contratar atores para interpretar as pessoas que cruzaram seu caminho, sua ideia se torna tão complicada que começa a inserir atores que interpretam os atores que trabalham na peça. Deu para entender? A trajetória do personagem mostra-se uma jornada impossível de ser completada e que se torna um grande transtorno quando ele não consegue distinguir realidade e ficção. Uma ideia tão complicada que Kaufman acreditou que só ele conseguiria levar para a telona (com ajuda de Michelle Williams, Emily Watson, Diane Wiest...) - no entanto, todo mundo disse que nas mãos de Jonze teria feito muito mais sentido.    

1 Mais Estranho que a Ficção (2006) E se os personagens de uma obra de ficção realmente existissem? E se todos somos personagens da obra que alguém está escrevendo? Essas duas ideias formam o motor desse filme de Marc Foster protagonizado por Will Ferrell. Will é Harold Crick, funcionário da receita federal que um dia escuta uma voz feminina narrando suas ideias, ações e sentimentos com precisão. Não bastasse somente ele ouvir essa voz, ele ainda descobre através dela  que o dia de sua morte está chegando. Desesperado, Harold procura ajuda e acaba descobrindo que é o personagem de uma renomada escritora  e... o roteirista Zach Helm consegue construir uma história menos hardcore do que a dupla Jonze/Kauffman, mas que consegue fazer todo sentido em meio à confusão que se anuncia - cortesia da direção sempre confiável de Foster. A ideia é tão boa que atraiu atores ilustres como Dustin Hoffman, Emma Thompson, Queen Latiffah e Maggie Gyllenhaal, mas a semelhança com o universo Jonze/Kauffman lhe custaram a indicação ao Oscar.  Mas de todos os filmes amalucados que seguem a trilha de Spike, este é o melhor. 

FILMED+: Quero Ser John Malkovich

Craig, Maxine e Lotte: existencialismo surreal.

Depois de fazer história no mundo dos video clipes, Spike Jonze resolveu se aventurar no cinema com ajuda de um roteiro amalucado assinado por Charlie Kaufman. Se Jonze já era conhecido pela sua criatividade em criar clipes inovadores (entre eles Sabotage do Beastie Boys e Buddy Holly do Weezer) imagine o que ele poderia fazer com o texto de um ilustre desconhecido aclamado como um dos mais promissores roteiristas de Hollywood? Promissor é uma palavra até simples para descrever Kaufman, afinal, imagine alguém que concebe uma história sobre uma passagem secreta para a mente do ator John Malkovich - que fica localizada no sétimo e meio andar de um prédio! Poderia ser apenas mais uma comédia maluca, mas Kaufman tempera tudo com uma mistura surreal de crise de identidade. Craig (John Cusack, em um de seus melhores momentos) é um títere que se satisfaz criando encenações de fantoches para peças sérias (como "Abelardo e Heloísa"), nem sempre ele é bem compreendido - nem mesmo pela esposa, Lotte (uma baranga Cameron Diaz). Além de fantoches,  o lar do casal é repleto de animais cuidados com grande zelo por Lotte (um dos macacos até frequenta o analista). Por conta das dificuldades financeiras, Craig acaba procurando um emprego em que possa utilizar suas habilidades manuais. Acaba sendo escolhido para trabalhar no arquivo de um escritório, onde conhece a arrogante Maxine (a ótima Catherine Keener). Não vai demorar muito para que Craig descubra atrás de um arquivo uma passagem secreta que lhe permitirá ver o mundo pelos olhos de John Malkovich por quinze minutos. Depois, ele é cuspido à margem de uma rodovia. Nem tente procurar sentido nessa loucura, apenas se concentre nos questionamentos que a experiência causará no trio protagonista. Enquanto Craig planeja conquistar o estrelato fazendo de John Malkovich seu fantoche, Lotte começa a questionar a própria sexualidade ao experimentar a masculinidade por alguns minutos. Em meio à crise conjugal, Maxine surge como uma terceira vértice de um triângulo amoroso incomum. É incrível que conforme a trama avança, o texto de Kaufman sempre arranja uma forma de se desviar das obviedades, além de mergulhar mais ainda nos aspectos da personalidade que até seus personagens desconheciam. Se Craig passa de um homem passivo para um manipulador sem escrúpulos, Maxine mostra-se capaz de ignorar os sentimentos mais nobres que pode sentir por alguém e Lotte percebe o motivo de ter se sentido deslocada por tanto tempo. Às vezes a história viaja mais do que deveria (a delirante cena em que John Malkovich mergulha em sua própria mente seria um sinal do egocentrismo do ator?) ou tenta explicar mais do que o necessário, mas Jonze consegue manter a tensão crescente mantendo a história, que poderia ser confusa, totalmente compreensível. Além de sua habilidade em construir uma narrativa com tantos elementos arriscados, Jonze ainda se mostra um diretor excepcional de atores. O trio Cusack-Keener-Diaz tem atuações irrepreensíveis diante dos complexos personagens que tem em mãos.  Apesar de ser considerado uma comédia, Kaufman e Jonze conseguem construir um drama diferente com apelo universal, capaz de gerar várias leituras (negar a si mesmo é apenas uma delas, assim como ver o mundo pelos olhos de outras pessoas, ser um fantoche de alguém, o artista servindo para repensar a existência...) e estranho o suficiente para receber o título de cult. O longa rendeu a primeira indicação ao Oscar de Kaufman (na categoria roteiro original), Jonze (direção) e Keener (atriz coadjuvante) - que se reencontraram anos depois no igualmente genial Adaptação (2002) - que trouxe Nicolas Cage no papel de Charlie Kaufman, mas essa já é outra história...

Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich/EUA-1999) de Spike Jonze com John Cusack, Cameron Diaz, Catherine Keener e John Malkovich. ☻☻☻☻☻