quinta-feira, 20 de setembro de 2012

APOSTAS PARA O OSCAR 2013 - CAPÍTULO I

Com a chegada da primavera por aqui é a hora de começar a temporada de outono nos EUA, ou seja, se inicia o período onde os filmes sérios e com expectativas de fazer bonito na temporada de ouro começam a aparecer nos cinemas. Claro que alguns dos candidatos aos prêmios já apareceram nas telas daqui, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge de Christopher Nolan ambiciona aparecer em mais categorias do que as técnicas, Valente da Pixar já é considerado figura certa na categoria de melhor animação e até Jennifer Lawrence pode surpreender com Jogos Vorazes assim como alguns elementos de Na Estrada de Walter Salles. Algumas produções que já demonstram fôlego para as indicações ao careca dourado são:

The Master
O peso pesado da temporada é a nova obra de Paul Thomas Anderson. Aclamado como obra-prima The Master causou polêmica desde que o primeiro leitor teve contato com seu roteiro. A trama é inspirada na vida de Ron L. Hubard, o escritor de ficção científica que fundou a controversa religião Cientologia (aquela do Tom Cruise). O filme se sustenta na relação entre o megalomaníaco Lancaster Todd (Phillip Seymour Hoffman) e o instável Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um ex-marinheiro que serve como espécie de cobaia para a visão de mundo de Todd. É nessa relação entre o forte e o fraco, o mestre e o discípulo que o filme cresce de forma hipnótica. Além das atuações já premiadas de Phoenix e Hoffman (no Festival de Veneza) o filme ainda conta com Amy Adams num papel que deve lhe render mais uma indicação ao prêmio de coadjuvante (a quarta de sua carreira).

Argo 
Admiro bastante Ben Affleck por ter conseguido digerir as críticas recebidas em sua carreira como ator e investir numa ótima carreira de diretor. Baseado numa mirabolante história real, o novo filme de Affleck conta a história de um agente da CIA (o próprio Affleck) que cria um plano para resgatar seis americanos refugiados na casa do embaixador canadense durante a revolução islâmica no Irã em 1979.  Às vezes irônico e muitas vezes pesado, o filme foi elogiado e aplaudido no Festival de Toronto, parece que Affleck atingiu sua maturidade e está disposto a parar de concorrer somente a um prêmio de consolação na Academia. O elenco conta com Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin, Clea Duvall, Chris Messina e Phillip Baker Hall. 

Cloud Atlas
Se a pretensão não jogar tudo no lixo, o elaborado Cloud Atlas, baseado no livro de David Mitchell, deve aparecer entre os indicados a melhor filme do ano. Não vou nem levar em consideração que o filme é dirigido por dois dos maiores pastéis de vento da história de Hollywood: Andy e Larry Lana Wachowski (Matrix). O material é bastante filosófico e explora como a ação de um indivíduo no passado interfere na vida dos outros, seja no passado, no presente ou no futuro. Quem viu o trailer deve ter entendido o motivo do filme receber o nome de A Viagem por aqui. O elenco tem vários oscarizados (Tom Hanks, Jim Broadbent, Susan Sarandon e Halle Berry) e eternos candidatos à uma indicação (Hugh Grant, Ben Wishaw e Jim Sturgess). Exibido recentemente em Toronto, o filme promete ser um dos mais comentados neste fim de ano e deve dar dor de cabeça se concorrer ao prêmio de direção (além dos Wachowski ainda conta com Tom Tykwer no comando da empreitada). 

Les Miserables
A clássica história de Victor Hugo está há décadas nos palcos em seu formato musical e já rendeu várias versões para o cinema, mas Tom Hooper quer honrar seu Oscar por O Discurso do Rei/2010 levando o musical para a telona. A trama de sofrimento e redenção de Jean Valjean (Hugh Jackman, será que ele vai ser indicado ao Oscar?) chega às telas com Anne Hathaway (será que ela leva o Oscar de coadjuvante pelo papel de Fantine?), Amanda Seyfried (Cosette), Helena Bonhan Carter (Madame Thénardier), Sacha Baron Cohen (Thénardier), Eddie Redmayne (Marius) e Russell Crowe (como o algoz de Valjean, Javert). Quem viu garante que o chororô vai ser grande e que, pelo menos, o Globo de Ouro de Comédia/Musical está garantido. 

Moonrise Kingdom
Desde Os Excêntricos Tennenbaums (2001) que eu percebia uma pegada infanto juvenil no cinema de Wes Anderson, a coisa ficou ainda mais descarada quando ele adaptou O Fantástico Senhor Raposo (2009) que causou sua reconciliação com o público e a crítica. Agora com Moonrise Kingdom ele volta sua câmera para personagens infantis sem perder aquele seu humor e visual peculiar. A história dos pequenos apaixonados Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward) é contada como um nostálgico conto de fadas cheio de aventuras e desventuras (ele age como se fosse Peter Pan e ela como a princesa a ser resgatada) que poderia ser chamado "Manual do Amor para Crianças". Além do casal prodígio e do visual arrebatador o filme tem participações inspiradas de Bruce Willis, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Edward Norton e Jason Schwartzman. 

DVD: Abraços Partidos

Penélope: musa de Almodóvar pela quarta vez. 

Sou fã do cinema de Pedro Almodóvar, mas recentemente percebi que ele se distancia cada vez mais do cinema escandaloso de outrora e investe numa atmosfera de suspense que nem sempre tem o resultado desejado. Além disso, o excesso de referências cinematográficas pode até dar algum charme aos seus longas, mas corre o risco de deixar tudo meio previsível e superficial. Nessa sua tentativa de criar mistérios existiu o confuso Má Educação (2004), o pouco elaborado Volver (2006) além do recente (e melhor executado) A Pele que Habito (2011). Nessa sua fase o menos aclamado foi Abraços Partidos (2009), que assisti recentemente e que prefiro encarar como uma ode do diretor à sua atual musa: Penélope Cruz. Essa é a quarta parceria do diretor com a atriz e é fácil entender o motivo de tanto carinho com a senhora Javier Bardem. Penélope está admirável como uma versão espanhola de Audrey Hepburn. Abraços Partidos tem um punhado de outras referências ao mundo do cinema, eles vão desde Cidadão Kane (1941) passando por Alfred Hitchcock até chegar em Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988). O desafio de Almodóvar era conciliar universos tão diferentes com eficiência, isso ele consegue, mas fica longe da genialidade que seus fãs esperam. O filme começa com o roteirista cego Harry Caine (Lluís Homar, mas galante do que em Má Educação), que conta com a ajuda de uma amiga , Judit (a ótima Blanca Portillo) e o filho dela, Diego (Tamar Novas). Quando Harry descobre que o rico empresário Ernesto Martel (José Luis Gómez) faleceu não demora muito para que receba a visita de uma figura de seu passado que o faz lembrar de sua musa, Lena (Penélope Cruz). O filme se concentra num longo flashback onde Harry conta que era o conhecido cineasta Mateo Blanco, que estava produzindo o filme Garotas e Malas quando conheceu Martel e sua esposa, Lena que desejava ser atriz. Martel acaba produzindo o filme para satisfazer sua esposa, mas seu ciúme torna-se cada vez mais doentio com a suspeita de que Lena e Mateo tornaram-se amantes. Além de embaralhar os tempos da narrativa não existe nada de realmente original no filme, por mais que Almodóvar consiga criar um ritmo eficiente, existe clichês demais na história do diretor que tem um caso proibido com a atriz principal. Curioso é que ao vermos Almodóvar criar as cenas de Garotas e Malas com várias referências ao filme que lhe deu fama mundial, Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (ele encontra espaço até para colocar a icônica Rossy dePalma no elenco), nos dá uma saudade daquele diretor kitsch que sabia embaralhar referências sem a necessidade de parecer descolado. Nesse universo, Penélope é quem sai ganhando com a heroína romântica que recebeu de presente (além de usar os figurinos elegantes da Maison Chanel), mas os coadjuvantes são os que mais sofrem. Diego, por exemplo tem cenas que não fazem o mínimo sentido  (como a que usa MDMA ou quando descobre quem é seu pai) por pura falta de interessem em desenvolvê-las. No fim das contas, fica a impressão de que Almodóvar complicou demais o que era para ser simples: Abraços Partidos é uma história de amor - e não há vergonha nenhuma em ser só isso. 

Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos/Espanha-2009) de Pedro Almodóvar com Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luíz Gomes, Tamar Novas e Lola Dueñas. ☻☻☻

DVD: O Desaparecimento do Gato

Luque e Norma: paranoias da vida a dois. 

Lembro que em uma de minhas primeiras aulas de psicologia na faculdade a professora disse que para ser considerado louco basta não saber como se comportar no tempo ou no espaço. Foi essa consideração simples que se repetia na minha cabeça enquanto eu assistia a O Desaparecimento do Gato. O filme trata de um momento bem específico no relacionamento do casal vivido pelos excelentes Luís Luque e Norma Argentina. Ela vive Angela, a esposa que está prestes a receber de volta em sua vida o marido com alta de uma instituição psiquiátrica - depois de internado após um surto psicótico. Os médicos mostram os exames para Angela (e assim como ela não entendemos muito bem o que ele diz, ficando marcado apenas o desenho do funcionamento do cérebro dele). Eles o consideram apto para voltar a viver com a família, mas Angela ainda tem suas dúvidas. Quando Luís volta para a casa, ela explica que mudou as cores da parede, reorganizou os livros dele e conta algumas novidades sobre a família e o círculo de amigos. Se aquelas informações já fazem com que o personagem se sinta meio deslocado num ambiente que deveria lhe parecer familiar, as coisas pioram quando o gato da casa não o reconhece e arranha seu rosto. Luís Luque tem uma atuação excepcional como Luís, sempre com uma postura tão inofensiva que gera desconfiança não só em sua esposa como na plateia. Curioso é que com a presença do esposo na casa é Angela que parece estar a beira do surto, já que toda atitude do esposo ganha duplo sentido para ela e é neste ponto que o roteiro mostra sua eficiência em saber lidar com a dubiedade das ações, de forma que estas são interpretadas pelos outros independente das reais intenções de quem a realiza. Mesmo explorando situações que podem acontecer em qualquer casa, nós consideramos que existe algo estranho por trás daquilo tudo por conta da presença de Luís. Sendo assim, se ele resolve arrumar a biblioteca do seu jeito, cortar um peixe como se fosse manteiga ou se o gato sumir é porque deve existir algo sinistro por trás de tudo isso. Enquanto o esposo tenta se ajustar ao mundo ao seu redor, a esposa tenta compreender suas paranoias com médicos, familiares, alunos dele e até um amigo (num suspeito encontro num estacionamento), mas acho que ela nem se dá conta de que suas angústias devem piorar um bocado a adequação de seu cônjuge. Em momento algum sabemos o que de fato aconteceu com o casal antes da internação de Luis, apenas suspeitamos. O desaparecimento do gato de estimação serve de ponto de partida para que os temores de Angela cheguem ao auge - ao ponto de ofuscar a planejada viagem ao Brasil e considerar que o sarcasmo de seu esposo faz falta em sua vida conjugal. O diretor e roteirista Carlos Sorín exibe total domínio de sua história e consegue tornar dinâmica uma história ambientada praticamente em apenas um ambiente e com dois atores no centro da narrativa. Com sua lente ambígua voltada para o casal, o desfecho deixa os nervos de qualquer um à flor da pele com seu ritmo lentamente preciso e silencioso. O Desaparecimento do Gato traz uma ideia simples brilhantemente executada. 

O Desaparecimento do Gato (El Gato Desaparece/Argentina-2011) de Carlos Sorin com Norma Argentina, Luís Luque, Maria Abadi e Lucas Laurens. ☻☻☻☻

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

DVD: Meu País

Falabella, Santoro e Reymond: sem final. 

Marcos (Rodrigo Santoro) é um executivo afastado da família e de sua terra natal há tempos, morando na Itália ele construiu uma carreira sólida e um casamento feliz com a filha do chefe. Quando o pai de Marcos (Paulo José) morre, o rapaz precisa voltar ao Brasil e reencontrar o irmão Tiago (Cauã Reymond) e lidar com algumas situações que seu pai não conseguiu resolver. Esse é o promissor ponto de partida do filme de estreia do diretor André Ristum, que se tornou um dos mais aguardados do ano passado (principalmente por conta de seu trio protagonista), mas que decepcionou por ser um filme pela metade. Nem me refiro à ideia, que fica pelo caminho, de causar um reencontro de um brasileiro com os dilemas de sua terra de origem (e o fato de ter Santoro nesse papel não é por acaso), mas ao próprio drama familiar que Ristum apresenta com leveza, mas que na hora de tomar as rédeas de seus personagens recua e deixa a sensação de que está faltando, pelo menos, meia hora de filme. Uma pena, já que o longa poderia ser mais um tedioso drama familiar se o roteiro não introduzisse entre os dois irmãos uma peça fundamental: a irmã bastarda. Se alguns podem identificar uma cadência fria no filme de Ristum (em parte por girar em torno do distanciamento entre os irmãos), é a personagem Manuela que dá conta de injetar emoção no filme. Ela que desperta em Marcos a sensação de que precisa fazer alguma coisa por aquela família que não significava grande coisa para ele. Manuela estava internada numa instituição para pessoas com deficiência intelectual e num primeiro momento seu irmão não cogita encaixá-la em sua vida, com o tempo ela passa a ser uma prioridade em sua temporada no Brasil. O mesmo não se pode dizer de Tiago (que é prejudicado pela atuação unidimensional de Cauã), que está mais preocupado em pagar suas dívidas em jogatinas. Os dramas dos personagens são apresentados sem pressa (o que deve incomodar muita gente), demonstrando cuidado do diretor em tratar a situação daquela família que tenta buscar um rumo depois da morte do patriarca. Mais do que resolver os problemas financeiros, o centro da narrativa está em retomar os laços afetivos que unem esses três personagens. Infelizmente, quando o filme se aproxima do momento de decisão de todos eles, o filme termina com uma daquelas típicas cenas de praia com brincadeiras no mar enquanto só queremos saber como as coisas vão terminar. Sem final, o filme deixa a desejar (afinal, brincadeiras na praia não respondem se Marcos voltará para a Itália, se Tiago irá crescer e conseguir se livrar do pessoal barra pesada que está no seu pé e o que vai acontecer com Manuela?) e deixa a pergunta na cabeça: será que ninguém percebeu que o filme estava pela metade?

Meu País (Brasil/2011) de André Ristum com Rodrigo Santoro, Débora Falabella, Cauã Reymond,  Anita Caprioli, Nicola Siri e Paulo José. ☻☻

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

CATÁLOGO: A Outra Face da Raiva

Joan Allen: o fel correndo nas veias. 

Joan Allen é uma das minhas atrizes favoritas, costumo assistir seus filmes desde que a reparei em As Bruxas de Salém (1996) de Nicholas Hytner. Pelo filme ela acabou indicada ao Oscar de coadjuvante pela segunda vez (a primeira foi por sua interpretação de Pat Nixon em Nixon/1995). Anos depois ela acabou concorrendo ao prêmio de atriz por A Conspiração (2000), mas ela ainda poderia ter sido indicada outras vezes, seja pela esposa em crise de Tempestade de Gelo (1997) ou a mulher colorida de A Vida em Preto e Branco (1998). Sabe se lá por qual motivo a atriz ainda não foi premiada pela Academia, mas talento não lhe falta, tanto que é frequentemente convidada a dar credibilidade em filmes de ação como A Outra Face (1997) e a trilogia Bourne original. Se ela não estivesse no alto dos créditos de A Outra Face da Raiva, provavelmente eu nem assistiria à essa produção. O mais legal é que mesmo em uma comédia, Joan é capaz de dar nuances inusitadas para sua personagem. Allen é a mal humorada Terry Ann Wolfmeyer, que foi abandonada pelo marido - ela suspeita que ele fugiu com uma secretária sueca. Terry passa os dias fumando e bebendo diante da TV vestida num roupão e implicando com suas quatro filhas que se tornaram responsáveis pela casa: Hadley (Alicia Witt) que está prestes a terminar a faculdade, a bailarina Emily (Keri Russell) que enfrenta problemas alimentares, Andy (Erika Christensen) que pretende ser independente e a caçula Lavender (Evan Rachel Wood). Mais do que explorar a dinâmica entre esse monte de progesterona, o filme consegue inserir situações interessantes capazes de prender a atenção do público - especialmente pela forma que Terry encara o mundo. As coisas já parecem que vão mudar quando seu esposo desaparece e ela recebe a visita de Denny Davies (Kevin Costner), um jogador de baseball aposentado que ganha a vida num programa de rádio e vendendo bolas autografadas. Desde o início Terry acredita que o interesse de Denny por ela é apenas imobiliário (já que está de olho numa parte do terreno da família Wolfmeyer), mas Costner consegue deixar claro desde a primeira cena que nutre uma verdadeira paixão platônica por aquela loura esguia há tempos. O diretor Mike Binder consegue fazer um filme bastante simpático, que não subestima a inteligência do espectador e que sabe criar situações bem armadas e divertidas (como a descarada cena em que Terry mostra-se disposta a satisfazer os desejos do admirador). Pode até haver algo sistemático na forma como desenvolve as histórias paralelas das filhas de Terry, mas não chega a comprometer o ritmo da trama (Binder até faz uma participação muito bacana como o amigo de Denny que começa a namorar Andy), o que interessa mesmo é a força que Joan Allen confere à sua personagem que aos poucos percebe que o mundo pode não ser tão amargo quanto aparenta. Devo reconhecer que a atriz teve a sorte de encontrar nessa empreitada a química surpreendente com Kevin Costner (no papel de um bom sujeito que ele poderia interpretar dezenas de vezes sem tropeçar). Chega a ser reconfortante ver um filme simples e redondinho (que ousa criar um final surpresa totalmente coerente com a poposta do filme - e especialmente da personagem que rendeu à Joan Allen algumas indicações a prêmios da crítica). A Outra Face da Raiva é uma comédia despretensiosa num formato que era muito comum na década de 1980 e, por isso mesmo, bem interessante de se ver. 

A Outra Face da Raiva (The Upside of Anger/ EUA-2004) de Mike Binder com Joan Allen, Kevin Costner, Keri Russell, Erika Christensen, Evan Rachel Wood e Mike Binder. ☻☻☻

DVD: Miral

Freida: uma flor vermelha à beira da estrada

Deve ser estranho um diretor ser multipremiado por um filme considerado sua obra-prima e depois ser recebido com alguma indiferença em sua obra seguinte. Foi isso o que aconteceu com Julian Schnabel em Miral, que apesar de alguns elogios não chegou a empolgar o público, a crítica ou os votantes das grandes premiações. Não se trata de um filme ruim, mas uma obra que fica abaixo das expectativas geradas pelo efeito de O Escafandro e a Borboleta (2007) na cinematografia de Schnabel. Miral busca contar a história do Estado de Israel a partir da história de quatro mulheres palestinas (o que não deixa de ser uma novidade na obra do diretor, que possuía filmes com foco em protagonistas masculinos). Baseado na obra autobiográfica de Rula Jebreal, o filme começa muito bem com a história de Hind Husseini (vivida com a competência de Hiam Abass) que entre os conflitos em Jerusalém encontra um grupo de crianças órfãs vivendo nas ruas, ela as acolhe e cria um orfanato que começa abrigando pouco mais de cinquenta crianças - mas rapidamente chega a mais de mil crianças cujo as famílias foram vítimas dos conflitos na região. Enquanto conta a história desta mulher determinada e elegante o filme prende fácil a atenção, mas o filme opta por desviar da história de Hind e contar a vida de Nadia (a bela Yasmine Elmasri), que cansada de sofrer abusos foge de casa e passa a ganhar a vida como dançarina. Vítima de preconceitos ela acaba presa e conhece uma presidiária que lhe apresenta um homem (Alexander Siddig), que torna-se seu marido e pai de Miral (Freida Pinto). Depois de algumas tragédias na vida de Miral, percebemos o motivo de Schnabel ter tomado esse desvio, já que Miral torna-se uma das alunas do orfanato de Hind Husseini, agora uma instituição respeitada por moradores e políticos locais. No entanto, Miral considera a postura da diretora da instituição e de seu pai conformistas demais, ao ponto de se meter com revolucionários com queda para o terrorismo e ódio racial contra judeus. Apesar de ser responsável pelo nome do filme, Miral é a personagem menos interessante do filme. Não que Freida Pinto não dê conta das descobertas de sua personagem, seja no romance com um líder terrorista ou ao ter uma amiga judia, mas fica a impressão de que o roteiro a trata apenas como uma adolescente rebelde, sem saber enriquecer sua história com a trajetória das mulheres que antecederam sua parte no script. A história de Miral acaba ficando em cima do muro entre a postura da moça e a impressão apolítica com que vê seus responsáveis. Suas descobertas rumo a uma visão de mundo menos unilateral são até interessantes, mas não possuem a força das histórias que acompanhamos antes da câmera se enamorar por ela. Vale registrar que Schnabel se esforça para não criar um filme maniqueísta, mas quem já viu filmes magníficos como Persépolis (2007), O Que Resta do Tempo (2009) e Incêndios (2010) sabe que Miral dá apenas um passo a frente do lugar comum. Apesar do cuidado do diretor em criar belas cenas tristes e dar corpo a mulheres fortes, infelizmente o filme não alcança as notas altas que ambicionava.

Miral (França/Israel/Itália/Índia - 2010) de Julian Schnabel com Freida Pinto, Hiam Abass, Yasmine Elmasri, Alexander Siddig, Willem Dafoe e Vanessa Redgrave. ☻☻☻

sábado, 15 de setembro de 2012

DVD: Natimorto

Spoladore e Mutarelli: a voz de anjo e a mente perturbada. 

Nas andanças do cinema brasileiro pelo Oscar, acho que o cineasta Paulo Machline é o mais esquecido pelo público brasileiro. Foi dele o curta-metragem Uma História de Futebol (baseado no conto de José Roberto Torero, sobre a infância de Pelé) que concorreu ao Oscar na categoria melhor curta de ficção em 2001. Apesar disso, seu primeiro longa-metragem só foi lançado em 2010 e não recebeu a devida atenção, talvez as pessoas esperassem um filme agradável como seu curta consagrado, mas o diretor surpreendeu com uma obra surpreendentemente densa. Baseado na obra  de Lourenço Mutarelli (autor de O Cheiro do Ralo/2006), Natimorto é um filme que prima pela estética arrojada. É um tamanho cuidado com o enquadramento, com os planos, cores e atmosfera que estranhamos ainda mais como um filme de cenas tão belas pode parecer um pesadelo conforme caminha para o desfecho. Antes, o filme foi levado para o teatro numa adaptação de Mario Bortolotto e talvez por isso, o público ainda sinta um certo ar teatral - afinal são dois atores em cena a maior parte do tempo em um único cenário - mas quem embarcar em sua história delirante irá perceber que Machline faz cinema da melhor qualidade (e com bastante vaidade sobre isso). O filme se inicia no encontro de um agente musical (o próprio Lourenço que já se mostrava um ator mais que convincente na adaptação de Heitor Dhalia para O Cheiro do Ralo) com uma cantora lírica (Simone Spoladore) que chega na cidade para um teste. Encantado com a voz da moça, a proximidade de ambos gera ciúme na esposa dele (Betty Goffman) e causa uma discussão. Expulso de casa, desiludido com o mundo e apaixonado pela voz da cantora, o homem faz uma proposta inusitada à ela: viver num quarto de hotel isolado do mundo para o resto da vida, ou pelo menos até quando durarem suas economias. O diretor e o elenco conseguem trabalhar com bastante eficiência tudo que há de romântico e assustador numa proposta dessas - e conforme a narrativa avança, percebemos que todo o lirismo que poderia haver  evapora com as esquisitices daquele homem aparentemente inofensivo. Além de declarar-se assexuado por opção, ele ainda tem o hábito de associar aquelas fotos no verso dos maços de cigarro com as cartas de tarô. Sendo assim, cada figura seria o anúncio de como seria o dia de quem a recebesse. Ele ainda conta histórias para entreter sua companheira de jornada, mas se antes estas soam nostálgicas e graciosas, aos poucos se tornam cada vez mais assustadoras. "Ninguém conta uma história à toa", diz ela quando percebe que aquele homem doce que conhecera não é mais o mesmo. Aos poucos a intimidade entre os dois irá mostrar tudo que torna a ideia de se isolar do mundo impossível de se concretizar, uma vez que acabam trazendo para aquele mundinho particular tudo o que lhes assombra no mundo exterior. Fiquei impressionado com o uso da luz no filme, especialmente na forma como oscila entre o verde e o vermelho como se um enorme semáforo oscilasse entre o siga e o pare insistentemente (ou então anunciasse a esperança em contraste com o desejo - ou o sangue). Tanto cuidado com a aparência do filme é mais do que justificável já que existe no protagonista uma busca pela beleza, pelo divino, pela isenção dos pecados que contrasta com o que vemos na tela quando o personagem de Lourenço se torna cada vez mais doentio. A perfeita beleza é algo inatingível e é isso que o filme parece afirmar todo o tempo (especialmente quando deixa o canto da mulher para nossa imaginação). Mesmo com belíssimas cenas, Natimorto as utiliza para retratar uma espécie de inferno particular que promete devorar, literalmente, seus personagens após a arrepiante cena final. 

Natimorto (Brasil/2010) de Paulo Machline com Simone Spoladore, Lourenço Mutarelli e Betty Goffman. ☻☻☻☻ 

MOMENTO ROB GORDON: O Que Aconteceu com Ferris Bueller?

Espero que Hollywood não invente de refilmar Curtindo a Vida Adoidado (1986), afinal, na melhor das hipóteses o filme seria apenas inferior ao primeiro. Seria mais interessante se resgatassem o personagem para dizer aos fãs o que aconteceu com ele e seus companheiros de aventuras. A seguir algumas hipóteses:

5 UM PATRÃO CHATO PRA ADOIDADO
Quem diria que depois que se tornou adulto, Ferris Bueller se tornou um gerente de banco chatinho que passa o tempo pegando no pé de funcionários como a boa moça Samantha Prescott? Talvez toda a sua chatice venha da frustração do rapaz que cresceu e perdeu o contato com o grande amor de sua vida (Sloane Peterson) e com o amigo de infância Cameron, que se cansaram de suas irresponsabilidades.  Depois disso, Ferris colocou uma gravata, casou e se tornou o marido sério de uma mulher grávida. Chegar atrasado no trabalho? Faltar com suas responsabilidades? Nem pensar! Talvez por ter enganado tantas figuras de autoridade na juventude, ele pegue no pé de seus funcionários para que não façam o façam de bobo!

4 CURTINDO A ESCOLA ADOIDADO
No fim das contas, Bueller percebeu que não conseguia viver fora da escola e resolveu tornar-se professor - para ensinar aos alunos como a escola e as relações sociais estabelecidas ali podem ser divertidas. O problema é sua implicância com alunos dedicados como a chatinha Tracy Flick - aluna a qual Bueller tem uma picuinha pessoal (já que ela teve um caso com seu amigo Cameron, que também se tornou professor e acabou demitido pelo affair proibido). Ele não perderá a chance de ensinar uma lição à garota durante uma eleição para o grêmio estudantil! E nem adianta a dedicada esposa Sloane tentar tirar essa ideia mirabolante da cabeça do obstinado Ferris Bueller!

3 CURTINDO A PRISÃO ADOIDADO
Talvez Ferris crescesse e se tornasse o rei da maracutaia! Apesar de seu carisma permanecer inabalável, a esposa Sloane cansou dele e as coisas pioraram muito depois que o amigo (e sócio) Cameron resolveu processá-lo. Num longo dia de visita Cameron irá jogar na cara do amigo todos os ressentimentos colecionados ao longo dos anos (e o maior deles foi o dia em que Ferris provocou a destruição da preciosa Ferrari do pai de Cameron). Enquanto apronta algumas coisas na prisão (como pequenos trotes no diretor do presídio), o filho de Ferris e Sloane será o advogado de defesa do pai - e tentará lhe ensinar as vantagens de ter uma vida regrada. Será que ele consegue?

2 - DESTRUINDO A CIDADE ADOIDADO
O diretor Ed Rooney nunca esqueceu do pior dia de sua vida, aquele em que perseguiu Bueller na intenção de desmascará-lo - mas tudo deu errado. Sua raiva fica incontrolável quando descobre que Ferris tornou-se um grande cientista prestes a ganhar o prêmio Nobel! A fúria de Rooney é tão grande que causa um terrível efeito colateral no tratamento alternativo que faz para a calvície (baseada num óleo de iguanas). Rooney acaba se tornando um mutante gigantesco e persegue Ferris Bueller por toda a cidade, causando caos e destruição por onde passa! Além de salvar a própria pele, Ferris terá que proteger seu amigo Cameron e a esposa Sloane.

1 - CURTINDO A VIDA AINDA MAIS ADOIDADO
Não será surpresa para ninguém se descobrirmos que Ferris Bueller cresceu e se tornou um prestigiado publicitário, considerado um dos mais criativos do ramo - até o dia em que precisa fazer uma campanha para um fabricante de carros e sofre um bloqueio criativo. Enquanto mente para o chefe dizendo que está doente (para buscar a esposa e os filhos no aeroporto - mas antes tem a missão de comprar um panda de pelúcia para a filha no caminho), Ferris irá imaginar uma propaganda que será uma espécie de autobiografia (com direito a passeios em museus, encontros com a irmã Jeanie, a busca pelo amigo Cameron e um número musical em mandarim em plena Chinatown)! O resultado dessa jornada nostálgica pode ser conferida aqui.

Fotos: 5- Conte Comigo (2000); 4- Eleição (1999); 3- O Pentelho (1996); 2- Godzilla (1998); 1- Comercial Honda CV-R (2012)

FILMED+: Curtindo a Vida Adoidado

Sara, Huck e Broderick: um dia para entrar na  história. 

Acho que qualquer pessoa que cresceu nos últimos vinte anos assistindo à Sessão da Tarde deve ter visto Curtindo a Vida Adoidado, um clássico dos filmes adolescentes e que não envelhece. A história do rapaz que resolver matar aula e viver algumas aventuras pela cidade coleciona fãs devotados desde que em 1986 o diretor John Hughes lançou essa obra-prima. Não consigo lembrar de nenhum filme voltado para o público adolescente que tenha se tornado uma unanimidade como esse aqui. O segredo (que deve ter feito a diferença) é não cair na armadilha de deixar tudo girar em torno de sexo, afinal de contas, os adolescentes - por mais que não aparentem - tem outros interesses. Ferris Bueller (Matthew Broderick, no papel de sua vida) acorda num belo dia disposto a fingir que está doente para não ir à escola. Quando seus pais acreditam em mais essa artimanha do filho, ele resolve envolver o amigo Cameron (Alan Ruck) e a namorada Sloane (Mia Sara) na empreitada. Enquanto Sloane é a namoradinha que todo mundo pediu a Deus (bonita, espirituosa, bem humorada e disposta a embarcar nas palhaçadas do namorado), Cameron é o oposto. Hesitante, medroso, neurótico e paranóico ele age como se sempre uma grande tragédia fosse acontecer. Além da química entre o trio de comparsas, ainda existe outros personagens interessantes que ajudam a dar ainda mais graça às artimanhas de Bueller, são eles a irmã - e projeto de megera - Jeanie (Jennifer Grey), que sabe desde o início que Cameron está enganando seus pai. Além dos hilariantes diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), sua fiel secretária (Edie McClurg). O filme é um grande acerto, principalmente pelo tom irônico que Hughes imprime durante todo o filme - o fato de Bueller aparecer na TV e ninguém se dar conta (inclusive na antológica cena em que canta Twist and Shout dos Beatles num desfile) ou as diversas vezes em que seu pai está prestes a descobrir que seu filho não está adoentado numa cama. Não vou nem comentar o péssimo exemplo do rapaz enganar a todo mundo e ser cultuado na escola como se fosse um verdadeiro herói (para desespero de sua irmã e do diretor Rooney). Para tornar um personagem tão escorregadio em alguém digno de culto, há de se dar crédito a Matthew Broderick, que foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel e nunca mais repetiu uma atuação tão cheia de energia  (afinal, chega a ser covardia comparar qualquer papel que tenha feito com a desenvoltura apresentada neste filme). A forma como o ator olha para a câmera e nos transforma em cúmplices de seus truques e comentários é um dos grandes achado do filme. Existem até momentos mais sérios, como o momento em que Ferris analisa como seria o futuro do amigo Cameron, que por levar a vida tão a sério acaba perdendo as oportunidades que os dias lhe oferecem. Mas, no fim das contas, o que mais impressiona são as desventuras encadeadas de forma mais que eficiente pelo roteiro, em momento algum o longa  parece episódico, pelo contrário, consegue até sustentar tramas paralelas (como Rooney tentando entrar na casa de Ferris) com o mesmo ânimo. Hughes estava tão certo que ao final da sessão o público iria querer mais que até inseriu a piada de Rooney enfrentando o ônibus escolar enquanto aparecem os créditos finais (além de Bueller aparecendo numa das despedidas mais originais de todos os tempos). Bem cuidado, divertido e despretensioso, Curtindo a Vida Adoidado é um dos filmes a que mais assisti(rei) em toda a minha vida. 

Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller Day Off/EUA-1986) de John Hughes com Matthew Broderick, Jeffrey Jones, Alan Ruck, Mia Sara, Jennifer Grey e Charlie Sheen. ☻☻☻☻☻