domingo, 14 de outubro de 2012

APOSTAS PARA O OSCAR 2013 - CAPÍTULO II


Hyde Park on Hudson
Roger Michell é um diretor que já provou sua versatilidade em comédias românticas (Notting Hill/1999) e dramas (Vênus/2006 e Recomeçar/2003), mas a Academia nunca lhe deu o devido reconhecimento. Isso pode mudar com Hyde Park on Hudson onde visita um momento bastante íntimo do 32º Presidente americano, Franklin Roosevelt (vivido por Bill Murray). Trata-se de seu caso de amor com a prima Margareth Stuckley (Laura Linney) ambientado num fim de semana de 1939 quando o Rei e a Rainha do Reino Unido visitaram Nova York. Pela forma sentimental com que conduz a história o filme pode garantir uma vaga na categoria de coadjuvante - graças às performances de Olivia Williams como Eleanor Roosevelt e Olivia Colman como Rainha Elizabeth,. As duas atrizes inglesas subestimadas tem aqui a chance de entrarem de vez no primeiro time de Hollywood.  

Lincoln
Parece que presidentes americanos estão na moda - e se você é como eu e pensa que Steven Spielberg deixou o melhor de seu talento no passado, saiba que ele dedica seu próximo filme para nós! Só de ver Daniel Day Lewis transmutado no 16º presidente americano neste retrato de seus últimos quatro anos de vida (enquanto lutava na Guerra Civil e enfrentava inimigos de gabinete em seu projeto de libertação de escravos). A trama é inspirada no livro "Team of Rivals" de Doris Kearn Goodwin e tem impressionado com material que Spielberg tem divulgado na imprensa - não só pela qualidade da produção mas pelo elenco que ainda inclui Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones, Jackie Earle Haley Sally Field, Jared Harris e John Hawkes. Parece que Spielberg chegará com fome de estatuetas nessa temporada...

The Surrogate
Depois de sua ótima atuação indicada ao Oscar de coadjuvante em Inverno da Alma (2010), John Hawkes tem mais uma chance de fazer bonito nas premiações como protagonista deste filme independente. Em The Surrogate ele interpreta uma vítima de pólio que está prestes a morrer e contrata uma prostituta para que acabe com sua virgindade. Além de Hawkes o filme conta com uma atuação certeira da sumida Helen Hunt (que sempre sabe o que fazer quando uma produção  depende de sua química com um bom parceiro de cena). Com a aclamação do filme em Sundance este é um dos fortes candidatos à vaga indie na disputa ao Oscar do próximo ano. O filme é assinado pelo australiano Ben Lewin, que usou tintas autobiográficas no roteiro - ele contraiu poliomielite quando era criança e perdeu o movimento das pernas. 

Life of Pi
Faz um tempinho que a Academia parece ter esquecido o diretor taiwanês Ang Lee, neste ano o jejum pode ser quebrado com o primeiro filme em 3D produzido pelo diretor: Life of Pi. O filme baseado no famoso romance do canadense Yann Martel (e que rendeu uma polêmica danada por se inspirar até demais numa história do brasileiro Moacyr Scliar) conta a história de um jovem indiano  (Suraj Sharma) que após um naufrágio perde toda a família e sobrevive 227 dias em um bote salva-vidas somente na companhia de um tigre. Pense em todas as possibilidades metafóricas dessa experiência e você terá ideia do que se trata o filme. Aclamado por aliar força narrativa e efeitos especiais, não subestime o poder desta produção na temporada de ouro. 

The Paperboy
Desculpe amigos, eu ia comentar sobre o novo filme de Tarantino (Django Unchained) quando me lembrei deste filme assinado por Lee Daniels (Preciosa/2009) que é elogiado por algumas das atuações mais surpreendentes deste ano. Adaptado da obra de Pete Dexter o filme conta a história de dois jornalistas (Matthew McConaghey e David Oyelowo) que caem na história de uma loura profana (Nicole Kidman) que jura que seu amante (John Cusack) é acusado de um crime que não cometeu. Nessa jornada ela acaba ganhando o coração do jovem Jack (Zac Efron, elogiado!!!) numa trama narrada por Macy Grey!! Quer mais, misture tudo isso numa atmosfera noir virada do avesso e a habilidade de Daniels em extrair atuações vigorosas do elenco (dizem que Nicole saboreia sua personagem como se fosse um pêssego suculento e Cusack tem a atuação de sua vida num rato de homem). Desculpe Tarantino, vc fica para a próxima! 

DVD: Branca de Neve e o Caçador

Charlize: sofrendo por um espelho cego. 

Dá até para imaginar os produtores tramando: "Vamos adaptar Branca de Neve para um público mais juvenil" "Ah, eu também tive essa ideia! E agora?" "Simples, eu faço uma versão para meninas com Julia Roberts e você faz uma versão para meninos", assim nasceram, respectivamente "Espelho, Espelho Meu" e "Branca de Neve e o Caçador". Se o primeiro é leve, bem humorado, com ares de comédia romântica e figurino colorido, o outro é sombrio, repleto de violência e com figurino gótico. Em ambos o destaque é a performance da madrasta, sendo que Roberts opta por uma rainha malévola cool enquanto Charlize Theron aposta alto para se tornar uma das vilãs mais sombrias de 2012. No embate é Charlize que honra um dos maiores ícones vilanescos do cinema. Sem falar que a loura tem talento de sobra para compensar a sonolência de Kirsten Stewart que se beneficia mais da montagem do filme do que dos parcos talentos dramáticos que corre em suas veias. O conto dos irmãos Grimm recebe uma versão épica, voltada especialmente para aqueles que curtem cenas de ação mirabolantes temperada com doses de fantasia. A história começa de forma clássica, mas a coisa já muda no início quando um rei admirado por todos encontra uma prisioneira de um exército inimigo. Ela é Ravenna (Theron), que não mede esforços para reinar sozinha. Para garantir seu poder irrestrito ela mata o rei e prende a sua enteada Branca de Neve (Kristen Stewart), que cresceu com vontade de vingar o legado de seu pai. Quando o espelho mágico diz para a bruxa madrasta que Branca de Neve irá tomar o seu lugar, Ravena decida matá-la. Branca acaba fugindo do castelo e se refugiando na estranha Floresta Negra e a madrasta precisa contratar os serviços de um homem que sobreviveu à estranha floresta. O caçador Eric (Chris "Thor" Hemsworth) aceita a empreitada meio a contragosto sob a promessa de ter sua esposa ressuscitada pela rainha - que é chegada à uma magia negra.  Não precisa pensar muito para perceber que ele se meteu numa grande furada e acaba se aliando à sua caça. O interessante é como o filme arruma soluções para encaixar referências à história original, como o momento em que os sete anões aparecem na trama (desta vez interpretados por atores como Bob Hoskins e Ray Winstone diminuídos por efeitos de computador) como ladrões e o anúncio shakesperiano (que parece chupado de Macbeth) de que Branca de Neve é a mais bela do mundo não apenas por sua aparência mas pela inocência, caráter e força - sendo a única a poder destronar a rainha. Com visual caprichado e cenas de ação bem produzidas, o filme recebeu mais elogios e atenção do público do que a versão cômica da clássica história. As comparações são inevitáveis, mas não é novidade que a violência sempre leva mais pessoas ao cinema, mas é fato que este filme é mais bem cuidado e fluente que o Espelho Espelho Meu de Tarsen Singh. A verdade é que sempre que Theron está em cena, o filme sobe vários (de)graus no interesse da plateia e mostra que Kirsten Stewart está longe de ser o talento que Hollywood espera que ela seja (ela bem que poderia gastar algumas milhas num bom curso de interpretação). Quanto à Chris Hemsworth ele faz o trabalho direitinho, mas em alguns momentos ele fica claramente sobrando na história - esse é o preço de se transformar um personagem pequeno em protagonista. O estreante Rupert Sanders mostra-se um diretor eficiente e seria uma pena ele ser mais lembrado como o homem que terminou o namoro de Kristen com Robert Pattinson. Ao final da sessão o que fica é o enigma da beleza de Charlize que está cada vez mais linda - embora seu espelho no filme seja claramente cego. 

Branca de Neve e o Caçador (Snow Shite And the Huntsman/EUA-2012) de Rupert Sanders com Charlize Theron, Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Sam Claflin, Bob Hoskins, Ian McShane, Ray Winstone e Toby Jones. ☻☻☻

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

DVD: Espelho, Espelho Meu

Lily e Armie: conto de fada repaginado. 

Depois de investir em adaptações de games e histórias e quadrinhos, Hollywood tenta tornar rentável as versões modernas dos contos de fadas. Neste ano duas produções resolveram atacar  se inspirar no clássico Branca de Neve dos irmãos Grimm, um enveredou pelo campo da aventura (Branca de Neve e o Caçador), o outro preferiu seguir pelo caminho da comédia amalucada. Este Espelho, Espelho Meu investe num humor claramente voltada para crianças um pouco mais crescidas e deixa várias referências à história original que conferem algum  charme ao longa metragem do indiano Tarsem Singh. Tarsem já é famoso pela plasticidade de seus filmes, mas é constantemente criticado pela habilidade meio capenga em contar uma história. Aqui, como a essência da história é conhecida por todos, ele se sai melhor do que em seus outros trabalhos Made in Hollywood. Por conta da direção de arte e figurinos espalhafatosos, alguns exagerados chegam à chamá-lo de novo Tim Burton, mas por enquanto à marca de sua assinatura continua mais presa ao visual do que ao filme como um todo. O filme ganhou grande notoriedade desde que Julia Roberts topou fazer o papel da bruxa madrasta que trama contra a herdeira do trono de um reino onde as pessoas viviam cantando e dançando, mas agora vive um tempo de miséria - por conta de uma rainha que aumenta impostos para bancar festas. Além de ser a rainha de um reino falido, Julia investe aqui mais uma vez em uma atuação cool, cheia de piadinhas que podem ser vistas como referências às sua própria figura pública - afinal, ninguém colocaria a Linda Mulher (1990) de frente para um espelho perguntando se existe alguém mais bela do que ela por acaso. No filme, o motivo da Rainha querer se livrar de Branca de Neve (a filha de Phil Collins, Lily Collins) é que ela está de olho num príncipe (o cara de príncipe Armie Hammer) que anda visitando o reino depois de ser assaltado por um bando de anões. A história parece ler nas entrelinhas da história original de forma até coerente e engraçada - ao ponto de colocar Branca de Neve e os anões como uma espécie de Robin Hood das redondezas. Pode-se dizer que Lily (que chegou a dar entrevistas dizendo que não queria ser uma estrela de Hollywood, então querida... lamento informar, que está no caminho errado) cumpre bem o seu papel de fazer a heroína romântica um pouquinho mais destemida que o habitual - e sorte que seu parceiro Armie Hammer não tem pudores em parecer ridículo como nas cenas em que imita um cachorro apaixonado. No entanto, quem rouba a cena é Julia Roberts como uma rainha malévola, divertida e cheia de charme. Sem ela, provavelmente o visual espalhafatoso do filme não lhe garantiria o sucesso de bilheteria (rendeu o dobro do custo em arrecadação mundial, o que é muito num ano de colapso na arrecadação). Os figurinos são uma atração a parte (Julia chegou a dizer que algumas roupas eram tão pesadas que era impossível se mover), com destaque para uma rainha de séculos atrás com detalhes cortados a laser (sem falar nas roupas de baixo que parecem desenhadas por Jean Paul Gaultier). Tanta ousadia visual é cortesia de Eiko Ishioka (que chegou a trabalhar com Alexander McQueen) que deve concorrer a alguns prêmios de figurino na temporada de ouro. Outro aspecto interessante do filme é a forma como atribui novas identidades aos sete anões e a estratégia de usar pernas de pau camufladas por calças sanfonadas - gerando um efeito mais que interessante. Enquanto versão modernizada de um clássico a maior ambição do filme é alcançada: divertir. 

Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror/EUA-2012) de Tarsem Singh com Julia Roberts, Lily Collins, Armie Hammer, Nathan Lane e Sean Bean. ☻☻☻ 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CATÁLOGO: Viagem à Darjeeling


Os manos em Darjeeling: road movie familiar. 

Que tipo de diretor coloca seu ator favorito correndo atrás de um trem somente para perdê-lo e não participar do filme? O tipo Wes Anderson. Essa é a primeira piada auto-referencial que aparece em Viagem à Darjeeling, o quinto longa metragem do cineasta. Além do estilo próprio, o diretor ainda tem uma série de manias que os críticos sempre reparam. Um deles é a fixação com a figura paterna, que aqui ele parece deixar de lado para explorar mais a relação de três irmãos em busca da mãe que resolveu ser missionária na Índia. Mera ilusão, já que um dos motivos para procurarem a progenitora é encontrar uma justificativa para ela não ter aparecido no funeral do marido - isso sem falar que no caminho sempre retomam a velha temática de quem era o filho favorito. Lançado depois do criticado A Vida Marinha com Steve Sizou (2004), Darjeeling foi elogiado pela crítica, embora esteja longe de ser o melhor momento do cineasta. Embora tenha alguns momentos divertidos e interessantes, existem tantos outros em que o diretor parece perdido em ditar os rumos de seus personagens - que são apresentados com tanta empatia que até perdoamos esse deslize. Francis (Owen Wilson) sofreu um acidente e considera que o fato de ter sobrevivido foi uma espécie de oportunidade para melhorar seu relacionamento familiar. Em busca de uma espiritualidade que até então desconhecia, convida seus dois irmãos, Jack (Jason Schwartzman) e Peter (Adrien Brody) para uma viagem pela Índia. A jornada em busca de crescimento espiritual serve mesmo é para que se aproximem e compartilhem suas intimidades. É assim que Francis descobre que Peter tenta lidar com o fantasma da paternidade mesmo distante da esposa grávida e com o fato de Jack não conseguir lidar com o fim de seu namoro (conferindo sempre os recados da secretária eletrônica de sua ex). Obviamente que a Índia mostrada por Wes Anderson é mais fantasiosa do que realista, de forma que o primeiro terço do filme passa quase que exclusivamente de um trem colorido que atravessa paisagens áridas, nele os três irmãos se metem em confusões até serem expulsos. Depois quando a fraternidade está em frangalhos acabam se envolvendo no resgate de três meninos vítimas de um acidente e revivem um momento crucial de suas vidas. Depois entram em contato com um rito fúnebre num vilarejo até que se reencontrem com a mãe (Anjelica Huston) que está mais preocupada com um tigre que assombra a região do que em afagar os herdeiros.  Sei que para a maioria da humanidade o humor de Wes Anderson é no máximo esquisito, mas é interessante a forma como explora a personalidade de seus personagens, especialmente de Francis, que mesmo com as melhores intenções mostra-se um grande chato, impondo aos irmãos as condições que considera as ideais para que possam ser mais próximos. Entre os diálogos podemos perceber pérolas como "Se não fossemos irmãos, será que seríamos amigos?" ou "Será que ela [a mãe] quer nos ver?" que evidenciam que debaixo de todo estilo e cores impressas por Anderson podemos perceber mais uma alegoria sobre as relações familiares que tanto lhe fascinam. Embora não esteja entre os meus filmes favoritos de Wes, o cuidado com a trilha sonora (sempre impecável), figurinos e direção de arte trazem a marca identitária do diretor, mas, devo admitir, que aquela sequência final onde a vida de todos os personagens são apresentadas em vagões de trem é simplesmente genial - e supera qualquer irregularidade na narrativa. Na tela e em DVD o filme contou com a exibição prévia do curta Hotel Chevalier que é uma espécie de epílogo para a trama de Darjeeling - e que causou grande repercussão por contar com a participação de Natalie Portman sem roupa e cheia de hematomas. Provando que tem um fã clube devotado, o filme rendeu o dobro de seu custo na arrecadação mundial nas bilheterias.

Viagem à Darjeeling (The Darjeeling Limited/EUA-2007) de Wes Anderson com Owen Wilson, Jason Schwartzman, Adrien Brody, Anjelica Huston, Bill Murray, Amara Karan e Natalie Portman. ☻☻☻

terça-feira, 9 de outubro de 2012

DVD: O Exótico Hotel Marigold

O elenco de veteranos: garantindo o sucesso de comédia despretensiosa. 

Um elenco é capaz de salvar um filme do esquecimento? Tenho certeza que você deve lembrar de uma série de filmes que garantem um sonoro SIIIIM à esta pergunta. O Exótico Hotel Marigold é um dos mais recentes a entrar na lista ao reunir nomes de peso do cinema britânico. Só para ficar nos mais famosos, ele conta com Judy Dench, Maggie Smith, Tom Wilkinson e Bill Nighy. A direção é de John Madden, que desde o oscarizado  Shakespeare Apaixonado/ não tem agradava o público e a crítica, mas aqui, talvez pela despretensão, caiu nas graças de ambos com uma história simpática de um grupo de idosos que vão curtir uma estadia num hotel na Índia. O filme é baseado no livro de Deborah Moggach e é um dos raros casos em que se comete a ousadia de se concentrar num bando de personagens na terceira idade. Curiosamente o menos interessante é o personagem mais jovem da trama, vivendo o gerente do hotel em decadência, Dev Patel não consegue encontrar o tom do personagem sempre caindo no exagero da caricatura. No roteiro, cada personagem se destina ao hotel por algum motivo, seja uma cirurgia que fará na Índia, a recente viuvez, a vontade encontrar um marido marajá, reencontrar um amor do passado ou apenas curtir as férias num lugar exótico. A história é contada a partir do olhar de Evelyn (Judi Dench, num momento de rara leveza) que vê a estadia na Índia como um recomeço -  é ela que irá costurar as histórias com comentários no seu blog e sugestões aos outros hóspedes. Mas nem todos tem um olhar carinhoso com o país que visita, a amargurada Muriel (Maggie Smith) só perde em preconceitos para a intragável Jean (Penelope Wilton) que finge não perceber que as diferenças com o esposo Douglas (Bill Nighy) chegaram ao limite. Até existem tramas onde as diferenças culturais aparecem, mas não espere grande profundidade já que o filme não tem a mínima intenção de gerar polêmicas. Sua abordagem da sociedade dividida em castas é apresentada apenas superficialmente, assim como os conflitos envolvendo casamento arranjado e homossexualismo. Evidentemente que Madden quis fazer um filme para relaxar e não quis preocupar o público com causas sociais ou qualquer outro elemento que não fosse capaz de gerar algum sorriso no espectador. Diálogos e situações não são capazes de gerar gargalhadas, mas podem conquistar o público de diversas idades com o desempenho de seus atores veteranos. O que mais me assusta é que tudo é realizado com tanta vontade de agradar que a narrativa perde o fôlego lá pela metade - o que torna seus 124 minutos bastante cansativos, no entanto, o apelo do elenco pode compensar qualquer insatisfação (afinal não é todo dia que podemos conferir atores deste quilate numa mesma produção - e Peter O'Toole e Julie Christie quase entraram no elenco). O filme fez um inesperado sucesso rendendo mais de quatro vezes o seu custo nas bilheterias, pode até ser merecido, mas um pouco mais de ousadia não faria mal. 

O Exótico Hotel Marigold (The Best Exotic Marigold Hotel/Reino Unido-EUA-Emirados Árabes/2011) de John Madden com Judy Dench, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Dev Patel, Penelope Wilton e Bill Nighy. ☻☻ 

DVD:Um Ano A Mais


Oliver, Jim, Lesley e Ruth: pessoas de verdade em ótimo roteiro.  

Lembro que o primeiro filme que vi do diretor inglês Mike Leigh foi Segredos e Mentiras (1996) pelo qual ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes ao contar (com toques de drama e comédia) a história de uma mulher que se descobre mãe de uma negra. Parece que em seu último filme, Um Ano A Mais (2010) quer demonstrar que ele ainda consegue fazer uma mistura azeitada entre esses dois gêneros. Se no filme de 1996 ele contava com uma atuação memorável de Brenda Blethyn, em seu trabalho mais recente ele conta com uma atuação assustadora de Lesley Manville que, inexplicavelmente, ficou de fora da corrida pelo Oscar 2011 (onde o filme concorreu ao prêmio de roteiro original). A atriz rouba a cena na galeria de personagens de carne e osso que o diretor nos apresenta em sua mais de duas horas de duração. O filme é narrado pelas estações do ano e quando vemos a trama começar na primavera fazemos ideia que o inverno reservara alguma amargura (afinal, essa parece uma lei natural para quem adota as estações como recurso narrativo). A trama acompanha o casal Tom (Jim Broadbent) e Geri (Ruth Sheen), ele ganha a vida "cavando buracos", ela é terapeuta. Talvez por isso os amigos que chegam até o lar do casal pareçam ir para uma terapia, contando suas preocupações e tristezas. É assim com o amigo beberrão Ken (Peter Wight), com o irmão de Tom, Ronnie (David Bradley) e, especialmente, com Mary (Lesley Manville). Quem estiver procurando uma trama mirabolante irá se decepcionar, mas quem procura o cuidado habitual de Leigh em lapidar seus personagens irá se satisfazer com um trabalho minucioso do roteiro. Fique atento aos diálogos bem humorados (muitas vezes tive a impressão que Leigh se inspirou nos melhores filmes de Woody Allen para escrevê-los) e principalmente à complexa construção de Mary. Sua primeira cena é um total contraste com a última cena em que aparece.  Se no início ela aparenta certo desdém às escolhas da amiga Geri, até o fim ela irá demonstrar que lá no fundo de sua personalidade ela gostaria de ter a vida da amiga. Nessa construção, Manville (que já apareceu em vários filmes de Leigh) está impecável.  Os trejeitos exagerados, a fala acelerada, as roupas espalhafatosas tudo está ali para esconder o que os olhos de Mary evidenciam desde a primeira cena. Se o corpo de Manville expressa tudo que a personagem gostaria de ser, são seus olhos que revelam a alma daquela mulher que mostra-se cada vez mais perdida e que não tem muita noção de como conduzir a vida - ela chega a depositar todas as suas esperanças na compra de um carro e logo depois numa investida desastrosa com o filho da amiga, Ken (Oliver Maltman) - que é algumas décadas mais jovem e com interesses amorosos por outra pessoa. Outro aspecto elogiável do roteiro é a forma como apresenta os personagens de forma satisfatória e econômica, de forma que somos capazes de nos comover com seus dramas nos poucos minutos em que aparecem na tela. Sentimos essa identificação  desde a primeira cena onde a personagem de Imelda Staunton é incapaz de explicar quando começou sua tristeza (o que, ao final da sessão, parece ser a proposta do filme). O trabalho milimetricamente calculado com os personagens pode passar desapercebido aos menos atentos, ainda mais que o diretor opta por uma narrativa tão natural que nem parece existir uma câmera filmando. Explorando como o cotidiano constrói as pessoas, Mike Leigh conseguiu outro trabalho que merece ser conferido.

Um Ano a Mais (Another Year/Reino Unido-2010) de Mike Leigh com Jim Broadbent, Ruth Sheen, Lesley Manville, Oliver Maltman, Peter Wight e David Bradley. ☻☻☻☻

sábado, 6 de outubro de 2012

DVD: Cores no Escuro

Ganz e Berger: últimos momentos de um casal com 50 anos de convivência. 

Anita (Senta Berger) e Fred (Bruno Ganz) são casados há cinquenta anos, os filhos já estão crescidos e a rotina já estabeleceu um nível de intimidade e comunicação que um gesto ou olhar é capaz de transmitir inúmeros significados. Mas somente um dos seres mais ingênuos do mundo não imaginaria que debaixo de cinco décadas de convivência não haveria segredos que o casal prefere evitar. O roteiro poderia apenas acompanhar a vida desse casal maduro sem grandes arroubos narrativos se um dia Anita não encontrasse Fred na rua e ele não a ouvisse. Ela acaba seguindo-o e descobrindo que ele está mobiliando um apartamento somente para ele numa localidade próxima ao trabalho. Esse é o elemento que fará que a rotina equilibrada do casal seja abalada e os filhos descubram que o pai está com câncer e que houve infidelidades de ambas as partes nos anos em que dividiram a mesma cama. Ainda bem que a cineasta alemã Sophie Heldman deixa o escândalo de lado e opta por uma abordagem sutil sobre os sentimentos de seus personagens com a proximidade da morte. Não é o tipo de filme que agrada muita gente, há muitos silêncios e cenas quase arrastadas que procuram nos situar no cotidiano de um casal com o ritmo de vida confortável, mas desacelerado. No entanto, as atuações de Senta Berger e Bruno Ganz valem cada cena. Enquanto ele dá conta de um senhor que insiste em não se tratar, ela enfrenta uma espécie de ensaio para a solidão que viverá na ausência do marido. Se ele prepara um apartamento para ter momentos de privacidade, ela acaba se hospedando numa casa de repouso para testar a solidão futura. Os desdobramentos do roteiro escrito pela própria diretora e seu colega Felix Zu Knypahusen sempre caminham para os caminhos mais inusitados, isso confere cenas áridas como a de Anita vendo a devastação de seu quintal após uma tempestade mas também cenas saborosas como do casal dançando com a neta na festa de formatura - um prenúncio para a última noite de amor que terão. Muita gente deve estranhar que o roteiro não gasta tempo desenvolvendo os coadjuvantes, mas é um trabalho tão focado na atuação de seus protagonistas que nem nos importamos, afinal são eles que nos envolvem na satisfação de ver o filme.  Ganz está numa atuação fenomenal e mais simpática do que costuma aparecer e Berger consegue esconder o desespero de sua personagem com muita elegância. Até a melancólica cena final é como se observássemos as engrenagens de um relacionamento onde ambos param de resistir ao perceber que a  vida de um passa a ser essencial para o outro. Heldman merece crédito por criar um dos filmes mais intimistas do cinema alemão, um trabalho difícil mas delicadamente executado.

Cores no Escuro (Satte Farber vor Schwarz/Alemanha-2010) Sophie Heldman com Bruno Ganz, Senta Berger, Barnaby Metschurat e Traute Hoess. ☻☻☻☻

FILMED+: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Tautou e Kassovitz: pequenas aventuras e amor platônico. 

O universo do cineasta francês Jean Pierre Jeunet nunca foi dos meus favoritos, embora considere louvável que seus filmes tenham uma assinatura muito pessoal, sempre os considerei mais instigantes do que propriamente interessantes. Se em Delicatessen (1991) ele foi revelado para o mundo, quando lançou o estranho Ladrão de Sonhos (1995) seus fãs de última hora ficaram com o pé atrás - e a coisa piorou muito mais quando aceitou dirigir Alien: A Ressurreição (1997) que colocou um ponto final gosmento na dignidade da Tenente Ripley. Às vezes um autor precisa de um tropeço gigantesco para um retorno anabolizado às suas origens, foi assim que nasceu O Fabuloso Destino de Amélie Poulain , que podemos considerar a obra-prima de Jeunet e seu filme de maior sucesso mundial. O mais interessante é que mesmo que o longa compartilhe características com toda a filmografia francesa do cineasta, Amélie é sua obra mais coerente e atrativa, tendo aquele o visual multicolorido excêntrico que tanto cativa os fãs do diretor. Amélie (Audrey Tautou, no papel de sua vida) desde garotinha teve um diagnóstico equivocado de que tinha um problema no coração por conta da aceleração (puramente emocional) de seus batimentos quando o pai (cardiologista) se aproximava dela. Isso parece o pretexto para que a menina cresça com um olhar diferente sobre o mundo. Para reforçar essa impressão, o diretor utiliza uma das vinhetas de abertura mais nostálgicas de todos os tempos, onde ainda menina, Amélie admira o formato das nuvens ou devora doces presos aos dedos. Amélie cresce e continua nutrindo um olhar fabuloso sobre o mundo, por conta disso ao encontrar uma caixa com objetos resolve procurar seu dono numa pequena aventura que lhe desperta a vontade de fazer com que as pessoas modifiquem seu olhar sobre a vida, assim, tenta aproximar amigos que julga ter afinidades dignas de um caso de amor, faz o anão de jardim de seu pai viajar pelo mundo (de forma a enviar cartões postais capazes de motivá-lo a fazer o mesmo), até reprograma telefones e modifica fechaduras para que as pessoas saiam de suas comodidades e observem os pequenos detalhes do que está ao redor. Entre essas proezas, Jeunet costura a trama com uma história de amor platônico (pelo personagem de Mathieu Kassovitz - que pouca gente lembra, era um dos cineastas mais promissores da década de 1990) e a busca de Poulain por um homem misterioso que tira fotos pela cidade (apenas para jogá-las fora). Deixando a imaginação correr solta em nome de sua protagonista, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain foi considerado por muitos uma espécie de conto de fadas contemporâneo, mas isso é um exagero. Não há nada de tão fantasioso no filme, são apenas situações que mostram o quanto a realidade pode não bastar e servir de trampolim para situações mais estimulantes e instigantes do que geralmente enxergamos. Prefiro as pessoas que consideraram O Fabuloso Destino de Amélie Poulain como o primeiro de um estilo cinematográfico: o cinema de confeiteiro. Jeunet trata suas cenas e personagens com tanta atenção que fica fácil notá-los como verdadeiros enfeites  - e a cereja no centro de todo esse trabalho é a atuação de Audrey Tautou como uma heroína romântica diferente vivida com graça na medida certa com seus olhos grandes e marotos. O filme fez tanto sucesso que concorreu aos Oscars de Filme Estrangeiro, fotografia, direção de arte, som e roteiro original - além de ganhar mais de cinquenta prêmios internacionais. 

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux destin d'Amélie Poulain/França-2001) de Jean Pierre Jeunet com Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Jamel Deboouze, Dominique Pinon, Rufus e Serge Merlin. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 2 de outubro de 2012

DVD: Coco Antes de Chanel

Tautou: uma Chanel como manda o figurino. 

Ainda vou descobrir qual é a graça de pegar uma personagem histórica para transformá-la em heroína romântica. Sei que todo mundo ama e quer ser amado, mas pegar uma figura importante e transformar um relacionamento ou outro em fio condutor de sua história não é o que podemos chamar de genial. Em 2009 foi a vez da estilista revolucionária Coco Chanel ser vítima desse (des)favor. Quem for atrás da história da mulher que se tornou um dos maiores ícones do século XX terá que se contentar com um lampejo aqui e outro ali da genialidade desta mulher que revolucionou a moda com seus terninhos e o conceito básico de elegância. A obra de Anne Fontaine é até bem feita e com elenco competente, mas faltou um roteiro que desse conta de se apaixonar pela mulher que revolucionou o vestuário feminino por volta da década de 1910 com inspiração nas roupas masculinas. Como o filme indica, a história se concentra no período em que Coco ainda era Gabriele, a menina órfã de família humilde que cantava em cabarés ao lado da irmã. É nesse ramo que ela conhece seu primeiro amante importante, Étienne Balsam (Benoît Poelvoorde), com quem acaba morando numa mansão por um bom tempo, conhecendo pessoas envolvidas com o teatro francês e chamando atenção pelos chapéus que criava. É até interessante como o roteiro explora o estranhamento causado pelo visual de Coco, que insistia em utilizar calças e roupas simples e elegantes a partir de sutis arranjos nas roupas masculinas que estavam disponíveis ao seu alcance. A visão crítica de Coco perante as roupas femininas de sua época está presente todo o tempo em reclamações aos excessos que acabavam desfavorecendo as formas da mulherada. No entanto, falta ânimo ao texto de Anne e Camille Fontaine. A trama se arrasta mais do que devia na relação entre Chanel e Balsam até que ela encontre o britânico Boy Capel (o subestimado Alessandro Nivola), amigo de Balsam e que é apresentado como o grande amor de sua vida - e como em toda novela romântica ela descobrirá que se trata de um romance proibido mediante os interesses financeiros envolvidos. Embora tenha mais erros do que acertos é um filme a que se assiste sem constrangimentos especialmente pela atuação de Audrey Tautou na pele de Coco. A atriz que ficou famosa como a eterna Amélie Poulain/2001 se convence na expressão sisuda da estilista - e a forma como deixava o cigarro pendurado em sua boca -, pena que o filme termina quando a Chanel é apenas um embrião da marca multimilionária que conhecemos hoje e sem abordar as polêmicas na vida de Coco (como sua prisão por crimes de guerra e o exílio de uma década que rendeu o ódio dos franceses). Curiosamente no mesmo ano outro filme francês revisitou o mito: Coco Chanel & Igor Stravinsky, de Jan Kounen  era estrelado por Ana Mouglalis & Madds Mikkelsen e parece uma continuação aos fatos apresentados no filme de Fontaine - só que com mais ousadias. 

Coco Antes de Chanel (Coco avec Chanel/França-2009) de Anne Fontaine com Audrey Tautou, Alessandro Nivola, Benoît Poelvoorde, Marie Gillain e Emmanuele Devos. ☻☻