sábado, 19 de outubro de 2013

DVD: Minha Mãe é uma Peça

Os filhos e Hermínia: colagem histérica de todas as mães do universo. 

O comediante Paulo Gustavo é uma peça. Talvez tenha herdado essa característica da própria mãe que lhe inspirou os trabalhos mais rentáveis e sua carreira. No teatro, Minha Mãe é Uma Peça é um sucesso de público e crítica há seis anos e, diante do desespero dos produtores brasileiros em fazer filmes que ultrapassem um milhão de espectadores, era quase inevitável que o espetáculo virasse um filme. Quem conhece a peça sabe que era um monólogo em que o ator vestia a personagem e contava episódios de sua vida. No palco funciona que é uma beleza - já que o teatro ainda consegue construir uma estrutura surreal que no cinema não costuma agradar. Para fazer o filme, seria menos convincente se aquele homem vestido de mulher com rolos no cabelo falasse para a câmera o tempo inteiro. Sendo assim, para costurar seus causos era importante ter uma intelocutora em cena antes que a narrativa em off embalasse as encenações dos episódios da vida da histérica Hermínia. É verdade que existe uma grande fragilidade nos elos estabelecidos para dar início, meio e fim ao filme, mas o tom elétrico de Paulo Gustavo faz toda a diferença quando a maior pretensão do filme é fazer o público gargalhar - e isso ele consegue com louvor. Dona Hermínia (Paulo Gustavo) tem um jeito hiperativo de ser, que depois do divórcio serviu para deixá-la ainda mais cuidadosa com os filhos Marcelina (Mariana Xavier) e Juliano (Rodrigo Pandolfo). Marcelina parece ter problemas de ansiedade e não para de comer, já o garoto é homossexual e tem que driblar algumas mancadas da mãe. Existe ainda um terceiro filho, que casou e vive em outro estado com a família - para desespero da mãe que sempre considera que ele não a procura como deveria. Apesar de bem intencionada, Hermínia ainda não aprendeu que os filhos cresceram e que suas intervenções causam mais constrangimento do que qualquer outra coisa. Não por acaso, ela descobre que os filhos a consideram uma chata e, magoada, a mãezona vai morara com uma tia (Suely Franco), que serve de confidente para as lembranças e mágoas. Entre ataques aos filhos, ex-marido (Herson Capri), a atual esposa dele (Ingrid Guimarães), vizinhos e entrevistados, Hermínia parece uma colagem de todas as mães do universo. Suas neuroses, paranoias e inseguranças resultam em uma grande caricatura que funciona como se fosse de carne e osso graças ao talento de Paulo Gustavo. Seu jeito acelerado de falar e fazer os comentários mais indiscretos são o que garantem a maior graça do filme. Não existem piadas prontas, apenas um olhar astuto sobre os acontecimentos do cotidiano daquela personagem (que se parece com o de muitas pessoas) - e que basta para a diversão do público. A direção de André Pellenz consegue parecer uma versão tupiniquim televisiva da estética de Pedro Almodóvar (o que tem tudo a ver com um homem travestido como protagonista), alcançando o tom certo quando precisa ser contido ou rasgado. O ponto fraco mesmo é o final da história, que mais parece o anúncio de uma continuação - que será muito bem vinda! Com sucesso no teatro, cinema e televisão, Paulo Gustavo tornou-se o grande comediante do ano. Para provar que não falta coragem ao rapaz, ele ainda ousa terminar os créditos com cenas de sua própria mãe mostrando de onde nasceu a Dona Hermínia.

Minha Mãe é Uma Peça (Brasil-2013) de André Pellenz com Paulo Gustavo, Suely Franco, Herson Capri, Ingrid Guimarães, Rodrigo Pandolfo, Mariana Xavier, Alexandra Richter, Georgiana Góes e Samantha Schmütz. ☻☻☻

DVD: STAR TREK - ALÉM DA ESCURIDÃO

Benedict e Chris: terrorismo intergaláctico. 

Superado o desafio de agradar os zilhões de devotados fãs da série Star Trek/Jornada nas Estrelas, JJ Abrams deixa bem claro que está mais a vontade no segundo episódio de sua repaginada no universo da milionária franquia. O anterior era bacana em sua ideia de apresentar a origem de Capitão Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto, perfeito), Uhura (Zoe Saldana) e sua trupe. Até eu que não era grande admirador da série original me senti realizado em conhecer a construção da Enterprise, a forma como a destruição do planeta Volcano influenciou para sempre a vida de Spock e a forma como lida com as emoções, além de um inevitável Kirk mulherengo e inconsequente que cresce durante a trama. É verdade que para além das apresentações de personagens, os fãs mais ferrenhos estranharam a forma como, na nova concepção, muito da filosofia trekker ficou para trás para favorecer as cenas de ação de tirar o fôlego - mas que tropeçava num senso de humor que muitas vezes, caia no exagero quase caricatural daquele universo. No fim das contas, o filme de 2009 foi um sucesso em arrecadação mundial (mais de 300 milhões pelo mundo) e uma sequência era inevitável. A produção foi cercada de mistérios e boatos, a maior delas foi acerca da escalação de Benedict Cumberbatch na pele de um personagem misterioso, que muitos especulavam ser um disfarce de Khan. Se essa era a estratégia, funcionou muito bem, já que o filme se tornou um dos mais aguardados de 2013. Abrams coloca os personagens em sua missão mais perigosa, enfrentando situações limites que podem destruir não apenas a Enterprise como toda a sua tripulação. A culpa de tudo isso é de Kirk, que está mais seguro de si e percebe que algumas regras podem ser desrespeitadas em nome de um bem maior. Essa ideia aumenta ainda mais os conflitos do Capitão com Spock, que não consegue perceber a lógica nas transgressões do amigo. Para tornar tudo ainda mais perigoso, os dois terão que enfrentar um terrorista que destruiu os arquivos da tropa estelar e planeja ações devastadoras para a organização. O tal terrorista tem total ciência dos limites da organização e se esconde no único ponto em que a tropa tem problemas para visitar. A situação pode provocar uma guerra entre os Klingons com a Terra, especialmente quando o tal vilão (Cumberbatch, saboreando cada segundo da projeção que o papel pode causar em sua carreira) mostra-se disposto a confundir Kirk perante uns mísseis suspeitos que foi obrigado a carregar em sua nave. Cumberbatch constrói um vilão bem mais complexo do que o Nero de Eric Bana do filme anterior (que valeu ao filme o Oscar de maquiagem), além disso, com relação ao primeiro filme, existe um acréscimo considerável das cenas de ação, mas também um tom mais sombrio cercando os personagens durante toda a trama. No entanto, o que prende mesmo a atenção é o crescimento dos personagens, especialmente do relacionamento entre Spock com Kirk. O filme pode ainda não ser perfeito (todo mundo sabe da polêmica cena de semi-nudez de Alice Eve e, não precisa ser um gênio, para notar que sempre depois de uma cena séria existe um corte mirabolante de ação), mas JJ Abrams mostra-se mais uma vez um o sujeito mais competente quando o assunto é fazer filmes para o verão americano. Atenção para a participação de Peter Weller (o Robocop original, um delírio para os nerds) na pele de Marcus - uma espécie de brinde para os fãs. Que venha o novo episódio!

Star Trek: Além da Escuridão (Star Trek: Into Darkness/EUA-2013) de JJ Abrams com Chris Pine, Zachary Quinto, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, John Cho, Anton Yelchin, Bruce Greenwood, Alice Eve e Peter Weller. ☻☻☻☻

Star Trek (EUA-2009) de JJ Abrams com Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Eric Bana, Simon Pegg, Winona Rider, Leonard Nimoy, Karl Urban, John Cho, Anton Yelchin, Bruce Greenwood, Chris Hemsworth e Rachel Nichols. ☻☻☻

APOSTAS PARA O OSCAR 2014: CAPÍTULO II

Grace, de Mônaco (Grace, of Monaco)
Grace Kelly era um ícone de Hollywood. Linda, loura e elegante ela é vivida por Nicole Kidman (um ícone de Hollywood. Linda, loura e elegante). Dirigido por Olivier Dahan (o mesmo de Piaf/2007) o filme conta o período em que Grace largou a carreira de atriz aos 33 anos para casar com o príncipe Rainier III (Tim Roth) num período conturbado politicamente entre a nobreza de Mônaco e o líder francês Charles Degaulle (André Pervern).  Falado em inglês e Francês, o filme conta ainda com Paz Vega, Milo Ventimiglia, Frank Langella e Parker Posey no elenco. Especula-se muito sobre uma indicação de Nicole ao prêmio de atriz, mas, como de costume, o páreo de atriz já está acirrado.  

Diana
Será que o Oscar irá colocar duas princesas no páreo? Ou melhor, duas amigas de longa data na disputa? Naomi Watts e Nicole Kidman são amigas desde a adolescência e correm o risco de disputarem prêmios de melhor atriz na temporada de ouro que se anuncia. Eu nunca entendi muito bem como o alemão Oliver Hirschbiegel (A Queda/2004) foi se interessar em biografar Lady Di no cinema, mas diante das críticas que o filme já recebeu, eu entendi. Oliver se preocupou em fundir a Diana real com uma que se tornou produto da mídia nos últimos anos de sua vida. Evocando símbolos de contos de fada, o filme tem sua alma na atuação de Naomi que interpreta as várias nuances da personagem longe ou diante das câmeras de forma camaleônica.

Álbum de Família (August: Osage County)
Não uma, mas duas divas de Hollywood prometem disputar uma vaga no páreo de melhor atriz por dividirem a tela. Meryl Streep e Julia Roberts estão nessa dramédia assinada por John Wells (A Grande Virada/2010). O filme conta a história de três irmãs -  Barbara (Roberts), Karen (Juliette Lewis) e Ivy (Julianne Nicholson) - que precisam se reencontrar para cuidar da mãe (Meryl) depois que o marido a abandonou. Poderia ser um reencontro doloroso comum se a mãe não fosse viciada em drogas. Baseado na peça de Tracy Letts (mesmo autor de Killer Joe/2012) a trama aborda uma família disfuncional de forma bastante ácida - e já colhe elogios de estar entre os melhores filmes do ano. Ainda no elenco: Ewan McGregor e (o queridinho do momento) Benedict Cumberbatch.

O Mordomo da Casa Branca (The Butler)
Quem também tem fortes chances de ser indicada é Oprah Winfrey. Vale lembrar que antes de se consagrar como uma das mais influentes apresentadoras do mundo, Oprah foi revelada como atriz em A Cor Púrpura que lhe valeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. O filme de Lee Daniels (Preciosa/2009) conta a história real de Cecil Gaines (Forrest Whitaker) que durante os anos de luta pelos direitos civis, torna-se contratado para trabalhar na Casa Branca. Ele servirá oito presidentes de 1952 até 1986. Mais sobre a questão racial nos EUA do que sobre o personagem, o filme se ampara principalmente no casal protagonista (Oprah interpreta a esposa de Cecil) que garantiu boa bilheteria nos cinemas americanos. 

Balada de Um Homem Comum (Inside Llewyn Davis)
Depois de tantas atrizes, vamos falar do novo filme dos irmãos Coen - que ganha força para disputas desde que foi exibido no Festival de Cannes. O filme acompanha por uma semana a vida de Llewyn Davis (o bom Oscar Isaac), talentoso cantor e guitarrista da Nova York da década de 1960 que sofre para alcançar o devido reconhecimento. Vale ressaltar que alguns dos obstáculos enfrentados por Davis são produzidos por ele mesmo. Os Coen se inspiraram vagamente em Dave Van Ronk, músico que era amigos de várias estrelas e que nunca decolou na carreira. No elenco estão Carey Mulligan, Justin Timberlake e John Goodman - todos elogiadíssimos. 

All is Lost
Ninguém duvida que Robert Redford é um dos veteranos mais queridos de Hollywood, por isso mesmo, ele pode cravar uma indicação ao prêmio de Melhor Ator no próximo Oscar, afinal ele é o maior recurso em cena na aventura náutica dirigida por JC Chandor. Chama atenção o fato de quase não haver diálogos no roteiro sobre um homem que enfrenta uma tormenta sozinho num barco. O vigor de Redford na atuação deve empolgar os votantes da temporada de ouro. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

FILMED+: Jogo de Cena

Coutinho e Torres: nudez interpretativa. 

O renomado documentarista Eduardo Coutinho mostrou mais uma vez seu brilhantismo quando teve a ideia de realizar Jogo de Cena. Partindo de uma ideia tão simples, quanto genial, ele colocou um anúncio de jornal pedindo para que mulheres que tivessem histórias para contar entrassem em contato com a produção para participação em um filme. A partir desse convite, existem desdobramentos incríveis. Além de contar com as mulheres que responderam ao anúncio, Coutinho pede para que algumas atrizes se dediquem a interpretar essas mulheres reais durante seus depoimentos. Além das histórias serem interessantes por si só, a plateia ainda tem o acréscimo de ver o desafio das atrizes em transformá-las em personagens diante dos nossos olhos. No fundo a experiência é muito mais do que isso, revelando-se um verdadeiro jogo para as atrizes e os espectadores (já que as atrizes buscam aproximar-se da realidade e o espectador tenta captar o que é interpretação e o que é real). Ciente de que o filme poderia ficar cansativo, Coutinho capricha na edição, deixando sempre um fator surpresa para o público, fazendo com que o filme continue em seus desdobramentos muito tempo depois que assistimos. Quando o filme começa com Mary Sheila falando sobre o envolvimento com o projeto Nós do Morro pensamos se é um depoimento pessoal da atriz, ou uma interpretação. Somente depois iremos conhecer uma personagem real que poderia ser sua matéria prima interpretativa. Mas nem só de rostos conhecidos se faz Jogo de Cena, atrizes não familiares ao público conseguem momentos sublimes que são revelados por uma frase ("foi isso que ela falou", diz uma acima de qualquer suspeita), gestos, dicção, postura em cena... além disso temos a oportunidade de ver as famosas Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra falando um pouco do processo de criação das personagens. É mais do que interessante ver Andréa sucumbindo às lágrimas ao interpretar uma personagem real - serena e que não chora diante de seus próprios dramas. Se ela dá a impressão que seu processo de criação está nu diante de nossos olhos, Fernanda Torres chega a ser pornográfica na forma como expõe suas dificuldades para o diretor (relata que é como se a personagem real "esfregasse na cara" que ela não estava atuando corretamente). Divertido mesmo é ver o desafio de Marília Pêra em interpretar o discurso multifacetado de Sarita Houli Brumer. Marília parece se perder entre o emaranhado de lembranças da personagem - mas ao mesmo tempo, poderia estar mais preocupada em aprofundar alguns traços que a própria Houli tenta ocultar com a fala, aparentemente, desarticulada. Talvez nos escape da primeira vez todas as nuances do filme, mas vale a pena sentir aquele momento em que as atrizes se desconectam da personagem e se expõem diante da câmera com suas próprias histórias. Jogo de Cena é um dos melhores filmes sobre interpretação que já vi e, ao mesmo tempo, consegue ser revelador ao enfileirar histórias onde temas familiares estão sempre presentes na vida de mulheres que se revelam tão interessantes quanto atrizes que nos parecem tão próximas. Coutinho borra as fronteiras entre realidade e ficção com uma ousada naturalidade (que é invejável )e prova que a velha máxima de que a vida de qualquer um poderia virar um filme. 

Jogo de Cena (Brasil-2007) de Eduardo Coutinho com Andréa Beltrão, Fernanda Torres, Mary Sheila, Fernanda Torres e Eduardo Coutinho. ☻☻☻☻☻

DVD: A Guerra Está Declarada

Juliette, Gabriel e Romeo: tragédia iminente. 

A Guerra Está Declarada tinha tudo para ser um grande melodrama, mas surpreende ao seguir um caminho completamente diferente. No começo parece uma típica comédia romântica quando Juliette (Valérie Donzelli) conhece Romeo (Jérémie Elkaïm), e quase que em uma profecia ele diz que estão fadados a viver uma grande tragédia. Os dois namoram e moram juntos e, com a agilidade da narrativa, logo ela engravida e tem um lindo bebê. De início creditamos à imaturidade de ambos as constantes reclamações de que o menino está sempre chorando. Com um olhar mais atento, eles percebem que a criança não anda como as outras de sua idade. Quando vai para a creche, as diferenças do bebê com os outros ficam ainda mais evidentes, especialmente quando a cabeça do menino está sempre pendendo mais para um lado. Assustados, os pais de primeira viagem vão ao médico e o diagnóstico é cruel: o bebê tem um tumor no cérebro. Diante do tom impresso até aquele momento no filme, é com o mesmo choque dos personagens que recebemos a notícia - e a metáfora anunciada no título faz todo o sentido (de início eu estava pensando que era alguma alusão aos Capuletto e Montechio), já que o câncer invade a vida do casal, mudando suas rotinas, expectativas e esperanças. Baseado na história real vivida pela diretora e protagonista Valérie Donzelli e o ator Jérémie Elkaïm (que assinam o roteiro), o filme fez sucesso perante a crítica pela forma diferente como aborda um tema doloroso, no entanto, parte do público estranhou a abordagem da diretora, que ao invés de cenas chorosas, preferiu mostrar como os pais da criança seguiam suas vidas além do ambiente hospitalar. Valérie sabe que com um bebê doente não precisa de muitos recursos para mostrar que a dor está presente. A doença é um constante subtexto, como um fantasma que assombra a jovem família - e muitas vezes eu ficava pensando se eu aguentaria ver meu filho no hospital passando por tudo aquilo com os médicos sempre me dizendo as piores expectativas. Donzelli constrói cenas interessantes (como a cena trêmula da corrida no corredor, ou o casal dialogando em locais diferentes através de uma canção agridoce) e outras que podem parecer um tanto soltas na narrativa. Existem cenas bastante triviais da realidade entre Juliette e Romeo, mas que expressam como aos poucos a situação que vivenciam juntos corrói o amor. Cheio de floreios criativos inesperados e tilhas sonora esperta, A Guerra Está Declarada foi indicado pela França para concorrer a uma vaguinha ao Oscar de filme estrangeiro em 2012 (é engraçado que os franceses o consideraram mais interessante que oscarizado O Artista), mas ficou de fora. Talvez a Academia - assim como parte do público - não tenha entendido a proposta da diretora em contrapor a tragédia iminente com vidas que teimam em prosseguir.

A Guerra Está Declarada (La Guerre est déclarée/França - 2011) de Valérrie Donzelli com Valérie Donzelli, Jérémie Elkaïm, Brigitte Sy e César Desseix. ☻☻☻

terça-feira, 15 de outubro de 2013

DVD: A Terra Prometida

Damon: versão fictícia de famoso documentário. 

De vez em quando Gus van Sant faz um filme todo redondinho, às vezes ele cai no gosto do Oscar (Gênio Indomável/1997 e Milk/2008) outras vezes torna-se esnobado (Encontrando Forrester/2000). Lançado em dezembro nos cinemas americanos, esperava-se que Terra Prometida garantisse algumas indicações ao currículo do diretor, mas o resultado não foi bem esse. Quem já viu o ótimo documentário Gasland (2010) vai lembrar do tema abordado pelo filme: uma cidadezinha do interior que é assediada por uma companhia de gás natural. Steve Butler (Matt Damon) e Sue Thomason (Frances McDormand) são representantes de uma companhia que tem interesses nos terrenos da região, afinal, eles podem render lucros de milhões com a produção de gás natural. A tarefa da dupla é convencer os moradores a permitirem as instalações da companhia na região. Sempre falando em quantias altas aos moradores, a tarefa parece fácil até que um professor da região (Hal Holbrook) começa a indagar Steve sobre as consequências danosas que a companhia trará para a região. Se Steve já não parece tão seguro em vender os interesses da companhia, a população também começa a ter suas dúvidas quanto os "lucros" que terão com a situação. Para piorar, um ambientalista (John Krasinski)  aparece na cidade contando histórias da tragédia vivida em sua fazenda depois que a companhia contaminou ar, água e solo com o seu processo de produção. Resta à Steve e Sue construírem estratégias de convencimento para a população que começa a relutar diante das propostas milionárias que recebem.  Matt Damon - que confia mais uma vez sua escrita ao amigo diretor (ele também assinou o premiado Gênio Indomável/1997 e o controverso Gerry/2002) - constrói a história lentamente para mostrar o envolvimento do protagonista com aquela população, que, em breve terá sua vida transformada para sempre. Existe o flerte dele com uma professora local (Rosemarie Dewitt), assim como sua parceira flerta com um comerciante (Titus Welliver), provocações entre os moradores, negócios fechados e outros suspensos, tudo encadeado de forma quase esquemática. Terra Prometida está longe de ser um filme ruim, mas parece a versão ficctícia de uma história real retratada de forma muito mais atraente no já mencionado docuementário. Mas nada prejudica o filme como a desvantagem de ter um final excessivamente otimista, o que o faz perder a força narrativa justamente quando mais precisava dela. Dificilmente um personagem real teria aquela atitude redentora depois das situações vividas na cidadezinha (vai me dizer que ele não havia passado por várias situações semelhantes anteriormente?). A plateia pode até respirar aliviada quando assiste a cena, mas quando sobe os créditos não deixa de soar um tanto forçado o desfecho da história. Steve afirma o tempo todo que não é um homem mau, mas sua redenção está longe de ser conquistada de forma tão fácil. Talvez por abordar (levemente) questões ambientais e a lógica do dinheiro a qualquer preço, o filme (cheio de boas intenções) levou para a casa a menção honrosa no Festival de Berlim desse ano.

Terra Prometida (Promise Land/EUA-2013) de Gus Van Sant com Matt Damon, Frances McDormand, Rosemarie Dewitt, John Krasinski, Hal Holbrook, Lucas Black, Titus Welliver e Lexi Cowan. ☻☻☻

Combo: Meus Professores Favoritos

Professores costumam ser pau para toda obra no cinema, podem aparecer em histórias problemáticas (Half Nelson / 2006), egocêntricas (Eleição / 1999), edificantes (Meu Mestre Minha Vida /1989), transformadoras (Escritores da Liberdade /2006), filosóficas (Sociedade dos Poetas Mortos /1989), feministas (O Sorriso de Mona Lisa /2002), debochadas (Professora Sem Classe/2011), inspiradoras (Professor Holland /1995), manipuladoras (A Onda /2008),  ou simplesmente se tornar um marco para várias gerações (Ao Mestre com Carinho /1967). Lembrei de todos os citados quando pensei em fazer esse Combo pelo dia do professor, mas fui bastante sincero na escolha daqueles professores que eu gostaria de ter conhecido em minha trajetória. Alguns me lembram os meus favoritos quando eu era estudante, se equilibrando entre qualidades e defeitos eles garantiram seu lugar nessa lista:

5 Escola de Rock (2003) Dewey Finn é um músico que se tornou professor por acaso ao aceitar substituir um amigo. Dewey, na verdade, era vocalista de uma banda que achou que ele não ajudava muito no progresso comercial da banda. Rejeitado pelo grupo, acaba indo para uma escola e ensinando aos seus alunos como apreciar o som e a atitude rock'n roll! Apesar de ter que driblar o conservadorismo da escola, Finn anaboliza a criatividade e a autoestima de seus alunos sem ser chato. Além dos talentos infanto-juvenis, o filme conta com a atuação da vida de Jack Black na pele de Dewey (beneficiada pela direção mais deliciosamente pop que Richard Linklater já conseguiu). Essa lista seria bem sem graça sem a presença do roqueiro!

4 Verônica (2008) Sempre que assisto ao filme de Maurício Farias penso que a situação extrema vivida pela personagem de Andréa Beltrão é o que a maioria das autoridades gostaria que um professor fizesse. Trabalhando em contato diário com a dura realidade de comunidades abandonadas pelo Estado, Verônica está esgotada e decepcionada com a profissão. As condições de trabalho podiam ser melhores, suas condições de vida também, mas tudo isso parece pequeno quando percebe que um aluno é perseguido pelos bandidos que assassinaram seus pais. Diante de uma sociedade que coloca a escola como principal referência governamental da população, Verônica esfrega na cara do público que a atitude de sua protagonista está longe de ser a ideal, embora todos joguem para o professor o papel de único redentor da sociedade.

3 Garotos Incríveis (2000) Ser aluno do professor de literatura Grady Tripp (Michael Douglas, em seu melhor momento) deve ser uma experiência inesquecível. Afinal, o próprio Tripp era um jovem prodígio quando escreveu seu clássico romance A Filha do Incendiário. Desde então, ele tenta terminar seu novo livro, mas ganha o pão de cada dia ajudando jovens escritores a encontrarem a própria voz. Quando seu editor resolve visitá-lo, tudo acontece: é abandonado pela esposa, seu caso com a mulher do reitor fica exposto, tem problemas com um aluno (Tobey Maguire), é assediado por uma aluna (Katie Holmes), o carro roubado, seus vícios revelados... nesse ambiente caótico bem humorado, o diretor Curtis Hanson cria um personagem inesquecivelmente humano, que pode servir como metáfora para os professores que precisam deixar a vida de aluno para trás.


2 Billy Elliot (2000) Dificilmente o filho de carvoeiro vivido por Jamie Bell teria alguma chance contra os preconceitos se não contasse com as orientações de uma professora do quilate de Senhora Wilkinson (Julie Walters). Além de não ter medo de cara feia, Wilkinson sabe exatamente que para ter êxito é preciso um bocado de sangue, suor e lágrimas. O filme de Stephen Daldry  a relação desse aluno adorável com uma professora severa, que sabe como ensinar ao seu aluno que no mundo não existe lugar para moleza e que a severidade pode ser sinal de carinho, amor e atenção. Julie Walters está excepcional como a zelosa professora que percebe o sucesso de seu aluno como redenção de seus próprios fantasmas do passado (além de perpetuar o seu legado diante de um mundo desacreditado de sonhos e ideais).


1 Entre os Muros da Escola (2008) Nas bordas do século XXI, com escolas atendendo grupos múltiplos em suas identidades, o professor deixou de ser um mediador somente da relação entre alunos e conhecimento para se tornar, também, um mediador das relações humanas. As dificuldade em conciliar tantas diferenças aparece de forma vívida no cotidiano do professor François (François Bégaudeau, autor do livro que inspirou o filme), que precisa lecionar entre os conflitos que aparecem em sua escola. O cineasta Laurent Cantet consegue imprimir um tom assustadoramente realista durante o longa (com a ajuda de atores amadores numa desenvoltura de dar inveja há muitas produções) e impressiona pela sinceridade com que retrata esse pequeno universo afetado por toda a realidade que gira em torno dos seus personagens. Ganhador de onze prêmios internacionais (incluindo a Palma de Ouro em Cannes), indicado ao Oscar e Globo de Ouro o filme é um clássico contemporâneo.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

DVD: Beleza

Lutz e Keegan: um filme dentro do personagem. 

Premiado com o Palma Queer em Cannes, o incômodo Beleza é um filme que exige esforço da plateia para acompanhar os dramas de um homem de meia-idade que mantém uma vida dupla. Em uma delas é o senhor pai de família dedicado ao trabalho bem sucedido, à esposa e às duas filhas em uma vida confortável. Em sua outra vida é um homem que tenta sufocar seu desejo por outros homens. Para lidar com isso, participa de um grupo masculino que se encontra para satisfazer desejos secretos e frequenta consultas com um psicólogo. Ainda que seja difícil a vida no armário, quando vemos François (ótima atuação de Deon Lutz) na festa de casamento da filha, percebemos logo seu autocontrole. No entanto, sua alma fica exposta com o olhar de cobiça sobre o jovem filho de um amigo. A direção de Oliver Hermanus deixa claro que já existe uma pré-história quando François reencontra o filho crescido do amigo. Christian (Charlie Keegan) é apresentado numa sexualidade quase ambígua, afinal, mesmo com a atenção de todas as mulheres da festa, aproxima-se de François para demonstrar seu interesse em trabalhar com ele após terminar a faculdade de direito. O que pode ser visto como um interesse meramente profissional do rapaz, na mente sufocada de François se transforma em segunda intenções. É evidente que debaixo dos interesses do jovem Chris, existe um carinho pelo amigo de seu pai, mas François se agarra a isso para desenvolver uma espécie de obsessão pelo moço. Tanto que organiza viagens para visitar os pais de Christian, frustra-se quando descobre que ele não estará presente num churrasco organizado pelos pais, ruma para a praia quando sabe que ele está por lá, sente ciúme da filha ao vê-la fazendo companhia ao rapaz e organiza situações para que possa encontrá-lo sozinho. Hermanus começa seu filme com câmera fixa, numa serenidade que beira a irritação para em seguida chocar a plateia com cenas homoeróticas explícitas. Depois aumenta gradativamente uma tensão silenciosa para podermos ouvir os ruídos do protagonista sendo corroído por dentro... até que o desejo transborda em violência. É essa mudança brusca de tom que torna o filme interessante, é ela que deixa a sensação de que François está prestes a explodir. Beleza é um retrato um tanto perturbador sobre a repressão dos desejos e sobre a vida no armário - quando ele começa a ficar pequeno. Ainda que eu considere uma espécie de covardia deixar uma grande lacuna  no final em que o protagonista parece andar em círculos. O filme consegue fazer um retrato interessante dos sentimentos de seu personagem com o auxílio do trabalho de Deon Lutz, que impregna de sentido cenas como a da lanchonete, onde a demonstração de seu interior aparece na vida de outras pessoas. Adepto de cenas fortes (que o deixa longe de ser um filme agradável de se assistir), Hermanus consegue realizar um trabalho corajoso.  

Beleza (Skoonheid/África do Sul - França - Alemanha/2011) de Oliver Hermanus com Deon Lutz, Charlie Keegan, Michelle Scott, Albert Maritz e Morne Visser. ☻☻☻

DVD: Oz - Mágico e Poderoso

Kunis e Franco: como construir bruxarias. 

Depois que largou a direção dos filmes do Homem Aranha, Sam Raimi me pareceu um tanto desamparado. Tão desamparado que depois de voltar para o gênero que o revelou (com o terror Arraste-me para o Inferno/2009) ele ficou quatro anos sem filmar. Desde que estreou na direção na década de 1970, ele nunca ficou tanto tempo sem lançar um filme. Oz - Mágico e Poderoso é quase um retorno ao ponto em que o herói aracnídeo o deixou -  um retorno à fantasia e ao trabalho com James Franco (seu amigo pessoal). O filme busca dar uma identidade ao célebre Mágico de Oz (aquele mesmo da Dorothy, Espantalho, Homem de Lata, Leão...), afinal, mesmo depois que o clássico filme de 1939 chegava ao fim, Oz mantinha-se um personagem cheio de mistérios. O filme de Raimi se baseia nos outros livros de L. Frank Baum que contam como um sujeito sem poderes mágicos se tornou o bruxo mais famoso da terra de Oz. Desde o início fica claro que Oscar (James Franco) não é propriamente o melhor mágico que trabalhou num circo mambembe. Apesar de seu trabalho ser incompreendido pelas cidadezinhas por onde anda (chegavam a pensar que ele era um milagreiro) e sua carreira beirar o fracasso, o ego inflado garantia o trato pouco gentil a quem estava por perto. Seu temperamento não poupava nem namoradas em potencial ou o assistente Frank (Zach Braff), pois é esse temperamento que terá que domar quando for levado para um mundo mágico onde uma profecia anunciava sua vinda para libertar os vários povos de Oz de temidas bruxas. Não vai demorar para que Oscar conheça a bela Theodora (Mila Kunis), que junto à irmã Evanora (Rachel Weisz) - guardiã e Conselheira Oficial de Oz, tenta conter os avanços de Glinda (Michelle Williams), a bruxa do Sul. Theodora acredita que Glinda assassinou seu pai, o rei de Oz. Em se tratando de um filme com assinatura da Disney, Sam Raimi não teve pudores de contar sua história da forma mais simples possível, com pequenos segredos e sem grandes reviravoltas. Seu interesse parece ser claramente os pequenos - tanto que não me admira de James Franco estar quase caricatural  no papel de Oscar, mas deixando bem claro o quanto está se divertindo. O que eu mais gostei do filme foi mostrar a origem da temida bruxa do Oeste e sua relação com Oz. Cheio de efeitos especiais e um humor pueril, OZ - Mágico e Poderoso ficou longe de alcançar o sucesso que o estúdio esperava, mesmo assim, o sucesso na carreira internacional o coloca em risco de receber uma sequência nos próximos anos. Resta saber se o tratamento limpinho da história terá fôlego para tanto.

Oz - Mágico e Poderoso (Oz - Great and Powerful/EUA-2013) de Sam Raimi com James Franco, Mila Kunis, Michelle Williams e Rachel Weisz. ☻☻☻