domingo, 18 de outubro de 2015

.Doc: Green Porno Ao Vivo

A aranha e Isabella: biodiversidade sexual natural.

Isabella Rosselini foi uma das mais cobiçadas estrelas antes do final do século XX, no entanto, a filha da atriz Ingrid Bergman (Casablanca/1942) e do diretor Roberto Rossellini nunca fez questão de ser convencional. Basta lembrar que seu relacionamento mais célebre foi com o cineasta David Lynch  - que terminou o namoro por ela insistir em cozinhar todos os dias (?!). Seguindo a carreira de atriz e modelo, foi com Lynch que realizou seu filme mais famoso: Veludo Azul (1986). Como modelo foi garota propaganda da Lancôme e ainda posou para fotos do famigerado erotismo explícito de SEX escrito por Madonna. Hoje Rosselini faz pequenas participações em produções europeias ou americanas e ainda colhe os frutos de uma série de curtas criados por ela enquanto frequentava a faculdade de biologia. A série Green Porno, sobre o ato sexual de animais e insetos se tornaram virais no Youtube quando o cinema não lhe dava muita atenção. A estética lúdica na abordagem do assunto tornou-se um grande diferencial, gerando outras duas séries para a TV, um livro infanto-juvenil e a ideia de um monólogo que deveria ficar em cartaz por seis meses em algumas cidades, mas que foi exibido por dois anos em diferentes países. Green Porno se tornou um inesperado sucesso que gerou esse documentário para a TV que relata o processo criativo de Isabella e sua equipe. Entre os curtas exibidos repletos de curiosidades sobre o sexo do mundo animal, solta aos olhos o visual colorido, geralmente feito com papel nos figurinos, cenários e demais detalhes. O humor da estrela mostra-se sutil, especialmente nos momentos mais picantes (seja quando fala do aranha que fecunda a fêmea com a mão e corre para bem longe, dos hábitos sadomasoquistas do caramujo, da genitália labiríntica das patas ou da criatividade sexual dos golfinhos...) gerando curtas memoráveis (o meu favorito é quando os pulgões e uma minhoca entra na Arca de Noé e explicam que sua reprodução sexual está além da dicotomia entre masculino/feminino). Green Porno ainda conta com cenas de Isabella simulando sua peça explicando as curiosidades de forma bastante didática (uma opção que não entendi muito bem, já que perdemos a interação da atriz com a plateia). Os vídeos Green Porno serviram para que Isabella mostrasse outros aspectos de seu talento (além de deixar clara a sintonia que tinha com David Lynch). Versátil em cena, ainda realizou o serviço de utilidade pública de mostrar que o reino animal tem uma biodiversidade sexual que extrapola a heterossexualidade. Sem estardalhaço, Isabella mostra que a diversidade sexual é natural e o que consideramos muitas vezes uma construção social, pode ter origens muito mais variadas. 

Green Porno Ao Vivo (Isabella Rossellini's Green Porno/EUA-2015) de Jody Shapiro com Isabella Rossellini. ☻☻☻☻

PL►Y: Dou-lhes um Ano

Rose e Rafe: sem graça e sem química. 

Ao longo dos anos a Comédia-Romântica se tornou um gênero a que geralmente eu fujo de assistir. Geralmente elas não são engraçadas como o público acredita e são bem menos românticas do que deveriam ser. Nem precisa dizer que geralmente conta com um casal que discute do início ao fim e no final acredita que não pode viver um sem o outro. O britânico Dou-lhes um Ano até que subverte um pouco essa ideia, mas padece de uma grande falta de criatividade para encher hora e meia de duração, apelando para baixaria em vários momentos, desperdiçando bons atores no que poderia ser até um programa interessante. O filme conta a história de Nat (Rose Byrne) e Josh (Rafe Spall), um casal de namorados que se ama, reconhece suas diferenças e mesmo assim considera que deve se casar e viver feliz para sempre. Só que o para sempre pode ser apenas eterno enquanto dure... para piorar o casal é cercado por um bando de amigos chatos (a mais chata de todas é vivida por Minnie Driver, mais antipática do que nunca como a melhor amiga de Nat) e tem pretendentes por perto a maior parte do tempo. A tentação de Nat é encarnada por Guy (Simon Baker), um cliente sofisticado que cruza seu caminho, mas ela estimula o flerte até que não possa perder o cliente para um concorrente. Já a tentação de Rafe é a ex-namorada Chloe (Anna Faris), com quem teve um relacionamento antes de conhecer Nat e, que por acaso, ele nem terminou oficialmente o namoro antes de ficar com Nat. Sabe se lá porque os dois resolvem que Guy e Chloe tem que ficar juntos e o casamento começa a desandar ainda mais rápido. O roteiro nem se preocupa em explorar questões como vida a dois, rotina e cotidiano para minar a relação dos dois, preferindo criar momentos estapafúrdios e outros nem tanto onde o casal parece cada vez menos real. Prejudica muito a graça do filme o fato de Rose e Rafe não demonstrarem a menor química em cena. A atriz já provou dar conta de personagens cômicos em filmes como Vizinhos /2014 e Missão Madrinha de Casamento (2011), mas Rafe ainda precisa se esforçar mais um pouquinho. Ainda que seja simpático, Rafe - o filho do veterano Timothy Spall (o ator favorito de Mike Leigh, mas que ficou conhecido como o rato Peter Pettigrew da série Harry Potter) - não consegue ser engraçado em cena e nem adianta colocá-lo ao lado de Anna Faris (que é engraçada até com a peruca bisonha que usa no filme), mas até poderia ter funcionado por não ter pinta de galã. O resultado é um filme sem graça, com piadas estranhas e que se acha grande coisa por não contar a história de um romance, mas do fim de um casamento (contado de forma tão artificial que nem nos damos conta de que Rafe e Nat não poderiam ser felizes juntos). 

Dou-lhe um Ano (I Give It a Year/ Reino Unido - França / 2013) de Dan Mazer com Rafe Spall, Rose Byrne, Anna Faris, Simon Baker, Minnie Driver, Jason Flemyng e Olivia Colman. ☻☻

NªTV: Humans / The Returned

Humans: frieza maior que na Suécia.

Era de se esperar que com o tempo houvessem versões em língua inglesa de duas excelentes séries europeias que colecionam sucesso pelo mundo. Recentemente a AMC começou a exibir sua versão do sueco Real Humans, meses depois que o Netflix já disponibilizara a versão do A&E para Les Revenants. Humans é realizado em parceria do canal americano com uma produtora do Reino Unido e mostra um futuro paralelo onde os seres humanos precisam conviver com robôs feitos à sua imagem e semelhança - o que gera conflitos entre humanos e robôs produzidos para satisfazer as necessidades variadas de seus patrões. Assim conhecemos a família Hawkins, cuja esposa advogada deixa espaço para que eles comprem a sintética Anita (Gemma Chan) para cuidar da casa e dos filhos, cujo o pai (Tom Goodman-Hill) não dá conta sozinho. Paralela à trajetória de outros robôs, existe a trama de Dr. George Millican (Willian Hurt) que participou da criação dos sintéticos e reluta em abandonar seu parceiro Odi (Will Tudor) perante sua nova cuidadora Vera (Rebecca Front).  Além disso, acompanhamos a jornada do misterioso Leo (Colin Morgan) em busca de sua amada. Para quem acompanha a trama de Real Humans, dá para perceber que a estrutura da série é a mesma, a diferença fica por conta do tom, mais sóbrio e quase apático dos personagens, sem a melancolia que fazia tão bem à trajetória de Anita, Flash e Odi na série original. A família Hawkins também carece de mais carisma, já que sempre está sempre discutindo em cena, o que pode deixar tudo um pouco cansativo. Penso que se a série levar-se menos a sério pode ficar muito mais interessante.  Entre as alterações que podem gerar bons momentos futuramente está no fato da filha mais velha dos Hawkins ser contra os sintéticos e George não ser mais o vovô simpático do clã, mas um cientista que deverá ter mais destaque na trama. Até o momento os melhores momentos ficam por conta de Gemma Chan, que cria uma Anita mais desconfiável e o oscarizado William Hurt, como o personagem mais humano de uma série que consegue ser mais gélida do que a versão nórdica. Estranho é que quando o canal americano A&E investiu na versão da francesa Les Revenants o problema foi praticamente o mesmo. A trama respeita a mesma estrutura dos personagens que eram mortos e ressurgem desestabilizando uma pacata cidadezinha francesa que já havia se acostumado com a morte de todos eles. Transportado para uma cidade montanhosa nos EUA, a versão americana foi ainda mais fiel ao original, onde o déjà vu é ainda mais desconfortável para quem acompanhou a versão original que levou para casa até o Emmy de Melhor Série Estrangeira em 2013. Embora o suspense permaneça, a aura perturbadora dos personagens aparece mais branda e as relações mais distantes do que deveriam. Nesse caso, a série ainda perdeu parte do seu impacto com o sucesso da (ruim) Ressurrection e (a confusa) The Leftovers que bebem em vários dos elementos utilizados por Fabrice Gobert na série original inspirada no filme Eles Voltaram (2004) de Robin Campillo. No entanto, para quem não conhece as séries europeias originais, suas versões em língua inglesa podem ser bastante interessantes em meio aos temas recorrentes das séries americanas atuais. 

The Returned: mais mortos que vivos. 


Humans (2015 - ) - 1ª Temporada com Gemma Chan, William Hurt, Katherine Parkinson e Neil Maskell ☻☻

The Returned (2015-) - 1ª Temporada de Carlton Cuse com Kevin Alejandro, Mary Elizabeth Winstead e Jeremy Sisto ☻☻

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

PL►Y: Ida

Dawid e Agata: foco nas entrelinhas. 

Ida é o tipo de filme que os votantes do Oscar adoram premiar. Retoma o tema do holocausto (ainda que sob um prisma diferente, tão diferente que cada um poderá ter sua própria leitura da história da freira judia que vai atrás de suas origens), possui uma linguagem clássica sem modernices, bela fotografia em preto e branco, ou seja, é um bom filme, mas que se fosse americano jamais seria premiado como melhor filme - por ser considerado difícil demais. Premiado com a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, o filme polonês mostra a jornada de uma noviça (a estreante Agata Trzebuchowska) que na década de 1960 é informada sobre a existência de uma parente viva, sua tia, Wanda (Agata Kulesza). Desde o início a moça não fica muito animada a ter que sair do convento e descobrir a história de sua vida, mas acaba conhecendo a tal tia. Assim, a noviça descobre que nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, foi registrada com o nome de Ida e foi entregue a um padre para criá-la. Em sua jornada, percebemos mais interesse de Wanda sobre a história dos parentes do que da própria Ida e isso não acontece por acaso. Repleto de camadas e intenções, o filme deixa o melhor de seu texto nas entrelinhas. São nelas que percebemos o quanto o desconhecimento e a vida reclusa no convento podem ser protetoras para alguém, ao contrário de Wanda que aos poucos começa a ter que enfrentar seus próprios fantasmas, gerando cada vez mais angústias na convivência com a sobrinha. O diretor Pawel Polikowski constrói duas personagens que funcionam num grande contraste, a tia que começa a beber e fumar cada vez mais conforme de aproxima da verdade, mantendo relações sexuais com desconhecidos sem muito critério enquanto Ida consegue, no máximo flertar com um charmoso saxofonista que conhece na viagem (o bom Dawid Ogrodnik). Embora trate suas revelações de forma precisa, nos seus momentos finais o filme perde a chance de surpreender o espectador e rende-se a uma série de situações que soam um tanto óbvias. Senti que a última cena de Ida (que revela o quanto existem lugares mais seguros do que o mundo real - com suas emoções nem sempre controláveis) e , principalmente, a despedida de Wanda uma certa necessidade de terminar num campo seguro de sua narrativa. O resultado é que o desfecho perde a chance de ser tão emocionante quanto algumas cenas desse road movie pós-guerra que cita o cinema de Ingmar Bergman em vários planos e na relação de duas mulheres interessantes. No entanto, as belas intenções de Polikowski não alcançam a intensidade esperada dentro de uma rigidez que, por vezes, atrapalha. 

Ida (Polônia/2013) de Pawel Polikowski com Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza e Dawid Ogrodnik. ☻☻☻

.Doc: O Caso do Policial Canibal

Gilberto: planos bizarros ou fantasias sexuais?

Sempre acho interessante quando um documentário consegue ampliar sua ideia ao ponto de deixar uma temática muito mais ampla, de preferência uma temática que você nem imaginava que o filme iria abordar. Em O Caso do Policial Canibal, documentário produzido pelo canal HBO, conhecemos mais de perto a estranha história de Gilberto Valles, um policial de Nova York que foi preso sob a acusação de planejar sequestrar, matar, cozinhar e devorar quatro mulheres. O que promete ser um retrato bizarro de uma mente doentia, revela-se o ponto de partida de temas muito mais amplos. Casado e pai de uma menina (ainda bebê), Gilberto tinha trinta anos quando a esposa o denunciou à polícia por conta de registros, em seu computador, onde descrevia com requintes de crueldade o que faria com suas possíveis vítimas, incluindo a própria esposa. Valles foi preso e condenado à prisão perpétua, mas foi liberado vinte um meses depois por... ausência de provas. Afinal, não havia vítimas, armas ou qualquer outra coisa que o próprio Gilberto e os advogados de defesa não pudessem classificar como meras fantasias - já que Valles descrevia seus planos no chat de um site pornográfico que dava vasão aos pensamentos sexuais mais agressivos de seus usuários. Ainda que na grande maioria das conversas, quando indagado se faria realmente o que descrevia, o policial dissesse que não seria capaz, em três delas ele parece realmente disposto a fazer o que descrevia. Entre visita à uma futura vítima, buscas por temas estranhos no Google, descrições de apetrechos a serem usados e uma casa afastada com fogão industrial no porão, tudo no caso é o suficiente para confundir o que era imaginário e o que poderia se tornar realidade. Mas quem seria capaz de arriscar um veredicto que o inocentasse? Ainda mais com a ideia de que Gilberto utilizava o banco de dados da polícia para encontrar suas vítimas em potencial (sendo esse o verdadeiro crime cometido por ele). Na maior parte das cenas, Gilberto parece a versão humana de um Ursino Carinhoso, sua fala é mansa, seu olhar é inofensivo, seu sorriso é simpático e sempre utilizando palavras que reforçam o quanto nem ele mesmo se reconhecia no que escrevia na internet. Até que ponto tudo era fantasia ou uma real intenção? Será que se não houvesse a denúncia, Valles não teria feito alguma vítima?  São perguntas que provocam incertezas, mas que denotam o que havia de mais estranho no caso: não houve vítimas, portanto, não houve crime e ainda assim, Gilberto sofria as consequências para além dos delitos que havia cometido. O Caso do Policial Canibal revela não apenas o lado mais sombrio de pessoas que julgamos tão próximas, mas mergulha num mundo obscuro presente na internet onde fantasias e intenções se misturam, conhecidos podem se tornar cúmplices e amigos em vítimas. Assim, o filme deixa ainda mais nebulosa a imagem de Gilberto Valles - e de muita gente que revela seus pensamentos mais sinistros na internet. Além disso, ressalta no espectador seus próprios conceitos sobre crime e justiça, numa sucessão de ideias que podem terminar sem respostas. 

O Caso do Policial Canibal (Thougth Crimes: The Case of the Cannibal Cop/EUA-2015) de Erin Lee Carr com Gilberto Valles, Gary Allen e Violet Blue. ☻☻☻

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

FILMED+: Divertida Mente

Raiva, Nojinho, Alegria, Medo e Tristeza: zelando pela mente de uma menina. 

Fazia tempo que a Pixar parecia preguiçosa em suas produções sobre Carros/2006, Aviões/2013 e nem Valente/2012 chegou a ser empolgante como o que o estúdio era capaz de fazer nos velhos tempos. Portanto, fica ainda mais saboroso saber que com Divertida Mente, a criatividade da produtora parece ter voltado aos eixos. A trama ambientada na mente de uma menina é de uma sensibilidade ímpar. Cada diálogo e detalhe do que acontece dentro de sua mente (com as emoções no comando) tem uma razão de ser e transforma a produção quase numa sessão de terapia - sem que nos demos conta do quanto mexe com nossas próprias memórias e lembranças. Não é por acaso que a menina Riley atravessa seus maiores conflitos aos onze anos, pode ser por seus pais terem se mudado para São Francisco, com problemas na entrega dos móveis e tudo mais, mas agrava muito o fato de Riley estar prestes a entrar na adolescência e o que vemos é uma confusão emocional elaborada, que dá gosto pela forma lúdica como é apresentada. Em sua mente, Alegria (voz de Amy Poehler) lidera o grupo formado ainda por Tristeza, Nojinho, Raiva e Medo. É interessante como cada um deles tem um papel importante no desenvolvimento de Riley, seja ajudando a menina a lidar com os fatos do cotidiano, cuidando de suas memórias, construindo sua identidade... mas não deixa de ser interessante como a Alegria da infância começa a perceber que o crescimento faz as outras emoções estarem cada vez mais presentes (portanto, fique atento ao número de esferas que deixam de ser amarelas para alternar cada vez mais as outras cores dos personagens). Embora Alegria seja apresentada como a grande heroína da história, aos poucos percebemos que todos os personagens/emoções são muito importantes para o crescimento de Riley, sobretudo a Tristeza, sempre sufocada e silenciada, mas que a ausência prejudica cada vez mais o desenvolvimento da menina, que torna-se cada vez mais introspectiva, dificultando o diálogo com os pais e os passos seguintes para o desenvolvimento de sua identidade. Existem tantos elementos geniais em Divertida Mente que enumerá-los é diminuir o prazer de descobrir como o roteiro prepara a estrutura da mente de Riley com memórias, subconsciente, trem do pensamento, ilhas de identidade, amigo imaginário (o fofo Bing Bong e seu foguete movido à música), esquecimento, pensamento abstrato... tudo se encaixa com perfeição numa engrenagem interessantíssima que nos faz perceber o quanto as emoções, por mais desagradáveis que sejam, são fundamentais para que possamos aprender a lidar com elas. É assim que crescemos - especialmente quando o botão da puberdade fica por perto. Pete Docter (de Monstros S.A./2001 e Up/2009) e Ronnie Del Carmen constroem um dos melhores filmes do ano, sem medo de inovar e explorar o que muitos considerariam complicado demais. No fim das contas, considerar que o filme trata da necessidade de ser alegre o tempo todo seria um grande erro, afinal, trata da capacidade de amadurecer e lidar tão bem com suas emoções mais sombrias quanto lida com a felicidade. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano - o que redime a Pixar de todos os seus tropeços, sejam eles passados ou futuros. 

Divertida Mente (Inside Out/EUA-2015) de Pete Docter e  Ronnie Del Carmen com vozes de Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Diane Lane e Richard Kind. ☻☻☻☻☻

PL►Y: Operação Big Hero

Hiro (ao centro) e seus amigos: Marvel em versão animada. 

Quando a Disney se associou à Marvel era de se esperar que aparecesse alguma animação baseada nos personagens da editora. Os personagens criados para os quadrinhos por Steven T. Teagle e Duncun Ruleau, que após uma aparição em 1998 recebeu uma minissérie própria e, dez anos depois, outro arco fechado de aventuras. O grupo de heróis nunca foi muito famoso por aqui, mas isso não impediu que o filme se tornasse um sucesso de crítica e público - levando para casa o Oscar de melhor animação. Os diretores Don Hall e Chris Williams deixaram claro em várias entrevistas que evitariam associações do longa com o universo Marvel (por isso mesmo os fãs reclamaram das alterações que o grupo sofreu em sua transposição para as telonas), mas conseguem criar um filme cheio de aventura e com um visual interessante, onde o colorido dos heróis contrasta com os cenários urbanos cinzentos que misturam São Francisco com Tóquio (não é por acaso que a cidade chama-se San Fransokyo). A história segue Hiro Hamada, um garoto prodígio no campo da robótica, que inspirado pelo seu irmão Tadashi, cria os microbôs, pequenos robôs que se juntam adquirindo várias formas de acordo com os comandos mentais de quem usa uma tiara de comando. Eis que um acidente irá mudar os rumos da vida de Hiro, fazendo com que ele conte com a ajuda do robô atendente médico pessoal Baymax, criado pelo irmão, para descobrir a verdade por trás do acidente - uma vez que descobre que seus microbôs continuam sendo fabricadas por um personagem mascarado misterioso que possui planos que colocarão em risco toda a cidade. Com a ajuda dos amigos de seu irmão, Hiro e Baymax irão formar um grupo de heróis adolescentes que tentarão combater o inimigo mascarado. Operação Big Hero é essencialmente um filme de super herói, com um roteiro bem humorado que tem na carismática figura inflável de Baymax um delicioso alívio cômico. Embora os coadjuvantes não sejam tão bem desenvolvidos como deveriam, o drama familiar de Hiro consegue construir bons momentos emocionais num filme que transborda aventuras - e não deixa de traçar uma semelhança perigosa entre o herói e o vilão da história. Crianças e adultos não tem do que reclamar, especialmente porque a continuação já foi anunciada para os próximos anos. 

Operação Big Hero (Big Hero 6 - EUA/2014) de Don Hall e Chris Williams com vozes de Scott Adsit, Ryan Potter, T.J. Miller, Jamie Chung, Damon Wayans Jr., James Cromwell e Alan Tudyk. ☻☻☻ 

domingo, 11 de outubro de 2015

PL►Y: À Procura de Um Paraíso

Brand, Octavia e Julianne: péssima estreia de Diablo Cody na direção. 

Existem roteiristas que parecem funcionar somente com um diretor, um exemplo é Diablo Cody, a ex-stripper que ganhou fama com Juno/2007 de Jason Reitman. A história sobre a adolescente grávida que pretende dar o bebê para a adoção foi um sucesso mundial e levou para casa o prêmio de melhor roteiro original (concorrendo em outras três categorias, incluindo melhor filme). Os mais exagerados cahamram Cody de Quentin Tarantino de saias... como era esperado, o tempo demonstrou que não era para tanto. Ela teve que amargar o fiasco de Garota Infernal (2009), ver seu seriado United States of Tara cancelado depois de sua terceira temporada. Seu outro bom momento nas telonas veio com Jovens Adultos (2011), nova parceria com Jason Reitman, que pode não ter alcançado o sucesso esperado, mas está longe de ser desprezível - sobretudo pela atuação de Charlize Theron (indicada ao Globo de Ouro). Recentemente outro roteiro assinado por ela estreou no Brasil, Ricki and The Flash: De Volta Para Casa, estrelado por Meryl Streep  - e também dividiu opiniões. Antes de Ricki, Diablo Cody aventurou-se como diretora e, não deixa de ser irônico, que nem ela soube extrair o melhor de suas intenções no texto de À Procura de um Paraíso, filme que desanima logo nos primeiros vinte minutos por não se dar conta da ideia antiquada de sua provocação. O filme conta a história de Lamb Mannerheim (Julianne Hough, que ficou famosa por sua participação no programa Dancing with the Stars), adolescente que foi educada dentro de um grupo religioso ultraconservador, mas que tem a fé abalada por um acidente que deixa seu corpo coberto de queimaduras. Quando ela se rebela, decide ir morar em Las Vegas e cair no mundo, cometendo todos os pecados que lhe eram proibidos. O que poderia ser uma deliciosa comédia de humor negro perde o fôlego porque o roteiro tem uma ideia e não uma história para contar. As situações seguem arrastadas e desinteressantes, com o mesmo fôlego de um rebelde sem causa - já que o roteiro não se preocupar em dar uma profundidade plausível para sua protagonista. Não vou nem questionar o talento de Diablo como diretora, afinal, ela ainda tem muito tempo para aprender o ofício, mas impressiona como uma roteirista ganhadora de Oscar não percebeu o quão insosso era o material que tinha em mãos. Não satisfeita, ela ainda escalou uma atriz bonitinha que não consegue dar conta de fazer o mínimo por Lamb. Julianne Hough passa o filme todo com a mesma cara e repetindo a mesma coisa o tempo todo. Não por acaso, ela é ofuscada por todos os seus coadjuvantes (inclusive o chato Russell Brand, que eu ainda não entendi como consegue fazer filmes), quem ainda consegue dar alguma graça ao filme é Octavia Spencer como a cantora Loray, responsável por captar as ironias que o roteiro deixa perder pelo caminho. Ao final chegamos a conclusão que nem Diablo entende direito o que escreve, mas ela ainda tem crédito em Hollywood, já que conseguiu até Holly Hunter para uma participação especial em seu filme de estreia... mas que diante da ruindade do texto, nem Jason Reitman alcançaria um bom resultado. 

À Procura de Um Paraíso (Paradise/EUA-2013) de Diablo Cody com Julianne Hough, Octavia Spencer, Rusell Brand e Holly Hunter. ☻

Combo: Domésticas Brasileiras


05 Trair e Coçar é só Começar (2006) Escrita por Marcos Caruso e encenada desde 1986, tornou-se a peça teatral com mais tempo em cartaz (sendo mencionada várias vezes no Guiness). Com o renascimento do cinema nacional, somado ao interesse do público por comédias, era inevitável que o texto recebesse uma versão para o cinema. Embora a direção de Moacyr Góes não tenha muita personalidade, o elenco garante a diversão com as trapalhadas de Olímpia (Adriana Esteves) enquanto seu patrão prepara a comemoração surpresa pelos quinze anos de casamento - e ela imagina que ele trai a patroa. No meio de tantas interpretações erradas, Olímpia cria uma grande confusão. 

04 Romance da Empregada (1988) Quando foi lançado, o filme de Bruno Barreto foi subestimado... sorte que as críticas positivas e a propaganda boca a boca fizeram com que o filme fosse um sucesso. Betty Faria (ótima) interpreta Fausta, um doméstica que tem que aguentar as chatices da patroa e um marido bêbado e desempregado ao chegar em casa. Sua chance de mudar de vida aparece quando ela conhece Zé da Placa (o veterano Brandão Filho em ótimo momento), que acredita que terá uma vida melhor se convencer Fausta a morar com ele.  O roteiro espirituoso e a química do casal garante a diversão (e o resultado foi até escolhido para concorrer a uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro)! 

03 Bendito Fruto (2005) É uma pena que pouca gente conheça esse interessante filme de Sérgio Goldenberg que brinca o tempo todo com as aparências. Edgar (Otávio Augusto) é um cabelereiro que se finge de homossexual para ter mais clientes, em casa ele mantem um relacionamento com Maria (Zezéh Barbosa) e tem até um filho com ela - mas a apresenta como sua empregada. Quando uma amiga (Vera Holtz) precisa ficar na casa de Edgar por alguns dias, o jogo de aparências do casal fica comprometido - e a chegada do filho irá tencionar ainda mais essa relação. Goldenberg faz um filme rico em nuances sobre preconceitos variados, diverte e faz pensar, além de trazer uma estupenda atuação de Zezeh! Uma pérola de nossa cinematografia que merece ser encontrada. 

02 Domésticas (2001) Quase não lembramos que antes do famigerado Cidade de Deus/2002 a dupla Fernando Meirelles e Kátia Lund fizeram essa adaptação da peça de Renata Melo para o cinema. O filme mistura a história de um grupo de personagens que tem em comum o mesmo trabalho: são domésticas. Misturando situações engraçadas e dramáticas, o filme constrói um retrato interessante do cotidiano das personagens. Entre a moça que não consegue parar no serviço, a filha de empregada que não quer seguir a profissão da mãe, a ambiciosa que se mete em uma controversa nova carreira, entre outras histórias, Domésticas consegue manter um frescor de estreia muito bem vindo. 

01 Que Horas Ela Volta? (2015) O aclamado filme de Anna Muylaert colhe elogios em todo o mundo por romper com alguns lugares comuns quando o assunto é retratar uma empregada doméstica. Como faz isso? Aprofundando ainda mais o abismo social brasileiro que separa empregados e patrões, como se existissem pessoas de primeira e segunda classe. O melhor é que o filme faz isso sutilmente a partir da chegada da filha de Val (Regina Casé). Val dedicou mais de uma década para cuidar da casa e do filho dos patrões enquanto sua filha era criada em outro estado. Quando as personagens se encontram o que vemos é um conflito de identidade tão interessante quanto o de classes.