domingo, 16 de julho de 2017

Na Tela: Kiki - Os Segredos do Desejo

Belén e Paco: orgasmos curiosos. 

Ouvi tanta propaganda deste filme espanhol (indicado a quatro prêmios Goya) que levei um susto quando me dei conta de que era a refilmagem de um filme australiano bastante divertido lançado em 2014 (e que passou em branco nos cinemas brasileiros). Kiki - Os Segredos do Desejo é a versão latina de  A Pequena Morte/2014, uma comédia sobre um grupo de pessoas que possuem suas particularidades quando o assunto é excitação sexual. Embora tenha algumas diferenças, a essência do filme é a mesma. Neste aqui ficaram de fora o casal que perde o foco ao utilizar fantasias cada vez mais elaboradas (e era um dos pontos mais engraçados do roteiro) e o vizinho pervertido em recuperação que oferece biscoito aos seus novos vizinhos. As novidades desta versão ficaram por conta do casal em crise que começa a investir em novas experiências quando recebem uma amiga para morar com eles e pequenas inserções de outros tipos de fetiches (como a excitação por plantas, pelúcias, comércio de peças íntimas na internet e até uma cena de "chuva dourada" levada no deboche para diminuir o choque da plateia). Permanecem a história do marido que dopa a esposa mandona e a da mulher que se excita ao ver o marido chorar (e suas peripécias para provoca-lo permanecem as mesmas). Aqui recebe um melhor acabamento a história do casal às voltas com uma fantasia sexual mais agressiva (que gerou bastante polêmica no original, mas aqui é abordada de forma mais branda). Apressada também é a cena da intérprete às voltas com uma ligação pouco ortodoxa no callcenter de auxílio a surdos, que era hilariante no original e aqui ficou bem curtinha. Em comparação, o original sai ganhando, mas o filme de Paco León deve conquistar sua cota de fãs. Curiosamente, o filme investe num roteiro mais sem vergonha, mas o tratamento das cenas é bastante semelhante ao filme australiano, o que torna tudo ainda mais contrastante. No fim das contas o filme é bem comportadinho em suas brincadeirinhas sobre as fantasias de seus personagens, mas paga o preço por ridicularizar um pouco as sensações que explica através dos verbetes didáticos herdados do filme original. Kiki - Os Segredos do Desejo diverte com seu elenco esforçado, ainda que gere risadas por algumas situações visivelmente preconceituosas com os fetiches apresentados - e pimenta na fantasia dos outros é refresco, não é? 

Kiki - Os Segredos do Desejo (Kiki, el amor se hace - Espanha/2016) de Paco León com Natalia de Molina, Álex García, Jacobo Sánchez, Paco León, Belén Cuesta, Luis Bermejo e Candela Peña. ☻☻☻

sábado, 15 de julho de 2017

PL►Y: Fome de Poder

Keaton: quem quer ser um bilionário?

É sempre bom ver um ator ser redescoberto e aproveitar o renascimento de sua carreira ao máximo. Em cartaz como o vilão Abutre do novíssimo Homem-Aranha, Michael Keaton andava esquecido até o Oscar de Melhor Ator ter passado de raspão por seu brilhante trabalho em Birdman/2014 (que levou o Oscar de Melhor Filme e outros três). Ele continuou a boa fase com Spotlight/2015 (que também ganhou o Oscar de Melhor Filme e mais o de roteiro adaptado) e ano passado houve quem considerasse que ele emplacaria outro filme entre os favoritos da Academia com este Fome de Poder. No entanto, quando viram o filme os produtores olharam com desconfiança e preferiram lançá-lo depois do período para premiações, em janeiro. De fato, no ano do duelo entre Moonlight  e La La Land, a história de altos e baixos de um sujeito comum que ergue um império não teria muita chance. Michael Keaton vive com gosto a história de Ray Crock, um vendedor de máquinas de milkshakes que não está na melhor fase de sua vida. Embora seja ambicioso, sua frustração com as vendas é notável. Eis que um dia ele fica instigado com uma lanchonete que encomenda seis máquinas de uma vez e ele tenta entender o motivo. Foi assim que ele conheceu a lanchonete criada pelos irmãos McDonald. O simpático Mac (John Carroll Lynch) e o sisudo Dick (o excelente Nick Offerman, irreconhecível sem bigode), criaram sua própria linha de produção de hamburguer, capaz de servir em trinta segundos o pedido do cliente e deixá-los satisfeitos ao gasto de quinze centavos por sanduíche. Crock percebe ali uma verdadeira mina de ouro, mas os dois irmãos preferem continuar na segurança do negócio familiar a ficar milionários. Crock começa a trabalhar com eles, preso a um contrato de rédeas curtas que começa a impedir a expansão de seus planos de criar uma milionária rede de fast-food. Assinado pelo mediano John Lee Hancock (que ajudou Sandra Bullock a ganhar seu Oscar de melhor atriz com Um Sonho Possível/2009), o filme tem vários tropeços. A cena em que os irmãos explicam sua criação é tão picotada que você mal entende a genialidade da ideia admirada por Crock, assim como a guinada do protagonista de sujeito falador para "monstro capitalista traiçoeiro" é um tanto brusca tendo vários pontos mal resolvidos (especialmente com relação ao seu casamento), sem falar na pendenga jurídica que acontece tão rápido que você mal entende o que está acontecendo. O problema todo está no roteiro que poderia ter deixado o filme mais redondinho se fosse melhor trabalhado, parece que já nasce ali a incômoda indecisão de exaltar a obstinação de Ray Crock ou mostra-lo como um sujeito sem escrúpulos (e por tanto, as partes menos lisonjeiras são apressadas demais). Com isso o resultado é um tanto desengonçado. David Fincher lidou com a mesma situação quando criou o Mark Zuckerberg de A Rede Social/2010, mas sabia exatamente o distanciamento que queria ter do personagem. Hancock está (muito, muito, mas muito) longe de ser Fincher, transparecendo seu desconforto em lidar com um personagem tão complexo e icônico da cultura americana. Pelo menos, depois do filme, você sempre irá pensar em que fim levou aqueles dois irmãos ao ver aqueles arcos amarelos novamente. 

Lynch e Nick: os manos McDonald. 

Fome de Poder (The Founder/EUA-2016) de John Lee Hancock com Michael Keaton, Laura Dern, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Patrick Wilson, Linda Cardellini e B.J. Novak. ☻☻☻

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Na Tela: Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Holland: Aranha como manda o figurino. 

Tudo começou quando a Marvel não tinha dinheiro para bancar os seus filmes e vendia seus personagens para os grandes estúdios. Um deles foi o Homem-Aranha, que fez muito dinheiro nas mãos da Sony quando Sam Raimi era responsável pelos filmes e tinha Tobey Maguire na pele de Peter Parker e do herói aracnídeo. Depois de três filmes que fizeram bonito na bilheteria (mesmo com o terceiro sendo espinafrado até hoje), os ânimos se desentenderam e uma repaginada foi realizada. Com Andrew Garfield na pele de Parker/Aranha, O Espetacular Homem-Aranha prometia mundos e fundos e tudo foi por água abaixo já no segundo filme (o horroroso A Ameaça de Eletro). Diante da pressão dos fãs, a Sony começou a reconsiderar a ajuda da Marvel para colocar a carreira cinematográfica do herói novamente nos eixos. Assim, Homem-Aranha: De Volta ao Lar (com trocadilho, por favor) marca o retorno do herói para as mãos de sua editora e o resultado tem muitos acertos. O filme acerta em não matar o tio Ben novamente ou apresentar as transformações no corpo de Peter por conta de ser picado por uma aranha radioativa, ciente de que o público está cansado de conhecer essa parte da história, o filme opta por mostrar algo que o cinema sempre deixava de lado: a identidade do herói como adolescente. Se os filmes da Marvel sempre optam por fazer os filmes com gêneros diferentes, De Volta ao Lar é o filme de adolescentes com o selo do estúdio. Inspirado totalmente nos filmes do mestre John Hughes (o filme torna explícita a inspiração citando o clássico Curtindo a Vida Adoidado/1986 várias vezes). Outro grande acerto fica por conta de escalar Tom Holland para viver o herói. Elogiadíssimo por sua atuação em O Impossível/2012, o jovem ator tem 21 anos mas convence como adolescente, seja em suas inseguranças da idade ou a mania teen de se julgar indestrutível - é justamente este ponto que o faz se meter numa grande encrenca que perdura por todo o filme, afinal, ele cruza o caminho de um ladrão mais habilidoso que a maioria. Este vilão é vivido por Michael Keaton, conhecido nos quadrinhos como o Abutre, o vilão também passa por uma repaginada e surpreende ao se tornar um dos melhores vilões da Marvel no cinema. Seu personagem é tão cheio de mesquinharias que se torna convincente exatamente por conta disso (e tem a promessa de retornar em breve). Outro destaque do elenco é Marisa Tomei, que muita gente estranhou por ser uma Tia May mais jovial do que nunca (embora a atriz tenha 52 anos muito bem vividos), mas que além de ser alvo de olhares calorosos, ela deixa claro desde a primeira cena o seu zelo pelo sobrinho. Nesta mistura de filme teen com heroísmo, o diretor Jon Watts tem muitos elementos para dar conta, mas consegue fazê-lo evitando ao máximo repetir o que já vimos nos filmes anteriores. Watts faz um que pode não ter o sabor de novidade, mas que inova ao se concentrar justamente  no herói aprendendo a lidar com seus poderes, fama e impaciência de sempre esperar o chamado para se juntar aos Vingadores depois do que vimos em Capitão América: Guerra Civil (2016). Porém, nem tudo é perfeito, me incomodou o excesso de referências aos Vingadores (como se o personagem não tivesse condições de segurar nosso interesse sozinho).  Entendo que o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) tenha um apelo paternal ao personagem, que o Capitão América (Chris Evans) seja uma celebridade, mas por vezes o aranha surge demais à sombra destes ídolos. No entanto, não é nada que impeça Homem-Aranha: De Volta ao Lar de ser divertido e trazer novo fôlego para o personagem no cinema. 

Keaton: o Batman Birdman Abutre. 

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider Man: Homecoming/EUA-2017) de Jon Watts com Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Tony Revolori, Laura Harrier e Donald Glover. ☻☻☻

terça-feira, 11 de julho de 2017

Pódio: Matthias Schoenaerts

Bronze: o bom pastor. 
Nascido na Bélgica em 1977, o ator é apontado como um dos galãs europeus favoritos da mulherada - ele até que tenta ser notado somente pelo talento com um estilo meio desleixado, mas a mulherada sempre suspira quando ele aparece na tela - basta ver a reação delas em Suíte Francesa/2014 (que quase entrou nesta lista) ou esta adaptação do dinamarquês Thomas Vinterberg para este romance de época onde ele vive um pastor de ovelhas que enfrenta uma maré de azar, mesmo enquanto se apaixona pela impetuosa Bathsheba (Carey Mulligan). O destino dos dois irá se cruzar mais vezes do que imaginam até o inevitável The End. 

Prata: o lutador clandestino.
Embora atuasse desde 1992 (com o indicado ao Oscar Daens, onde atua ao lado do pai, Julien Schoenaerts), foi com este filme francês que Matthias carimbou seu passaporte para Hollywood. Aqui ele vive um pai que ganha um dinheiro extra participando de lutas clandestinas. Mas nem só de violência é sua vida, já que ele se envolve com uma mulher (Marion Cotillard) que perdeu as pernas em um acidente. O francês Jacques Audiard capricha na mistura crua de romance e realismo  num resultado surpreendente - e a química entre o casal protagonista é irresistível. 

Ouro: o touro raivoso.
Ainda que tenha sido indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, Bullhead nunca estreou nos cinemas brasileiros. Quem já teve a oportunidade de assistir ao filme não se arrependeu de conferir a melancólica história de um menino que cresceu precisando lidar com um ato de violência traumático - que mudou para sempre a sua vida. Jacky Vanmarsenille (o próprio Matthias) cresce junto à uma fúria que nem sempre ele consegue controlar. Suspeito de um crime e lidando com os fantasmas do passado, o ator dá ao personagem uma composição complexa que consegue equilibrar o que há de mais brutal e sensível em sua história. Filmão obrigatório!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

PL►Y: Um Mergulho no Passado

Dakota, Tilda, Ralph e Matthias: o crime é o de menos. 

Embora tenha concorrido ao Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2015, A Bigger Splash demorou uma eternidade para chegar ao Brasil - e sequer teve uma chance nas salas de cinema. Lançado com o péssimo nome de Um Mergulho no Passado, este trabalho do diretor italiano Luca Guadagnino promete decepcionar quem procura um suspense convencional. Porém, quem curte um bom elenco defendendo um texto sugestivo irá se deleitar com a proposta. Guadagnino já havia chamado atenção com Um Sonho de Amor (2009) estrelado por Tilda Swinton,  em que já destacava seu gosto por histórias sensuais (algo que já aparecia em 100 Escovadas Antes de Dormir/2005). Neste aqui, Luca refilma o clássico francês A Piscina (1969), ressaltando ainda mais a tensão sexual entre os dois casais num local paradisíaco (se você não conhece o filme original, vale a pena procurar, já que minha mãe se lembra dele até hoje - e isso é mais raro do que você imagina). A história é mais ou menos assim: a roqueira Marianne Lane (Tilda Swinton) tenta se recuperar de uma cirurgia nas cordas vocais ao lado do namorado mais jovem, Paul (Matthias Schoenaerts), no ensolarado litoral da Itália. Os dois vivem como se não existisse um mundo além deles, até que um ex-namorado de Marianne resolve aparecer para visitá-los. Ele é o produtor tagarela Harry Hawkes (Ralph Fiennes), que aparece com a filha adolescente recém descoberta, Penelope (Dakota Johnson), para incomodar os dois pombinhos.  Harry e Penelope são personagens que configuram exatamente a encarnação do passado, um tempo que não pertence mais à Marianne. A voz que lhe falta, a serenidade que se instaurou (até mesmo nas roupas de Marianne) não condizem mais com uma estrela do rock. Talvez por isso, Hawkes persista para ressuscitar algo que ficou para trás. Com os personagens devidamente apresentados, Guadagnino alimenta uma tensão crescente entre os personagens, ora sugere que existe algo mais entre pai e filha, ora os dois personagens masculinos parecem próximos demais para serem rivais e aponta um flerte entre os personagens mais jovens da história. Curiosamente, se o filme original valorizava o suspense em torno da morte de um dos personagens, este está mais preocupado nas relações dos personagens - e Guadagnino tempera essa mistura com muita sensualidade.  Da belíssima fotografia, às locações de encher os olhos, passando pelas cenas de nudez (de todos... mas é Ralph Fiennes que bate um verdadeiro recorde de cenas sem roupa aqui - em atuação totalmente despojada ele foi lembrado na categoria de ator coadjuvante no Independent Spirit Awards e poderia ter figurado no Oscar) o filme constrói um jogo de sedução que funciona como a sofisticada engrenagem de um relógio. É verdade que existem alguns segredos revelados, mas os mais intrigantes ficam para a mente do espectador depois da sessão.

Um Mergulho no Passado (A Bigger Splash/Itália-França/2015) de Luca Guadagnino com Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes e Dakota Johnson. ☻☻☻☻

NaTela: O Mago das Mentiras


Michelle e DeNiro: farsante bilionário. 

Acho curioso o interesse dos diretores americanos pela primeira grande crise econômica do século XX. Nos últimos anos vários filmes exploraram o assunto sob diversos prismas. Um deles é a busca do entendimento do que estava por trás de tudo o que aconteceu subitamente num cenário que parecia tão seguro e, de repente, virou pó diante de negócios que parecem surreais(compras de dívidas, pirâmides, quebra de parâmetros reguladores...). Outro ponto de interesse tem sido os personagens que fizeram esta bolha crescer e estourar dentro da economia americana de um mundo globalizado. O Mago das Mentiras de Barry Levinson se dedica a explorar a figura de Bernard Madoff, um dos sujeitos que ajudaram a configurar a economia americana antes da crise. Madoff era um dos investidores mais conhecidos do mercado americano e por duas décadas construiu sua fortuna sobre fundos de aplicação que simplesmente... não existiam! Sua fortuna era estimada em 65 bilhões de dólares construída sobre o nada - e que se transformou num verdadeiro vácuo que sugou não apenas seu patrimônio, mas também toda credibilidade e, também sua família. Feito para HBO pelas mãos de  Barry Levinson, o diretor poderia pegar o caminho mais fácil e demonizar a figura de Madoff, mas isso parece simples demais. Levinson preferiu mostrá-lo como um sujeito muito articulado, incapaz de perceber o quanto metia os pés pelas mãos. Vivido por Robert DeNiro, o investidor recebe gestos contidos e personalidade de muitas nuances, tendo momentos de raiva, mas também de culpa e melancolia, especialmente quando sua  família é tragada para a espiral que ele mesmo criou. Afinal,  como seus filhos, Mark (Alessandro Nivola) e Andrew (Nathan Darrow) trabalhavam com o pai e não perceberam o que era feito? E a esposa (vivida por Michelle Pfeiffer) nunca se questionou sobre a origem dos bilhões produzidos pelo esposo? A imprensa foi implacável em afirmar que todos sabiam exatamente o que acontecia, enquanto a família afirmava que somente Madoff sabia os detalhes dos bastidores. O Mago das Mentiras se beneficia de evitar os termos técnicos enquanto expõe como o protagonista se aproveitou de brechas e a conivência de várias pessoas que fizeram vista grossa para o que estava acontecendo para enriquecer cada vez mais. Segundo Barry, diante da crise, o mundo precisava de um bode expiatório - e ele foi o eleito -, no entanto, seria ingenuidade pensar que suas práticas eram exclusivas dentro do sistema econômico ou que elas deixaram de acontecer depois de sua ruína pessoal e prisão.  O Mago das Mentiras pode até se desequilibrar em alguns momentos entre o drama familiar e ser um retrato do que a estranha economia mundial se tornou, mas demonstra de forma contundente como existem engrenagens que não fazemos a mínima ideia de como funcionam em torno do nosso dinheiro.  

O Mago das Mentiras (The Wizard of Lies/EUA-2007) de Barry Levinson com Robert DeNiro, Michelle Pfeiffer, Alessandro Nivola, Nathan Darrow, Hank Azaria e Michael A. Gorjian. ☻☻☻

terça-feira, 4 de julho de 2017

FILMED+: Okja

Okja e Mika: a menina e o porquinho do século XXI. 

Okja, antes mesmo de estrear, se envolveu em polêmicas infinitas, não por conta de seus méritos, mas por ter sido um dos filmes escolhidos para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano. Muitos criticaram por conta do filme ser produzido para a Netflix e não para sala de cinema. Nesse contexto a Netflix pareceu o vilão da história por não demonstrar interesse de lançar o filme em salas de exibição - mas se bem me lembro a empresa teve sérios problemas com o lançamento de Beasts of no Nation/2015 no cinemas (e a política de boa vizinhança não ajudou em nada, já que viu seu filme ser esnobado no Oscar de ver a colossal atuação de Idris Elba sequer ser indicada). Por outro lado, o diretor Joon Ho-Bong viu seu excelente Expresso do Amanhã/2014 ser visto por meia dúzia de gatos pingados ao ser lançado nos EUA e ser totalmente desprezado nas premiações. Agora você imagina um diretor coreano cheio de boas ideias com um projeto original e ambicioso embaixo do braço (e que os produtores achavam diferente demais para bancar e satisfazer o público "carente" de continuações, reboots e remakes) e Netflix topando a empreitada, sendo alvo de críticas no maior festival de cinema do mundo. Foi isso mesmo? Obviamente que Okja é um filmão que visto no cinema impressiona ainda mais, pena que se viu no meio de uma guerra onde o que menos importava eram as qualidades do filme e dos envolvidos. Qualidades Okja tem de sobra! Ótimas atuações, efeitos visuais bem cuidados, roteiro bem amarradinho com doses de fantasia e crítica à indústria alimentícia. Não é pouca coisa para um mundo que se acostumou a pensar em filmes de entretenimento como sinônimo de explosões, mortes e tiros. Okja é o superporco de estimação de uma menina coreana (Seo-Hyun Ahn) cujo avô recebeu há dez anos a missão de cuidar do superporco pra participar de um concurso que escolheria o mais bem cuidado de todos. Por trás dessa premissa aparentemente inofensiva se esconde alguns segredos, já que até então ninguém sabia da existência da espécie chilena de porcos robustos capazes de produzir carne saborosa a baixo custo. Isso mesmo, Ojka, assim como os outros de sua espécie foram descobertos pelo conglomerado Mirando para ajudar o mundo a sanar a fome mundial... ou pelo menos é isso que a campanha de marketing agressiva propaga. Capitaneada pela misteriosa Lucy Mirando (Tilda Swinton), que vive sob o fantasma do pai sombrio e da irmã gêmea sinistra (a Nancy Mirando, também vivida por Tilda), a empresa tenta mascarar os interesses empresariais, a experiência com transgênicos e os maus tratos aos animais na criação e processo de massacre produção. Joon Ho-Bong já demonstrava habilidade na direção de uma narrativa impactante e repleta de analogias em seu filme anterior, mas aqui ele acrescenta doses fartas de fofura! Ainda que Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal (que interpreta um grotesco apresentador abobalhado) estejam ótimos em cena (remetendo aos exageros dos personagens de animes) é a relação entre a menina e seu querido superporco que se torna o laço mais forte do filme com a plateia (e talvez por isso o roteiro trate os demais personagens como acessórios). Okja é um filme para todas as idades, diverte, comove e faz pensar enquanto nos deslumbra com um visual muito bem cuidado. 

Okja (Coreia do Sul/EUA - 2017) de Joon Ho-Bong com Tilda Swinton, Seo-Hyun Ahn, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Lilly Collins e Steven Yeun. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 3 de julho de 2017

NªTV: GLOW


Ainda que seja lembrado por roupas e cabelos espalhafatosos, aos poucos os anos 1980 é redescoberto como um território cheio de criatividade capaz de render histórias curiosas. A Netflix percebeu isso ao criar Stranger Things/2016 (com várias referências aos filmes fantásticos de período) e tentou repetir a dose com uma trama onde as mulheres tentam subverter seus estereótipos justamente quando o discurso do empoderamento feminino está em pauta no showbizz. O engraçado é a empresa de streaming utilizar o ringue para contar essa história. GLOW é sobre a história de um grupo de atrizes desempregadas que se envolvem na produção de um programa de TV onde as mulheres lutam sobre o tatame (com um sabor deliciosamente fake). Produzido por Jenji Kohan (criadora da cultuada Orange Is The New Black) e criada por Liz Flahive e Carly Mensch, a trama gira em torno de Ruth Wilder (Alison Brie, bem diferente dos seus trabalhos em Community e Mad Men). Ruth é uma jovem atriz que ainda não conseguiu o seu lugar ao sol e sua primeira cena é emblemática, já que ela demonstra grande empenho ao viver seu papel... até se dar conta que está interpretando (erroneamente) o homem da trama. A cena revela mais do que parece e Ruth cai como uma luva dentro do contexto abordado pela série, afinal, ainda que ela tenha um caso com o marido da amiga (vivido por Rich Sommer, outro egresso de Mad Men), ela não se enquadra no papel de destruidora de lares - e sente a dificuldade de encontrar sua identidade para criar sua personagem de guerra.

Alison Brie: de mocinha comportada à vilã dos ringues. 

No outro lado da história está a amiga de Ruth, Debbie (Betty Gilpin) que meio que por acaso entra no programa graças a algum prestígio conquistado em produções para TV, o que chama atenção do diretor do projeto, Sam Sylvia (o ótimo Marc Maron), que já parece um tanto perdido entre as mulheres que escalou para o programa. A trama de GLOW se desenvolve sem pressa, misturando drama, humor, brilhos e laque. Sem complicar demais a história e, visivelmente guardando histórias sobre as personagens para a próxima temporada, você percebe que existem alguns episódios que são menos empolgantes, mas na reta final a série torna-se irresistível em seu tom de crônica sobre um grupo de mulheres que redescobrem a auto-estima nos ringues. Não sei se vocês lembram, mas nos anos 1980 o programa que inspirou a série foi ao ar aqui no Brasil pelo SBT com o nome de "Luta Livre de Mulheres" e tinha uma audiência cativa (pelo menos no meu bairro) e a graça estava no jeito nonsense com que lidava com os estereótipos tão comuns já naquele tempo. Curiosamente, GLOW desconstrói os preconceitos exatamente quando se baseia neles para criar suas personagens para o entretenimento. Alguns ficarão decepcionados pelo programa deixar várias pontas para a próxima temporada, mas isso só aumenta a vontade de ver o próximo round.

Marc Maron: a melhor testosterona do programa. 

GLOW (EUA-2017) de Liz Flahive e Carly Mensch com Alison Brie, Betty Gilpin, Marc Maron, Rich Sommer, Sydelle Noel, Kate Nash, Kia Stevens, Ellen Wong e Sunita Mani. ☻☻☻

domingo, 2 de julho de 2017

FILMED+: Laranja Mecânica

McDowell: apresentando Alex DeLarge.

Meu amigo Marcos certa vez disse que viu Laranja Mecânica durante a época da ditadura, então que o que ele viu era "praticamente um trailer". Ano passado foi a vez de Luis Felipe dizer que finalmente tinha visto o polêmico filme de Stanley Kubrick pela primeira vez e ouvir alguém dizer "Parabéns, você já é um homem!". Eu poderia escrever um texto inteiro sobre todas comentários que já ouvi em torno do filme lançado em 1971 e que ainda surpreende pela forma ousada com que constrói sua história de violência e uma medida radical para combatê-la. Ainda hoje o filme é capaz de gerar reações bastante controversas pelo que se vê na tela, mesmo na aula de psicologia em que  o assisti, lembro do desconforto dos colegas enquanto eu e outros colegas riamos das cenas mais cômicas da história de Alex DeLarge (Malcolm McDowell) e seu bando. Sabe quando você ri e pensa que não deveria? O filme é assim. Na Inglaterra de um tempo futuro não identificado, Alex é o integrante de uma gangue que comete atrocidades por toda a cidade apenas pelo prazer de ser violento com quem atravesse o seu caminho. Além de espancar cidadãos comuns, invadir casas e cometer atos da chamada "ultraviolência", Alex e seus amigos não tem mais o que fazer. A vida do protagonista poderia seguir assim até o fim, até que ele é traído por seus amigos e é submetido a um tratamento revolucionário: o método Ludovico (uma experiência comportamentalista). Surge daí uma das cenas mais famosas do filme - e que foi citada diversas vezes (até mesmo em Os Simpsons): Alex sentado na cadeira e, com olhos sempre abertos por ganchos, forçado a assistir cenas de violência contínua ao som de Beethoven - enquanto o desconforto de seu corpo era potencializado pelo uso de drogas variadas. A partir do tratamento, Alex se tornará totalmente avesso a tudo que indica violência e... Beethoven.

O Bando: O controverso mundo de Burgess/Kubrick

A ironia vem do fato que que ao não ser preso e ser submetido ao tratamento, Alex vive uma prisão diferente, onde ele deixa de ser violento, mas também perde sua reação diante de agressões. Torna-se passivo, um fantoche sem expressão o que mostra-se um efeito colateral do tratamento... ou não? Baseado no livro de Anthony Burgess, Kubrick levava o público a embarcar numa experiência inédita até então. A mistura de perversidade com humor negro num futuro distópico (quando a expressão nem era moda), gerou várias críticas ao filme. Basta assistir à obra para imaginar todo o barulho que algumas cenas geraram há mais de quarenta anos - especialmente a cena em que o protagonista mantém relações sexuais com duas mulheres ao ritmo da Nona Sinfonia de Beethoven (em cena acelerada e ultraeditada que faria Baz Lurhman morrer de inveja) ou as citações deturpadas da Bíblia por Alex para sustentar seu estilo de vida (o que é algo mais comum hoje do que Burgess poderia imaginar). Por essas e outras ousadias que Laranja Mecânica se revela uma experiência cinematográfica incomum, que o faz ainda hoje figurar entre os filmes mais controversos de todos os tempos. Além da história interessante, o filme conta com magnífica atuação de Malcolm McDowell que entrou para a história como um dos maiores injustiçados do Oscar (já que o filme concorreu a melhor filme, direção, roteiro adaptado e direção - o que já foi uma grande surpresa), afinal ele cria um anti-herói tão envolvente quanto repulsivo, o que o torna o filme ainda mais inesquecível. O filme ainda tem linguagem estética única e que ainda hoje serve de inspiração para a cultura pop (como o clipe "The Universal" do Blur ,  o álbum "Ultraviolence" de Lana del Rey ou título de música do Arctic Monkeys). Laranja Mecânica talvez seja a maior obra-prima de seu diretor. 

Alex: o delicado método Ludovico.

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange / Reino Unido - EUA - 1971) de Stanley Kubrick com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, John Clive e Shiela Raynor. ☻☻☻☻☻