terça-feira, 26 de março de 2013

DVD: Gorbaciof

Servillo e Yang: unidos pelo silêncio. 

Sempre que imaginamos um malandro ele não costuma ser um sujeito como  o protagonista de Gorbaciof, um homem de poucas palavras, sutis expressões faciais. Ele trabalha como caixa em um presídio e rouba o dinheiro do trabalho para sustentar o seu vício no jogo. O filme de Stefano Incerti deixa claro, desde o início, que irá imprimir à narrativa as características de seu personagem. Existem longos silêncios, ao mesmo tempo em que existe algo de desengonçado nos gestos e atitudes deste homem diferente. O apelido Gorbaciof lhe foi dado por conta da famosa mancha na testa (que alguns exagerados até consideravam uma marca da besta), e ele nem sempre lembra o próprio nome verdadeiro. Tirando a alegria (vivida com a tensão que só as mesas de jogo são capazes de proporcionar), sobra pouca coisa para que Gorbaciof (vivido por Toni Servillo com estranha precisão) ocupe seu tempo. Até o dia em que cai de amores pela bela Lila (Mini Yang), a filha do proprietário do restaurante chinês em que torra o dinheiro que rouba do trabalho. Lila é o total oposto de seu admirador, delicada e gentil, ele compartilha com ele o gosto pelo silêncio - já que ela só fala chinês e ninguém entende o que diz. Ele percebe que aquela garota frágil precisa de proteção e que ninguém poderá executar essa tarefa melhor do que ele. Eu pensava que deste ponto em diante o filme ficaria meio Taxi Driver (1976), mas caminha por um lado oposto. Incerti quer contar uma história de amor original e consegue construir belas cenas a partir dos encontros do casal, encontros em que os gestos e expressões faciais tornam as palavras completamente desnecessárias. São nesses momentos de intimidade silenciosa que aquele homem que parecia tão duro mostra outros traços de seu comportamento, traços que  que pareciam não existir até que Lila cruzasse seu caminho. Apesar do roteiro se aventurar nas possíveis consequências dos roubos do personagem, o filme caminha para uma conclusão visivelmente idílica: uma viagem que marcará um recomeço na vida do par romântico. Pena que seu protagonista resolveu dar um passo maior que a perna e corre sério risco de arriscar a boa vida que ambiciona ao lado de sua amada. Apesar de interessante, eu ficaria muito mais satisfeito se o filme tivesse um final feliz. Com todo o caminho torto de Gorbaciof eu imaginava que ele realmente poderia ser feliz, mas o filme era mais realista do que eu imaginava. 

Gorbaciof (Itália/2010)de Stefano Incerti com  Toni Servillo, Mini Yang, Gaetano Bruno e Nello Mascia. ☻☻☻

DVD: Life, Above All.

Esther e Chanda: a vida acima de tudo. 

Os números relacionados à AIDS no continente africano impressionam. Pesquisas da Organização Mundial de Saúde revelam que os africanos lidam com uma verdadeira epidemia. Em países como África do Sul e Zambia cerca de 20% da população jovem e adulta encontra-se contaminada. Em Botsuana o número chega a assustadores 39% de soropositivos entre a população de 15 a 45 anos. Ainda mais assustador é perceber que apenas 1% dos contaminados procuraram tratamento. Diante desses números é interessante ver um filme como o sul-africano Life, Above All que consegue fazer um retrato interessante sobre os temas relacionados à doença no continente, sendo que com o olhar de uma adolescente que descobre que a AIDS chegou em sua família. O filme já começa com a adolescente Chanda tendo que comprar um caixãozinho para a irmã bebê que acaba de falecer. A causa é aparentemente um mistério. Sua mãe não fala sobre o assunto, o padrasto prefere afogar as mágoas num boteco e quando aparece é para culpar a esposa de ter envenenado a criança com leite (e o fato dele ter várias parceiras sexuais não tem nenhuma relação com isso). A vizinha, amiga da família, prefere tentar evitar escândalos no pequeno vilarejo rural em que vivem e certificar-se que ninguém pensará que a causa da morte do bebê era algo diferente de uma forte gripe. Chanda (Khomotso Manyaka) tem 12 anos, sendo esperta o suficiente para perceber que existem mais coisas nas entrelinhas do que as pessoas querem comentar com ela. Na busca da menina para saber o que acontece com a família ela se depara com aspectos bastante relacionados à camuflagem da epidemia em seu país. Os sintomas da AIDS são vistos como uma maldição, uma penalidade envolta em crendices regionais, sendo assim, ao mesmo tempo em que a epidemia é camuflada, algumas pessoas se aproveitam da situação das formas mais variadas (seja para realização de um ritual religioso ou de consultas médicas picaretas que não são capazes de resolver o problema como se deveria). Além de mostrar os conflitos de Chanda com seus familiares - da mãe que percebe a doença como uma maldição, o padrasto que culpabiliza a esposa pelas mazelas da família, os irmãos mais novos que não entendem o que está acontecendo, os parentes que pretendem abafar   a situação - ainda existem dois outros personagens que complementam o universo construído pelo filme. Além da vizinha (Harriet Lenabe) que ganha cada vez mais força na narrativa pelo medo do preconceito que a doença gera, existe a jovem amiga de Chanda, Esther (Keaobaka Makanyane), que desde que perdeu sua família se prostitui para sobreviver (e mantém a trama ainda mais tensa por deixar a AIDS como uma ameaça sempre a espreita dos mais jovens). O diretor Oliver Schmitz tem vários filmes produzidos para a televisão e aqui demonstra total domínio de sua história. Existem momentos emocionantes na jornada de Chanda contra os preconceitos que só fazem a epidemia se propagar ainda mais. Defendido por um elenco competente (especialmente as jovens Manyaka e Makanyane)  o resultado é um filme bonito de se assistir e impossível de não comover com as atuações, além do respeito que a protagonista atribui à vida de quem está a sua volta.

Life, Above All (África do Sul/2010) de Oliver Schmitz com Khomotso Manyaka, Keaobaka Makanyane, Harriet Lenabe e Lerato Mvelase. ☻☻☻☻

segunda-feira, 25 de março de 2013

DVD: In Jeder Sekunde/At Any Second

Wotan e Mina: trama alemã com tempero mexicano. 

Não sei porque o filme não teve seu título traduzido para o português (A Cada Segundo). Para falar a verdade ainda estou pensando no motivo para o filme ter esse nome enigmático. O mais curioso é que apesar de se tratar de uma produção alemã, percebi no filme forte influência das tramas do mexicano Alejandro González Iñárritu, especialmente 21 Gramas(2003). In Jeder Sekunde conta paralelamente a história de duas pessoas e a forma como o roteiro irá juntá-las pela força que seus coadjuvantes possuem na trama, são os personagens secundários que movem os caminhos dos personagens principais. Mais curioso ainda é que, apesar do filme ter recebido alguma atenção por contar com a presença de Sebastian Koch (que dois anos antes protagonizou o cultuado A Vida dos Outros), a sua parte na história foi a que considerei menos interessante. Ele interpreta um médico que atua numa clínica para tratamento de viciados em drogas. Além de cuidar dos pacientes, quando chega em casa ele se dedica à filha de saúde frágil e ao casamento insosso. Para se divertir ele costuma fazer caminhadas num bosque perto de sua casa. Seu dia a dia é tão estruturado que ele até se anima com a possibilidade de um romance adúltero com a irmã de uma ex-paciente. Talvez pela intensidade sempre contida dessa relação, o romance do médico não conseguiu me empolgar, assim, eu sempre queria saber o que acontecia com a outra metade da trama: a que se dedica à bela Sarah (Mina Tander). Sarah é dona de uma loja de discos, mas se dedica também a uma carreira de DJ que parece nunca decolar.  Após ter problema com álcool e drogas ela vive sossegadamente - apesar de namorar Christoph (Wotan Wilke Möhring), um rapaz aparentemente bem nascido que se entrega cada vez mais a drogas variadas. O filme apenas sugere que Sarah percebe o quanto este relacionamento pode lhe fazer mal e ela desiste do relacionamento com Chris... é quando aparece o fotógrafo Ben (Ronald Zehrfeld) em seu caminho. Com Ben, Sarah  vive bons momentos até que ele recebe uma proposta de trabalho e tem que se afastar por alguns tempos. Não vale a pena mencionar o que acontece deste ponto em diante, mas o filme consegue embaralhar as duas tramas pelas interseções que se anunciam sutilmente desde o início. Não sei se era a intenção do diretor Jan Fehse, mas existe uma diferença de tom que pode incomodar nos núcleos de Sarah e do médico. Se a trama de Sarah é visivelmente mais intensa e envolvente, a do médico é de uma frieza insuportável. O mais legal é que no decorrer da trama é Wotan Wilke Möhring que rouba a cena como o ex-namorado que parece distante no início e ganha contornos mais vívidos pouco antes de ficar catatônico. É o seu olhar de desespero mergulhado na mais profunda culpa que fica na memória depois que o filme termina. Se o diretor houvesse se dedicado somente à Sarah e seus amores o filme poderia ser mais simples, mas renderia mais de 50% de interesse da plateia. 

In Jeder Sekunde/At Any Second (Alemanha/2008) de Jan Fehse com Sebastian Koch, Mina Tander, Wotan Wilke Möhring, Ronald Zehrfeld, Barbara Auer. ☻☻

DVD: O Hobbit - Uma Jornada Inesperada

Freeman (ao centro): provando que um Hobbit é menor que um anão.

Não precisa nem dizer que os boatos sobre esse filme começaram assim que a trilogia Senhor dos Anéis chegou ao fim. Havia tantas especulações e fofocas na mídia que o filme mudou de mão várias vezes. De início o mais cotado para dirigi-lo era Sam Raimi, depois Guillermo Del Toro (que acabou colaborando no roteiro), mas a pressão dos fãs foi tanta que o filme terminou assinado por Peter Jackson - que, convenhamos, desde que concluiu a saga de Frodo e seu bando andava devendo um filme interessante. Apesar de perceber o domínio que Jackson tem do universo criado por J.R.R. Tolkien, após assistir ao filme, eu só pensava no beneficio que outro diretor traria para a empreitada. Pode parecer implicância, mas O Hobbit não conseguiu me empolgar nem um terço do que os filmes anteriores conseguiram.Talvez eu tenha envelhecido mais do que imaginava, mas tudo me pareceu tão comum e trivial que poucos momentos se salvaram nessa jornada. De início o filme força um bocado para mostrar-se necessário ao Senhor dos Anéis, anuncia-se como uma espécie de epílogo dos filmes anteriores. Vemos Ian Holm e Elijah Wood repetindo seus personagens até que somos apresentados ao jovem Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) e o dia em que um bando de anões invadiram sua casa com a influência do mago Gandalf (Ian McKellen). Os anões vieram convencê-lo a ajudá-los a tomar de volta o reino que foi invadido e destruído por um dragão que farejava ouro à milhas de distância. Depois de uma longa introdução, cheia de desentendimentos que pretendem ser engraçados (mas que considerei apenas tediosos), Bilbo acaba aceitando o desafio de participar daquela aventura. A partir daí é impossível não lembrar da famosa trilogia de Tolkien, a diferença é que O Hobbit não possui personagens tão fortes a serem desenvolvidos,, sendo assim, resta apelar aos personagens conhecidos do público em participações especiais que nem sempre tem muito a dizer. Christopher Lee, Cate Blanchett e Hugo Weaving aparecem em poucos momentos sem ter muito o que fazer - e o único que consegue se destacar na repescagem promovida pela trama é o antológico Gollum em sua primeira aparição em busca de seu precioso anel. Até este momento já se passou mais da metade do filme e tirando uma cena de ação aqui e outra ali (a mais impressionante é a dos gigantes de pedra) pouca coisa aconteceu. Existe a ameaça de um necromante, uma epidemia mortal entre os bichos da Terra Média e orcs mal intencionados, mas nada consegue disfarçar o quanto o filme enrola para fazer um livro simples (de 310 páginas) ter material para uma nova trilogia (cada livro da trilogia do anel tem quase 500!). Justiça seja feita que a maquiagem, a direção de arte, os figurinos, fotografia e trilha sonora são de um cuidado louvável, mas o ponto fraco do filme é o roteiro propositalmente ralo para dar conta de mais dois filmes a serem lançados em breve. No final, onde os personagens contemplam no horizonte distante seu objetivo, a minha insatisfação chegou ao auge ao me dar conta que o mesmo deve se suceder nos próximos filmes desta saga anunciada. Apesar de retomar o primor estético de Tolkien no cinema, o filme não me convenceu que uma nova trilogia na Terra Média era necessária.

O Hobbit - Uma Jornada Inesperada (The Hobbit - An Unexpected Journey/EUA-Nova Zelândia/2012) com Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Adam Brown, Hugo Weaving, Ian Holm e Elijah Wood. ☻☻

quarta-feira, 20 de março de 2013

LADIES & GENTLEMEN: Joel Edgerton

O australiano Joel Edgerton nasceu em 23 de junho de 1974 e se dedicou à escola de arte dramática a partir de 1994. Joel começou a ganhar fama em seus trabalhos na TV australiana e pode não ser um nome conhecido do grande público ainda, mas tem se tornado um rosto cada vez mais visto em produções importantes. Até 2001 sua carreira ficou concentrada em séries de TV, algumas participações em filmes (especialmente curtas-metragens), mas seu primeiro papel com algum destaque no cinema americano foi no papel de Owen Lars em Star Wars  - O Ataque dos Clones (2002), depois acabou coadjuvando os conterrâneos Guy Pearce e Rachel Griffith em O Grande Roubo no mesmo ano. Seu maior destaque foi ao participar da série The Secret Life of Us, que rendeu o convite para estrelar ao lado de Orlando Bloom, Heath Ledger, Geoffrey Rush e Naomi Watts a adaptação de Ned Kelly (2003) para o cinema. Ainda que seu personagem tivesse algum destaque (chegou a ser indicado a prêmios), ainda não era daquela vez que o ator ganharia fama. Ele ainda teve que se contentar com os papéis modestos em produções ambiciosas como Rei Arthur (2004) e no episódio final de Star Wars (2005). Edgerton chegou a chamar atenção em suas participação na comédia britânica Kinky Boots (2005) e no drama Open Window (2005) ao lado de Robin Tunney, mas precisava mais do que papéis em filmes modestos. Após ser uma das peças do filme de ação A Última Cartada (2006), o ator voltou a se dedicar às séries de TV deixando sua carreira nos filmes restrita aos curtas metragens. Depois da participação em dois filmes independentes que quase ninguém viu em 2009, o ator foi escalado para  participar de Reino Animal do diretor David Michôd. O filme fez muito sucesso em festivais de cinema independente e conseguiu até uma indicação ao Oscar com sua trama cheia de tensão ao acompanhar uma família de bandidos. Num ambiente que parece prestes a explodir, Edgerton interpreta Barry, um dos membros mais sensatos do clã que tenta manter algum equilíbrio naquele universo - mas um acontecimento em sua vida irá mudar o rumo de todos os membros da família. O filme deu destaque ao ator que conseguiu convites variados, como o pedido para emprestar a voz para uma das corujas de A Lenda dos Guardiões (2010) ou viver o lutador de MMA cheio de dramas familiares em Guerreiro (2011) - filme em que ao lado de Tom Hardy interpreta algumas das cenas de luta mais inacreditáveis do cinema. Ainda não sei muito bem como ele foi se meter na refilmagem fracote do terror Enigma de Outro Mundo (2011), mas sua atuação no aclamado Wish you Were Here (2012) o redimiu de qualquer repreensão da crítica. O filme australiano, inédito por aqui, recebeu elogios pela sua trama sobre o desaparecimento de um homem. Ainda no ano passado, Edgerton viveu o pai dedicado de A Estranha Vida de Timothy Green, fábula simpática sobre um menino que "brota", literalmente, das expectativas de seus pais plantam no jardim. Além disso, Joel teve papel de destaque em A Hora Mais Escura, filme de Kathryn Bigelow que causou polêmica ao abordar as investigações da CIA que culminaram com a prisão de Osama Bin Laden. O filme concorreu a cinco Oscars (incluindo melhor filme), mas ganhou somente o de melhor edição de som.  Em 2013, Joel Edgerton poderá estar no papel que lhe renderá a primeira indicação ao Oscar, ele é coadjuvante de Leonardo DiCaprio na versão do conterrâneo Baz Luhrman para O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald. Na pele de Tom Buchanan, o ator pode receber ainda mais destaque em sua carreira que promete ganhar espaço em Hollywood nos próximos anos.

Com Jacki Weaver em Reino Animal: primeiro grande sucesso. 

DVD: A Estranha Vida de Timothy Green

Garner, Adams e Edgerton: tentando ser uma família comum. 

Todo mundo sabe que os filmes produzidos pela Disney são realizados dentro de um conjunto de parâmetros que, se por um lado confere uma identidade própria ao estúdio, por outro, engessa tramas que poderiam render muito mais na telona. Os efeitos disso podem ser visto nos últimos longas da Pixar (após a junção com o estúdio) e também em produções como A Estranha Vida de Timothy Green, filme simpático que poderia ser muito mais se não abandonasse pelo meio do caminho tudo o que a premissa tem de mais original para injetar doses cavalares de açúcar na história da família Green. Cindy (Jennifer Garner) e Jim (Joel Edgerton) formam um casal feliz, mas desde o início sabemos que não podem ter filhos. A dificuldade para que consigam gerar um herdeiro os deixa profundamente tristes, mesmo assim costumam fantasiar sobre como seria o rebento de ambos. Numa dessas fantasias, escrevem todas as expectativas que nutriram sobre o pequeno que nunca chega, colocam essas expectativas numa caixinha e enterram no quintal. Depois de uma chuva misteriosa, os dois se deparam com um menino chamado Timothy (CJ Adams) que possui todas as características desejadas por eles, só que com folhas que nasce de suas pernas.   Esse elemento mostra que trata-se de uma fábula, mas não uma qualquer, uma construída por Peter Hedges - que já demonstrou gostar de tramas familiares em seus roteiros de Gilbert Grape (1993) e Um Grande Garoto (2002), assim como em seus filmes como diretor, Do Jeito que Ela é (2003) e Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (2007). Quem conhece sua filmografia sabe que ele consegue equilibrar drama com toques de humor na medida certa, mas sua receita ganhou o acréscimo de elementos mágicos que nem sempre são bem aproveitados pelo roteiro. Por mais que seja poético o efeito das folhas que caem aos poucos do menino, não deixa de causar estranhamento que as pessoas aceitem a presença de Timothy com tanta facilidade. Tirando os comentários da tia esnobe (vivida por Rosemary Dewitt) e um incidente na escola, tudo se resolve tão facilmente que beira o superficial quando o assunto é a relação de Timothy com o mundo. Obviamente que o novato CJ Adams esbanja carisma, mas seu personagem lhe permite poucas possibilidade de se impor no mundo que o cerca. Toda essa ausência de conflitos pode ser atribuída ao tom de fábula que o diretor adotou em sua empreitada. No entanto, me incomoda mais a falta de sutileza como o filme aborda a competitividade quase doentia que existem entre os pais da trama -  que os leva a cometer vários equívocos -  e a pendenga que Jim tem com o seu pai ausente (David Morse). No fim das contas, o filme consegue dar conta do básico em suas intenções, pena que perde a chance de se tornar um filme ainda mais interessante se aprofundasse as questões voltadas para o respeito à diferença que está sempre abafado pelo andamento da trama. Mesmo assim, por ser bem feitinho e com bom elenco, acredito que alguns chorões vão precisar de um lencinho ao final da trama. 

A Estranha Vida de Timothy Green (The Odd Life of Timothy Green/EUA-2012) de Peter Hedges com Jennifer Garner, Joel Edgerton, CJ Adams e David Morse. ☻☻☻

KLÁSSIQO: Doutor Jivago

Christie e Sharif: romance épico e Revolução Russa. 

Minha mãe sempre disse que Doutor Jivago era um dos seus filmes favoritos. Eu cresci ouvindo o "Tema de Lara" na vitrola lá de casa e acho que faz mais de vinte anos que o assisti pela primeira vez. Neste final de semana eu o assisti novamente e ele continua funcionando que é uma beleza! Baseado na obra de Boris Pasternak, o filme conta um romance cheio de idas e vindas tendo como pano de fundo as transformações geradas pelos bolcheviques na Rússia. Não há duvidas de que o cineasta David Lean é um mestre em contar histórias grandiloquentes, prova disso é que quase meio século depois de seu lançamento, ele continuar envolvente em sua narrativa, provando-se um espetáculo cinematográfico belíssimo. Acho interessante como o filme mantém no roteiro sua estrutura literária - onde os personagens são apresentados quase que paralelamente, até que se encontrem e desfrutem do amor somente quando sabemos que o final se aproxima. Não deixa de ser fascinante como o filme constrói uma heroína romântica diferente, com elementos que podem facilmente ser percebidos como desvios de caráter, mas tem ciência de que o público é esperto para ver mais do que isso. Embora o filme comece na busca pela filha de Jivago e Lara, os dois demoram bastante para consumar o seu romance. Somos apresentados a Jivago quando ele ainda menino vai morar com os tios depois. O menino cresce, torna-se médico (já na pele do egípcio Omar Sharif) para a alegria dos tios que sempre demonstraram interesse em uni-lo à prima Tonya (uma graciosa Geraldine Chaplin). Paralela a essa história conhecemos Lara  (Julie Christie, que não me convence que tem 17 anos - ela já tinha 24 durante as filmagens) que é molestada por um dos homens mais influentes da sociedade local e torna-se amante dele, ainda que seja ofendida constantemente pelo asqueroso parceiro. Enquanto Jivago pertence à alta sociedade, com grandes posses e festas luxuosas, Lara tem uma vida mais humilde ao lado da mãe e se esforça para concluir seus estudos enquanto tem um amigo, Pasha (Tom Courtenay) que está envolvido com o clima pré-revolução que cresce na Rússia - vale ressaltar que este será seu marido. A revolução bolchevique de 1917, que marca a queda do Czar e chegada de Lenin ao poder, serve de pano de fundo para a história de Lara e Jivago que irão se encontrar na I Guerra Mundial e nutrirão um amor platônico até que ele se concretize na grande transformação que o país sofrerá. É sempre saboroso assistir a uma bela produção que mistura ficção com a história de "H" maiúsculo. Existe tamanha complexidade na construção dos personagens e suas relações que é impossível não se envolver com os dramas e sacrifícios de Jivago, Lara, Pasha e Tonya. David Lean capricha nas locações, nas belas cenas e na trilha sonora, que junto à fotografia, emolduram a trama com maestria, no entanto, talvez por se concentrar no olhar do protagonista sobre a Revolução o espectador menos esclarecido não se dê conta do que está acontecendo no contexto histórico - o que talvez seja a maior ironia do filme, já que o modelo de sociedade que nascia, a subjetividade nunca deveria se sobrepor ao coletivo (sendo essa uma das causas das perseguições a Jivago por se dedicar à poesia). Obviamente que o espectador disposto a embarcar nas três horas de torcida por Lara e Jivago não irá reparar esse detalhe! De resto é curioso ver Julie Christie com sua beleza agressiva (ainda percebo nela o mesmo vigor até hoje) e o egípcio Omar Sharif arrasando corações no auge de sua popularidade (ganhou até o Globo de Ouro de Ator pelo papel). Um épico daqueles que quase não se vê mais. O filme ganhou 5 Oscars dos 10 a que concorreu, curiosamente,  Tom Courtenay foi o único lembrado pela Academia, concorrendo ao Oscar de coadjuvante.

Doutor Jivago (Doctor Zhivago/EUA-1965) de David Lean com Omar Sharif, Julie Christie, Tom Courtenay, Geraldine Chaplin, Rod Steiger e Alec Guiness. ☻☻☻☻

terça-feira, 19 de março de 2013

DVD: Um Inferno

Lars: sobrevivendo ao fim do mundo. 

Acho interessante como os filmes pós-apocalípticos recentes tem investido cada vez mais em uma realidade futurística onde o mundo se tornou um imenso deserto. Com o planeta insuportavelmente quente (pela gradativa destruição da camada de ozônio) e a consequente destruição da fauna, flora e dificuldade de reservas naturais de água potável, esta realidade parece cada vez mais próxima quando nos deparamos com termômetros denunciando temperaturas que beiram os cinquenta graus em nosso verão tropical. Um cenário desses poderia até render mais um filme catástrofe com a assinatura de Roland Emmerich, de  2012 (2011) ou O Dia Depois de Amanhã (2004), mas acabou gerando um filme alemão produzido por este diretor de blockbusters. Enquanto Roland dava os últimos retoques no seu shakesperiano pretensioso Anônimo (2011), ele bancou este filme modesto mas realizado com extrema competência pelo diretor Tim Fehlbaum. Um Inferno se passa num futuro próximo onde a exposição ao sol por tempo prolongado pode causar queimaduras fatais. Nesse ambiente desolador, duas irmãs e o namorado de uma delas vagam em busca de um lugar onde possam encontrar água ou mantimentos. Pelo caminho, precisam de combustível e disposição para driblar pessoas que estão dispostas a fazer qualquer coisa para se manterem vivas. É na parte onde o sol é uma ameaça - e com o reforço da premiada fotografia de luz cegante (e deslumbrante) de Markus Förderer - que o filme tem seus melhores momentos. Depois, quando o sol vai embora, é curioso como o filme se torna mais sombrio e próximo de um filme de terror do que pudessemos supor na construção da situação infernal anunciada pelo título. No caminho do trio, que logo se torna um quarteto, estão armadilhas que os levarão de encontro a uma família que esconde debaixo de sua aparente solidariedade, intensões não muito nobres. Embora Um Inferno nunca perca de vista as relações (maternais, fraternais ou sexuais) entre seus personagens (e aí reside um dos seus maiores méritos), sua originalidade se dissolve aos poucos numa trama que lembra tantas outras que já vimos em filmes de terror menos elaborados do que a proposta inicial de Fehlman. Ainda assim, as surpresas que Um Inferno arma o espectador consegue manter a atenção e envolver o espectador no embate estabelecido entre duas "famílias" pela sobrevivência.  Até o final, que reserva alguma esperança para aqueles que sobrevivem a uma realidade tão árdua (e cada vez mais próxima), o título Um Inferno parece ser uma referência maior à barbárie do que ao calor ameaçador. 

Um Inferno (Hell/Alemanha-2011) de Tim Fehlbaum com Hannah Herzprung, Lars Eidinger, Lisa Vicari, Stipe Erceg e Angela Winkler. ☻☻☻

CATÁLOGO: Medo e Delírio

Toro e Depp: corações (drogadamente) psicodélicos. 

Faz tempo que considero o diretor Terry Gilliam perdido. Acho que desde 1995, ano em que lançou o antológico 12 Macacos que o ex-Monty Python anda tropeçando ao contar suas histórias. O primeiro passo para o estado atual de sua carreira foi quando se meteu a adaptar esta obra de Hunter S. Tompson para a telona. Tompson ficou famoso por sua escrita estravagante que deu corpo para o chamado jornalismo gonzo, onde autor, sujeito, ficção e não-ficção se misturavam numa espécie de narrativa de um universo paralelo aos parâmetros realistas do jornalismo. No livro,  Raoul Duke viaja para Las Vegas para cobrir uma corrida de motocross e uma convenção de promotores públicos sobre o uso de drogas. Além das toneladas de drogas das mais variadas, Raoul conta com a companhia de seu amigo bizarro Dr. Gonzo. Lançado em 1971 e ilustrado por Ralph Steadman, o livro se tornou um sucesso por ser uma jornada ironicamente psicodélica pelo "sonho americano". O texto freneticamente alucinado que mistura os assuntos favoritos do escritor (drogas, esporte, violência e política) pode conquistar fãs até os dias atuais, mas o filme de Gilliam é um desastre. Estrelado por Johny Depp na pele de Raoul Duke, o filme nunca consegue ser engraçado, dramático ou provocador. Resulta uma sucessão de uso de drogas envolto nas imagens calcadas nas alucinações mais doidas dos personagens. O resultado parece um teste de paciência para o espectador que precisa se contentar com uma dupla que consome maconha, mescalina, cocaína, LSD, éter entre outras substâncias alucinógenas como se estivessem comendo jujubas. Tanto consumo rende cenas esquisitas que nunca conseguem fazer com que o espectador se envolva com o fiapo de história. Claro que existem momentos interessantes como o restaurante de lagartos ou o tapete que ganha vida, mas é só! Visto hoje, o filme já mostrava alguns trejeitos que Depp usaria em vários de seus papéis esquisitos posteriores - o que só piora a situação do filme. Embora o elenco conte ainda com um bizarro Benicio DelToro, Tobey Maguire de cabelo mais do que esquisito e pontinhas de Cameron Diaz, Ellen Barkin, Flea e Lyle Lovett, o que mais chama atenção são os truques do diretor para reproduzir as alucinações dos personagens - além da fotografia de tons gritantes que estabelece o mundo apresentado como um universo além do nosso. Os diálogos acelerados, a edição rápida e a carência de um fio condutor para a trama deve transformar o filme em uma obra ainda mais árdua para o espectador. Acusado de fazer apologia ao uso de drogas o filme foi um fracasso nas bilheterias, mas não considero que seja por moralismo, mas por ser uma jornada tediosa e desinteressante guiada por dois sujeitos que nunca se tornam personagens, apenas caricaturas em si mesmos. O engraçado é ano passado, Depp voltou a viver um tipo bastante parecido criado por Tompson em Diário de Um Jornalista Bêbado, outro fracasso de bilheteria que prometo comentar em breve. 

Medo e Delírio (Fear and Loathing in Las Vegas/EUA-1998) de Terry Gilliam com Johny Depp, Benicio DelToro, Cameron Diaz e Tobey Maguire. #