segunda-feira, 2 de setembro de 2013

DVD: Em Transe


Dawson e McAvoy: hipsnotismo e confusão. 

Nos últimos anos Danny Boyle dedicou-se a filmes que caíram no gosto do público, da crítica e da Academia que lhe renderam vários Oscars por Quem Quer Ser um Milionário (2008) e indicações por 127 Horas (2010). Não há dúvidas de que desde a sua estreia como cineasta em Cova Rasa (1994), Boyle demonstra uma assinatura bastante peculiar, conseguindo envolver o espectador em narrativas que sempre fogem da obviedade. Em Transe não deve concorrer a prêmios (e nem foi feito para isso), mas serve para mostrar como o diretor consegue brincar com as expectativas da plateia como poucos. Reza a lenda que ele passou anos criando bifurcações na narrativa do roteiro para confundir o expectador ao máximo. Se a intenção era essa, o diretor pode considerar que obteve sucesso. Sempre que Em Transe alcança um ponto da narrativa em que você pensa que entendeu o que está acontecendo, existe uma reviravolta onde o foco do expectador é forçado a ter outra visão sobre o protagonista. Quando conhecemos Simon (James McAvoy) ele parece um cara certinho que trabalha em leilões de obra de arte e torna-se responsável por esconder as obras mais valiosas quando um assalto acontece nesses espaços. Os meandros de seu trabalho e esmiuçado logo no início do filme e quando Simon precisa entrar em ação, sofre uma forte pancada na cabeça. Recuperado (e tido como herói), descobrimos que o cara não é tão bonzinho assim. Quando começa a ser perseguido pelo grupo de assaltantes liderados por Franck (Vincent Cassel), Simon é torturado para que descubram onde esconderam o valioso quadro que procuram e deixa claro que padece de amnésia, assim, o cético Franck terá que perceber a hipnose como única forma de conseguir o que quer. É quando entra em cena a bela terapeuta Elizabeth (Rosario Dawson), que irá ajudar Simon a se livrar dos bandidos através de um tratamento intensivo com a participação dos bandidos. Colabora para isso o fato de Simon ter uma sensibilidade rara para se entregar ao processo de hipnotismo.  Boyle consegue manter o suspense durante todo o filme, usa a hipnose para construir cenas curiosas e começa a borrar os limites entre o que é real e o que acontece na mente de Simon (numa espécie de genérico de A Origem/2010). A brincadeira funciona bem, mas quando começa a explicar demais a relação que existe entre os personagens a coisa perde parte da graça - principalmente no final enigmático. Ao espectador cabe seguir as surpresas da trama como se estivesse na situação que o título sugere, apreciar a trilha sonora, as curiosidades sobre a hipnose e tentar desenrolar a trama (nem que seja assistindo o longa mais de uma vez). Nas cenas fantasiosas, Boyle capricha (especialmente naquela cena em que Cassel com a cabeça destruída conversa com Simon como se nada houvesse acontecido, momento que lembra os filmes mais intrigantes de David Cronenberg), mas erra ao se perder em seu próprio labirinto sensorial. No entanto, o filme tem seus méritos.

Em Transe (Trance/Reino Unido-2013) de Danny Boyle com James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassel e Danny Sapani. ☻☻☻

DVD: Mama

As meninas, Waldau e Chastain: Poltergeist Maternal. 

Se Jessica Chastain houvesse recebido o Oscar de Melhor Atriz por A Hora Mais Escura na última edição do Oscar, não seriam poucos os críticos a dizer que a ruiva estava sofrendo da maldição do Oscar quando lançasse esse terror Mama. Como a moça foi derrotada por Jennifer Lawrence (por O Lado Bom da Vida), Mama recebeu afagos da crítica pelo jeito que lida com uma história cheia de surpresas e amor materno. O filme está longe de ser uma obra-prima, mas merece uma chance por mudar tudo o que esperamos de um filme de sustos com um nome desses. Acredito que muita gente pensava que se tratava de um filme onde crianças eram assombradas pelo fantasma da mãe. Não é. O início chega a ser chocante ao mostrar um homem que mata a esposa e foge com as duas filhas pequenas. Após um acidente de carro, os três se refugiam numa casa abandonada no meio de um bosque, onde ele tenta dar o mesmo fim às herdeiras. Não temos explicações sobre o comportamento do tal homem, mas algo misterioso acontece e as duas crianças sobrevivem sozinhas com a ajuda do sobrenatural. Tudo leva a crer que a cabana onde se esconderam era assombrada e depois de cinco anos vivendo ali você pode imaginar o que irá acontecer. É nesse ponto que entra em cena o irmão gêmeo do pai delas, Lucas (o bom ator dinamarquês Nicolaj Coster-Waldau) que busca por cinco anos o paradeiro das sobrinhas. Quando elas são encontradas, os anos de isolamento social já tiveram um efeito devastador na formação das crianças, especialmente da mais jovem, Lily (Isabelle Nélisse) que possui um comportamento arredio que beira o selvagem. Já Victoria (Megan Charpentier), já possui lembranças capazes de reintegrá-la socialmente ao lado do tio. Junto com o tio e a namorada, Annabel (Chastain) - que toca numa banda de rock (toca baixo, claro!), usa maquiagem pesada e tatuagens, além de ser apresentada aliviada quando descobre que não está grávida - os quatro irão formar uma família que precisa aprender a conviver. A relação entre o quarteto ainda ganha um tom incomum quando precisam conviver numa casa indicada pelo psicólogo das crianças, um espaço sossegado (ou seria isolado) onde eles podem se conhecer melhor e ser acompanhados pelo doutor enquanto prossegue o processo de reintegração social. Existem alguns conflitos entre os personagens, mas nada muito profundo. Afinal, o que a plateia espera são os sustos por conta da enigmática "amiga imaginária" das meninas. O diretor Andrés Muschietti acerta ao não quando explora sustos sutis, como as que reconhecemos a presença da assombração no olhar da pequena Lilly, além dos momentos onde a ciência esbarra no desconhecido, mas o desfecho quase põe tudo a perder pelas doses generosas de exagero. A ideia de um fantasma maternal doentio funciona mais do que a pose de rebelde de butique criada por Jessica Chastain. Depois de tantas atuações excepcionais, Chastain prova que é humana em um personagem onde não consegue encontrar o tom. Vale contar que o catalão Andrés convenceu o estúdio a produzir o filme depois que exibiu seu curta (de três minutos com o mesmo nome), onde mostrava todos os elementos que gostaria de explorar no filme. Depois dessa estreia promissora, o rapaz merece atenção. 

Mama (EUA-2013) de Andrés Muschietti com Jessica Chastain, Nicolaj Coster-Waldau, Isabelle Nélisse e Megan Charpentier. ☻☻☻

domingo, 1 de setembro de 2013

DVD: Oblivion

Cruise: contemplando a destruição. 

Oblivion é o filme de Tom Cruise do qual mais gostei desde que ele deixou de ser o ator de ouro de Hollywood. Depois de muitos tropeços, o ator encontra aqui um veículo sóbrio para uma carreira que andava claudicante. O filme pode não querer revolucionar ou reinventar a ficção científica, mas seus méritos ficam bastante evidentes no resultado alcançado pelo diretor Joseph Kosinski. Teve gente que criticou o filme pelo seu ritmo mais lento que o comum, a forma como as reviravoltas se apresentam e como os diálogos são simplistas, mas o que dá força ao filme é a união de seu tom apocalíptico e outros elementos que remetem diretamente a outros aspectos bíblicos. Existe algo de "Adão e Eva futurista" na relação do mecânico Jack Harper e sua auxíliar Victoria (Andrea Riseborough), afinal, o casal vive acima dos escombros de um planeta destruído (por uma guerra de humanos contra alienígenas) e devem prestar contas do que fazem a um superior (vivido por Melissa Leo). Como a Terra ficou devastada com a explosão de ogivas nucleares, os humanos fugiram para colonizar Titã, a lua mais famosa de Saturno, no entanto, precisam transformar em energia os recursos naturais que sobraram em nosso planeta. Jack e Victoria são os responsáveis por realizarem essa drenagem de recursos. Vivem numa espécie de casamento bastante formal para suprir suas necessidade afetivas e sexuais -  especialmente porque ela aceita as regras estabelecidas para o trabalho, enquanto ele é um saudosista dos tempos em que a Terra ainda era habitada. Entre a manutenção dos drones (robôs esféricos responsáveis por exterminar os grupos inimigos que sobreviveram às explosões nucleares) e os sonhos com uma mulher misteriosa, Jack viverá algumas experiências que colocaram suas certezas à prova depois de ver cápsulas misteriosas chegarem à Terra - uma delas carrega a mulher vista em seus sonhos (Olga Kurylenko). Mais do que abalar a percepção que Harper tem do mundo, a presença dela irá abalar a relação que possui com Victoria. Apesar das sucessivas reviravoltas que o roteiro reserva, essa adaptação da HQ, escrita pelo próprio diretor Kosinski, recebe um trato que evita que tudo caia no ridículo - especialmente no final onde Harper enfrenta o seu deus com olho triangular vermelho. Misturando clássicos da ficção científica como Planeta dos Macacos (1968) e Blade Runner (1982) com outra pérola recente do gênero, o ótimo Lunar (2009) de Duncan Jones, o diretor consegue alcançar um estilo próprio para contar sua história. Apesar do roteiro puxar a brasa para o lado de Kurylenko, é Andrea Riseborough que prova ser a parceira de cena mais interessante de Cruise. Ela cai como uma luva na ambientação insípida do casal numa espécie de Éden pós-apocalíptico. São as nuances impressas em seus olhos que dão pleno diferencial ao trabalho dessa atriz, a qual, você ainda ouvirá muito falar. Oblivion pode não se tornar um clássico do gênero, mas chegou bem perto disso. A satisfação de Cruise com o resultado final é evidente. Tornando-se um dos poucos sucessos do último verão americano, Cruise já prepara outro sci-fi: "All You Need is Kill"  com direção de Doug Liman. 

Oblivion (EUA-2013) de Joseph Kosinski com Tom Cruise, Andrea Riseborough, Olga Kurylenko, Morgan Freeman e Melissa Leo. ☻☻☻☻

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

FILMED+: A Separação

Lila e Payman: atuações precisas em ótimo roteiro. 

Ganhador de mais de cinquenta prêmios internacionais, o iraniano A Separação é aquele tipo de unanimidade que me sugere desconfiança. Se você é desconfiado, como eu, só tornará a experiência de assistí-lo ainda melhor, uma vez que, nenhum dos elogios que ouvi sobre o longa de Asghar Farhadi dão conta da experiência cinematográfica sublime que é assistí-lo. Sem efeitos especiais, erotismo, reviravoltas malucas ou assassinatos, o filme se ampara principalmente no roteiro escrito pelo diretor. A força dos diálogos foi reconhecida em vários países que tornaram o filme num sucesso mundial, tanto que foi eleito o melhor filme estrangeiro pelo Globo de Ouro e no Oscar em 2012 - além de ter seu texto indicado ao prêmio de melhor roteiro original. O ponto de partida é bem simples e é mostrado na primeira cena a partir do que o título sugere: Simin (Leila Hatami) quer o divórcio porque o esposo, Nader (Payman Maadi), não quer acompanhá-la para viver no exterior. Depois de lutar por muito tempo por um visto, o marido não demonstra vontade de morar em outro país para garantir uma vida melhor para a filha de onze anos. Um dos argumentos de Nader é que precisa tomar conta do pai que sofre de Alzheimer, mas Simin só poderá partir sem ele se conseguir o divórcio. No entanto, com o divórcio, a guarda da filha fica com ele - e ele não permitirá a saída dela. Parece um beco sem saída, mas não deixa de ser interessante que diante do que o roteiro reserva, o dilema perante o visto se torna uma coisa menor. Quando Simin volta a morar com a mãe, ela indica Razieh (Sareh Bayat) para ajudar a tomar conta do sogro, mas Razieh tem alguns problemas para conseguir executar o serviço. Além das restrições religiosas que atrapalham o trabalho, uma série de acontecimentos irá comprometer sua estadia no trabalho, ao ponto de virar caso de investigação policial. Farhadi constrói seu drama em formato de suspense, com revelações e diálogos que só aumentam a tensão conforme o filme aprofunda a relação dos personagens. Essas relações evidenciam uma série de diferenças que perpassam as relações no Irã, a relação entre as classes sociais, entre os muçulmanos mais ortodoxos e os menos ortodoxos, entre homens e mulheres, entre pais e filhos, maridos e esposas numa rede de situações que deixam o divórcio apenas como uma das separações presentes no filme. Apesar de todas as acusações que recaem sobre Nader, desde a primeira cena Simin argumenta que ele é um homem bom e nós vemos isso nas várias camadas sugeridas pelo roteiro, apesar de um terrível momento de estresse ter cruzado seu caminho. A sucessão de fatos nos fazem apenas reexaminar as consequências de uma decisão que poderia ser considerada banal. Sem o maniqueísmo da maioria das produções, A Separação não tem mocinhos e vilões, mas pessoas comuns que tentam diminuir a distância do eu com o outro - e o final engasgado no silêncio dos ótimos Leila Hatami e Payman Maadi evidencia isso de forma plena. Com cenas memoráveis e fortes dilemas morais, o filme envolve o espectador em cada minuto de sua duração - e continua seu desenrolar em nossas cabeças por muito tempo. Ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2011 (além dos prêmios de ator e atriz divididos por todo o elenco), o filme é simplesmente, uma obra-prima. 

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin/Irã-2011) de Asghar Farhadi com Payman Maadi, Leila Hatami e Sareh Bayat. ☻☻☻☻☻

DVD: Voo

Denzel: lutando contra os excessos. 

Pode parecer arrogância, mas existem alguns filmes que se o roteiro tivesse caído em minhas mãos eu teria garantido alguns cortes que fariam total diferença no resultado final. Talvez por ter ficado anos metido em projetos de animação megalomaníacos, Robert Zemeckis não tenha se dado conta de que alguns detalhes puxariam seu novo filme de carne e osso para baixo. Obviamente que ter um nome de peso como Denzel Washington no alto dos créditos ajuda a encher-se de segurança, mas uma atuação indicada ao Oscar não é tudo, não mesmo. Voo padece de um defeito recorrente nos filmes mais ambiciosos de Hollywood de hoje: deixar tudo explicadinho para a plateia (afinal ela não tem competência de entender o que uma imagem está mostrando). Sendo assim, precisa que Nadine Velazquez esfregue a nudez na câmera, enquanto Denzel (com cara e voz de ressaca) fala ao telefone antes de cheirar uma carreira e sair da cama. Parece demais? Essa é a construção da primeira cena que já deixa claro que Whip Whitaker (Denzel) não tem uma vida muito regrada - e que o diretor conduzirá a trama com mão pesada. Para dar um toque mais romântico inventaram uma "alma gêmea" para o protagonista, uma viciada (Kelly Reilly) que não tem muito o que fazer em cena e que está sobrando desde a primeira cena (é o tipo de personagem que inventam num roteiro quase que por exigência dos produtores). Acho que o texto original tinha apenas aquela cena em que a personagem conhece Whip no hospital - e daí inventaram de anabolizar a personagem. Ela é tão desnecessária que nem tem uma cena final ao lado do protagonista, ficando restrita à uma foto. A garota começa mal e do nada se regenera para poder ajudar o seu par rumo à salvação. Mas isso só acontece depois que o piloto Whip Whitaker salva um voo condenado à tragédia. Essa é a verdadeira história do filme: um homem de hábitos condenáveis que salva mais de uma centena de pessoas com sua eficiência em pilotar um avião. Vale ressaltar que a cena do acidente é feita num capricho que valeria o filme inteiro se o mesmo não começasse a desviar o foco até os limites da plateia. Não basta o conflito de Whip tendo que lidar com o exame toxicológico que acusou alto índice de álcool e uso de cocaína em seu sangue. É preciso mais do que a intriga da companhia aérea e o fabricante do avião que não querem se responsabilizar pelos problemas mecânicos, assim como o sentimento de perda de Whip por ter perdido a namorada (Velazquez) no tal voo. Essa tríade do roteiro já daria conta do recado, mas inventaram o escandaloso encontro de Whip com a ex-mulher e o filho (que o detesta e no final tem um daqueles momentos piegas que entram para a história da cafonice cinematográfica), o romance forçado com a ex-viciada e inúmeras cenas que ilustra o quanto o cara adora uma birita. Precisava disso? Afinal,  sempre que a tensão da investigação cria o clima que o público necessita, existe um momento brega que joga tudo no chão. Isso acontece até depois do clímax em que Whip cansa de mentir para si e em seguida existe um anticlímax que dá vontade de rir. As ideias do ator roteirista John Gatins são ótimas, mas está na cara que um bando de gente deu palpite (não creditado) na trama construída pelo moço. Sorte que em meio ao desastre (sem trocadilho) o dilema da investigação permanece intacto e é isso que merece atenção da plateia. Em DVD temos a vantagem de avançar as cenas que estão sobrando e ver que o filme é o mais interessante estrelado por Denzel em muito tempo. Indicado a vários prêmios pelo papel, o ator engoliu suas restrições com cenas de nudez e aparece fora de forma, transpirando a decadência que o personagem sugere. Pena que com mais de duas horas, existia a necessidade de uma lipoaspiração para deixar o retorno de Robert Zemeckis tão brilhante quando seus filmes mais celebrados.

Voo (Flight/EUA-2012) de Robert Zemeckis com Denzel Washington, Mary Reilly, Don Cheadle, John Goodman e Bruce Greenwood. ☻☻ 

domingo, 25 de agosto de 2013

NªTV: Real Humans / A Young Doctor's Notebook / Hit & Miss

Faz tempo que estou para escrever sobre alguns programas que acompanhei esse ano, mas os dias passam e fico pensando em coisas muito elaboradas que nunca chegam ao blog. Resolvi condensar minhas considerações nesse post que serve de sugestão para pessoas que curtem séries européias:

Real Humans 

Neste semestre estreia na Suécia a segunda temporada de Real Humans. Lançada em 2012 a série criada por Lars Lunsdröm é situada num futuro onde os humanos contam com robôs feitos à sua imagem e semelhança para ajudarem nas mais variadas tarefas. Porém, se tudo fosse tranquilo não haveria motivo para escrever dez episódios na primeira temporada! Apesar de serem programados para tarefas específicas existe um grupo de hubots rebeldes que guardam um segredo que pode mudar a relação entre os homens e máquinas. Essa relação já aparece bastante desgastada, já que muitos acreditam que as máquinas ocuparam lugares que eram dos humanos, seja no trabalho ou em casa. Além de babás, governantas, operários, professores e domésticas, existem os hubots que são programados para manterem relações sexuais (e outros que não são feitos para isso, mas são alterados ilegalmente para prestas o serviço). Some a isso a relação afetuosa que existe entre alguns humanos e seus hubots, crimes, segredos, vilões, clones e hubots bonzinhos e você terá uma ideia do motivo da temporada ser uma das mais aguardadas do ano. O universo da série me lembra muito o de Inteligência Artificial (2001), mas conseguindo ter vida própria a base de personagens bem construídos e uma atmosfera tensa que deixou várias perguntas para a nova temporada. Sucesso em mais de cinquenta países, e exibido no Brasil em janeiro desse ano pelo canal MAX, a segunda temporada  ainda não tem data de estrear por aqui. Obviamente que uma ideia tão boa chamou a atenção de canais de língua inglesa que compraram os direitos da série e ainda não tiraram o remake do papel. ☻☻☻☻☻

Diário de um Jovem Doutor (A Young Doctor's Notebook)

O mais legal dessa série exibida por aqui pela HBO é que vira do avesso dois atores que conhecemos bem por seus icônicos personagens. Jon Hamm já estrou para história por sua atuação como Don Draper na premiada série MAD MEN - e ele nem precisava ser tão dedicado ao total oposto de Don nesta série: um malajambrado médico viciado em morfina que passa a sofrer uma investigação e viaja mentalmente ao passado para ver como seu vício começou. Já Daniel Radcliffe prova que quer distância de Harry Potter e que tem talento para isso ao encarnar o jovem médico em início de carreira nos cafundós da Rússia (que é assombrado por sua persona madura). No melhor estilo "eu sou você amanhã" a série não se preocupa em dar explicações sobre o motivo do personagem em duas fases diferentes começarem a interagir, fica tudo no campo do delírio e você embarca numa boa já que você mesmo (ciente dos problemas que teria) daria dicas para sua juventude fazer tudo corretamente, sem falar que é saboroso acompanharmos a construção daquele instigante personagem. Radcliffe capricha no humor de seu inexperiente personagem (que às vezes parece mais um açougueiro juvenil) e Hamm  está na medida exata com um personagem pesaroso que relembra suas mazelas. Ambos se destacam pela sintonia nessa série britânica em quatro episódios (os ingleses adoram séries curtas) baseada nos contos do escritor russo Mickhail Bulgarov. O tom sombrio e o humor negro pode não agradar todo mundo, mas o texto funciona que é uma beleza. A série ainda pode ser vista em reprises na HBO e uma segunda temporada já está em andamento - e deve chegar em breve por aqui. ☻☻☻☻

Hit & Miss

A pior notícia fica por conta de Hit & Miss, série inglesa produzida pela Sky Atlantic com texto de Paul Abott. Afinal, depois de acompanharmos seis episódios da saga da transexual matadora profissional Mia (Chloë Sevigny, excepcional) não tem como não nos apaixonarmos por seus personagens e receber um balde de água fria quando descobrimos que a série não terá uma segunda temporada. O problema não foi a relação com a audiência ou com a crítica, mas os problemas de agenda (além dos boatos de que ela detestava filmar em Manchester por seis meses e ter que usas uma prótese que demorava noventa minutos para ficar pronta) que impediram Chloë Sevigny de ter disponibilidade para voltar a defender a personagem que pediu a Deus! A trama é a fusão de dois projetos desenvolvidos por Abott: um explorava os dilemas de um matador de aluguel, o outro era sobre um transexual que recebe uma família de presente. Depois  de assumir a transexualidade e deixar a família, Mia se torna uma máquina de matar. Sua vida está em total controle até que recebe a notícia de que uma ex-namorada está com câncer e confiou a guarda dos filhos à ela (sendo que um deles, é filho biológico de Mia). De início, Mia é hostilizada por aquele lar,  precisa enfrentar o dono da casa em que vivem de aluguel e depois tem que lidar com um relacionamento com um homem (o bom Jonas Armstrong) que não faz ideia de que ela é ele. Além dos personagens ricos, Hit & Miss prima pelo ritmo lento e silêncios que ressaltam a solidão e o isolamento dos personagens (ainda que embalado por uma ótima trilha sonora que inclui PJ Harvey, GroupLove e Joy Division). Exibida pelo MAX aqui no Brasil, a série é considerada por vários críticos como a melhor série britânica lançada em 2012, resta aos fãs esperar uma brecha na agenda de Chloë que já revelou adorar a série (e os elogios que recebeu por ela). ☻☻☻☻☻

sábado, 24 de agosto de 2013

Combo: Gigolôs

É interessante perceber que existe uma diferença no uso da palavra gigolô em alguns países, em alguns (como os EUA e a Espanha) a palavra gigolô serve para descrever o trabalho de garoto de programa, enquanto isso, na América Latina, o termo é utilizado para descrever homens que utilizam mulheres para o seu sustento. Essa espécie de confusão pode ser percebido em vários filmes que chegam por aqui, de dramas com pretensões sofisticadas, passando por comédias e ficções científicas, os gigolôs são personagens recorrentes em vários filmes, mas apenas alguns podem entrar para a história:

05 Fading Gigolô (2013) O filme nem estreou ainda, mas já tem gente contando os dias para ver Woody Allen e Sofia Vergara juntos numa mesma produção. É verdade que os filmes dirigidos por John Turturro nunca chegam a empolgar, mas dessa vez parece que a coisa vai dar certo. No filme, um gigolô decadente (Turturro) conta com a ajuda de um cafetão (Woody Allen) para dar um upgrade em sua carreira. Se contarmos as cenas e fotos que o personagem aparece com Vergara (da série Modern Family) e a loura Sharon Stone, a carreira dele parece que melhora consideravelmente. O longa deve estrear por aqui no dia 27 de dezembro. 

03 Aprendiz de Gigolô (2010) Ao ver José Garcia todo taciturno em O Corte/2005 eu nunca imaginei que ele daria conta de ser um gigolô francês, mas ele se sai muito bem nessa divertida comédia onde um cara certinho precisa ajudar a polícia se disfarçando do irmão gêmeo (que ele nem sabia que existia). As risadas são garantidas e as cenas mais sensuais (com as três profissionais gerenciadas pelo personagem) ficam em terceiro plano (ainda que gere uma das cenas de sexo mais bobas da história). Ainda faz parte da graça expor um lado nada glamouroso da carreira desses profissionais do submundo - mesmo que a violência presente pareça ter saído de uma história em quadrinhos. 

03 Gigolô por Acidente (1999) Não sou muito fã das comédias de Rob Schneider, mas devo reconhecer os méritos do ator em fazer dessa bobagem um sucesso. Deuce era um simples limpador de aquários até ser confundido com um gigolô e ter que levantar uma grande quantia em dinheiro o mais rápido possível. Sobra pagação de mico do personagem com tudo quanto é tipo de cliente, mas a plateia vai ao delírio (e não vou entrar no mérito da estampa do ator principal). O filme fez um sucesso tão surpreendente que recebeu até uma continuação em 2005, onde (obviamente) o personagem passa apuros na Europa (prato cheio para explorar preconceitos estereótipos)

02 Inteligência Artificial (2001) Sempre que vejo esse filme de Spielberg, tenho a impressão que ele não percebeu o personagem de ouro que tinha nas mãos, afinal é a fantasia favorita dos nerds: robôs para fazer sexo (a ideia foi até retomada na excelente série sueca Real Humans que está prestes a ter sua segunda temporada). Aqui o clichê é vivido em grande estilo por Jude Law, que na pele de Gigolo Joe chama tanta atenção quando o robô mirim vivido por Haley Joel Osment (por onde ele anda?). Joe é feito para proporcionar prazer, mas é acusado de um crime armado pelo esposo ciumento de uma de suas amantes. Como a rixa entre homens e máquinas chega aos extremos, o final do personagem poderia ter sido melhor do que o providenciado pelo roteiro (e garantiria fácil o primeiro Oscar da carreira de Law), mas falar mal do desfecho desse filme já é outro clichê. 

01 Gigolô Americano (1980) Acredito que nenhum filme sobre gigolôs teve o peso desse longa assinado pelo cineasta Paul Schrader. É público e notório que o diretor gosta de personagens polêmicos e tirou a sorte grande quando escalou Richard Gere para viver Julian Kay, um homem que vive às custas de suas clientes da alta sociedade. Kay não tem do que reclamar: jantar nos melhores restaurantes, apartamento em local nobre, um carrão na garagem, belas mulheres... o problema é quando ele se torna suspeita de um assassinato. Apesar do tom melancolicamente sombrio, o filme se tornou um clássico dos anos 1980 e tornou Gere em astro com fôlego que dura até hoje. Definitivamente, ser um gigolô de sucesso não é para qualquer um!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DVD: Aprendiz de Gigolô

Garcia: Hora de se transformar...

Sempre acho engraçado quando vemos um filme e reconhecemos o ator principal mas não lembramos de onde. Recentemente isso aconteceu quando assisti essa divertida comédia francesa estrelada por José Garcia. O nome (como não podia deixar de ser) não era estranho, a fisionomia era familiar, mas acabei pensando que estava confundindo o ator com Robert Downey Jr (em alguns momentos a semelhança entre eles é assustadora). Terminado o filme eu lembrei de onde conhecia o tal José! Era do filme O Corte (2005), comédia dramática de humor negro dirigida pelo celebrado diretor grego Costa-Gravas. Se naquele filme Garcia vivia um homem apático que via-se desempregado e passava  a assassinar seus concorrentes a um emprego, aqui ele vive um bancário certinho, que por uma armação da polícia, precisa se passar pelo irmão gêmeo que ele nem conhecia. Podem dizer que é uma fórmula gasta, mas Garcia encarna o personagem de forma deliciosa, especialmente em sua transição. O certinho de terno e cabelo repartido, precisa aprender a se comportar como um gigolô desbocado,  descabelado, violento e com um piercing no mamilo que é um microfone para futuras investigações.  Além disso, terá que lidar com naturalidade com as três beldades tentadoras que trabalham para o mano e as desconfiança dos bandidos a serem investigados, que já desconfiavam que oi verdadeiro era um traidor. Equilibrando humor com doses de violência desmiolada (como era uma penca de sucessos da década de 1980) o filme consegue divertir com as trapalhadas do personagem e o carisma de José Garcia que parece bastante a vontade em cena. São hilariantes as cenas em que ele precisa entrar em ação e deixa evidente que não faz a mínima ideia do que fazer! Exemplo disso é seu encontro disfarçado com a mãe (vivida pela primeira musa de Pedro Almodóvar, Carmen Maura). Sem saber que ele é o filho abandonado por ela décadas atrás, ela descreve os motivos pouco lisonjeiros que a levou a abandonar o menino. É claro que o filme tem aquelas cenas que deixam claro que o objetivo do filme é apenas fazer a plateia gargalhar (como a cena de dança para escapar dos criminosos ou a citação aos filmes de Tarantino numa garagem). O filme só poderia costurar melhor as cenas - que parecem mostradas de forma um tanto aleatória, mas no meio das risadas quem se importa? Mas quem liga para isso diante do final amoral que declara de vez que o filme não tem compromisso com o politicamente correto. Depois de rir por hora e meia diante da TV, não vou me surpreender se Hollywood fazer uma refilmagem desse filme (e escalar Robert Downey Jr para protagonista).

Aprendiz de Gigolô (Le Mac/França-2010) de Pascal Bourdiaux com José Garcia, Gilbert Melki, Carmen Maura e Catalina Denis. ☻☻☻

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DVD: As Sessões

Hawkes e Hunt: plena sintonia em uma história real. 

A certa altura uma personagem precisa descrever o protagonista e ela diz: "ele só mexe a cabeça". Talvez por dar conta de um personagem desses com tanta competência,  As Sessões era alardeado como uma das grandes apostas para o Oscar conforme era apresentado em festivais de cinema independente. Infelizmente, acabou conquistando somente uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante para Helen Hunt. O filme é baseado na biografia de Mark O'Brien (John Hawks que ganhou o Independent Spirit de melhor ator), um personagem real que adoeceu de poliomielite ainda adolescente. O filme apresenta brevemente como ele tornou-se famoso por estudar na faculdade de Berkeley, formando-se em jornalismo - mas gostava mesmo era de escrever poesias. Aos 38 anos, Mark já vivia confinado à necessidade de viver preso a um pulmão de aço - que abastecia seu corpo para viver algumas horas fora dali. Com todas as adversidades, Mark era bem humorado e tentava levar uma vida comum dentro de suas limitações, mas seu olhar sobre a vida muda quando é convidado a escrever uma matéria sobre a relação entre os deficientes físicos e o sexo. A partir dali, seu objetivo passa a ser perder a virgindade. Em sua jornada pelo que parecia impossível, ele conta com os conselhos de um padre mais que compreensivo (o sempre confiável William H. Macy), ajudantes devotados (Moon Bloodgood e M. Earl Brown) e os serviços de uma substituta, papel de Helen Hunt. A tal substituta é uma espécie de (fisio?)terapeuta sexual que auxiliará Mark a conhecer as sensações de seu corpo, a intenção é que Mark possa controlar o corpo ao ponto de poder manter relações sexuais. Trata-se de um tema espinhoso, mas que o diretor Ben Lewin consegue abordar de forma leve, bem humorada e respeitosa aos personagens. É interessante como o roteiro torna seus sujeitos surpreendentes à medida que os revela ao público. Fazia tempo que Helen Hunt não recebia um papel tão belo e desafiador em sua carreira, ela eleva os conflitos de sua personagem a outro patamar ao exibir o esforço em se distanciar emocionalmente de Mark. Com um Oscar de melhor atriz na estante (por Melhor É Impossível/1997) e vários Globos de Ouro (a maioria por conta da série Mad About You/1992-1999) ainda me pergunto se a atriz não merecia outro careca dourado com essa indicação ao prêmio de coadjuvante no Oscar! William H. Macy também deixa seu padre entre a solidariedade e a curiosidade perante a sexualidade - da qual também está privado, mas por motivos totalmente diferentes. Mas dificilmente o filme teria sua força se não investisse no talento do ainda pouco conhecido John Hawkes na pele de Mark. Revelado como o tio esquisito de Jennifer Lawrence em Inverno da Alma/2010 (filme que lhe valeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), desde então o ator não para de trabalhar, mas é neste filme que o ator comove a plateia na pele de um personagem que exige total expressão com um corpo quase totalmente inerte. Cada olhar e palavra do personagem é defendido pelo ator em sua plenitude, de forma que é fácil entender como pode ser ameaçador aos homens que deixam as mulheres por perto dele. Hawkes entrega uma das atuações mais impressionantes do ano. Além de todo o mérito do elenco, não lembro de ter visto um filme onde o sexo é tratado de forma tão naturalmente terna. 

As Sessões (The Sessions/EUA-2012) de Ben Lewin com John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy e Moon Bloodgood. ☻☻☻☻