domingo, 10 de maio de 2015

MOMENTO ROB GORDON: Os 5 Piores Tropeços de Mad Men

Mad Men: o fim de uma era inesquecível. 

Neste mês irá ao ar, pela HBO, o último capítulo de um dos seriados mais cultuados do século XXI, Mad Men já entrou para a história por todas as qualidades já exaltadas ao longo dos oito anos em que esteve no ar. Criada por Matthew Weiner (um  dos roteiristas do outro clássico The Sopranos) em 2007, o programa chegou a ser oferecido para HBO e foi recusada (curiosamente ela que comproou os direitos para exibir em vários países). Considerada arriscada demais por mostrar uma época em que o politicamente correto nem existia, acabou acolhida pela então modesta AMC e tornou-se uma febre na televisão americana com seus diálogos cortantes e personagens complexos desenvolvidos lentamente dentro de uma agência publicitária da Nova York sessentista. Assim fomos apresentados aos segredos do mulherengo Don Drapper (Jon Hamm) e à ascenção da secretária Peggy Olson (Elisabeth Moss) em meio a uma dezena de personagens que transitavam numa época em que assediar no trabalho era algo tão comum quanto tomar bebida alcoólica e fumar. A reconstituição de época impecável emoldura com perfeição os figurinos que viraram moda na terra do Tio Sam. Em vários episódios mergulhamos numa viagem no tempo para acompanhar uma das décadas definitivas para a configuração do mundo como conhecemos: a chegada da TV, o assassinato de John Kennedy, a morte de Marilyn Monroe, a Guerra do Vietnã, a luta pelos direitos civis, a ascensão da mulher no mercado de trabalho, a chegada dos computadores nas grandes empresas... isso e muito mais perpassou a vida dos personagens com suas desventuras profissionais e amorosas ao longo de quase uma década. Em suma, Mad Men fez história na dramaturgia americana com sua cadência própria, lenta de emoções latentes em cada personagem. Ouso dizer que a sétima temporada (dividida em duas partes) foi uma das melhores criadas para o programa, fechando com chave de ouro uma era que deixará saudades na telinha. Porém, entre centenas de acertos houve alguns (poucos) tropeços ao longo das temporadas (e que podem dar dicas sobre como serão os últimos episódios)... aqui eu listei os cinco fatos que eu teria evitado se fosse um dos produtores:

5 Os Diminuídos
Obviamente que houve uma penca de coadjuvantes no seriado, mas Pete Campbell (Vincent Kartheiser) e Ken Cosgrove (Aaron Staton) atravessaram as temporadas tendo importância cada vez menor. Pete ainda ganhou contornos vilanescos nas primeiras temporadas, mas nas últimas, após sua separação e todo mundo descobrir o segredo de Don Draper ele não teve muito o que fazer além de sofrer um doloroso caso de calvície diante das câmeras. Já Ken teve algumas pequenas tramas paralelas, como sua carreira literária, seu casório, perder uma vista, a demissão... mas sempre suas histórias eram pequenas, quase invisíveis no rumo geral da história. Os dois poderiam ter sido mais explorados na quinta e sexta temporada que patinaram no gosto do público. 

4 Saindo do armário seriado
Achei um tanto brusca a saída do personagem Salvatore Romano (Bryan Batt) do programa. O personagem que prometia retratar a forma como os homossexuais se descobriam ao longo da década de 1960 acabou fora do programa depois que Salvatore se envolveu com um camareiro de hotel  - no que o jornalista James Poniewozik da revista Time chamou de "uma cena de beijo gay entre dois gays que se beijaram de uma forma bastante gay". A cena em que o personagem saiu do armário foi acusada de ter errado a mão (sem trocadilhos) e gerou tanta polêmica que acharam melhor demitir Salvatore. Se serve de consolo para os militantes, o ator Bryan Batt oficializou sua relação com Tom Cianfichi em setembro do ano passado após 25 anos debaixo do mesmo teto. 

3 Quem é Dick Whitman?
Eu sei que o universo de Mad Men foi ampliado de tal maneira que pouco importava se Don Draper era realmente quem ele dizia ser, mas a angústia do personagem em esconder sua verdadeira identidade e origem humilde geraram alguns dos momentos mais emocionantes da série - como a antológica cena em que Dick pede para o irmão órfão esquecê-lo definitivamente. O segredo deu material suficiente para uma brilhante construção do ator Jon Hamm na pele de um homem dividido entre o passado tortuoso e o presente glamouroso... porém,o que era um grande segredo foi sendo revelado sem grandes comoções entre os personagens e a narrativa, sem os efeitos catastróficos que eram tão temidos por todos... 

2 Mudando o tom na quinta temporada
 Na quinta temporada Matthew Weiner resolveu mudar o foco da trama e deixar de lado uma trama maior que costurasse os episódios para investir no desenvolvimento individual dos personagens. A decisão que daria novo rumo à série acabou resultando em capítulos pouco coesos e sem o sabor de unidade que fazia o programa funcionar tão bem. O resultado foi que depois de quatro anos ganhando o Emmy de Melhor série dramática, o seriado perdeu em todas as categorias a que concorreu em 2012 e 2013. A mudança também lhe custou as indicações ao Globo de Ouro, que resolveu indicar somente Jon Hamm para melhor ator em 2013 - no que foi a última indicação do seriado ao prêmio desde então. 

01 Esculhambando Betty Draper
Ainda na quinta temporada, por conta de desentendimentos com os produtores da série, January Jones sofreu com o seu papel de Betty Draper quase desaparecendo da história. Está certo que ela se divorciou de Don Draper e acabou casando com um político, mas sua personagem além de aparecer pouco ainda sofreu estranhas mudanças no visual, esteve gorda e até com os cabelos tingidos de preto. Disseram que isso ressaltava a crise de identidade que os personagens sofriam em meados da década de 1960... mas eu tive a impressão que era pura implicância. Betty era essencial ao lado de Don para mostrar o casamento perfeito que revela-se cada vez mais problemático. Com Betty longe de Don o seriado perdeu o seu casal mais interessante - e que melhor retratava o american way of life visto por dentro. O bom é que independente desses cinco aspectos, Mad Men é tão viciante que tornou-se uma das minhas séries favoritas de todos os tempos. 

CATÁLOGO: Irresistível paixão

Lopez & Clooney: casal esperto. 

A carreira do cineasta Steve Soderbergh é uma das mais curiosas de Hollywood, afinal ele foi consagrado ao posto de gênio com o clássico Sexo, Mentiras e Videotape (1989) que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes quando ele tinha apenas 26 anos, o filme acabou lhe rendendo a primeira indicação ao Oscar pelo roteiro. Dali em diante foi tudo ladeira abaixo, já que seu filme seguinte (Kafka/1991) foi massacrado pela crítica e ignorado pelo público. A antipatia gerada foi tão grande que afetou até seu filme seguinte, o ótimo O Inventor de Ilusões (1993), que está (ainda hoje) entre os meus cinco filmes favoritos do diretor. Com filmes chamando cada vez menos atenção, foi surpreendente quando ele apareceu revigorado à frente do romance criminal Irresistível Paixão, adaptação do livro Out of Sight do aclamado Elmore Leonard. O filme estrelado por George Clooney (que ainda engatinhava para ser astro de primeira grandeza) e Jennifer Lopez (que ainda parecia querer ser levada a sério) tornou-se um sucesso e colocou o diretor mais uma vez no radar das premiações e do público. Soderbergh provou que ainda era capaz de criar uma narrativa cheia de energia, humor, elegância, sensualidade e ser original com elementos perigosos em mãos. A história vai e volta no tempo para contar o plano de Jack Foley (Clooney), um charmoso ladrão de bancos que cumpre pena na prisão e que bola um plano mirabolante pra fugir de trás das grades. No dia de sua fuga, a detetive Karen Sisco (Lopez em seu melhor desempenho) cruza o seu caminho e quase coloca tudo a perder. Ela termina presa no porta malas do carro com Foley e uma faísca surge entre os dois. O que poderia ser mais uma história de amor bandido, torna-se um engenhoso quebra-cabeça, onde cada passo de Foley rumo ao crime mistura-se com algo ocorrido na prisão - cabendo a Sisco descobrir o que o moço está tramando. Além dos protagonistas (controlados com maestria pelo diretor), o filme merecia um prêmio pelo elenco estelar que serve de escada para os dois: Ving Rhames (o parceiro de Foley), Don Cheadle (o bandido mais perigoso do pedaço), Catherine Keener (a ex-esposa de Foley), Dennis Farina (o pai de Karen), Steve Zahn (o bandido atrapalhado), Albert Brooks (um presidiário milionário), Michael Keaton (repetindo seu papel de Jackie Brown/1997 de Tarantino) e Luiz Gusmán (numa cena hilária). A inspiração de Soderbergh transforma uma história simples em puro deleite! Irresistível Paixão (nome horrível que padece da síndrome de títulos para filmes de George Clooney no Brasil) consegue valorizar sua trama até mais do que devia, seja com a direção certeira (que ressuscitou a carreira de Soderbergh), seus atores inspirados ou a edição vigorosa de Anne V. Coates (também indicada ao Oscar). É o tipo de filme que gosto de ver várias vezes para lembrar de detalhes dos quais sempre esqueço (e que torna o filme ainda mais interessante). 

Irresistível Paixão (Out of Sight/EUA - 1998) Steve Soderbergh com George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Don Cheadle, Albert Brooks e Steve Zahn. ☻☻☻☻

NaTela: Risco Imediato

Hudson e James: casal encrencado. 

Apesar do nome fazer parecer que se trata de um filme de espionagem, Risco Imediato remete diretamente aos suspenses domiciliares que já fizeram tanto sucesso em Hollywood - para dar um diferencial, a história se passa em Londres.  O filme trata de um casal com problemas financeiros que descobre o inquilino do andar debaixo morto e (de brinde) uma sacola cheia de dinheiro. As "good people/pessoas boas" do título original são Tom (James Franco) e Anna (Kate Hudson), casal americano que se mudou para a Inglaterra para superar alguns problemas pessoais e econômicos. Ele é um arquiteto que precisa de trabalho (enquanto gasta o tempo reformando um casarão que recebeu de herança de uma tia) e ela ganha a vida como professora. Abalados pela crise econômica mundial, os dois sabem que pegar aquele monte de dinheiro do inquilino é um erro, mas, como Tom diz em certo momento: sempre fizeram o que era certo e nunca receberam nada em troca. Não demora muito para que sejam procurados por um policial veterano chamado John Halden (Tom Wilkinson, sempre digno de credibilidade) que tem motivos pessoais para colocar a quadrilha do tal inquilino atrás das grades. Fosse só Halden no encalço dos protagonistas não haveria muitos problemas, mas a quadrilha do defunto está atrás do dinheiro e começa a ameaçar Tom e Anna e quem mais se aproxime. Não bastasse isso, o roteiro ainda coloca um outro traficante (Omar Sy) que foi passado para trás pelo morto no meio da trama e o casal certinho terá se metido numa grande enrascada. Eu imaginava que o filme era apenas uma releitura de Cova Rasa (1994), a desconcertante estreia de Danny Boyle nas telas, mas, ainda que esteja longe da originalidade do longa de duas décadas atrás (nossa, já faz tudo isso!!!)  Risco Imediato até que cumpre o seu papel de manter o suspense crescendo até o final. O elenco talentoso cumpre seus papéis sem grande esforço (e o tempo inteiro porque filmes assim são raros na carreira de James Franco, que prefere obras mais experimentais ou escrachadas, acho que para ele viver um sujeito comum é fácil demais). O diretor dinamarquês Henrik Ruben Genz alcança um bom resultado em sua estreia num filme de língua inglesa, deixa a trama desenvolver-se lentamente, sem atropelos e faz o que pode quando o final mirabolante quase coloca tudo a perder. Longe de ser inesquecível, o filme funciona como um passatempo inofensivo.

Risco Imediato (Good People / Reino Unido - EUA - Suécia - Dinamarca / 2014) de  Henrik Ruben Genz com James Franco, Kate Hudson, Tom Wilkinson, Omar Sy e Anna Friel. ☻☻☻

10+ DIA DAS MÃES (E FILHAS ATRIZES)

10 Gracie Gummer & Meryl Streep & Mamie Gummer 
Muitas filhas resolvem ser atrizes seguindo os passos da mãe, mas isso deve ser assustador para quem divide os genes com Meryl Streep. Com dezenove indicações ao Oscar, três estatuetas na estante (a última por A Dama de Ferro/2012), Meryl motiva a carreira de sua filhas - que até o momento fazem pequenos papéis em vários filmes independentes. Meryl interpretou o papel de Mamie mais velha em Ao Entardecer (2007) e Grace Gummer viveu o papel de sua mãe jovem em A Casa dos Espíritos (1993).

09 Blythe Danner & Gwyneth Paltrow
Danner atua desde a década de 1970, em décadas de carreira já trabalhou com os mais variados atores e diretores (tendo vários longas com Woody Allen no currrículo). Indicada a um Globo de Ouro e a vários Emmys, os passos da veterana foram seguidos por sua filha, Gwyneth que ganhou o Oscar de melhor atriz em 1999 por sua atuação em Shakespeare Apaixonado. As duas apareceram juntas em Sylvia - Paixão Além das Palavras (2003). 

08 Janet Leigh & Jamie Lee Curtis
Janet ficou famosa por sua inesquecível cena no chuveiro de Psicose/1960 (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Coadjuvante), já Jamie Lee  fez de tudo em sua carreira de atriz, de strip-tease em True Lies (1994), roubo atrapalhado de diamantes em Um Peixe Chamado Wanda (1988) entre outras peripécias que a tornaram uma das atrizes mais populares das décadas de 1980 e 1990. 

07 Natasha Richardson & Vanessa Redgrave & Joely Richardson
Vanessa é uma unanimidade quando o assunto é atuação, sendo que suas filhas precisaram de muita coragem (e talento) para se sobressairem na mesma profissão da mãe. Infelizmente Natasha (que era casada com Liam Neeson) faleceu num acidente em 2009 após atuar em filmes de sucesso como Nell (1994) e Operação Cupido (1999).  Coube a Joley continuar o legado da mãe trabalhando no cinema (O Patriota/2000, Os Homens que Não Amavam as Mulheres/2011...) e produções para a TV (como a série Nip/Tuck). Vanessa Redgrave tem cinco indicações ao Oscar, sendo que levou um para casa somente em 1970 por sua atuação em Julia de Fred Zinnemann)

06 Debbie Reinolds & Carrie Fisher 
O relacionamento das duas já virou até filme (Lembranças de Hollywood, estrelado por Meryl Streep e e Shirley MacLaine). A presença em vários clássicos do porte de Cantando na Chuva (1952) tornou Debbie num patrimônio de Hollywood, Carrie não fica atrás, já que carrega para sempre um personagem inesquecível no currículo: a princesa Léa da saga Star Wars (1977)

05 Jennifer Ehle & Rosemary Harris 
Elas podem não ser muito conhecidas, mas Jennifer Ehle é uma das melhores atrizes do cinema americano atual, basta vê-la em Contágio (2011) e A Hora Mais Escura (2012) para entender o motivo. Ela até contracenou com a veterana mãe em Sunshine (1999). Rosemary ficou conhecida do público jovem interpretando a tia Mae nos filmes do Homem-Aranha (2002) estrelados por Tobey Maguire. Atuando desde a década de 1950, sendo uma das favoritas de Alfred Hitchcock, Harris foi indicada ao Oscar por sua atuação em Tom & Viv (1994)

04 Goldie Hawn & Kate Hudson
Louras e festeiras, Goldie e Kate fazem o estilo melhores amigas e são muito queridas. Kate foi indicada ao Oscar de coadjuvante por sua atuação em Quase Famosos (2000) e está sempre em cartaz com algum filme, Goldie tem o Oscar de coadjuvante na estante pelo seu filme de estreia, Flor de Cacto (1969) onde contracenou com os consagrados Walter Matthau e Ingrid Bergman quando tinha apenas vinte e três anos. Goldie também esteve em vários sucessos, sendo indicada ao Oscar de atriz por A Recruta Benjamin (1980). 

03 Dakota Johnson & Tippi Hedren & Melanie Grifith
A medalha de bronze fica para o trio de atrizes que já faz parte da história do cinema americano. Tippi Hedren foi uma das musas de Hitchcock (presente em seus últimos clássicos: Os Pássaros/1964 e Marnie/1964), Melanie anda em baixa, mas está em clássicos dos anos 1980 como Dublê de Corpo/1984 e Uma Secretária de Futuro/1988 - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz. a filha de Melanie e neta de Tippi, Dakota, ficou conhecida recentemente por ser a elogiada protagonista da adaptação do best seller 50 Tons de Cinza. 

02 Diane Ladd & Laura Dern
Ladd e Laura já apareceram juntas em vários filmes, estiveram em Coração Selvagem (1990, onde Ladd foi indicada ao Oscar de Coadjuvante), As Noites de Rose (1991, em que Laura foi indicada ao Oscar de melhor atriz e Diane como coadjuvante), Ruth em Questão (1996) e na série Enlightened (que rendeu a Laura o prêmio de melhor atriz cômica no Globo de Ouro de 2011). Vale lembrar que Laura foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante desse ano por sua atuação em Livre.

01 Fernanda Torres & Fernanda Montenegro
Pode parecer um nacionalismo bobo, mas dá orgulho de saber que Fernanda Montenegro foi a primeira atriz latino americana indicada ao Oscar (por Central do Brasil/1998) e que sua filha tem na estante um prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes por Eu Sei Que Vou Te Amar/1986 de Arnaldo Jabor - isso sem falar na infinidade de outros prêmios nacionais e internacionais que as duas já colecionaram em décadas de carreira! Tal mãe, tal filha...

sábado, 9 de maio de 2015

PL►Y: Uma Aventura Lego

Emmet (ao centro): contra o controle criativo.

Assistir filmes é uma experiência extremamente subjetiva, já que sempre projetamos neles nosso estado de espírito quando assistimos. Sei que isso é filosófico demais para falar do sucesso de Uma Aventura Lego, a animação dos diretores Phil Lord e Christopher Miller que gerou uma polêmica danada quando foi esnobada pelo Oscar na categoria de melhor animação. Talvez eu deva pedir desculpas por demorar tanto a assistir o filme e postar um comentário aqui no blog, mas o fato é que tentei ver o filme umas três vezes e... eu sempre dormia! Talvez o problema nem seja do filme, mas, meu mesmo. Tenho uma certa dificuldade em me conectar com filmes muito agitados, muito coloridos, muito referenciais e Uma Aventura Lego é tudo isso. Esse também deve ser o motivo para a Academia ter deixado o filme de fora da categoria que tanto cobiçava (isso somado ao fato dele ser um pouco mais longo do que deveria e ter aquela parte com atores de carne e osso totalmente dispensável). No entanto, seria injusto dizer que o filme não é divertido e bem realizado tecnicamente. O filme conta a história de Emmet Brickowoski (Chris Pratt, inaugurando sua maré de sorte em Hollywood), um boneco operário que é escolhido como o salvador do universo Lego. O vilão é um grande empresário que está disposto a criar regras bastante rígidas para que o universo  deles pare de crescer indiscriminadamente, sem controle criativo do que surge naquele mundo de peças para montar infinidades de coisas. Emmet será auxiliado por Megaestilo  (voz de Elizabeth Banks) em sua luta contra o Homem de Negócios (voz de Will Farrell) e seus cúmplices (que submetem suas vítimas a torturas com removedor de tinta, band-aid e superbonder)! O filme é uma correria danada, com zilhões de piadinhas baseadas em um dos brinquedos mais populares do século XX. Sendo assim, tem espaço para Batman (namorado de Megaestilo), Gandalf, Abraham Lincoln, Mulher Maravilha, Shaquille O'Neal... e uma infinidade de vozes de famosos dando vida aos personagens. A Lego já havia criado filmes baseados em suas figuras, mas nenhum deles havia chegado aos cinemas e, quando chegou mostrou-se um grande acerto perante o público. O resultado é um bocado de referências da cultura pop batidas num liquidificador, com resultado que parece surreal e um tanto confuso em alguns momentos. Ainda assim Uma Aventura Lego consegue ser um programa bastante divertido e despretensioso perante as  animações lançadas recentemente. A indicação ao Oscar acabou chegando somente para a música "Everything is Awesome" de Shawn Patterson, repetida à exaustão e que compõe o discurso contra a mesmice e padronização que permeia todo o filme. 

Uma Aventura Lego (The Lego Movie/EUA-2014) de Phil Lord e Christopher Miller com vozes de Chris Pratt, Elizabeth Banks, Will Arnet, Alison Bire, Will Farrell, Morgan Freeman e Dave Franco. ☻☻☻

quinta-feira, 7 de maio de 2015

PL►Y: As Aventuras de Paddington

Paddington: a dura vida de um urso em Londres. 

As Aventuras de Paddington é o tipo de filme voltado para o público infantil que pode agradar os adultos que conseguirem despir-se do cinismo e embarcar na história do urso peruano perdido em Londres. Quem não curte filmes ingênuos voltados para a garotada é melhor nem assistir, já que o filme encarna com perfeição o estilo impresso nos livros de Michael Bond. Talvez o filme pudesse ter um pouco menos de açúcar em sua execução, mas nada que comprometa a diversão. O filme conta a história de um simpático ursinho criado por um casal de tios muito especiais, já que depois do encontro com um explorador inglês, o casal de ursos aprende a falar. É a família desse explorador que o jovem urso irá procurar quando for para Londres. Ele acaba recebendo abrigo de uma família típica das comédias inglesas, o pai é um sisudo vendedor de seguros (Hugh Bonneville), a mãe é carinhosamente maluquete (Sally Hawkins), a filha já sofre com as crises da pré-adolescência (Madeleine Harris) e o filho (Samuel Joslin), doido por aventuras, sonha em ser astronauta. É meio a contragosto que o Sr. Brown aceita aquele urso em sua casa já que o considera um grande risco para a segurança de sua família. A temporada de Paddington (nome que recebe por conta da estação de trem em que foi encontrado) em Londres é marcada por trapalhadas em busca do velho conhecido de seus tios, ao mesmo tempo ele desperta o interesse de uma taxidermista (vivida por Nicole Kidman) que está doida para empalha-lo. As Aventuras de Paddington tem ritmo preciso na narrativa, bons efeitos especiais (o protagonista consegue ser bastante crível em todas as cenas), tornando seu personagem ainda mais valorizado por conta da interpretação vocal de Ben Whishaw, um dos atores ingleses mais talentosos da atualidade - e que ainda não recebeu o devido reconhecimento. Além disso, vale destacar, que o filme foi o primeiro sucesso de bilheteria de Nicole Kidman em muito tempo! 

As Aventuras de Paddington (Paddington/Reino Unido - França/2014) de Paul King com Ben Wishaw, Hugh Bonneville, Nicole Kidman, Sally Hawkins, Julie Walters e Samuel Joslin. ☻☻☻ 

Combo: Sistema Operacional

5 Oblivion (2013) isso aqui já é um SPOILER já que um dos grandes segredos dessa ficção científica estrelada por Tom Cruise é que Sally (com voz e imagem de Melissa Leo) não é uma pessoa encarregada de chefiar a missão dos personagens, mas um sistema operacional que se considera uma espécie de deus perante uma humanidade condenada a viver num planeta extinto. Quem conhece o gênero verá que a personagem é um amálgama de outros Sistemas Operacionais da cultura pop e que funciona muito bem em sua missão de mascarar a realidade. 

 4 Lunar (2009) Se eu pudesse escolher um Sistema Operacional para me fazer companhia em qualquer planeta ou satélite solitário, eu escolheria GERTY! Espirituoso e com expressões representadas por Smileys variados, ele é o encarregado de fazer companhia ao astronauta Sam Bell (Sam Rockwell), que depois de um longo período sozinho na Lua começa a ter problemas de identidade bastante... concretos! Acreditem, sem GERTY por perto (a voz de Kevin Spacey em seu papel mais simpático) a situação poderia ser muito pior!

3 Homem de Ferro (2008) Sabemos que Tony Stark (Robert Downey Jr.) criou J.A.R.V.I.S. (a voz de Paul Bettany), mas o que seria do alter-ego heroico do empresário se não existisse o seu (mais que eficiente) Sistema Operacional? Iron Man e Jarvis são como Batman e Robin! Uma dupla dinâmica que fica ainda mais legal quando levamos em consideração que J. nem uma máquina é! O software mais cool das histórias em quadrinhos - e o mais confiável do cinema - recebeu ainda mais destaque no segundo filme dos Vingadores, ganhando uma versão de carne e osso, quero dizer, vibranium!

2 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968) Hal foi por muito tempo o Sistema Operacional mais famoso do cinema, não apenas por ser um dos vilões mais arrepiantes, mas por conta da genialidade de Stanley Kubrick em tornar sua antológica aparência inanimada em algo realmente maquiavélico. O que torna HAL tão inesquecível é justamente sua capacidade quase humana de refletir (e que torna-se perigosa justamente quando sente-se traído pelos seus companheiros astronautas). Até ele sabe que a vingança é um prato que se come frio... e no meio do espaço ele se torna ainda mais gélido!

1 Ela (2013) Além de ter feito um homem (Joaquin Phoenix) se apaixonar por ela, Samantha está no primeiro lugar por dois motivos bem simples: o primeiro é que Scarlett Johansson foi a única atriz a ser indicada ao prêmio do Sindicato de Atores por emprestar sua voz para um sistema operacional, o segundo é que a história de amor entre Samantha e Theodore rendeu a Spike Jonze o Oscar de roteiro original! Precisa dizer mais alguma coisa? Ah, claro, um bando de marmanjos queriam ter um sistema operacional com a voz de uma das maiores beldades de Hollywood. 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Na Tela: Os Vingadores - A Era de Ultron

Os Vingadores em ação: piadinhas em excesso. 

Acho que existe um consenso de que a continuação de Os Vingadores era o filme mais aguardado de 2015, prova disso são as filas enormes, as salas entupidas, a bilheteria astronômica coletada em poucas semanas... tudo indica que a nova produção da Marvel pode estar entre as maiores arrecadações da história do cinema. Como o estúdio deixa claro, seus filmes são organizados numa ordem semelhante a de uma saga dos quadrinhos, sendo que o selo Vingadores, marca um divisor de águas no andamento dos filmes solo dos seus heróis, elevando suas tramas individuais a um outro patamar que será concluído no próximo vingadores e blábláblá. Sendo assim, depois que Capitão América (Chris Evans) descobriu que a S.H.I.E.L.D não era o que ele esperava e o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) descobriu que não era tão indestrutível assim, os heróis se juntam aos seus amigos para impedir as ações de Baron Von Strucker (Thomas Kretschmann) na criação de armas cada vez mais poderosas. Nessa empreitada, descobrem que Baron havia escondido uma das criaturas robóticas do filme anterior e a utilizaria em novas criações. No entanto, Homem de Ferro resolve destruir esse plano e cria uma forma de inteligência artificial com a intenção de assegurar a paz no mundo. Essa inteligência artificial designada Ultron (com voz de James Spader), tem fome de conhecimento e... poder, tanto que chega à conclusão de que a paz só será possível com o extermínio da raça humana.  Trata-se de um ponto de partida sombrio e que Joss Whedon consegue sustentar por algum tempo, até que as piadinhas comecem a comprometer suas intenções. Ainda não entendi muito bem porque a reunião dos heróis deve trazer uma piada em cada cena, como se estivessemos assistindo a um capítulo de Friends. Os filmes solo de Thor e de Capitão América tem sua cota de humor, mas nada exagerado comparado ao que vemos na série Vingadores. Entendo que o herói mais rentável da patota é o bem humorado Homem de Ferro... mas acho que não precisa tanto esforço para provocar risadas quando a humanidade corre risco de extinção! O problema é que tantas piadas deixam a sensação de que debaixo de toda a correria, o roteiro é um tanto capenga, deixando as intenções de mostrar o lado "gente como a gente" de Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), o (emb)romance de Viúva Negra (Scarlett Johansson) & Hulk (Mark Ruffalo) e a humanização de Thor (Chris Hemsworth) meio de escanteio, assim como o desenvolvimento do próprio Ultron, comprometido no decorrer da trama, tornando-se cada vez mais simplista na execução de seu plano. O mesmo serve para seus cúmplices, Wanda (Elizabeth Olsen) e Pietro (Aaron Taylor-Johnson), mais conhecidos como Feiticeira Escarlate e Mercúrio no universo X-Men. A aguardada participação dos filhos de Magneto fica aquém da expectativa (ainda que Olsen esteja muito esforçada no papel). Pietro nem tem como competir com a esperta participação em  X-Men: Dias de um Futuro Esquecido onde foi visto ainda adolescente (vivido pelo ator Evan Peters). Para os entendidos, a participação dos personagens mutantes (ainda que em momento algum sejam chamados como tal) só demonstra que a Marvel quer muito unificar o universo de seus personagens no cinema, mas (ao contrário da SONY que não sabe o que fazer com Homem-Aranha e negocia com o estúdio) a FOX costuma ser mais dura nas negociações (ainda que seu filmes nunca cheguem a render um bilhão de bilheteria). Só para concluir, A Era de Ultron será o filme mais rentável do ano - e seu sucessor seguirá o mesmo caminho.

Os Vingadores 2 - A Era de Ultron (The Avengers 2 - Age of Ultron/EUA-2015) de Joss Whedon com Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Aaron Taylor Johnson, Paul Bettany e James Spader.  ☻☻☻

sexta-feira, 1 de maio de 2015

KLÁSSIQO: Gigolô Americano

Gere: como se tornar um astro. 

Acho que Gigolô Americano deve ser o clássico mais controverso da década de 1980. O terceiro filme de Paul Schrader foi o que marcou seu nome enquanto cineasta, já que até ali era mais conhecido como roteirista - tendo no currículo Taxi Driver (1976)  e Touro Indomável (1980), ambos dirigidos por Martin Scorsese. Gigolô Americano dividiu opiniões em sua estreia... e quem conhece o trabalho de Schrader logo percebe o motivo, já que existe um desequilíbrio nos três atos de sua narrativa, onde se percebe a mão de produtores que preferiam atenuar o que o filme tinha de mais sombrio. Schrader gosta de desenvolver personagens obscuros que flertam com o submundo, por isso mesmo, contar a história de um homem bem vestido, que se prostitui somente com ricaças - enquanto é cobiçado por homens e alguns pervertidos - é a cara do universo Schraderiano. Acrescente a isso o bom senso de perceber em Richard Gere o potencial para tornar seu personagem num sucesso. Quando o filme foi lançado, Gere tinha completado 31 anos e estava em seu sexto trabalho no cinema. Ainda pouco conhecido do grande público, ele havia participado de pelo menos dois filmes importantes na década de 1970, o cultuado Cinzas do Paraíso (1978) de Terrence Mallick e Os Yankes estão Voltando (1979) de John Schlesinger. Embora tenha trabalhado com diretores de respeito, seus dotes como ator nunca foram levados muito a sério pelos críticos. Seu estilo introspectivo e até distante de atuar, sempre parecia um problema para os mais exigentes. No entanto, o seu jeito serve à perfeição para viver Julian, o gigolô do título que vive como um milionário e faz serviços para mulheres endinheiradas - algumas casadas com políticos e empresários influentes. É interessante como o filme exala em seu início um estilo de vida glamouroso em torno de Julian:  mora num hotel de luxo com roupas impecáveis, carro luxuoso - com direito a uma música exclusiva do Blondie tocando sempre que o tira da garagem ("Call Me" que foi indicada ao Globo de Ouro e tornou-se um clássico da banda). Com estampa da estátua de Davi  e um estilo de vida caro para bancar, Julian quer sempre mais, sendo assim, sua ambição colocará em risco todo esse glamour. Ele acaba se tornando suspeito do assassinato de uma cliente e não podendo revelar seu álibi (e comprometer outra cliente), sua profissão está comprometida para sempre. Ironicamente, nesse trajeto, ele conhece Michelle (a ex-modelo Lauren Hutton) e se apaixona. Apesar do romance não ser muito bem desenvolvido (esse não é o interesse dos textos de Schrader), ele recebe um caráter redentor conforme Julian descobre que colecionou inimigos em seus anos de profissão.  Até esse ponto, o filme de Schrader é bastante coerente em sua proposta, mas quando chega a hora de concluir a história, a necessidade de agradar o púbico feminino torna tudo um tanto patético. A cena final do cafetão Leon (Bill Duke) beira o pastelão e segue-se planos de curta duração sobre o desfecho da investigação sofrida por Julian até uma das cenas finais mais forçadas da história do cinema. Gigolô Americano funciona bem enquanto consegue ser irônico na abordagem de como o sexo sustenta a vida luxuosa de seu protagonista, dando-lhe tudo que ela tem de mais caro, mas que gera rejeição quando o moralismo entra em cena. Porém, as intenções incendiárias perdem fôlego diante da necessidade de amenizar as cores mais desagradáveis de sua trama. Se alguém se deu bem com tudo isso foi Richard Gere, que desde então passou a ser adorado pela mulherada.

Gigolô Americano (American Gigolo/EUA-1980) de Paul Schrader, com Richard Gere, Lauren Hutton, Bill Duke e Hector Elizondo. ☻☻