domingo, 11 de outubro de 2015

FILMED+: Que Horas Ela Volta?

Jéssica e Val: o macro através do micro. 

Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar de Filme Estrangeiro, Que Horas Ela Volta? teve suas chances anabolizadas depois do sucesso nos Festivais de Berlim (onde a direção recebeu dois prêmios) e Sundance (prêmio de melhor filme dramático internacional), além de figurar em várias como um dos três filmes com mais chances de ser agraciado pela Academia. Se a indicação acontecer será um reconhecimento merecido para uma das cineastas mais interessantes do cinema mundial, mas que ainda é pouco conhecida até mesmo entre os brasileiros. Anna Muylaert tem aquele jeito tímido e sempre tem a dura tarefa de explicar seus filmes sem poder revelar muito o que eles tem de mais interessante - senão estraga a surpresa. Antes de dedicar-se ao cinema, Anna trabalhou com alguns dos programas infanto-juvenis mais celebrados da TV brasileira (entre eles Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum) e seus filmes sempre foram um ponto instigante no cinema nacional. Seja em Durval Discos/2003 ou É Proibido Fumar/2009 sua característica principal é subverter o que esperamos de seus personagens - e da própria narrativa. Em Que Horas Ela Volta? isso também ocorre, ainda que de forma mais sutil, seja pela filha da empregada que chega para ficar um tempo na casa dos patrões de sua mãe ou da postura da própria patroa (que começa o filme dizendo que o mais importante em ter estilo é "ser você mesma", para pouco depois torna-se uma megera). Regina  Casé (Outro ponto importante do filme, já que a versátil atriz é lembrada mais como apresentadora de um popular programa de TV) encarna a doméstica Val, que dedicou treze anos de sua vida trabalhando para Bárbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), cuidando da casa e de Fabinho (Michel Joelsas). Com isso sua filha Jéssica cresceu distante, em outro estado, sendo cuidada por outra pessoa. Quando está na hora de Jéssica (Camila Márdila) prestar vestibular para uma conceituada faculdade paulista  (a FAU - USP), ela pede para ficar uns tempos com a mãe - sem saber que a mãe mora num quartinho na casa dos patrões. Os patrões aceitam a presença da jovem, mas os conflitos são inevitáveis quando Jéssica apresenta ser mais esperta do que pensavam, não se enquadrando no papel de filha da empregada - afinal, ela é acolhida como hóspede e porta-se como tal, o que incomoda cada vez mais D. Bárbara e a própria Val. É preciso ficar atento para perceber todas as camadas e entrelinhas do roteiro, numa simetria propositalmente torta da relação entre os personagens, espelhando com maestria que todos fazem parte da mesma realidade com papéis construídos socialmente - que muitas vezes não correspondem às ambições de cada um. Isso acontece não apenas com Jéssica, mas com o próprio Fabinho (que quer curtir a vida enquanto a sociedade lhe cobra escolher uma carreira para o futuro), Dr. Carlos (sempre com camisa de bandas e comportamento juvenil) e a própria Dona Bárbara (que tenta mostrar sua nobreza com a presença da jovem na casa... mas não consegue por muito tempo), apenas Val consegue demonstrar resignação em seu papel, pelo menos até perceber (de forma concreta) que tudo pode ser muito diferente. É no desequilíbrio desse universo - que parece tão bem estruturado em sua harmonia postiça - que o filme cresce sutilmente, em conflitos que se instauram em ciclos que compõem um cenário rico sobre as relações entre classes sociais, misturado à dinâmica entre pais e filhos - e o que esperamos dela. O filme ainda brinca com as guinadas dos outros filmes de Muylaert (com o acidente que ocorre com Bárbara e esperamos que o filme irá enverede para outro caminho... só que não...) ou remete à diferença de postura de Dona Bárbara com a de Etty Fraser em Durval Discos (que não quer se desfazer da filha da empregada de jeito algum). O fato é: Que Horas Ela Volta? é bastante sensível e emocional, mas sem perder o caráter social da história que conta de um país em transformação e, por isso mesmo, incômodo para um grupo que sente estar perdendo a farinha de seu pirão. É o macro visto através do micro pelos olhos astutos de uma cineasta criativa e singular. Devo destacar que ela contou com a ajuda de três atrizes espetaculares - Casé desaparece na personagem, assim como Camila Márdila (ambas premiadas pelo Júri de Sundance), seguidas de perto pelas expressões duras de Karine Teles que compõe uma personagem complexa com o pouco tempo que tem em cena. Enfim, Que Horas Ela Volta? merece mais do que o Oscar: merece ser reconhecido como um dos melhores filmes do cinema brasileiro.

Anna (de preto) e o elenco: olhar astuto. 

Que Horas Ela Volta? (Brasil-2015) de Anna Muylaert com Regina Casé, Camila Márdila, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas e Lourenço Mutarelli. ☻☻☻☻☻

sábado, 10 de outubro de 2015

PL►Y: Somos o que Somos


Os Parker: lutando para colocar carne sobre a mesa. 

Quando descobri que estavam preparando uma versão americana do mexicano Somos o Que Somos (2010), eu já imaginava que todo o conteúdo social do filme longa de Jorge Michel Grau iria para o espaço. Na versão original uma família mantem a estranha tradição milenar de seus ancestrais  e encontra as vítimas preferencialmente entre prostitutas, homossexuais e sem teto - e quando o pai da família morre, cabe ao filho mais velho assumir o posto de manter a tradição e alimentar a mãe e um casal de irmãos. Na versão americana a situação principal é a mesma, mas o resto é bastante diferente. No remake quem morre é a matriarca e quem deve garantir a carne na mesa da família Parker é a filha mais velha (a bela Ambyr Childers). A mando do pai, Frank (Bill Sage) a garota tem suas dúvidas em continuar mantendo a tradição da família, o que também passa a ser questionado pela filha do meio, Rose (a promissora Julia Garner) enquanto o filho caçula não faz a mínima ideia do que está acontecendo (acreditando que existem monstros vivendo debaixo da casa).É visível como o diretor Jim Mickle quer fazer um filme de terror elegante ao afastar os protagonistas do centro urbano onde vivia os personagens do filme original, o colocando morando num bosque, perto de um rio - que por conta de uma forte chuva, transborda e  começam a aparecer ossos suspeitos pela cidade. Assim, o doutor Barrow (Michael Parks) começa a desconfiar que há algo de estranho acontecendo nas redondezas e a reclusa família começa a chamar a atenção. Mickle consegue distanciar seu filme o máximo possível do filme original,  construindo praticamente outro filme, embora tenha o mesmo ponto de partida (o que é um grande mérito). Micke investe mais na parte policial da trama e carrega nas cores trágicas de duas meninas com uma tradição estranha que não querem preservar. O filme carrega no suspense sobre as estranhezas da família, demorando para revelar o que se passa no porão da casa, talvez por isso, o tom mais direto do original funcione melhor, já que a versão americana com toda sua atmosfera dark sutil, descamba para o trash com uma velocidade difícil de digerir quando os segredos são revelados (nesse ponto, a participação da vizinha vivida por Kelly McGillis ganha um final um tanto tosco diante das possibilidades da personagem). No entanto, Somos o que Somos consegue prender a atenção com o elenco que defende os personagens com grande esmero, sobretudo a jovem Julia Garner, que na época tinha dezoito anos e convence como uma adolescente indefesa de quatorze. No entanto, na comparação com o filme original, a história perdeu suas nuances mais interessantes deixando o final convencionalmente sem graça.

Somos o que Somos (We are what We are/EUA-2013) de Jim Mickle com Michael Parks, Ambyr Childers, Julia Garner, Kelly McGillis, Michael Parks e Wyatt Russell. ☻☻

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

.Doc: O Sal da Terra

Juliano, Salgado e Wenders: o mundo pelas lentes do fotógrafo. 

O Sal da Terra é um documentário produzido em parceria entre a França, o Brasil e a Itália, sendo dirigido pelo alemão Win Wenders. Wenders já foi considerado um dos maiores cineastas europeus, mas hoje percebemos mais o seu talento quando dedica-se aos documentários. Talvez porque seu cinema de ficção tornou-se um tanto monocórdio (basta ver as críticas ao seu novo filme, "Tudo ficará Bem" estrelado por Juliette Binoche e James Franco), enquanto seus documentários são mais vibrantes e ricos por não se apegar a uma ideia apenas. Foi assim com o cultuado Buena Vista Social Club (1999), a dança em 3D de Pina (2011) e agora com O Sal da Terra (2014), documentário, que assim como os outros dois, concorreu ao Oscar da categoria. O mais curioso é que todos os filmes demonstram o olhar de artistas, de frentes variadas, sobre o mundo e a forma como expressam suas ideias. Depois da música cubana, da dança de Pina Bausch, chegou a vez de Win voltar sua lente para o renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. O diretor já se envolveu com documentários brasileiros quando participou do excepcional Janela da Alma () O cineasta faz um belo filme, auxiliado pelo filho de Sebastião, Juliano Salgado que co-dirige a produção. O filme utiliza as fotos de Sebastião para ilustrar suas narrativas sobre o que gerou os seus livros mais conhecidos, especialmente as emoções que desencadearam. Assim, acompanhamos o início, quando Sebastião (cabeludo e barbudo) era um promissor economista, mas troca a estabilidade de seu trabalho pela paixão da fotografia social. A beleza ímpar das fotografias garante certo deslumbramento enquanto as vivências se tornam cada vez mais árduas. Enquanto acompanhamos suas histórias sobre a feitura dos icônicos Trabalhadores (1996), Serra Pelada (1999), Êxodos (2000) e África (2007) acompanhamos as memórias de Salgado em sua tristeza e desesperança por ver a face mais triste da humanidade. Embora as fotografias captem com precisão a luminosidade que mescla homens e paisagens, dando-lhes uma plasticidade extremamente dramática, Salgado não esconde o quanto a dura realidade captada por suas lentes o deixava cada vez mais melancólico. Apresentando a identidade do fotógrafo, abordando levemente sua relação com a família, sobretudo com a esposa (a pianista Lélia Deluiz), o filme consegue fazer suas emoções transbordarem sobre o espectador (tanto que pouco antes de Salgado relatar o quanto seu trabalho o havia despedaçado, minha mãe desistiu de ver o filme sentindo-se arrasada). Até esse ponto, o filme de Wenders é bastante fiel ao que vemos na obra do artista... o problema é quando o cineasta tenta ser mais otimista. Ao abordar o projeto de reflorestamento da Mata Atlântica, promovido pela família Salgado no Instituto Terra, Wenders não consegue se segurar e exagera ao categorizar o belo Gênesis (2013) como a maior obra-prima de Salgado ao retratar ambientes remotos da Terra. Da mesma forma, soa forçado a "grande" descoberta que se plantar, as árvores voltam a crescer... sério? A obra de Sebastião Salgado não precisa desses truques narrativos para ser comovente ou respeitável, ela fala por si só e, por isso mesmo, O Sal da Terra é melhor quando ouvimos a voz de Sebastião descrevendo seu olhar sobre o mundo retratado por suas lentes. 

O Sal da Terra (The Salt of the Earth/França-Brasil-Itália/2014) de Win Wenders, com Sebastião Salgado, Lélia Deluiz, Juliano Salgado e Win Wenders. ☻☻☻☻

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

N@ CAPA: A Arte de Nina Boesch


A capa do mês de setembro foi uma junção de obras da artista plástica Nina Boesch, que resolveu parar de jogar fora os tickets do metrô de Nova York e criar belos mosaicos com eles. Ela não cria obras somente com celebridades, mas com paisagens urbanas também. Para conhecer mais o trabalho da artista você pode acessar metrocardcollages.com. Abaixo, um pouco do trabalho de Nina:

Andy Warhol

Audrey Hepburn

Bruce Lee

James Dean

John Lennon

Martin Scorsese

Bob Milk Robert DeNiro

Woody Allen

Nina Boesch

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Pódio: Faye Dunaway

Bronze: a misteriosa.
3º Chinatown (1974)
Nascida  na Flórida em 1941, Dorothy Faye Dunaway foi uma das atrizes mais prestigiadas das décadas de 1960 e 1970, em sua encarnação como a  femme fatale desse filme de Roman Polanski, podemos entender bem o motivo de seu sucesso. Pela forma ambígua como compõe a sua personagem, nunca deixando claras as suas intenções, a atriz torna-se fundamental para o desenvolvimento desse film noir  sobre a contratação de um detetive para investigar um empresário adúltero. Nada é o que parece nesse filme, que garantiu à Faye sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Atriz.


Prata: a fora da lei.
2º Bonnie & Clyde (1967)
Dunaway se tornou símbolo sexual conhecido mundialmente em sua atuação como a ladra de bancos Bonnie Parker, uma garçonete que se apaixonou pelo bandido Clyde Barrow (Warren Beatty). Os dois passam a roubar bancos em várias cidades do sul dos EUA e, quando tem tempo, discutem a relação. O filme de Arthur Penn marcou época pela sua mistura de violência crua, humor ácido e sensualidade numa edição vertiginosa que revolucionou a forma como se filmava em Hollywood. Muitos consideram que no roteiro Bonnie não recebe o destaque merecido, mas Faye a interpreta de forma radiante (o que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar).

Ouro: a ambiciosa.
1º Rede de Intrigas (1976)
Para consolidar o período mais icônico da carreira, não poderia faltar o reconhecimento da Academia ao seu talento. O Oscar de Melhor Atriz veio com esse filme sensacional de Sidney Lumet sobre um canal de televisão que não vê limites na guerra pela audiência. Dos profissionais cheios de ideais, passando pelo fanatismo do público e à manipulação comportamental promovida pela mídia, Rede de Intrigas é um primor de execução, ao ponto de sua história ser atual até os dias de hoje. Coube à atriz encarnar tudo o que a televisão tem de mais assustador, mas que revela bastante sobre as responsabilidades que temos sobre a selvageria que vai ao ar. 

KLÁSSIQO: Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas

Faye e Warren: dupla antológica. 

Lançado em 1967,  Bonnie & Clyde é um filme que nunca envelhece. Se levarmos em consideração que ele era moderno até mesmo para sua época, fica fácil entender o fascínio que ele causa até hoje em quem o assiste. O motivo para isso está para além da violência estilizadamente crua que apresenta, mas na forma como o diretor Arthur Penn conta sua história sem seguir os padrões estabelecidos por Hollywood na década em que foi lançado. Tanto que a história se passa durante a Grande Depressão dos EUA, mais precisamente no ano de 1934, mas foi abraçado pelo movimento de contracultura pela forma como os personagens são apresentados. Ao utilizar o ponto de vista de um casal de assaltantes e seus comparsas, Penn romantiza a história do casal protagonista apresentando alguns de seus dilemas morais e problemas no relacionamento. O filme não gasta muito tempo apresentando Clyde Barrow (Warren Beatty) e Bonnie Parker (Faye Dunaway, belíssima), mas sabemos que a atração perigosa existente entre os dois foi fulminante. Os dois assaltam bancos pelo sul dos Estados Unidos e enfrentam problemas com a polícia local. Entre as discussões dos dois (até Clyde reconhece não ser bom amante) e a saudade que Bonnie sente da família, os dois colecionam contravenções no currículo vasto. Entre os comparsas do casal está o irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua esposa histérica Blanche (Estelle Parsons) - que logo desenvolve atritos com Bonnie - ou o desconhecido C.W. (Michael J. Pollard). Ainda hoje o filme pode despertar polêmicas pela forma como apresenta os personagens foras da lei, tanto que, nem o estúdio confiava no sucesso do filme, causando surpresa diante do seu desempenho nas bilheterias e premiações (se você acha que a Academia é conservadora hoje, imagine em 1967 um filme desses conseguir dez indicações ao Oscar! Ganhou o de atriz coadjuvante para Parsons e melhor fotografia). Bonnnie & Clyde causou uma revolução em Hollywood com sua montagem ágil e a quantidade de locações externas, especialmente para as perseguições de carro em meio a tiroteios.  Considerados por muitos a obra-prima de Arthur Penn, um diretor famoso por arrancar atuações memoráveis de seu elenco (aqui todos os citados foram indicados ao Oscar por suas performances), Penn não desafina em momento algum, num ritmo em constante contraste entre o humor, a violência e o romance (outro aspecto bastante inovador para a época). A história do casal bandido apaixonado já  foi filmada outras vezes, mas nenhuma outra versão conseguiu um resultado tão emblemático e  sintonizado com o seu tempo. Suas qualidades cinematográficas, que permanecem intactas, comprovam que o filme sempre esteve à frente do seu tempo.  

Bonnie & Clyde (EUA-1967) de Arthur Penn com Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Gene Wilder e Estelle Parsons. ☻☻☻☻

domingo, 27 de setembro de 2015

PL►Y: Stretch

Patrick: pé frio em um dia daqueles. 

Ainda que não seja muito conhecido, Patrick Wilson é um dos meus atores favoritos. Pena que nem sempre ele consegue um papel à altura do que já vimos do que ele é capaz de fazer (procurem  o aclamado Pecados Íntimos/2006 para lembrar). Além disso, tem um pé frio descomunal por se meter em produções que não recebem muita atenção, nem mesmo quando se mistura com diretores espertos como Joe Carnahan. Carnahan é responsável pelo celebrado Narc (2002) e pelo sensacional A Última Cartada (2006), onde sempre demonstrou controle absoluto sobre a tensão estilosa de suas histórias. Se em alguns momentos, sua carreira flertava com a comédia de humor negro, Stretch se assume como tal, embora demore um pouco para engrenar. O título se refere ao motorista de limusine de Holywood (vivido por Patrick Wilson) naquele que poderia ser apenas mais um dia de trabalho com figuras estranhas da terra do cinema, mas as coisas pioram cada vez mais numa noite interminável. Stretch tem uma dívida de seis mil dólares para quitar, ainda tem problemas por Ray Liotta ter esquecido uma arma e um distintivo de seu novo personagem dentro da limusine - como se não bastasse isso, ainda sofre com o pé na bunda que recebeu da namorada. Para dar uma piorada em seu inferno astral, ele é encarregado de passar o dia com o excêntrico Roger Caros (Chris Pine, em participação não creditada num personagem ainda mais estranho do que o que fez em A Última Cartada), que irá colocar o motorista em enrascadas ainda mais perigosas por conta de uma gorda gorjeta que o levará a ser até perseguido pelo FBI. Patrick Wilson consegue viver o protagonista com seu carisma habitual, carregando o filme nas costas e nos faz até esquecer os clichês abundantes da história (que ele é um ator em busca de reconhecimento, que toda celebridade é excêntrica, que existe um submundo regado a sexo e drogas em Los Angeles...), mas existem muitas ideias bem sacadas, seja pela forma como se complica com o FBI ou do aplicativo usado para marcar um encontro (que nunca se concretiza, mas que pontua o quanto seu trabalho se distancia da realidade que gostaria de ter). É verdade que Carnahan tenta abraçar mais ideias do que é capaz de alinhavar, como por exemplo o amigo imaginário (vivido por Ed Helms) que é curioso, mas está subaproveitado, mas o pior de tudo foi escolher a decepcionante Jessica Alba para o papel feminino de maior destaque (para variar ela está péssima em cena). Porém, Carnahan consegue manter começa devagar até chegar ao ritmo frenético que mantém da metade para o final com grande energia. Stretch é um filme bem humorado e encaixa-se perfeitamente no universo dos melhores filmes do diretor, pena que os produtores não confiaram na produção é a lançaram diretamente em DVD no Brasil e no exterior. Parece que imaginaram que o filme tinha força para figurar nas premiações de fim de ano, mas depois viram que o diretor queria apenas se divertir. Não deixa de ser mais um sintoma do pé frio de seu ator, que poderia, facilmente, ter figurado em alguns prêmios como melhor ator de comédia, já que apresenta sua versatilidade habitual com grande desenvoltura. 

Stretch (EUA/2014) de Joe Carnahan com Patrick Wilson, Ed Helms, James Badge Dale, Brooklyn Decker, Ray Liotta e Jessica Alba. ☻☻☻

sábado, 26 de setembro de 2015

PL►Y: Tem Alguém Aí?

Caine e Bill: olhar da infância sobre a solidão da velhice. 

Aos 82 anos Michael Caine não para de trabalhar. Desde que colocou a carreira nos eixos com A Voz de Uma Estrela/1998 e Regras da Vida/1999 (que lhe rendeu o segundo Oscar de sua carreira, sendo o primeiro por Hanna e Suas Irmãs/1986 de Woody Allen), Caine conseguiu afastar o fantasma que rondava sua carreira - que rendeu-lhe a pecha de ser um dos atores que faziam qualquer filme por dinheiro (ficou célebre aquela frase em que o filho lhe perguntava o motivo dele fazer tantos filmes ruins e o ator respondia "Para comprar sapatos novos para você!" e o filho disse: "Eu não preciso tanto assim de sapatos!"). Lá se vão quase vinte anos em que o ator tornou-se o mais produtivo de sua geração. Mesmo quando as premiações não dão muita atenção para os seus filmes, ele rende bem em filmes de pequeno porte como esse Is Anybody There? que conseguiu distribuição nas telas de meia dúzia de países. De fato é um filme modesto, discreto, mas tão bem feito que é impossível não ter simpatia por ele. O filme conta a história do menino  Edward (Bill Milner), que ainda tenta se acostumar com a nova rotina da casa em que mora com os pais, afinal, em busca de sustento, seus pais (Anne-Marie Duff e David Morrissey) passaram a alugar os quartos da casa (inclusive o de Edward) para idosos cujas famílias não podem tomar conta. Com a casa transformada em asilo, Edward passa a ver a morte sempre de perto e começa a desenvolver um interesse incomum pelo sobrenatural (ao ponto de sempre colocar gravadores perto dos idosos que estão mais perto de se despedir, ou deixar o aparelho no quarto já vazio, afinal, afinal, ele pode estar assombrado pela alma penada que insiste em ficar ali). Percebe-se que com tantos afazeres, os laços familiares acabam ficando mais enfraquecidos, deixando todos da família um tanto à deriva. Os dias de Edward começam a ficar mais alegres com a chegada do mágico aposentado Clarence (Michael Caine), que depois dos atritos iniciais, revela-se bastante atencioso, sendo o melhor candidato ao posto do amigo que o menino tanto precisava. A direção de John Crowley (que dirigiu dois dos melhores episódios da horrenda segunda temporada de True Detective da HBO) consegue ser precisa nessa mistura de humor e melancolia que surge da mistura do olhar do menino sobre a velhice e a morte - sem desafinar quando a fantasia surge sempre em choque com a realidade. Assim, momentos como as manifestações sobrenaturais no quarto ou o desastroso show de mágica no aniversário, sempre dão uma leveza inusitada para o filme. O elenco é bastante eficiente, deixando em destaque as atuações de Caine (amargo e carismático na pele de um homem que largou a fantasia para remoer as próprias mágoas) e do então menino Bill Milner que estava com doze anos no lançamento do filme!  Milner mostra-se bastante talentoso na pele de um personagem infantil cheio de camadas, onde apresenta uma atuação bastante espirituosa e segura. Vale dizer que Milner interpretou o Magneto adolescente em X-Men Primeira Classe (2011). Is Anybody There? é um desses filmes desconhecidos que pode se tornar uma bela surpresa para o espectador. 

Is Anybody There? (Reino Unido/2008) de John Crowley com Bill Milner, Michael Caine, Anne-Marie Duff, David Morrissey e Rosemary Harris. ☻☻☻

PL►Y: Mundos Opostos

Sturgess: no meio do caminho. 

Depois dos elogios com o intimista Nordeste (2005), o argentino Juan Solanas partiu para fazer filme em inglês com o ambicioso Mundos Opostos. O filme estrelado por Kirsten Dunst e Jim Sturgess foi aguardado com muita expectativa, mas quando chegou aos cinemas passou praticamente em branco. Um dos motivos para a decepção deve-se para a desigualdade entre os dois pólos do roteiro, que tinha tudo para ser uma ficção científica fascinante, cheia de camadas e comentários sociais, mas que revela-se apenas um romance entre classes de forma bastante trivial. Ainda assim, o filme vale ser visto por conta se seu apelo visual que realmente impressiona. A história se passa em uma realidade paralela,  Adam (Sturgess) e Eden (Dunst) vivem em mundos gêmeos de gravidades opostas, ou seja, quando alguém de um mundo olha para cima, enxerga o outro. O efeito é semelhante ao que vimos na antológica cena da cidade dobrada sobre si mesma em A Origem/2010 só que estendida por cem minutos. Esse cenário surrealista serve para uma metáfora, onde quem vive no mundo de baixo, não pode nunca viver no mundo de cima (e a gravidade oposta já é um impeditivo para isso). Eis que a descoberta de um novo produto de beleza criado por Adam demonstra seu potencial perante os do mundo de cima, mas ele não quer apenas ser reconhecido pelo seu trabalho, ele ainda quer reencontrar seu amor de infância, Eden. Essa fantasia amorosa fará com que Adam desobedeça algumas regras e consiga encontrar meios para enganar as autoridades (e a gravidade, o que rende alguns dos momentos mais interessantes do filme), poderia ser ótimo, mas o filme segue, ironicamente, um contraste que incomoda. Por um lado está o visual arrebatador, valorizado pela fotografia reluzente, os ângulos inovadores, os enquadramentos criativos e os efeitos especiais de encher os olhos, do outro está um romance burocrático, sem sal, que enfrenta o obstáculo de autoridades que nunca deixam claro o problema em deixar os dois mundos se misturarem. Será que na inevitável interação espelhada dos dois mundos, Adam e Eden são os únicos que tentaram driblar as regras por qualquer motivo que fosse?  Tive a sensação que a história do filme era outra e que inventaram o romance para atrair o público que acabou rejeitando esse lado da história. Ao chegar ao seu final óbvio e apressado, Mundos Opostos mostra que tinha o visual ideal e algumas ideias que poderiam fazer dele um cult instantâneo, mas soa como o desperdício de uma ideia genial. Tive a impressão que o roteiro de Solanas foi tão remexido que seus maiores trunfos acabaram perdendo força para um romance água com açúcar. Assim, de nada serve ter atores esforçados no elenco se o roteiro oferece tão pouco para o desenvolvimento dos personagens, que parecem esquemáticos demais para empolgarem. Resta ficar na lembrança as imagens impactantes junto a tudo que o filme poderia ser. 

Mundos Opostos (Upside Down/Canadá-França/2012) de Juan Solanas com Jim Sturgess, Kirsten Dunst, Timothy Spall e Nicholas Rose. ☻☻☻