sábado, 22 de março de 2025

Pódio: Lupita Nyong'o

Bronze: a poetisa sobrevivente

3º Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024) Lupita Amondi Nyong'o nasceu na Cidade do México em 1983 e começou a carreira em Hollywood como assistente de produção. A atriz se tornou cada vez mais reconhecida por desaparecer nas personagens que interpreta, como é o caso de Sam, a paciente com câncer terminal que se depara com as criaturas de audição ultrassensível desta franquia milionária. Lupita carrega toda a dor da personagem no olhar desde a primeira cena, mas ao longo do filme a faz reencontrar a leveza de uma vida da qual deverá se despedir em breve. Um trabalho belo e sensível que demonstra mais uma vez  que a atriz é uma das melhores de sua geração. 

Prata: a mulher duplicada
2º Nós (2019) fazia um tempinho que Lupita não recebia um papel de destaque nos cinemas quando Jordan Peele a convidou para estrelar este filme de terror em que ela vive dois personagens. Uma é a mulher que precisa lidar com um trauma de infância, outra é o trauma personificado como seu duplo (e que quer tomar sua vida). A atriz tem uma performance assustadora na versão mais sombria da personagem e foi indicada ao Critic's Choice, People's Choice e ao SAG Awards por sua performance e ainda foi celebrada como melhor atriz do ano por alguns prêmios regionais da crítica. Se houvesse justiça, a atriz teria sido lembrada no Oscar de melhor atriz por suas performances distintas no mesmo filme. 
 
Ouro: a mulher escravizada.
1º Doze Anos de Escravidão (2013) Lupita fez história no Oscar ao se tornar a primeira mexicana a ganhar o prêmio de atriz coadjuvante (e se levarmos em conta sua cidadania queniana, ela também se tornou a primeira queniana a receber o prêmio). No ganhador de Oscar de melhor filme, ela vive uma escrava que sofre os abusos sexuais do dono da fazenda e sobrevive a todo tipo de maus tratos ao longo do filme. Uma performance sofrida e comovente que caiu nas graças dos votantes da Academia. A atriz ganhou as capas de revista com seu estilo fashionista e fez escolhas bastante criteriosas em sua carreira desde então. Mesmo tento menos ofertas de trabalho do que merece, Lupita sempre entregou performances dignas de nota desde sua premiação, honrando sua estatueta até hoje.

PL►Y: Um Lugar Silencioso - Dia Um

Quinn, Lupita e Frodo: um filme com coração.
 
Acho que já ficou claro que nada será comparável com o primeiro Um Lugar Silencioso (2018), o surpreendente filme dirigido e estrelado por John Krasinski e sua esposa, Emily Blunt (que estava estupenda em cena). Tive a honra de assistir ao filme no cinema e a sensação daquela necessidade de silêncio em uma sala escura era indescritível. Era interessante como o filme subvertia uma regra do cinemão de Hollywood: que o público odeia o silêncio nos filmes. Krasinski nos fez lembrar como o silêncio é necessário, sobretudo para ampliar a tensão de uma narrativa. O filme foi um sucesso, gerou uma sequência que contava os rumos da família após os acontecimentos do primeiro longa, mas também um pouco de como foram aquelas minutos iniciais com a chegada das criaturas sanguinárias de ouvidos ultrassensíveis. No entanto, enveredar por uma outra sequência poderia desgastar a fórmula antes do que deveria. Eis que tiveram a ideia de contar uma prequel, mas com outros personagens daquele universo. Diante da proposta de ampliar a franquia, considero que foi um grande acerto escalar Michael Sarnoski para escrever o roteiro e dirigir o novo filme. O rapaz foi responsável por uma das gratas surpresas de 2021, Pig (filme que provou sozinho que Nicolas Cage ainda era um baita ator). O cineasta já demonstrava ali que sabia lidar com cenas dramáticas sem errar a mão nos momentos de ação e aqui, não faz diferente. Aqui ele não exagera na correria e sabe exatamente onde colocar o coração do filme: nos personagens. Portanto, torna-se fundamental fazer escolhas certas e ele faz ao colocar Lupita Nyong'o como protagonista. Ela vive Sam, uma mulher que tem câncer em estado terminal. Desiludida e um tanto amarga, ela não tem esperanças de que sua situação melhore. Enquanto um grupo do qual faz parte vai para um teatro de marionetes em Nova York, Sam tenta convencer o enfermeiro responsável (Alex Wolff) a deixa-la comer uma pedaço de pizza em uma pizzaria específica da cidade. Antes que ela consiga convencê-lo, a cidade será atacada por aqueles monstrengos que já vimos nos filmes anteriores. Sempre acompanhada de seu gato, Frodo (um dos pets mais expressivos que apareceram nas telas recentemente), ela irá tentar manter-se viva, enquanto o mundo se torna um monte de ruínas ao seu redor. Ela poderia passar o filme somente com o seu gato, mas Eric (Joseph Quinn) cruza seu caminho implorando por ajuda. Ele veio para Nova York estudar direito, a família vive na Inglaterra e sem ter com quem contar, a sisuda Sam torna-se sua melhor opção. Os dois irão desenvolver uma amizade que garante ótimos momentos no filme. Sempre que vejo Lupita na tela, ela me proporciona um encantamento que me faz perguntar, como uma atriz deste quilate não aparece em mais produções? Ela carrega toda a tristeza da personagem no olhar desde a primeira cena e prossegue na construção de um arco narrativo comovente até o desfecho catártico. Quinn também está ótimo ao demonstrar, sem pudores, toda a vulnerabilidade do seu personagem e espero que continue aparecendo na telona com bons trabalhos. Também não posso esquecer do gatinho, que mantém a tradição de Sarnoski em abordar os laços entre seus personagens com animais de estimação e o que eles representam. Muita gente não se empolgou com o filme porque queriam explicações sobre os monstros (ai gente, precisa? Que diferença faz?), mas fiquei satisfeito com o que o longa tem a oferecer ao contar uma boa história de amizade e sobrevivência em meio ao caos. Isso é mais do que muito filme badalado teve a oferecer em 2024. 

Um Lugar Silencioso - Dia Um (A Quiet Place - Day One / EUA - 2024) de Michael Sarnoski com Lupita Nyong'o, Joseph Quinn, Alex Wolff, Djimon Housson e Alfie Todd. ☻☻

PL►Y: A Semente do Fruto Sagrado

Soheila e Mahsa: a semente mortal da desconfiança. 

Em um período de conflitos em Teerã, Iman (Missagh Zareh) é promovido a investigador na expectativa de futuramente ser um juiz. Sua empolgação com a nova função logo se estende para esposa, Najme (Soheila Golestani) que fica animada com as possibilidades de ter uma vida e melhor e finalmente conseguir uma casa que possa oferecer um quarto para cada uma de suas filhas. Rezvah (Mahsa Rostami) e Sana (Setareh Maleki) também se animam com a possibilidade, mas as meninas logo desanimam com todas as restrições que passam a ser expostas pela mãe a todo instante. Elas passam a sempre ouvir que precisam tomar cuidado com o que fazem nas redes sociais, com as pessoas que conversam, com as amizades, com as saídas de casa que precisam ser mais restritas, assim como as visitas que precisam ser ainda mais criteriosas e nunca, jamais, deverão sair de casa sem véu. A paranoia chega ao nível de Sadaf (Niousha Akhshi), uma amiga das garotas, ser vista cada vez mais com desconfiança por estar na universidade (até mesmo as sobrancelhas finas da jovem são dignas de comentários desconfiados). A empolgação de Iman diminui e ele começa a ficar mais calado perante as coisas que precisa fazer no trabalho, seus dilemas morais pioram ainda mais quando explodem manifestações em Teerã e ele precisa agir com mais rapidez, sem que possa pensar de fato sobre o que está acontecendo (e mesmo que discorde de algo, não pode agir diferente do que lhe exigem). A rotina da família muda, a atmosfera da casa também e a tensão entre os personagens chega às bordas da loucura quando a arma de Iman some e ele jura que sumiu dentro de casa. As desconfianças recaem sobre a filha mais velha e tal e qual a semente da figueira sagrada que dá nome ao filme (e que é explicada logo no início), a desconfiança fomentada por um regime opressor será plantada naquele lar e crescerá estrangulando uma árvore que parecia sólida até que seja capaz de destruí-la por completo. O filme de Mohammad Rasoulof concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes no ano passado e recebeu o Grande Prêmio do Júri (espécie de segundo lugar do Festival), além de outros quatro (o AFCAE Award, o Fipresci, do Júri Ecumênico e o François Chalais) pela força de sua história e da forma como é narrada. As primeiras duas horas de filme são magníficas e  constroem a tensão gradativamente com aquela capacidade de fazer um drama se tornar um thriller psicológico envolvente, que se torna ainda mais arrepiante com as gravações de vídeo reais que perpassam a realidade da família. Além disso, o roteiro aborda brilhantemente as tensões de um regime totalitário sempre mesclando o microuniverso da família para o macro que está ao redor dela. A forma como as notícias são ouvidas e espalhadas sem criticidade, como pessoas que eram amigas passam a ser rotuladas como inimigas para que as relações de poder permaneçam intactas são elementos fundamentais para que se existam momentos de tensão indescritíveis ao longo do filme e eu só imaginava como aquilo tudo iria terminar. Particularmente, a partir do momento em que a família resolve se afastar da cidade, considero que o filme perde parte de sua força, mas continua funcionando em suas simbologias. No entanto, aquela parte da família se procurando entre as ruínas se estende mais do que deveria e por mais que eu saiba que aquilo representa as pessoas perdidas em meio a dogmas ancestrais e limitadores, o último ato me soou mais cômico do que deveria. Indicado ao Oscar de Filme Internacional pela Alemanha (que ajudou a financiar o projeto já que o filme foi filmado clandestinamente e jamais seria indicado pelo Irã uma vaga na premiação), o filme acabou ofuscado pela pendenga entre o francês Emília Pérez e o brasileiro Ainda Estou Aqui, no entanto o longa se tornou um dos filmes de língua não inglesa mais falados de 2024 e merece ser assistido. Atualmente está em cartaz no TeleCine. 

A Semente do Fruto Sagrado (Ane-ye Anjir-e Aa'abed / França - Alemanha / 2024) de Mohammad Rasoulof com Soheila Golestani, Missagh Zareh, Setareh Maleki, Mahsa Hostami,  Niousha Akhshi e Reza Akhlaghirad. ☻☻☻

sexta-feira, 21 de março de 2025

NªTV: Adolescência

Owen e Stephen: uma bomba relógio aos 13 anos. 

 Se ano passado a Netflix acertou em cheio com a minissérie Bebê Rena (que recebeu vários prêmios recentemente), parece que o feito irá se repetir com a minissérie Adolescência ao longo de 2025. A produção britânica de quatro episódios foi para o topo dos programas mais assistidos ao redor do mundo assim que entrou em cartaz na gigante do streaming. Existem vários motivos para esta proeza, já que o programa conta com um elenco impecável (que inclui um jovem ator que é um verdadeiro achado) uma narrativa tensa e urgente que ousa construir um plano sequência durante cada episódio. O que poderia ser visto apenas como um virtuosismo dos produtores se torna fundamental para dar veracidade à trama e, especialmente, aos sentimentos dos personagens com suas vidas registradas no ritmo da vida real. A trama começa com a polícia chegando à uma casa para prender o filho de 13 anos daquela família. Ninguém entende ao certo o que está acontecendo, apenas vemos o desespero daquelas pessoas e o menino dizer que não fez nada. O menino em questão é Jamie Miller (o prodígio Owen Cooper) que é levado à delegacia tendo o pai como companhia. Eddie Miller (Stephen Graham) acredita na inocência do filho, mesmo sem fazer ideia do que ele está sendo acusado. Quando os dois são apresentados à uma fita de vídeo, torna-se difícil acreditar que o garoto não matou uma colega da escola. A partir daí, cada episódio irá aprofundar os personagens envolvidos naquela situação.O segundo capítulo é dedicado à ida dos investigadores à escola e para além das provas que buscam, o que encontram é uma agressividade (mal) camuflada nas relações de todos ali dentro e (obviamente) encontra nas redes sociais uma extensão das relações tóxicas vivenciadas naquele espaço (some isso à identidade em formação com a intensidade hormonal da adolescência e você tem um território bastante fértil para construção de verdadeiras bombas relógios). O episódio torna ainda mais interessante os caminhos da série ao ampliar o universo em torno daquele crime, mas nada se compara ao terceiro episódio em que Eddie trava um verdadeiro duelo com a psicóloga responsável por acompanhá-lo (outro ótimo trabalho de Erin Doherty), ali percebemos muito da instabilidade do personagem e, mais ainda, a forma agressiva e ressentida com que lida com as mulheres. O capítulo é de perder o fôlego e já serve como desfecho para a parte criminal da história. Só que a minissérie tem outros interesses e o episódio final serve para retratar  as repercussões em torno do caso perante a família do acusado e sua relação com a comunidade em que vivem. Algumas pessoas irão estranhar a opção de fazer um desfecho tão intimista da trama, mas a intenção do programa é fazer com que se perceba que o crime si está longe de ser um fato isolado - e a ideia de um julgamento com condenação daria a impressão que o problema se resolveu, não é essa a intenção aqui. Existe todo um contexto perigoso que é apresentado sem que os adultos responsáveis tenham noção do que está se construindo, seja pelos compromissos com o trabalho, o efeito do cansaço cotidiano ou simplesmente por ignorar ou vivenciar um processo de negação diante do que se vê, a impressão é que existe um grupo de pessoas se construindo à deriva e buscando referenciais sombrios para lidar com o mundo e as frustrações presentes nele. Adolescência termina sem dar respostas e nem deveria, se as tivesse o mundo já seria um lugar quase perfeito. 

Adolescência (Adolescence / Reino Unido - 2025) de Stephen Graham e Jack Thorne com Owen Cooper, Stephen Graham, Ashley Walters, Faye Marsay, Christine Tremarco, Amelie Pease, Erin Doherty e Kaine Davis. ☻☻☻  

CATÁLOGO: Encaixotando Helena

Sands e Fenn: thriller erótico ou suspense bizarro?

Não estava nos meus planos escrever sobre este clássico das locadoras dos anos 1990, mas como planejei fazer uma retrospectiva de David Lynch ao longo do ano, achei que seria de bom tom comentar o filme de estreia de sua herdeira, a cineasta Jennifer Lynch. Jennifer atualmente trabalha de forma recorrente dirigindo episódios de séries de TV (como American Horror Story, Ratched e Capote Vs The Swans) e demonstrava desde o início um gosto e estilo bastante peculiares para contar histórias (que logo disseram ser influência do pai). Seu primeiro longa metragem chamou atenção antes mesmo de estrear por conta da desistência da estrela Kim Basinger em protagonizar o filme, foi alegada uma quebra de contrato que gerou um processo milionário. Vale a pena lembrar que o filme foi concebido em meio aos anos 1990 e com todo o sucesso de Instinto Selvagem/1992 (que Kim também rejeitou o papel que acabou ficando com Sharon Stone), todo mundo estava atrás de um thriller erótico para chamar de seu (até Madonna cometeu Corpo em Evidência/1993 no mesmo ano deste aqui e teria interpretado Helena se não tivesse Evita nos planos). Foi o período em que o puritanismo de Hollywood cedeu espaço ao erotismo em nome de bilheterias robustas, mas ao invés disso, muitos fracassos se seguiram (incluindo o filme seguinte de Sharon Stone, Invasão de Privacidade também de 1993 - um ano agitadíssimo como se percebe). Eis que Jennifer Lynch, com todo o peso de seu sobrenome, consegue tirar do papel seu roteiro (escrito ao lado de Phellipe Calland) sobre uma paixão obsessiva que motiva ações bizarras. Quando o filme começou a ser exibido a crítica o massacrou (e houve até aquele famoso comentário de que os nove milhões que Kim precisou pagar para sair do filme valeu cada centavo). A maioria das críticas se deve à audácia da diretora estreante de 24 anos contar uma história tão abusiva com um verniz tão sensual. A trama conta a história de Nick (Julian Sands), um médico cirurgião obcecado por Helena (Sherilyn Fenn), uma mulher com  quem manteve um relacionamento no passado. Só que Helena seguiu em frente e já possui até outro namorado (Bill Paxton), mas Nick ainda deseja reconquistá-la. Quando ele percebe que não tem chances, ele a sequestra e a leva para sua mansão. Até aí a trama lembra outras centenas que já vimos, a diferença é que para ela não ir embora, ele começa a amputar seus membros. A estratégia chocante do personagem é apresentada em contraponto com toda a ambientação do filme repleta de jardins, cortinas, velas, trilha sonora e fotografia luxuriante. Toda a estética do filme remete aos filmes eróticos que tentavam parecer chiques no período. Além da direção de arte referencial, não faltam cenas picantes para endossar semelhanças com o gênero impróprio para menores. O longa deu o que falar nos meus tempos de escola (imaginem, eu tinha menos de quinze anos na época que o filme foi disponibilizado por aqui) e a mistura de filme de terror (qual outro gênero falaria de amputação tão desavergonhadamente?), suspense e erotismo aguçava a curiosidade. Vale dizer que a performance de Sherilyn Fenn que segura o filme. A atriz (que ganhou fama pela beleza e por seu trabalho na série Twin Peaks concebida pelo pai de Jennifer), tem um trabalho marcante com todas as limitações físicas que possui no filme (e os efeitos especiais feitos em seu corpo são desconfortáveis de tão impressionantes). Visto com o distanciamento permitido nos dias de hoje, Encaixotando Helena mantém seus deslizes, mas traz elementos interessantes se não percebermos sua trama como algo literal, mas como uma metáfora para um relacionamento abusivo em que a vítima se percebe impossibilitada de se afastar do abusador. A dinâmica entre Nick e Helena torna-se ainda mais incômoda por conta da dependência que ela passa a ter de um sujeito sádico desequilibrado que a percebe como propriedade de seu desejo. Falando em desejo, Jennifer ousa mais ainda ao expor não apenas a nudez de suas atrizes, mas de seus atores também, com direito até a nu frontal de Bill Paxton (algo raro para o período). É um tema bastante sério tratado com uma atmosfera sexual inusitada e Jennifer Lynch pagou um preço alto por isso, voltando a dirigir outro filme somente quinze anos depois (com o policial Sob Controle/2008 que foi exibido no Festival de Cannes). O mais curioso é perceber que a Helena se relaciona com problemas de saúde enfrentados pela própria cineasta, já que Jennifer nasceu com uma deficiência nos pés que a impossibilitava de engatinhar, quando bebê, ela se arrastava e quando cresceu precisou de uma barra de metal entre os tornozelos para conseguir se locomover. Ela passou por quatro cirurgias e usava sapatos ortopédicos até os doze anos. Se a situação parecia resolvida, ela piorou novamente quando foi atropelada aos 19 anos, o que comprometeu sua espinha dorsal e a fez passar por novas cirurgias. Foi neste período que ela escreveu Encaixotando Helena e o impregnou de seus temores mesclado à sexualidade ainda latente da adolescência. Pelo filme, Jennifer Lynch ganhou o Framboesa de Ouro de pior direção daquele ano, mas ainda hoje aparenta orgulho de sua obra de estreia. Foi tão ousado e corajoso quanto estranho. Muito estranho. 

Encaixotando Helena (Boxing Helena / EUA - 1993) de Jennifer Lynch com Sherilyn Fenn, Julian Sands, Bill Paxton, Kurtwood Smith, Art Garfunkel, Betsy Clark e Nicolette Scorsese.

KLÁSSIQO: Eraserhead

 Jack Nance: alter-ego de David Lynch em estreia perturbadora. 
 
Acho que é lugar comum falar da estranheza nos filmes de Davi Lynch. O diretor que nos deixou no início de 2025, sempre fez questão de construir em seus filmes um tom sinistro, quase sempre pesadelesco, que servia de verniz para personagens que viviam em suas vidas comuns, geralmente com uma estética que lembrava muito o cinema feito antes dos movimentos de contracultura (mais ou menos por ali entre os anos 1950 e início dos 1960). Lynch criava assim uma espécie de choque imagético, uma característica que fez do seu cinema algo único, diferente, inusitado, surreal e brilhante (tanto no sentido de genialidade quanto na capacidade de ter o brilho próprio de se renovar a cada nova visita e releitura de uma obra). Esta marca já está evidente em seu primeiro filme, Eraserhead, que foi um fiasco de público justamente por romper com o realismo tão presente no cinema dos EUA. Imagina que você está em 1977, a nova Hollywood estava latente com nomes feito Spielberg, de Palma, Coppola, Scorsese e no meio dos lançamentos do primeiro Star Wars, das danças de Os Embalos de Sábado a Noite, dos efeitos de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e da graça (posteriormente oscarizada) de Noivo Neurótico e Noiva Nervosa você de deparasse com um filme em preto e branco, com um homem de topete gigantesco às voltas com uma série de personagens estranhos, incluindo, um filho que nasceu parecendo tudo, menos um bebê? Revisitei recentemente Eraserhead porque sempre tive receios de escrever sobre ele, já que, posso dizer que é o filme mais estranho de Lynch (mais do que Império dos Sonhos/2006 que fica em um honroso segundo lugar e, ironicamente, é seu último longa) e sempre deixa a sensação de que nunca serei capaz de entendê-lo completamente (mas também acho que a graça está justamente aí, já que David odiava explicar seus filmes e deixava que os espectadores divagassem sobre o que se via na tela). O longa revela-se cada vez mais sensorial ao mesmo tempo que afasta-se de ser apenas um filme experimental de um estudante de cinema. O filme conta a história de Henry (Jack Nance), um homem que vive em um pequeno apartamento em uma área industrial abandonada. Ele engravidou a namorada e por conta disso teve que casar e, agora, os dois precisam cuidar de um bebê que chora o tempo inteiro e tem uma aparência, digamos, diferente do que se esperava. A narrativa é conduzida por todo o desconforto do protagonista em uma realidade completamente onírica e surrealista, com personagens estranhos que movimentam um filme anticonvencional, mas que traz simbologias que nos fazem perceber a relação daquilo tudo com a fertilidade, a paternidade, o destino de um filho e relações familiares. Lynch já era apaixonado por artes plásticas quando realizou o filme (com o apoio da American Film Institute, instituição em que estudava) e isso explica muito das texturas que o filme experimenta diante da câmera. Com o tempo, todas as ressalvas feitas ao filme em sua estreia garantiram uma curiosidade ao redor da produção e uma aura de filme cult, sobretudo quando ao longo do tempo vimos a forma como Lynch pensa seu cinema e as sensações que pretende despertar na plateia. Algumas marcas de seu cinema (os personagens misteriosos, o chão xadrez, as cortinas, o palco do inconsciente...) já aparecem por aqui e quem conhece a vida particular do diretor, relaciona Henry e seu filho com a própria situação do diretor perante um problema de saúde vivenciado por sua primogênita logo após o nascimento. O peso da responsabilidade e da insegurança devido àquela situação parece ter sido a maior inspiração para todos os temores que atravessam a narrativa (ternamente) perturbadora do filme. 
 
Eraserhead (EUA - 1977) de David Lynch com Jack Nance, Charlotte Stewart, Allen Joseph, Jeanne Bates, Leurel Near e Jack Fisk ☻☻