Cinco produções assistidas durante o mês que merecem destaque:
segunda-feira, 31 de março de 2025
sábado, 22 de março de 2025
Pódio: Lupita Nyong'o
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Bronze: a poetisa sobrevivente |
3º Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024) Lupita Amondi Nyong'o nasceu na Cidade do México em 1983 e começou a carreira em Hollywood como assistente de produção. A atriz se tornou cada vez mais reconhecida por desaparecer nas personagens que interpreta, como é o caso de Sam, a paciente com câncer terminal que se depara com as criaturas de audição ultrassensível desta franquia milionária. Lupita carrega toda a dor da personagem no olhar desde a primeira cena, mas ao longo do filme a faz reencontrar a leveza de uma vida da qual deverá se despedir em breve. Um trabalho belo e sensível que demonstra mais uma vez que a atriz é uma das melhores de sua geração.
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Prata: a mulher duplicada |
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Ouro: a mulher escravizada. |
PL►Y: Um Lugar Silencioso - Dia Um
PL►Y: A Semente do Fruto Sagrado
Em um período de conflitos em Teerã, Iman (Missagh Zareh) é promovido a investigador na expectativa de futuramente ser um juiz. Sua empolgação com a nova função logo se estende para esposa, Najme (Soheila Golestani) que fica animada com as possibilidades de ter uma vida e melhor e finalmente conseguir uma casa que possa oferecer um quarto para cada uma de suas filhas. Rezvah (Mahsa Rostami) e Sana (Setareh Maleki) também se animam com a possibilidade, mas as meninas logo desanimam com todas as restrições que passam a ser expostas pela mãe a todo instante. Elas passam a sempre ouvir que precisam tomar cuidado com o que fazem nas redes sociais, com as pessoas que conversam, com as amizades, com as saídas de casa que precisam ser mais restritas, assim como as visitas que precisam ser ainda mais criteriosas e nunca, jamais, deverão sair de casa sem véu. A paranoia chega ao nível de Sadaf (Niousha Akhshi), uma amiga das garotas, ser vista cada vez mais com desconfiança por estar na universidade (até mesmo as sobrancelhas finas da jovem são dignas de comentários desconfiados). A empolgação de Iman diminui e ele começa a ficar mais calado perante as coisas que precisa fazer no trabalho, seus dilemas morais pioram ainda mais quando explodem manifestações em Teerã e ele precisa agir com mais rapidez, sem que possa pensar de fato sobre o que está acontecendo (e mesmo que discorde de algo, não pode agir diferente do que lhe exigem). A rotina da família muda, a atmosfera da casa também e a tensão entre os personagens chega às bordas da loucura quando a arma de Iman some e ele jura que sumiu dentro de casa. As desconfianças recaem sobre a filha mais velha e tal e qual a semente da figueira sagrada que dá nome ao filme (e que é explicada logo no início), a desconfiança fomentada por um regime opressor será plantada naquele lar e crescerá estrangulando uma árvore que parecia sólida até que seja capaz de destruí-la por completo. O filme de Mohammad Rasoulof concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes no ano passado e recebeu o Grande Prêmio do Júri (espécie de segundo lugar do Festival), além de outros quatro (o AFCAE Award, o Fipresci, do Júri Ecumênico e o François Chalais) pela força de sua história e da forma como é narrada. As primeiras duas horas de filme são magníficas e constroem a tensão gradativamente com aquela capacidade de fazer um drama se tornar um thriller psicológico envolvente, que se torna ainda mais arrepiante com as gravações de vídeo reais que perpassam a realidade da família. Além disso, o roteiro aborda brilhantemente as tensões de um regime totalitário sempre mesclando o microuniverso da família para o macro que está ao redor dela. A forma como as notícias são ouvidas e espalhadas sem criticidade, como pessoas que eram amigas passam a ser rotuladas como inimigas para que as relações de poder permaneçam intactas são elementos fundamentais para que se existam momentos de tensão indescritíveis ao longo do filme e eu só imaginava como aquilo tudo iria terminar. Particularmente, a partir do momento em que a família resolve se afastar da cidade, considero que o filme perde parte de sua força, mas continua funcionando em suas simbologias. No entanto, aquela parte da família se procurando entre as ruínas se estende mais do que deveria e por mais que eu saiba que aquilo representa as pessoas perdidas em meio a dogmas ancestrais e limitadores, o último ato me soou mais cômico do que deveria. Indicado ao Oscar de Filme Internacional pela Alemanha (que ajudou a financiar o projeto já que o filme foi filmado clandestinamente e jamais seria indicado pelo Irã uma vaga na premiação), o filme acabou ofuscado pela pendenga entre o francês Emília Pérez e o brasileiro Ainda Estou Aqui, no entanto o longa se tornou um dos filmes de língua não inglesa mais falados de 2024 e merece ser assistido. Atualmente está em cartaz no TeleCine.
A Semente do Fruto Sagrado (Ane-ye Anjir-e Aa'abed / França - Alemanha / 2024) de Mohammad Rasoulof com Soheila Golestani, Missagh Zareh, Setareh Maleki, Mahsa Hostami, Niousha Akhshi e Reza Akhlaghirad. ☻☻☻☻
sexta-feira, 21 de março de 2025
NªTV: Adolescência
Se ano passado a Netflix acertou em cheio com a minissérie Bebê Rena (que recebeu vários prêmios recentemente), parece que o feito irá se repetir com a minissérie Adolescência ao longo de 2025. A produção britânica de quatro episódios foi para o topo dos programas mais assistidos ao redor do mundo assim que entrou em cartaz na gigante do streaming. Existem vários motivos para esta proeza, já que o programa conta com um elenco impecável (que inclui um jovem ator que é um verdadeiro achado) uma narrativa tensa e urgente que ousa construir um plano sequência durante cada episódio. O que poderia ser visto apenas como um virtuosismo dos produtores se torna fundamental para dar veracidade à trama e, especialmente, aos sentimentos dos personagens com suas vidas registradas no ritmo da vida real. A trama começa com a polícia chegando à uma casa para prender o filho de 13 anos daquela família. Ninguém entende ao certo o que está acontecendo, apenas vemos o desespero daquelas pessoas e o menino dizer que não fez nada. O menino em questão é Jamie Miller (o prodígio Owen Cooper) que é levado à delegacia tendo o pai como companhia. Eddie Miller (Stephen Graham) acredita na inocência do filho, mesmo sem fazer ideia do que ele está sendo acusado. Quando os dois são apresentados à uma fita de vídeo, torna-se difícil acreditar que o garoto não matou uma colega da escola. A partir daí, cada episódio irá aprofundar os personagens envolvidos naquela situação.O segundo capítulo é dedicado à ida dos investigadores à escola e para além das provas que buscam, o que encontram é uma agressividade (mal) camuflada nas relações de todos ali dentro e (obviamente) encontra nas redes sociais uma extensão das relações tóxicas vivenciadas naquele espaço (some isso à identidade em formação com a intensidade hormonal da adolescência e você tem um território bastante fértil para construção de verdadeiras bombas relógios). O episódio torna ainda mais interessante os caminhos da série ao ampliar o universo em torno daquele crime, mas nada se compara ao terceiro episódio em que Eddie trava um verdadeiro duelo com a psicóloga responsável por acompanhá-lo (outro ótimo trabalho de Erin Doherty), ali percebemos muito da instabilidade do personagem e, mais ainda, a forma agressiva e ressentida com que lida com as mulheres. O capítulo é de perder o fôlego e já serve como desfecho para a parte criminal da história. Só que a minissérie tem outros interesses e o episódio final serve para retratar as repercussões em torno do caso perante a família do acusado e sua relação com a comunidade em que vivem. Algumas pessoas irão estranhar a opção de fazer um desfecho tão intimista da trama, mas a intenção do programa é fazer com que se perceba que o crime si está longe de ser um fato isolado - e a ideia de um julgamento com condenação daria a impressão que o problema se resolveu, não é essa a intenção aqui. Existe todo um contexto perigoso que é apresentado sem que os adultos responsáveis tenham noção do que está se construindo, seja pelos compromissos com o trabalho, o efeito do cansaço cotidiano ou simplesmente por ignorar ou vivenciar um processo de negação diante do que se vê, a impressão é que existe um grupo de pessoas se construindo à deriva e buscando referenciais sombrios para lidar com o mundo e as frustrações presentes nele. Adolescência termina sem dar respostas e nem deveria, se as tivesse o mundo já seria um lugar quase perfeito.
Adolescência (Adolescence / Reino Unido - 2025) de Stephen Graham e Jack Thorne com Owen Cooper, Stephen Graham, Ashley Walters, Faye Marsay, Christine Tremarco, Amelie Pease, Erin Doherty e Kaine Davis. ☻☻☻☻
CATÁLOGO: Encaixotando Helena
Não estava nos meus planos escrever sobre este clássico das locadoras dos anos 1990, mas como planejei fazer uma retrospectiva de David Lynch ao longo do ano, achei que seria de bom tom comentar o filme de estreia de sua herdeira, a cineasta Jennifer Lynch. Jennifer atualmente trabalha de forma recorrente dirigindo episódios de séries de TV (como American Horror Story, Ratched e Capote Vs The Swans) e demonstrava desde o início um gosto e estilo bastante peculiares para contar histórias (que logo disseram ser influência do pai). Seu primeiro longa metragem chamou atenção antes mesmo de estrear por conta da desistência da estrela Kim Basinger em protagonizar o filme, foi alegada uma quebra de contrato que gerou um processo milionário. Vale a pena lembrar que o filme foi concebido em meio aos anos 1990 e com todo o sucesso de Instinto Selvagem/1992 (que Kim também rejeitou o papel que acabou ficando com Sharon Stone), todo mundo estava atrás de um thriller erótico para chamar de seu (até Madonna cometeu Corpo em Evidência/1993 no mesmo ano deste aqui e teria interpretado Helena se não tivesse Evita nos planos). Foi o período em que o puritanismo de Hollywood cedeu espaço ao erotismo em nome de bilheterias robustas, mas ao invés disso, muitos fracassos se seguiram (incluindo o filme seguinte de Sharon Stone, Invasão de Privacidade também de 1993 - um ano agitadíssimo como se percebe). Eis que Jennifer Lynch, com todo o peso de seu sobrenome, consegue tirar do papel seu roteiro (escrito ao lado de Phellipe Calland) sobre uma paixão obsessiva que motiva ações bizarras. Quando o filme começou a ser exibido a crítica o massacrou (e houve até aquele famoso comentário de que os nove milhões que Kim precisou pagar para sair do filme valeu cada centavo). A maioria das críticas se deve à audácia da diretora estreante de 24 anos contar uma história tão abusiva com um verniz tão sensual. A trama conta a história de Nick (Julian Sands), um médico cirurgião obcecado por Helena (Sherilyn Fenn), uma mulher com quem manteve um relacionamento no passado. Só que Helena seguiu em frente e já possui até outro namorado (Bill Paxton), mas Nick ainda deseja reconquistá-la. Quando ele percebe que não tem chances, ele a sequestra e a leva para sua mansão. Até aí a trama lembra outras centenas que já vimos, a diferença é que para ela não ir embora, ele começa a amputar seus membros. A estratégia chocante do personagem é apresentada em contraponto com toda a ambientação do filme repleta de jardins, cortinas, velas, trilha sonora e fotografia luxuriante. Toda a estética do filme remete aos filmes eróticos que tentavam parecer chiques no período. Além da direção de arte referencial, não faltam cenas picantes para endossar semelhanças com o gênero impróprio para menores. O longa deu o que falar nos meus tempos de escola (imaginem, eu tinha menos de quinze anos na época que o filme foi disponibilizado por aqui) e a mistura de filme de terror (qual outro gênero falaria de amputação tão desavergonhadamente?), suspense e erotismo aguçava a curiosidade. Vale dizer que a performance de Sherilyn Fenn que segura o filme. A atriz (que ganhou fama pela beleza e por seu trabalho na série Twin Peaks concebida pelo pai de Jennifer), tem um trabalho marcante com todas as limitações físicas que possui no filme (e os efeitos especiais feitos em seu corpo são desconfortáveis de tão impressionantes). Visto com o distanciamento permitido nos dias de hoje, Encaixotando Helena mantém seus deslizes, mas traz elementos interessantes se não percebermos sua trama como algo literal, mas como uma metáfora para um relacionamento abusivo em que a vítima se percebe impossibilitada de se afastar do abusador. A dinâmica entre Nick e Helena torna-se ainda mais incômoda por conta da dependência que ela passa a ter de um sujeito sádico desequilibrado que a percebe como propriedade de seu desejo. Falando em desejo, Jennifer ousa mais ainda ao expor não apenas a nudez de suas atrizes, mas de seus atores também, com direito até a nu frontal de Bill Paxton (algo raro para o período). É um tema bastante sério tratado com uma atmosfera sexual inusitada e Jennifer Lynch pagou um preço alto por isso, voltando a dirigir outro filme somente quinze anos depois (com o policial Sob Controle/2008 que foi exibido no Festival de Cannes). O mais curioso é perceber que a Helena se relaciona com problemas de saúde enfrentados pela própria cineasta, já que Jennifer nasceu com uma deficiência nos pés que a impossibilitava de engatinhar, quando bebê, ela se arrastava e quando cresceu precisou de uma barra de metal entre os tornozelos para conseguir se locomover. Ela passou por quatro cirurgias e usava sapatos ortopédicos até os doze anos. Se a situação parecia resolvida, ela piorou novamente quando foi atropelada aos 19 anos, o que comprometeu sua espinha dorsal e a fez passar por novas cirurgias. Foi neste período que ela escreveu Encaixotando Helena e o impregnou de seus temores mesclado à sexualidade ainda latente da adolescência. Pelo filme, Jennifer Lynch ganhou o Framboesa de Ouro de pior direção daquele ano, mas ainda hoje aparenta orgulho de sua obra de estreia. Foi tão ousado e corajoso quanto estranho. Muito estranho.
Encaixotando Helena (Boxing Helena / EUA - 1993) de Jennifer Lynch com Sherilyn Fenn, Julian Sands, Bill Paxton, Kurtwood Smith, Art Garfunkel, Betsy Clark e Nicolette Scorsese. ☻☻