domingo, 21 de dezembro de 2025

PL►Y: Manas

Jamilli: um chute no estômago.  

Manas é o tipo de filme que tenho medo de ver. Diante de todos os elogios que o filme recebeu, pairava na minha mente a dúvida: "é tudo isso mesmo?". O longa foi o segundo favorito a disputar a vaga do Brasil na disputa ao Oscar de Filme Internacional, rivalizando com o badalado O Agente Secreto. Até Julia Roberts entrou no lobby do filme, argumentando que o filme havia mudado sua vida. Para não dizer que o filme ficou de lado, a Academia Brasileira de Cinema o escolheu para disputar uma vaga de filme estrangeiro no Goya (o Oscar da Espanha). De tudo isso o que mais me chamou a atenção foram os adjetivos atrelados ao filme de estreia de Mariana Brennand, sobretudo a palavra "lindo". Manas pode ser tudo, menos um filme lindo. É cru. É triste. É necessário, mas lindo não é. Brennand filma como se tivesse uma câmera escondida no meio de uma família lá da Ilha do Marajó. A situação da família é apresentada de forma quase documental em sua humildade, eles colhem açaí, comem açaí, as meninas mais novas vão para a escola e todos dormem amontoados no mesmo cômodo. A trama segue como se ainda procurasse uma história para contar Descobrimos que algumas meninas usam como desculpa visitar barcos que passam por ali para vender coisas, mas na verdade estão vendendo a si mesmas. Existe a curiosidade pelo sexo, a ausência de uma educação sexual que lhes traga referências para lidar com os abusos que atravessam seus caminhos e quando percebemos o que acontece entre Marcielle (Jamilli Correa) de 13 anos e seu pai (Rômulo Braga) temos a exata medida do horror que está diante dos nossos olhos. O mais interessante é que Brennand conta esta história de perda da inocência (ou seria de inocência roubada?) com pulso firme, sem sobressaltos ou melodrama. A sensação é de um chute no estômago. É um filme corajoso e que prima pelas sutilezas nas situações mais assustadoras, deixando muito nas entrelinhas. A fotografia deixa claro que o filme não tenta embelezar nada e o elenco defende bem os seus personagens   e até compensam a narrativa que demora para engrenar. A primeira parte do filme é bastante arrastada e confesso que tive dificuldade de mante os olhos abertos, mas conforme nos damos conta da história que o filme quer nos contar, torna-se impossível ficar indiferente. Manas não teria chance na congestionada disputa do Oscar de Filme Internacional de 2026, mas merece destaque entre os lançamentos do cinema brasileiro em 2025. 

Manas (Brasil/Portugal - 2025) de Mariana Brennand com Jamilli Correa, Fátima Macedo, Rômulo Braga, Dira Paes, Samira Eloá, Enzo Maia, Emily Pantoja e Gabriel Rodrigues. 

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