Butler: o humor caótico do novo filme de Aronofsky.
Não fosse o nome de Darren Aronofsky assinando a direção, provavelmente eu não daria a mínima atenção para este Ladrões. A sinopse não me empolgou com a história de um jogador de baseball que teve a carreira acabada por conta de um acidente e que vê novamente sua vida virada do avesso quando precisa tomar conta do gato de um vizinho - sem fazer ideia da quantidade de bandidos que irão atravessar o seu caminho por conta disso. Ambientado no final dos anos 1990, o filme é baseado em um livro de Charlie Huston (que também assina o roteiro), Aronofsky demonstra uma energia bastante diferente dos seus filmes anteriores. Embora os cenários e a fotografia ainda façam lembrar alguns dos seus filmes mais sombrios (especialmente os do início da carreira), a vibração aqui é outra. Existe muito senso de humor na atmosfera dos acontecimentos que começam a desabar na rotina do ex-jogador Hank Thompson (Austin Butler). Embora a vida que ele leva seja bem diferente da sonhada por ele nos tempos e atleta promissor, tudo o que ele quer é sossego ao lado da namorada Yvonne (Zoë Kravitz), só que tudo é posto a perder quando ele começa a ser perseguido por todos os outros personagens que cruzam o seu caminho. O diretor conta esta história como se fosse uma versão noventista de Depois de Horas (1985) de Scorsese (e a presença de Griffin Dunne no elenco enfatiza ainda mais a relação). Darren capricha nos ângulos, planos e enquadramentos, o ritmo é mantido sempre acelerado e mantem o espectador atento às reviravoltas da trama. Acredito que não é por acaso que o filme é ambientado no período em que Aronofsky iniciou sua carreira, como se fosse a demonstração de outro caminho (outra pegada) que seu cinema poderia ter seguido nos primórdios de sua cinematografia iniciada com o incômodo Pi (1998) - que também contava com gangsteres judeus no encalço do protagonista. Esta espécie de "recomeço" também serve para dar fôlego à uma carreira que recebeu duras críticas pela forma como adaptou o texto de Samuel D. Hunter quando resolveu filmar A Baleia (2022), que embora tenha rendido o Oscar de melhor ator para Brendan Fraser, carrega nas tintas melodramáticas mais tradicionais para envolver o público (enquanto a outra parte torce o nariz). No entanto, vendo os fantasmas que assombram o protagonista de Ladrões, é fácil perceber de onde surgiu o interesse por fazer este filme, afinal, ele acaba de ser incluído na seara de personagens perturbados que o diretor adoram ao lado da antológica Sara Goldfarb, a bailarina Nina e - basta lembrar que - nem o bíblico Noé (2014) escapou. Ladrões passará em branco nas premiações, mas ouso dizer que é um filme fundamental para o cinema de Aronofsky se reencontrar com suas intenções mais viscerais e, ao ver o elenco que topou a empreitada, percebe-se que ele tem crédito de sobra entre os artistas.
Ladrões (Caught Stealing / EUA - 2025) de Darren Aronofsky com Austin Butler, Zoë Kravitz, Matt Smith, Regina King, Bad Bunny, Griffin Dunne, Tenoch Huerta, Vincent D'Onofrio e Laura Dern. ☻☻☻

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