sábado, 12 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Tatuagem

Jesuíta e Irandhir: sem tabus ou moralismo.  

Tatuagem é um tipo de filme raro, não apenas nos lançamentos brasileiros, mas no mundo mesmo. Tem uma alma incendiária que pode causar incômodo na maioria dos espectadores que estão acostumados a filmes comportados, ou que lida com a afetividade entre dois homens, política ou com a própria arte de forma mais pudica. Existe muita nudez em Tatuagem, mas também uma inventividade que nos faz até esquecer que o roteiro poderia ser mais enxuto e sua duração um pouco mais curta. Independente disso, o diretor Hilton Lacerda cumpre sua proposta com bastante coragem num cenário em que o cinema ousa cada vez menos. A trama é ambientada em Recife no ano de 1978, em plena ditadura militar, seguimos a trajetória da trupe teatral Chão de Estrelas liderada por Clécio Wanderley (o sempre competente Irandhir Santos). Os espetáculos do grupo são cheio de deboche sobre o sistema político, o moralismo e as convenções. As apresentações são de uma criatividade de encher os olhos com o uso de materiais dos mais variados, o que torna o visual do filme ainda mais colorido e vibrante (auxiliado pela trilha sonora de primeiríssima qualidade). Paralelo a esse mundo, acompanhamos a trajetória do jovem militar Fininha (o então novato Jesuíta Barbosa), que namora a irmã de um dos atores da trupe, o elétrico Paulete (o ótimo Rodrigo Garcia). Eis que o caminho de Fininha e Clécio se cruzam quase que por acaso e começa um romance entre os dois personagens -  cujo o desfecho já podemos imaginar qual será. O filme de estreia de Lacerda se inspira em várias histórias de trupes teatrais que realizavam espetáculos anárquicos contra o sistema, tendo a maior inspiração na trajetória do argentino Túlio Carella, que viveu no Recife nos anos 1960 e em meados da década seguinte fundou o grupo Vivencial, cujo trabalho era bastante semelhante ao que aparece no filme. Para além dessa parte verídica, o filme investe numa abordagem bastante diferente das relações de gênero (afinal, Clécio tem um filho e a mãe dele não vê problema algum em Clécio se envolver com outros homens - o maior problema é que Fininha é militar) e da postura artística na época da ditadura. Pela naturalidade com que filma o exagero, a nudez e duas cenas de sexo entre os protagonistas, Tatuagem não é para todos os gostos (e nem quer ser), mas quem embarcar na atmosfera do filme verá uma obra com atuações marcantes e grande plasticidade visual. 

Tatuagem (Brasil/2013) de Hilton Lacerda com Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa e Rodrigo Carcia. ☻☻☻

CICLO VERDE E AMARELO: Estação Liberdade

Cauê: conflito de identidade. 

Lançado no ano passado, o filme de Caíto Ortiz teve que lidar com críticas severas quanto à estética de seu filme, que muitas vezes, chama mais atenção do que a história em si. No entanto, eu considerei bastante interessante o rigor técnico do diretor ao lidar com uma história tão intimista. Acho que conteúdo e forma ajudam na construção de um universo bastante particular para a trama -  ora emulando uma atmosfera David Lynch ou os cortes secos de Darren Aronofsky no início de carreira. Quem resistir aos primeiros minutos (quase experimentais) poderá ficar hipnotizado com a trajetória do nissei Mário Kubo (Cauê Ito), um morador de São Paulo do qual sabe-se muito pouco. Apenas que trabalha com pedras preciosas e é casado com uma mulher que ainda não se acostumou com seu estilo reservado. Entre dias de trabalho, viagens de metrô e tensão domiciliar mostradas em uma montagem descontínua, a vida de Mário muda quando ele recebe uma carta escrita em japonês (a qual não consegue ler) com uma foto que ele parece não identificar de quem é. A partir daí o personagem começa a pensar sobre a sua rotina e um tanto sobre sua própria identidade. Ele acaba buscando respostas no bairro Liberdade, conhecido bairro turístico de São Paulo com seus balões de luz orientais e sua população de descendentes japoneses. Embora critiquem o filme pela forma fragmentada como a história é apresentada, percebi um sentido pleno em tudo o que é mostrado, caminhando de forma bastante coerente para os significados da foto e da tal carta recebida. Caíto Ortiz filma a Liberdade como se fosse o Japão de outra dimensão, com seus moradores falando japonês (ou português com sotaque carregado), com tipos bastante brasileiros vestidos como orientais, com karaokês onde pessoas cantam em japonês para pouco depois apresentarem uma canção de Roberto Carlos, tudo muito distante do que vemos na primeira parte do filme. Explorando ao máximo os traços de Cauê Ito (que parece esculpido com laser) o filme revela como os dias naquele bairro o aproxima de referências que até então estavam escondidas em sua própria história - ainda que tudo seja uma realidade distorcida do Japão. Com poucos diálogos e alguns toques de humor inteligentes, Estação Liberdade é um filme muito diferente do que estamos acostumados a ver. Possui alguns excessos estilísticos, mas consegue manter sua narrativa dentro de uma atmosfera original bastante particular na cinematografia brasileiro. O resultado pode não agradar a quem procura entretenimento fácil, mas quem conseguir desvendar o labirinto imagético criado por Ortiz poderá ter uma grata surpresa ao final do desafio proposto ao protagonista.  

Estação Liberdade (Brasil/2014) de Caíto Ortiz com Cauê Ito, Fabíula Nascimento, Kentaro Inoue e Carolina Sudati. ☻☻☻☻

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Entre Vales

Ângelo: do luxo ao lixo. 

O cineasta Phillippe Barcinski é responsável por um dos filmes mais interessantes que assisti nos últimos anos, trata-se de Não Por Acaso (2007), filme que mostra a essência urbana de São Paulo sob um prisma quase metafísico - sem ser chato ou pesado por conta disso. Entre Vales, seu filme seguinte demorou tempo demais para chegar às salas de cinema, tornou-se famoso no circuito de festivais, mas quando lançado, dividiu a opinião de público e crítica sobre a história calcada nas duas fases da vida de um homem. Vicente (Ângelo Antônio) é um economista bem empregado, que atua há anos na construção de aterros sanitários. Casado com uma dentista, com quem tem um filho,  a vida do personagem é bastante confortável. No entanto, o filme mescla essa vida comum com cenas onde Vicente vasculha um lixão. O que teria acontecido do conforto de sua vida domiciliar e profissional para ele mudar totalmente de vida? Isso é o que faz o espectador acompanhar o filme, mas quando chega ao fim, deixa a sensação de que faltou algo para ligar as duas partes. É verdade que o filme apresenta duas grandes perdas na vida de Vicente e que parecem determinantes na mudança que o personagem atravessa, mas ainda assim, elas são mostradas de forma tão breve em comparação aos vários minutos que se repetem com o protagonista no meio do lixo, que tive a impressão que todo o drama do personagem foi mal construído. Outro exemplo dessa economia da abordagem de aspectos fundamentais na vida de Vicente é o relacionamento com a esposa, que praticamente não é mostrado até o momento em que dão uma notícia devastadora para o menino que não entende muito bem o que está acontecendo (e eu me senti como ele), mas mal um assunto é desenvolvido, outro fato crucial acontece subitamente. Entendo que Barcinski não queria ser apelativo ou melodramático, preferindo mostrar Vicente revirando toneladas de lixo a maior parte do tempo, mas não sei se a coisa saiu como o pensado. O resultado é um filme frio e distante, que investe mais no apelo dramático do aterro do que na dissolução do protagonista, afinal, da forma como é mostrada (sendo quase acidental) tudo é apressado e sucinto demais para que Entre Vales se tornasse o belo filme que almeja ser. Da forma como a história é apresentada, tudo parece um tanto inverossímil demais. De belo, o filme tem somente a fotografia cuidadosa de Walter Carvalho (que torna aquele monte de entulho quase numa pintura), mas essa glamourização era mesmo a intenção do cineasta?

Entre Vales (Brasil/2012) de Phillippe Barcisnki com Ângelo Antonio, Fabiana Weneck, Inês Peixoto e Daniel Hendler. ☻☻

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Gata Velha Ainda Mia


Regina e Bárbara: deliciosamente esquisito. 

Regina Duarte é uma das atrizes mais conhecidas do Brasil, principalmente por seus trabalhos na televisão. No entanto, o público de acostumou a vê-la dentro de um determinado padrão de personagens, todos bem distantes do que ela encarna em Gata Velha Ainda Mia, longa de estreia do ator e dramaturgo Rafael Primot, integrante do Grupo Tapa desde 2001. Além de render à Regina um papel bastante diferente do que estamos habituados a vê-la, o filme mostra-se bastante engenhoso na construção de sua narrativa cheia de camadas e possibilidades, parecendo um parente de dois filmes brasileiros dramáticos que flertam com o horror (e dos quais eu gosto muito): Reflexões de Um Liquidificador/2010 e Trabalhar Cansa/2012. No filme de Primot a renomada atriz vive a escritora Gloria Polk, um ícone da literatura feminista, mas que não lança um único livro há dezessete anos. Prestes a resgatar sua personagem mais famosa em uma novo lançamento, Gloria aceita conceder uma entrevista à uma jornalista, Carolina (Bárbara Paz), que vê na oportunidade a chance de ser promovida. Porém, o que poderia ser uma entrevista trivial começa a mostrar-se um tanto complicada, já que Glória enfrenta uma crise para escrever o final de sua nova obra e surge Carol para realizar a entrevista. Gloria parece um tanto fora do eixo, alternando simpatia e mau humor nos primeiros minutos do encontro entre as duas. Esse é o ponto de partida para a tensão que se instaura entre as duas, já que a escritora não se contenta em dizer o que as leitoras e a jornalista gostariam de ouvir. Aos poucos a admiração de Carol torna-se estranhamento e as palavras de Carol se tornam mais ásperas, revelando uma pessoa difícil e amarga, ainda que repleta de tiradas certeiramente cortantes. Gloria parece de mal com o que as mulheres da geração seguinte fizeram com os ideais feministas  em preocupações com a aparência, hidratantes e casamentos confortáveis - enquanto Gloria teve que fazer quentinhas para fora e preparar banquetes exóticos para chefes de Estado para conseguir viver. Na pele da escritora, Regina Duarte está magistral descascando as várias camadas de sua personagem, indo da antipatia a um gestual mais sedutor em poucos segundos, revelando uma hostilidade cujos motivos são revelados aos poucos. Primot consegue conduzir a dinâmica entre as duas personagens de forma hipnótica, envolvendo o expectador nas várias nuances da entrevistada. Se o espectador ficar atento, perceberá os cortes que mudam a relação entre as duas e revelam um pouco do que se passa em cena - mesmo quando o filme se arrisca descambando para a crueldade trash envolta em segredos revelados em maquiagem pesada e papel laminado (mudando até a elegância apresentada por Carol de forma brusca). Com muitos planos fechados, trilha sonora densa, cenografia bem cuidada e atmosfera claustrofóbica, Gata Velha Ainda Mia surpreende pela desenvoltura como abraça a estranheza e revela as possibilidades de uma ideia na mente de um escritor (ou seria: nas entranhas sombrias de uma escritora?) - e com a ajuda de duas atrizes competentes o programa fica ainda mais interessante.  

Gata Velha Ainda Mia (Brasil/2014) de Rafael Primot com Regina Duarte, Rafael Primot e Gilda Nomacce. ☻☻☻☻

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Casa Grande

Thales e Novaes: relação à beira da falência. 

O longa de estreia do diretor Fellipe Barbosa tornou-se um dos filmes brasileiros mais elogiados do ano e realmente merece todos os elogios. Casa Grande é um filme que revela-se aos poucos, começa como uma salada de clichês sobre a classe média brasileira e aos poucos revela-se tão dramático quanto cômico ao retratar a família do jovem Jean (Thales Cavalcanti), que aos dezessete anos termina o Ensino Médio numa escola particular da elite carioca. Logo de início, o rapaz demonstra grande aptidão em repetir as frases do seu pai, Hugo (Marcello Novaes), um investidor desempregado que tem opiniões formadas sobre tudo, ainda que estas sejam construídas à base de frases prontas e propagadas sem muito aprofundamento (fique atento como algumas de suas frases são revistas e ironizadas ao longo do filme, seja sua contradição com relação às cotas raciais ou a sugestão de um amigo do filho estudar numa conceituada universidade particular). Ainda que Hugo esteja enfrentando dificuldades financeiras existe um verdadeiro jogo de aparências que tenta manter um estilo de vida caro demais para o seu bolso. A jacuzzi vive desligada por consumir muita energia, a conta do telefone anda mais cara do que deveria e as dívidas começam a se acumular (e ao longo do filme novas contas vão chegando). Ainda assim, podemos perceber que Jean e sua irmã Nathalie (Alice Melo) cresceram dentro de uma bolha de segurança que começa a ser ameaçada, sendo assim, não deixa de ser engraçado cenas como a primeira vez que Jean anda de ônibus e escuta o conselho da mãe zelosa (a ótima Suzana Pires) de que é importante separar o dinheiro para o ladrão. Quando se acostuma com a proposta do diretor, percebemos que o roteiro é uma espécie de amálgama do olhar de um grupo de pessoas sobre um mundo do qual julgam não fazer parte - mas todos fazemos parte da mesma realidade, embora possamos estar em posições diferentes e Casa Grande lembra disso o tempo inteiro (seja na forma como a família classe média trata os empregados ou nos conflitos que Jean começa a ter conforme enxerga o mundo com os próprios olhos). É no crescimento de Jean que o filme torna-se mais rico! Conforme seu protagonista começa a descobrir que todo aquele conforto é mais artificial do que pensava, o filme cresce quando Jean busca o seu lugar no mundo e, com isso, os conflitos com o pai são inevitáveis.  Enquanto ele cresce, o roteiro reserva observações pontuais sobre as relações de classe em nosso país, para isso, deixa muitos diálogos e preconceitos no ar, investindo na constante busca de Jean por relações mais acolhedoras (ainda que nem ele saiba ser muito acolhedor). Não é por acaso que o título remete ao clássico "Casa Grande e Senzala", o filme parece à uma releitura contemporânea das relações sinalizadas por Gilberto Freyre na sua obra lançada em 1933. O mais interessante é que Fellipe Barbosa aborda uma complicada rede de temas com grande desenvoltura, sem soar hermético ou pretensioso, talvez por isso, muita gente verá no filme o processo de amadurecimento de um adolescente, para os mais atentos, ele será o retrato de uma classe iludida à beira da falência. 

Casa Grande (Brasil/2015) de Fellipe Barbosa com Thales Cavalcanti, Marcello Novaes, Suzana Pires, Bruna Amaya, Georgiana Góes e Clarissa Pinheiro. ☻☻☻☻ 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Boa Sorte

Zappa e Secco: romance tarja preta. 

Ninguém pode ser filha de Arnaldo Jabour impunemente. Carolina Jabour estreou na direção ano passado com Boa Sorte, drama romântico - um tanto maluquete - estrelado por Déborah Secco, o que  lhe garantiu projeção e um certo estardalhaço por sua personagem ser soropositiva, ter experimentado drogas variadas e ainda se envolver com um garoto menor de idade. Deixando as polêmicas de lado, o longa funciona como um romance melancólico e tem algumas cenas que fazem bonito dentro da cinematografia nacional por sua originalidade e frescor. A história gira em torno de João (João Pedro Zappa), rapaz internado numa instituição psiquiátrica pelos pais (Felipe Camargo e Gisele Fróes) depois que cansaram de suas esquisitices. Não se sabe ao certo o que João tem, parece um tanto apático, meio deprimido e seus surtos de agressividade não ajudam muito. Na clínica ele conhece Judite (Débora Secco), uma garota mais velha que perdeu as estribeiras faz tempo. A impulsividade de Judite e a melancolia de João torna a atração entre eles quase irresistível e o filme desenha uma história de amor dentro de um cenário inusitado, regado a remédios variados e diálogos bem elaborados. Alguns disseram que a estreia de Carolina Jabour não prima pela naturalidade, mas com sua ambientação quase toda num único cenário, fica claro que a diretora deseja mesmo construir um mundo a parte - e onde mais João saberia a receita para ficar invisível, assim como os atos que o fazem tornar-se visível novamente (e isso explica muito sobre como ele foi parar na tal instituição). O filme caminha bem com as química entre o casal protagonista, Déborah está convincente como uma garota que paga um preço alto pelos excessos cometidos e Zappa acerta na construção de um adolescente que revela-se aos poucos para a plateia. Os dois funcionam tão bem que eu nem me importei dos coadjuvantes ficarem pelo meio do caminho, sem receber muita atenção no desenvolvimento da história, é como se Carolina dissesse que  o amor fizesse tudo o que está em torno do casal desaparecer - mas quando a realidade chama de volta a dor é inevitável.  Quando o clima pesa, a cineasta opta por uma bela sequência em animação inspirada pelos registros no diário de Judite, um momento de delicadeza tão sublime que o filme nem merecia as cenas um tanto bruscas que surgem depois, uma ruptura desnecessária com a leveza impressa anteriormente. Apesar do pai famoso, Carolina Jabour ficou famosa com seus trabalhos como jornalista e publicitária, além dos trabalhos na co-direção de programas de TV (como na série Comédia da Vida Privada), mas seu filme de estreia não parece especial para a Globo, seus planos são puramente cinematográficos. Pela forma como abraça as fantasias de seus personagens em busca de si mesmos (ainda que sobre o outro), invisíveis ou não à base de "Frontal com Fanta" (título do conto que inspira o filme), o filme dá até vontade de aguardar o próximo trabalho de Carolina como cineasta.  

Boa Sorte (Brasil/2014) de Carolina Jabour, com Déborah Secco, João Pedro Zappa, Cássia Kis Magro, Felipe Camargo, Enrique Diaz e Fernanda Montenegro. ☻☻☻

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Cão sem Dono

Julio & Tainá (e Contreras): intimidade espionada. 

A carreira do diretor Beto Brant pode ser dividida em duas partes. A primeira é formada por sua estreia em Os Matadores/1997 , (o enxuto) Ação Entre Amigos/1998 e (o irônico) O Invasor/2002. Os três são unidos pela narrativa ágil, pela violência e uma urgência poucas vezes vista até então na abordagem de temas pouco explorados na cinematografia brasileira, numa sintonia que beira a trilogia. Depois, o cinema de Brant ficou mais intimista, contemplativo e despojado, foi no estranhamento provocado por Crime Delicado (2005) que sua linguagem mudou radicalmente, gerando ainda Cão sem Dono (2007), O Amor Segundo B. Schianberg (2010) e Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011). Embora quase todos sejam em parceria com o texto de Marçal Aquino (a exceção é Schianberg), eu prefiro a fase anterior. Sempre tenho a impressão que Brant dilui cada vez mais o que fazia dele um diretor tão particular no cenário brasileiro. Seus filmes são mais lentos, as atuações são contidas (quase ao ponto da apatia) e as cenas não demonstram a mesma tensão inventiva de outrora. Há quem considere que isso demonstra amadurecimento do diretor, eu considero que o descaracteriza numa linguagem que já é utilizada por vários outros diretores que filmam a mesma coisa do mesmo jeito que tantos outros. Cão Sem Dono foi até elogiado pelo seu despojamento cênico, mas me parece uma obra de puro desânimo. É verdade que o trabalho de Brant parece nem existir nas atuações do seu elenco, resultando quase numa câmera oculta que espia a intimidade do jovem casal Ciro (Júlio Andrade) e Marcela (Tainá Müller). Ciro é tradutor e encontra dificuldades em conseguir trabalhos, Marcela tenta a carreira de modelo que parece nunca decolar. Os dois se conhecem e engatam um romance tórrido que é apresentado sem grandes sobressaltos, até o dia em que Marcela se despedirá. Então o filme começa sua segunda parte, que mostra Ciro procurando um novo rumo até uma perda que anuncia sua redenção amorosa. O filme é isso, uma história de amor comum, sobre pessoas comuns, filmada de forma comum, mas sem perder de vista as intenções de Brant nesse momento de sua carreira (desvendar as relações de poder nos relacionamentos amorosos). Ambientada em Porto Alegre, o filme faz questão de tornar a capital do Rio Grande do Sul tão cinzenta quanto a periferia de São Paulo - os próprios figurinos ressaltam isso numa ausência quase absoluta de cores. Sei que tudo pode ser proposital para tornar a obra de Brant mais próxima da realidade, mas não a realidade que você ou eu enxergamos, mas a realidade idealizada por ele para seu casal. Há quem considere que a proposta funciona, mas eu considero tudo um tanto artificial demais (especialmente quando o casal interage com seus coadjuvantes de fala embolada ou recitada). No fim das contas os maiores méritos ficam por conta da desinibição de Tainá Müller (que era modelo e em sua estreia ganhou alguns prêmios importantes nos Festivais brasileiros) e o talento de Júlio Andrade que tornou-se um dos atores mais requisitados do cinema nacional, graças à sua capacidade camaleônica (para quem não lembra o rapaz interpreta o assustador Gonzaguinha de Gonzaga: De Pai Para Filho/2012 - que convenceu até minha mãe de que estava diante de um fantasma do cantor).  Talvez seja uma falha eu não conseguir analisar o filme dissociado dos outros do cineasta, mas ainda não consigo crer que Cão Sem Dono seja um filme memorável. 

Cão sem Dono (Brasil/2007) de Beto Brant com Julio Andrade, Tainá Müller e Marcos Contreras. ☻

PL►Y: Vidas ao Vento

Horikoshi: o filme sério do mestre Miyazaki. 

Hayao Miyazaki é um mestre da animação desde a década de 1970, mas muita gente buscou sua obra somente depois que A Viagem de Chihiro (2001) ganhou o prêmio máximo do Festival de Berlim e o Oscar de melhor animação (derrotando os pesos pesados A Era do Gelo da Fox e Lilo e Stictch da Disney). Em 2013, o último filme de sua carreira (já que ele anunciou sua aposentadoria logo depois), teve a beleza ofuscada por uma polêmica envolvendo seu personagem principal. Ao contar a história do engenheiro aeronáutico Hijiro Horikoshi, o filme esbarrou no sucesso que seus projetos fizeram durante a Segunda Guerra Mundial (sendo usados especialmente no bombadeio à Pearl Harbour nos EUA). Obviamente que a biografia de Hijiro não seria bem vista pelos críticos americanos, mas ainda assim o bom senso fez com que o filme fosse indicado ao Oscar de Melhor Animação. Para além da qualidade técnica, Miyazaki ousou construir um filme não como um desenho para crianças, mas um filme que poderia ter sido realizado com atores de carne e osso. Em alguns momentos o roteiro até tem suas doses de fantasia, mas o tom na maior parte da sessão é realista e épico. Prova disso é a impressionante parte onde o filme retrata um terremoto que destruiu Tóquio em 1923, com seus estragos e desabrigados vistos com uma dramaticidade de precisão absoluta, capaz de fazer o público ser absorvido para a trajetória de Horikoshi entre os tempos difíceis que se anunciavam. É nesse episódio que o filme ganha cores mais românticas, por fazer o personagem encontrar pela primeira vez o amor em sua vida. Apesar de inspirador, essa parte da vida íntima do personagem tem muito de ficção, mas não atrapalha o desenvolvimento da história que capricha nos traços, cores e sonoplastia. Assim como o sofrimento do personagem diante de um romance fadado a ter fim antes do que devia, o filme explora os conflitos do personagem com a ligação de seus projetos às limitações de seu tempo (motores menos potentes do que precisava, materiais pesados demais...) e o vínculo com a indústria bélica e a cultura de guerra. Ao final da sessão, Vidas ao Vento resulta numa ode à inventividade humana e como a sede por poder e destruição pode absorvê-la de maneira perigosa. Tratas-se de um belo filme, mas incompreendido por muita gente. 

Vidas ao Vento (Kaze Tachinu/Japão-2013) com vozes de Hideaki Anno, Miori Takimoto e Mirai Shida. ☻☻☻☻

domingo, 6 de setembro de 2015

PL►Y: A Incrível História de Adaline

Michiel e Blake: fantasia romântica cheia de química. 

Apesar de badalada, Blake Lively ainda não havia me convencido de que era uma boa atriz, dessas que carregam um filme nas costas parecendo que é a coisa mais fácil do mundo. Pois com A Incrível História de Adaline a esposa de Ryan Reynolds (que conheceu nas filmagens do esquecível Lanterna Verde/2011) dá corpo às expectativas que depositavam sobre ela. Fazia três anos que atriz não aparecia na tela (precisamente depois do micado Selvagens/2012 de Oliver Stone) e nessa fantasia romântica ela aparece com fôlego para se tornar uma diva. Dirigido pelo jovem Lee Toland Krieger, o filme agrada sem muito esforço ao contar uma história complicada: a vida de uma mulher incapaz de envelhecer. O que poderia ser uma dádiva para muita gente, mostra-se uma espécie de maldição aos olhos de Adeline Bowman (Blake Lively). Adaline nasceu em 1908, casou, teve uma filha e ficou viúva. Aos vinte e nove anos sofreu um acidente que é apresentado como a causa de seu corpo se recusar a envelhecer (segundo o roteiro, os motivos para isso só serão descobertos em 2035... então tá!). Com a filha já crescida, Adeline percebe que sua vida pode estar em risco quando agentes do FBI começam a investigá-la e a personagem passa a fugir, auxiliada por identidades falsas. Começa então a jornada solitária da protagonista, que evita envolver-se amorosamente não apenas para manter seu segredo, mas por também ter receios em lidar com a morte das pessoas que ama. Quando ela conhece Ellis Jonas (Michiel Huisman) ela começa a repensar sua estratégia de sobrevivência - mas sempre que seu segredo é colocado em risco ela hesita em envolver-se emocionalmente. Ainda que decore o filme com alguns itens científicos,  Krieger capricha no tom romântico da história e deixa a fantasia permear a trama de forma discreta, sem exageros numa harmonia mais que eficiente. Pode se dizer que ele deve muito à atmosfera de O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) na criação de seu filme, mas ainda assim, consegue lhe atribuir um brilho próprio. Com bela fotografia, cadência correta e uma química invejável entre o elenco, A Incrível História de Adaline surpreende pela forma envolvente com que dribla as armadilhas do gênero e entrega justamente o que os fãs do gênero apreciam. Muito do mérito se deve à escolha de Lively para o papel principal (e precisam agradecer aos deuses do cinema por Katherine Heigl ter desistido do papel) que convence num papel complicado, mas vivido com elegância, serenidade e inteligência, evocando a imagem de uma mulher construída ao longo de um século de experiências. No entanto, devo registrar, a ótima atuação de Harrison Ford como o pai de Ellis e que torna-se fundamental para conclusão da história e da veterana Ellen Burstyn como a filha conselheira da protagonista. A Incrível História de Adaline foi uma das maiores surpresas de 2015.

A Incrível História de Adaline (The Ages of Adaline/EUA-2015) de  Lee Toland Krieger com Blake Lively, Micheil Huisman, Harrison Ford, Ellen Burstyn, Kathy Baker e amanda Crew. ☻☻☻