quarta-feira, 31 de agosto de 2016

HIGH FI✌E: AGOSTO

Cinco filmes assistidos no mês de agosto que merecem destaque:

As Montanhas se Separam (2015) de Zhangke Jia 
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De Longe Te Observo (2015) de Lorenzo Vigas 
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O Fantasma do Futuro (1995) de Mamoru Oshii 
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O Que Fazemos nas Sombras (2014) de Jemaine Clement e Taika Waititi 
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Tangerinas de Zaza Urushadze 
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terça-feira, 30 de agosto de 2016

FESTIVAL DE VENEZA - 2016

La La Land: Ryan Gosling e Emma Stone chegam à Veneza!

Nos últimos anos o Festival de Veneza começou a ser uma espécie de primeira olhada no que a temporada de prêmios reserva para nós - já que vários filmes exibidos em Veneza ganham fôlego para uma jornada que culmina no Oscar do ano que vem. Entre os filmes que vale a pena ficar de olho nessa retal final do ano são o musical de Damien Chazelle (que abrirá o Festival), o novo drama romântico de Derek Cianfrance, a biografia de Jaqueline Kennedy assinada pelo chileno Pablo Larraín o segundo filme assinado pelo estilista Tom Ford, a esperada novidade da cult Ana Lily Amirpour e a ficção científica assinada pelo canadense Dennis Villeneuve. Entre os veteranos estão os novos filmes de Terrence Mallick, François Ozon, Emir Kusturica e Win Wenders - que sempre chamam atenção dos distribuidores mundiais. A seguir todos os presentes na mostra competitiva desse ano em que o Festival começa no dia 31 de agosto e revela o contemplado com o Leão de Ouro no dia 10 de setembro. 

“The Bad Batch” de Ana Lily Amirpour
“Une Vie” de Stephane Brizé
“La La Land” de Damien Chazelle
“A Luz Entre Oceanos” de Derek Cianfrance
“El ciudadano ilustre” de Mariano Cohn e Gaston Duprat
“Spira Mirabilis” de Massimo D’Anolfi e Martina Parenti
“The Woman Who Left” de Lav Diaz
“La Region Salvaje” de Amat Escalante
“Nocturnal Animals” de Tom Ford
“Piuma” de Roan Johnson
“Paradise” de Andrei Konchalovsky
“Brimstone” de Martin Koolhoven
“On the Milky Road” de Emir Kusturica
“Jackie” de Pablo Larraín
“Voyage of Time” de Terrence Malick
“El Cristo Ciego” de Christopher Murray
“Frantz” de François Ozon
“Questi Giorni” de Giuseppe Piccioni
“Arrival” de Denis Villeneuve
“The Beautiful Days of Aranjuez” de Wim Wenders

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Na Tela: Um Dia Perfeito

Fedja, Olga, Tim, Mélanie e Benicio: problemas enfrentados com otimismo. 

Infelizmente eu admito que tenho preconceitos com filmes que se aventuram a fazer comédia sobre assuntos sérios. Geralmente para ver esse tipo de filme eu preciso de muita boa vontade, estão nesse grupo filmes que tocam em assuntos delicados de forma mais leve como o holocaustiano A Vida é Bela/1997 (que eu detesto) e o câncer de 50% (2012). Recentemente chegou aos cinemas brasileiros Um Dia Perfeito, filme que mostra (de forma bem humorada) o cotidiano de um grupo de ajuda humanitária que atuoou nos Balcãs em meados de 1990. A trama gira em torno de um corpo em decomposição encontrado dentro do poço de um vilarejo e que o grupo precisa retirar para não contaminar a água da população local. Se o primeiro problema é a falta de uma corda adequada para o serviço, ao longo do dia eles irão se deparar com outras dificuldades, seja com a população, com os soldados, políticas locais... como deu para perceber de perfeito o dia não tem nada e, justamente pelo toque de ironia que perpassa todo o filme, que o diretor espanhol Fernando León de Aranoa alcança um bom resultado ao final da sessão. Este é o primeiro filme em língua inglesa do diretor que ficou conhecido por seu trabalho em Segunda-Feira ao Sol (2001) estrelado por Javier Bardem, que tentou uma vaga no Oscar de filme estrangeiro em 2002. Aqui Aranoa também apresenta uma trama com teor humanista e valorizado pelo elenco, afinal ele conta com Tim Robbins, Benicio Del Toro, Olga Kurylenko e os pouco conhecidos Mélanie Thierry e Fedja Stukan que dão conta de manter o ritmo da narrativa perante os problemas que enfrentam. Nas andanças do grupo o que vemos são os horrores da guerra pelo olhar estrangeiro, por isso mesmo, o olhar torna-se muito próximo do espectador quando se deparam com minas terrestres, vítimas da guerra ou soldados fazendo novos prisioneiros. Esse distanciamento funciona, mas paga o preço de perder o olhar dos cidadãos que observam a guerra devastar suas vidas (e essa fagulha quase acontece quando o grupo se depara com um menino que pretende recuperar uma bola em sua antiga casa). Ao final da sessão percebe-se que existe boa vontade por parte do grupo, mas também uma atmosfera de inércia que impossibilita ações mais efetivas para o auxílio dos moradores. Em meio a contradições políticas tratadas com ironia, Aranoa consegue construir um filme que prende a atenção com a urgência de sua narrativa embalada pela trilha pop (Lou Reed, Marilyn Manson, Ramones...), além de homenagear homens e mulheres que se dedicam a ajudar a população vítima de conflitos sem sentido ao redor do mundo - e sem perder o otimismo.

Um Dia Perfeito (A Perfect Day / Espanha - 2015) de Fernando León de Aranoa com Benicio Del Toto, Tim Robbins, Olga Kurylenlo, Mélanie Thierry, Fedja Stukan e Sergi López. ☻☻☻

domingo, 28 de agosto de 2016

Na Tela: De Longe Te Observo

Luis e Alfredo: mais do que fantasias.

Causou espanto no Festival de Veneza no ano passado quando foi anunciado que o grande vencedor do Leão de Ouro (prêmio máximo do Festival) foi o venezuelano De longe Te Observo, nada mal para o diretor estreante Lorenzo Vigas que viu sua obra se sobrepor a de nomes como Charlie Kauffman, Tom Hooper, Alexander Sokurov e Atom Egoyan. Vigas constrói um filme bastante provocador, centrado na figura de Armando (o ícone chileno Alfredo Castro), um homem maduro e estranho que convida jovens rapazes para ir ao seu apartamento para observá-los sem roupa. Armando poderia ser apenas mais um voyeur se não conhecesse o jovem Elder (Luis Silva), rapaz agressivo, homofóbico e envolvido com gangues de rua. Se o primeiro encontro entre os dois foge do controle de Armando, aos poucos, o interesse dele só cresce em torno do rapaz. Começa então um verdadeiro jogo de sedução e poder entre os dois, no entanto, o final revela uma guinada que muda todo o sentido da relação que vemos durante toda a sessão (e se eu falar mais do que isso, estraga). O que poderia ser apenas mais um filme de homem mais velho que se apaixona por um jovem recebe cores duras nas mãos de Vigas e seu elenco, sem deixar de ressaltar (levemente) problemas sociais do Chile. Com a narrativa lenta, diálogos ásperos e uma história que se constrói fatos revelados aos poucos, o filme cria várias cenas que fazem jus ao título (inclusive a última) e que confirma o talento de Alfredo Castro para viver sujeitos ambíguos no cinema. Castro já viveu sujeitos estranhos em Tony Manero (2008) e O Clube (2015), mas aqui ele consegue transmitir mais sentimentos do que você imagina com um leve esboço de sorriso ou um olhar mais distante. Nas mãos do ator, Armando torna-se um verdadeiro enigma que nunca se contenta em ser apenas um admirador de rapazes (e acredite que durante o filme você irá perceber isso em várias cenas). Tão incômodo quanto sutil, De Longe te Observo é mais uma prova do vigor cinematográfico do cinema latino. 

De Longe te Observo (Desde Allá / Chile - México - 2015) de Lorenzo Vigas com Alfredo Castro, Jericó Montilla, Catherina Cardozo e Yvan Peña. ☻☻☻☻

4EVER: Gene Wilder

11 de junho de 193329 de agosto de 2016

Nascido na cidade de Milwaukee no estado de Winsonsin (EUA), Jerome Silberman ficou conhecido com o nome de Gene Wilder quando fez uma marcante participação no clássico Bonnie & Clyde (1967). Desde ali seu olhar chamou atenção por conseguir expressar sentimentos sem que fosse necessário dizer uma palavra. Essa habilidade rendeu sua escalação para Primavera para Hitler (1968) de Mel Brooks, filme que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar na categoria de ator coadjuvante. Em 1971 o ator daria vida ao papel que marcaria gerações de fãs, ao viver o excêntrico Willy Wonka dono da Fantástica Fábrica de Chocolate (1971), com este clássico o ator chegou ao estrelato em grande estilo, sendo indicado ao Globo de Ouro de Melhor ator de comédia ou musical. Wilder seria mais uma vez indicado ao Oscar por O Jovem Frankenstein (1974), só que na categoria de melhor roteiro original. Ainda que fosse capaz de interpretar personagens dramáticos, Wilder se popularizou por suas comédias de sucesso como Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo, Mas tinha medo de Perguntar (1972), Banzé no Oeste (1974) e A Dama de Vermelho (1984), além de várias parcerias com Richard Pryor e a personificação da Raposa na adaptação de O Pequeno Príncipe (1974). O ator faleceu em decorrência do mal de Alzheimer aos 83 anos após optar por viver fora dos holofotes de Hollywood desde 2003. 

PL►Y: O Valor de um Homem

Lindon: atuação premiada em Cannes. 

Na época da faculdade uma amiga era fã do ator Vincent Lindon (ela fazia até um trocadilho com o sobrenome dele, não dizendo o 'n' ao final). Se passaram mais de dez anos de lá para cá e o ator, que antes era visto como um galã francês, demonstra que sabe utilizar os efeitos do tempo a seu favor. Em O Valor de Um Homem ele volta a trabalhar com o cineasta Stéphane Brizé e a sintonia entre os dois lhe valeu um merecido prêmio de melhor ator no Festival de Cannes no ano passado. Lindon vive Thierry, um homem maduro desempregado, casado e com um filho portador de paralisia cerebral. Pelo que se percebe Thierry perdeu o emprego por conta da crise econômica europeia que afetou a usina em que trabalhava há décadas. Os dias de seguro desemprego estão chegando ao fim e o desespero de Thierry só aumenta conforme tenta se adequar aos modismos do mercado de trabalho. Entre cursos que não são valorizados e oficinas que parecem mais desmerecê-lo do que ajudar com seus problemas, Brizé utiliza a jornada de seu protagonista para mostrar o quanto o mercado pode ser cruel para os mais experientes que precisam lidar com um mundo mais competitivo e impessoal. Além do problema com o desemprego existem outros fatores que se juntam ao cotidiano do personagem, entre elas a sugestão de vender a casa própria que está quase quitada e a proximidade do ingresso do filho na faculdade. O filme investe numa linguagem quase documental, acompanhando alguns fatos da vida do personagem, portanto, não se incomode se em um momento ele está pedindo emprego e no outro ele tenta se distrair ao lado da esposa numa aula de dança. As coisas melhoram quando ele arranja emprego de segurança num supermercado, mas ele começa a incomodar quando o fantasma do desemprego começa a aparecer de uma forma diferente em sua rotina. No misto de responsabilidade e cansaço Vincent Lindon está perfeito como protagonista e carrega o filme nas costas diante da narrativa realista criada pelo diretor (e vale destacar uma naturalidade muito bem vinda com que mostra a rotina do casal com um filho com necessidades especiais). O filme me lembrou muito Dois Dias, Uma Noite (2014) dos irmãos Dardenne - filme que começou a carreira em Cannes2014 e rendeu à Marion Cotillard sua segunda indicação ao Oscar na pele de uma mulher que tentava recuperar o emprego. Ambas as obras investem em mostrar a dura realidade do desemprego e as leis do mercado (que é o título original do filme de Brizé), terminam de forma parecida, possuem um estilo semelhante e são valorizados por atores inspirados ao dar vida a pessoas comuns preocupadas com um problema cada vez mais comum nos dias atuais.

O Valor de Um Homem (La loi du marché/França-2015) de Stéphane Brizé com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Martthieu Schaller e Yves Ori. ☻☻☻

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Pódio: Tom Tykwer

Tom Tykwer
Tom Tykwer nasceu na cidade de Wuppertal em 1965, localizada na então Alemanha Ocidental. Tom desenvolveu gosto pelo cinema desde pequeno, começando a fazer filmes em super 8 quando tinha apenas onze anos de idade. Antes de tornar-se cineasta mudou-se para Berlim e trabalhou como projetista até organizar a programação de filmes de arte para a sala Moviemento, o que o tornou conhecido de vários cineastas. Em 1990 lançou seu primeiro curta-metragem profissional e se destacou entre os jovens cineastas alemães, ajudando a colocar o cinema de seu país entre os mais interessantes do mundo. Tykwer ficou famoso mundialmente em 1998 e, desde então, mostra-se um diretor (além de roteirista, produtor e compositor) que sempre vale a pena prestar atenção. O Pódio destaca minhas três obras favoritas do ambicioso cineasta:

O Bronze:  Ruiva Corredora.
Corra, Lola, Corra (1998)
O sucesso só encontrou Tykwer dez anos depois que começou os seus trabalhos. O motivo da consagração foi a narração vertiginosa que acompanha a heroína de cabelos vermelhos para salvar a vida do namorado. Com música eletrônica e uso de animações, você não precisa nem se preocupar se a personagem falhar, afinal, o filme começa a história novamente se algo der errado (como se fosse um game). Aclamado no Festival de Veneza o filme foi premiado em Sundance e indicado ao BAFTA de filme estrangeiro. 

A Prata: Ménage a Tròis
Triângulo Amoroso (2010)
Um dos grandes méritos do cinema de Tykwer é nunca investir na repetição, foi assim que ele surgiu todo diferente com uma história de amor pouco convencional entre um casal maduro (Sophie Rois e Devid Striesow) que se interessa pela mesma pessoa, no caso o simpático Simon (Sabastian Schipper). Sem se esquivar dos dilemas (e polêmicas) de um relacionamento a três, Tykwer realiza um filme que nunca cai na vulgaridade ou apelação, investindo nas sutilezas do encontro de três pessoas que se complementam. Com uma fluência narrativa impressionante, o filme é uma das melhores obras sobre relacionamentos que já assisti.  

O Ouro: Homem sem Cheiro
Perfume (2006)
O inglês Ben Whishaw é o ator favorito de Tom Tykwer - e basta ver Perfume para saber o motivo. Baseado no livro de Patrick Süskind, o filme conta a história de Jean-Baptiste (Whishaw) que já é concebido sendo rejeitado e cresce sem que seu corpo tenha qualquer odor. Ao crescer e conhecer um boticário, ele cria a obsessão de criar o melhor cheiro de todos - o problema é que para isso ele precisa assassinar mulheres e extrair as essências de suas vítimas. Uma fantasia estranha que rende calafrios, sobretudo pelas atuações e a produção tão exuberante quanto ambiciosa. Em breve será reconhecido como um clássico moderno!

Na Tela: Negócio das Arábias

Hanks nas arábias: boa atuação. 

O cineasta alemão Tom Tykwer ficou famoso mundialmente com Corra, Lola, Corra (1998), filme moderninho estrelado por Franka Potente e Moritz Bleibtreu que tinha a narrativa conduzida por inspirações que vinham dos games, da música eletrônica e desenho animado. Espertamente o diretor não investiu em repetir as mesmas modernices nos seus filmes posteriores, investindo em produções com narrativas bastante diferenciadas e com foco nas interpretações. Depois de dividir os créditos com os Wachowski no confuso A Viagem (2012), ele repete a parceria com Tom Hanks em Negócio das Arábias, comédia dramática que é menos do que poderia ser, mas que consegue entreter com a história de Alan Clay (Tom Hanks). Baseado no livro escrito pelo roteirista Dave Eggers, o roteiro de Tykwer investe na leveza para contar a história de um homem falido (profissionalmente e emocionalmente) que precisa ir até a Arábia Saudita convencer o monarca local a comprar um projetor 3D, ou seja, uma máquina de hologramas. Desde que chega a tarefa mostra que nunca será fácil, já que as condições de trabalhos são precárias (sua equipe, com três pessoas, precisa trabalhar numa tenda no meio do deserto, sem wi-fi, sem alimentação e, em breve, sem ar-condicionado), sorte (ou seria azar?) que o Rei nunca está disposto a assistir a apresentação do tal apetrecho. Aguardando o grande dia, Alan precisa lidar com suas próprias inseguranças, problemas de saúde, a saudade da filha e as investidas de uma dinamarquesa (enquanto está interessado por outra mulher), todos esses artifícios rendem material para que Tom Hanks exercite um humor sutil que há tempos não exercitava em sua carreira. Essa desenvoltura rende bons momentos, especialmente quando está em cena com o motorista Yousef (vivido por Alexander Black) que serve de porta de entrada para os (brandos) conflitos culturais que o filme apresenta. Tykwer faz um filme simpático, fácil de assistir, mas que demora para decolar - e quando o faz, não chega muito alto. Bem realizado o filme nunca aprofunda as angústias dos personagens (que não são poucas), com isso ele alcança leveza, mas perde densidade narrativa. 

Negócio das Arábias (A Hologram for the King / Reino Unido - Alemanha - França - México - EUA / 2016) de Tom Tykwer com Tom Hanks, Alexander Black, Sarita Choudhury e Tom Skerritt. ☻☻

Na Tela: As Montanhas se Separam

Tao e o filho: entre a modernidade e as tradições.

Indicado a Palma de Ouro em Cannes no ano passado o filme chinês As Montanhas se Separam conseguiu chamar atenção nas salas brasileiras com uma história que utiliza como pano de fundo as transformações ocorridas na China. Séria reducionista considerar que o filme trata de um triângulo amoroso, quando na verdade, ele investe em abordar algo muito mais complicado e abstrato: a identidade da população chinesa na virada do século. Quem conhece um pouco do sistema sócio-econômico e político do país, irá perceber que o diretor e roteirista Zhangke Jia decora seu filme com várias citações às mudanças que o país passou rumo ao século XXI - algo que é bastante comum em sua cinematografia. Não é por acaso que o filme começa em 1999 com a protagonista Shen Tao (vivida pela carismática atriz Shen Tao, esposa do cineasta) dançando ao som de Go West do Pet Shop Boys antes que conheçamos o tal "triângulo" formado por ela e os amigos Zhang (Yi Zhang) e Liang (Jing Dong Liang). Zhang acabou se formar em direito e já começou a acumular riquezas em sua carreira de empresário, enquanto isso, o humilde Liang ganha a vida trabalhando numa mina de carvão. Os dois são apaixonados por Tao, o que irá comprometer definitivamente a amizade de todos. Quando Liang perde o emprego nas minas de carvão e Zhang torna-se cada vez mais agressivo rumo aos seus objetivos, a plateia começa a imaginar o que acontecerá daqui para a frente... É quando o clima de romance tem um corte (depois dos quarenta minutos de projeção) e aparecem os créditos da abertura do filme. 

Liang e família: só problemas em 2014.

Ali percebemos que o cineasta quer construir partes quase distintas da história que vimos no início, afinal, as montanhas já estão separadas quando nos deparamos com Liang longe dos amigos e tentando tocar a vida até que lhe acontece um golpe do destino. Quando reencontramos Tao ela também não é mais aquela jovem alegre, um tanto desiludida pelas escolhas do passado, ela mal consegue ser amorosa com o filho de sete anos. Vale a pena lembrar que estamos diante de um filme chinês e não americano e, portanto, as emoções estão mais sufocadas, reprimidas à beira do insuportável quando o diretor promove os reencontros de seus personagens. Não satisfeito o filme avança até 2025 e aborda a crise de identidade do jovem Daole (Zijian Dong), também conhecido como Dollar, filho de Tao, que mora na Austrália, fala inglês, não consegue se comunicar com o pai e não lembra de suas raízes chinesas. Ao longo do filme, Zhangke Jia amplia o futuro de um mundo globalizado  (ou seria ocidentalizado? Go West!) onde as raízes se encontram fragilizadas, mas ainda podem ser fonte para descoberta de sua História. As Montanhas se Separam tem a a vantagem de em momento algum se contentar em seguir os caminhos mais convencionais da história que vemos em sua primeira parte. O longa pode incomodar com suas rupturas e abandono dos arcos que apresenta ao longo de suas mais de duas horas de projeção, mas isso é necessário para que suas ambições resulte na obra belamente triste que é, afinal, assim como fora da tela, fica a vontade de saber o que houve com as pessoas que fizeram parte da nossa trajetória pessoal, feita de de encontros e desencontros ao longo do tempo. Talvez por isso, as cenas finais deixem o sabor de que a memória  pode ser um confortável refúgio para o futuro que vislumbramos.

2025: Daole ou Dollar?

As Montanhas se Separam (Shan he gu ren / China - 2015) de Zhangke Jia com Shen Tao, Jing Dong Liang, Yi Zhang, Zijian Dong e Sylvia Chang. ☻☻☻☻