quarta-feira, 14 de setembro de 2016

PL►Y: Joe

Cage e Sheridan: no limite do abismo. 

Joe passa os dias trabalhando duro numa floresta e à noite costuma gastar o dinheiro com bebida e mulheres. Ele é um sujeito trabalhador, mas que reconhece seus problemas em conter os impulsos agressivos quando provocado, afinal, já possui vasto histórico junto à polícia loca. O ambiente em que vive conta muito, cercado de habitantes sórdidos, Joe não demonstra muito apego por ninguém daquele lugar, até que conhece o adolescente Gary, que aos quinze anos começa a trabalhar ao lado dele e enfrenta problemas com o pai abusivo. Ou seja, Joe é o tipo de papel que um ator como Nicolas Cage agradece quando aparece em seu caminho. Vale ressaltar que Cage está muito bem acompanhado por Tye Sheridan, que vive Gary e traz alento para a desilusão do protagonista diante de um mundo que apodrece diante dos seus olhos. Se Gary ainda tem a esperança que pelo trabalho poderá dar uma vida melhor para sua família, para Joe zelar por Gary torna-se sua única motivação - especialmente quando ele percebe que o pai do menino (vivido pelo assustador Gary Poulter) é um sujeito abusivo e sempre metido em confusão. O diretor David Gordon Green ferve a mistura desses personagens adicionando ainda um desafeto de Joe à receita: Willie-Russell (Ronie Gene Blevins, um tanto caricato) que é mais uma encarnação do mal que cruza o caminho dos personagens. Green prova, mais uma vez, ser um diretor de extremos, sendo capaz de criar comédias completamente idiotas (como Segurando as Pontas/2008 e Sua Alteza?/2011) e dramas autorais como Príncipes da Estrada/2013 este aqui. Seu problema com os dramas é a montagem, sempre lenta, arrastada e com cenas que soam improvisadas (e que podem ter ficado de fora na edição final). Em alguns momentos Joe parece testar a paciência do espectador, desperdiçando boas ideias que poderiam resultar mais impactantes numa montagem mais enxuta em suas quase duas horas de duração. A grande sorte é que o cineasta é bom na condução de seus atores, e aqui conta com momentos  inspiradas do elenco, sobretudo de Sheridan que é a encarnação de todo o caráter que Joe ainda precisa acreditar que existe no mundo (e não irá deixar nem que o pai destrua isso) e do próprio Cage que tem sua melhor atuação em muito tempo - de vez em quando o astro (desperdiçado em vários filmes de ação) olha para a estante de e vê aquele Oscar reluzente (recebido por Despedida em Las Vegas/1995) e lembra que consegue carregar um filme nas costas sem dificuldades. Desde Kick-Ass (2010) que ele não fazia um filme digno de lembrança (mas, ironicamente, Joe é de 2013 e, após vários adiamentos chegou diretamente em DVD no mês de junho). 

Joe (EUA/2013) de David Gordon Green com Nicolas Cage, Tye Sheridan, Gary Poulter, Ronie Gene Blevins e Adriene Mishler. ☻☻

terça-feira, 13 de setembro de 2016

§8^) Fac Simile: Kate Beckinsale

Kathryn Romary Beckinsale
Em meio a divulgação do seu novo filme, Amor & Amizade - adaptação do livro Lady Susan de Jane Austen - nosso repórter imaginário conseguiu uma entrevista com a atriz que contou um pouco de como foi fazer um filme onde não tem que perseguir monstros ou assassinos no set de filmagem. Kate aceitou responder cinco perguntas nessa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Foi difícil fazer um filme tão diferente?

Kate Na verdade eu estou voltando às minhas origens! Passei tanto tempo fazendo comédias e filmes de ação em Hollywood que as pessoas não lembram que eu sou inglesa. Eu era uma atriz de teatro em Londres! Meu primeiro trabalho no cinema foi fazendo Shakespeare com Kenneth Branagh, eu fui a noiva caluniada de Muito Barulho por Nada (1993). Depois as pessoas acharam que eu só servia para ser a caçadora de monstros mais linda do mundo (rs). 

§8^) As pessoas estão realmente surpresas com sua atuação na pele de Lady Susan e já comentam que provavelmente será indicada ao Globo de Ouro por sua atuação, como você percebe isso?

Kate Eu acho que o reconhecimento por um bom trabalho! Lady Susan é uma personagem deliciosa de fazer, ela não é uma mocinha e tem aquela ambiguidade astuta de uma mulher perigosa. Ver isso num filme de época já é bastante divertido. Espero que agora as pessoas lembrem de mim para viver personagens mais complicados. Geralmente eles preferem chamar Kate Winslet, Nicole Kidman ou  Cate Blanchet para esse tipo de papel! Elas são ótimas, mas eu também queria ter uma chance de ser vista como atriz séria!

§8^) Eu pensei que isso aconteceria depois que você interpretou Ava Gardner em Aviador de Martin Scorsese...

Kate Eu também! Nossa, eu tive que engordar muito para interpretar Ava. Eu me sentia enorme de gorda e tinha que repetir para mim mesma que eu era a mulher mais linda do mundo! Foi complicado! Adorei o Scorsese confiar o papel para mim... mas o de Cate Blanchett foi maior e ela levou o Oscar... bem... a vida segue...

§8^) Amor & Amizade marca o seu reencontro com o diretor Whit Stillman. Como foi trabalhar com ele depois de quase vinte anos? 

Kate Gosto muito do trabalho de Whit e foi muito interessante trabalhar com ele depois de tanto tempo. O mais engraçado foi que de lá para cá ele só dirigiu um filme e eu atuei em mais de vinte! Muita coisa mudou. Por isso gosto de reencontrar diretores, OUVIU SCORSESE!!! Eu adoraria trabalhar de novo com SCORSESE!! Eu também queria trabalhar novamente com John Schlesinger, com quem fiz Em Busca da Felicidade/1995, mas ele faleceu em 2003 depois de se estressar com a Madonna no último filme dele... 

§8^) Você voltará a viver a caçadora Selene no próximo filme da série Underworld, o aguardado Guerras de Sangue previsto para o ano que vem, este será seu último filme na série?

Kate Isso vai depender dos próximos convites que eu receber para filmar. Sempre acho que o Spielberg poderia me ligar, ou os irmãos Coen, Darren Aronofsky ou SCORSESE... mas esses meninos sempre ficam tímidos... eu também queria que a MARVEL me ligasse qualquer dia desses! Eu adoraria fazer a Mulher Hulk! Acho que seria ótimo! Acho que eu ficaria sexy verde... Mas se o SCORSESE me ligar primeiro eu nem penso duas vezes...

Na Tela: Amor & Amizade

Kate e Samuel: romance controverso. 

É engraçado como o cinema gosta de associar a literatura de Jane Austen a títulos que agregam dois sentimentos. Razão e Sensibilidade (1995) e Orgulho e Preconceito (2005) já foram batizados assim pela cultuada escritora, mas até quando Jane recebeu uma cinebiografia a fórmula foi usada sob o título Amor e Inocência (2007). Agora é a vez do romance Lady Susan chegar às telas com o nome de Amor e Amizade, com a assinatura curiosa de Whit Stillman. Stillman estreou no cinema aos 23 anos com o cult Metropolitan (1990), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de roteiro original ao retratar a alta classe de Manhattan. Depois ele dirigiu mais três filmes (Barcelona/1994, Os Últimos Embalos da Disco/1998 e Descobrindo o Amor/2011), todos com um tipo de humor bastante específico que encontra espaço entre os apreciadores do cinema independente. Filmando fora de sua cartilha habitual, Stillman faz um filme de época divertido que consegue conciliar a fina observação de época de Austen com seu senso se humor peculiar. O diretor ainda teve a ótima ideia de convidar Kate Beckinsale para viver a anti-heroína Lady Susan, escapando da obviedade de uma penca de atrizes que desejavam o papel. Depois de décadas fazendo filmes de ação onde corria atrás de vampiros e lobisomens, Kate tem aqui a chance de mostrar que sabe ser uma atriz de sutilezas num papel que pensa exatamente o oposto do que está dizendo. Embora não seja uma vilã, Susan é uma articuladora nata, que utiliza sua inteligência para sobreviver após tornar-se viúva. Ela pretende arranjar um rentável casamento para sua filha, Frederica (Morfydd Clark), mesmo que seja com o panaca Sir James Martin (Tom Bennett, divertidíssimo com uma postura que vai contra todos os personagens masculinos que já passaram pelas adaptações austenianas para o cinema). Nas investidas Susan conta com ajuda da amiga americana Alicia (Chloe Sevigny, discretíssima), cuja amizade não é bem vista pelo esposo, Mr. Johnson (Stephen Fry em participação especial), afinal, a fama de Susan é péssima - e só piora conforme ela procura abrigo na casa de amigas. Enquanto não consegue ajeitar sua vida financeira, Susan passa um tempo na casa da gentil Catherine (Emma Greenwell) e chama a atenção do irmão desta, o jovem cavalheiro Reginald DeCourcy (Xavier Samuel) - deixando a família DeCourcy em pânico com qualquer chance de envolvimento que possa haver entre os dois. Apresentando uma dezena de personagens de uma forma peculiar, Amor & Amizade se desenvolve sem pressa, deixando que a trajetória dos personagens se misturem numa narrativa bastante fluída que comprova, mais uma vez, o talento de Stillman em lidar com elencos numerosos - e não foi por acaso que ele convidou Kate e Chloe para o projeto (os três trabalharam juntos em Os Últimos Embalos da Disco), a  cumplicidade entre o diretor e as atrizes é sentida aqui mais uma vez num texto cheio de ironias e relações amorosas surpreendentes. Com boas atuações, roteiro bem lapidado e competente reconstituição de época Amor & Amizade é bastante agradável de se assistir, sobretudo pela desenvoltura de Beckinsale em viver uma raposa em pele de lady, com direito à voz doce emoldurando diálogos que soam como verdadeiras alfinetadas. 

Amor & Amizade (Love & Friendship / Irlanda - Noruega - França - EUA - Reino Unido / 2016) de With Stillman com Kate Beckinsale, Xavier Samuel, Chloe Sevigny, Tom Bennett e Morfydd Clark. ☻☻☻

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

PL►Y: Elvis & Nixon

Spacey e Shannon: encontro inusitado. 

Já era inusitado prever o encontro entre Elvis Presley e o presidente Richard Nixon no ano de 1970. A coisa fica ainda mais esquisita quando se sabe que o encontro ocorreu graças a uma carta de seis páginas enviada por Elvis ao então presidente americano tentando convencê-lo a ser nomeado agente do FBI. A diretora Liza Johnson percebeu que tudo se tratava mais do que um encontro, mas um verdadeiro choque entre dois mundos e elaborou um roteiro que explora as ironias que perpassam o encontro. O Elvis que vemos na tela é bem mais sereno do que o Rei do Rock sacolejante enfrentando problemas com a fama e o casamento com Priscila Presley, talvez por isso a diretora tenha escolhido Michael Shannon para viver essa versão diferente do astro. Shannon é uma ator de primeira, mas não se parece em nada com o cantor e, sabendo disso, não se preocupa em imitá-lo, preferindo investir em nuances que o público não estava acostumado a ver. Durante o filme não se tem ideia dos reais motivos que levaram o cantor a pedir para ser um agente do FBI (ou você acreditou naquela história de trabalhar disfarçado, aff!), mas os diálogos que se desenvolvem a partir desse ponto de partida conseguem ser bastante divertidos. Afinal, para além da tietagem em torno de Elvis, os assessores de Nixon (vivido por Kevin Spacey que se esforça em imitar Nixon em seus olhares e trejeitos) percebem o quanto aquele encontro pode tornar o presidente mais popular entre os jovens. Da mesma forma, os assistentes de Elvis (Alex Pettyfer e Johnny Knoxville) estão ansiosos por finalmente conhecerem um presidente estadounidense. Entre arranjos de um lado e do outro (Elvis chega a se apresentar com um nome falso para evitar alarde na Casa Branca) o encontro começa a ganhar forma com alfinetadas no mundo da fama e da política (onde os dois personagens entraram por portas bastante específicas). Elvis & Nixon tem um delicioso tom de crônica sobre o que havia por trás da foto mais requisitada do Arquivo Nacional do Governo dos Estados Unidos e não perde a chance de usar um humor bastante sutil para contar sua história. 

Elvis & Nixon (EUA-2016) de Liza Johnson com Michael Shannon, Kevin Spacey, Colin Hanks, Alex Pettyfer, Johnny Knoxville, Evan Peters e Sky Ferreira. ☻☻☻

sábado, 10 de setembro de 2016

PREMIADOS FESTIVAL DE VENEZA 2016

Frantz: derrotado por quatro horas de filme.

Foi um tanto inesperado quando The Woman who Left do filipino Laz Diaz levou para a casa o Leão de Ouro do Festival de Veneza-2016. O filme em preto e branco, com quatro horas de duração, gerou piadas ao ser exibido, sendo chamado de "o curta" de Diaz - já que seu filme anterior (Lullaby to the Sorrowful Mistery) exibido no Festival de Berlim tinha oito horas de duração (!!!) e seu longa realizado em 2007 (Death in the land of Encantos) tinha nove (!!!!!). O filme sobre uma mulher que passa 30 anos presa injustamente arrebatou o júri do Festival por sua coesão com a história filipina. Outra curiosidade foi reconhecer o nome do carismático ator português Nuno Lopes (que já fez até novela no Brasil) entre os premiados. Veneza apontou outros filmes que devem chamar a atenção na temporada de prêmios que se aproxima - como o musical La la Land de Damien Chazelle que coroou Emma Stone como a melhor atriz do Festival, Jackie que conta os dias de Jacqueline Kennedy (vivida por Natalie Portman) após a morte de John Kennedy e Nocturnal Animals que prova o quanto Tom Ford não teve sorte de principiante em 2009, quando conseguiu elogios por A Single Man (no brasil, Direito de Amar...). A seguir todos os premiados da edição 2006 de Veneza. 

Leão de Ouro
"The Woman Who Left" de Lav Diaz

Grand Jury Prize
"Nocturnal Animals" de  Tom Ford

Leão de Prata de Melhor Diretor 
Amat Escalante (La Region Salvaje)
Andrei Konchalovsky (Paradise)

Volpi Cup / Melhor Atriz
 Emma Stone (La La Land)

Volpi Cup/Melhor Ator
Oscar Martinez (El Ciudadano Ilustre)

Melhor Roteiro  
Noah Oppenheim (Jackie)

Special Jury Prize
"The Bad Batch" de Ana Lily Amirpour

Revelação
Paula Beer (Frantz)

Veneza Horizons - Mostra Secundária

Melhor Filme
"Liberami" de Federica Di Giacomo

Melhor Diretor
Fien Troch (Home)

Special Jury Prize
"Big Big World" de Reha Erdem

Melhor Atriz
Ruth Diaz (The Fury Of A Patient Man)

Melhor Ator
Nuno Lopes (São Jorge)

Melhor Roteiro
Wang Bing (Bitter Money)

Melhor Curta-Metragem
"La Voz Perdida" de Marcelo Martinessi


Melhor Filme de Estreia
"The Last Of Us" de Ala Eddine Slim

CICLO VERDE E AMARELO: Meu Amigo Hindu

Dafoe e Maria Fernanda: entre dores e amores. 

Acho justo terminar o Ciclo Verde e Amarelo de 2016 escrevendo sobre o último filme do cineasta Hector Babenco, que faleceu recentemente aos 70 anos no dia 13 de julho. O primeiro cineasta latino a ser indicado ao Oscar de melhor diretor (pelo antológico O Beijo da Mulher Aranha/) sempre rejeitou dizer que Meu Amigo Hindu era um filme biográfico, ainda que seja inspirado no período em que enfrentou um doloroso tratamento contra um câncer. Babenco ofereceu o papel do cineasta Diego para vários atores brasileiros - que rejeitaram o projeto - e acabou nas mãos de Willem Dafoe quase que por acaso após um jantar entre diretor e o ator. Por conta do interesse de Dafoe, os atores brasileiros, que já estavam no projeto, tiveram que filmar em inglês para depois dublar suas atuações em português.  No Brasil o filme foi lançado em versões dubladas e legendadas, ambas causando estranhamento do público, mas passada essa sensação, o que vemos é uma obra que demonstra porque Babenco era um cineasta cultuado por cinéfilos ao redor do mundo. Sei que a maioria das pessoas não irá gostar das primeiras cenas do filme (especialmente as do casamento repleto de comentários cortantes), mas vale a pena resistir a esses momentos em que os personagens são apresentados (e Diego visto como uma pessoa um tanto desagradável) e ser compensado por todo o resto. Do período de tratamento nos Estados Unidos, passando pelo retorno ao Brasil e a crise no casamento com a esposa (Maria Fernanda Cândido), o filme tem bons momentos, especialmente quando investe num tom delirante. São nesses delírios que Babenco entrega as melhores cenas, fazendo bonito com o melhor uso dos atores e da bela fotografia. Nesses momentos surreais o destaque fica por conta de Selton Mello, numa variação da Morte que visita Diego no hospital (e com quem joga xadrez), às vezes acompanhado por uma atriz de visual bastante peculiar. Como Babenco não é chegado a convenções, seu protagonista não irá encontrar o sentido da vida, tornar-se uma pessoas mais humilde ou espiritualizada, tão pouco encontrar a redenção, pelo contrário, ele pretende apenas sobreviver e, por conta disso, não deixa de expressar sua personalidade forte, bem distante dos tipos frágeis que aparecem nesse tipo de filme. No entanto, não falta momentos sensíveis em sua jornada, o próprio título se refere a um menino hindu que lhe fez companhia no hospital e que o faz reencontrar o prazer de contar histórias (e as poucas cenas entre os dois alcançam uma ternura que contrasta muito bem com as cenas amargas). Ainda que não seja uma biografia, Babenco empresta muito de sua história pessoal para Diego, da carreira como cineasta ao encontro com a atriz Bárbara Paz (que está ótima, especialmente em sua surpreendente última cena), o filme revisita pontos específicos da vida de seu autor, momentos felizes e outros bastante densos (inclusive quando termina o tratamento e precisa juntar o que sobrou de sua vida) mas, sobretudo, mostra-se uma declaração de amor ao cinema (especialmente por musicais, o que não deixa de ser uma grande surpresa para os fãs do diretor). Se Meu Amigo Hindu não é a obra-prima que muitos esperavam, pelo menos honra a carreira do diretor que sempre escapou do óbvio e ousava provocar a plateia enquanto contava suas histórias numa telona.  Babenco não está mais fisicamente entre nós, mas seu legado o faz eterno.

Meu Amigo Hindu (Brasil/2016) de Hector Babenco com Willem Dafoe, Maria Fernanda Cândido, Selton Mello, Bárbara Paz e Guilherme Weber. ☻☻☻

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: De Onde eu Te Vejo

Denise e Domingos: separação bem próxima...

Li em algum site um espectador reclamando que pelo trailer ele já sabia o final de De Onde Eu Te Vejo - e por isso mesmo o filme merecia apenas uma estrela (numa cotação de cinco, sendo que o site classificou o filme com quatro). Sinceramente, não me importo se um trailer já me mostra como o filme termina, o que me interessa é como o diretor irá manter minha atenção até chegar no final da história que ele conta - e isso Luis Villaça faz muito bem. Faz tempo que Villaça e sua esposa, Denise Fraga, investem num tipo de filme bastante específico no cinema brasileiro, longe de apelação e do humor fácil, sempre buscam contar histórias de pessoas comuns com bom humor e sensibilidade para abordar os problemas que encontram pelo caminho (seja no cinema ou na televisão). Em De Onde eu Te Vejo, a dupla toca em questões importantes enquanto nos fazem pensar que estamos diante de uma comédia romântica das mais simpáticas. Ana Lúcia (a sempre interessante Denise Fraga) decidiu se separar de Fábio (Domingos Montagner, ótimo em seu primeiro papel de destaque no cinema) após vinte anos de união. Ela ficou com o apartamento, onde mora com a filha e Fábio conseguiu alugar um outro no prédio ao lado - e sua janela fica exatamente de frente para o apartamento da esposa. A ideia já é suficiente para render piadas e reflexões sobre essa relação de separação tão próxima, mas o filme quer tratar de algo mais. Se o sentimento de isolamento de Fábio é mais evidente, com a filha do casal (Manoela Aliperti)  prestes a ir para a faculdade, a ideia de solidão também começa a rondar a mente de Ana Lúcia em seu ninho vazio. Não bastasse isso, a vida profissional do ex-casal também atravessará mudanças que servirão para o sub-texto que perpassa todo o filme: a renovação. Durante toda a história surgem personagens que por um motivo ou outro, conversam sobre as mudanças que observam na cidade. Espaços fecharam, outros são demolidos ou deram lugar para outros que emolduram a ideia do casamento desfeito de um casal que ainda se gosta e que nem sabe muito bem porque não funciona mais sob o mesmo teto. Se para Ana, sempre atraída por novidades e por sentidos cósmicos da existência, seu casamento não tem mais jeito, para Fábio é sempre possível tentar mais um pouquinho. Entre o novo e o velho, o conforto da rotina do casamento (ou o tédio alicerçado sobre a mesma rotina) ou a (nada) simples passagem do tempo, Villaça e Denise promovem um filme leve que não perde a oportunidade de fazer o público pensar sobre o mundo ao seu redor - cabendo destacar aqui como o diretor utiliza as locações na cidade de São Paulo de forma irresistível.  De Onde eu Te Vejo já está na minha lista de comédias favoritas do ano (e dos que verei várias vezes) e só para destacar ainda mais as qualidades do filme, ele foi quase todo filmado em estúdio - o que possibilita belos movimentos de câmera  e o uso preciso de especiais em boa parte das cenas. Arrisco dizer que é o melhor filme de Luis Villaça ao lado de Denise Fraga. 

De Onde Eu Te Vejo (Brasil/2016) de Luis Villaça com Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti e Marisa Orth. ☻☻☻

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: Muitos Homens Num Só

Vladimir e Alice: romance policial de época. 

O cinema parece território fértil para anti-heróis, principalmente porque as ambiguidades desses personagens, quando bem estruturados, podem render histórias muito interessantes. O curioso foi que até o final da sessão eu não sabia que a história de Muitos Homens Num Só é baseada em fatos reais, especificamente nas histórias que João do Rio (heterônimo de Paulo Barreto) escrevia para os folhetins sobre um misterioso ladrão dos hotéis cariocas do início do século XX conhecido como Dr. Antônio. As histórias acabaram reunidas no livro Memórias de um Rato de Hotel que serve inspiração para esse filme da cineasta Mini Kerti. Vladimir Brichta está ótimo na pele do protagonista escorregadio, afinal, some a estampa do ator à elegância e inteligência do roteiro e você terá um homem acima de qualquer suspeita (e ele até brinca com isso durante o filme). Utilizando diversas identidades diferentes, o doutor se hospeda em hotéis de luxo na Cidade do Rio de Janeiro para roubar jóias e pertences valiosos de seus hóspedes. Sem estabelecer laços emocionais com quem atravessa seus caminho, ele parece uma espécie de fantasma que começava a fazer parte das lendas urbanas cariocas. No entanto, a vida do doutor se complica quando precisa realizar um ousado roubo para o mentor Velléz (César Troncos) e acaba conhecendo Eva (Alice Braga), a insatisfeita esposa de Jorge (Pedro Brício). A dupla Alice e Vladimir torna palpável a atração entre os dois personagens, sem precisar de muitas explicações para justificar como um complementará o outro num romance proibido.  A diretora ainda demonstra bastante habilidade para explorar gêneros diferentes dentro do mesmo filme, capricha no romance, no suspense e no tom policialesco diante das investigações de um certo Félix Pacheco (Caio Blat) com a esperança de encontrar o lendário ladrão. É na parte policial que o filme apresenta sua parte mais curiosa ao fazer referências aos estudos de antropometria para identificação de criminosos - até que Félix estabelece uma referência importante para as investigações (e que existe até hoje). Também vale destacar a presença de Silvio Guindane como o cético jornalista que se interessa pela história do bandido doutor e não acredita em nenhum dos métodos científicos do amigo investigador. Outra atração a parte é a reconstituição de época primorosa, ainda mais valorizada pelos cenários mais glamourosos do Rio de Janeiro no início do século passado. Embora não tenha chamado muita atenção ao chegar aos cinemas no ano passado, Muitos Homens num Só é um filme cheio de méritos e, por isso mesmo, levou 10 prêmios no CinePE, incluindo filme, direção, ator, atriz e trilha sonora (assinada por Dado Villa Lobos).

Muitos Homens Num Só (Brasil-2014) de Mini Kerti com Vladimir Brichta, Alice Braga, César Troncos, Pedro Brício, Caio Blat e Silvio Guindane. ☻☻☻

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

CICLO VERDE E AMARELO: A Marvada Carne

Adilson e Fernanda: romance (quase) folclórico. 

André Klotzel está entre os meus cineastas favoritos, pena que ele filma pouco. Com quatro filmes no currículo, o diretor chamou atenção desde sua estreia com o premiado A Marvada Carne (e com o sotaque interiorano fica ainda mais gostoso de dizer esse título)! O mais incrível é que três décadas depois, o filme ainda se garante (com facilidade) entre uma das obras mais interessantes do nosso cinema. Em 1985, Klotzel deliciou o público com a história de amor entre Quim (o ótimo Adilson Barros) e Carula (Fernanda Torres em início de carreira), uma história que se passa no interior do Brasil e está repleta de referências ao folclore brasileiro... mas não espere um filme didático e que força a mão para inserir personagens como Mulher Diaba (Regina Casé cheia de nuances) ou Curupira (Nelson Triunfo) de forma gratuita, todos estão inseridos de forma divertida numa história que parece uma espécie de versão de Ulisses para uma realidade brejeiramente brasileira. Afinal, se Quim tem como maior objetivo comer um pedaço de carne pela primeira vez, Carula quer apenas conhecer o homem de sua vida (nem que para isso tenha que torturar a estatueta de Santo Antônio até o limite - e a cena clássica das bolhas de ar saindo do santinho é de rolar de rir). É meio que por acaso que os caminhos de Quim e Carula se cruzam e a partir daí, ele terá que provar que é um homem digno de casar-se com aquela moça de família bastante tradicional. Klotzel usa e abusa do bom humor, sempre temperado com uma pitada de fantasia, encontrando amparo de um excelente roteiro (onde termos como "melúria" e "turina" não são de se rejeitar) e um ótico elenco (que precisa dar conta de um sotaque tão carregado que merecia até legenda em algumas cenas). Após tantos desafios enfrentados, talvez a maior adversidade de Quim seja quando ele vai para cidade grande e a realidade econômica do Brasil da década de 1980 vem à tona com seus congelamentos, produtos escassos e saques em supermercado (sem falar na esperteza brejeira dos personagens que é substituída pela malícia da cidade grande - encarnada por Chiquinho Brandão). O desfecho urbano e centrado na periferia mostra que A Marvada Carne estabelece uma espécie de transição entre dois mundos bastante específicos de nosso país e se estabelece como um filme que sempre gosto de rever e que indico para todas as pessoas que curtem um cinema nacional vigoroso e criativo (e adoraria que Klotzel, que não lança um filme desde Reflexões de um Liquidificador/2010 lesse essa humilde apreciação e voltasse a dirigir).

A Marvada Carne (Brasil-1985) de André Klotzel com Adilson Barros, Fernanda Torres, Dionísio Azevedo, Chiquinho Brandão, Regina Casé, Tio Celso, Tonico e Tinoco. ☻☻☻☻☻