domingo, 18 de setembro de 2016

Na Tela: Julieta

Crao e Adriana: belo romance num filme mediano. 

Enquanto o Brasil preferiu não indicar um filme aclamado em Cannes (Aquarius) para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar2017, a Espanha escolheu um filme exibido em Cannes que recebeu críticas mornas para tentar a mesma vaga. Julieta de Pedro Almodóvar não impressionou o público do Festival, mas como o cineasta ainda possui grande prestígio internacional, seu país acredita em sua nomeação. Julieta (Emma Suaréz) é uma mulher madura e feliz que está prestes a mudar-se para Portugal com o namorado, Lorenzo (Darío Grandinetti), mas ao reencontrar uma antiga conhecida, desiste da mudança. Ela também desiste do relacionamento, muda-se para o mesmo prédio em que viveu por muitos anos e torna-se reclusa, introspectiva, alimentando-se de um segredo do passado que ainda a deixa angustiada. Quando Julieta começa a escrever uma espécie de diário sobre sua trajetória, o filme se rende a um longo flashback sobre a juventude da personagem (onde ela passa a ser interpretada por Adriana Ugarte). Ela registra como viveu um tórrido relacionamento com o grande amor de sua vida e teve uma filha, até que uma série de acontecimentos a tornaram mais triste e melancólica - e onde reside o tal "segredo" que a fez desistir de viver com Lorenzo. Faz algum tempo que Almodóvar investe numa atmosfera de suspense em seus filmes, e considero que ele alcançou o melhor resultado no controverso (que eu adoro) A Pele que Habito/2011, aqui ele tenta criar um drama feminino que se sustentaria pelo mistério do passado de sua protagonista, mas um dos grande problemas o filme é que o "segredo" da personagem não é algo tão complicado assim para que ela comprometa toda a oportunidade que Julieta tenha de ser feliz - e por mais que Emma e Adriana defendam a personagem com grande empenho, o gosto de decepção é inevitável quando o filme chega ao fim. Há quem credite o resultado mediano do filme a falta de sintonia de Almodóvar com a escrita da canadense Alice Munro, onde o cineasta se inspirou para criar o roteiro do filme. Famosa por seus personagens introspectivos, Almodóvar parece filmar sob uma camisa de força para conter o estilo que o consagrou. Embora seja melhor do que seu filme anterior (a comédia Os Amantes Passageiros/2013), Julieta ainda não alcança todas as notas que o cineasta pretende - mas os antigos fãs do diretor irão curtir o retorno de Rossy de Palma ao universo almodovariano, ela está excepcional num papel completamente diferente do que estamos acostumados a vê-la. 

Julieta (Espanha/2016) de Pedro Almodóvar com Emma Suaréz, Adriana Ugarte,  Darío Grandinetti, Daniel Crao, Rossy de Palma e Inma Cuesta. ☻☻

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Combo: De Amor & de Neuras

Afina de contas, quem estabeleceu que devemos encontrar o nosso par ideal? O que acontece de tão ruim se isso não acontecer? Diante dessas indagações cheia de neuras e nóias de O Lagosta (2015) eu lembrei de alguns filmes que lançam um olhar peculiar sobre crushes, namoros, flertes, casamentos...

05 Em Carne Viva (2003) E se a pessoa que você acha perfeita para você for na verdade um assassino? O medo de se envolver com a pessoa errada é a alma deste filme de Jane Campion - e não é por acaso que ela escolheu Meg Ryan (que já foi rainha das comédias românticas) para dar conta da professora que mesmo preocupada com um serial killer a solta na cidade se envolve com o policial responsável pelas investigações (papel de Mark Ruffalo). A ideia está longe de ser nova, mas denso e com cenas tórridas, o filme cria uma atmosfera soturna na criação de uma analogia interessante sobre a insegurança diante do encontro da pessoa certa (que pode não ser tão certa assim...). 

04 Um Estranho no Lago (2013) Um lago é frequentado por homossexuais que curtem fazer sexo com desconhecidos. O que era para ser a realização de uma fantasia começa a se tornar perigosa quando corpos começam a ser encontrados nas redondezas. A ideia da fantasia que pode se tornar mortal encontra bastante ousadia nas mãos do diretor Alain Guiraudie. Com longos silêncios, melancolia e cenas bastante explícitas, o filme encontrou fãs para além do público gay, tanto que o filme recebeu o prêmio da mostra Un certain Regard em Cannes e o César (o Oscar francês) de ator revelação para Pierre Deladonchamps. 

03 Sr. Srª Smith (2005) Você conhece uma mulher que é a cara da Anjelina Jolie - e você é o clone do Brad Pitt. O que poderia dar errado? Talvez nada, somente a vontade que o desgaste no relacionamento dará de um matar o outro (principalmente quando descobre que um não conhecia o verdadeiro outro desde o início). Doug Liman cria uma comédia de ação divertida onde o casal perfeito já começa com uma mentira - e elas se acumulam em pilhas e pilhas... quem disse que o casamento era fácil? Jennifer Aniston que o diga!

02 Garota Exemplar (2014) E quando sua esposa desaparece e toda a sua vida passa a ser notícia? E se no meio das investigações você passa a ser o principal suspeito pelo desaparecimento dela? David Fincher cria um verdadeiro pesadelo para Nick Dunne (Ben Affleck), que torna-se vilão em rede nacional por um crime que jura não ter cometido. Aqui o espectador tem a vantagem de descobrir que nada é o que parece na narrativa baseada no livro de Gillian Flynn - auxiliada pela melhor atuação de Rosamund Pike (indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor atriz). Ainda assim a maior surpresa é o final onde o casamento revela-se uma cômoda prisão. 

01 Ciúme (1994) Ah, o amor é lindo! E a câmera de Claude Chabrol faz tudo ficar ainda mais bonito no romance entre Nelly (Emanuelle Béart) e Paul (François Cluzet). Pena que Paul desconfia de que a esposa o trai e o que era uma linda história de amor vira um filme de terror sobre o amor possessivo. A situação cresce em tensão de tal forma que Chabrol nem ousa nos contar o final da história, deixando para que nossa imaginação imagine as atrocidades de que um homem enlouquecido é capaz de fazer. Por abordar de forma tão tenebrosa um sentimento tão comum nos relacionamentos, Chabrol ficou no topo da lista. 

PL►Y: O Lagosta

Farrell e Jessica: a pressão sobre o par ideal.

Em Dente Canino o diretor Yorgos Lanthimos já demonstrava ter um senso de humor obscuro, bastante cruel com os seus personagens. Da mesma forma, já demonstrava interesse em criar mundos paralelos ao nosso. Com O Lagosta o diretor intensifica o humor, mas com isso, multiplica a estranheza de seu cinema. Elogiado em Cannes, de onde saiu com o prêmio de Melhor Roteiro, O Lagosta conta a história de David (Colin Farrell) um homem solitário que chega a um hotel disposto a encontrar a sua cara metade- e desde o questionário que ele responde, percebemos que não estamos diante de um filme comum. Pelas explicações descobrimos que se ao final da temporada no hotel ele não encontrar o grande amor de sua vida, ele será transformado num animal (no caso de David, ele escolhe ser uma lagosta por elas viveram mais de cem anos). Além de procurar uma parceira para toda a vida, ainda descobrimos que existe uma caça aos solitários (pessoas que se recusaram a se casar ou serem transformadas em animais) que foram marginalizados e vivem numa floresta perto do hotel. Para cada solitário caçado, você ganha um dia a mais para encontrar seu par. Esse é apenas o ponto de partida para uma história que flerta o tempo inteiro com o surreal, mas que consegue fazer sentido dentro de uma estrutura cheia de simbologias sobre a necessidade humana de ter companhia, ou mais do que isso, da pressão que existe para que isso aconteça. Dentro da realidade do hotel, as relações parecem sempre artificiais (ao ponto do personagem de Ben Whishaw fazer o próprio nariz sangrar para que a pretendente se identifique com ele e o escolha para ser seu futuro esposo) e rendem comentários hilariantes como "se vocês não conseguirem resolver suas discussões, lhe daremos uma criança! Elas sempre ajudam a superar isso" e "Não podemos dançar acompanhados, por isso só tocamos música eletrônica". Só que David tem problemas com sua escolhida (Rossana Hoult), uma mulher conhecida pela total ausência de emoções e acaba tomando outros rumos - e ele vai descobrir que ao encontrar o amor, sempre algumas regras serão quebradas. Embora se repita em sua crítica ao apego às regras e costumes, Yorgos Lanthimos consegue criar um universo bastante rico em O Lagosta, mas ainda encontra problemas em domar seu gosto por esquisitices. Entre mortes, torturas físicas e psicológicas o diretor opta por alguns fatos que não acrescentam muito à trama (o reencontro com Ben Whishaw, a invasão ao hotel, o castigo de Rachel Weisz...). Da mesma forma, os atores continuam com a tarefa hercúlea de serem expressivos com a fala monocórdica e expressões faciais (quase sempre) mínimas. No entanto, o estilo peculiar tem  garantido ao diretor admiradores fiéis pela ousadia ao contar suas histórias. 

O Lagosta (The Lobster / Irlanda-Grécia-Noruega-Reino Unido-França / 2015) de Yorgos Lanthimos com Colin Farrell, Rachel Weisz, Ben Wishaw, Jessica Barden,  John C. Reilly, Léa Seydoux e Olivia Colman. ☻☻☻

PL►Y: Dente Canino

A mãe e os filhos: mundo paralelo assustador. 

De vez em quando um filme bizarro consegue furar o cerco conservador do Oscar e cravar uma indicação ao maior prêmio do cinema americano. Em 2010 foi a vez do grego Yorgos Lanthimos surpreender ao ver seu terceiro longa metragem na categoria de melhor filme estrangeiro. A indicação foi  o ápice de uma trajetória que começou com o lançamento no Festival de Cannes, de onde o filme saiu com dois prêmios: um para Lanthimos como jovem diretor  e o segundo da mostra paralela Un Certain Regard. No entanto, não espere um filme fácil de assistir, já que o diretor gosta de testar os nervos da plateia. Dente Canino é a história de um casal que resolve criar os filhos afastados de qualquer contato com o mundo exterior. Pai, mãe, as duas filhas e o filho vivem numa casa isolada da cidade, onde os próprios pais são responsáveis pela educação dos rebentos. Só esse ponto de partida já seria suficiente para gerar polêmicas e discussões, mas o diretor quer mais, muito mais. Desde o início quando ouvimos uma fita dizendo significados estranhos para palavras conhecidas, percebemos que existe algo fora do lugar naquela casa. Embora já estejam saindo da adolescência, os três filhos se comportam de maneira infantilizada, criando jogos para passar o tempo e sem muita conversa, já que não há muito sobre o que falar mesmo. Em uma cena uma das filhas tortura uma boneca Barbie, em outra os três torcem para um avião cair - e brigam para saber quem será o dono dele quando chegar ao chão - e não demora muito para assassinarem um gato por considerar que o animal é capaz de matar a todos com suas garras e dentes afiados. O fato é que para afastar os filhos da crueldade do mundo, os pais constroem um mundo paralelo que mostra-se ainda mais assustador, onde peixes surgem na piscina, a mãe pode parir um cachorro e até o incesto é permitido para evitar a entrada de outras pessoas naquele mundo. Talvez todo o exagero do roteiro sirva para explorar o contraponto da velha teoria do filósofo Jean-Jacques Rousseau de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Pois é, a família também faz parte da sociedade, então... aqui, com toda a rigidez e controle dos pais (que afeta até a escolha das roupas dos filhos) os filhos se tornam verdadeiras bombas relógio para conseguir fugir às regras impostas. Como o próprio nome indica (afinal, o dente canino serve, principalmente para dilacerar a carne) a violência, mesmo sufocada está sempre à espreita e a câmera de Lanthimos não tem medo de fazê-la incomodar. A narrativa segue entre oscilações entre o cômico e o trágico, entre o patético e o polêmico e isso pode se tornar cansativo, principalmente por momento algum os pais questionarem o rumo de suas ações e dos filhos - que se tornam mais agressivos. Lanthimos demonstra aqui grande inspiração no estilo de Michael Haneke, com os silêncios, o tom solene, a narrativa arrastada e as atuações quase sufocadas pela rigidez. O maior problema é que por mais que deixe algumas lacunas para o espectador preencher (que deixarei para você descobrir onde), sinto falta de uma camada a mais no filme, uma que não esteja tão disposta a chocar a plateia a cada dez minutos. Ainda assim, o filme faz pensar com uma história que seria cômica se não fosse trágica. 

Dente Canino (Kynodontas/Grécia-2009) de Yorgos Lanthimos com Christos Stergioglou, Michelle Valley, Angeliki Papoulia, Hristos Passalis e Mary Tsoni.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

4EVER: Domingos Montagner

26 de fevereiro de 1962 15 de setembro de 2016

Domingos Montagner Filho nasceu em São Paulo e iniciou sua carreira em espetáculos teatrais e circenses ao frequentar o curso de teatro interpretação de Myriam Muniz. Em 1997 ele formou o grupo La Mínima, cujas montagens lhe renderam prêmios por sua performance nos palcos. Seis anos depois montou o circo Zanni, do qual era diretor artístico. Somente depois começou a realizar trabalhos para a televisão, primeiro  veio a participação na série Mothern (2008) da GNT, depois nas globais Força Tarefa (2010), A Cura (2010) e Divã (2011). O sucesso chegou logo depois na novela Cordel Encantado (2011) onde vivia o Capitão Herculano. Desde então tornou-se um dos atores mais requisitados da emissora onde vivia atualmente o personagem Santo na novela Velho Chico. Além da projeção nacional com a televisão, o ator continuava ativo no teatro e começou a receber destaque no cinema nos últimos anos. Em 2016 está presente em quatro produções, a comédia De Onde eu Te Vejo, a refilmagem de Um Namorado para Minha Mulher e os dramas O Rei das Manhãs e Vidas Partidas. O ator faleceu em decorrência de asfixia por afogamento após ser arrastado por uma forte correnteza no Rio São Francisco. 

10+ Susan Sarandon

Nascida em 1946 na cidade de Nova York a americana Susan Sarandon tem uma trajetória cheia de curiosidades, seja a separação do ator Chris Sarandon (de quem herdou o sobrenome) ou o casamento com (o doze anos mais jovem) Tim Robbins, a atriz não tem medo de dizer o que pensa - seja politicamente ou artisticamente. Sentindo que está um pouco esquecida pelos produtores ela não teve medo de dizer o que fará se deixar de atuar no cinema: "Vou dirigir filmes eróticos voltados para o público feminino". Catherine Breillat que se cuide! 
A seguir, minhas atuações favoritas dessa grande atriz:  

#10 Lado a Lado (1998)
Num filme feito para Julia Roberts brilhar, foi Susan que roubou a cena. 

#09 Encantada (2007)
Num conto de fadas de carne e osso, Susan se diverte como a madrasta malvada!

#08 Rocy Horror Show (1975)
Aposto que você nem lembrava que a atriz era a mocinha desse musical delirante!

#07 Sorte no Amor (1988)
O grande encontro com o marido Tim Robbins!

#06 A Intrometida (2015)
Susan Sarandon ensina como fazer um filme trivial virar um deleite!


#05 O Cliente (1994)
Advogada no melhor filme de Joel Schumacher. Quarta indicação ao Oscar!

#04 As Bruxas de Eastwick (1987)
Com Cher e Michelle Pfeiffer, ela entra para o grupo de bruxas charmosas do cinema!

# 03 O Óleo de Lorenzo (1992)
O peso de uma lágrima lhe valeu a terceira indicação ao Oscar!

#02 Os Últimos Passos de um Homem (1995)
A freira (dirigida pelo marido) lhe valeu o Oscar de melhor atriz!

#01 Thelma & Louise (1991)
Papel icônico num filme inesquecível de Ridley Scott - e indicação ao Oscar de atriz ao lado de Geena Davis. 

Na Tela: A Intrometida

Simmons e Susan: romance maduro. 

É sempre interessante quando cinema redescobre uma grande atriz. Susan Sarandon completará setenta anos no próximo dia quatro e deve comemorar em grande estilo já que recentemente conseguiu o seu melhor papel em muito tempo. Depois de passar mais de uma década em papéis triviais, finalmente lembraram que a atriz tem brilho suficiente para fazer de um filme simples um verdadeiro deleite. Em A Intrometida (nem vou comentar o quanto considero esse título equivocado) ela vive a descolada Marnie, um mulher que enviuvou recentemente e que não gasta o tempo lamentando a solidão. Ela sabe que com o dinheiro que o falecido deixou ela poderá viver confortavelmente por muito tempo, mas a maior preocupação da personagem é com a filha, a roteirista Lori (Rose Byrne), que anda não apenas preocupada com o trabalho, mas com o término do relacionamento com seu amado Jacob (Jason Ritter). Por conta desse momento complicado, a filha vive estressada com a mãe e acaba partindo para Nova York para dar uma guinada em sua vida. Sorte de Marnie que irá ocupar seus dias ajudando um rapaz que faz curso noturno, uma amiga da filha que pretende fazer uma cerimonia de casamento e, no meio de suas pequenas aventuras cotidianas, Marnie conhece o policial aposentado Zipper (J.K. Simmons) com quem a mútua atração torna-se crescente. No entanto, é com essa promessa de relacionamento que a protagonista terá de enfrentar alguns sentimentos que nem ela percebia que ainda precisam ser trabalhados em sua vida sentimental, afinal, estava ocupada demais tentando ajudar os outros a lidar com seus problemas. A cineasta Lorene Scafaria demonstra mais uma vez que consegue lidar com misturas de drama e comédia em suas narrativas de forma agradável (antes ela assinou Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo/2012), mas ao lado de Susan ela transforma A Intrometida num filme surpreendente dada a leveza com que aborda temas complicados como solidão, luto, relação mãe/filha e recomeços. Com o talento de sempre, Susan Sarandon faz de Marnie uma mulher madura bastante crível e que torna emocionante até o momento em que prepara pão com ovo! Com roteiro despretensioso e narrativa envolvente, o filme revela-se um grande acerto. 

A Intrometida (The Meddler/EUA-2015) de Lorene Scafaria com Susan Sarandon, Rose Byrne, JK Simmons, Cecily Strong, Lucy Punch e Jason Ritter. ☻☻☻

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

PL►Y: Lendas do Crime

Hardy e Hardy: dois atores distintos em um só. 

Tom Hardy é um dos atores mais cobiçados em Hollywood atualmente - e nos últimos anos está sempre cotado para as premiações. Em 2015 ele esteve presente em cinco produções, duas foram indicadas ao Oscar de Melhor Filme - Mad Max: Estrada da Fúria e O Regresso, este último lhe rendendo a merecida indicação à estatueta de ator coadjuvante. Se não tivesse fama de ser um ator encrenqueiro, provavelmente ele estivesse no páreo de melhor ator por Lendas do Crime, filme assinado por Brian Helgeland sobre os irmãos (gêmeos) Kray, temidos gangsteres na Londres dos anos 1950 e 1960. Baseado no livro de John Pearson, Helgeland cria um filme esperto sobre dois sujeitos problemáticos que ganharam cada vez mais espaço no mundo do crime organizado da Inglaterra em meados do século XX. Ainda que fossem cúmplices, desde o início o filme deixa claro as diferenças entre os dois. Narrado pela esposa de Reggie Kray, Frances (Emily Browning que finalmente espanta o marasmo de suas atuações), temos a ideia de que Reggie era um quase galã. Simpático, bem arrumado e articulado, a interpretação de Hardy torna fácil entender porque a mocinha de família cai de amores por ele. Por outro lado, Frances ressalta que o cunhado Ron Kray era totalmente desequilibrado. Homossexual e dotado de um senso de humor desagradável, Ron também era visivelmente insano, mas uma série de arranjos perante a justiça garantiram que ele ficasse fora de instituições de tratamento. O filme conta a ascensão dos Kray com o auxílio de vários coadjuvantes interessantes (destaque para o sócio vivido por David Thewlis e o namorado de Ron encarnado com desenvoltura pelo garotão Taron Egerton) e um senso de humor negro bastante particular (que vai para além da trilha animadinha em cenas violentas) ancorada nas personalidades dos manos. Helgeland demonstra mais uma vez seu talento para contar histórias sobre o mundo do crime, basta lembrar que ele tem um Oscar na estante pelo roteiro adaptado do espetacular Los Angeles-Cidade Proibida (1996) e outra indicação por Sobre Meninos e Lobos (2003) (além de ter assinado o famigerado O Troco/1999 estrelado por Mel Gibson). É perceptível o fascínio do cineasta pela psicologia que perpassa os tipos que habitam esse tipo de filme e aqui encontra um prato cheio no charme e temor que os Kray exalam - e encontra em Hardy um grande cúmplice em sua empreitada. Nas cenas em que os irmãos estão lado a lado existe a impressão que estamos diante de dois atores distintos dada não apenas a personalidade de cada um, mas, sobretudo, pelo trabalho de expressão vocal e corporal do ator. Por dar conta de dois personagens complexos no mesmo filme, você nem se importa que a narrativa perde o pique depois da primeira hora (e a boa reconstituição de época fica até em segundo plano perante a versatilidade de seu protagonista). Lendas do Crime pode não ter colocado Hardy na lista final do Oscar, mas o colocou entre as melhores atuações dos últimos tempos. 

Lendas do Crime (Legend / Reino Unido - França - EUA / 2015) de Brian Helgeland com tom Hardy, Emily Browning, Paul Bettany, Christopher Eccleston, Taron Egerton, David Thewlis e Tara Fitzgerald. ☻☻☻

Na Tela: A Comunidade

O grupo de Vinterberg: dez personagens e poucas cenas memoráveis. 

Expectativa é uma verdadeira praga para a apreciação de um filme, veja por exemplo o que senti ao ver A Comunidade, novo filme do dinamarquês Thomas Vinterberg. Vale lembrar que O cara foi o jovem cineasta mais falado de 1998 quando lançou Festa de Família junto ao movimento Dogma95. Depois de passar anos sem chamar muita atenção de público e crítica exibiu o arrepiante A Caça (2012) no Festival de Cannes e saiu de lá com o prêmio de melhor ator para Mads Mikkelsen além do prêmio ecumênico nas mãos. Uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro depois e lá estava ele adaptando o romântico Longe deste Insensato Mundo (2015) - que não recebeu a atenção merecida. Em 2015 Vinterberg voltou para sua terra natal e realizou A Comunidade, filme sobre um casal que resolve criar o que o título sugere num casarão da família em meio a década de 1970. De início imaginei que o roteiro iria explorar a relação de todas aquelas pessoas vivendo debaixo do mesmo teto, com suas ambições, ideais, conflitos e amores. Não é bem assim. Vinterberg concentra-se especificamente no casal que resolve acolher o grupo de pessoas em sua casa enquanto percebem o relacionamento desmoronar ao longo do tempo. Erik (Ulrich Thomsen) e Anna (Trine Dyrholm) são maduros e possuem um bom relacionamento dentro da vida confortável que levam ao lado da filha, a introspectiva Freja (Martha Sofie WallstrØm Hansen), portanto resolvem criar a tal comunidade sem segundas intenções ou malícia. A aceitação dos membros são feitas através de entrevistas seguidas de votações dos membros mais antigos e tudo corre dentro dos padrões de conduta mais amigáveis - com um levíssimo toque libertário dos anos 1970. O problema maior está no momento em que você percebe que os personagens que orbitam em torno do casal Erik e Anna estão ali apenas para constar, sendo meros espectadores da falência do casamento que existia na casa - e a história investe no caso de Erik com uma mulher mais nova e as implicações que surgem quando ele a convida a participar da comunidade. Neste ponto imagina-se que crescerá o conflito do homem que cedeu a casa para o grupo, mas... melhor eu parar por aqui. A Comunidade parte de uma ideia cheia de possibilidades, mas é extremamente tímido quando os conflitos precisam explodir. Um piti aqui, um grito ali e tudo é contornado sem muita profundidade contando com três ou quatro cenas interessantes... o que é pouco para um diretor competente que tinha em mãos dez personagens para desenvolver enquanto conviviam numa mesma casa. Ou será que sua ideia é que suas individualidades se perderam ali dentro? Se for essa a ideia, o desenvolvimento foi pior do que eu pensava (já que em determinado Erik força o grupo a tomar decisões que são difíceis para ele e...).  Embora Thomsen e Trine forneçam fôlego ao casal protagonista, o roteiro parece nunca extrair tudo o que podem oferecer dentro de um contexto humano tão rico.  

A Comunidade (Kollektivet/Dinamarca-Suécia-Noruega/2016) de Thomas Vinterberg com Ulrich Thomsen, Tryne Dyrholm, Helene Reingard Neumann, Fares Fares, Mads Reuther, Julie Agnete Vang e Adam Fischer. ☻☻