quarta-feira, 9 de agosto de 2017

§8^) Fac Simile: Patrick Dempsey

Patrick Galen Dempsey
Esperando o pedido em uma Starbucks de Nova York, nosso repórter imaginário não acreditou ao ver que Patrick Dempsey estava na mesa ao lado. Diante da espera, nosso repórter pediu para o ator de 51 anos responder a cinco perguntas nesta entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Como se sente sendo um ator veterano com toda uma nova geração de fãs?

Patrick É algo realmente estranho, porque minha carreira se divide em duas fases distintas. Em uma eu era um adolescente magricelo e que toda essa história de ser símbolo sexual estava fora de questão nos anos 1980. Na década seguinte eu era adulto e minha carreira ficou um tanto ociosa. Sempre  trabalhei, mas ninguém dava muita bola para o que eu fazia. De repente... lembraram que eu existia e me olhavam de um jeito completamente diferente.

§8^) Por que acha que isso aconteceu?

Patrick Ajudou muito o fato de ter conseguido o papel do Dr. Derek Shepherd em Grey's Anatomy (2005), mas a repercussão foi muito maior do que eu esperava. Mas isso começou pouco antes disso, quando fiz o detetive de Pânico 3 (2000) as pessoas olhavam para mim tipo: "Você me parece tão familiar... ei! Você não era aquele rapaz que fazia comédias bobas nos anos 1980"? Sei que alguns dos meus filmes são clássicos adolescentes, mas nada se compara ao que aconteceu depois dos quarenta!

§8^) As pessoas não queriam te matar depois que você saiu de Grey's Anatomy?

Patrick Sou muito grato à série. Graças a ela eu tive uma segunda chance em Hollywood. Recebi convites para novos filmes e a agenda ficou cheia novamente, só que é algo estranho quando as pessoas olham para você e só percebem um personagem. Houve uma época em que eu não era mais o Patrick, era o Dr. Derek Shepherd. Eu participei de dez anos do programa, foram 244 episódios, achei que já estava na hora de me despedir. Claro que depois disso eu tive que redobrar o número de guarda-costas e sempre verifico se alguma entrega faz tic-tac.

§8^) Você virou tão galã que susbtituiu Hugh Grant em O Bebê de Bridget Jones/2016 e ainda virou algo melhor do que o Príncipe Encantado de Encantada/2007, falando nisso a continuação sai ou não sai?

Patrick Acho que sim. Agora sobre ser galã é uma coisa muito doida né? Eu sempre me olho no espelho e me acho um cara super normal. 

§8^) Tá bom. Eu finjo que acredito... mas o que mudou em você para que as mulheres ficassem doidas atrás de você?

Patrick Acho que principalmente a passagem do tempo. Amadureci, apareceram algumas rugas. Cabelos brancos...

§8^) Uma rinoplastia...

Patrick Hehehe

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A TRILOGIA DE BRIDGET JONES

Colin, Renée e Hugh: O triângulo de "O Diário de Bridget Jones". 

Só recentemente eu assisti O Bebê de Bridget Jones/2016 e não resisti em fazer uma retrospectiva de um dos raros casos em que uma comédia romântica gera uma trilogia de fãs fiéis. Confesso que li "O Diário de Bridget Jones" de Helen Fielding para espairecer enquanto estava na faculdade e dei boas gargalhadas com as desventuras da inglesa acima do peso, cheia de inseguranças que dividia seu humilde coração entre um advogado bem conceituado chamado Mark Darcy (e o nome em comum com o personagem de Orgulho e Preconceito não é mera coincidência) e um canastrão irresistível chamado Daniel Cleaver. O livro vendeu feito água  e uma versão para o cinema era algo quase obrigatório. Assim que começaram os primeiros rumores sobre as filmagens vieram os testes para protagonista e, surpreendentemente, a texana Renée Zellweger desbancou inglesas consagradas como Kate Winslet e Helena Bonhan-Carter que estavam no páreo. Naquela época Renée começava a chamar atenção em Hollywood, fizera um belo trabalho ao lado de Tom Cruise (Jerry Maguire/1996) e de Meryl Streep (Um Amor Verdadeiro/1998) - e o Globo de Ouro de atriz de comédia pelo ácido Enfermeira Betty/2000 estava fresquinho quando foi eleita para ser a cultuada Bridget. Renée teve que ganhar peso, ensaiar o sotaque britânico e todo o resto parece que aconteceu naturalmente, já que a atriz tinha o timing cômico perfeito para a personagem.  Dirigido por Sharon Maguire, a atriz tirou de letra a personagem ao lado de Colin Firth (Darcy) e Hugh Grant (um Cleaver mais envolvente que no livro). O filme fez enorme sucesso ao apresentar uma protagonista fora dos padrões (afinal, a balança era sempre um problema) e com piadinhas que brincavam com eterno duelo entre ficar com o cara certo e ser tentada pelo cara errado. A obsessão por calorias, as inseguranças e trapalhadas estavam todas lá, a única coisa que perdeu espaço no filme foram os amigos de Bridget, Tom (James Callis), Jude (Shirley Henderson) e Sharon (Sally Phillips) apareciam pouco, já que o roteiro preferiu explorar mais a relação da personagem com sua família (formada por Jim Broadbent como pai e Gemma Jones na pele da mãe) e seus pretendentes. Só que pouca gente se importou, já que o filme foi indicado ao Globo de Ouro de melhor Comédia e Renée lembrada na categoria de melhor atriz cômica e até o Oscar considerou sua performance uma das cindo melhores daquele ano. Com tanto sucesso e irresistível simpatia, ver o segundo livro da personagem ganhar as telas era questão de tempo. 

No Limite da Razão: "Like a Virgin" das detentas. 

Lá estava Renée Zellwegger ganhando peso novamente para viver a personagem depois do Oscar de coadjuvante pelo drama  Cold Mountain (2003). Ainda que a atriz estivesse no auge, se as inseguranças de Bridget já te cansavam no primeiro livro era melhor ficar bem longe do segundo - já que ele evitava mostrar grandes transformações na personagem e a mantinha na mesma vivendo novas trapalhadas e ainda enrolada em seu relacionamento com Darcy (e a incompatibilidade entre os dois era cada vez mais visível). Ela insegura, ele típico britânico certinho com dificuldade de expressar seus sentimentos. Sorte que quando a versão de Bridget Jones: No Limite da Razão chegou às telas, os produtores souberam melhorar a trama do livro, mantendo as partes mais divertidas e retirando boa parte de tudo que começava a ficar cansativo na personagem. Eles tiveram o bom senso de colocar a crise profissional da personagem no passado, lhe dando mais estabilidade (ainda que alguns micos perdurassem como uma maldição), mas mantinham o triângulo amoroso entre a ela Darcy e Cleaver.  Era uma versão 2.0 do que vimos no filme anterior, com a diferença que depois de um tempo juntos, Darcy e Jones começam a duvidar que foram feitos um para o outro - mas depois do que acontece na famigerada viagem à Tailândia, Bridget começa a suspeitar que Cleaver também não merece muita atenção. Entre crises de ciúme, uma temporada no presídio (com direito à cantar Like a Virgin junto com as detentas) e um banho de chuva o filme fez menos sucesso que o anterior, testou a devoção dos fãs e rendeu para Renée mais uma indicação ao Globo de Ouro. Quatorze anos depois do segundo livro a escritora Helen Fielding lançou Bridget Jones: Louca pelo Garoto, onde a personagem aparecia com 50 anos e viúva com dois filhos para criar. Parece deprimente demais? Parece que os produtores acharam o mesmo e resolveram colocar o livro de lado e inventar uma outra história para o terceiro filme: Bridget seria mãe. O roteiro teve tantas versões rejeitadas por Hugh Grant que ele todos acharam melhor ele pular fora do projeto, dando sinal verde para o estúdio fazer o que bem entendesse. Só que agora, Colin Firth tinha seu Oscar de Melhor Ator (por O Discurso do Rei/2010) e  Renée Zellwegger andava sumida depois das plásticas que mudaram seu rosto para sempre. Resgatar a personagem era a chance de sair do limbo após seis anos sem filmar. O Bebê de Bridget Jones  chegou às telas em 2016 e serviu para os fãs matarem a saudade da personagem. 

O Bebê de Bridget Jones: sai Cleaver e entra Dr. Shepherd.

Doze anos separam o segundo filme do terceiro e de lá para cá, não foi só o rosto de Renée que mudou. Com um mundo mergulhado em novas tecnologias e discursos de empoderamento feminino, fica visível que a produção passou por uma repaginada para dialogar com um novo tempo. Sendo assim, até a trilha sonora se rende à Ed Sheeran, festivais de música, aplicativos, passeatas e manifestações. A Europa não é mais a mesma e até a mãe de Bridget agora engrena numa carreira política precisando mudar o discurso conservador.  No entanto, essas alterações não são muito mais do que um verniz bem sutil diante da história, já que a personagem continua presa ao seu amor por Darcy e, com a morte de Cleaver, agora ela... tem outro pretendente! A diferença é que sai um calhorda e entra um personagem masculino adorável vivido por Patrick Dempsey (um dos galãs favoritos das mulheres maduras após ser o médico galã da série Grey's Anatomy). Ele vive um sujeito que criou um algoritmo capaz de encontrar o par perfeito de qualquer pessoa (e ficou milionário com isso). Eis que é deste triângulo que Bridget fica grávida e não sabe se é de Darcy ou Dempsey, ou melhor, Jack. Cria-se um imbróglio que nem o roteiro sabe lidar muito bem, mas que tenta colocar Bridget em um novo dilema: continuar investindo num relacionamento que não funcionou no passado ou tentar algo novo com um sujeito que pode lhe fazer feliz.  Pelo menos desta vez a personagem não está obcecada em perder peso, está levemente mais segura e torna-se até interessante ver Renée voltando às telas envelhecida após tanto tempo. Ainda que algumas intervenções estéticas se mostrem problemáticas no rosto da atriz, ela ainda tem carisma e sintonia com uma personagem que conquistou milhões de fãs pelo mundo e sua atuação livre de botox também tem um frescor muito bem vindo. Porém, eu gostaria o filme houvesse investido em uma trama mais simples e fizesse a personagem lidar com seu amadurecimento e não com o enorme clichê de não saber quem é o pai do próprio filho. Talvez se houver um quarto filme (o que eu acho bem difícil), a personagem possa manter o bom humor e ser levada a sério ao mesmo tempo. 

O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary/ EUA - Reino Unido - França - Irlanda / 2001) de Sharon Maguire com Renée Zellwegger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent, Gemma Jones e Shirley Henderson. ☻☻☻☻

Bridget Jones no Limite da Razão (Bridget Jones: the Edge of Reason/ EUA - Reino Unido - França - Irlanda / 2004) de Beeban Kidron com Renée Zellwegger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent, Gemma Jones, Neil Pearson e Patrick Baladi. ☻☻☻

O Bebê de Bridget Jones (Bridget Jones's Baby/ Irlanda - Reino Unido - França EUA / 2016) de Sharon Maguire com Renée Zellwegger, Colin Firth, Patrick Dempsey, Jim Broadbent, Gemma Jones, Sarah Solemani e Agni Scott. ☻☻☻

Na Tela: Em Ritmo de Fuga

Ansel, Jamie, Elza e Jon: personagens em fina sintonia. 

Antes de se tornar um filme cult de Nicolas Winding Refn, o livro Drive de James Sallis vivia sendo repaginado para ganhar as telas. Ao cair nas mãos do diretor dinamarquês (e do astro Ryan Gosling) o filme ganhou fãs ao contar a história de um piloto de fuga contratado por bandidos que se metia em encrencas variadas enquanto se apaixonava por uma garota frágil. Em Ritmo de Fuga poderia  ser uma das versões do livro de Sallis para a telona, ou então, seja mesmo uma versão mais palatável do violento filme de Refn escrita pelo diretor e roteirista Edgar Wright. No entanto, isso não diminui em nada a produção de Edgar Wright que ficou famoso por misturar humor e alguma aventura em seus filmes anteriores (incluindo Todo Mundo Quase Morto/2004 e Scott Pilgrim/2010). Aqui, o diretor conta a história de Baby (Ansel Elgort), um rapaz com carinha de anjo que é um dos motoristas mais habilidosos que já apareceram numa tela. Pena que ele tem a alma vendida para um bandidão (Kevin Spacey fazendo o tipo de  personagem que mais gosta) que o faz dirigir para bandidos pela cidade, assim Baby recebe um pequeno percentual dos roubos enquanto paga a dívida com o chefão. Porém, Baby quer outro rumo para a vida. Sempre com um fone de ouvido e cada vez mais apaixonado por uma garçonete adorável (Lily James) ele não vê a hora de quitar sua dívida, se livrar do submundo e viver em outro lugar. O mais interessante do filme é como Wright brinca com as expectativas da plateia, sempre trazendo surpresas quando menos esperamos. Curiosamente o filme parece que é feito em marchas, na primeira ele apresenta os personagens, na segunda ele meio que repete a primeira com alguns detalhes  a mais. Depois ele engata a ré e diminui o ritmo, deixando uma impressão quase irregular de seu roteiro, mas depois quando engata a terceira, a quarta e a quinta ele demonstra que seu filme tem muito mais a oferecer do que se espera dele (e que para chegar até ali precisava passar por todas as outras marchas). Em Ritmo de Fuga se beneficia de muitos elementos, seja da forma como as músicas ditam o ritmo das cenas de ação (perceba como até os tiros adquirem a cadência da trilha sonora), ou os diálogos espertos - como a advertência de que você não pode deixar Buddy (Jon Hann) de rosto vermelho ou Griff (Joe Bernthal) dizendo que se não o vermos mais é porque ele morreu e... - e mistura humor irônico, ação e romance. Além de Wright firmar o promissor Ansel Elgort como astro e criar algumas das cenas de ação mais empolgantes do ano, o filme ainda se beneficia da esperteza de revelar seus personagens aos poucos, seja o próprio protagonista (de personalidade bastante peculiar) ou os seus ilustres coadjuvantes (e todos estão bem, parecendo uma fauna de tipos que não fariam feio nos textos mais urbanos de Tarantino). Não se engane com o início do filme, Em Ritmo de Fuga é mais do que um filme de carros correndo, tiros e explosões, ele possui mais a oferecer e não me surpreenderia se a bilheteria robusta empolgasse os produtores a fazer uma sequência.  Ou duas... três...

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver/EUA-Reino Unido -2017) de Edgar Wright com Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Hamm, Jamie Foxx, Elza González, CJ Jones e Sky Ferreira. ☻☻☻☻

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

PL►Y: 7 Homens e um Destino

Denzel e seu bando: remake da refilmagem para o século XXI. 

Não é surpresa para ninguém que Hollywood vive uma crise criativa faz tempo, por isso somos inundados com remakes, reboots e sequências infinitas de franquias consagradas. No entanto, precisamos reconhecer que é necessária uma boa dose de coragem para refazer um clássico do porte de Sete Homens e Um Destino. Lançado originalmente em 1960, o longa dirigido por John Sturges trazia atores do porte de Steve McQueen, James Coburn e Charles Bronson na história de um grupo de homens que se juntam para livrar uma pequena cidadezinha  no México de um asqueroso vilão e seus comparsas. O longa já era uma versão para Os Sete Samurais (1954) e fez um grande sucesso, se tornou cultuado até hoje e ainda foi indicado ao Oscar de melhor trilha sonora. Se a trama ainda tem apelo perante o público, restava juntar um grupo de astros de fazer com que até aqueles que não curtem faroeste sentir algum interesse.  Sendo assim, nada melhor do que colocar Denzel Washington para liderar o grupo, que ainda irá somar o queridinho do momento Chris Pratt, o sempre prestativo Ethan Hawke e o subestimado Vincent D'Onofrio (que aparece envelhecido e se divertindo bastante como um velho ranheta). O filme ainda traz a novidade de ser ambientado no oeste americano e investir na diversidade de seus personagens. Além do bando do título ser liderado por um negro e contar com um índio (Martin Sensmeier), um mexicano (Manuel Garcia-Rulfo) e um oriental (o coreano Byung-hun Lee), ainda oferece destaque a um personagem feminino na trama, a esposa (Haley Bennett, que lembra muito a Jennifer Lawrence) de um morador local que foi assassinado pelo sanguinário dono da cidade (Peter Sarsgaard em mais um vilão gélido para sua coleção). A primeira parte do filme é a apresentação do grupo tomando forma, já a segunda é a preparação para um tiroteio em ritmo frenético que prende a atenção do espectador ao selar o destino dos seus personagens. Nas duas partes o que faz funcionar é a química entre os atores, que conseguem criar personalidades diferentes para cada um deles mesmo com o pouco tempo de tela que cada um tem disponível.  O novo Sete Homens e um Destino pode até não ser digno de culto ou destinado à clássico, mas consegue entreter o público com uma narrativa eficiente e um elenco interessante - o que já é muita coisa diante de tantos equívocos que vemos ultimamente. 

7 Homens e Um Destino (The Magnificent Seven/EUA-2016) de Antoine Fuqua com Denzel Washington, Chris Pratt, Peter Sarsgaard, Ethan Hawke, Vincent D'Onofrio, Haley Bennett, Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo e Matt Bomer. ☻☻☻

domingo, 6 de agosto de 2017

PL►Y: O Que Está por Vir

Huppert e Scob: filha e mãe com a caixa de Pandora. 

Mia Hansen-Love ganhou o prêmio de melhor diretora  no Festival de Berlim por O Que Está Por Vir, filme estrelado por Isabelle Huppert que traz uma história que parece saída de uma novela de Manoel Carlos. Huppert interpreta Nathalie, uma professora de Filosofia que já lançou vários livros e que não demonstra ter muitas ilusões diante do mundo pós-moderno. No entanto, ironicamente, mesmo sabendo que as certezas já acabaram faz tempo, ela é humana o suficiente para se surpreender quando descobre que seu esposo a trocou por outra mulher. Existem outros fatos que afligem a protagonista, sua mãe (que já foi uma modelo de sucesso) está cada vez mais senil, os novos objetivos da editora também comprometem sua carreira de ensaísta filosófica e algum alento surge quando ela reencontra um ex-aluno, Fabien (Roman Kolinka) que serve para que eles conversem sobre ideias e livros em vários momentos do filme. Embora muitas pessoas vejan muitas camadas a serem exploradas nas cenas cotidianas da direção realista impressa pela diretora, O Que Está por Vir nunca avança muito nas ideias que apresenta. O que ocorre é apenas uma constante ruptura com o que se espera do filme, por vezes algum fato é deixado de lado para depois voltar à narrativa, mas na maioria das vezes tudo fica meio solto mesmo. É verdade que a vida é um tanto assim (e a ideia da obra é realmente causar a impressão de que está mostrando um recorte da vida daqueles personagens, como se ver um filme fosse um exercício de voyeurismo), no entanto, considero cada vez mais irritante que vários filmes que ambicionam fazer este registro drenam quase toda emoção dos personagens. Não há dúvidas de que Isabelle Huppert é uma grande atriz e capaz de fazer milagres com os roteiros que sempre defende com muita convicção, mas o filme é decepcionante. Você pode até enxergar no roteiro vários pontos assustadores do mundo atual, mas o que mais assusta é como a família de Nathalie não se importa com muita coisa - perto da última cena ela até diz isso para a filha após ser cobrada de uma atitude trivial que não realizou em determinado momento, simplesmente diz: "Como se vocês se importassem". No fundo em O Que Está por Vir ninguém se importa com muita coisa e a vida segue na mesma, entre mortes e nascimentos, entre encontros e separações, a edição relaxada cansa o espectador com Huppert andando de um lado para o outro o filme inteiro e o roteiro não hesita em sempre causar encontros entre os personagens. Meia dúzia de conversas sobre filosofia também não me convenceram do conteúdo elevado da história. Talvez não seja por acaso que a personagem que mais me chamou atenção no filme fosse a mãe de Nathalie vivida pela veterana Edith Scob (que atua desde os anos 1950), me identifiquei bastante com sua personagem que parece perder a razão diante de um mundo cada vez mais morto (ela mesma irá interpretar uma morta num trabalho que surgiu). O filme tem dois ou três momentos interessantes, mas fica por isso mesmo, o resto fica por conta do espectador preencher os diálogos e situações de significados relevantes subjetivos. Eu tentei e não consegui. 

O Que Está Por Vir (L'Avenir / França - Alemanha / 2016) de Mia Hansen-Love com Isabelle Huppert, Edith Scob, Roman Kolinka, André Marcon e Yves Heck. ☻☻

sábado, 5 de agosto de 2017

10+: Brendan Fraser

Brendan Fraser em Crash-No Limite
Pouca gente lembra mas antes de ser esquecido pelos estúdios Brendan Fraser fez um filme que ganhou três Oscars! Eu sei que você nem lembra que ele estava em Crash - No Limite/2004, mas ele interpretava o marido de Sandra Bullock (eu sei, você também não lembra dela no filme). O curioso foi que o filme premiado não trouxe novos projetos de prestígio ou desafiadores para o ator e ele acabou aparecendo cada vez menos na telona. Hoje ele atua em séries de TV e aguarda ser redescoberto pelos grandes diretores. Mas se você acha que Crash é o único filme oscarizado da carreira deste grande astro dos anos 1990 você está muito enganado. A seguir, as dez atuações mais marcantes do ator que já foi um dos mais cobiçados de Hollywood: 
  
#10 De Volta Para o Presente (1999) de Hugh Wilson
Fraser encontra Alicia Silverstone (outra perdida nos anos 1990).

#09 O Americano Tranquilo (2002) de Phillip Noyce
Brendan se esforça mas foi Michael Caine o indicado ao Oscar.

#08 Com Mérito (1994) de Alek Keshishian
Aluno de Harvard aprende sobre a vida com Joe Pesci sem-teto.

#07 Código de Honra (1992) de Robert Mandel
Guia de atores promissores: Fraser, O'Donnell, Damon, Affleck...

#06 Os Cabeça-de-Vento (1994) de Michael Lehmann
Ele, Buscemi e Sandler invadem rádio para tocarem a demo da banda. 

# 05 O Homem da Califórnia (1992) Les Mayfield  
Besteirol em que o ator ficou descamisado pela primeira vez. 

#04 Paixões na Floresta (1995) de Philip Ridley
Eu sei, você nunca viu este filme estranho. Fica a dica!

03 George - O Rei da Floresta (1997) de Sam Weisman
Variável de Tarzan que alegrou muita criança por aí. 

02 A Múmia (1999) de Stephen Sommers
Virou a trilogia que Fraser perdeu para Tom Cruise piorar!

Roteiro oscarizado e sua melhor atuação (ao lado de Ian McKellen). 

PL►Y: Uma Dupla Genial

Wolff e Brendan: estrela caída. 

Sou muito solidário aos casos de bons atores que subitamente caem no limbo de Hollywood, seja por péssimas escolhas profissionais (que logo se transformam em mares de dívidas) ou por problemas pessoais, sempre me entristece ver a derrocada de um astro. Brendan Fraser é um desses casos. Ator de sucesso na década de 1990, o ator viu sua estrela despencar no final da década passada e até agora não conseguiu se levantar. Analisando sua carreira, percebemos que sua maré de azar coincidiu justamente com o período em que deixou de ser um garotão e precisava convencer em papéis mais maduros. Prestes a completar cinquenta anos, Fraser encontrou refúgio nas séries de TV e talvez sua carreira tenha uma segunda chance nas telas em algum tempo. Enquanto as grandes produções não o redescobrem, ele participa de alguns filmes independentes em papéis que lhe garantem o pão de cada dia, mas que ficam bem longe do radar do público. Um destes filmes foi Uma Dupla Genial do diretor Billy Kent - que não ajuda em nada a ressurreição astral do ator. Fraser tem uma participação especial como o melhor amigo de um gênio de 14 anos que queria estudar em Harvard e termina em uma universidade pouco conhecida  - e acaba utilizando uma competição de perguntas e respostas para se vingar de um grupo de idiotas que o humilharam por não ter entrado para a cobiçada instituição. Fraser prova que não tem vaidades ao servir de escada para o adolescente Alex Wolff que vive o prodígio Eli Pettifog, pena que aos poucos, Wolff demonstra que não tem carisma suficiente para carregar o filme nas costas. Uma Dupla Genial (título que dá a ideia de que Fraser terá mais destaque na história, mas não se engane) começa promissor, sendo bastante simpático ao apresentar os dois personagens, mas depois de meia hora o filme já fica arrastado, sem saber explorar a tal competição de perguntas que fica cada vez mais repetitiva e desinteressante. Lá pela metade a impressão é que as ideias foram rareando e  roteiro começou a investir em algumas cenas bobas de jovens universitários perdendo a chance de se tornar um filme realmente original sobre a relação de Eli e Leo (Fraser) - o amigo adulto divorciado que foi para faculdade. Para tentar um gancho dramático o filme cria até o reencontro de Leo com a filha que não vê faz tempo, mas se o filme não sabia para onde ir com o que já tinha em mãos, ele acaba desandando de vez com o sentimentalismo mais rasteiro. Uma Dupla Genial (nome que vende a ideia equivocada de que Fraser teria grande destaque na trama) ainda deixa a estranha sensação de conhecermos exatamente o motivo do ator ter sido esquecido pelos estúdios: tendo que dar conta de um homem já vivido, Brendan o interpreta da mesma maneira com que fazia seus personagens adolescentes de décadas atrás. É verdade que a ausência de um diretor experiente atrapalha, mas Brendan nunca me pareceu tão perdido quanto um personagem. 

Uma Dupla Genial (Hair Brained/EUA-2013) de Billy Kent com Alex Wolff, Brendan Fraser, Parker Posey, Julia Garner, Toby Huss e Teddy Bergman. ☻

Na Tela: Um Instante de Amor

Marion e Alex: entre o amor real e o ideal. 

Eu ainda descubro quem inventa estes nomes genérico-bregas para filmes interessantes. Será que ele realmente pensa que alguém iria se interessar por uma obra condenada a carregar um título boboca feito este? Preferia muito mais que tivesse permanecido o nome em francês, sem nem precisar de tradução: Mal de Pierres já é sonoro e envolvente o suficiente para despertar a curiosidade de uma plateia. Coloque no cartaz a foto de Marion Cotillard e Louis Garrell (que nunca me convence, mas tem sua cota de admiradoras) e pronto, acredito que o filme receberia muito mais atenção nas poucas salas a que está destinado em nosso país. Mas, vamos lá... Um Instante de Amor é um filme de Nicole Garcia, atriz consagrada desde a década de 1960 e que desde os anos 1990 tem lançado obras como diretora com certa regularidade. O mais curioso é que seus filmes mais conhecidos como cineasta são obras em que consegue atuações marcantes de atrizes já consagradas, foi assim com Place Vendôme (1998) com Catherine Deneuve e com este Mal de Pierres estrelado por Cotillard. Trata-se de um drama romântico bem realizado e que, sem nos darmos conta, cria um mistério que só se revela no final. No entanto, a direção de Nicole é elegante o suficiente para evitar sensacionalismos e torna o desfecho convincente e até bonito (algo raro no gênero atualmente). O filme é sobre a jovem Gabrielle (Marion), que vive no interior da França na década de 1950 e sofre com a repressão dos seus pais. Na verdade, Gabrielle transborda desejo sexual por um romance que deve existir somente em seu imaginário - e a sociedade provinciana ao seu redor não ajuda muito. Depois dela se apaixonar por um homem casado, seus pais ficam preocupados e a acabam arranjando seu casamento com um homem rústico da região, José  (Alex Brendemühl). José é bastante diferente do tipo que Gabrielle se interessa, mas o relacionamento entre os dois se desenvolve de forma interessante. Entre acordos e fantasias o casamento de ambos sobrevive, até que as constantes dores de Gabrielle a leva até uma casa de tratamento e ela conhece o militar André Sauvage (Louis Garrell) e a sintonia entre os dois é inevitável. Impossível durante o filme não pensar sobre relação entre o amor real e o ideal, o desejo e a repressão, o concreto e o devaneio entre outros pontos que não vou mencionar para não estragar. O fato é que Nicole  Garcia realiza um belo filme com doses cavalares de sensualidade sem ser vulgar. Os ângulos escolhidos, as paisagens, a luz utilizada na fotografia compõem um todo bastante harmônico e coerente, além de contar com ótimas atuações (especialmente de Marion e o resiliente Alex, ambos em uma sintonia impressionante). Vi o filme sem esperar muito dele e realmente me surpreendeu, talvez seja por conta do olhar extremamente feminino que a diretora lançou sobre a história que nos faz entender os sentimentos mais conflitantes de Gabrielle se distanciando do mero capricho.  Não por acaso o filme foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e concorreu a oito prêmios no César deste ano (incluindo filme, direção, atriz e roteiro).  Quem gosta de romance irá apreciar bastante o resultado. 

Um Instante de Amor (Mal de Pierres / França-Bélgica-Canadá / 2016) de Nicole Garcia com Marion Cotillard, Alex Brendemühl, Louis Garrell e Brigitte Roüan ☻☻☻☻

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

4EVER: Luiz Melodia

07 de janeiro de 1951 ✰  04 de julho de 2017

Luiz Carlos dos Santos herdou o nome do pai, o sambista e compositor Oswaldo Melodia com muita honra. Luiz cresceu no Morro de São Carlos no bairro do Estácio no Rio de Janeiro e, contrariando a vontade do pai (que queria um filho "doutor"), Luiz tornou-se um dos nomes mais queridos de nossa MPB com um estilo inconfundível. Compositor, cantor e ator, lançou seu primeiro álbum em 1973 e tornou-se famoso em todo o Brasil com a música "Ébano". Logo suas canções estavam nas vozes mais apreciadas de nossa música. Canções como "Estácio, Holly Estácio", "Juventude Transviada", "Vale Quanto Pesa" e "Fadas" estão entre algumas pérolas do artista que se tornou um dos maiores poetas de nossa música. Em 2005, Luiz Melodia realizou um sonho antigo: trabalhar como ator - e o fez em grande estilo no filme "Casa de Areia" de Andrew Waddington, onde interpretava o esposo de Fernanda Montenegro. O artista faleceu na madrugada de hoje em decorrência do agravamento de um mieloma duplo, raro tipo de câncer na medula óssea.