Colin, Renée e Hugh: O triângulo de "O Diário de Bridget Jones".
Só recentemente eu assisti
O Bebê de Bridget Jones/2016 e não resisti em fazer uma retrospectiva de um dos raros casos em que uma comédia romântica gera uma trilogia de fãs fiéis. Confesso que li "
O Diário de Bridget Jones" de Helen Fielding para espairecer enquanto estava na faculdade e dei boas gargalhadas com as desventuras da inglesa acima do peso, cheia de inseguranças que dividia seu humilde coração entre um advogado bem conceituado chamado Mark Darcy (e o nome em comum com o personagem de
Orgulho e Preconceito não é mera coincidência) e um canastrão irresistível chamado Daniel Cleaver. O livro vendeu feito água e uma versão para o cinema era algo quase obrigatório. Assim que começaram os primeiros rumores sobre as filmagens vieram os testes para protagonista e, surpreendentemente, a texana Renée Zellweger desbancou inglesas consagradas como Kate Winslet e Helena Bonhan-Carter que estavam no páreo. Naquela época Renée começava a chamar atenção em Hollywood, fizera um belo trabalho ao lado de Tom Cruise (
Jerry Maguire/1996) e de Meryl Streep (
Um Amor Verdadeiro/1998) - e o Globo de Ouro de atriz de comédia pelo ácido
Enfermeira Betty/2000 estava fresquinho quando foi eleita para ser a cultuada Bridget. Renée teve que ganhar peso, ensaiar o sotaque britânico e todo o resto parece que aconteceu naturalmente, já que a atriz tinha o
timing cômico
perfeito para a personagem. Dirigido por Sharon Maguire, a atriz tirou de letra a personagem ao lado de Colin Firth (Darcy) e Hugh Grant (um Cleaver mais envolvente que no livro). O filme fez enorme sucesso ao apresentar uma protagonista fora dos padrões (afinal, a balança era sempre um problema) e com piadinhas que brincavam com eterno duelo entre ficar com o cara certo e ser tentada pelo cara errado. A obsessão por calorias, as inseguranças e trapalhadas estavam todas lá, a única coisa que perdeu espaço no filme foram os amigos de Bridget, Tom (James Callis), Jude (Shirley Henderson) e Sharon (Sally Phillips) apareciam pouco, já que o roteiro preferiu explorar mais a relação da personagem com sua família (formada por Jim Broadbent como pai e Gemma Jones na pele da mãe) e seus pretendentes. Só que pouca gente se importou, já que o filme foi indicado ao Globo de Ouro de melhor Comédia e Renée lembrada na categoria de melhor atriz cômica e até o Oscar considerou sua performance uma das cindo melhores daquele ano. Com tanto sucesso e irresistível simpatia, ver o segundo livro da personagem ganhar as telas era questão de tempo.

No Limite da Razão: "Like a Virgin" das detentas.
Lá estava Renée Zellwegger ganhando peso novamente para viver a personagem depois do Oscar de coadjuvante pelo drama
Cold Mountain (2003). Ainda que a atriz estivesse no auge, se as inseguranças de Bridget já te cansavam no primeiro livro era melhor ficar bem longe do segundo - já que ele evitava mostrar grandes transformações na personagem e a mantinha na mesma vivendo novas trapalhadas e ainda enrolada em seu relacionamento com Darcy (e a incompatibilidade entre os dois era cada vez mais visível). Ela insegura, ele típico britânico certinho com dificuldade de expressar seus sentimentos. Sorte que quando a versão de
Bridget Jones: No Limite da Razão chegou às telas, os produtores souberam melhorar a trama do livro, mantendo as partes mais divertidas e retirando boa parte de tudo que começava a ficar cansativo na personagem. Eles tiveram o bom senso de colocar a crise profissional da personagem no passado, lhe dando mais estabilidade (ainda que alguns micos perdurassem como uma maldição), mas mantinham o triângulo amoroso entre a ela Darcy e Cleaver. Era uma versão 2.0 do que vimos no filme anterior, com a diferença que depois de um tempo juntos, Darcy e Jones começam a duvidar que foram feitos um para o outro - mas depois do que acontece na famigerada viagem à Tailândia, Bridget começa a suspeitar que Cleaver também não merece muita atenção. Entre crises de ciúme, uma temporada no presídio (com direito à cantar
Like a Virgin junto com as detentas) e um banho de chuva o filme fez menos sucesso que o anterior, testou a devoção dos fãs e rendeu para Renée mais uma indicação ao Globo de Ouro. Quatorze anos depois do segundo livro a escritora Helen Fielding lançou
Bridget Jones: Louca pelo Garoto, onde a personagem aparecia com 50 anos e viúva com dois filhos para criar. Parece deprimente demais? Parece que os produtores acharam o mesmo e resolveram colocar o livro de lado e inventar uma outra história para o terceiro filme: Bridget seria mãe. O roteiro teve tantas versões rejeitadas por Hugh Grant que ele todos acharam melhor ele pular fora do projeto, dando sinal verde para o estúdio fazer o que bem entendesse. Só que agora, Colin Firth tinha seu Oscar de Melhor Ator (por
O Discurso do Rei/2010) e Renée Zellwegger andava sumida depois das plásticas que mudaram seu rosto para sempre. Resgatar a personagem era a chance de sair do limbo após seis anos sem filmar. O Bebê de Bridget Jones chegou às telas em 2016 e serviu para os fãs matarem a saudade da personagem.

O Bebê de Bridget Jones: sai Cleaver e entra Dr. Shepherd.
Doze anos separam o segundo filme do terceiro e de lá para cá, não foi só o rosto de Renée que mudou. Com um mundo mergulhado em novas tecnologias e discursos de empoderamento feminino, fica visível que a produção passou por uma repaginada para dialogar com um novo tempo. Sendo assim, até a trilha sonora se rende à Ed Sheeran, festivais de música, aplicativos, passeatas e manifestações. A Europa não é mais a mesma e até a mãe de Bridget agora engrena numa carreira política precisando mudar o discurso conservador. No entanto, essas alterações não são muito mais do que um verniz bem sutil diante da história, já que a personagem continua presa ao seu amor por Darcy e, com a morte de Cleaver, agora ela... tem outro pretendente! A diferença é que sai um calhorda e entra um personagem masculino adorável vivido por Patrick Dempsey (um dos galãs favoritos das mulheres maduras após ser o médico galã da série Grey's Anatomy). Ele vive um sujeito que criou um algoritmo capaz de encontrar o par perfeito de qualquer pessoa (e ficou milionário com isso). Eis que é deste triângulo que Bridget fica grávida e não sabe se é de Darcy ou Dempsey, ou melhor, Jack. Cria-se um imbróglio que nem o roteiro sabe lidar muito bem, mas que tenta colocar Bridget em um novo dilema: continuar investindo num relacionamento que não funcionou no passado ou tentar algo novo com um sujeito que pode lhe fazer feliz. Pelo menos desta vez a personagem não está obcecada em perder peso, está levemente mais segura e torna-se até interessante ver Renée voltando às telas envelhecida após tanto tempo. Ainda que algumas intervenções estéticas se mostrem problemáticas no rosto da atriz, ela ainda tem carisma e sintonia com uma personagem que conquistou milhões de fãs pelo mundo e sua atuação livre de botox também tem um frescor muito bem vindo. Porém, eu gostaria o filme houvesse investido em uma trama mais simples e fizesse a personagem lidar com seu amadurecimento e não com o enorme clichê de não saber quem é o pai do próprio filho. Talvez se houver um quarto filme (o que eu acho bem difícil), a personagem possa manter o bom humor e ser levada a sério ao mesmo tempo.
O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary/ EUA - Reino Unido - França - Irlanda / 2001) de Sharon Maguire com Renée Zellwegger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent, Gemma Jones e Shirley Henderson. ☻☻☻☻
Bridget Jones no Limite da Razão (Bridget Jones: the Edge of Reason/ EUA - Reino Unido - França - Irlanda / 2004) de Beeban Kidron com Renée Zellwegger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent, Gemma Jones, Neil Pearson e Patrick Baladi. ☻☻☻
O Bebê de Bridget Jones (Bridget Jones's Baby/ Irlanda - Reino Unido - França EUA / 2016) de Sharon Maguire com Renée Zellwegger, Colin Firth, Patrick Dempsey, Jim Broadbent, Gemma Jones, Sarah Solemani e Agni Scott. ☻☻☻