domingo, 12 de novembro de 2017

§8^) Fac Simile: Taika Waititi

Taika David Waititi
Taika Waititi é o diretor neozelandês mais falado dos últimos tempos. Com pai maori e mãe russa, o ator, diretor, produtor e roteirista foi indicado ao Oscar melhor curta-metragem em 2004 com One Car, One Night e ganhou o mundo com a comédia O Que Fazemos nas Sombras (2014). Depois de ver seus filmes entre os mais falados em sua terra natal e conquistar uma vaga entre os votantes do Oscar no ano passado, Taika ganhou um ponto de mutação em sua carreira ao aceitar dirigir Thor: Ragnarok (2017), que já se tornou a maior bilheteria de uma aventura solo do Deus do Trovão. Entre as entrevistas de divulgação do filme, nosso repórter imaginário conseguiu esta entrevista (que nunca aconteceu) com o cineasta. 

§8^) De onde a Marvel tirou a ideia de você dirigir um filme de super herói?

Taika Eu não faço a mínima ideia! Este povo é completamente maluco! Que tipo de pessoa colocaria um sujeito feito eu para dirigir um apocalipse tendo deuses como protagonistas? Vai entender o que se passa na cabeça dessa gente!

§8^) Não acha que eles ficaram animados com o resultado de "O Que Fazemos nas Sombras"?

Taika Pode ser... mas O que fazemos nas sombras era um documentário sobre vampiros europeus que se escondiam na Nova Zelândia! Quando eles me ligaram eu pensei que eles queriam refilmar Blade – O Caçador de Vampiros com Eddie Murphy no papel principal... #sqn! De repente eles disseram que era sobre Thor Ragnarok, que era o fim de Asgard, com a deusa da morte, muitas mortes e tragédias... eu apenas disse: ‘tem certeza que vocês ligaram para o cara certo? Eu faço comédias de baixo orçamento’ e eles disseram ‘por isso mesmo’. Eu continuei sem entender coisa alguma. 

§8^) Mas você fez um belo trabalho! Muitos consideram o melhor filme de Thor nos cinemas! É colorido, animado e tem aquele clima irresistível de Matinê! Ao ver o filme tive a impressão de que você estava brincando com suas action figures favoritas...

Taika Muito obrigado. Talvez a ideia fosse esta mesmo! Uma criança que tinha seus poucos bonequinhos e ganhou milhões para gastar numa grande brincadeira, sorte que ela é criativa o suficiente para sustentar o interesse de várias pessoas ao redor do mundo. Gostei deste papo de action figures... usarei esta analogia nas próximas entrevistas!

§8^) E qual seria sua action figure favorita do filme?

Taika A Hela! Dá para imaginar você ter a Cate Blanchett, com aqueles galhos pontudos na cabeça, disposta a destruir um mundo inteiro? Uau! É realmente de arrepiar! Mas eu gosto muito do cara de pedra, o Korg - tanto que eu mesmo o interpreto no filme! Ah, gosto muito do Loki também. O Thor eu passei a gostar mais depois que ele cortou o cabelo, se bem que foi aquela cabeleira que me inspirou a usar muito Led Zeppelin na trilha. Eu olhei aquilo e pensei: “Robert Plant! Imigrant Song! Vai ser irado!”, as pessoas pensam que era por conta da música que fala de deuses e tal... mas eu escolhi pelo título mesmo! Eu sou neozelandês, Cat e Chrissy australianos, Tony e Dri são ingleses... pura geografia!

§8^) E os boatos de que você gostaria de dirigir um filme da Viúva Negra?

Taika Sim! Eu adoraria! Tenho ideias muito legais para o filme, mas terei que convencer muita gente de que poderia fazer funcionar. O que é muito engraçado já que eles me convenceram de que eu seria capaz de fazer Ragnarok e eu agora quero convencê-los a fazer um filme de espiões! Seria algo como os filmes de James Bond de antigamente, que eram bem mais divertidos que os atuais... e com a vantagem da protagonista ser a Bondgirl! Não tem como dar errado!

Taika e seu fã clube

Na Tela: Thor - Ragnarok

Hemsworth: densidade para quê?

Muita gente deve ter ficado assustada quando a Marvel anunciou que o neozelandês Taika Waititi (diretor do hilário O Que Fazemos nas Sombras/2016) fora escolhido para capitanear a terceira aventura do Deus do Trovão nos cinemas. Quem é mais ligado em HQ tremeu ao recordar que a trama de Ragnarok nos quadrinhos é bastante sombria por se do fim do mundo, ou melhor, de Asgard. Se a primeira aventura de Thor foi criticada pelo tom solene (que eu adoro), quase shakespeariano (cortesia do diretor Kenneth Branagh) e o baixo apelo do filme gerou o confuso Thor: O Mundo Sombrio/2013, mas o resultado foi pior que o esperado. Ali a Marvel já pensava em investir em gêneros diferentes para seus filmes, o que foi consolidado com os bem-humorados Guardiões da Galáxia (2014) como aventura de Ficção Científica e Homem-Formiga (2015). No fim das contas, o humor foi a saída para Thor e sua turma, já que ao escalar Waititi, a Marvel não teve pudores de fazer sua comédia rasgada de herói – o que chega a ser uma ousadia, já que os fãs da editora já começaram a se manifestar com as piadinhas recorrentes do universo cinematográfico da editora. No entanto, diante do sucesso de Thor Ragnarok, parece que o Deus do Trovão finalmente encontrou o seu caminho da salvação nas bilheterias. É verdade que o filme funciona, é divertido, despretensioso , mas tem como maior desafio não cair no pastiche de um herói já trabalhado em quatro filmes anteriores, neste ponto, Chris Hemsworth demonstra estar totalmente a vontade para trabalhar o personagem com mais humor. Penso que o mais difícil seria um diretor construir uma atmosfera apropriada para isso com um apocalipse iminente, mortes a todo instante, um personagem que é derretido vivo e outro que perde o olho. A sorte é que Waititi dá conta do recado com seu visual colorido, as piadinhas de matinê, uma vilã deliciosa e Led Zeppelin de trilha sonora. O resultado pode não ser genial, mas consegue ser, ao menos, equilibrado. Para começar a resolução do gancho deixado em O Mundo Sombrio não empolga e é resolvida logo no segundo ato do filme (que também é o mais aborrecido - deixando claro que eles não faziam a mínima ideia do que fazer ao terminarem a segunda aventura). Logo depois começa o que interessa com a chegada de Hela, a primogênita de Odin (Anthony Hopkins) que retorna de seu exílio forçado para dominar Asgard – nem que para isso tenha que eliminar boa parte da população. Responsável por dar vida à Hela, Cate Blanchett está visivelmente se divertindo bastante com a personagem (só espero que ela tenha chance de voltar em outros filmes e aproveitar ainda mais todo o potencial da Deusa da Morte). Diante dela, até o charme de Loki (o ótimo Tom Hiddleston, insolente como sempre) parece menor – mesmo porque o roteiro insiste em repetir a rotina de atos do personagem como um círculo vicioso. Ao lado desta pendenga familiar (que era o grande ponto do primeiro filme), o roteiro amplia generosamente o universo dos personagens, os tratando menos como deuses e mais como alienígenas num cosmo marvelesco em expansão. Há muito do visual e do humor de Guardiões da Galáxia no filme, especialmente quando está em cena o Grandmaster (Jeff Goldblum em mais um icônico personagem) em seu passatempo de criar lutas para o entretenimento do seu povo que vive num planeta lixão - que cultua Hulk (Mark Ruffalo), em analogia ao clássico Planeta Hulk – e acolhe a misteriosa Valkyria (Tessa Thompson). Enfim, com todas as suas camadas e personagens, Thor: Ragnarok é a brincadeira dos sonhos de Taika Waititi com suas action figures de infância. A sorte é que ele nos convidou para assistir seu devaneio bastante criativo. 

Blanchett: a irmã malvada!

Thor: Ragnarok (EUA-2017) de Taika Waititi com Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Mark Ruffalo, Tessa Thompson, Jeff Goldblum, Idris Elba, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch e Matt Damon. ☻☻☻

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

4EVER: Márcia Cabrita

20 de janeiro de 1964 ✰ 10 de novembro de 2017

Filha de imigrantes portugueses, Márcia Martins Alves nasceu na cidade Niterói (RJ) e incorporou o nome de Márcia Cabrita na carreira de atriz. Embora tenha estreado na televisão na minissérie Noivas de Copacabana em 1992, Márcia ficou famosa foi no teatro com o espetáculo Subversões, onde ao lado dos amigos Luís Salém e Aloísio de Abreu provocava risadas transformando O Amor e o Poder de Rosana em "Meu Nome é Creuza" e Para Todos de Chico Buarque em "Barra Todos" em deliciosas paródias que fizeram história no humor nacional. Cabrita também será lembrada como a empregada Neide do humorístico Sai de Baixo, que se firmou como seu maior sucesso na televisão. Entre peças, séries e novelas, Márcia também apareceu poucas vezes nas telonas, com apenas cinco filmes no currículo fez sucesso com Trair e Coçar é Só Começar (2006) e O Diário de Tati (2012). A atriz faleceu em consequência de um câncer no ovário. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

10+: Holly Hunter

#10 "Crash - Estranhos Prazeres" (1996) de David Cronenberg
Holly Hunter nunca esteve muito interessada em fazer personagens convencionais, prova disso é que depois de ter um Oscar na estante ela escolheu a proposta de trabalho mais estanha possível: uma mulher que tem fetiche por pessoas marcadas por acidentes de carro. 

Aqui ela é um  anjo da guarda hardcore, afinal é o primeiro filme americano do diretor de Trainspotting. Em dupla com Delroy Lindo ela confundiu muitos espectadores que acharam que os dois eram assassinos profissionais na trama (e na concepção original a ideia era esta mesmo). 

#08 "E aí, Meu Irmão, Cadê Você?" (2000) de Joel e Ethan Coen
Quem seria melhor para viver Penélope na transposição de A Odisseia para o sul americano? Holly Hunter, claro! Obviamente que sua Penélope, ou melhor, Penny, não ficou o tempo todo costurando esperando o marido, mas preparando cada fala que ele iria ouvir... e ele ouviria muito... muito...

#07 "A Firma" (1993) de Sydney Pollack
Ah, os anos 1990! Naquela época os livros de John Grisham eram disputados pelos estúdios a peso de ouro! Neste aqui, protagonizado por Tom Cruise, a atriz viveu a secretária esperta (e cafona) que serve de alívio cômico para a história -  e foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante. 

O filho de Gabriel Garcia Marquez estreou como cineasta juntando um grupo de ótimas atrizes em tramas paralelas que se cruzam. Holly Hunter foi responsável por encarnar Rebecca, uma mulher solitária em dúvida sobre o que fazer com uma gravidez indesejada. 

#05 "Aos Treze" (2003) de Catherine Hardwicke 
Indicada ao Oscar de coadjuvante mais uma vez, a atriz interpreta a mãe de uma adolescente que enfrenta problemas com sexo, drogas e crimes ao lado de uma problemática melhor amiga. O filme marcou a estreia de Evan Rachel Wood no cinema e se tornou um polêmico sucesso nos cinemas. 

#04 "Nos Bastidores da Notícia" (1987) de James L. Brooks
Há quem considere que este filme envelheceu mal com o passar do tempo, mas eu continuo rindo sempre que revejo o olhar ácido sobre os telejornais americanos - com um triângulo amoroso no meio. Holly é a ponta do tal triângulo e você nunca irá esquecer a "terapia do choro" da personagem (que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz).  

O fato é que Holly Hunter tem uma das vozes mais marcantes do cinema e basta fechar os olhos para saber que a Srª Incrível, ou Mulher Elástica, é responsável por uma das melhores interpretações da atriz. O filme irá render a primeira continuação da carreira dela. 

#02 "Arizona Nunca Mais" (1987) de Joel e Ethan Coen
Contando a história de uma policial e um bandido que se apaixonam na delegacia você até imagina o que pode acontecer: eles irão roubar um bebê. Esta talvez seja a comédia mais emblemática da carreira dos irmãos Coen - e Holly está saborosamente cômica como a policial Edwina. 

O filme de Jane Campion é motivo para que a atriz seja constantemente lembrada entre as melhores atuações da história do cinema. Sua performance como Ada, mulher que parte para os cafundós da Nova Zelândia para se casar contra sua vontade é de uma beleza ímpar - e ainda tem aquela cena que fica na sua memória para o resto da vida que lhe rendeu o Oscar daquele ano. 

PL►Y: Tempo Estranho

Holly: construindo a verdade que dói. 

Darcy Baylor é uma assistente administrativa do estado da Georgia. Aos cinquenta e poucos anos ela tenta não perder o emprego e suportar a intensa onda de calor da região (além de cuidar de seu jardim em meio às restrições no uso de água). Darcy também se considera um "espírito livre", tendo dificuldades para lidar com romances e ainda carrega a tristeza da morte prematura do filho. Embora tente demonstrar que já superou a morte do rapaz, tudo cai por terra quando ela descobre que um amigo do filho está fazendo uma verdadeira fortuna com venda de hot-dogs com uma ideia que era inicialmente do falecido. Baylor decide então ir ao encontro do tal amigo traíra e fazer justiça à memória do filho, mas no meio do caminho irá descobrir mais do que desejava sobre o seu menino de ouro. Tempo Estranho está longe de ser uma obra-prima, na verdade, ele mal chega a ser original, mas tem alguns pontos positivos. Um deles é sua ambientação no calor sulista dos Estados Unidos, com muito suor e pouca água, num ambiente bastante interessante para as mágoas e segredos de seus personagens. Outro ponto positivo é a presença de atrizes realmente comprometidas com o trabalho, a começar por Holly Hunter, que raras vezes pode estar tão à vontade com seu sotaque sulista (da própria Georgia). Hunter explora as camadas de Darcy com um destemor notável, partindo de tudo o que a personagem tem de exagerado para revelar toda a dor que se esconde abaixo deste disfarce superficial, a personagem se enriquece aos poucos ao descobrir que o filho era uma pessoa bem diferente do que ela imaginava, ou talvez, pelo caminho, apenas aceite  o que antes se recusava a enxergar - e esta é a parte mais interessante da história. Neste ponto, até o físico da atriz casa perfeitamente com a personagem, conjugando força e fragilidade em cada cena. Outro destaque do elenco é Carrie Coon, que já está entre as atrizes mais interessantes da atualidade, Carrie está segura em cena e nada intimidada de encarnar a voz da consciência da protagonista. São as duas que compensam algumas irregularidades na condução da diretora Catherine Dieckman, que sobrecarrega o filme de algumas ideias que simplesmente não seguem em frente. Dieckman ficou famosa fazendo clipes da banda R.E.M. (ela dirigiu "Stand" e "Shiny Happy People") e depois de trabalhos na TV chega ao seu quarto filme na direção amparada por bons atores que fazem um roteiro esquemático ser até interessante. 

Tempo Estranho (Strange Weather/EUA-2016) de Catherine Dieckman com  Holly Hunter, Carrie Coon, Kim Coates, Walker Babington, Turner Crumbley e Shane Jacobsen. ☻☻☻

domingo, 5 de novembro de 2017

PL►Y: Chet Baker - A Lenda do Jazz

Hawke: melhor atuação de seu currículo. 

Alguns críticos perceberam chances de Ethan Hawke ser lembrado nas premiações pela atuação neste longa metragem do canadense Robert Budreau. Quando Born to be Blue começou a ser exibido em festivais, foi ressaltada a forma peculiar de contar um pouco da história do jazzista Chet Baker, os elogios logo começaram a aparecer, mas o filme acabou esquecido pelos distribuidores e restrito ao lançamento discreto em poucas salas nos Estados Unidos. Inédito nos cinemas brasileiros, agora podemos assistir via streaming este belo trabalho de Hawke, que está em um dos seus melhores momentos como o músico de vida cheia de tropeços. O roteiro do próprio cineasta recria uma retomada na carreira  do lendário instrumentista em meados dos anos 1960, onde já enfrentava problemas com a polícia e com o vício em drogas pesadas. A trama conta a tentativa de se fazer um filme sobre a vida de Baker estrelado pelo próprio, as cenas em preto e branco correspondem a esta dramatização e as coloridas são os bastidores da vida real - em que  Chat começa a se envolver com sua co-estrela (Carmen Ejogo) - que lembra muito sua ex-mulher, Carol Baker. O filme é narrado entre  a ficção e a realidade numa bela tentativa de fazer uma biografia fora da cartilha do gênero e funciona! O relacionamento amoroso do filme está lá realmente para mostrar um lado diferente do biografado, que além do vício em drogas enfrentou problemas com a dentição desde pequeno e, no decorrer da vida, teve que se acostumar com uma prótese que lhe provocava dores e sangramentos quando tocava - ao ponto dos médicos considerarem que jamais seria capaz de tocar novamente. Além de enfrentar problemas pela reputação, morar numa kombi com a amada e ter que provar que seria capaz de dar a volta por cima, o filme aborda ainda o relacionamento do músico com os pais, com a música e apetite sexual sem sensacionalismos, mas dificilmente tudo funcionaria se Ethan Hawke não estivesse ótimo em cena! Ele capta o modo do personagem falar, andar e tocar, fazendo com que as belas músicas que costurem a narrativa de maneira exemplar (destaque para a maravilhosa My Sweet Valentine que rende um dos momentos mais emocionais do filme) e acentua ainda mais a melancolia da trajetória deste gênio da música. Sempre achei Hawke um ator mediano, mas de uns tempos para cá, ele demonstra que a maturidade (está com 47 anos) lhe fez muito bem. Há de se destacar ainda que Carmen Ejogo mostra-se mais uma vez uma atriz que merece toda a nossa atenção e até o pouco lembrado Callum Keith Rennie está muito bem como o empresário amigo do protagonista. O título Chet Baker - A Lenda do Jazz pode se tornar uma armadilha para alguns, já que o tom grandiloquente tem pouco a ver com o tom intimista do filme, que está bem mais próximo do original Born to be Blue (Nascido para ser Triste). Se você quer conhecer mais sobre a vida do músico, vale procurar o documentário Let's Get Lost (1988) que foi indicado ao Oscar pelo belo trabalho de entrevistas com familiares e amigos do trompetista. 

Chet Baker - A Lenda do Jazz (Born to Be Blue / Canadá, Reino Unido - 2016) de Robert Budreau com Ethan Hawke, Carmen Ejogo, Callum Keith Rennie e Kevin Hanchard. ☻☻☻☻

.Doc: Spielberg

Spielberg: a construção de um mito. 

Lá pela metade do documentário sobre o diretor Steven Spielberg alguém diz que ele revolucionou o cinema. Os mais críticos vão achar que é puro puxa-saquismo, mas a afirmação está longe de ser um engano. Quando Spielberg fez de Tubarão (1975) um sucesso, depois da conturbada, com orçamento ultrapassado, cronograma estourado e todo tipo de dificuldade que filmar no mar possa gerar, nascia ali uma forma diferente de pensar, fazer e lançar um filme. Depois de Tubarão o verão americano nunca mais foi o mesmo, assim como os filmes de entretenimento. Foi com o trabalho de Steven Spielberg que a expressão arrasa-quarteirão (ou blockbuster) ganhou sentido,  assim como o avanço de efeitos especiais para garantir o espetáculo na tela grande. É verdade que ao abrir esta porta a percepção do cinema para o público também foi alterado para sempre, assim como para os produtores que criaram uma nova fórmula para gastar e gerar lucro. Por todo o impacto provocado pela sua forma de fazer cinema, torna-se mais do que compreensível que exista um documentário sobre este diretor, produtor e roteirista. Nascido em 1946 no estado de Ohio (EUA), Steven Allan Spielberg é o foco deste trabalho da produtora Susan Lacy, que conta com com entrevistas do diretor, familiares (curiosamente a esposa Kate Capshaw ficou de fora), amigos e colegas de trabalho que são pistas sobre a identidade de um verdadeiro workaholic que não para de trabalhar! O filme ainda se beneficia bastante do uso de imagens dos filmes do diretor, que se tornam o grande destaque do documentário , que vão das ambições do menino que fazia filmes na infância antes de crescer e fazer trabalhos para a TV, foi com seu primeiro longa na telinha, Encurralado (1971), que lhe obteve prestígio suficiente para migrar para o cinema. O filme não mostra como é curioso que, aos poucos, o diretor encontrou a necessidade de fazer filmes sérios, surpreendendo a grande maioria de seus fãs. Foi assim que surgiram o excelente A Cor Púrpura (1985), o fracasso Império do Sol (1987) - que revelou Christian Bale - e o esquecido Além da Eternidade (1989) que nem é mencionado neste documentário - esta é outra curiosidade desta homenagem da HBO, já que outros filmes problemáticos do diretor passam batido (como O Mundo Perdido/1997 e O Terminal/2004, enquanto Hook - A Volta do Capitão Gancho/1991 e As Aventuras de Tintin/2011 aparecem em poucos segundos, mas... quem liga?). Quem curte cinema vai delirar com a parte em que se aborda a amizade entre Spielberg, Scorsese, Coppola, George Lucas e DePalma, um grupo de cineastas amigos que ajudou a dar uma nova cara ao cinema americano nos anos 1970. O filme é bem mais discreto quando o assunto é a vida pessoal do diretor, no entanto, ainda é capaz de  vermos de onde nasce as motivações para o retrato da família americana em seus filmes, além de sua dificuldade em se posicionar quando aborda temas polêmicos em seus filmes - Munique (2005) é o melhor exemplo destacado no filme, talvez Spielberg ainda não tenha superado sua necessidade de agradar a todo mundo (o que é previsivelmente impossível). Ao final do documentário temos uma dimensão dos motivos que fizeram Spielberg se tornar um diretor que deu ao entretenimento o nível de arte, traçando um patamar para tantos outros diretores que surgiram após seus primeiros trabalhos. 

Spielberg (EUA-2017) de Susan Lacy com Steven Spielberg, Martin Scorsese, Brian DePalma, George Lucas, Leonardo DiCaprio, JJ Abrams e  Richard Dreyfuss. ☻☻☻

sábado, 4 de novembro de 2017

APOSTAS PARA O OSCAR 2018-CAPÍTULO II

"Trama Fantasma" de Paul Tomas Anderson
Ameaçar a aposentadoria de Daniel Dey Lewis pode até ser estratégia de marketing, mas  funciona que é uma beleza! Tão logo começou a se falar a aposentadoria de um dos poucos atores a ganhar três estatuetas do Oscar, o novo filme de PT Anderson chamou atenção da mídia por ser "o último" da carreira do ator. No filme ele vive um estilista que se apaixona por uma jovem modelo numa trama cheia de conflitos. No elenco ainda está a ótima atriz inglesa Lesley Manville. 

"The Killing of a Sacred Deer" de Yorgos Lanthimos
Ainda que seja um diretor grego e de estilo amargo, os dois últimos trabalhos de Lanthimos foram indicados ao Oscar - e diante dos elogios que este vem recebendo, não será diferente. Desta vez ele aborda a história de um renomado cirurgião que possui uma estranha relação com o filho de um ex-paciente. Ele nem imagina que a proximidade com o rapaz irá destruir sua família. No elenco estão Colin Farrell, Nicole Kidman, Alicia Silvertone e Barry Keoghan, todos elogiadíssimos.

"Stronger" de David Gordon Green
Depois de tanto tempo sendo esnobado pela Academia em bons papéis, parece que Jake Gyllenhaal encontrou o roteiro certo para ser indicado pela primeira vez ao Oscar de melhor ator! Neste drama baseado em fatos reais, Jake vive Jeff Bauman, um homem comum que se tornou símbolo de sobrevivência ao ser uma das vítimas do atentado em Boston em 2013. No elenco ainda estão Miranda Richardson e Tatiana Maslany entrando pela porta da frente em Hollywood. 

"Lady Bird" de Greta Gerwig
A elogiadíssima estreia da atriz Greta Gerwig mistura episódios de sua vida pessoal, piadas inspiradas em Woody Allen, o estilo do namorado Noah Baumbach e um toque bastante esperto. A trama é sobre  Christine McPherson, jovem de gosto incomum que se aventura a viver um ano no norte da Califórnia enquanto se divide num triângulo amoroso e o curso de teatro. O filme deve ser um dos indies a aparecer no Oscar e deve valer outra indicação (a terceira) para Saoirse Ronan. 

A Guerra dos Sexos  de Jonathan Dayton & Valerie Faris
Olha ela aí de novo! Emma Watson escapa da maldição do Oscar ao viver o mito Billie Jean King,  tenista que em 1973 era a número um do mundo e participou de uma partida ao lado do ex-campeão e canastrão Bobby Riggs (Steve Carrell). O roteiro explora as discussões em torno da partida utilizando o bom humor para abordar assuntos bastante sérios sobre a eterna guerra do título. Já em cartaz no Brasil, o filme recebeu muita atenção nos EUA e deve aparecer em algumas categorias do Oscar.  

Breve: A Ghost Story

Rooney e Casey: casal intimista outra vez. 

Bastou A Ghost Story ser exibido em Sundance para se tornar num filme cult instantâneo. O motivo para isso você logo descobre ao assistir, já que o diretor David Lowery fugiu de todas as regras dos romances sobrenaturais a que estamos acostumados. Algo como, mais ou menos, um sujeito pegando o roteiro de Ghost - Do Outro Lado da Vida (este mesmo, o clássico de 1990) retirasse o vilão, a Whoopi Goldberg, a música tema e deixasse somente a essência do filme: um homem que morreu cedo demais e tenta se comunicar com sua amada viva. No entanto, ainda existe a diferença de levar a história para outros campos, tornando-o mais melancólico e cores distintas de originalidade ao não utilizar palavras para que seu fantasma transmita toda a angústia de sua existência fantasmagórica. Lowery cumpre sua tarefa com bastante estilo, não hesitando de colocar o protagonista "oscarizado" coberto por um lençol branco na mais tradicional concepção de um fantasma. Casey Affleck vive o protagonista que morre pouco depois de se mudar para uma casa com a namorada (Rooney Mara), mas, quando a luz aparece para ele no hospital, ele prefere continuar habitando a casa, a observando e percebendo como falta um pedaço naquele lar. Nesta parte o roteiro lida com o luto da namorada, onde tudo reflete a ausência dele e se uma cena parece desnecessária, logo depois o diretor mostra porque ela estava ali (preste atenção na trilha sonora composta por Daniel Hart que é um verdadeiro achado e merecia uma indicação ao Oscar pelo seu trabalho). O filme utiliza de forma inusitada a ideia de uma casa mal assombrada e aprofunda a tristeza de sua história ao mostrar que o rapaz não é o  único fantasma a vagar por aí esperando alguém. Outro destaque é o trabalho de edição, que monta a passagem do tempo com uma eficiência surpreendente entre segredos e detalhes. Não se trata de um filme para todos os gostos - muita gente vai achar a cena da torta longa demais (e é mesmo, apesar de ao ver a imagem de Rooney Mara você já imagina o que acontecerá no final), tem gente que dará risada no corte temporal que leva o fantasma ao passado, irá reclamar da mensagem secreta deixada pela namorada e por aí vai... mas  quem procura um filme diferente ficará bastante satisfeito com o romantismo inusitado que transborda do filme.

A Ghost Story (EUA-2017) de David Lowery com Casey Affleck, Rooney Mara, Sonia Acevedo, Barlow Jacobs e Kesha Sebert. ☻☻☻☻